Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















segunda-feira, 3 de setembro de 2012

BARROQUISMOS VII (9)

De regresso…

aj0A Igreja d’ouro (continuação)

13 - Capela mortuária da família de Luís Alvares de Sousa de invocação de Santo António da Porta.aj1

No arco de entrada um escudo com uma inscrição em caracteres góticos, e com a indicação da data de 1474 em que a capela foi concluída.aj2

Na capela a imagem de Santo António.aj3

Os retábulos do lado do Evangelho

Os três retábulos por serem dedicados ao culto mariano, embora de épocas diferentes apresentam-se de um modo coerente, invocando Nossa Senhora da Graça (da Rosa), Nossa Senhora da Conceição (com a Árvore de Jessé) e Nossa Senhora do Socorro (do Rosário dos Escravos).

14 - Retábulo de Nossa Senhora da Graça – 1743 (depois de Nossa Senhora da Rosa) de Manuel da Costa Andrade , e Francisco do Couto Azevedo.aj4

aj5Foto Robert Chester Smith (1912-1975). Biblioteca da Fundação Calouste Gulbenkian.

O Retábulo também está dividido em três partes e três andares. aj6idem

No andar superior ao centro uma pintura representando S. Francisco recebendo os Estigmas hoje substituído pelas insígnias marianas, o M e o A sobrepostos.

aj7Detalhe de foto Robert Chester Smith (1912-1975). Biblioteca da Fundação Calouste Gulbenkian.

Em nichos laterais duas imagens não identificadas. (Santa Rosa de Viterbo? Santa Rita de Cássia? já que ambas estão associadas às rosas.)aj7aidem

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À direita foto de Emanuel Santos de Almeida em A Escola de Talha Portuense … de Natália Marinho Ferreira Alves, edições Inapa 2001

No andar inferior ao centro uma pintura de Nossa Senhora da Rosa, ladeada pelas imagens de Santa Isabel de Portugal e Santa Clara.

aj8Detalhe de foto Robert Chester Smith (1912-1975). Biblioteca da Fundação Calouste Gulbenkian.

Santa Isabel (1271-1336) com um bordão, a mão esquerda segurando as rosas e aos pés o escudo de Portugal.aj9b    aj9

À direita foto de Emanuel Santos de Almeida em A Escola de Talha Portuense … de Natália Marinho Ferreira Alves, edições Inapa 2001aj9a

Do outro lado Santa Clara.

aj10Detalhe de foto Robert Chester Smith (1912-1975). Biblioteca da Fundação Calouste Gulbenkian.

Ao centro do retábulo, a imagem da Senhora da Rosa obra do século XV, no reinado de D. João I, e atribuída por José de Figueiredo a António Florentino (ou Florentim), sendo uma das mais antigas pinturas murais conservadas no país.aj11

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Maria e as rosas

O simbolismo da rosa associado a Maria concretizou-se de duas formas: o jardim das rosas e o Rosário. Maria tornou-se o modelo da união com Cristo e a rosa o símbolo dessa união. Daí que surjam representações da Virgem segurando uma rosa em lugar do ceptro. Essa representação em que a rosa simboliza Cristo pode ainda associar-se à Árvore de Jessé, sendo Maria a Jesse Virga e Ele a rosa que floresce no topo da árvore de Jessé. Saliente-se que na igreja de S. Francisco os retábulos da Senhora da Rosa e da Árvore de Jessé são vizinhos.

A associação da Virgem Maria às rosas é bem ilustrada por Dante, em sua descrição do Paraíso. No Canto 23 do Paraíso, v. 70-76, Beatriz convida Dante a contemplar a beleza de Maria, o jardim e a rosa.

“Perché la faccia mia sì t'innamora,
che tu non ti rivolgi al bel giardino
che sotto i raggi di Cristo s'infiora?

Quivi è la rosa in che 'l verbo divino
carne si fece; quivi son li gigli
al cui odor si prese il buon cammino."

(“Se a minha face tanto te enamora,/porque não olhas o jardim genuíno/sob os raios de Cristo que se enflora?

Aí é a rosa em que o verbo divino/carne se fez; lá são também os lírios/a cujo odor se teve o bom destino”.)

E mais adiante nos versos 88-90

Il nome del bel fior ch'io sempre invoco
e mane e sera, tutto mi ristrinse
l'animo ad avvisar lo maggior foco;

(Nome da bela flor que sempre rogo,/manhã e tarde, todo me cingiu/o ânimo por fitar o maior fogo.)

Untitled 108.tifGiovanni di Paolo Ilustração da Divina Comédia Beatriz mostra a Dante a Virgem na Rosa Celeste c. 1450 Yates Thompson The British Library.

A Virgem é por vezes colocada num jardim de rosas como na Virgem com o Menino no jardim das rosas de 1473 de Martin Schongauer (c. 1450-1914) na igreja de São Martinho em Colmar, Alsácia.

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Martin Schongauer (c. 1450-1914), Virgem com o Menino no jardim das rosas 1473 têmpera sobre madeira 201 x 112 cm. igreja dominicana de Saint-Martin, Colmar França

A Virgem no Jardim das rosas, obra prima do alemão Martin Schongauer, mostra Maria pensativa e melancólica, com um majestoso vestido vermelho, sentada com o Menino ao colo em frente a um roseiral, que se inicia a seus pés. Dois anjos preparam-se para a coroar.

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Detalhes da Virgem com o Menino no jardim das rosas 1473 de Martin Schongauer (c. 1450-1914)

À Virgem são por vezes associados anjos músicos aqui esculpidos na moldura do retábulo, com instrumentos de percussão (tambor e pratos) e de corda (violino, alaúde, harpa e viola de gamba).

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Também Matthias Grunewald (1470 - 1528), para o seu célebre retábulo de Isenheim (1513-1515), pintou um painel algo enigmático, tendo à esquerda o Concerto dos Anjos e á direita uma Virgem com o Menino, que se pensa inspirado na composição de Schongauer. Também a Virgem aparece associada à rosa e é acompanhada de anjos músicos.

aj14Matthias Grunewald (1470 - 1528), retábulo de Isenheim (1513-1515), Painel do Concerto dos Anjos e da Virgem com o Menino c.1515 óleo sobre madeira 265 x 304 cm. Musée d'Unterlinden, Colmar França

No lado esquerdo o Concerto dos Anjos, em que um anjo em primeiro plano toca violoncelo, outro mais afastado toca rebeca e ainda um terceiro anjo emplumado toca viola de gamba, ou seja todos instrumentos de corda.

aj14dDetalhe do Retábulo de Isenheim (1513-1515)

No painel da direita, a Virgem sentada com o Menino nos braços, também vestida de vermelho, tem como fundo uma paisagem com a abadia de Issenheim. Tem à sua direita uma cama, um pote e um vaso onde cresce uma figueira. À sua esquerda uma roseira onde desabrocham três magníficas rosas vermelhas.

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A Senhora da Rosa em algumas pinturas portuguesas

A Senhora da Rosa do século XV no Museu Machado de Castro em Coimbra

aj15Anónimo Senhora da Rosa segunda metade do século XV têmpera sobre madeira de castanho 209 x 128 cm. com moldura: 224 x 139,7 cm Museu Machado de Castro Coimbra

Num interior esquemático com duas janelas e ao centro um dossel vermelho que cobre parcialmente um trono de madeira onde a Virgem vestida de branco com um manto negro, segura com o braço esquerdo o Menino com uma pomba na mão direita e fazendo o gesto de abençoar com a esquerda, enquanto a Virgem tem uma rosa na mão direita.

aj15eDetalhe da Senhora da Rosa segunda metade do século XV

A mão que segura a rosa e a mão do menino que segura a pomba cruzam-se simbolicamente.

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idem

Dois anjos surgindo na parte superior coroam a Virgem.aj15daj15cidem

Duas personagens ajoelhadas perante a Virgem figuram no quadro. À esquerda uma mais pequena de hábito branco com a cruz de Cristo, enquanto à direita se ajoelha um monge franciscano.

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idem

Também numa pequena pintura sobre cobre, de autor desconhecido do Museu Nacional de Soares dos Reis no Porto, a Virgem é associada à rosa mas aqui é o Menino que entrega uma rosa a S. João Baptista.

aj16Autor desconhecido Nossa Senhora da Rosa óleo sobre cobre 14,8 x 11,4 cm. Museu Nacional Soares dos Reis Porto

A ligação entre as Rosas, a Virgem e Cristo e S. Francisco, é representada pelo Milagre da Porciúncula. S. Francisco ao colocar no altar da Capela da Porciúncula um ramo de rosas que tinha colhido, provoca a aparição de Cristo e da Virgem rodeados de anjos.

O episódio é retratado numa pintura de André Reinoso, originalmente no Convento de S. José de Ribamar em Algés, hoje no Museu Nacional de Arte Antiga em Lisboa.

aj17André Reinoso (activo entre 1610-1641) Milagre da Porciúncula 1635/40 óleo sobre madeira 172 x 98 cm. Museu Nacional de Arte Antiga Lisboa

O mesmo tema é também tratado por Bento Coelho da Silveira (1620-1708) no quadro intitulado Milagre da Porciúncula do conjunto referente à vida de S. Francisco na igreja da Madre de Deus em Lisboa. De notar a presença dos anjos músicos, sendo que um deles toca harpa e o outro de costas parece tanger um alaúde.

aj18Bento Coelho da Silveira (1620-1708) Milagre da Porciúncula igreja da Madre de Deus Lisboa

(Continua)

1 comentário:

  1. BELISSIMO TRABALHO... A ROSA ASSOCIO-A Á VIRGEAFLR DAS FLORES E CRISTO O FRUTO DO VENTRE DAROSA

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