Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















quinta-feira, 20 de setembro de 2012

BARROQUISMOS VII (10)


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A Igreja d’ouro (continuação)
À memória de Flávio Gonçalves, meu professor de História de Arte em Portugal
15 - Retábulo da Árvore de Jessé (capela de Nossa Senhora da Conceição) de Filipe de Sousa e António Gomes, por um contrato de 1718, com esculturas de Manuel Carneiro Allão (ou Adão)
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O retábulo da Capela de Nossa Senhora da Conceição, com a “a aparatosa Árvore de Jessé”, é sem dúvida o mais conhecido e o mais estudado dos retábulos barrocos da igreja São Francisco no Porto e “revela a espectacularidade barroca” da talha da igreja de S. Francisco no Porto.j3Postal à venda na Igreja de S. Francisco do Porto
O retábulo é uma adaptação realizada entre 1718 e 1721 por Filipe da Silva e António Gomes, de um outro retábulo anterior, e constitui o mais exuberante exemplo desta temática em Portugal. Com essa remodelação os autores realizaram ainda o arco no tramo da nave central. (ver Barroquismos VII, 6).

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Postal do início do século XX mostrando o arco e o retábulo da Árvore de Jessé

Sobre ele se debruçaram diversos autores destacando-se Flávio Gonçalves (1929-1987) com uma publicação intitulada A Talha da Capela da “Árvore de Jessé” da Igreja de S. Francisco do Porto e os seus autores, Livraria Fernando Machado 1971 (*) e um texto A Árvore de Jessé na Arte Portuguesa, Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto 1986 (**), que utilizaremos e citaremos.
I Parte - O Tema da Árvore de Jessé
O tema radica-se nas palavras de Isaías, salientando-se que as palavras “tronco” e “raízes” sugerem uma árvore.
Isaías 11.1 Egredietur virga de radice Jesse et flos de radice ejus ascendet.
Brotará um rebento do tronco de Jessé, e uma flor brotará das suas raízes.
Isaías 11. 10 In die illa radix Jesse qui stat in signum populorum , ipsum gentes deprecabuntur.
Naquele dia, a raiz de Jessé, estandarte dos povos, será procurada pelas nações e será gloriosa a sua morada.
Também os evangelistas Mateus (1, 1-17) e Lucas (3, 23-28) estabelecem a ascendência de Jesus, através de Maria e José como descendentes dos reis de Judá, através de David, cujo pai era Jessé.
Mateus 1  6Jessé gerou o rei David. /David, da mulher de Urias, gerou Salomão;………………………………………………………………………… 16Jacob gerou José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, que se chama Cristo.
Segundo Flávio Gonçalves, o aparecimento e a evolução da árvore de Jessé assenta na  “…ideia da arte cristã (de) se servir de uma árvore (ou de um mo­tivo vegetal com raiz, caule e ramos) para aí patentear as imagens dos ascendentes de Jesus (e) derivou, conforme tudo leva a crer, de soluções congéneres da arte oriental, onde a composição arbórea provinha, igualmente, de um corpo humano deitado.” (**)
Para além dos diversos simbolismos da árvore, como a ligação entre a Terra e o Céu, e entre o passado, o presente e o futuro, a própria forma da árvore permite a criação de diversas obras de arte e serve de modelo a apresentações didáticas da genealogia de Cristo.
Por isso a Árvore de Jessé torna-se um dos temas principais da arte na Idade Média já que exprime o traço de união entre o Antigo e o Novo Testamento e de uma forma compreensível para todos fundamentar a genealogia de Maria e de Jesus.
Segundo Flávio Gonçalves, a partir de uma atenta leitura de Émile Mâle (1862-1954) (***)Foi nos finais do século XI que, no Ocidente, apareceu o tema da Árvore de Jesse, reproduzido, sobretudo, nas iluminuras dos códices, e depressa espalhado durante o século XII .”
(***) Emile Mâle, L'Art Religieux de la fin du Moyen Age en France – Étude sur l’iconographie du Moyen Age et sur ses sources d’inspiration, deuxieme edition, revue et augmentée, illustrée de 265 gravures. Librairie Armand Colin Paris 1922
E Flávio Gonçalves considera que a primeira Árvore de Jessé contemplada por todos, já que as iluminuras destinavam-se apenas a pequenas elites, terá sido o vitral da basílica de Saint-Denis. E escreve: “Perto de 1144, na célebre reconstrução da igreja da abadia de S. Dinis, nos arredores de Paris, o abade Suger encomendou um vitral dedicado ao assunto, exemplar que, por vir a ser modelo, na França e no estrangeiro, de diversas outras obras, mais alargou o conheci­mento de tão típica representação.” (**)
Emile Mâle salienta o importante papel do abade de Suger (1081-1151), na formulação da iconografia cristã e da Árvore de Jessé:  “Suger semble avoir inventé cette composition grandiose qu'on appelle l’Arbre de Jessé ; tout au moins, les artistes de Saint-Denis lui ont donné, sous ses yeux, sa forme parfaite, celle qui s'imposera aux siècles suivants.” (***)
“Suger parece ter inventado esta grandiosa composição a que chamamos Árvore de Jessé; ou pelo menos, os artistas de Saint-Denis realizaram para ele a forma perfeita, que se imporá nos séculos seguintes.”
E refere o vitral de Saint-Denis, que apesar de recuperado por Alfred Gérente (1821-1868), integrado na equipe de Eugène Viollet-le-Duc (1814-1879), como o modelo inicial da Árvore de Jessé:
“Suger a pris soin de nous dire lui-même qu'il y avait, à Saint-Denis, un vitrail consacré à l'arbre de Jessé. Ce vitrail existe encore aujourd'hui. Il est, il est vrai, fort restauré, mais quelques parties en sont anciennes et la restitution de l'ensemble peut être tenue pour exacte”. (***)
Suger preocupou-se a dizer-nos que existia em Saint-Denis um vitral  consagrado à Árvore de Jessé. Este vitral ainda existe. É verdade que foi profundamente restaurado, mas algumas partes são as originais e a restituição do conjunto pode ser considerada exacta.”
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Vitral da Árvore de Jessé na Basílica de Saint-Denis 1144 e pormenor de Jessé
Jessé está deitado e dorme. Do seu corpo nasce uma árvore  tendo nos seus ramos o seu filho David e a sucessão dos reis de Israel, até à Virgem e a Cristo representado no topo rodeado pelas sete pombas do Espírito Santo. Ladeando a Árvore, dois vitrais com os Profetas.
Contemporâneo e quase idêntico ao vitral de Saint-Denis é o vitral da Árvore de Jessé da catedral de Chartres executado entre 1140 e 1150.
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1 – Jessé 2 – David 3 – Salomão 4 – dois reis 5 – Maria 6 – Cristo 7 a 20 – Profetas
Na parte inferior Jessé (1) “…représenté étendu sur son lit, et il dort; il fait nuit, car une lampe allumée est suspendue au-dessus de sa tête; c'est donc en rêve qu'il voit l'avenir. Quelle grandeur biblique dans ce sommeil, dans ce songe, dans cette nuit prophétique !” (***)
“…representado estendido no seu leito, e dormindo; é de noite já que um candeeiro está suspenso sobre a sua cabeça; é pois sonhando que ele vê o futuro. Que grandeza biblica neste sono, neste sonho, nesta noite profética !”

Do ventre de Jessé parte uma árvore cujo tronco central tem sentados quatro reis de Israel. Mâle refere que: “Ils ne portent point de sceptre, ils ne tiennent pas de bandeioles, ils ne jouent pas de la harpe, comme on le verra plus tard ; ils ne font rien, ils se contentent d'être, car leur vrai rôle fut de continuer une race prédestinée.” (***)
”Eles não tem ceptro, nem estandartes, não tocam harpa, como se verá posteriormente: eles não fazem nada contentando-se de estar, já que o seu verdadeiro papel é de dar continuidade a uma raça predestinada.”

Sobre Jessé o seu filho David (2) e sobre este Salomão (3) j16bOs outros dois monarcas (4), não identificados simbolizam toda a linhagem que conduz a Maria e a Cristo.
Por isso sobre eles, também sentada num trono, a Virgem Maria (5). E sobre ela Cristo (6) rodeado pelas sete pombas do Espírito Santo: Sabedoria (Sapientia), Entendimento (Inteligentia), Fortaleza (Fortitudo), Piedade (Pietas), Conselho (Consilium), Ciência (Scientia) e Temor de Deus (Timor).
Dos dois lados da árvore os profetas (7 a 20), de que destacamos Isaías (11) que anuncia a Virgem e Cristo e Joel (8) que anuncia o Espírito Santo.
      
A partir deste modelo as Árvores de Jessé irão ter uma enorme difusão, nas diversas expressões artísticas: vitrais, iluminuras, esculturas de pedra e madeira, tapeçarias, mosaicos, azulejos, gravuras, etc..
Mas Flávio Gonçalves aponta uma importante modificação, que a partir do século XIII, se nota no simbolismo do tema: “Do alto da árvore saiu a figura isolada de Cristo e em seu lugar passou a colocar-se a da Virgem Maria com o Menino Jesus. A popularidade da devoção marial justificou esta alteração iconográfica, que jamais desapareceu enquanto se executaram, em pequenas ou grandes proporções, as Árvores de Jessé. Contra todo o rigor das fontes, a exposição, já de si forçada, da genealogia de Jesus, transformara-se numa indocumentada genealogia da Virgem!” (**)
E Emile Mâle: “Si, d'une race chargée de souillures et souvent de crimes, une Vierge sans tache avait pu fleurir, ce ne pouvait être que par un décret éternel de Dieu; au sommet de cet arbre fait de voluptueux, de parjures et d'idolâtres, une Vierge immaculée  apparaissait comme un miracle souverain.” (***)
“Se, de uma raça carregada de sujidades e muitas vezes de crimes, uma Virgem sem mácula pode florescer, isto só pode ter acontecido por um decreto eterno de Deus; no alto desta árvore feita de voluptuosos, de perjúrios e de idólatras, uma Virgem imaculada aparecia como um milagre soberano.”
A partir dos finais do século XVI, com a Contra-Reforma assume particular importância o culto de Maria. A Árvore de Jessé torna-se um símbolo da Imaculada Concepção (culto particularmente caro aos dominicanos e franciscanos). Maria torna-se a flor divina, e Cristo aparece apenas como o Menino nos braços da Virgem que se glorifica. Em 1646 com a Restauração a Imaculada Conceição é proclamada Padroeira de Portugal.
(**) Flávio Gonçalves A Árvore de Jessé na Arte Portuguesa, Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto 1986
(***) Emile Mâle, L'Art Religieux de la fin du Moyen Age en France – Étude sur l’iconographie du Moyen Age et sur ses sources d’inspiration, deuxieme edition, revue et augmentée, illustrée de 265 gravures.  Librairie Armand Colin Paris 1922
Da profusão de realizações sobre o tema escolhemos alguns exemplos, por séculos, alguns portugueses.
(Nota – para melhor conhecer a Árvore de Jessé na Arte Portuguesa consultar o referido texto de Flávio Gonçalves)
No século XV aquelas alterações referidas, já estão patentes na belíssima Árvore de Jessé de 1485 uma pintura de Jan Mostaert (c.1475 - c.1555).j7Jan Mostaert (c.1475 - c.1555) Árvore de Jessé 1485 óleo sobre madeira 89 x 59 cm. Rijksmuseum Holanda
Do ventre de Jessé deitado e adormecido, sai uma verdadeira árvore de jardim, de troco direito e onde nos seus ramos estão sentados os doze reis de Israel: de David com a harpa no galho mais baixo, até Manassés, no canto superior direito. Estão coroados e empunham ceptros. Todas as personagens estão vestidas à época.
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No cimo da árvore aparece já representada a Virgem Maria coroada, rodeada por anjos, e com o Menino ao colo.
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Das personagens destaca-se o Rei David com a harpa.j7b
No primeiro plano à esquerda uma freira vestida de branco e ajoelhada, provavelmente quem encomendou a pintura.
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À direita está o profeta Isaías com a Bíblia aberta em Isaías XI: "Egredietur virga de radice Jesse et flos de radice ejus ascendet.”
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No século XVI
A Árvore de Jessé  do Livro de Horas de D. Manuel
“Na nossa Idade Média e no século de Quinhentos sempre a Virgem Maria andou associada, devotamente, à profecia de Isaías sobre Jessé. Tal se constata nas ladainhas, nas alegorias literárias e em escritores como Gil Vicente e Sá de Miranda.” (**)
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Nota - Flávio Gonçalves  sobre as ladainhas, remete para um texto de Mário Martins Ladainhas de Nossa Senhora em Portugal (Idade-Média e séc. XVI), 1961 Revista Lusitania Sacra, Tomo V 1960-1961, Centro de Estudos de História Religiosa, na Faculdade de Teologia, Universidade Católica Portuguesa, acessível na NET em http://repositorio.ucp.pt/

Sobre Gil Vicente (1465-1540) remete para o Auto chamado da Mofinamendez (Auto de Mofina Mendes ou Mistérios de uma Virgem 1533) de que transcrevemos a fala da Humildade:

E o profeta Esaias
fala nisto também ca,
ex a virgem conceberaa 
& pariraa o Messias, 
& frol virgem ficaraa.


in Copilaçam de todalas obras de Gil Vicente a qual se reparte em cinco liuros. O primeyro he de todas suas cousas de deuaçam. O segundo as Comedias. O terceyro as Tragicomedias. No quarto as Farsas. No quinto às obras meudas. - Vam emmendadas polo Sancto Officio como se manda no cathalogo deste Regno. - Lixboa : por Andres Lobato, 1586. exemplar digitalizado da Biblioteca Nacional de Portugal

E sobre Sá de Miranda (1485-1558) remete para A Nossa Senhora Cançam (Canção a Nossa Senhora)
 ………………..
Virgem, Horto precioso alto & defeso,
Rico ramo do tronco de Iesse,
Que florecceo tam milagrosamente,        

Custodia preciosissima da Fe,
Que vos tivestes só de todo em peso,
Tendo hum & outro Sol sua luz ausente;

………………….
in As Obras do Doutor Francisco de Saa de Miranda, Agora de novo impressas, Lisboa A custa de Antonio Leite, Mercador de Livros, na rua nova, M.DC.LXXVII, com todas as licenças necessarias. exemplar digitalizado da Biblioteca Nacional de Portugal

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Em Portugal talvez a primeira  Árvore de Jessé que se conhece é a do Livro de Horas (dito de D. Manuel) executado entre 1517 e 1540, por um conjunto de artistas de que se destaca António de Holanda (1480/1500-antes de 1571) o pai de Francisco de Holanda (1517-1585).
Sobre ela, Flávio Gonçalves escreve: “… a iluminura da Árvore de Jessé, delicadamente colo­rida, ocupa toda uma página (fólio 246 v.) e patenteia aspectos peculiares. Doze Reis de Judá, e cinco Profetas, se distribuem pelos ramos da árvore, que alardeia, no vértice, a Virgem com o Menino ao colo. Em baixo, o corpo de Jessé jaz dentro de um sepulcro, de capuz de frade na cabeça e mãos cruzadas sobre o ventre, com uma caveira em que apoia o cotovelo do braço direito! No caixilho do quadro, em latim, a profecia de Isaías sobre Jessé.” (**)j8
Atribuído a António de Holanda Árvore de Jessé pintura a têmpera e ouro sobre pergaminho 14, 2 x 10, 8 cm. Fólio 246 verso do Livro de Horas de D. Manuel I 1517 a 1551 Museu Nacional de Arte Antiga (proveniente do Palácio das Necessidades).

No século XVII
Também referida por Flávio Gonçalves e fotografada por Robert Smith, a Árvore de Jessé do Retábulo de Nossa Senhora do Rosário da Igreja de Santa Maria, Beja, Portugalj9
Altar de Nossa Senhora do Rosário: retábulo da árvore de Jessé, 1676. Fotógrafo: Robert Chester Smith (1912-1975). Biblioteca da Fundação Calouste Gulbenkian.
De um tronco central cujas raízes assentam em Jessé partem três ramos para cada lado onde estão as figuras dos doze Reis.
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idem

No topo deste tronco central, a Imaculada Conceição, coroada segurando no braço esquerdo o Menino.
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idem

No tronco central logo acima de Jessé, a imagem de S. José, uma característica particular deste retábulo.
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idem
De entre os reis destaca-se David.
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idem

Na base Jessé deitado e adormecido com uma coroa.j9b1j9a
Altar de Nossa Senhora do Rosário: retábulo da árvore de Jessé, 1676. Fotógrafo: Robert Chester Smith (1912-1975). Biblioteca da Fundação Calouste Gulbenkian

Do século XVIII é referida a Árvore de Jessé da Igreja Matriz de Caminhaj10
Altar em talha dourada do século XVIII (1705), da autoria de Manuel de Azevedo.

Enquadrada por colunas salomónicas a Árvore de Jessé parte de um Jessé deitado e divide-se em doze ramos com as esculturas dos Doze Reis. No topo, Nossa Senhora com o menino ao colo, beijando-a, pormenor que torna esta escultura particularmente original.

No século XIX
A partir de Revolução Francesa, com a laicização da sociedade, e a perda da influência da Igreja, não são - pelo menos no início do século XIX – muitas as manifestações artísticas de carácter religioso. Em contrapartida desenvolvem-se os estudos de arqueologia, de história de arte, da iconografia, em particular sobre a Idade Média, consequência da fundamentação dos nacionalismos e que conduzirão ao interesse e reabilitação dos monumentos antigos e ao aparecimento dos “estilos” históricos sendo o neo-gótico, o mais conhecido e difundido. Paralelamente cria-se na literatura um romantismo medieval, de que são exemplos le Génie du christianisme publicado em 1802 por François René Auguste de Chateaubriand (1768-1848) e Notre-Dame de Paris publicado em 1831 por Victor Hugo (1802-1885). Assim, em França surgem diversos estudos e monografias sobre a arte medieval, centrados no estudo e na recuperação das catedrais góticas e em particular dos seus vitrais. Porque a Árvore de Jessé é uma das temáticas dos primeiros grandes vitrais medievais, destaca-se naqueles estudos uma pequena publicação especificamente sobre a Árvore de Jessé: a Iconographie de l’Arbre de Jessé par L’Abbé Poquet, A la Librairie Archéologique de Victor Didron rue St-Dominique-St-Germain, 23, Paris 1857.
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Nesse pequeno estudo o seu autor, depois de analisar alguns dos exemplos franceses e o seu significado religioso, cita o Manuel d’Iconographie Chrétienne Grcque et Latine avec Une Introduction et des Notes par M. Didron, traduit du Manuscrit Byzantin, le Guide de la Peinture par le D.º Paul Durand, Paris Imprimerie Royale, 1845
Na II Parte e num capítulo intitulado Comment est figuré l’arbre de Jessé é formulada uma tentativa de consolidar a iconografia da Árvore de Jessé. “Le juste Jessé endormi; de la partie inferieure de sa poitrine sortent trois tiges : les deux plus petites l’environnent, la troisième, plus grande, s’éleve directement en haut en entrelaçant les rois des Hébreux depuis David jusqu’au Christ. Le premier est David, il tient une harpe; puis vient Salomon, et, après celui-ci, les autre rois, suivant leur ordre et tenant des sceptres. Au sommet de la tige, la nativité du Christ. De chaque coté, au milieu des branches, sont les prophètes avec leurs prophéties: ils regardent le Christ et le montrent.”
“O justo Jessé adormecido; da parte inferior do seu peito saem três ramos: os dois mais pequenos cercam-no, o terceiro, maior, eleva-se direito entrelaçando os reis Hebreus desde David  até Cristo. O primeiro é David e segura uma harpa; depois Salomão, e depois deste os outros reis, seguindo a sua ordem e segurando  ceptros. No topo do tronco, o nascimento de Cristo. De cada lado, no meio dos ramos estão os profetas com as suas profecias: eles olham Cristo e mostram-no.”

A Árvore de Jessé no século XIX
É na recuperação dos vitrais das igrejas e catedrais francesas, segundo a “filosofia” de recuperação que então se praticava, ou seja, de recriar ou reinventar à maneira dos artistas da Idade Média, aqueles elementos que estavam completamente destruídos, que os artistas vão criar as suas Árvores de Jessé. Já referimos a recuperação da Basílica de Saint-Denis por Viollet-le-Duc e Alfred Gérente, mas é também conhecido o vitral da Árvore de Jessé da catedral Notre Dame de Reims, da autoria de Louis-Charles-Auguste Steinheil (1814-1885) e realizado por Nicolas Coffetier (1821-1884) em 1861 também, sob a direcção de Viollet-le-Duc.j27
L. Steinheil e Nicolas Coffetier Detalhe do vitral da Árvore de Jessé 1861 Catedral de Reims
Este vitral foi removido no século XX para permitir a instalação dos vitrais de Marc Chagall (1887 – 1985)

No século XX

A Árvore de Jessé da catedral de Notre Dame de Reims de Marc Chagall
A catedral de Reims sendo dedicada à Virgem tem um conjunto de vitrais da autoria de Marc Chagall realizados entre 1968 e 1974, entre os quais uma Árvore de Jessé.
No alto o candelabro com sete braços. Na rosácea os profetas que anunciaram Cristo. Na janela da esquerda: o povo em oração, o rei David com Harpa e o rei Saul. Na janela da direita:a Virgem com o Menino, a Justiça de Salomão e Jessé adormecido.
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No alto o candelabro com sete braços 1 – os profetas que anunciaram Cristo 2 – o povo em oração 3 – a Virgem com o Menino 4 – David com a Harpa 5 – a Justiça de Salomão  6 – Saul o rei rejeitado 7 – Jessé adormecido
O candelabro dos sete braços e 1 – os profetas que anunciaram Cristo
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2 – o povo em oração
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3 – a Virgem com o Menino
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4 – David com a Harpa
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5 – a Justiça de Salomão
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6 – Saul o rei rejeitado
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7 – Jessé
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O tema da Árvore de Jessé foi por diversas formas utilizado por Marc Chagall.j11a
Tree of Jesse 1975 óleo sobre tela 81 x 130 cm. coleção particular

A Árvore de Jessé da igreja de Varengeville-sur-Mer de Georges Braque
Anteriormente já Georges Bracque (1882-1963) tinha realizado entre 1956 e 1962, um vitral representando a Árvore de Jessé concebido de uma forma não figurativa, na pequena igreja de São Valério em Varengeville-sur-Mer na Normandia, povoação onde residiu no final da sua vida e onde está sepultado.
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 Árvore de Jessé na igreja de São Valério Varengeville-sur-Mer, Normandia. Vitral 1956/1963
Neste vitral Braque representa uma estilização de uma árvore (abeto) com seis ramos e onde no tronco central estão escritos, de baixo para cima, os nomes de Jessé, Maria e Jesus.
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A Árvore de Jessé na igreja de São Valério Varengeville-sur-Mer, Normandia. Vitral 1956/1963

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Nota – Refira-se que Varengeville-sur-Mer foi uma povoação procurada por diversos pintores, sobretudo impressionistas como Claude Monet (1840-1926), que pintou uma série de quadros da povoação, das praias e da igreja em diversos momentos do dia.
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Claude Monet, Église de Varengeville, effet matinal 1882 óleo sobre tela 60,3 x 73 cm. coleção particularmoneta
Detalhe da imagem anterior

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Claude Monet L'Eglise de Varengeville à contre-jour 1882 óleo sobre tela 65 x 81 cm Instituto Barber de Belas Artes Universidade de Birmingham.
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II Parte - O Retábulo da Árvore de Jessé na igreja de São Francisco no Porto
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Sobre o retábulo da Árvore de Jessé da igreja de São Francisco, e como já aqui se referiu, Flávio Gonçalves escreveu um pequeno livro A Talha da Capela da “Árvore de Jessé” da Igreja de S. Francisco do Porto e os seus autores, Livraria Fernando Machado Porto 1971.
Nessa publicação o autor - entre uma introdução sobre a Árvore de Jessé (que desenvolverá num texto posterior), e a parte final que como o título indica, trata dos autores desta magnífica e única obra de talha dourada portuguesa, -  analisa o retábulo de São Francisco a partir de um documento do Arquivo Distrital do Porto (que reproduz em anexo) e que é o contrato com os autores da talha e das imagens da capela e do arco da nave central. (****)
(****) Obrig.am q. fazem Phelipe da Sylva, e Ant.° Gomes M.es Escultores a obra do Retabolo, arco e tecto da Capella de N. S. da Conceipção Collocada na Igr.a de S. francisco desta cid* e obrigação q. ao preço delia f as Vicente da Sylva Carnr.0, em 9 de Novembro de 1718. Arquivo Distrital do Porto – Po.2, N.º215, fols. 87 v.-88
A partir desse contrato de 1718, Flávio Gonçalves destaca a existência de um retábulo anterior figurando a Árvore de Jessé, que pelo contrato seria remodelado. Assim, aponta os elementos que foram recuperados do retábulo anterior; as modificações e acrescentos não concretizados ou desaparecidos posteriormente por novas modificações; e os elementos que programados se concretizaram e que se mantêm.
No centro do retábulo a Árvore de Jessé.j29
Na sua base, “Em sima do Banco estará a figura de Jassê dormindo, deitado em hum campo matizado de flores, e Ervas engraçadas, e por detrás ficara o Respaldo, a que ha de emcostar a Arvore, o qual será de boa madeira de Castanho, de macho, e fêmea, e nelle de meyo Relevo todos os atributos da S.rã bem feitos e acomodados na forma que mostra a planta. Levara no meyo sua Arvore que se for­mara com os troncos da velha se estiverem capa­zes, acrecentandolhe mais troncos, e ramos em ordem a que fique em Redondo p.a fora.” (****)j22i
Detalhe de foto de Emanuel Santos de Almeida em A Escola de Talha Portuense … de Natália Marinho Ferreira Alves, edições Inapa 2001
Por trás das raízes da "árvore", aparece uma cidade amuralhada, com “…uma série de ale­gorias muito vulgares da Imaculada Conceição, ins­piradas nas litanias ou ladainhas: o espelho sem mácula, o sol, a lua, a estrela da manhã, a cidade de Deus, a fonte selada, a torre de David, o poço das águas vivas, a palmeira elevada, a escada do céu, o templo de Deus, o jardim fechado, o cedro do Líbano, etc..” (*)
Lembre-se Sá de Miranda na Canção a Nossa Senhora, citada na primeira parte:
”…Virgem, nossa esperança, um alto poço
De vivas agoas, que continuo correm,
Em que se matam para sempre as sedes.
Nam de Nembrot, mas de David a torre,…”

E Flávio Gonçalves também refere Júlio Diniz para quem a figura de Jessé dormindo, terá ficado na memória ao a evocar para descrever um pároco em O Espólio do Senhor Cipriano de 1862 e publicado em Os Serões da Província: “Eram horas da sesta e o reverendo dormia; único ponto de contacto que tinha com Homero.
E que somno!
Bem pudera de seus parochiais flancos elevar-se toda a bem provida árvore de Jessé, que está representada na nave direita da egreja dos Franciscanos no Porto, que elle rivalizaria em impassibilidade com aquelle venerável patriarcha, que a sustenta.” (Julio Diniz Serões da Provincia, Porto 1870).
Seguem-se os Doze Reis, de pé e empunhando os seus ceptros, até à figura cimeira de S. José. O contrato propõe para a figuração dos Doze Reis, algumas modificações, nem todas realizadas ou posteriormente alteradas.
“Os Reys se concertaram na forma Seg.te. Hão se lhe de tirar ou Lançar fora as mitras, trunfas ou Coroas que tem nas cabeças e em seu Lugar se lhe faram cabellos bem Lançados e Coroas, mas em forma que se tirem p.a que no dia da festa este j ao com as Coroas em hua mão, e hua tocha, na outra, pera o que se lhe concertaram as mãos em forma que facão geito de pegar nas d.as tochas. E aos que não tiverem cetros se lhe farão e todos serão Levadiços p.a no dia da festa p.a (sic) terem postos aos pês.” (****)
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Foto de Emanuel Santos de Almeida em A Escola de Talha Portuense … de Natália Marinho Ferreira Alves, edições Inapa 2001

Flávio Gonçalves no seu texto aponta que, de facto “… as imagens de madeira dos reis de Judá não possuem, nas cabeças, quais­quer «coroas» móveis — nem sequer fixas —, embora as cabeleiras e barbas demonstrem que sofreram os retoques que haviam sido preconi­zados; onze dos monarcas empunham o ceptro — preso, por finos arames, às primitivas mãos das figuras…” (*)

Os seis primeiros reis
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Foto Robert Chester Smith (1912-1975). Biblioteca da Fundação Calouste Gulbenkian
Os ditos Reys ficaram Repartidos em forma que fiquem iguais nas distancias. A arvore de que já falíamos sera muy bem revestida de flores, frutos e folha­gens em bastante quantid.e por todas as partes que se vir tudo m.to ao natural fazendo se troncos capazes e acomodados p.a estarem os Reys…”(****)
Salomão e David
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Detalhe de foto de Emanuel Santos de Almeida em A Escola de Talha Portuense … de Natália Marinho Ferreira Alves, edições Inapa 2001

A figura do rei David mantém a sua harpa, ao contrário do que se propunha no contrato: “A El Rey David se tirara a arpa que tem, e em seu Lugar se porá hum Psalterio…”j21d      j22f
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Nota - O Saltério ou Psaltério (do grego psaltêrion) é um instrumento de cordas, de forma triangular ou rectangular, dedilhado ou tocado com arco, utilizado para acompanhar os salmos. Daí a sua ligação a David.
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Sano di Pietro (1406-1481) Assunção da Virgem 1448-52 têmpera sobre madeira 32 x 47 cm. Lindenau-Museum, Altenburg

Um Anjo tocando Saltério, detalhe da pintura de Sano di Pietro.salterio2

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No topo da Árvore São José ladeado pelos progenitores da Virgem, Santa Ana e São Joaquim. 

São José em pé com uma vara de açucenas na mão
“E posto que na planta senão mostre a Imagem de São Jozeph comtudo se acordou a que se lhe puzesse, o qual ficara no meyo da arvore pegado ao mundo, em pê, com hua vara de sucenas na mão tudo bem feito,…” (****)
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Detalhe de foto de Emanuel Santos de Almeida em A Escola de Talha Portuense … de Natália Marinho Ferreira Alves, edições Inapa 2001

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Foto Robert Chester Smith (1912-1975). Biblioteca da Fundação Calouste Gulbenkian.

Santa Ana e São Joaquim
O retábulo seria estruturado por “quatro colunas de altura de sete palmos e dois terços largos”, e ladeando a Virgem, entre colunas, um nicho com a imagem de Santa Ana e de São Joaquim, os progenitores de Maria.
“Na mesma forma serão os dous nichos de S.ta Anna e São Joachim que vão em segundo Corpo, os quais no Respaldo abriram p.a dentro pera se Comporem os S.tos.”(****)

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A  Imaculada Conceição

Por cima da Árvore um nicho com a escultura da Virgem tendo aos pés “… o globo do mundo, de madeira, envolvido pela serpente e debruado de cabecinhas de serafins.” (*)
Lembre-se a canção de Sá de Miranda acima citada:
…Virgem do Sol vestida & dos seus rayos
Claros em volta toda & das estrellas
Coroada & debaixo os pés a Lua sol, a lua,…”

Esta imagem do século XVI, em calcário, foi adaptada à figuração da Imaculada Conceição seguindo o contrato, “…como está ao antigo se ha de Reparar e aperfeiçoar pello milhor off.al de Imaginário e se lhe farão seus Seraphins ao pê e com huma meya Lua e o mundo, com sua bicha, e folhagem ao pee do mundo como se vê da planta. Nossa S.raTambém se lhe faram cabellos, porque se lhe ha de tirar a cabelleira que tem. o Minino se fará nu e aprefeissoara o que for necesr.0. Mais se fará huma Gloria e nella em nuvens no ar a Santíssima Trindade coroando a S.ra, e Logo sua gloria de Anjos em nuvens com seus introm.tos tudo bem acommodado em tal forma que não afronte m.to a talha nem tome as serventias…” (****)

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E Flávio Gonçalves escreve que se  “…à estátua se acrescentou, como se exigira, o resplendor de talha dourada, a «Santíssima Trindade» do remate e, aos pés de Maria, o globo do mundo, de madeira, envol­vido pela serpente e debruado de cabecinhas de sera­fins” não “…chegou a efectuar-se  ou então perdeu-se a colocação da «meia-lua» simbólica.” (*)
E prossegue afirmando que “..se à figura da Virgem — parcialmente ajus­tada à iconografia de N.a S.a da Conceição — se subtraiu a cabeleireira postiça, o corpo do Menino Jesus, ao contrário do que se estipulara, não chegou a ficar desnudo, conservando-se-lhe as formas da sua peque­nina túnica.” (*)
Refere ainda o documento de 1718 que “Leva mais o trono quatro Anjos mayores sobre nuvens com tochas na mão e tarjes p.a nella (sic) se escreverem alguas Letras concernentes ao misterio, como Tota pulchra es Maria: macula non es inte, e outras ao mesmo intento. Estes Anjos que serão do tamanho que mostra a planta se assentaram em forma que não tomem as serven­tias e os mais ficaram em ferros no ar, e Levara, mais dous pegados no mundo como como (sic) da planta se vê…”
Nos lados do retábulo entre “quatro colunas grandes de treze palmos e quarto”, decoradas “de folhagem emba­raçada”  e “meninos e pássaros” , os Quatro Doutores da Igreja que tiveram com os seus escritos particular importância na afirmação do culto da Imaculada.j23a
Detalhe adaptado de foto de Robert Chester Smith (1912-1975). Retábulo da Árvore de Jessé 1700-1725. B F.C.G.

O Contrato refere que “ Ha de Levar este Retabollo em coatro nichos os Coatro Doutores que particullarm.te escrveram da S.rã dos quais adiante fallaremos, fazendo só agora menção dos Lugares em que hão de estar. Destes se vê a forma da planta, e todos seram de pontos agudos Lançados pera fora e também os vãos de sima, tudo o que for possível, bem entalhados e Levan­tados com os Resaltos que mostrão, brincados com suas Rendinhas e os Respaldos dos ditos nichos serão direitos, porem de talha bem feita.”
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Detalhes de foto de Robert Chester Smith (1912-1975). Retábulo da Árvore de Jessé: lado do Evangelho, 1700-1725. B F.C.G.

Na parte inferior da "Árvore de Jessé", substituindo o antigo altar, encontra-se a escultura jacente do século XIX, representando a Virgem da Boa Viagem ou Boa Morte, deitada numa barca, símbolo da passagem entre a Vida e a Morte.
Isso salienta Flávio Gonçalves referindo que “Do esplendoroso retábulo da Arvore de Jessé já não existem o altar primitivo, paralelipípedo, nem os relevos do «banco» (a barra situada abaixo da figura de J esse). O altar actual, neoclássico, data dos princípios do século XIX, e à mesma época remonta a enorme e inestética caixa envidra­çada, ou maquineta, que o sobrepuja, contendo uma imagem de N.a S.a da Boa Morte ou da Boa Via­gem (*)

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Fotos de Robert Chester Smith (1912-1975). Retábulo da Árvore de Jessé 1700-1725. B F.C.G.

(CONTINUA)

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