Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















sexta-feira, 13 de julho de 2012

BARROQUISMOS VII (6)

 

7b220a

A IGREJA DO MOSTEIRO

Flor de pedra e de prece na colina,
lugar alto de paz e de silêncio,
onde a cidade pára de repente
e se ajoelha no chão de antigos túmulos.

Floresta de ouro a nave, onde as cigarras,
até juntar-se um dia ao pó do claustro,
misturam sete vezes suas vozes
à orquestração dos sinos e do órgão.

Caverna de Aladino que oferece
aos mais pobres que entrem seus tesouros,
mel correndo dos favos esculpidos.

Palpitam na penumbra asas de arcanjo,
bispos e reis na talha abrem seus braços,
e a Virgem, do seu trono, entrega o Filho...

Dom Marcos Barbosa (1915-1997)

Um percurso com algumas derivas pelo interior da igreja de S. Francisco

O que distingue a igreja de S. Francisco, tornando-a uma peça essencial do barroco portuense, é o conjunto de talha dourada no seu interior, valendo-lhe ser chamada desde o século XIX a igreja d’ ouro.

7b51António Carneiro 1872-1930 Interior da Igreja de São Francisco do Porto 1925 óleo s/ tela 71,5 x 53,5 cm. Museu Grão Vasco Viseu

O conde polaco Athanasius Raczynski (1788-1874), ministro do rei da Prússia na corte portuguesa entre 1842 e 1848, e apesar da sua preferência pelo gótico, própria da época do romantismo, não é insensível à beleza rococó da talha dourada de S. Francisco, escrevendo em 1846 :

“L’eglise de Saint-Francisco, qui a été fondée en 1325, a um portail gothique assez beau, mais dont toutes les parties ne paraissent pas appartenir à la même époque. Toujours des anachronismes. Elle est ornée intérieurement de sculptures en bois doré, d’une richesse et d’une beauté qui surpasse tout ce que j’ai vu dans ce genre en Porugal et apartout ailleurs. Ce genre de sculpture en bois s’apelle ici Talha. C’est du rococo. Le rococo n’est pas classique; mais je l’aime.” (in Les Arts en Portugal : lettres adressées a la Société artistique et Scientifique de Berlin, et accompagnées de documents / par le Comte A. Raczynski Paris : Jules Renouard, )

(“A igreja de São Francisco, que foi fundada em 1325, tem um portal gótico muito belo, mas cujas partes parecem não pertencer à mesma época. Está ornamentada no seu interior por esculturas em madeira dourada, com uma riqueza e uma beleza que ultrapassa tudo o que já vi neste género em Portugal e mesmo em qualquer lado. Este género de escultura em madeira chama-se aqui Talha. É rococó. O rococó não é clássico; Mas eu gosto.”)

Francisco Ferreira Barbosa no seu Elucidario do Viajante no Porto, publicado em Coimbra na Imprensa da Universidade em 1864, também refere a talha dourada na Egreja dos Frades Franciscanos:

“Denominada pelos estrangeiros – a de oiro – é um grande, sumptuoso e rico templo que attesta a magnificencia com que de ordinario as corporações monasticas faziam os seus templos. Situada esta egreja no largo de S. Francisco, e para a qual se entra, depois de se ter subido uma escadaria, apresenta o seu interior dividido em arcos de madeira com seu lavor, tudo dourado. Ao lado d’estes arcos, que vão ao longo da egreja, estão aos lados esquerdo e direito os altares, que por algum tempo prendem a attençao do visitante.”

E F.G.Fonseca no Guia Histórico do Viajante no Porto também de 1864, acrescenta:

“S. Francisco. — Egreja também vasta, e sum­ptuosa: está situada ria rua de S. Francisco, junto á Bolsa. Pertenceu aos religiosos observantes da or­dem d’onde o nome lhe vem, os quaes se haviam esta­belecido fora dos muros da cidade em 1233. Perto de dous séculos depois, D. João I, o defensor da indepen­dência portugueza, attendendo aos estragos que os de Castella haviam feito no antigo edifício, durante a ultima guerra, mandou que edificassem novo convento, o que fizeram no local em que hoje se vê, e para onde se muda­ram em 1404. A fabrica da egreja é grande e rica, e devida á magnificência do mesmo monarcha; divide-se em três naves que se fazem admiráveis pela muita en­talha em madeira, que as cobre, e que é toda dou­rada. Incendiado o convento, que então servia de aquartellamento militar, na noite de 24 de Julho de 1832, sobre as ruínas do antigo mosteiro construíram os commerciantes d'esta Praça o edifício da Bolsa, de que ao deante fallaremos. Depois de 1832, esteve este magnifico templo desamparado, até que mais tarde as suas paredes sagradas ouviram de novo os rogos dos fieis. Ao forasteiro que vier ao Porto recommendamos visite esta egreja.” (in Guia Histórico do Viajante no Porto G.F. Porto na Livraria e Typographia de F.G. da Fonseca Editor Rua do Bomjardim, 72 nas Livrarias da Viuva Moré, Porto e Coimbra e na de J.P. M. Lavado rua Augusta n.º 34 Lisboa )

Catharina Carlota, a Lady Jackson (1824–1891), no seu conhecido livro “Fair Lusitania" de 1873, traduzido como “A Formosa Lusitânia” por Camilo Castelo Branco e publicado em 1877, escreve: “A egreja que talvez o impressione como mais explendida, se aqui vier ao Porto, é a de S. Francisco, fundada em 1233, á qual frequentemente chamam “a egreja de ouro”. As esculpturas das columnas das naves d'este magestoso templo são primorosas, e todas sobredouradas. Isto, se não revela um supremo bom gosto, é espectaculosamente scintillante.” (in A Formosa Lusitânia por Catharina Carlota Lady Jackson, versão do inglez, prefaciada e annotada, Camillo Castello Branco, Porto Livraria Portuense Editora, 121-rua do Almada-123, 1877)

E R. Pinto Mattos, em 1880 escreve na sua Memoria Historica e Descriptiva da Ordem Terceira de S. Francisco no Porto:

“No estrangeiro, além da afamada torre dos Clérigos d’esta cidade, tem tambem nomeada a egreja de ouro do Porto; é a dos extinctos franciscanos, à qual os estrageiros, principalmente inglezes chama egreja de ouro, pela muita talha dourada que adorna e embelleza esta sumptuosa egreja gothica, acabada pellos annos de 1457.”

E mais adiante:

A Igreja deste Convento, he de três naves coberta d’alto abaixo de entalha novamente dourada, de sorte que toda ella parece hum dilatado monte d’ouro. Quanto á talha e altares existentes, são obra posterior á data da reedifieacão, em datas differentes, não remontando as ultimas obras n'ella a 1753 (in Memória Historica e Descriptiva da Ordem Terceira de S. Francisco no Porto com as Vidas dos Santos cujas imagens costuma ser conduzidas na sua Procissão de Cinza, ordenada por R. Pinto de Mattos, Porto, Typographia Occidental, 66 — Rua da Fabrica, 1880)

Albretch Haupt (1852-1932), no seu conhecido  A Arquitectura do Renascimento em Portugal. Do tempo de D. Manuel, o Venturoso, até ao fim do domínio espanhol. (Die Baukunst der Renaissance in Portugal…) de 1890 também refere a igreja de S. Francisco:

“A própria egreja gothica, da primitiva, por dentro é revestida de alto a baixo com lavor de talha polycroma e dourada, inclusive a mesma abobada, uma das mais sumptuosas peças em todo o mundo. Alguns altares, capellas e trechos decorativos devem ser mais antigos; a maior parte desta decoração, comtudo, corresponde aos princípios do seculo XVIII. (in  A Arquitectura da Renascença em Portugal, publicada em Serões. Revista mensal ilustrada, Lisboa, Livraria Ferreira, 1903 a 1909.)

nota 1 – Todos os sublinhados a negrito são meus.

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Apesar de realizada em períodos diferentes a talha dourada que cobre todo o interior da igreja gótica a ela se adaptando, constitui um conjunto coerente, seja do ponto de vista formal seja do ponto de vista franciscano e da sua iconografia. Por isso um breve apontamento sobre S. Francisco.

nota 2 – Diversos autores tem estudado a talha barroca. Lembremos Robert Smith (1912-1975), Flávio Gonçalves (1929-1987) e D. Domingos Pinho Brandão (1920-1988). Recentemente tem sido a professora Natália Ferreira Alves que em diversas publicações mais se tem dedicado ao estudo desta arte, e procurado documentar a sua autoria e data de realização.

São  Francisco de Assis

São Francisco de Assis (c.1182-1226) com a sua pregação pela pobreza corresponde a um regresso da Igreja às suas preocupações universais praticando com o exemplo a palavra do Evangelho.

Émile Mâle (1862-1954) a propósito da Arte Religiosa medieval, escreve:

“Saint François est comme le second fondateur du christianisme, et Machiavel n'avait pas tout à fait tort d'écrire : « Le christianisme se mourait, saint François l'a ressuscité. » Saint François a l'air de découvrir le christianisme ; ce qui pour les autres est une formule morte est pour lui la vie même.”

“São Francisco é como o segundo fundador do cristianismo, e Maquiavel não deixava de ter razão ao escrever: “O cristianismo moribundo, foi ressuscitado por São Francisco.” São Francisco redescobriu o cristianismo; oque para outros era uma fórmula gasta  para ele é a própria vida. “ in Émile Mâle (1862-1954) L’Art Religieux de la fin du Moyen Age en France –Étude sur l’Iconographie du Moyen Age et sur ses sources d’inspiration, Paris Librairie Armand Colin 103, boulevard Saint-Michel 1922

S. Francisco “il Poverello di Assisi”, surge num momento de afirmação da Igreja face a movimentos hereges e sobretudo de afirmação do papado. É conhecido o retrato de Francisco antes sua santificação em 1228, sem a auréola considerado o mais antigo do Santo.

7b123  7b123a

Mestre de São Gregório, Frate Francesco 1228, e detalhe do mesmo fresco na Capela de São Gregório, Sacro Speco de Subiaco, Roma

A importância de S. Francisco vem até aos nossos dias. Um exemplo é a Igreja de S. Francisco de Assis em Pampulha, Belo Horizonte, projectada por Oscar Niemeyer (1907) entre 1940 e 1943, e onde trabalharam  Roberto Burle Marx (1904-1994) no arranjo do exterior e Cândido Portinari (1903-1962) no conjunto de pinturas, painéis e murais de azulejo sobre S. Francisco.7b230cCândido Portinari, São Francisco, detalhe do mural de azulejos, Igreja de São Francisco, Pampulha, Belo Horizonte.

Uma outra interpretação de S. Francisco feita por Portinari na mesma época.

7b230Cândido Portinari,  São Francisco 1941 óleo s/tela 73 x 60 cm. coleção particular Rio de Janeiro

E Vinícius de Moraes (1913-1980) no poema S. Francisco do livro de poemas para a infância "Arca de Noé". (Musicado com Paulo Soledade e cantado por Ney Matogrosso)

Lá vai São Francisco
Pelo caminho
De pé descalço
Tão pobrezinho
Dormindo à noite
Junto ao moinho
Bebendo a água
Do ribeirinho

Lá vai São Francisco
De pé no chão
Levando nada
No seu surrão
Dizendo ao vento
Bom dia, amigo
Dizendo ao fogo
Saúde, irmão

Lá vai São Francisco
Pelo caminho
Levando ao colo
Jesus Cristinho
Fazendo festa
No menininho
Contando histórias
Pros passarinhos

S. Francisco, Dante e Giotto

A figura de S. Francisco é glorificada pelos seus contemporâneos Giotto di Bondone (1266/7-1337), e Dante Alighieri (1265-1321) nascidos cerca de 40 anos depois da morte do Santo (1226). Giotto representa a vida de Francisco nos frescos da Basílica Superior de Assis, referindo-se à Legenda Maior de Boaventura de Bagnoregio (c. 1217-74), (ver adiante S. Boaventura) que descreve São Francisco como um exemplo para os fiéis. Giotto pinta vinte e oito cenas da vida do Santo.

nota 3 – Por esta proximidade cronológica utilizaremos ao longo do texto, algumas imagens de Giotto

Dante dedica-lhe o Canto XI do Paraíso no 4º círculo, o do Sol, onde S. Tomás de Aquino (1225-1274) presidindo a 12 teólogos celebra os méritos e a santidade dos Frades Menores, S. Francisco e S. Domingos:

v. 36-39

L’un fu tutto serafico in ardore;
l’altro per sapienza in terra fue
di cherubica luce uno splendore.

(Um foi todo seráfico em ardor;/outro por sapiência em terra tem/de querubínea luz um esplendor.)

E mais adiante no mesmo canto, Dante fala do amor e do casamento de Francisco com a Pobreza:

v. 73-78

Ma perch’io non proceda troppo chiuso,
Francesco e Povertà per questi amanti
prendi oramai nel mio parlar diffuso.

La lor concordia e i lor lieti sembianti,
amore e maraviglia e dolce sguardo
facieno esser cagion di pensier santi

(Mas por que eu não pareça assaz escuso,/Francesco e a Pobreza por amantes /entendas ora em meu falar difuso./Sua concórdia e seus ledos semblantes,/amor e maravilha e doce esguardo/de santos pensamentos são constantes)

c13232-10 10.tifGiovanni di Paolo (1403-1482)Ilustração da Divina Comédia, A Renuncia de S. Francisco c.1450 iluminura Yates Thompson the British Library.

E no Paraíso, Canto XXXII (v.32-34) Dante coloca S. Francisco no Empíreo, com S. Bento e S. Agostinho:

…e sotto lui così cerner sortiro
Francesco, Benedetto e Augustino
e altri fin qua giù di giro in giro.

(…e sob ele em assento assim fronteiro, /Francisco, Benedito e Augustino, *e outros de giro em giro ao derradeiro.

*S. Francisco, S. Bento e Santo Agostinho

7bsf1Giovanni di Paolo (1403-1482)Ilustração da Divina Comédia, Beatriz mostra a Dante os três santos S. Francisco, S. Bento e Santo Agostinho na Rosa Celeste entre anjos c.1450 iluminura Yates Thompson the British Library.

nota 4 - Todas as traduções do poema de Dante são de Vasco Graça Moura.

nota 5 – As referências a S. Francisco fazem parte dos Cantos ainda em construção de Um Percurso Visual pela Divina Comédia que tem sido publicado neste Blogue

O interior da igreja de S. Francisco

“O interior é de três naves de dez tramos, de arcos ogivais apoiados em colunas fasciculadas, de capitéis lavrados com motivos animais e vegetais. Quatro dos tramos e dois arcos, um em asa de cesta e outro de ogiva abatida, sustentam o coro…” (in J.A. Ferreira de Almeida coord. Os Tesouros Artísticos de Portugal, Selecções do Reader’s Digest Lisboa 1976)

Planta da igreja de S. Francisco com a identificação das capelas e retábulos.

7bplt1A entrada B - nave central 1 capela mor 2 - capela de Santo António 3 - capela dos Brandão Pereira com o retábulo dos Reis Magos 4 retábulo de S. Francisco 5 – retábulo de S. Benedito 6 - retábulo de S. Boaventura 7 - retábulo da N.ª Sr.ª das Candeias 8 capela da família Carneiro com retábulo do Baptismo de Cristo 9 - retábulo da Senhora da Anunciação (ou Encarnação) 10antiga capela da Porciúncula com o retábulo da Senhora da Soledade 11 - Retábulo dos Mártires de Marrocos 12 - nicho com imagem de S.Francisco 13 - Capela da família de Luís Alvares de Sousa com imagem de Santo António da Porta 14 - Retábulo de Nossa Senhora da Graça 15 - Retábulo da Árvore de Jessé 16 - Retábulo de N.ª Sr.ª Senhora do Socorro pPúlpitos

planta ao nível do coro.7b67 cópiaC – coro o – orgão de tubos

Os retábulos e as imagens

Os retábulos (de retro tabula) e a talha dourada da igreja de S. Francisco, embora pertencendo ao período do Barroco, não foram realizados todos na mesma época. Diversos autores consideram três períodos: um barroco inicial dos finais do século XVII; um período Joanino da primeira metade do século XVIII e um período rococó (rocaille) da segunda metade do século XVIII.

Como se preferiu um percurso espacial e não temporal, anotam-se aqui as datas da talha e dos retábulos.

A capela dos Carneiro (8) fundada, foi construída por Diogo de Castilho (?-1574) no século XVI, e tem uma pintura representando o Baptismo de Cristo, executada no segundo terço do sé­culo XVI inserida num retábulo joanino.

O retábulo dos Magos (3) do século XVII é de transição do maneirismo para o barroco.

Do período joanino (1700-1750) são os retábulos da Árvore de Jessé 1718/ (15), os retábulos de Santo António (2), de S. Francisco (4) e S. Benedito (5) ladeando a Capela de S. António e ainda os retábulos de S. Boaventura (6) e de N.ª Sr.ª das Candeias (7), todos de 1724.

O forro das naves e dos pilares bem como o orgão de tubos são do início  dos anos 30 do século XVIII.

Da década seguinte de 1740 é o retábulo de N.ª Sr.ª Senhora do Socorro (16) e de 1743 o retábulo de Nossa Senhora da Graça (14).

Do terceiro período são o retábulo da Senhora da Anunciação (ou Encarnação) (9) e o retábulo dos Mártires de Marrocos (11) de 1750 e aquele que mais propriamente se pode considerar rococó, de 1764, o retábulo da Senhora da Soledade.

Composição e iconologia dos retábulos

Não cabe neste texto abordar a génese e a evolução dos retábulos e da iconologia das imagens. Assim, e resumidamente, consideremos que o desenho arquitectónico dos retábulos, também foi evoluindo acompanhando o desenho de fachadas das igrejas, das fontes “de parede”, dos arcos festivos, dos monumentos funerários, do mobiliário, da decoração de coches, e outros elementos arquitectónicos, produzidos numa época em que o artista, desde o Renascimento, se encarregava de múltiplas actividades e expressões artísticas. Nas representações das cenas e figuras religiosas para além das celebrações religiosas como os Mistérios cuja importância desde a Idade Média, Émile Mâle refere para a iconografia religiosa, devemos acrescentar as procissões - quer nos andores (muitas vezes utilizando esculturas dos retábulos) quer nos figurantes e nos seus trajes e adornos -  bem como os”registos dos Santos” e outras representações religiosas. Mas são sobretudo as representações iconográficas, em desenhos e gravuras, que com rápida difusão por toda a Europa consagram uma iconografia religiosa, que a partir do Concílio de Trento e passando pelo crivo da Inquisição, embora evoluindo, se vai consolidando.Para além do conhecimento directo que os portugueses iam tendo nas suas viagens (Roma, Santiago de Compostela, etc.), também se vai publicando e difundindo a partir dos finais do século XVI, diversos tratados e desenhos. Não cabendo neste texto o aprofundamento destas influências , apenas se apontam alguns autores a título de exemplo.

Poder-se-ia recuar até à Biblia Pauperum (Bíblia dos Pobres) publicada nos finais da Idade Média, para encontrar na sua paginação a estrutura dos retábulos e uma forma, através das imagens de fazer chegar aos analfabetos os Textos Sagrados. Tinha 40 xilogravuras a vida de Cristo e cenas do Antigo .tratado0

Mas será a Iconologia overo Descrittione dell'Imagini universali de Cesare Ripa (pseudónimo de Giovanni Campani) um tratado editado em Roma em 1593, com a descrição de alegorias e iconografias, por ordem alfabética, mas ainda sem ilustrações, que pela sua grande difusão irá ter uma influência particular na arte religiosa dos séculos XVII e XVIII.

tratado26Iconologia overo Descrittione dell’Imagini universali cavate dall’Antichita et da altri luoghi da Cesare Ripa Perugino. Opera non meno utile che necessaria a Poeti, Pittori, et Scultori per rappresentare le virtù, vitii, affetti et passioni humane In Roma, Per gli Herderi di Gio. Gigliotti. M.D.XCIII Con Privilegio Et Licenza de’Superiori.

Mas logo em 1603 foi republicada com um conjunto de xilogravuras atribuídas a Giuseppe Cesari (1568-1640) dito o Cavalier d’Arpino, que foi mestre de Caravaggio.tratado17Iconologia overo Descrittione di diverse Imagini cavate dall’Antichita et di propria inventione. Trovate et dichiarate da Cesare Ripa Perugino, Cavalier de Santi Mauritio et Lazaro. Di nuovo revista et dal medesimo ampliata di 400 et più Imagini. Roma Lepido Facci, 1603 Biblioteca do Palácio de Mafra, Portugal

tratado25aPrimeira página Abbondanza

Seguem-se diversas novas edições, em vários volumes, ao longo dos séculos XVII e XVIII, em italiano, inglês, alemão, francês, e holandês. Destaque-se a edição de 1758 de Augbsburg,  ilustrado com 213 água-fortes de um conjunto de artistas alemães particularmente relacionados com o rococó nortenho.

De entre esses artistas refira-se Franz Xaver Habermann (1721-1796)

 

Johann Wolfgang Baumgartner (1712-1761) de que existem gravuras na Biblioteca Nacional.

tratado9aS. Xaverius patronus contra tempestates maris [Visual gráfico] : elementum aquae : apparuerunt fontes aquarum ... / I. W. Baumgartner delin. ; Klauber Cath. sc. et ..... - Aug. Vind. [Augustae Vindelicorum, i.é, Augsbourg] : Klauber Cath. exc., [entre 1740 e 1761?]. - 1 gravura : água-forte e buril, p&b ; 43x63 cm. BND

tratado9Batavus [Visual gráfico] / I. W. Baumgartner inv. et del. ; Ioh. Georg Pinz sculpsit. - A. V. [Augustae Vindelicorum, i. é, Augsburg] : Martin Engelbrecht excudit, [entre 1740 e 1755]. - 1 gravura : água-forte e buril, p&b ; 34x41 cm

Gottfried Bernhard Göz (1708-1774)

tratado12Mysteriosa typica descriptio et eruditio brevis et compendiosa, nos ducens per viam salutis eternae Christiano homini per modum meditationis (1736)

As gravuras publicadas na Historia vitae P. Bernardo de 1764, foram utlizadas como modelo de painéis de azulejo. (cf. Teresa Verão Os Azulejos do Mosteiro de São Bento de Cástris, in Cenáculo 04 Boletim on line do Museu de Évora)

tratado10    tratado10a

Jeremias Wachsmuth (1711-1771)

tratado15Relicário em estilo rococó desenhado por Jeremias Wachsmuth

tratado24Alegoria à Arquitectura por Jeremias Wachsmuth

E ainda pela influência que tiveram nos “registos de santos” como afirma Natália Ferreira Alves, os irmãos Joseph Sebastian Klauber (1710-1768) e Johann Baptist Klauber (1712-1787), também a trabalhar em Augsburg.

 tratado18a    tratado18b

De entre os artistas italianos tem influência Giovanni Battista Montano (1534-1621), de quem de entre outras obras se destaca o Diversi Ornamenti Capricciosi per depositi o altari,…

tratado1Diversi Ornamenti Capricciosi per depositi o altari, Utilisimi a Virtuosi, Novamente inventati, da M.Giovanbatista Montani Milanese, Intagliatore di legniame Ecc.mo Dati in luce da Giovanbatista  Soria Romano, Dedicati al Ill.mo et Rev.mo Card. Hippolito Aldobrandino,In Roma Apresso al detto Soria Con licenza de Superiori, 1625”,

Mas particular importância assume o jesuíta Andrea Pozzo (1642-1709) com o seu difundido e traduzido tratado Perspectiva pictorum et architectorum de 1693.

tratado6

pozzo1  pozzo2

O tratado de Andrea Pozzo foi  traduzido por Figueiredo Seixas em 1732.

tratado6b  tratado6a

Na primeira página do manuscrito pode ler-se: Perpectiva de Pintores e Architectos Composta em Roma Pelo excelentissimo Pintor e Architecto o irmaõ Andre Poço da Companhia de Jezus & Foy ofrecida pelo Autor a Joseph Emperador de Alemanha.

Na página em que se inicia o II Tomo pode ler-se “ PERSPECTIVA DE PINTORES ARCHITECTOS DE ANDRE POÇO DA COMPANHIA DE JEZU PARTE II na quoal se ensina o mais facil modo de meter em perspectiva todos os debuxos architectonicos, traduzido da Lingua Toscana nonosso idioma portugues por Joze de Figueiredo Ceixas pintor na cidade do Porto anno 1732

Autores franceses como  Jean Le Pautre (1618-1682) também publicaram tratados com alguma divulgação em Portugal.

tratado3   tratado4

Oeuvres D'Architecture De Jean Le Pautre, Architecte, Dessinateur & Graveur du Roi vol.1: Contenant les Frises, Feuillages, Montans ou Pilastres, Grotesques, Moresques, Panneaux, Placarts, Trumeaux, Lambris, Amortissements, Plafonds, & généralement tout ce qui concerne l'Ornement e Vol. 2: Contenant les Porte, Cheminées, Lambris, Alcoves, Cabinets, Portails dÉglises, Clôtures de Chapelle, Portes de Choeur, Retables d’Autel, Tabernacles, Soleils, Plaques, Eau-Benitiers, Chaires à prêcher, Oeuvres & Bancs de Margulliers, Confessionaux, Sépultures, Epitaphes, & Tombeaux. A Paris, Rue Dauphine. Chez Charles-Antoine Jombert, Libraire du Roi pour l’Artillerie & Génie, à l’Image de Notre-Dame, MDCCLI, Avec Privilege Roy.

E ainda Juste-Aurèle Meissonier (1695-1750) de que se conserva um desenho na Biblioteca Nacional

tratado7Developement d'un trumeau de glace fait pour le Portugal [Visual gráfico / Messonier inv. ; Huquier sculp.. - [Paris] : Huquier ex., [ca. 1745?]. - 1 gravura : água-forte, p&b http://purl.pt/5814

Em Portugal tem uma particular influência as diversas versões do Flos Sanctorum. Não interessa aqui a origem e a autoria da compilação, mas apenas a sua influência na iconografia religiosa. Uma das suas versões é  O Flos Sanctorum em linguagem português [Ho flos sanctorum em lingoagem portugues, no original], impressa em 1513, em Lisboa, pelo alemão Hermão de Campos. A edição foi patrocinada por D. Manuel no âmbito dos interesses espirituais e culturais manifestados pelos reis do final do séc. XV e início do XVI. (6)

(nota 6 -Cristina Sobral O Flos Sanctorum de 1513 e as suas adições portuguesas in revista Lusitania Sacra Tomo 013-014, 2001-2002)

Na Biblioteca Nacional existe um exemplar do Flos Sanctorum em linguagem português, de 1513.

tratado20Ho flos sanctõ[rum] em lingoaje[m] p[or]tugue[s]. - Lixboa : per Herman de campis bombardero del rey & Roberte rabelo, 15 Março 1513. - [10], CCLXV, [2] f. : il. ; 2º (28 cm). - Sob tít.: Com graça & preuilegio del. Rey nosso senhor. - É a tradução da obra "La leyenda de los santos" exceptuando a parte dos "Extravagantes" ; a "Leyenda", é a versão livre da "Leyenda aurea" de Jacobus de Voragine. - P. de tít. com escudo de armas reais com um grifo no timbre e cercado por tarjas e seis pequenas gravuras. - Texto a duas colns.. - Assin.: A//10, a-z//8, A-I//8, K//10. - Falta a folha com a assin. Aij PTBN: RES. 157 A.. - Notas manuscritas. - Folhas remendadas afectando o texto PTBN: RES. 157 A.. - Exemplar aparado PTBN: RES. 157 A.. - Encadernação em pergaminho, com cercadura gravada a seco e lombada dilacerada Biblioteca Nacional de Portugal Digital

E o Flos Sanctorum de Pedro de Rivadeneyra (1527-1611), traduzido para português

tratado21  tratado21a

Flos sanctorum, historia das vidas, e obras insignes dos santos. Pelo M. R. P. Pedro de Ribadaneira... e de outros autores, traduzida da lingua Castelhana em a nossa Portugueza pelo Licenceado Joam Franco Barreto. - Lisboa : por Antonio Craesbeeck de Mello, Impressor de Sua Alteza : a custa de Francisco de Souza Mercador de Livros Biblioteca Nacional de Portugal Digital

O Percurso

A Entrada e área do subcoro.

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A entrada na igreja de S. Francisco provoca um fascinante efeito barroco, com o seu pé-direito rebaixado por baixo do coro com o tecto assente em arcos abatidos, todo revestido de talha barroca, sublinhando, como em toda a igreja a sua estrutura gótica.

7b65aPostal ilustrado fotografia Foto Beleza

7b154foto Marques de Abreu

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7b101afotos SIPA/IHRU

B – Nave central

Percorrido aquele espaço a igreja abre-se para a nave central também com o tecto revestido e para os retábulos das naves laterais.

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Natália Ferreira Alves, cita um documento do Arquivo Distrital do Porto, onde se afirma que “…em 5 de Maio de 1732, era assinado o contrato para a execução da obra do forro da igreja do Convento de São Francisco, sendo partes intervenientes, como arrematantes, os mestres carpinteiros Pantalião da Fonseca, Remigio Moreira, José Ferreira Pinto e Manuel Ferreira Machado, e como clientes, os religiosos de São Francisco, o seu Síndico Geraldo Blens e o padre pregador Frei José da Madre de Deus, Presidente in capite.” (in Natália Ferreira Alves, A Talha da Igreja de São Francisco do Porto o Forro da Nave Central e do Transepto (1732) Revista da Faculdade de Letras : História, 10, Universidade do Porto, 1993)

7b53Foto in Reinaldo dos Santos Oito Séculos de Arte Portuguesa Empresa Nacional de Publicidade Lisboa 1940/43

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A nave central vista da cabeceira tendo ao fundo a rosácea gótica.7b90Capa de um sucinto roteiro, distribuído pelo Museu da Ordem de S. Francisco –Portoma5Foto de Marques de Abreu

Os arcos do quarto tramo da nave central 1718/21 de Filipe da Silva e António Gomes

Na nave os arcos do quarto tramo, do lado do Evangelho e do lado  da Epístola, em frente respectivamente aos retábulos da Árvore de Jessé e da Senhora da Soledade, também são revestidos a talha. Estes arcos não só criam um enquadramento da capela-mor, como servem de “entrada” para as capelas dos referidos retábulos.nave1

O arco da nave do lado do Evangelho no acesso à capela de N.ª Sr.ª da Conceição com a Árvore de Jessé.

arco3Postal do início do século XX

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Natália Ferreira Alves faz uma descrição do arco que seria rematado por três figuras: a Igreja, sentada no seu trono “em cima no meio com a mão aberta, e na outra um livro e o Espírito Santo no peito coroada por dois anjos, com uma coroa de louro. A tiara terá um anjo ao pé e outro as chaves e os dois anjos de cima terão na mão, um uma palma, e outro um ramo de oliveira”; a Fé com uma vela e a Sabedoria com um espelho, as suas insígnias.

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Ao centro dois anjos ladeiam as insígnias

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A Fé

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A Igreja e a Sabedoria

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As mísulas com figuras femininas

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Um pilar da nave central revestido com talha.7b76Fotos e detalhes de fotos de Robert Chester Smith (1912-1975) Data de produção das fotografias: 1962-1964 Biblioteca da Fundação Calouste Gulbenkian

CONTINUA

1 comentário:

  1. Bom dia.
    Vinha informá-lo que existe uma página no facebook que tem usado os seus materiais de forma massiva (e penso que abusiva). Essa página tem o endereço seguinte:
    http://www.facebook.com/PortoDesaparecido

    Cumprimentos,
    fernando

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