Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

BARROQUISMOS VII (13) 3ª parte

Os edifícios barrocos da rua das Flores

fl11a_thumb61 – Igreja da Misericórdia 2- Casa dos Cunha Pimentel 3 – Casa dos Constantino 4 – Casa dos Maia (ou Ferraz) 5 – Casa dos Brandão da Silva 6 – Casa dos Figueiroa (Casa da Real Companhia Velha)

n.º 1 - A igreja da Misericórdia (alguns apontamentos)fl25_thumb2

Na gravura de Teodoro de Sousa Maldonado com o n.º 26 fl12a_thumb2

Agostinho Rebello da Costa escreve: A Santa Igreja da Misericordia, foi fundada em mil e quinhentos e cincoenta e cinco na rua das Flores, aonde existe: ella he hum monumento de piedade, para todos os miseraveis, a quem socorre pela mediaçaõ de huma veneravel Irmandade composta de quasi dous mil Irmaõs, e cujo governo, depende de huma Corporaçaõ, ou Meza de Irmaõs Nobres, e Peaõs, em que Preside hum Provedor, que he sempre das mais Illustres Familias da Cidade.”

“Desta Santa Igreja, diz o Illustrissimo Cunha(1), que he huma das mais bem acabadas do Reino, e a Capella Mór, haviaõ poucas, que lhe fossem comparaveis. Hoje o seu frontispicio, he hum dos mais regulares, e formosos entre todos os da Cidade.”

A passagem do do Catalogo e Historia dos Bispos do Porto, de D. Rodrigo da Cunha é a seguinte:

“A caza da Misericordia, mosteiros, & Relaçam, saõ as que sobre tudo fazem nobre esta cidade. A Misericordia no que toca ao edificio da Igreja, he huma das bem acabadas do Reyno, o frontespicio, & Capella mór, tem poucas semelhantes,çercãna à roda os quatro Evangelistas, de estatura grande, dourados, & pintados com grande arte, com que fica maes airosa, & lustrosa: tem 11. Capellães, q acodem a cumprir com as obrigações da caza, o pateo que fica entre a Igreja, & caza do despacho, & maes serviço da Irmandade, he fermozo: & capaz, as cazas muitas grandes, alegres, &de boa architectura, a Irmãdade, da nobreza da terra. He grande a contia de dinheiro, que todos os annos se despende, em enfermos, prezos, cazamentos de orfans, esmolas quotidianas, & outras obras pias, este anno de 1622. atè dia de santa Izabel de 1623. se despenderaõ maes de onze mil cruzados. Começou esta Irmãdade, pouco depoes da de Lisboa, q foi instituyda em Agosto de 1498, pella Raynha D. Leonor, molher del Rey D. Joaõ segundo, no tempo q governava estes Reynos, por el Rey D. Manoel seu Irmaõ, quãdo foi a Castella a ser jurado por Prinçepe d’ aquelles Reynos, cuja sucçessaõ pertencia a sua molher a Raynha D. Izabel, filha maes velha dos Reys catholicos, D. Fernando, & D. Izabel.” (1)

(1) Agostinho Rebello da Costa refere-se a D. Rodrigo da Cunha (1577-1643) que foi bispo do Porto entre 1618 e 1627, e arcebispo de Braga. A citação que se refere à Igreja antes da remodelação de Nicolau Nasoni, é do Catalogo e Historia dos Bispos do Porto, offerecida a Diogo Lopes de Souza, Conde de Miranda, & Governador da Relaçaõ, & caza do Porto, & seu districto: do Conselho de sua Magestade por D. Rodrigo da Cunha Bispo do Porto No Porto Por Joaõ Rodriguez Impressor de sua Senhoria Com licenças nacessarias Anno 1623.

A Misericórdia do Porto criada por Carta Régia de 14 de Março de 1499, esteve inicialmente instalada na Sé. Em 1550, muda-se definitivamente para a rua das Flores e em 1559 a igreja da Misericórdia é benzida. Contudo só nos finais do século XVI, a obra está concluída.

José M. P. Pinto escreve:

”A rainha D. Leonor, viuva d'el~rei D. João 2.°, fundou a confraria da Misericórdia na capella de N. S.a da Encarnação, nos claustros velhos da Sé em 1499.

A confraria da Misericórdia mandou construir a sua magestosa igreja na rua das Flores, que foi acabada em 1555, para onde mudaram no mesmo anno, e o seu hospital fundado passados vinte e nove annos, na mesma rua das Flores, com o titulo de Roc-Mador, e depois de D. Lopo.” (2)

(2) José Marcelino Peres Pinto Apontamentos para a história da cidade do Porto. Porto, Typographia Commercial, 1869

Esta primeira igreja construída em 1555, estava concluída em 1564-67.

Entre 1749 e 1754 a igreja foi remodelada por Nicolau Nasoni que redesenhou a fachada e Manuel Álvares que reformulou a nave.

Em 1748 ou 49 Nicolau Nasoni (1754-1779) desenha a fachada.fl29_thumb2Nicolau Nasoni, "Desenho da fachada da Igreja Privativa da Misericórdia do Porto" c. 1740 Papel Santa Casa da Misericórdia do Portofl23_thumb2Joaquim Villanova— Egreja da Misericórdia

Utilizemos o texto de Amélia Vieira de Oliveira e Maria Helena Gil Braga em Porto a Património Mundial (3) para descrever a igreja : “A frontaria é pesada e de ostentosa decoração. Compõem-na dois andares, sendo o inferior rasgado por três arcos plenos, separados por pilastras assentes em dois pedestais…fl30b_thumb2Foto Domingos Alvão – entrada da rua das Flores, negativo, película, p/b, 18x13cm, gelatina e sais de prata - CPF- DGARQ

…Sobre o arco do meio (o de maior raio) uma carteia com legenda bíbli­ca e a data 1750 no entablamento…

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…Na parte superior abrem-se três janelas, de recorte ondulado, com balaustres em forma de urna e ricos frontões, separados por pilastras com folhagens servindo de capitéis…

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…A fachada é rematada por um enorme frontão com as armas e coroa reais.” (3)

“…um enorme brasão régio envolvido na cornija encurvada, dominada por quatro fogaréus.” (4)

fl141_thumb(3) Amélia Vieira de Oliveira e Maria Helena Gil Braga AHMP, in Porto a Património Mundial CMP 1993 2.ªedição 1996

(4) Guia de Portugal Entre Douro e Minho I – Douro Litoral dir. Santanna Dionísio, Fundação Calouste Gulbenkian 3.ª edição 1994

Em 1864, na véspera da Exposição Universal do Porto, quando o gosto se voltava agora para as construções neoclássicas ou mais pragmáticas como o Palácio de Cristal, Francisco Ferreira Barbosa no seu Elucidário praticamente ignora a Igreja e a sua fachada barroca e apenas assinala o quadro renascentista a Fons Vitae (que trataremos na próxima mensagem):

Egreja da Misericórdia. Fundada em 1555, na rua das Flores; nada offerece de notável. A sua irmandade é composta de grande número de irmãos, cujo governo está a cargo duma corporação presidida por um pro­vedor, que deve ser das pessoas mais illustres d’esta cidade; esta condição, porém, nem sempre é satisfeita. Na secretaria d'esta irmandade está um dos mais preciosos quadros de Portugal, representando a fundação da Mi­sericórdia, e nelle se vêem os retratos contemporâneos do rei D. Manuel e de sua família. No pateo d'esta egreja estão em urna funerária as ossadas dos doze martyres da liberdade. (5)

(5) Francisco Ferreira Barbosa Elucidario do Viajante no Porto Coimbra Imprensa da Universidade 1864

E do mesmo modo F. G. Fonseca, no seu Guia historico do Viajante no Porto e Arrabaldes Porto (5), do mesmo ano 1864 e criado com o mesmo objectivo escreve:

“Misericórdia. — Na rua das Flores. E' este tem­plo pertencente á irmandade de Nossa Senhora da Mi­sericórdia, que administra o Hospital Real de Santo António, e outros estabelecimentos pios. Foi instituída pela rainha D. Leonor, esposa d'El-Rei D. João II, em 1499, na capella da Senhora da Encarnação, no claustro da Sé; cincoenta e seis annos depois, mudou para a rua das Flores. Este templo tem a fachada mui re­gular, e è espaçoso. Na sachristia ha um quadro de subido valor; representa a fundação da Misericór­dia, e n'elle se vêem os retratos contemporâneos do rei D. Manoel e de sua família. Possue também esta irmandade os retratos de grande numero de seus bem-feitores, desde o século XVI: costuma expol-os, todos os annos, no pateo que fica do lado do nascente da egreja, no dia 4 de Julho.”(6)

(6) F. G. F. Guia historico do Viajante no Porto e Arrabaldes Porto Na Livraria e Typographia de F. G. da Fonseca Editor, rua do Bomjardim Porto 1864

Camilo Castelo Branco, quando traduz a Formosa Lusitânia, (7) e a propósito da autora considerar “a frontaria” da igreja da Misericórdia de “estylo manuelino”, numa nota do tradutor escreve revelando o menor interesse pelo barroco no gosto dos meados do século XIX :

Quando emprehcnde em estylos architectonicos esta senhora tem idéas desastrosas. A frontaria da egreja da Mizericordia é uma couza farfalhuda e desgraciozissima do século passado. Disseram provavelmente a lady Jackson que D. Manuel fundara a egreja, e a senhora vizionaria identificou a frontaria da Mizericordia do Porto com a de Santa Maria de Belém.”

(7) Catharina Carlota Lady Jackson, A Formosa Lusitânia, versão do inglez, prefaciada e anotada por Camillo Castelo Branco, Porto, Livraria Portuense, 121 - rua do Almada – 123, 1877

Também Vilhena Barbosa, em As Cidades e Villas da Monarchia Portugueza, sentencia:

“A egreja da misericordia, fundada na rua das Flores em 1555, é grande, mas de uma architectura pesada no interior, e pesadíssima e sem graça no exterior.” (8)

(8) I. de Vilhena Barbosa, As Cidades e Villas da Monarchia Portugueza que teem brasão d’armas Typographia do Panorama Travessa da Victoria, 73 Lisboa 1860

no século XX, inicia-se a revalorização da estética barroca (ou tardo-barroca) e Santanna Dionísio escreve no Guia de Portugal:

“Ao fundo da rua, do lado N.destaca-se, na mesma correnteza de casas, a fachada da Igr. da Misericordia, castiçamente  barroca.”

E mais adiante: “A fachada é das obras mais típicas do barroco portuense. Composição de raro equilíbrio e rica de elementos decorativos, embora não muito apurados. O lavor da fachada dos Clérigos é superior. Aqui, o trabalho é relativamente rude e largo.” (9)

(9) Guia de Portugal Entre Douro e Minho I – Douro Litoral dir. Santanna Dionísio, Fundação Calouste Gulbenkian 3.ª edição 1994

E que melhor homenagem à fachada barroca da igreja da Misericórdia no largo de S. Domingos e na entrada da rua das Flores que as aguarelas de António Cruz, que  Olhadas assim, com olhos fatigados, (…) escorrem, também elas, melancolia.” (10)

(10) Eugénio de Andrade, “António Cruz, O Pintor e a Cidade”, 1997

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Aguarelas de António Cruz (1907-1984)

O interior

Segundo Rebello da Costa nos finais do século XVIII a: “…Capella Mór, haviaõ poucas, que lhe fossem comparaveis…”

fl199Foto de Carlos Romão em http://cidadesurpreendente.blogspot.pt/

Utilizemos de novo, a descrição do interior de Amélia Vieira de Oliveira e Maria Helena Gil Braga, no livro da candidatura do centro histórico do Porto a Património da Humanidade (3): “A nave é coberta por uma abóbada de tijolo estucada. As paredes são revestidas de azulejos colocados em 1866 e executados na fábrica do Vale da Piedade (Gaia). O coro assenta num arco abatido e recortado, da autoria de Nasoni. É de salientar também o excelente guarda-vento, em talha rococó. O arco triunfal é imponente. Formam-no quatro enormes colunas coríntias, em granito. A capela-mor é coberta por uma abóbada em parte cilíndrica e em parte esférica, apainelada e decorada. Era pintada, mas em 1866-67 lavaram-na. As paredes dividem-se em dois andares. No inferior vêem-se nichos com as ima­gens dos Evangelistas e colunas jónicas, assentes em pedestais. No superior, as colunas são coríntias e existem janelas com grades de ferro dourado. No fundo das paredes aparecem azulejos em relevo, brancos e amarelos, da Fábrica do Carvalhinho. Foram colocados em 1866. O altar, em estilo neoclássico ou império, é modesto. As capelas de S. João Baptista e do Cristo Cruxificado têm dois arcos de granito de tipo maneirista, formados por pilastras coríntias, assentes em pedestais. Ambas albergam retábulos estilo império. O painel de S. João é de António Carneiro e o da Crucificação deve-se a Manuel A. de Moura. À esquerda da capela de S. João estão duas urnas em mármore, com inscrições latinas, que guardam os restos mortais de João Teixeira Guimarães e D. Lopo de Almeida. Os retábulos colaterais são semelhantes aos laterais. No do Ecce Homo, vê-se um painel de António Carneiro, no de Nossa Senhora da Misericórdia um painel de Margarida Costa e uma bela imagem de madeira do oitavo quartel do século XVI, restaurada em 1885 por Manuel Moura.”(3)

(3) Amélia Vieira de Oliveira e Maria Helena Gil Braga AHMP, in Porto a Património Mundial CMP 1993 2.ªedição 1996

A Fons Vitae

Pela sua importância, e por se tratar de uma pintura renascentista, constituirá um próximo texto.

A Fons Vitae ao fundo na sala da Santa Casa da Misericórdia do Portofl198ano site da SCMP http://www.scmp.pt/

O Hospital de D. Lopo (alguns apontamentos) 

fl11b_thumb2 Agostinho Rebello da Costa, cuja Descripçaõ Historica e Topographica da Cidade do Porto é contemporânea do projecto do Hospital de Santo António (projecto esse que aparece representado na gravura de Teodoro de Sousa Maldonado, e que depois apenas se concretizou parcialmente) escreve sobre o hospital de D. Lopo: “Os Hospitais estabelecidos para abrigo dos pobres, e remedio dos enfermos, saõ os seguintes : o Hospital Real na rua das Flores (…)Entre todos estes tem o primeiro lugar o Hospital Real, naõ somente pela sua grandeza, numero de doentes que recebe, caridade com que os trata, avultadas despezas que faz, de que ja fallei quando descrevi a Igreja da Misericordia; mas tambem pela assistencia de peritos, e experimentados Medicos, que visitaõ duas vezes no dia todos os enfermos, e assim como os Cirurgioens no que pertence ao curativo da sua profissaõ. Sobre tudo isto elle tem huma Botica, em que os remedios se vendem ametade do seu custo.”

fl160_thumb3foto in Porto a Património Mundial CMP 1993 2.ªedição 1996

Quando em 1518 se inicia a abertura da Rua das Flores já ali existia, um Hospital (albergaria) fundado no Porto, ainda no tempo de D. Sancho I. Em 1521 D. Manuel I, anexou-o à confraria de Nossa Senhora da Misericórdia.

José Marcelino Peres Pinto (11) assim descreve a fundação do hospital:

Depois da tomada de Jerusalém por Saladino, foi fundada em Jerusalém uma albergaria para soe-correr os peregrinos que fossem visitar os santos lugares em 1099, por Gerard Tom, de nação franceza, e creada a ordem militar chamada dos irmãos hospitaleiros, depois chamados de Roc-Mador ou cavalleiros de S. João de Jerusalém. Em tempo d'el-rei de Portugal D. Sancho 1º, entrarão em Portugal, e se instituiu ou introduziu a ordem de Roc-Mador em 1189. A primeira albergaria fundada no Porto é a de Santa Maria de Roc-Mador; julga-se que a ermida e albergaria teve principio ou sua primeira fundação na Sé, que a rainha D. Thareja ou Thereza a doara ao bispo D. Hugo, a 14 das Kal. de Maio de 1158. D. Martin Mendes, mestre escola do cabido portuense, instituiu na Sé uma capella, e dotou o hospital de Roc-Mador, em 16 de Junho de 1418; era administradora a camará, como se vê do instru­mento desta data, que se acha no livro segundo dos pergaminhos a folhas cincoenta e cinco. O fim da irmandade conforme a sua instituição e compromisso approvado em 1446, é unicamente para fazer bem aos pobres, tratal-os e soccorrel-os no curativo das doenças, cuidar d'elles quando incuráveis, amparal-os quando decrépitos, educar órfãs, vestir os nus, enterrar os mortos, e praticar todos os actos de piedade christã. El-rei D. Manoel por alvará de 4 de março de 1493, mandou reunir a um só hospi­tal todos os que existiam e albergarias, e que para o dito se comprasse terreno, o que ainda se não ti­nha levado a effeito em 1519. (11)

(11) José Marcelino Peres Pinto Apontamentos para a história da cidade do Porto. Porto, Typographia Commercial, 1869

Firmino Pereira no Porto d’outros tempos (12) escreve:

No século XIV, existiu, na rua do Souto, o Hospital de Santa
Maria de Rocamador,
sob o patrocínio de Santo Eloy.
Era tam acanhado, que os doentes, homens e mulheres,
tinham as suas camas na mesma enfermaria. Mais tarde,
aí por 1496 ou 1498, este inconveniente foi reparado como consta dum documento em que se mencionam as
herdades e censos de que foi possuidor o hospital ou
albergaria. Em 1499, tendo a rainha D. Leonor, viúva
de D. João II, instituído as Misericórdias
, el-rei D. Manoel,
em 14 de março daquele ano, dirigiu ao juiz, vereadores,
procuradores, fidalgos, cavaleiros e
homes boos uma carta na qual recomendava que no Porto se fundasse a irmandade e confraria da Misericórdia, á semelhança do que já se havia praticado em Lisboa.
A nova instituição ficou ereta, provisoriamente, no claustro
da Sé, na capela de Nossa Senhora da Encarnação, emquanto
no se puso en forma la obra que luego intentaron hacer en la parte de aquelas huertas que estavan mas cerca del monasterio de Santo Domingo y que despues fueron y son la rua de las Flores, como diz o douto beneditino Novaes (13). O hospital, em virtude da regia carta, principiou a ser edificado sobre as ruinas da albergaria de Rocamador, ficando concluído em 1555. (12)

(12) Firmino Pereira O Porto d’outros tempos Notas Históricas – Memórias – Recordações, Livraria Chardron, de Lelo & Irmão. Rua das Carmelitas, 144 — Porto 1914

(13) Manuel Pereira de Novaes Anacrisis historial del Origen y Fundacion y Antiguidad, de la Nobilisima, y Siempre Leal Ciudad de O Porto, Biblioteca Pública Municipal do Porto. Tipografia Progresso de Domingos Augusto da Silva. Pôrto. 1912-1915.

Após a morte de D. Lopo de Almeida em 1584, com os avultados bens que deixou, visto tratar-se de um clérigo abastado ligado à Misericórdia, pediu que se reconstrui-se a albergaria do Rocamador, o que permitiu que se construísse um novo hospital, ao lado da antiga albergaria e com frente para a Rua das Flores. O hospital tomou então o nome de D. Lopo.

Ainda segundo Firmino Pereira (12):

Em 1584 (29 de janeiro) faleceu em Madrid D. Lopo de Almeida, legando os bens que possuia á Misericórdia do Porto com o simples encargo de vestir anualmente cinco pobres, dando-lhes de jantar no dia do aniversario da sua morte, "em honra e memoria das cinco chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo”.

E prossegue citando Manuel Pereira de Novaes

Se são vagas as noticias relativas a Roque Amador, são precisas as que dizem respeito a D. Lopo. Do primeiro diz o douto Novaes “que lo que se cuenta vulgarmente deste decantado peregrino en que fue fundador de muchos hospitales en Espana por ser conocidos algunos en ella con esse nombre lo tengo por patrana en el modo de como disen estas suas fundaciones que puede tener en algo probabilidad de verdad, pêro en lo que disen de sus circunstancias sin duda alguna tiene mucho de aprocrypha la relacion (Anacrisis, pag. 166). (*) D. Lopo, filho de
D. António de Almeida e de D, Maria Paes, presbitero do habito de S. Pedro, cursou as universidades de Coimbra e Salamanca, foi cónego da Sé de Coimbra, beneficiado da Sé de Lisboa, abade de S. Martinho de Gandiaes, na diocese do Porto, e de S. Pedro de Penude, no bispado de Lamego, prebendas que renunciou em 1560, como em 1544 havia renunciado ao canonicato de Coimbra. Passando a Madrid exerceu ali o cargo de ministro do Conselho Supremo de Portugal. Com o valioso legado de D. Lopo, e ainda com os bens deixados pelo padre André Coutinho, con muitos juros y haciendas assi en este reyno de Galicia corno en ronda en Andalusia (op. cit.), deliberou a administração do hospital aumentar o edifício, o que imediatamente fez.
Em 1605, a albergaria de Rocamador desaparecia ficando em seu logar o hospital de D. Lopo, que, pelo sul, confrontava com a rua das Flores, na qual se abriu uma porta de serventia com colunas e entalhes de delicado labor.

(*) Nota de rodapé de Firmino Pereira - A respeito de Rocamador, Roca-Amador, Roque Amador ou Reclamador, dizem velhos documentos que, em Narbona, França, viveu Santo Amador, que passou a maior parte da vida num alto rochedo, isolado do mundo, e que a esse rochedo se deu o nome de Roca-Amador. (Viterbo, Elucidario). As cinzas desse solitário foram encontradas em 1166, perto do penedo, e logo ali se edificou uma egreja sob a invocação de Santa Maria de Roca-Amador, com um hospital anexo. Com as esmolas dos fieis e as doações de bens e terrenos, pensou-se em ampliar o piedoso instituto, mas os abades, em cuja zona de jurisdição ficava a egreja e competente hospital, apoderaram-se dos donativos invocando direitos que ninguém teve a coragem de contestar. Esta absorção eclesiástica não obstou a que a obra do santo frutificasse, propagando-se em Portugal em 1189, quando vieram os Cruzados que ajudaram o rei D. Sancho I a resgatar a cidade de Silves em poder dos Mouros. Em 1193, aquele monarca doou ao novo instituto umas terras no distrito de Aveiro, onde se estabeleceu a sede da Ordem ou Congregação, que rapidamente se espalhou por todo o paiz. Os religiosos observavam a regra de Santo Agostinho. Mas bem depressa a ganância se substituiu á piedade. Os frades, em vez de tratarem dos pobres e dos enfermos, enchiam-se á farta com as esmolas e as doações dos fieis, e tam longe foi a sua ambição que o rei D. Afonso v (1459), com autorisação do papa Pio 11, fez o instituto de Santa Maria da Roca de Amador (era assim que se chamava) comenda da Ordem de S. Tiago, sendo os religiosos substituídos por cónegos de S. João Evangelista (loios) que até 1834 com tanto zelo e caridade evangélica desempenharam o papel de hospitaleiros, que o povo, a quem eles pediam
esmola para os enfermos, os alcunhou de seringas (de seringar, maçar e importunar).
Num livro existente no arquivo da Misericórdia menciona-se um portuguez de nome Roque Amador, beneficiado da Sé, que instituirá um hospital com o seu nome. Tudo isto é, como se vê, muito confuso, e razão tem o cónego Novaes em dizer que da vida e feitos de Rocamador “ha muito de patrana”. O que é certo é que a albergaria ou hospital do nome daquele peregrino é antiquíssima, e já existia no Porto no século XII como o provam documentos de cuja autenticidade não pode duvidar-se.”

(12) Firmino Pereira O Porto d’outros tempos Notas Históricas – Memórias – Recordações, Livraria Chardron, de Lelo & Irmão. Rua das Carmelitas, 144 — Porto 1914

(13) Manuel Pereira de Novaes Anacrisis historial del Origen y Fundacion y Antiguidad, de la Nobilisima, y Siempre Leal Ciudad de O Porto, Biblioteca Pública Municipal do Porto. Tipografia Progresso de Domingos Augusto da Silva. Pôrto. 1912-1915.


Nos finais do século XVIII e como se revelasse insuficiente a Misericórdia decidiu construir um novo hospital.

A primeira pedra do Hospital de Santo António foi lançada em 1770, mas só em 1795 recebe os primeiros doentes, e só estará parcialmente concluído, tal como hoje se apresenta, em 1824.

E Firmino Pereira refere que: A cidade, porém, aumentava consideravelmente: a população, que em 1622 era de 18:797 almas, em 1732 elevava-se a 30.024 e em 1787 a 61.462 (intra e extra-muros). Crescendo o numero de necessitados e aumentando as rendas da Misericórdia, el-rei D. José determinou que, em local apropriado, se edificasse um novo hospital (…) Passou-se isto em 1770.” (12)

(12) Firmino Pereira O Porto d’outros tempos Notas Históricas – Memórias – Recordações, Livraria Chardron, de Lelo & Irmão. Rua das Carmelitas, 144 — Porto 1914

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CONTINUA

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