Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















segunda-feira, 1 de outubro de 2012

BARROQUISMOS VII (11)

A Igreja d’ouro (conclusão)

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16 - Retábulo de N.ª Sr.ª Senhora do Socorro (Succurre Miseris) 1740, anteriormente de Nossa Senhora do Rosário dos Escravos - Manuel da Costa Andrade segundo risco de Francisco do Couto

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O retábulo também se reparte por três andares sendo que os superiores apresentam três nichos com imagens,

s3Foto SIPA/IHRU


s4Foto Robert Chester Smith (1912-1975). Biblioteca da Fundação Calouste Gulbenkian

No andar superior, ao centro um nicho com a imagem da Senhora do Rosário, coroada, envergando a tradicional túnica vermelha e o manto azul. Tem nos braços o Menino, também coroado.

Natália Marinho Ferreira Alves escreve que “Infelizmente, não possuímos quaisquer dados sobre a autoria das imagens de ambos os retábulos, se bem que no contrato do de Nossa Senhora do Rosário dos Escravos, seja mencionada a exigência de serem “as figuras e meninos que levar esta obra feitos por mão de um bom escultor”.

s6Se bem que talvez estivesse melhor quando referimos o retábulo de Nossa Senhora da Soledad, evocaremos aqui um célebre soneto de Antero de Quental (1842-1891),uma “…poesia…tão sincera, tão verdadeira, tão cheia de piedade e uncção,..” como no prefácio escreve o seu contemporâneo Oliveira Martins (1845-1894), acrescentando sobre Antero de Quental (“o santo Antero” como lhe chamou Eça de Queiroz) que “…se tivesse vivido no seculo VI ou no seculo XIII, seria um dos companheiros de S. Bento ou de S. Francisco de Assis. No seculo XIX é um excentrico, mas d'esse feitio de excentricidade que é indispensavel, porque a todos os tempos foram indispensaveis os herejes, a que hoje se chama dissidentes.”

À Virgem Santíssima

Cheia de Graça, Mãe de Misericordia

N'um sonho todo feito de incerteza,
De nocturna e indizivel anciedade,
É que eu vi teu olhar de piedade
E (mais que piedade) de tristeza…

Não era o vulgar brilho da belleza,
Nem o ardor banal da mocidade…
Era outra luz, era outra suavidade,
Que até nem sei se as ha na natureza…

Um mystico soffrer… uma ventura
Feita só do perdão, só da ternura
E da paz da nossa hora derradeira…

Ó visão, visão triste e piedosa!
Fita-me assim calada, assim chorosa...
E deixa-me sonhar a vida inteira.

in Os Sonetos Completos de Anthero de Quental publicados por J. P. Oliveira Martins, Livraria Portuense de Lopes & C.ª – Editores, 119, Rua do Almada, 123,  Porto 1886

A imagem da Virgem é ladeada por dois nichos: à direita a imagem de S. Cristóvão.

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Das inúmeras imagens de São Cristóvão escolhemos esta, proveniente do Convento de Chagas e actualmente no Museu de Lamego, pela semelhança com a existente no retábulo.

s30Autor desconhecido São Cristóvão século XVIII madeira de castanho altura: 76; bastão: 82; b. 3,7; largura: 45; b. 22; profundidade: 26; b. 21 cm. Museu de Lamego

Escultura de São Cristóvão descalço, sobre uma base quadrangular, levando o menino sobre o seu ombro esquerdo. Na mão direita segura um bastão arborescente. Uma farta cabeleira, enrolada sobre os ombros, enquadra um rosto de expressão inspirada, de boca entreaberta e olhar elevado. Veste túnica cintada com fita apertada em nó e laço. Seguro sobre o ombro esquerdo, enverga um amplo manto cobrindo as costas em pregueado de recorte ondulante. Aparentemente a imagem do menino não deverá pertencer ao conjunto original. Segura entre as mãos um coração e apresenta-se numa atitude bastante dinâmica, descrevendo uma acusada torsão do corpo. (descrição in Matriz Net)

E à esquerda da Virgem um nicho com a imagem de São Diogo (San Diego – Didacus -  de Alcalá 1400-1463) um franciscano espanhol canonizado em 1588.

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Detalhe de foto Robert Chester Smith (1912-1975). Biblioteca da Fundação Calouste Gulbenkian e de postal

Outras representações de S. Diogo.s29Autor desconhecido São Diogo 1625-1650 painel de azulejos 84 x 70 cm. Museu Nacional do Azulejo

s31Francisco de Zurbarán (1598–1664)  San Diego de Alcalá. 1651/53, óleo sobre tela 116 x 86,6 cm. Museu Lázaro Galdiano Madrid

No andar inferior a imagem de Santa Luzia ao centro e em dois nichos laterais São Gonçalo e, suponho São Patrício.

Santa Luzia (c.280-304)

Santa Luzia foi martirizada durantes as perseguições do imperador Diocleciano (244-311) em Siracusa. Está associada aos olhos já que segundo a lenda, teria arrancado os próprios olhos, entregando-os ao carrasco, preferindo isso a renegar a fé em Cristo. Algumas imagens representam Santa Luzia com os olhos numa bandeja.s9

foto SIPA/IHRU

s9aFoto Robert Chester Smith (1912-1975). Biblioteca da Fundação Calouste Gulbenkian

Dante Alighieri em A Divina Comédia refere Santa Luzia, como uma luz que o guia através do seu percurso. Por isso é referida em cada uma das três partes do poema.

No Inferno Canto II (97-102):

“Questa chiese Lucia in suo dimando /e disse: - Or ha bisogno il tuo fedele /di te, e io a te lo raccomando - .

Lucia, nimica di ciascun crudele,/si mosse, e venne al loco dov' i' era,/che mi sedea con l'antica Rachele.”

“E esta chamou Luzia lhe dizendo:/- Necessita de ti o teu fiel/e por isso eu a ti o recomendo - .

Luzia, imiga a todo o ser cruel,/disse, vindo ao lugar onde, primeira,/eu me sentava junto de Raquel.”

No Purgatório Canto IX (55-57):

“venne una donna, e disse:”I’ son Lucia;/lasciatemi pigliar costui che dorme;/si l’agevolerò per la sua via”

“veio uma dama e disse:”eu sou Luzia:/deixai-me pegar neste que adormece;/lhe tornarei mais fácil sua via.”

No Paraíso Canto XXXII (135-138):

“e contro al maggior padre di famiglia/siede Lucia, che mosse latua donna/quando chivani, a rovinar, le cicglia.”

“e ora ao maior pai de família, em frente,/Luzia está, que moveu tua dona,/quando olhos tu baixavas, desistente.”

Outras representações de Santa Luzia.

Santa Luzia século XVI na Igreja Madre de Deus.s10

E a Santa numa pintura de Vasco Fernandes  do Museu Nacional de Soares do Reis.s10aVasco Fernandes (act. 1501-1542) Santa Luzia c.1511-1515 óleo sobre madeira de carvalho 101,3 x L.61 cm Museu Nacional de Soares dos Reis

S. Gonçalo (1187-1262)

Um dos santos mais populares em Portugal, dominicano, tendo viajado por Roma e Jerusalém, fixou-se em Amarante onde terá construído a ermida que deu origem à actual igreja e a ponte sobre o Tâmega. O seu culto foi permitido pelo Papa Júlio III (24 de Abril de 1551) e confirmado por Pio IV (1561); Clemente X estendeu o ofício e a Missa a toda a Ordem dominicana (1671).

s11No retábulo, S. Gonçalo está com o hábito dos dominicanos, tendo um bordão na mão direita e segurando um livro na esquerda.

Na pintura do Museu de Aveiro, para além destes elementos uma paisagem urbana representando Amarante com a igreja e a ponte sobre o rio.

s28António André (c. 1580- c.1654) São Gonçalo de Amarante c. 1600 – 1650 óleo sobre tela 84 x 92 cm. Museu de Aveiro

S. Patrício (387-461)

O Santo é representado com o traje de bispo, segurando um livro na mão esquerda e com a direita esmagando um monstro com o báculo. De facto, conta a lenda que terá eliminado as serpentes, o Demónio, da Irlanda e por isso é representado esmagando um qualquer monstro a seus pés. Para explicar a Santíssima Trindade utilizava o trevo que lhe ficou, por isso, associado. É o santo padroeiro da Irlanda, e a sua presença no retábulo presumo esteja ligada à colónia britânica que ao longo do século XVIII, ia crescendo de importância na cidade do Porto.

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St. Patrick Hibernie Apostle 1806 gravura colorida publicada por P. Gally Londres The British Museum

Pormenores do retábulo

s5Foto Robert Chester Smith (1912-1975). Biblioteca da Fundação Calouste

s33Foto de Emanuel Santos de Almeida em A Escola de Talha Portuense … de Natália Marinho Ferreira Alves, edições Inapa 2001

p – Púlpitos

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Na nave central apresentam-se dois púlpitos simétricos, decorados com talha dourada.s14

s14cFotos SIPA /IHRU

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s14aFotos Robert Chester Smith (1912-1975). Púlpito: lado do Evangelho, ca 1740. B F.C.G.

C Coros15

A igreja apresenta ainda um “…coro, com quanto não apresente grande capaci­dade, tem um óculo primorosamente feito de pedra, que dá luz para o seu interior, e por este estão dis­tribuídos 22 quadros a óleo, representando sanctos e differentes passos da escriptura.” in Elucidário do Viajante no Porto por Francisco Ferreira Barbosa Coimbra Imprensa da Universidade 1864

s16Foto SIPA/IHRU

No coro um cadeiral.

s17Foto SIPA/IHRU

s17aFoto Robert Chester Smith (1912-1975).B FCG

o – Orgão de tuboss20

Dp lado sul do coro um orgão de tubos cujo contrato para a sua execução data de 1731, e foi assinado entre Mesa da Ordem Terceira de São Francisco e o Padre Manuel Lourenço da Conceição.

s21Foto Robert Chester Smith (1912-1975). B FCG

s21aFoto SIPA/IHRU

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Nota – O Anjo do título é a adaptação desta água forte 18,2 x 15 cm. de Giuseppe Maria Mitelli (1634-1718)

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