Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

BARROQUISMOS VII (13) 2.ª parte

II Parte

Continuação do terceiro plano que dilata-se desde o Convento de S. Bento das Freiras até S. Domingos”. fl0A rua de Santa Catarina das Flores - de S. Domingos a S. Bento.

Sobre a abertura, parcelamento e edificação da Rua das Flores no século XVI, é indispensável ver José Ferrão Afonso A Rua das Flores no século XVI : elementos para a história urbana do Porto quinhentista 2º ed. - Porto : Faup Publicações, 2000  (Série 2 : argumentos ; 18 ), que citaremos abundantemente.

A rua das Flores é nos finais do século XVIII ainda a principal artéria do Porto e só virá a perder essa importância quando a cidade ultrapassando a muralha, ela começa a ser substituída pelas ruas de traçado almadino, em particular o eixo Clérigos – Santo António.

Agostinho Rebello da Costa em 1789 assim o refere: o “Bairro da Sé, tem entre as principaes Ruas o primeiro lugar, a das Flores, obra d’El Rey D. Manoel, e que contém as lojas mais ricas da Cidade, tanto em fazendas de lam, e seda, como em todo o género de Mercearia, Porcelanas, lojas de Ourives d’ouro, prata &c.”

Rebello da Costa refere ainda o conjunto de ruas que articulam a o eixo da rua das Flores com a cidade como as Ruas dos Canos, Ponte Nova, Banharia, Mercadores,” e ainda a (…) Rua Nova de S. João, …aberta no anno de 1765., e está firmada sobre grossos arcos de cantaria, que formaõ huma espécie de Rua subterrânea, e pela qual passa o Rio chamado da Villa.”

A rua das Flores e a rua dos Canos em 1813 (orientada NW-SE)fl191

Na legenda da planta: XIII-L.º do Chafaris de St. Domingos XV-L.º de S. Roque X-L.º da Feira XXIV-Casa da Companhia do Alto Douro  T-Conven.t S.t Domingos N-Conven.t da Freiras de S. Bento W-Misericordia  39-Porta de Carros 43-R. dos Caldeireiros 47-L.º da Calçada do Corpo da Guarda 51-R. da Biquinha 52-R. de S. Crispim 53-R. de S.ta Anna 55-R. de S. Domingos

Acrescentei: rua dos Canos, travessa do Ferraz e rua da Ponte nova; e a azul o troço do rio de Vila.

A rua das Flores

Bella è la rua das flores Luigi Cibrario 1850 (1)

(1) Luigi Giovanni Antonio Cibrario (1802-1870), Senatore del Regno - Ricordi d’una missioni in Portogallo /Al Re Carlo Alberto, Torino, Dalla Stamperia Reale, 1850

No século XVI, o aumento das actividades portuárias, com a Expansão, determina a transformação da cidade medieval. Os finais da segunda década e o início do século XVI, são importantes para D. Manuel e para a cidade do Porto. De facto, D. Manuel que se casa pela terceira vez em 1518, morre de peste em 1521. De 1517 data o Foral da cidade do Porto; em 1518 é fundado pelo rei o convento de Ave-Maria de S. Bento; D.Manuel institui a Casa dos 24, e entrega à recém fundada Misericórdia alguns hospitais e hospícios. E é no reinado de D. Manuel que se inicia a renovação da porta de Carros, que vai adquirindo grande importância como entrada e saída para o norte (Braga e Guimarães, através da rua do Bonjardim), a renovação da Porta Nobre e a abertura de uma nova porta na saída para Miragaia. Mas é sobretudo a estratégica implantação do então (1518) fundado convento de Ave-Maria de S. Bento, e a consequente abertura da rua (de Santa Catarina) das Flores, ligando aquele convento ao convento de S. Domingos e ligando a zona ribeirinha e portuária com a porta de Carros que estrutura a cidade intramuros.

O Porto cerca de 1600 segundo Pereira de Oliveira

fl196A— Hospital de D. Lopo (antiga Albergaria-hospital de Rocamador; B — Sé; C — Convento S. Domingos D — Convento de S. Francisco E — Convento S. Clara F - Avé Maria de S. Bento G – S. João Novo H – Lóios I – S. Bento da Vitória J – S. Nicolau LK– Santo António do Penedo L – Igreja da Misericórdia

l —Rua da Esperança (Rua de Tomaz Gonzaga); 2 — Rua de São João Novo; 3— Rua da Ferraria de Baixo (Rua de «O Comércio do Porto»); 4 — Rua de Belmonte; 5 — Rua das Taipas; 6 — Rua de São Miguel; 7 — Travessa do Ferraz; 8 — Rua de Trás; 9—Largo de Santo Elói; 10 — Rua das Flores; 11 — Rua do Ferraz; 12 — Rua dos Pelames; 13 — Rua do Loureiro; 14 — Rua de Santo António do Penedo; 15 — Travessa do Cativo; 16 — Rua do Cativo; 17 — Rua da Porta do Sol; 18 — Escadas dos Codeçais.

Esquema das principais artérias da cidade no século XVIfl3

Um traçado renascentista

Do ponto de vista da composição urbana, se o Largo de S. Domingos ainda correspondia a uma concepção urbana medieval, resultando organicamente de um encontro de percursos e da implantação de edifícios, a rua das Flores é já um “gesto” de concepção renascentista. O convento de Ave-Maria de S. Bento funciona como gerador da rua das Flores, uma  rua de traçado quase recto e destinado a criar uma perspectiva do convento.fl193

fl41Foto Emílio Biel (Karl Emil Biel 1838-1915)

A construção da rua das Flores teve várias consequências na estrutura urbana:

Foi necessário encanar um troço do Rio da Vila, o que terá dado origem à rua dos Canos que ia desde o Souto ao Largo de S. Bento. No sentido oposto, e para facilitar o tráfego para a Ribeira, é arranjada a R. das Congostas, promovendo-se o seu povoamento, levado a cabo pelos Dominicanos que emprazam terrenos. (2)Foi aberta a rua da Ponte Nova, nome decorrente deste atravessamento como refere  Agostinho Rebello da Costa: “…algumas pontes de pedra, como a Ponte Nova, que está entre a Rua das Flores, e Banharia, cercada de cazas, e balcoens,…”

(2) cf. Teresa Pires de Carvalho, Carlos Guimarães, Mário Jorge Barroca, Bairro da Sé do Porto – Contributo para a sua caracterização histórica, CMP Porto 1996

A ponte Nova em 1819fl178

Na Legenda Planta baixa do Sitio da Ponte nova, em que mostra a direcção do Rio de Villa, escadas que dão communicação ao mesmo e a fonte Publica que está por baixo da rua, bem como o terreno em que projecta fazer hua casa Miguel Jozé Alves /A – Escadas do Publico B – Rio da Villa C – Fonte do Publico D – Terreno onde Miguel Joze Alves projecta fazer a caza / Luiz Ignacio de Barros Lima /No dia 20 de Dez. de 1819 AHMP

Uma das características inovadoras da rua das Flores era a pavimentação em pedra, o “calsamento”.

José Ferrão Afonso refere que em 1500, D. Manuel I sentencia: «.. .que por as calsadas da dita cidade estarem muito danificadas per causa de serventia dos carros que cada dia continuamente por ellas correm com seus carrettos e por mais nobreserem ordenaram em Camará com acordo do corregedor da Comarqua de mandarem calsar de novo toda a ditta cidade.” E mostra que esta imposição de D. Manuel não é imediatamente cumprida, e apenas ao longo do século XVI se efectua o “calsamento”.(3)

(3) José Ferrão Afonso A Rua das Flores no século XVI : elementos para a história urbana do Porto quinhentista 2º ed. - Porto : Faup Publicações, 2000

Agostinho Rebello da Costa refere as ruas do Porto e a sua pavimentação:

”A sua limpeza, e asseio he singular, porque álem de se occuparem diariamente de vinte até trinta homens em lhes extrahir as immundicias, concorre também muito o serem todas lageadas de pedra comprida, larga, e liza, que naõ dá lugar a atoleiros, ou charcos ascorosos. (*)

(*) nota de Agostinho Rebello da Costa, criticando o uso de seixos em lugar do lageado de pedra: “ Os Camaristas actuais, resolveraõ, que daqui em diante se ladrilhassem todas as Ruas, com seixos a que chamaõ burgos, e esta resoluçaõ se principia a executar nas que se concertaõ, ou fazem de novo. Que o tal ladrilho de pedras largas, e compridas seja muito mais formoso, e util, que o do seixos, todos o confessaõ: nem era necessario, que o exacto Geografo D. Luiz Caetano de Lima (4) abonando o parecer de outros muitos Geografos, dissesse, que huma das grandes bellezas da Cidade do Porto era ter as Ruas lageadas de pedras largas, e compridas (Geo. hist.tomI.pag.53) muito mais; porque a Providencia foi taõ liberal em produzir nos arrabaldes desta Cidade immensas Pedreiras desta pedra.”

(4) Rebello da Costa refere-se a Luiz Caetano de Lima 1671-1757, autor de Geografia Historica de todos os Estados Soberanos da Europa de 1734. A citação original é, referindo-se ao Porto:

As suas ruas saõ primorosamente lageadas, especialmente a Rua Nova, e a Rua das Flores; a primeira das quaes he fabrica delRey D. Joaõ I. e a outra delRey D. Manoel.”

in Geografia Historica de todos os Estados Soberanos da Europa Com as mudanças que houve nos seus Dominios. Especialmente pelos Tratados de Utrecht, Rastad, Baden, da Barreira, da Quadruple Alliança, de Hanover, e de Sevilha; e com as Genealogias das Casas reynantes, e outras muy pricipaes, /Dedicada Á Sacra, Real, Augusta Magestade Del Rey D. Joaõ V./Nosso Senhor/ Composta por D. Luiz Caetano de Lima, Clerigo Regular, Examinador das Tres Ordens Militares, e Academico da Academia Real da Historia Portugueza / Tomo Primeiro, Em que se trata de Portugal, Lisboa Occidental Na Officina de Joseph Antonio da Silva, Impressor da Academia Real, M. LCC. XXXIV., Com todas as licenças necessarias.

Sobre o nome de Santa Catarina das Flores

Agostinho Rebello da Costa refere que D. Manuel ordenou “…que se fizesse a graciosa Rua das Flores, cujo nome lhe proveio dos muitos jardins de flores, que formozeavaõ o terreno onde hoje se dilata; e para que a sua belleza ficasse completa a engrandeceo com a fundaçaõ do Real Convento da Ave Maria pertencente ás Religiosas de S. Bento.”

De facto a  rua foi aberta em terrenos de hortas correspondentes ao vale do rio de Vila e como as edificações mantiveram logradouros e jardins, terá sido por isso que se terá chamado de rua (de Santa Catarina) das Flores e se tornou apenas rua das Flores.

fl202in José Ferrão Afonso A Rua das Flores no século XVI : elementos para a história urbana do Porto quinhentista 2º ed. - Porto : Faup Publicações, 2000 (Série 2 : argumentos ; 18 ).

fl194aMaquete do Porto Medieval AHMP

O nome de Santa Catarina

Já o nome de Santa Catarina parece dever-se a D. Pedro da Costa, o bispo do Porto na época da abertura da rua, sendo a Mitra e o Cabido os principais proprietários dos terrenos. Florido Vasconcelos (5) refere a importância da “…grande devoção de D. Pedro da Costa – aliás herdada do seu tio o Cardeal Alpedrinha (6) por Santa Catarina do Monte Sinai,(7) cuja emblemática roda de navalhas o nosso bispo adoptou como brasão de armas.”fl184

(5) Florido Vasconcelos (1920- ?), D. Pedro da Costa Subsídio para a Biografia de um Bispo do Porto do Século XVI ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/6340.pdf . Ver ainda Cândido dos Santos Actividade episcopal de D. Pedro da Costa em Portugal e em Espanha (1507-1563) in Os Reinos Ibéricos na Idade Média : livro de homenagem ao Professor Doutor Humberto Carlos Baquero Moreno, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2003

(6) D. Pedro Costa (1485-1563) bispo do Porto entre 1507-1535. A ele se refere Agostinho Rebello da Costa: “D. PEDRO DA COSTA VI., que era seu Irmão, lhe succedeu em mil e quinhentos e sette tendo de idade vinte e dous annos. Dispendeo com os pobres immenso cabedal. Foi de innocentes costumes, e como tal respeitado dos Principes, e Reis de Castella. Passou para o Bispado de Leaõ, e depois para o de Osma, onde Morreo aos vinte de Fevereiro de mil e quinhentos s sessenta e tres.”

D. Jorge da Costa (1406-1509) conhecido por Cardeal Alpedrinha, terra onde nasceu. Foi Bispo de Évora, Arcebispo de Lisboa e Arcebispo de Braga. Foi designado Cardeal pelo Papa Sisto IV, em 1476. Foi diplomata, conselheiro e confessor do rei D. Afonso V. Devido a questiúnculas com o filho deste Rei, o futuro D. João II, exilou-se em Roma, em 1483, onde faleceu centenário em 1509. Está sepultado na Igreja de Santa Maria del Popolo. Cf. Neste blogue BARROQUISMOS V (1) A igreja de Santa Maria del Popolo em Roma

smp544Santa Catarina representada com a Roda e com a Palma, símbolos do martírio, no túmulo do Cardeal D. Jorge da Costa na igreja de Santa Maria del Popolo em Roma

(7) Santa Catarina de Alexandria Nasceu no século IV. O Imperador Maximino como Catarina não abandonasse a fé cristã, ordenou que a torturassem com uma roda de pontas de ferro que contudo, se quebrou. Foi então decapitada. A menção do Monte Sinai deve-se à lenda segundo a qual, anjos desceram dos céus e levaram seu corpo para o Monte Sinai, onde foi edificado um mosteiro a ela consagrado. É normalmente representada com a espada e coma roda de lâminas. A semelhança da roda de lâminas e a roda do leme de um navio, levou à difusão do seu culto entre os que se dedicavam à navegação. Do mesmo modo a forma da roda de fiar, tornou Santa Catarina padroeira das costureiras.

Duas representações de Santa Catarina do século XV    fl190a1    fl190b2

1 Atribuída a Mestre João Afonso Santa Catarina 1450 – 1475 calcário policromado 83 x 28 x 20 cm Museu Nacional de Arte Antiga Lisboa  2 Autor desconhecido inglês Santa Catarina 2ª metade do século XV alabastro  38,8 x 11,6 cm Museu Nacional de Soares dos Reis

Uma representação de Santa Catarina do tempo de D. Manuel Ifl1903

3 Autor desconhecido Santa Catarina, 1480-1515 calcário policromado 68,5 x 23,5 x 16,7 cm Museu Nacional de Arte Antiga Lisboa

Ao longo da rua das Flores, aberta em terrenos quase todos ocupados pelas denominadas hortas do bispo e que haviam sido aforadas à própria Mitra ou ao Cabido, foram-se construindo casas nobres, tendo a rua assumido o carácter mais aristocrático da cidade. As casas foram marcadas com um sinal, em alto ou baixo relevo, que determinasse a quem pertencia o domínio. Assim, a Mitra, representada pelo bispo D. Pedro da Costa, optou pelo símbolo heráldico usado por seu tio, o cardeal D. Jorge da Costa: a roda de navalhas de Santa Catarina de Alexandria e o Cabido escolheu S. Miguel Arcanjo.

Da Mitra ainda ostentam o símbolo da Roda de navalhas, os prédios n.º 21 a 39, n.° 60, n.º 77 a 130 e n.º 277 a 79 e, do Cabido o símbolo de S. Miguel Arcanjo, os n.º 192, 206 e 224.

fl153Foto Bonfim Barreiros in Bonfim Barreiros  Fotógrafo de Arte, catálogo da Exposição na Casa do Infante, CMP, Porto 2001

fl8a  fl8

Rua das Flores, nº 27 - Porto – Portugal No excelente blogue Portais - Brasões - Aldrabas - Tranquetas - Taramelas - Batentes - Caravelhos - etc... http://manueljosecunha.blogspot.pt/

fl155Foto Bonfim Barreiros in Bonfim Barreiros Fotógrafo de Arte, catálogo da Exposição na Casa do Infante, CMP, Porto 2001fl8bfl154Foto Bonfim Barreiros in Bonfim Barreiros Fotógrafo de Arte, catálogo da Exposição na Casa do Infante, CMP, Porto 2001

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São Miguel Arcanjo símbolo do Cabido nas casas da rua das Flores.

fl151  Foto Bonfim Barreiros in Bonfim Barreiros Fotógrafo de Arte, catálogo da Exposição na Casa do Infante, CMP, Porto 2001fl152Foto Bonfim Barreiros in Bonfim Barreiros Fotógrafo de Arte, catálogo da Exposição na Casa do Infante, CMP, Porto 2001

No cunhal da primeira casa da rua, havia uma escultura representando Santa Catarina com a roda das navalhas, instrumento do seu martírio, justificando, assim, o primeiro nome da rua.

Fonte com a estátua de Santa Catarina existente no interior da papelaria Araújo & Sobrinho no Largo de S. Domingos. fl9No blogue PORTO ANTIGO http://www.portoantigo.org/

A rua das Flores e o comércio

"Adeus, cidade do Porto, /Adeus rua das Flores:/ De um lado tens só ourives, / Do outro tens mercadores” (8)

(8) Canção popular in Alberto Pimentel, O Arco de Vandoma, 1916, edição Livraria Figueirinhas, Porto 1945

A importância da rua das Flores irá desenvolver-se a partir do século XVI, como rua central e comercial na cidade intramuros, e a partir do século XVIII irá estar sobretudo associada ao comércio de ourivesaria e de panos.

Rebello da Costa destaca em primeiro lugar, a Rua das Flores, entre as principais ruas da cidade “…obra d’ElRey D. Manoel, e que contem as lojas mais ricas da Cidade, tanto em fazendas de lam, e seda, como em todo o genero de Mercearia, Porcelanas, lojas de Ourives d’ouro, prata &c.”

A procissão do Corpus Christi em 1773 por aí passa, sendo “os mercadores de pannos e tendeiros de mercadorias de pezo” encarregados da sua decoração “desde S. Domingos até à igreja de S. Bento das Freiras”. (9)

(9) Vereação de 12 de Junho de 1773, e regulamento para a procissão de Corpus Christi in José Marcelino Peres Pinto Apontamentos para a história da cidade do Porto. Porto, Typographia Commercial, 1869

A rua das Flores (e a rua dos Canos) também faziam parte do percurso de celebração de entrada na cidade de personalidades como a passagem de D. Gaspar arcebispo de Braga (10):

“D. Gaspar, arcebispo de Braga, fez a sua pas­sagem por esta cidade, indo tomar conta do seu arcebispado, a 30 de setembro de 1759. D. Gaspar era filho natural do rei D. João 3.°; quando chegou á vista d'esta cidade entrou e descançou na capella de N. S. da Piedade, sita na praia de Villa Nova, depois embarcou-se em um rico escaler, e vogando pelo rio acima, desceu por Quebrantões até Monchique, por onde entrou na cidade com a sua gran­de comitiva, dirigindo-se depois por Miragaia e Porta Nobre. A carruagem em que vinha o arcebispo era tirada por três parelhas ricamente ajaezadas, sendo o cortejo precedido por um capelão, que ia a cavallo e levava arvorada a cruz primacial. Da Porta Nobre proseguiu o préstito pela Tanoaria da Fonte da Rata, rua dos Banhos, da Ourivesaria, de S. Nicolau, Congostas, S. Chrispim, Arcos de S. Domin­gos, praça de St.a Catharina, Misericórdia, rua das Flores, dos Cannos, da Feira de S. Bento, Porta de Carros, Congregados, praça das Hortas, hospedan­do-se alli, nas casas de Manuel Eleucterio Monteiro Moreira Salazar, as quaes serviram de Paços da Relação.” (11)

(10) D. Gaspar de Bragança (1716-1789) era filho ilegítimo de D. João V. Foi designado arcebispo primaz de Braga em 1758 sucedendo a seu tio D. José de Bragança, cargo que exerceu até à sua morte.

(11) José Marcelino Peres Pinto Apontamentos para a história da cidade do Porto. Porto, Typographia Commercial, 1869

E Rebello da Costa,assinala que, também aí se fazia a distribuição do pão de trigo, fabricado em Valongo.

O paõ trigo trabalha-se, e coze-se em hum lugar chamado Vallongo, duas legoas ao Nascente desta Cidade, donde he conduzido todas as terças feiras, quintas, e sabbados de cada semana, para as cazas, que tem determinadas padeiras; mas para o povo, he conduzido por outras padeiras do mesmo lugar, que o vendem todos os dias nas Praças de S. Bento, S. Domingos, e na rua das Flores; alem do que distribuem pelas lojas dos Regataõs. He este paõ (principalmente o que se gasta nas cazas particulares) de excelente gosto, e para a sopa, muito superior ao de toda a Provincia.”

A rua das Flores no século XIX

A rua das Flores na planta de 1813flflores

Já no século XIX, Camilo Castelo Branco em A Filha do Arcediago (12) num romance publicado em 1854 mas cuja terceira edição de 1868, revista pelo autor, é a mais difundida, inicia a sua narrativa referindo precisamente a rua das Flores e a sua importância comercial:

“Em 1815, um dos mais abastados mercadores de pannos da rua das Flores na cidade do Porto, era o senhor Antonio José da Silva. E a 23 d’ agosto, do mesmo anno, o negociante da rua das Flores que mais suava, e bufava afflicto com a calma, era o mesmo senhor António José da Silva”

E ainda no mesmo romance, mais adiante caracteriza a arquitectura da rua das Flores:

“Em 1815 podia-se namorar honestamente d'uma janella para a outra, na rua das Flores, sem que uma patrulha insolente parasse debaixo para testemunhar a vida intima dos que lhe pagam. Podia cochichar delicias a donzella recatada da trapeira para a rua, sem que o amador extatico ao som maviosissimo d'aquella voz, receasse o retire-se! brutal do janizaro. Podia, finalmente, segurar-se o gancho d'uma escada de corda no terceiro andar, subir impavidamente, conversar duas horas sobre varios assumptos honestos, e descer, sem o receio de encontrar cortada a rectaguarda por um selvagem armado á nossa custa, que nos conduz ao corpo da guarda a digerir a substancia da deliciosa entrevista.” (12)

(12) Camillo Castello Branco A Filha do Arcediago, Terceira Edição, Porto, Em Casa de Cruz Coutinho, Editor, 18 e 20 – Caldeireiros - 18 e 20, 1868

A rua das Flores na planta de José Francisco de Paiva (anterior a 1824)fl10

E, a tão criticada por Camilo, Maria Ratazzi, em Portugal à Vol d’oiseau (Portugal de Relance) (13) caracteriza assim a rua das Flores:

“Recommendo aos curiosos a rua das Flores. Occupam-
n'a exclusivamente de um lado os mercadores de
pannos, do outro os ourives
.”

(13) Maria Rattazzi Portugal de Relance traducção portugueza do livro Portugal a vol d’oiseau auctorisada pela auctora e ampliada com um novo prefacio em resposta á critica Volume I Lisboa Livraria Henrique Zeferino – Editora, rua dos Fanqueiros, 87, Lisboa 1882

Também na Formosa Lusitania de Lady Jackson, (14) traduzido e anotado por Camilo Castelo Branco, pode ler-se:

“Da rua de S. João atravessamos para a rua das Flores pelo Largo de Domingos.(*) Difficilmente podíamos firmar o pé no escarpado da subida. Se a gente, quando atravessa, encontra uma junta ou duas de bois a descerem, a arquejarem para fincarem as patas, e acontece escorregarem com aquella caranguejola que lã chamam carro, gare à vous é dar-lhes campo para cebôlas, que, se não, a couza pôde ser muito fatal para vós e provavelmente nada para os bois.”

(*) nota de Camilo: Desta vez tira-nos o santo. Já nos deu trez. Ainda estamos de ganho.

E mais adiante:

“A rua das Flores é a mais frequentada do Porto. É comprida e estreita de mais para o trafico que tem; mas o pavimento é bom. Aos sabbados vae cheia de gente, como qualquer rua de Londres. Pelo meio, vão a par, e chiando, dous abomináveis carros. De vez em quando, um cavalleiro arrisca-se a escoar-se por entre elles, serpeando por aqui e por acolá; e, ás vezes, depara-se-nos uma carruagem encravada entre os carros, com a parelha a esbravejar á beira dos pacientes bois.”

E ainda:

“Agora, vejamos as lojas. Uma ou duas horas de cada manhã passo-as em flânerie entre a rua das Flores e Clérigos. A esquerda são ourives: corresponde á rua do Ouro de Lisboa; mas, no Porto, há maior abundância de ouro filigranado para uzo das aldeãs. Ha arrecadas desmarcadamente grandes, broches e cruzes enormes á proporção, cadeias e anneis massiços, variados no feitio, mas tudo á feição mourisca. Se a mão de obra nem sempre prima em delicadezas, — posto que d'ali procedam excellentes amostras de ourivezaria—o ouro é de quilate superior ao que se uza em Inglaterra — mesmo nos joalheiros de maior cunho — e só depois de contrastado se pode vender. Do outro lado da rua ha lojas cheias de chapéus desabados. Ha d'elles sem enfeites; outros com borlas, fivelas, fitas e lacaria. Homens, mulheres, rapazes e raparigas estão escolhendo; que hoje é dia de todos comprarem, e enchem-se as chapelarias.” (14)

(14) Catharina Carlota Lady Jackson, A Formosa Lusitânia, versão do inglez, prefaciada e anotada por Camillo Castelo Branco, Porto, Livraria Portuense, 121 - rua do Almada – 123, 1877

A rua das Flores na planta de F. Perry Vidal, na versão de 1865.fl146

Júlio Diniz nos Serões da Província, (15) publicado em 1870, também descreve a rua das Flores, numa recepção da cidade à rainha D. Maria II, realizada em 1852:

“Uma população exótica das províncias, trajando de uma maneira incrível, acotovelava-se nas praças, e, extasiada diante das exposições de ouro da Rua das Flores, dificultava a passagem ao cidadão portuense, cuja proverbial celeridade era desta vez, por força maior, modificada. A guarnição militar da cidade limpava e envernizava as correias e estudava o exercício, e nos quartéis de Santo Ovídio, S. Bento, Carmo e Torre da Marca ressoava de contínuo a música marcial das bandas que se ensaiavam. Na Rua das Flores e à entrada das Hortas erguiam-se arcos triunfais de madeira e lona e de uma arquitectura problemática; …”(15)

(15) Obras de Júlio Diniz Volume II Serões da Província – Poesias – Inéditos e Esparsos – Teatro, Lelo & Irmão Editores 144, rua das Carmelitas, Porto 1879

E, ainda, Júlio Diniz, em Uma Família Inglesa, (16) faz referência à rua das Flores e às suas ourivesarias:

“…caminhava vagarosamente Mr. Richard pela rua das Flores acima, e pascia a vista nas bem providas exposições de ouro, que adornam um dos lados da rua, quando de repente parou defronte de uma taboleta, como se impressionado por algum objecto que vira n'ella.” (16)

(16) Júlio Diniz, Uma Família Ingleza - Scenas da Vida do Porto Terceira Edição, Porto Em casa de A. R. da Cruz Coutinho, Editor, 18—Rua dos Caldeireiros—20, 1875

A rua das Flores na planta de Telles Ferreira 1892 (orientada NW-SE)

fl201a

Alberto Pimentel (1849- 1925), no seu O Porto na Berlinda (17), também refere esta especialização do comércio da rua das Flores:

“A rua das Flores é, desde longos anos, a Rua do Ouro, do Porto. As lojas dos ourives não brilhavam nem pela vastidão, nem pelo luxo; mas, em compensação, reluziam dentro das vidraças grossos grilhões de ouro, enroscados como serpentes, arrecadas do tamanho de peras, que faziam lembrar os fabulosos pomos do jardim das Hespérides. De todas as lojas, as mais luxuosas eram as do Augusto Moreira e a do Mourão. Os Leitões tinham ahi um pequeno estabelecimento, que ninguém podia imaginar fosse a chrisalida d’onde sahiria o bello estabelecimento, que anos depois fundaram em Lisboa no largo das Duas Igrejas – borboleta que se duplicou, porque também abriram no Porto, à praça de D. Pedro, outra loja aparatosa. Não obstante a simplicidade primitiva do comum dos estabelecimentos, alguns ourives da rua das Flores chegaram a fazer grandes interesses, graças à clientela das lavradeiras dos arrabaldes, que ainda hoje gastam o melhor do seu dote em arrecadas e cordões.” (17)

(17) Alberto Pimentel, O Porto na Berlinda – Memorias d’uma Família Portuense Livraria Internacional de Ernesto Chardron Casa Editora M. Lugan, sucessor 1894

E no mesmo livro, Alberto Pimentel, a propósito da associação da rua das Flores com a ourivesaria, cita Manuel Pinheiro Chagas (1842-1895):

“…em frente, até entrarmos na rua das Flores, onde os ourives apresentam, na vidraça das suas lojas, expostos à admiração das mulheres do povo formidáveis cordões e arrecadas, proporcionadas à força muscular d’este sexo frágil, que põe bahus à cabeça, e arrasta soccos nos pés, e que decerto andaria em equilíbrio instável, se estes formidáveis contrapesos não viessem contribuir para conserva a posição vertical das populares portuenses.” (18)

(18) M. Pinheiro Chagas, Contos e descripções, Lisboa, Livraria de Campos Júnior, 1866.

Na rua das Flores também se situou a sede da Grinalda (19), uma publicação poética, com sede na rua das Flores e cujo proprietário e alguns colaboradores aí tinham estabelecimentos comerciais.

(19) A Grinalda (1855-1859) jornal portuense de poesia romântica tinha a sua sede na rua das Flores 171. Para se ajuizar da sua importância nele colaboraram - entre outros e outras - Camilo Castelo Branco, Soares dos Passos, F. Xavier de Novaes, Júlio Diniz, Augusto Luso, Ramalho Ortigão, Alexandre Braga, Coelho Lousada e Gomes de Amorim. Também é referido em Os Maias, de Eça de Queirós, no fim do Capítulo I: "Affonso da Maia sentára-se n'esse instante á mesa do almoço, posta ao pé do fogão: ao centro, um ramo esfolhava-se n'um vaso do Japão, á chamma forte da lenha: e junto ao talher de Pedro estava o numero da Grinalda, jornal de versos que elle costumava receber.”fl200

Alberto Pimentel refere-a num outro livro, Atravez do Passado (20)

“Eu lembro-me ás vezes com saudade d'esse bello tempo antigo em que a Grinalda floresceu, em plena rua das Flores, bracejando as suas vergonteas floridas para dentro das lojas dos ourives e dos mercadores, que poderiam não gostar de uma tal invasão de lyrismo a 500 réis por mez, mas que não ousavam repellil-a, fechando a porta. N'aquelle tempo a opinião publica era ainda pelos poetas contra os commendadores; a Grinalda tinha força no seio das famílias, aquecia paixões, forjava ideaes, e nenhuma menina foi casar-se á Sé ou a S. Nicolau sem que primeiro houvesse feito o seu tirocinio romântico pela leitura do jornal de Nogueira Lima. As noivas só largavam a Grinalda de versos quando ella lhes havia conquistado a grinalda de flores de laranjeira. (…) O proprietário da Grinalda era Nogueira Lima ourives com loja na rua das Flores.(…) O poeta António Pinheiro Caldas um dos colaboradores da Grinalda tinha um estabelecimento de fazendas na rua das Flores.” (19)

(20) Alberto Pimentel Atravez do Passado Guillard Aillaud, e C.ª, 47 Rue de Saint-Andre-des-Arts, Paris 1888

Existe ainda uma referência aos cambistas da rua das Flores no célebre Guia Baedeker:“There are several Money Changers in the Rua das Flores”.

A rua das Flores na actualidadefl7

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fl192Foto Manuel Magalhães 2003

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CONTINUA

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