Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















sábado, 22 de dezembro de 2012

BARROQUISMOS VII (13) 1ª parte

A cidade baixa na gravura de Teodoro de Sousa Maldonado
Agostinho Rebello da Costa na sua Descripção Topographica e Historica da Cidade do Porto afirma que a cidade ribeirinha dentro da muralha estende-se “…entre estes dous Montes” ,do Olival e da Sé , onde “medea huma dilatada planice, que se divide em tres Valles sobranceiros huns aos outros”. Assim a zona ribeirinha apresenta-se na gravura de Teodoro de Sousa Maldonado, em três planos, correspondentes à estrutura dos espaços públicos (ruas, largos, praças) e tendo significativamente ao centro o convento de S. Domingos, no enfiamento da Torre dos Clérigos e da porta da Lingueta.

1 – Um primeiro plano que “abrange a Ribeira, Fonte Taurina, e toda a Revoleirra, até a Porta Nova”
2 – Um segundo plano continua por toda a Rua Nova de S. Nicolao

Os quais foram tratados neste blogue.

 3 – Um terceiro plano que  dilata-se desde o Convento de S. Bento das Freiras até S. Domingos”. E que se prolonga pela rua de Belmonte até ao Largo e ao convento de S. João Novo.fl0

Na gravura de T. S. Maldonado, neste percurso estão assinalados: o convento de S. João Novo (n.º10), o convento e O.T. de S. Domingos (n.os 19 e 23) e ligados à assistência, a Misericórdia (n.º 26) e o Hospital de S. Crispim (n.º 30).fl1Este percurso, eixo principal da cidade desde o século XVI, centrava-se no largo de S. Domingos e estendia-se para Nascente pela manuelina rua das Flores, ao longo do vale do rio de Vila, até à Porta de Carros e, para Poente pela rua de Belmonte até ao largo de S. João Novo. Estas ruas, que desde o século XVI, se vão edificando, atribuem um papel de charneira ao Largo de S. Domingos.fl5As ruas, portas da muralha e edifícios principais na primeira metade do século XVIII, na planta de 1839fl134

A importância da rua (de Santa Catarina) das Flores e do Largo de S. Domingos no século XVIII

Refere Agostinho Rebello da Costa: o “Bairro da Sé, tem entre as principaes Ruas o primeiro lugar, a das Flores, obra d’El Rey D. Manoel, e que contém as lojas mais ricas da Cidade, tanto em fazendas de lam, e seda, como em todo o género de Mercearia, Porcelanas, lojas de Ourives d’ouro, prata &c.”

Rebello da Costa refere ainda o conjunto de ruas que articulam a o eixo da rua das Flores com a cidade como “as Ruas dos Canos, Ponte Nova, Banharia, Mercadores,” e ainda a (…) Rua Nova de S. João, …aberta no anno de 1765., e está firmada sobre grossos arcos de cantaria, que formaõ huma espécie de Rua subterrânea, e pela qual passa o Rio chamado da Villa.”

O trânsito fazia-se através das estreitas ruas dos Mercadores, das Congostas, e da Ferraria de Baixo, até à abertura, já no século XIX, das ruas Ferreira Borges e Mouzinho da Silveira. fl5a

É ainda referida por Agostinho Rebello da Costa na sua Descripção Topographica e Historica da Cidade do Porto a Praça de S. Roque embora não desenhada ou numerada na gravura de T.S. Maldonado.

1 - O Convento e o Largo de S. Domingos (invocação de Nossa Senhora dos Fiéis de Deus)

O convento de S. Domingos assinalado na gravura de Maldonado com o N.º 23 Dominicos, dominando a cidade baixa (colocado no centro da gravura e no enfiamento da Torre dos Clérigos), é de facto até ao início do século XIX, o edifício central da cidade e onde se realizam as principais reuniões e se tomam as principais decisões sobre o Porto.fl12

Agostinho Rebello da Costa refere-o como “… o mais antigo de todos, fundado no anno de mil e duzentos e trinta e nove, em huma formosa Praça, á qual elle deu o nome. A sua Igreja, que era de três naves, foi devorada pelo fogo em mil settecentos e settenta e sette: presentemente servem-se os seus Religiosos da Capella pertencente á Ordem Terceira da Santissima Trindade.”

O convento de S. Domingos (n.º 5) na gravura de Duncalf.fl137De facto “He o Convento da cidade do Porto terceiro em tempo, e ordem do antiguidade dos que temos em Portugal: mas o primeiro, que foi pedido por conselho, e decreto de Bispo, e Cabido no Reino.” (1). Dada a sua situação junto ao Largo a que dá o nome, na confluência dos percursos entre a portas Nova e de Carros e entre a praça da Ribeira, a rua de S. Nicolau (actual rua do Infante) e o largo de S. Domingos, o convento ocupa desde o século XVI, uma posição privilegiada e central na zona ribeirinha da cidade. Ou como diz Frei Luís de SousaPorque, como a cidade está situada em lugar dependurado, e o Convento lhe fica no meio, e como no coração d’ella, não ha lugar mais a propósito pera ser frequentado dos negociantes, juntando-se a commodidade da igreja, e o amparo, que o alpendre dá pera Sol, e agoa. A vista dos dormitórios cae sobre o Douro, que faz porto á cidade, e lava as muralhas, que decem a beber na agoa. Assi he o posto aprazível, e sadio.” (2)

(1) Manuel de Sousa Coutinho (c.1555-1632) conhecido como Frei Luís de Sousa, Historia de S. Domingos Particular do Reino e Conquistas de Portugal, Livro III,cap. IX Da origem, e principio do Convento da cidade do Porto : e das cousas que houve pera se aceitar pola Provincia, 1623/26

(2) idem, Livro III cap. XIII, Faz a Rainha dona Mafalda doação do padroado de uma Igreja á Sé do Porto, pera de todo pacificar o Bispo, e Cabido com os Frades. Procede o Bispo com elles em amizade: faz- lhes esmolla de duas fontes pera o Convento. 1623/26.

Em 1728 o Convento de S. Domingos é o palco central dos festejos que mobilizaram toda a cidade, por ocasião dos “…felices despozorios do Serenissimo Senhor D. Joseph Principe do Brasil com a Serenissima Senhora Dona Maria Anna Victoria Infanta de Castella, e do Serenissimo Senhor D. Fernando Principe das Asturias com a Serenissima Senhora Dona Maria Barbara Infanta de Portugal…”. (3)

(3) Relaçaõ dos Festivos Applausos com que na Cidade do Porto se Congratularaõ os felices despozorios dos Serenissimos Senhor Dom Joseph Principe do Brasil, e Senhora D, Maria Anna Victoria Infanta de Castella, e dos Serenissimos Senhor D. Fernando Principe das Asturias, e Senhora D. Maria Barbara Infanta de Portugal., Lisboa Occidental, Na Officina da Musica, anno 1728.

fl12a

O “grande alpendre que cobre o adro” no dizer de Frei Luís de Sousa e a que se refere Rebello da Costa  “servia de recreaçaõ e casa de negocios naturaes”, e aí se realizavam as principais reuniões e eventos civis da cidade, entre os quais sessões da Câmara e outras.

Em 1914, Firmino Pereira em O Porto d’outros tempos (4) aponta a importância que teve o Convento de S. Domingos e em particular o seu alpendre: “O edifício ficou concluído em 1245, mas só em 1320 é que terminaram as obras do pátio ou alpendre, que ficou celebre na historia do Porto por ali se reunir varias vezes o senado da Camara para deliberar sobre assuntos em que estava empenhada a honra da cidade. Foi no alpendre de S. Domingos que funcionou a primeira Bolsa que houve no Porto; que se reuniram os homes boos para aclamar D. João I; e que o senado da Camará decidiu mandar sair da cidade o orgulhoso fidalgo Ruy Pereira, senhor da Terra de Santa Maria, que ousara demorar-se no Porto mais tempo do que era permitido pelos decretos reaes.

Sob a espaçosa arcaria do alpendre levantavam-se igualmente vistosas barracas ou tendas onde se vendiam jóias e panos vindos de Veneza, Nápoles e Florença. Era, no século XIV, o ponto de reunião da gente grada do Porto, onde, como diz o douto Novaes (5), “se franquea la conversacion de todos
los caballeros y ciudadanos, abrigados del sol y lluvia en seo grandíssimo âmbito y debaxo do seu techo.”

(4) Firmino Pereira O Porto d’outros tempos – Notas Históricas – Memórias – Recordações, Livraria Chardron, de Lello & Irmão.
Rua das Carmelitas, 144 — Porto 1914

(5) Manoel Pereira de Novaes. Anacrisis historial del origen i fundacion i antiguidad de la mui noble y siempre leal ciudad de o Porto, c. de 1690 B.P.M.P Porto : Typ. Progresso, de Domingos Augusto da Silva, 1912-1919

Planta reconstituída do Convento de S. Domingos in Arqueologia n.º 10fl161 – Igreja 2 – Claustro 3- Cerca 4 – Igreja dos Terceiros 5 - Ermida

"Junto à igreja d'este convento (1), havia uma ermida antiquíssima (5), para a qual se subia por uma escadaria muito íngreme e de muitos degraus, e suppõe o chronista, ser esta a igreja que o bispo D. Pedro offerecia aos frades, na mensagem que mandou ao capitulo de Lugo, e n'aquella ermida, ou igreja velha, existiu muitos annos uma confraria, que n'ella instituiram os mercadores da cidade, por contrato feito com os frades, em 1556".

“O claustro (2), localizado a sul da igreja, tinha onze nichos abertos nas paredes, quatro na parte do dormitório, dois do lado do refeitório, quatro na parede que dava para a igreja e um junto ao capítulo, todos de pedra lavrada, com postas de castanho pintadas e dentro deles os passos da via-sacra.”

“Por cima da casa do Capítulo ficava um dormitório com três janelas para a rua das Congostas, uma sala grande, com duas janelas, uma para nascente e outra para norte, uma sala grande com duas janelas para a rua das Congostas, protegidas por grades de madeira e quatro alcovas com quatro camas para servir de casa de hospedaria. A sul ficava o dormitório grande, comunicando com o outro através de um arco. Tinhas dois andares de celas, ocupando os priores o de baixo.”

"A velha igreja conventual, (1)  com orientação nascente / poente, era constituída por três naves "sendo a do meio mais elevada, iluminava o interior com o seu clerestório", divididas em quatro tramos, por arcos ogivais assentes em pilares "sem bases, subindo lisos até aos capitéis" distanciados uns dos outros de 5,73 m. O comprimento tomado desde o cruzeiro à fachada principal não ultrapassava os 27,28 m, e de largura de parede a parede 16,50m " (6)

(6) in  Soares de Oliveira A IGREJA DE S. DOMINGOS NO PORTO – Apontamentos para a sua história, por , Separata do Boletim Cultural da Câmara Municipal do Porto, Vol. XV, Porto, 1952

A Igreja dos Terceiros de S. Domingos

Ainda no século XVII, é inaugurada em 1686 uma capela dos irmãos terceiros junto à igreja dos frades. Estes nos meados do século XVIII e numa ausência dos Terceiros, saídos em procissão, ocuparam-na definitivamente, num conflito apenas resolvido pelo papa Bento XIV quando extingue a Ordem Terceira de S. Domingos e é criada a Ordem Terceira da Trindade.

fl14Joaquim Villanova  Egreja de S. Domingos

A história é contada por J.M.P.Pinto    da seguinte maneira:

“Os frades apossaram-se da igreja e pertenças da ordem terceira, que lhes era contígua, na occasião em que esta tinha sahido com a sua pro­cissão, tendo-se elles previamente introduzido humil­demente e a muitos rogos, sob pretexto de dizerem missa e celebrarem os officios divinos, em quanto não reedificassem a sua igreja. Pouco depois de sahir a procissão dos Terceiros, os frades trancaram as portas, obstando a que a procissão se recolhesse, ficando os Terceiros d'esta maneira expulsos para todo o sempre, apesar das grandes demandas que houveram, e indo-se depois d'isto alojar na igreja de S. Chrispim, donde se mudaram para a capella de N. S.a da Batalha, e depois para a igreja do Cal­vário, defronte de S. José das Taipas. Mais tarde por bulla do Papa, foram reformados de Terceiros de S. Domingos que eram, para Terceiros da ordem da SS. Trindade, com a clausula de não ficarem su­jeitos a ordem fradesca. Por este motivo foram edi­ficar a sua igreja no largo do Laranjal.” (7)

(7) J. M. P. Pinto – Apontamentos para a Historia da Cidade do Porto, juntos e coordenados por J. M. P. Pinto,  Porto Typographia Commercial Bellomonte, 1869

Esta igreja foi demolida em 1835 para a abertura da rua Ferreira Borges.

fl136Plano topographico que representa a actual direcção da rua Ferreira Borges pelas linhas marcadas de preto, e ao mesmo tempo a direcção que pode tomar para empedir a demolição de hua parte da igreja de S. Francisco, segundo as linhas que terminam em A.B. Joaquim da Costa Sampaio Lima 1838 AHMP

2 - O Largo de S. Domingos

Manoel Pereira de Novaes, descreve o largo de S. Domingos nos finais do século XVII:

“…sigue la Calle de Santo Domingo plana e derecha hasta su plaça, que alli la hase Capacissima y espaciosa hasta la Misericordia, y lo fuera Mayor si el Atrio desse Convento no lo estorvara…” (8)

(8) Manoel Pereira de Novaes. Anacrisis historial del origen i fundacion i antiguidad de la mui noble y siempre leal ciudad de o Porto, c. de 1690 B.P.M.P Porto : Typ. Progresso, de Domingos Augusto da Silva, 1912-1919

No século XVIII, reflectindo a importância que o Largo de S. Domingos vem assumindo, são elaborados projectos de intervenção.

T. S. Maldonado projecta uma reorganização do Largo a partir da deslocação do Paço. Em 1835 (foi) demolido o Passo que existia no lugar «em que a rua de S. Domingos se juntava ao largo do mesmo nome». (9)fl116Planta do Largo de S. Domingos e ruas limítrofes sem data e assinada por Teodoro de Sousa Maldonado AHMP na legenda - “A – Largo e chafariz de S. Domingos B - Terreno público C- paço de S. Domingos D- Largo para onde pode ser mudado o Paço E- Rua Nova de S. João F – Misericórdia”

Em 1774, o cônsul John Whitehead, elabora um projecto, com uma fundamentação geométrica, iluminista e racional,  baseado no prolongamento da rua Nova de S. João até à fachada da igreja da Misericórdia e reorganizando o largo, dando-lhe uma forma de um triângulo, a partir desse prolongamento e da correcção das ruas das Flores e de Belmonte.

O Largo em 1774fl19Planta 1774 atribuída a John Whitehead AHMP, Livro de Plantas

O projecto de John Whiteheadfl4 - CópiaJohn Whitehead Planta da praça de S. Domingos 1774 AHMP Livro de Plantas

Na legenda - As letras A. B. C. D. na Planta mostrão huma pequena Praça publica, Projectada por baixo de S. Domingos. A. D. I. G. mostrão outra Planta de uma Praça Projectada triangularmente e de mayor tamanho, em que se inclui a direcção da Rua S, João atté à esquina da Igreja da Misericórdia, terminada pela letra X. Na mesma Planta: e afin de effectuar a execução deste último projecto he preciso cortar as casas, incluídas nos três triângulos = D.C.I. = G.M.L. = e A.E.F. na planta ou escolher a pequena praça por baixo de S. Domingos. Foi projectado em 1774 pelo cônsul de Inglaterra.”

fl4dfl4 cópia

Este projecto por razões várias, nunca foi, no entanto, realizado. Mas persistiu no imaginário da cidade, até à abertura da rua de Mouzinho da Silveira (nos anos 70 do século XIX), em que o projecto deixa de ter sentido.

Na gravura de Joaquim Cardoso Villanova, de 1833, a rua de S. João aparece tendo ao fundo a fachada da igreja da Misericórdia.fl147Joaquim Villanova Ruas de S. João e dos Mercadores.

Nas plantas que no século XIX, para além do levantamento da cidade pretendem incluir alguns arranjos urbanos de uma forma ou outra subsiste a ideia do cônsul inglês.

fl133Teodoro de Sousa Maldonado Planta do largo de S. Domingos sem data  AHMP Livro de Plantas

fl133cLegenda: “A letra A na planta indica que a rua nova de S. João foi primeiramente projectada continuar-se segundo a linha 1, 2. Depois houve novo projecto em se demolir o que fosse necessário para a área da rua ou até à linha 3, 4. Ultimamente projectou-se terminar a rua do Largo B e demolirem-se as casas que ficam ao poente da linha 1, 5 e então se demolia a casa que ocupara a área n.º 6. Agora, porém, julgando-se desnecessário tanta área com muita despesa pública se examinou em vistoria, que podiam conservar-se as casas n.º 7 e ceder-se a casa n.º 8 à área n.º 6, segundo os limites das suas linhas, cortando da casa n.º 8 o triângulo a b c para ficar mais larga aquela servidão, e o triângulo a b c – 365, que tirados da quantia a tinta ficam líquidos 2 567,8”.

Na planta de José Francisco de Paiva (anterior a 1824), o largo de S. Domingos é remodelado com uma pequena inflexão na ligação da rua de S. João com a rua das Flores e com a abertura de dois arruamentos a nascente. Um que se dirige para a praça de S. Roque ( correspondente a um troço da futura Mouzinho da Silveira) e outra ligando o largo com a Sé.

se24azul

Nesta planta de Joaquim Costa Lima de 1835, (in Porto Antigo http://www.portoantigo.org/) está apontado o Projecto da Ex.ma Camara para a abertura da rua Ferreira Borges, até ao prolongamento da rua das Flores, decorrentes da instalação da Associação Comercial no convento de S. Francisco, e do Banco de Lisboa (filial do Banco de Portugal) no Convento de S. Domingos.fl18

Desenho de Joaquim da Costa Sampaio Lima (1835)

Para além da referência a um Projecto do Exmo Brigad.ro Paulet é de notar a referência ao Antigo projecto de prolongar a rua de S. João até à fachada da igreja da Misericórdia, e da rua das Flores até à (futura) rua Ferreira Borges. De notar a igreja de S. Crispim, (que veremos mais adiante) e o chafariz do Largo de S. Domingos.

Desenho de Joaquim da Costa Sampaio Lima (1835)

Na planta de 1839, elaborada por Joaquim da Costa Lima Júnior (1806-1864) persiste o plano de Whitehead.fl114

O chafariz de S. Domingos

Arnaldo Gama em Um Motim à cem anos, o romance em que descreve a revolta dos taberneiros contra a Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto-Douro, também denominada Real Companhia Velha, e que provocou a vinda para o Porto de João de Almada, refere o largo de S. Domingos, com o seu chafariz, o oratório e o murinho:  “O tropel rodeia o antigo chafariz, de que de certo se há-de lembrar, porque a camara, ainda há poucos anos, o fez desaparecer, substituindo-o pela fonte que construiu mais adiante ao voltar para a rua de Bellomonte, a piquenissima distancia do local onde havia o passadiço de pedra conhecido pelo murinho de S. Domingos, célebre nos annaes da bisca lambida e dos gallegos e vadios do Porto, Havia também ahi um oratório ou passo, como se diz em língua devota.” (…) A camara mandou derruba-lo n’um dos primeiros mezes do anno (…) 1845. Esse chafariz era um dos muitos que havia no Porto, todos eles pertencentes, na maior parte, aos seculos XVI e XVII. N’essa época o chafariz era luxo, era considerado adorno das cidades. Nas praças e logares mais públicos era pobreza e miséria construir fontes. O Porto tinha oito públicos: o da Ribeira, o de S. Domingos, o das Taipas, o da porta do Olival, o da Fabrica, o da rua Chã, o de Santo Ildefonso, e o da Sé.”  (10)

(10) Arnaldo Gama Um Motim Ha Cem Annos, Chronica Portuense do Seculo XVIII, 2.ª Edição revista pelo author, Porto Typographia do Commercio, Ferraria de Baixo n. 108, 1865

O chafariz do Largo de S. Domingos  foi transferido em 1845 para o Largo do Laranjal e encontra-se junto à Igreja da Trindade. A Câmara mandou então erguer uma fonte, em S. Domingos, junto ao prédio de Manuel Francisco Araújo o fundador da Papelaria Araújo & Sobrinho, que ainda hoje ali existe.

fl24

Magalhães Bastos O Porto do Romantismo

Enfiando pela rua das Flores, ladeada de lojas de panos e ourivesarias, iremos dar a S. Domingos A rua das Flores vem ter a rua que deve o nome à velhíssima ponte nova, por onde se atravessa para a outra margem do infecto riacho de imun­dícies— o rio da vila, de que falámos. Do meio do largo de S. Domingos fora retirado recentemente o chafariz que ali ha­via, tendo a Câmara construído a fonte que até há não muitos anos existia nos baixos da casa da centenária papelaria Araújo & Sobrinho.

Obras importantes realizadas neste largo e na rua do mesmo nome tinham tornado mais suave o acesso às ruas de Belo-monte e das Flores, do lado da rua de S. João.

Entretanto com a construção do Palácio da Bolsa, no antigo convento de S. Francisco e com a a abertura da rua Ferreira Borges, “O convento que occupavam os religiosos domi­nicanos, foi em parte demolido, para se abrir a rua do Ferreira Borges, e outra parte alugada no 1.° de junho de 1834 á Caixa filial do Banco de Portugal.” (9)

(9) Artur de Magalhães Basto, O Porto do romantismo, Coimbra : Universidade, 1932

O edifício do Convento de S. Domingos teve em 1822 um primeiro projecto de adaptação para Alfândega.fl135"modelo para uma nova Alfândega 1822 "Planta n.º 6 Frente do Convento de S. Domingos" do Arquivo Histórico do Ministério das Obras Públicas AHMOP in catálogo da exposição  "Alfândega Nova - O Sítio e o Signo, Museu dos Transportes e Comunicações, 1995.

E foi depois ocupado pela Filial do Banco de Portugal, e posteriormente pela companhia de seguros Douro, e é actualmente o Palácio das Artes da Fundação da Juventude.fl20Joaquim Villanova Convento de S. Domingos (Hoje Caixa Filial do Banco de Portugal)

Um outro chafariz que possivelmente se encontrava no claustro do Convento de São Domingos foi transferido para o Jardim de São Lázaro.

fl107     fl90

O Largo de S. Domingos na planta de 1892Imagem4 cópia

3 - O Hospital e capela de S. Crispim

Na gravura de Teodoro de Sousa Maldonado com o N.º 30 Hospital de S. Crispim.fl21

E no texto de Rebello da Costa “Segue-se a Irmandade de S. Crispim pertencente aos Çapateiros;…”

O Hospital de S. Crispim, dos Palmeiros ou dos Sapateiros, foi doado em 1307, “…por documento tabeliónico lavrado no alpendre do Mosteiro de S. Domingos, onde costumavam reunir-se os sapateiros da Confraria e em cuja igreja deviam sufragar as almas dos fundadores, seus pais e irmão” e destinava-se aos “muytos pobres Romeyros que vão, e vem para o Senhor San Tiago, e se em elle colhem, e podem colher ao diante” segundo um documento do Arquivo Nacional da Torre do Tombo referido por Geraldo J. A. Coelho Dias. (11)

(11) Geraldo J. A. Coelho Dias “A Irmandade de S. Crispim e S. Crispiniano: uma relíquia da Idade Média no Porto moderno”, in Estudos em homenagem ao Professor Doutor José Marques, vol. 2, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2006.

E “…que a louvor de Deos e da Virgem Maria Sua Madre e do glorioso São Domingos, pelas custas e despesas proprias e seu próprio haver, e trabalhos de seus corpos, grandes fizerão e edeficarão na sua herdade da Ponte de São Domingos, hum hospital em o dito logo, e hora hedeficado, e assentado, em o qual edeficamento, e acabamento deste hospital despenderão muyto do seu haver, e considerando como desse hospital recresce e recrescerá de cada dia muyto serviço a Deos, por muytos pobres Romeyros, que vão, e vem para o Senhor San Tiago, e se em elle se colhem, e podem colher ao diante...” (12)

(12)Maria Helena Mendes da Rocha Oliveira “A Confraria de S. Crispim e S. Crispiniano e o seu Hospital na Idade Média” Dissertação de Mestrado apresentada na Faculdade de Letras da Universidade do Porto 2001

Ficava na Rua da Ponte de S. Domingos "hindo do Convento de S. Domingos para bayxo fazendo fronte por hum lado a rua das Congostas".Desenho de Joaquim da Costa Sampaio Lima (1835)

A benção fez-se a 16/X/1795 e o Provedor do Porto, em 13/X/1795, homologando um alvará da Rainha Dª Maria I, honorificava a instituição como “Real Irmandade”, modificando-lhe o brasão, que passava a ser encimado pela coroa real e com as armas de Portugal.

Sousa Reis descreve a igreja, dizendo que o todo “se torna digníssimo de estima geral desta Cidade, que neste templo possue uma peça de muito merecimento” e “foi lá que se guardou, desde 1821 até ser depositada no Museu de Arte Sacra do Seminário Maior, a célebre imagem de Santa Ana, que o tripeiro Almeida Garrett imortalizou no “Arco de Sant´Ana”. (13)

(13) Sousa Reis -  Apontamentos para a verdadeira história antiga e moderna da Cidade do Porto,I Volume, Porto, Biblioteca Pública Municipal do Porto, 1984 (citado por Geraldo J. A. Coelho Dias)fl22Joaquim Villanova Capella de S. Crispim

Em 1872, com a abertura da rua de Mouzinho da Silveira é desmantelado e reconstruído num terreno ao cimo da Rua de S. Jerónimo (Santos Pousada) em frente do jardim da Póvoa de Cima (Praça Rainha D.ª Amélia), sendo a igreja consagrada em 1878. (14)

(14 )cf. Arnaldo Sousa Melo, Henrique Dias, Maria João Oliveira e Silva Palmeiros e Sapateiros – A Confraria de S. Crispim e S. Crispiniano do Porto (séculos XIV a XVI) Editora Fio da Palavra, Colecção Fio do Norte, 2008.

CONTINUA

7 comentários:

  1. Feliz Natal,
    Siempre que aparecen sus post, disfruto realmente con estos bien elaborados escritos, sobre la historia de la maravillosa ciudad de Porto y otros temas.
    Recuerdo que dimos casualmente con Do porto e não so,buscando información sobre los coches Ripert, y fue aquí donde encontramos la mas completa.
    Reciba mis mejores deseos para estos días y el próximo 2013 y una larga vida a su interesantisimo blog.
    rails i ferradures

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    1. Caros railsiferradures
      Um Feliz Natal para vocês,que sobre os transportes de Barcelona (e não só!)tem posts magníficos, num dos melhores blogues que acompanho. Um bom Ano.

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  2. Bom dia,

    Excelente post de um blog já por ele excelente e que é para mim uma fonte de conhecimento!

    O tema do Convento de S. Domingos é-nos muito querido, pois é provávelmente o único onde vamos diretamente às fontes em vez de cingir com o que já se encontra publicado; e desde então já detetamos alguns deslizes (não de todos os autores, note-se!).

    No caso da descrição do convento, por exemplo, aquilo que na Revista de Arqueologia designaram como "Ermida" era na realidade a sacristia "nova" da igreja, da época barroca. Assim como o que desginam por cerca era em realidade o edificado que correspondia aos dormitório, celeiros, etc.. (Aliás, foi o próprio autor da planta que o descreveu na sua legenda original, salvo erro datada de 1845).
    A cerca ficaria ao sul, extendendo-se, grosso modo, meio do Jardim do Infante (o que nas plantas que publica se vê perfeitamente).
    E a ermida a norte da Igreja, seria (mas não há certezas) a de Nª Srª da Escada, que vinha já do século XIII e que no século XV recebeu a confraria da Nª Srªdas Neves, passando a designar-se com esse nome. Essa era a famosa ermida que tinha por baixo o arco de S. Domingos, que mais não era do que o arco que a suportava.
    No último livro do foral do convento vem descritos os arrendatários dos arcos (já como eles se nos apresentam na atualidade e não "em alpendre") onde se vê que o Banco de Lisboa ainda estava instalado apenas em dois deles, sendo os restantes arrendados a particulares. Nesse livro referem os frades também as casas que se encontravam encostadas ao dormitório novo (o edifício que ainda hoje subsiste) como a casa chamada "das Neves" e a casa chamada de "S. Gonçalo", também arrendadas a particulares. Essas casas estavam onde hoje temos a Rua Sousa Viterbo e eram conhecidas, nos meados do século XIX por "casas do cantinho".

    É curiosa nomenclatura que os frades usam, uma vez que a capela "das Neves" estavam encostada ao transepto da igreja medieval, pelo lado de fora e que comunicavam para dentro da igreja através desse mesmo transepto, pela capela de S. Gonçalo, já no interior da igreja.

    NOTA: Se nos fornecer o seu e-mail, poderei enviar-lhe uma foto onde se vê a Igreja velha e até mesmo os restos da Igreja dos terceiros, com todo o gosto.

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    1. Caro leitor do meu blogue: Agradeço o seu pertinente comentário que me dá preciosas indicações sobre o Convento de S. Domingos.O meu e-mail é rmodera@gmail.com

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  3. É de referir a qualidade do blog "Do Porto e não só", no entanto é lamentável que algumas fotografias tenham sido extraidas directamente do livro "Porto Desparecido", do qual sou co-autor. Na reprodução neste blog algumas imagens referem essea proveniencia, outras não, no entanto essa reprodução, insisto feita a partir do livro nunca teve a autorização dos autores.

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    1. Caro Mario Morais Marques:Tenho tido o cuidado de referir sempre a origem das fotos que coloco no meu blogue. É certo que nunca pedi autorização aos autores do (excelente) livro O Porto Desaparecido, mas por isso em relação a essas fotos tenho tido particular cuidado, mesmo se alguma me possa escapar. Por outro lado há fotografias publicadas no vosso livro que pertencem a arquivos publicos e privados e que estão disponíveis noutras fontes.Por exemplo,num dos próximos textos do meu blogue, e a propósito do convento de Avé-Maria de S. Bento,algumas das fotografias de Emílio Biel que publicam, também estão publicadas cópias no blogue Albuminas do arquitecto M. Magalhães. De qualquer modo peço desculpa por qualquer incorrecção e agradeço o seu cuidado em relação à "paternidade" dos documentos. Com os cumprimentos de ricardo figueiredo

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    2. Mário Morais Marques6 de março de 2013 às 19:41

      Caro Ricardo
      Gosto bastante do seu blog e talvez nem reparasse na reproducção das imagens se não tivesse virado moda o copy-paste de blog em blog. Claro que o livro contem imagens existentes em outros arquivos mas eu refiro-me aquelas que foram reproduzidas a partir das paginas do livro. Dou-lhe dois exemplos: O cartaz dos Armazens Herminios - para quem possui o original e paginou o livro é facil perceber que a imagem no seu blog foi retirada do livro e agora circula por aí sem indicação da proveniencia ou propriedade. Outro exemplo é a fotografia do Chalet da Cordoaria cujo original é uma fotografia de famila e os retratados meus primos. É isso.
      Melhores cumprimentos Mário Marques

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