Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Acerca da “Fons Vitae” da Misericórdia do Porto 2ª parte

2ª parte - D. Manuel e familiares: elementos de iconografia

Partindo da Fons Vitae da Misericórdia do Porto e do princípio que é de facto D. Manuel I que nela está representado, alguns elementos biográficos e iconográficos do Venturoso e seus familiares.

Os Retratos

Em que espelho ficou perdida a minha face?     Cecília Meireles

No século XVI existem dois tipos de retrato. O retrato escrito, normalmente apologético e o retrato de imagem: pintura, gravura, desenho, e escultura. Estes podem ter um carácter funcional, como por exemplo, os retratos com vista a um casamento, ou ser apenas a fixação de uma imagem com ou sem semelhanças com a personagem representada.

D. Manuel I (1469-1521) Filho do infante D. Fernando, irmão de D. Afonso V, e de D. Brites.

Com a morte de D. João II (1455-1495) sem herdeiros, já que o príncipe herdeiro D. Afonso tinha falecido em 1491, no seu testamento o rei nomeava D. Manuel, o “…duque seu primo como a esdeiro e socessor” e a ele “encomendava jaa que as comprisse inteiramente segundo se nellas continha.” (1)

(1) Garcia de Resende (1470-1536) Chronica d’El Rei D. João, segundo deste nome. 1545

(nota a numeração a vermelho corresponde a cada uma das personalidades retratadas e todos os realces a negrito são de RF)

Assim D. Manuel (1), irmão da rainha viúva D. Leonor (2), torna-se em 1495, rei de Portugal.

Um dos argumentos utilizado para pôr em causa ser D. Manuel a figura do doador da Fons Vitae da Misericórdia do Porto, é a personagem não apresentar as barbas, com que posteriormente se difundiu a sua imagem. Mas na verdade a descrição quedo monarca fazem no século XVI, ou não referem a barba, como em 1566, faz Damião de Góis:

“Emanuel homê de boa statura, de corpo mais delicado que grosso, ha cabeça sobelo redõdo, hos cabelos castanhos, ha testa alevãtada, & bem descuberta delles, hos olhos alegres, entre verdes, & brãcos, alvo, risonho, bê asobrado, hos braços carnudos, & tã cõpridos q hos dedos das mãos lhe chegavam abaixo dos geolhos, tinha has pernas tão cõpridas, & tão bem feitas, segûdo a proporçã do corpo, q nenhûa cousa mais lhe podia desejar. Tinha a voz clara, & bê entoada, era mui attêtado no falar, & mui honeto & discreto ê suas praticas.” (2)

(2) Chronica do Felicissimo Rei Dom Emanuel, Composta per Damiam de Goes, dividida em quatro partes das quaes esta he a primeira. Em Lisboa em casa de Françisco correa, impressor do serenissimo Cardeal Infante, ahos XVII dias do mes de Julho de 1566

Ou, como em 1602, refere Frei Bernardo de Brito (1569-1617), usou uma barba na juventude, mas “sendo velho trazia a barba rapada”. (4) Ora na pintura da Misericórdia do Porto, D. Manuel estaria a poucos anos da sua morte que sucedeu em 1521.

Mas quer Damião de Góis, quer Frei Bernardo de Brito, referem a escultura do Mosteiro dos Jerónimos, de Nicolau de Chaterenne (c.1470-1551) e que possivelmente data de 1517, como um retrato feito do natural:

“mandou elRei (D. Manuel) poer ha sua imag, de hũa parte, assentada em geolhos, em hũ setual, cuberto de vestidos roçagantes, & da outra banda, também em geolhos, em outro setual ha rainha donna Maria sua molher. Estas duas imagẽs são talhadas de vulto em pedra lioz, & os rostos ambos tirados assaz bem aho natural.” (Chronica do Felicissimo Rei Dom Emanuel, Composta per Damiam de Goes…)

D. Manuel na escultura dos Jerónimos e na Fons Vitae da Misericórdia do Porto

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À esquerda - Nicolau Chanterenne (c.1470-1551) Escultura representando D. Manuel acompanhado de S. Jerónimo, no portal nascente do Mosteiro dos Jerónimos, 1517. À direita - Figura do doador na Fons Vitae da Misericórdia do Porto

D. Manuel na escultura dos Jerónimos e no retábulo de Nossa Senhora da Misericórdia do Funchal.

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À esquerda - Nicolau Chanterenne (c.1470-1551) Escultura representando D. Manuel acompanhado de S. Jerónimo, no portal nascente do Mosteiro dos Jerónimos, 1517. detalhe de foto Mario Novais Biblioteca da FCG

À direita - Figura do doador detalhe da Nossa Senhora da Misericórdia do Funchal 1515, de Jan Provoost (1465-1529) óleo sobre madeira de carvalho 155 x 145 cm. Museu Nacional de Arte Antiga

E Frei Bernardo de Brito em Elogio Decimo Qvinto delRey Dom Manoel (3) 

Foy elRey de corpo meão, mais sobre piqueno, q grãde, a barba teve castanha escura, o nariz curto rõbo, & grosso, a boca grãde, & grossa, mas muy corada: sendo velho trazia a barba rapada, como està esculpido no vulto de pedra sobre a porta principal da Igreja de Belèm, que se fez pelo proprio natural, com tanto artifício, que dizião algûs antigos, que so lhe faltava falar, (4)  & dali se tirou o retrato, que aqui vay esculpido. (5)

(3) Frei Bernardo de Brito - Elogio Decimo Qvinto delRey Dom Manoel primeiro do nome, & decimo quarto de Portugal Elogios Dos Reis de Portugal com os mais verdadeiros retratos que se puderão achar. Ordenado por Frey Bernardo de brito chronista Q. è monge da ordem de são Bernardo. Dirigidos ao Chatolico Rey Dõ Felippe terceiro do nome. Impresso em Lisboa por Pedro Crasbeeck  A.º 1602

(4) Parla ! ou Perché non parli ? Terá dito Michelangelo (14 75-1564) quando batendo com o martelo na estátua, terminou o seu Moisés (1513/15).

(5) O retrato de D. Manuel que aqui vay esculpido no Elogios Dos Reis de Portugal com os mais verdadeiros retratos que se puderão achar, de Frei Bernardo de Brito 1602

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As iluminuras

Também nas iluminuras das Crónicas de D. Duarte, D. Afonso V e D. João II, todas encomendadas por D. Manuel a Rui de Pina (1440-1522), temos imagens de D. Manuel, a receber do cronista os livros encomendados. Em duas delas o rei apresenta-se com uma barba não muito crescida e imberbe na iluminura da crónica de D. Afonso V.

Como salienta Horácio Augusto Peixeiro, num artigo Retrato de D. Manuel na Iluminura publicado na Revista de História de Arte n.º5 de 2008:

“O rei está sentado no trono, rodeado pelas suas insígnias, com a coroa e o ceptro na mão, tal como nas xilogravuras das Ordenações Manuelinas que mandou abrir e que começaram a ser impressas por Valentim Fernandes em 1512. Ricamente vestido, de joelhos, o cronista entrega nas mãos do rei o fruto do seu trabalho esperando a recompensa pela sua obra.” (6)dm48No f. 1 iluminado com cercadura, foi representada a cena do cronista a entregar a crónica ao monarca  na Crónica de D. Duarte I, por Rui de Pina Arquivo Nacional da Torre do Tombo Lisboa

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à esquerda No f. 45 (primeiro deste volume), iluminado com cercadura, foi representado o monarca a receber a crónica das mãos do cronista. Crónica de D. Afonso V, por Rui de Pina Arquivo Nacional da Torre do Tombo Lisboa

à direita No f. 201 (primeiro deste volume) iluminado com cercadura, foi representado Cristo coroado de espinhos (em cima ao centro), a cruz da Ordem de Cristo (em baixo), e depois do começo do prólogo, a cena do monarca a receber a crónica das mãos do cronista. Crónica de D. Afonso V, por Rui de Pina Arquivo Nacional da Torre do Tombo Lisboa

E no Livro da Leitura Nova, Além Douro o frontispício mostra um pequeno retrato de D. Manuel.  Horácio Augusto Peixeiro em Retrato de D. Manuel na Iluminura descreve assim a imagem:

“A página é dividida em duas partes assimétricas, correspondendo sensivelmente ao rectângulo de progressão das diagonais. À cabeça, com 4 anjos portantes, dois no solo e dois esvoaçando, centram-se as armas reais com 8 castelos e a coroa com 7 jóias que podemos ver, também, no chapéu da figura do rei, no fundo da letra D (…)Dois pares de putti sustentam esferas armilares em paisagem campestre, com rosas em primeiro plano. Ao alto, rompendo as nuvens, a figura de Deus Pai, com a tiara e o globo, abençoa, sugerindo o mote que nos aparece nas Ordenações Manuelinas – Deo in coelo, tibi autem in mundo.” (6)dm45aFrontispício de além douro Leitura Nova Arquivo Nacional da Torre do Tombo Lisboa
“Na parte inferior, o texto do prólogo, com a inicial D de D. Manuel, fitomórfica, em forma de balaústres divididos sob fundo rosa, enquadrando a figura do rei em frente de reposteiro, sobre uma paisagem, de perfil, vestindo pelote com pelica nos ombros e nos punhos e barrete adornado com uma jóia.”(6)dm45cdm39b Frontispício de além douro Leitura Nova Arquivo Nacional da Torre do Tombo Lisboa

(6) Horácio Augusto Peixeiro, Retrato de D. Manuel na Iluminura Instituto de História de Arte FCSH, UNL, Revista de Hstória de Arte n.º5, 20o8.

A imagem de D. Manuel nas Ordenações Manuelinas

Como salienta Angélica Gama, (7) a  edição das Ordenações Manuelinas, impressa em 1514,  traz  seis xilogravuras, de Joannes Petri de Bonominis (ou Buonhomini) de Cremona, correspondentes aos livros em que as Ordenações estão divididas, e representando o rei em majestade diante de vários grupos componentes da sociedade portuguesa e da administração do Reino.

(7) Angélica Barros Gama As Ordenações Manuelinas, a tipografia e os descobrimentos:a construção de um ideal régio de justiça no governo do Império Ultramarino português in Navigator 13)

A imagem, pertencente ao livro III, mostra um rei em majestade, que parece ter sido utilizada como modelo para compor a figura do rei entronizado presente nas outras xilogravuras. Na fita superior: Deo in celo tibi autem in mundo (Deus no céu como no mundo)dm62

Assim, as outras gravuras, seguem este modelo do rei sentado no trono, encimado por um arco trilobado com as suas armas (escudo e esfera armilar), e a legenda Deo in celo tibi autem in mundo. Numa que corresponde ao Livro dos Ofícios da corte e da Casa de Suplicação o rei está rodeado de juristas e militares. Numa outra do Livro das citações, e como hão de ser feitas, o monarca tem na mão um papel ou pergaminho e está rodeado de escrivães. Ainda numa outra que corresponde ao Livro dos contratos e testamentos, apresentam-se os mercadores , com a insólita presença de um cavalo na audiência do Rei. E na gravura que corresponde ao  Livro da justiça, dos crimes e das penas, o rei aplica a justiça, vendo-se os condenados de joelhos enquanto é lida a sentença.

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Finalmente, destacamos a gravura que corresponde nas Ordenações Manuelinas ao Livro das leis e ordenanças tocante às Igrejas, por não seguir exatamente o modelo das outras quatro. dm61A segunda das seis gravuras das Ordenações Manuelinas, Joannes Petri de Bonominis (Buonhomini) de Cremona, (2ª edição) nas instalações de Valentim Fernandes, Lisboa 1514 Biblioteca Nacional

Nesta o rei, imberbe e de cabelos longos,  também se apresenta no trono em audiência, coroado e segurando o ceptro, símbolos do poder real, e veste armadura por cima da qual tem um manto. Recebe um livro das mãos de uma personagem que tem a seus pés um chapéu cardinalício.

dm61fO monarca tem a o seu lado direito um conjunto de religiosos, de várias ordens e da hierarquia da Igreja.

dm61eMas o que torna a gravura diferente é a sua abertura para uma paisagem, em que no primeiro plano se encontra um lavrador com o seu arado, um lenhador com o seu machado, um pastor tendo na mão o cajado.dm61cNo rio que serpenteia na gravura, um pescador com a sua cana. Ao fundo duas naus e um pequeno batel, parecem partir para outras terras. dm61dO conjunto, fazendo jus à legenda, parece afirmar o poder da coroa que com a Igreja, administra o território continental e ultramarino.dm61a

No século XVII

Manuel Faria de Sousa (1590-1649) o autor de Epitome de las historias portuguesas, ( 8) obra que devido às críticas foi revista e publicada com o título de Europa portuguesa (9) obras que deram origem a HISTORIA DEL REYNO DE PORTUGAL (10) cuja 1ª edição data de 1677 e onde insere retratos (escritos e imagens) dos reis de Portugal, de que se apresenta a de D. Manuel I.

Baseando-se em Damião de Góis, escreve em castelhano, já que trabalhava para a corte de Madrid, no período do domínio filipino:

“Era de mediana estatura , caidos los braços le llegavan los dedos abaxo de las rodillas: bien los uvo menester assi quien avia de abraçar tanto: cabello rubio escuro, que truxo largo como sus antecessores, y en esto fuè el ultimo: los labios gruessos y vermexos: el animo verdaderamente Real y belicoso, y luego afable, y festivo: inclinado à la caça, à la musica, y à las letras: mucho le agradavan las fiestas poposas, mas por que sus vassalos no hiziessen gastos en ellas, tenia inumerables adornos, y arreos prciosos que les mandava dar en las ocasiones de festejo. Alguna gala nueva se avia de poner todos los dias: quando salia era siempre con magnífico aparato: precedian tres, quatro, ô cinco elefantes, y otros animales diferentes: tres, quatro, ô cinco coros de varios instrumentos: ninguna acion tuve menos que superior, y imperiosa.” (10)

(8) Manuel Faria de Souza Epitome de las historias portuguesas. Madrid: Francisco Martinez, 1628; Lisboa: Francisco Villela, 1663, 1674; Bruxelas: Francisco Fopens, 1677. 
(9) Manuel Faria de Souza Europa portuguesa, segunda edicion correcta, ilustrada y añadida en tantos lugares, y com tales ventajas, que es labor nueva. Lisboa: António Craesbeeck de Melo, 1678 (tomo I), 1679 (tomo II) e 1680 (tomo III).

(10) Manuel Faria de Souza, Historia del Reyno de Portugal, Dividida en Cinco Partes, que contienen en Compendio. Sus Poblaciones, las Entradas de las Naciones Setentrionales en el Reyno, su Descripcion, antigua e moderna, las vidas y las hazañas de sus Reyes com sus Retratos, sus Conquistas, sus Dignidades, sus famílias ilustres, com los títulos que sus Reyes les dieron, y otras cosas curiosas del dicho Reyno. Nueva edicion, Enriquezida com las Vidas de los quatro últimos Reyes, y com las cosas notables que acontecieron en el mundo durante el reynado da cada Rey, hasta el año de M. DCC. XXX. En Brusselas, en casa de Francisco Foppens, M-DCC. XXX. (1730)

A imagem de D. Manuel da autoria de Jan Baptist Verdussen (1625-1689) na Historia del Reyno de Portugal, tem a seguinte descrição: “Vese retratado con corona en la cabeça, espada baxa desnuda, armado, y sobre las armas manto de brocado con bordadura de perlas, (*) si engendradas del Sol en playas  remotissimas, halladas por el  para ultimo adorno de todo el mundo: muriò de edad de cincuenta y dos anos y medio, con veinte y seis de Reyno…”

(*) Ver adiante As pérolasdm41Na legenda Don Emanuel el Felice primero destenombre 14. Rey de Portugal Vixit  Anno 52 obit Ano 1521

Uma imagem semelhante é reproduzida no século XIX, por F. A. Serrano na Galeria dos Reis de Portugal, publicada na Illustração Popular, entre 1866 e 1870. BNPdm52a De notar nestas imagens o colar do Toison d’or (ver mais adiante), a esfera armilar e a Torre de Belém.

A partir do século XVII, começa a difundir-se a imagem de D. Manuel com barbas.

dm51Nicolas de Clerck (activo entre 1612-1625) D. Manuel I século XVII Gravura a buril em cobre 18,3 x 12,2 Palácio Nacional de Sintra

Na inscrição em latim:" Emanuelis I D. G. Portugallie Algarbiae etc. Rex Decimus - Quartus " Em baixo uma inscrição:" Emanuel de erste van dien Name Conink van Portugael ende Algarben, etc. ". e " N de Clerc exc."

Nos séculos seguintes

A imagem de D. Manuel no Palácio Fronteira.dm53

As imagens difundidas do rei D. Manuel Idm54a   dm25  

(À procura das referências destes retratos)

Finalmente, já no século XX,  Alfredo Roque Gameiro (1864-1935) retoma a imagem do portal do mosteiro dos Jerónimos, que se vê por detrás da figura do monarca.dm63Alfredo Roque Gameiro D. Manuel na História da Colonização Portuguesa do Brasil Litografia Nacional Porto 1921

2 - D. Leonor de Lencastre (1458-1525), sobrinha de D. Afonso V. Casou em 1473 com o primo, o rei D. João II (1455-1495). Foi regente de Portugal nas ausências de D. João II e com a morte do filho D. Afonso (1475-1491) herdeiro do trono, e a morte do rei em 1492 lutou e conseguiu que o seu irmão se tornasse o rei D. Manuel I. Referida como a rainha velha, mantém contudo uma enorme influência nos reinados de D. Manuel e do sobrinho D. João III. Foi a fundadora das Misericórdias em Portugal e do Mosteiro da Madre de Deus em 1509.

A rainha D. Leonor representada na Fons Vitae do Porto e na Nossa Senhora da Misericórdia do Funchal, actualmente no Museu Nacional de Arte Antiga.

fv70r  1906

Diz Damião de Góis:

“Esta virtuosa, & catholica Rainha instituio ha cõfraria da Misericordia neste regnos, sendo regente delles, no tempo que elRei dom Emanuel, seu irmão era ido a Castella, (…) Fundou esta senhora tambê de novo ho mosteiro da Invocaçam da madre de Deos, no valle Denxobregas, junto de Lisboa.” (Chronica do Felicissimo Rei Dom Emanuel, Composta per Damiam de Goes, …)

Está representada no quadro Chegada das Relíquias de Santa Auta ao convento da Madre de Deus, um quadro que se encontrava no convento da Madre de Deus em Xabregas, e que hoje pode ser admirado no Museu Nacional de Arte Antigadm2Mestre do Retábulo de Santa Auta Chegada das Relíquias de Santa Auta 1517/23 óleo sobre madeira de carvalho 66,5 x 71,9 cm Museu Nacional de Arte Antiga (transferido do convento da Madre de Deus)

A rainha D. Leonor tem sido apontada como uma das figuras femininas representadas por detrás da Santa.dm2aDamião de Góis descreve a chegada das relíquias ao mosteiro da Madre de deus: “Quomo a nao ancorou de fronte do mosteiro da Madre de Deos, foram algûs conegos da Sé tirar as Reliquias, & as trouxeram a terra onde ha Rainha donna Leonor, & ho Prinçipe dõ Ioam seu sobrinho has stavam sperando. Da praia foi ha arca em que vinham levada com solene proçissam aho mosteiro, & postas per dom Martinho da costa, Arçebispo de Lisboa, em hum altar que na Egreja pera isso ha Rainha donna Leonor mãdou fazer.” (Chronica do Felicissimo Rei Dom Emanuel, Composta per Damiam de Goes, …)

D. Leonor aparece ainda representada - provavelmente inserida posteriormente - no canto inferior do Panorama de Jerusalém, que terá sido, segundo a tradição, uma oferta do Imperador Maximiliano I à Rainha D. Leonor, sua prima e fundadora do Convento da Madre de Deus. Vê-se no canto inferior uma personagem feminina, ajoelhada sobre um missal, que se supõe tratar da rainha D. Leonor.

dm3Autor desconhecido (atribuído à escola de Hans Memling 1430/40 - 1494) Panorama de Jerusalém /Paixão de Cristo segundo Simão Pedro Bruges 1517 óleo sobre madeira de carvalho 196 x 205,7 cm Museu Nacional do Azulejo

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Os casamentos e os filhos de D. Manuel

No século XVI D. Manuel pretende com os seus casamentos reunir as famílias reais de Portugal e de Castela. Assim casa sucessivamente com duas filhas e uma neta dos Reis Católicos.

Gera-se assim uma “…inacreditável rede de alianças e ligações familiares cruzadas, parentescos e afinidades, lutos e nascimentos, defesas da ortodoxia, concertações políticas, con­sultas diplomáticas e manifestações concomitantes de toda a ordem, (…)  entre a Casa de Áustria e as casas reais peninsulares (sem falar nas do resto da Europa, da Inglaterra à Hungria e do Ducado de Parma à Dinamarca e até à França), gerando as suas regras específicas e os seus mimetismos necessários, e fazendo evoluir a própria ideia de império pela conta própria de cada um dos países envolvidos em grandes pro­jecções transoceânicas.” (11)

(11) Vasco Graça Moura Denotações de magestade in Retratos de Isabel e outras tentativas Quetzal editores Lisboa 1994

Este teia de relações terá o seu apogeu no tempo de Carlos V casado com Isabel de Portugal, Francisco I casado em segundas núpcias com D. Leonor viúva de D. Manuel , Henrique VIII casado com Catarina de Aragão filha dos reis Católicos e  D. João III casado com Catarina sobrinha de Leonor.

Para a compreensão das relações entre as coroas ibéricas, a descendência de Fernando e Isabel.

Estes tiveram cinco filhos:

D. Isabel de Aragão (3) primeiro casada com D. Afonso, o filho de D. João II. Viúva, casou-se com D. Manuel I do qual teve um filho, Miguel da Paz em 1498, e morreu no parto.

D. João (1478-1497) que se casou com Margarida de Áustria(1480-1530) filha do imperador Maximiliano e de Maria de Borgonha  irmã de Filipe da Áustria.

D. Joana (1479-1555) "Joana a Louca" que casou com Filipe de Áustria, mãe de D. Leonor, a terceira esposa de D. Manuel e de D. Catarina mulher de D. João III. (ver adiante os filhos de Joana a Louca)

D. Maria de Aragão (4) 2ª mulher de D. Manuel.

D. Catarina de Aragão (1485- 1536) que foi a primeira esposa de Henrique VIII de Inglaterra (1491-1547)  que a repudiou e casou com Ana Bolena (1501-1536)

O primeiro casamento de D. Manuel

3 - D.Isabel (1470-1498) 1ª mulher de D. Manuel

D. Manuel quando sobe ao trono é solteiro.Os reis Católicos  propõe o seu casamento com a filha D. Maria, mas D. Manuel, para melhor legitimar internamente a sua subida ao trono, casa primeiro em 1497 com a irmã D. Isabel (1470-1498), a viúva de D. Afonso o falecido herdeiro de D. João II. Esta morre no ano seguinte dando à luz D. Miguel da Paz (1498-1500) que morre com apenas 21 meses.

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Melchior Tavernier (1564-1641). Portraits au vray de tous les roys et reines de Portugal… 1630 gravura : buril, p&b ; 31,4 x 21,6 cm Originariamente, pertencente à obra Portraits au vray de tous les roys et reines de Portugal avec un abregé de leurs vies et morts par Jacques de Fonteny, 1630. BNDP

"Estando ainda ElRei em montemór ho mandarão visitar hos Reis dõ Fernando, & dõna Isabel sua molher, per dõ Afõso da Sylva, pessoa prîçipal de sua corte, & per elle álem das gratificações, ordinarias & acustumadas entre hos Reis nos pinçipios de seus regnados, lhe mandaram cometter casamêto com ha Infante dóna Maria sua filha, do q se el rei excusou p boas palavras, não por ha tal aliança lhe não vir muito a proposito, mas porque sua tenção era casar com ha Prinçesa donna Isabel, molher que fora do Principe dõ Afonso.” (Chronica do Felicissimo Rei Dom Emanuel, Composta per Damiam de Goes…)

Entre a morte de D. Isabel (1498) e o casamento com sua irmã D. Maria (1500) (4) Vasco da Gama realiza a sua viagem para a Índia. Por isso D. Manuel acrescenta ao título de Rei de Portugal e dos Algarves, dáquem e dálem-mar em África, senhor da Guiné, o da conquista, navegação e comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e da Índia.

O segundo casamento de D. Manuel

4 - D. Maria de Aragão (1482-1517)

D. Manuel, “depois de viuvar(…) casou com ha mesma Infante donna Maria sua irmã”. O casamento realiza-se em 1500 com D. Maria de Aragão também ela filha dos reis Católicos e portanto irmã da primeira mulher.

“Vendo elRey quaõ bem lhe estava o parentesco com os Reys de Castella, tratou casar segunda vez com a Infanta dona Maria sua filha. Celebrouse o casamento no anno do Jubileo centessimo, de mil & quinhentos, & della ouve elRey amplissima geração de que oje por juizos secretos de Deos ha muy pouca.” (Chronica do Felicissimo Rei Dom Emanuel, Composta per Damiam de Goes…)

A imagem da rainha D. Maria, na escultura dos Jerónimos e na Fons Vitae da Misericórdia do Porto.

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À esquerda - Nicolau Chanterenne (c.1470-1551) Escultura representando D. Maria acompanhada  de S. João, no portal nascente do Mosteiro dos Jerónimos, 1517. À direita - Figura da rainha na Fons Vitae da Misericórdia do Porto

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“Foi ha Rainha molher de boa statura alva, bem assombrada, ho queixo do rostro hum pouquo somido, hos olhos graciosos, pouquo risonhos, muim honesta em todas suas praticas, de que has mais eram de cousas divinas, muito caridosa, & dada a emparar horphãos, & veuvas a que fazia muitas esmolas pera se sostentarem, & assi pera ajuda de seus casamentos muito inimiga de passar ho tempo ocçiosamente fundou de novo ho Mosteiro das Berlengas da ordem de sam Hieronymo.”  (Chronica do Felicissimo Rei Dom Emanuel, Composta per Damiam de Goes…)

A figura de D. Maria com as suas Armas no Livro da nobreza e perfeiçam das armas de António Godinhodm6   dm6a 

Armas do rei D. Manuel, Rainha D. Maria, e Príncipe no Livro da nobreza e perfeiçam das armas de António Godinho (começado antes, ou no ano, de 1517). Direcção Geral de Arquivos Torre do Tombo TT online

Da segunda mulher D. Manuel teve 10 filhos, sete rapazes e três raparigas.

Os filhos na Fons Vitae da Misericórdia do Portodm55

Os filhos:

D. João (1502-1557 ) (5), o futuro D. João III. Casou em 1525 com a infanta D. Catarina (1507-1578), (13) irmã de D. Leonor, terceira esposa de D. Manuel.

D. Luís (1506-1555)(6). Foi 5.º duque de Beja, condestável do Reino e prior no Crato. Pai de D. António, Prior do Crato.

D. Fernando (1507-1534), (7) duque da Guarda e senhor de Trancoso, Alfaiates, Sabugal, Abrantes a alcaide-mor de Trancoso, Lamego a Marialva.

D. Afonso (1509-1540). (8) Cardeal do Reino (1517).

D. Henrique (1512-1580), (9) o cardeal que reinou entre 1578 e 1580.

D. Duarte (1515-1540). (10)

D. António de Portugal(1516) que viveu poucos dias.

As filhas de D. Manuel e D. Maria na Fons Vitae da Misericórdia do Porto

dm56As filhas:

D. Isabel de Portugal (1503-1539) (11), que foi casada com Carlos V (14), Imperador da Alemanha e mãe de Filipe II de Espanha

D. Beatriz de Portugal, (12) que tornou Duquesa de Sabóia (1504-1538), quando casou com Carlos III, Duque de Saboia.

D. Maria de Portugal (1511-1513) morreu ainda criança.

Os filhos:

5 - D. João (1502-1557 ) o futuro D. João III.Casou em 1525 com a infanta D. Catarina (1507-1578), irmã de D. Leonor, terceira esposa de D. Manuel.

Frei Bernardo de Brito retrata-o da seguinte forma:

“Foy home de mea estatura, dobrado, & grosso, fermoso de rosto & bem còrado, a barba preta & bê povoada, os olhos azuis, fermosos, & cheos de Magestade. Era de presença Real, chea de Magestade, tãto q algûas pessoas indo lhe falar se pertubavão: seu retrato se cõserva em diversas partes muito ao vivo em particular no mosteiro de Belê, em hûa taboa q está no coro, posta no pè de hû devoto crucifixio, na qual està tambê o principe seu filho & muitos irmãos seus retratados excellentissimamente. E dahi se tirou esta medalha, sem outra differêça mais que o cetro & coroa. q là não tê & eu lhe fiz por aqui à imitaçãodos outros retratos.” (Elogios Dos Reis de Portugal com os mais verdadeiros retratos que se puderão achar, de Frei Bernardo de Brito 1602)

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Francisco d’Andrada (1540-1614), traça o seu retrato, onde é evidente a importância dada aos olhos e ao olhar, próprios do século XVI.

“Era o princepe de meam estatura, mais grosso que delicado, depresença alegre & autorizada, tinha o rostro alvo & com muyto boa cor nelle, atesta larga, os olhos antre verdes & azues, conformes hà proporção do rostro, pestanudos desabafados das sobrancelhas & com perfeyta vista, alegres, de boa sombra & bom acolhimento mas dentro dos limites da severidade & gravidade que se requeria em sua pessoa tinha o nariz compassado, a boca meam, os beiços vermelhos, o pescoço algû tanto menos saido, hà proporção do corpo, a cintura não delgada mas não desairosa, as pernas direitas, & para o talho do corpo bem feitas & em fim em todos os mêbros era muyto bê proporcionado, nos meneyos airoso, & no andar composto & grave, não era muyto ligeiro & desenvolto, mas isto era parte para lhe abater nada do ar & natural graça que tinha em todas as outras cousas.”

E Andrada acrescenta sobre a maneira de trajar de D. João III

“No tratamento de sua pessoa se contentou sempre mais de seu trajo natural Portugues q de qualquer outras invenções das nações estrageiras, de tal maneyra que quando elRey dõ Manuel seu pay casou a terceyra vez com a Rainha dona Leonor irmã do Emperador Carlo quinto inda que vio que elRey seu pay & toda a gête  nobre da corte deixarão supitamête o seu natural trajo, & se passarão ao estrangeyro por verem que a Rainha, que então vinha da Frandes onde se criara, & todas as damas se vestirãoha usança dos Framengos, elle todavia nunca fez mudança do trajo que sempre custumara, & nelle se afirmou que fizera ventagem a todos os da corte em galanteria.”

E acrescenta:

“Isto mesmo lh’a conteceo nas festas da ifante dona Beatriz sua irmam quando foy para Saboya, em que assy el Rey como toda a corte se vestirão hûs ha framenga, & outros ha saboyana, e saindo elRey com hûa Roupa curta de veludo avelutado pardo & hû pellote do mesmo, com hum colar & espada douro & com calças pretas e çapatos franceses de veludo com fivellas douro, hia o princepe detras delle com hum pelote de brocado de pello com mangas trançadas, cortado sobre citim pardo, com hûa espada & talabartes douro esmaltado, & em cima hûa capa aberta frisada & na cabeça hûa gorra de duas voltas com hum firmal de muyto preço que tudo era usança Portuguesa daquelle tempo, assy que em quanto foy princepe inda que seu pay, e cõ seu exemplo, toda a corte se mudarão aos trajos estrangeyros elle nunca deixou seu traja natural & que sempre neste reyno fora custumado”. (12)

(12) Francisco d’Andrada (1540-1614) Cronica do muyto alto e muito poderoso Rey destes reynos de Portugal Dom João o III. deste nome... T. I cap. IV e VI, Impressa em Lisboa : Jorge Rodriguez : ha custa do autor : vendesse na Rua Nova em casa de Francisco Lopez livreiro, 1613.

Manuel Faria de Souza na sua Historia del Reyno de Portugal, apresenta-o da seguinte forma, acompanhado da gravura de  Jan Baptist Verdussen:

“Su estatura fuè mediana y abultada, era hermosos de rostro, cabellos negros, y muchos; ojos azules, y todo lleno de magestad, con que en qiuen le mirava infundia no solamento respeto, si no suspension y temor : de suerte, que hablandole se perdia el curso de las palabras: y assi era menester, hablarle sin tener ojos, ô verle sin llevar lengua.” (13)dm60(13) Manuel Faria de Souza, Historia del Reyno de Portugal, Dividida en Cinco Partes, que contienen en Compendio. Sus Poblaciones, las Entradas de las Naciones Setentrionales en el Reyno, su Descripcion, antigua e moderna, las vidas y las hazañas de sus Reyes com sus Retratos, sus Conquistas, sus Dignidades, sus famílias ilustres, com los títulos que sus Reyes les dieron, y otras cosas curiosas del dicho Reyno. Nueva edicion, Enriquezida com las Vidas de los quatro últimos Reyes, y com las cosas notables que acontecieron en el mundo durante el reynado da cada Rey, hasta el año de M. DCC. XXX. En Brusselas, en casa de Francisco Foppens, M-DCC. XXX. (1730)

D João enquanto jovem - O tríptico A Virgem, o Menino e dois anjos ou Tríptico dos Infantes

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Autor desconhecido (atribuído ao Mestre da Lourinhã) A Virgem, o Menino e dois anjos ou Triptico dos Infantes 1515/18,Museu Nacional de Arte antiga

O tríptico consiste num painel central A Virgem, o Menino e dois anjos e dois painéis laterais: O Príncipe D. João e São João Baptista e O Príncipe D. Luís e um santo Dominicano.

O painel central A Virgem, o Menino e dois anjos 157 x 90 cmdm7c

A sua autoria não está totalmente esclarecida, sendo apontados desde Frei Carlos a Francisco Henriques e, a mais provável, o Mestre da Lourinhã.

De acordo com as pesquisas efectuadas por José Alberto Seabra, sabe-se hoje que os painéis em questão procedem do altar-mor do já mencionado Convento Real de Almeirim, instituição que foi fundada pelo rei D. Manuel I e decorado com réditos da Rainha D. Maria. (Matriz Net/IMC)

No mesmo texto refere-se uma passagem de Frei Luís de Sousa, sobre a fundação do convento e em que escreve: “Era o legado fácil , e de gosto pera quem folgou de acudir com prompta execução a outros mais pesados : naõ só mandou fazer a casa, mas tratou de a ornar por muitos modos. Foy o primeiro dar-lhe hum retabolo , em que se mandou retratar com a Raynha Dona Maria ; e despois todos seus filhos , e filhas, que hoje dura.” (14)

(14) Frei Luís de Sousa Historia de S. Domingos Parte II, Livro Sexto Cap. XVI Fundação do Convento de Nossa Senhora da Serra em Almeirim

E no mesmo texto do Instituto dos Museus e da Conservação, refere-se uma outra passagem da História de S. Domingos, onde Frei Luís de Sousa escreve:

“A mesma affeiçaõ mostrou sempre a esta Casa o Cardeal Dom Henrique seu irmaõ, (de D. João III) que despois foy ultimo Rey deste Reyno. Achavase taõ bem disposto nella, que affirmava era o sitio muito conforme à sua natureza, e complexaõ. E foy bom indicio, que naõ se contentado de estar retratado com seu pay, e irmaõs no retabolo da Capella mór em idade pueril, se mandou retratar despois de velho, diante do Cruxifixo do Altar de Jesus; que he no cruzeiro, onde o vemos de joelhos, e bem ao natural.” (15)

(15) Fr. Luis de Sousa Historia de S. Domingos Parte II,Livro Sexto Cap. XVII Lisboa Na Officina de Antonio Rodrigues Galhardo, 1767

Esta passagem permite situar a realização do retábulo cerca de 1515, uma “… vez que D. Henrique nasceu em Janeiro de 1512 e se faz alusão à sua idade pueril (…) e os dois príncipes representados - D. João e D. Luís (?) - teriam na altura 13 e 9 anos, respectivamente, o que está em concordância com a figuração das personagens no retábulo.” (Matriz Net, IMC)

O Príncipe D. João e S. João Baptista

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Autor desconhecido (atribuído ao Mestre da Lourinhã) Tríptico dos Infantes O Príncipe D. João e São João Baptista 1515/18 óleo sobre madeira de carvalho 157 x 67,5 cm Museu Nacional de Arte Antiga

Nesta pintura D. João deveria ter entre os 13 e os 15 anos. Está de joelhos, em oração, “envergando ricos panejamentos e um colar de ouro com pedras incrustradas e motivos decorativos em forma de S”, em frente a um tamborete com um livro de orações, aberto. Por detrás,  São João Baptista o seu santo onomástico, de pé e trajando uma túnica castanha sobre a qual enverga o manto vermelho da iconografia tradicional, protegendo com a mão direita o Príncipe e com a esquerda um livro, sobre o qual repousa uma pequena figura do cordeiro.

No fundo um reposteiro verde, cobrindo um conjunto de colunas marmoreadas e capitéis dourados entre as quais se vê um céu azul. (cf. Matriz Net)

Os quadros do convento da Madre de Deus

Segundo Frei Jerónimo de Belém (1692-1760?), o rei D. João III, "se mandou retratar, e á Rainha sua mulher e em dous quadros se achão os seus retratos no coro", no Convento da Madre de Deus de Lisboa. (16)

(16) Fr. Jerónimo de Belem - Chronica Serafica de Santa Província dos Algarves da Regular Observancia de Nosso Serafico Padre S. Francisco/Em que se Trata da Origem, Fundaçam, e Progressos do Real Mosteiro da Madre de Deos de Xabregas. Lisboa: na Officina de Ignacio Rodrigues, 1750-1758

O quadro de Cristóvão Lopes (c.1516-1594) no convento da Madre de Deusdm8Cristóvão Lopes D. João III e S. João Baptista óleo sobre madeira 199,9 x 147,3 cm Convento da Madre de Deus Lisboa

nota – ver o quadro de Dona Catarina no ponto seguinte. Existem cópias no Museu Nacional de Arte Antiga.

D. João III por António Moro

Antonio Moro (Anthonis Mor van Dashorst 1520-1575) pintor de origem flamenga, e o mais destacado retratista da sua época, pintou este retrato quando veio a Portugal, em 1552, por altura das negociações falhadas do casamento entre Filipe II com a Infanta D. Maria, filha do 3º casamento de D. Manuel.dm9Antonio Moro (1520-1576/8) Don Juan III 1552 óleo sobre madeira 101 x 81 cm. Museo Lázaro Galdiano

D. João III, com 50 anos, é representado de pé, quase a três quartos e olhando de frente. Veste de negro com barrete e tem uma arma branca, apoiando a mão direita num móvel. A mão esquerda segura um par de luvas, na época símbolo de estatuto social. Destacam-se o rosto e as mãos, no fundo escuro.

D. João III na Sala dos Capelos da Universidade de Coimbra, retratos pintados em Lisboa, entre 1655 e 1656, pelo pintor Carlos Falch

13 - D. Catarina (1507- 1578) rainha de Portugal pelo casamento em 1525 com o rei D. João III

Casouse elRey com a Infanta dona Catherina, filha delRey dom Fhelippe o primeiro de Castella, & da Raynha dona Ioanna, de quê ouve os filhos…” (Elogios Dos Reis de Portugal com os mais verdadeiros retratos que se puderão achar, de Frei Bernardo de Brito 1602)

Gil Vicente (c. 1465-c. 1536?) elabora uma peça de teatro para a chegada de D. Catarina: Nao damores, Representouse ao muyto poderoso Rey dom Joam o Terceyro, aa entrada da esclarecida & muy catholica Raynha dona Caterina nossa Senhora, em a Cidade de Lisboa. Era de M. D. XXVII.

E uma outra a  Fragoa damor que “foy representada na festa do desposorio do muy poderoso & catholico Rey de gloriosa memoria, dom Joam o terceyro deste nome, com a serenissima Raynha dona Caterina nossa senhora, em sua ausencia na cidade Devora, na era de Christo nosso senhor, de M. D. xxv. A qual tragicomedia he chamada Fragoa damor.”.

Numa das falas da peça diz:

“Copido - Pareceme  que es razon/pues Reyna tan excelente/ viene a reynar nuevamente/ que hagamos refundicion/ en la portuguesa gente./Hagamos mundo nuevo aqui/ pues nuevos Reyes sõ venidos/ por el gran Dios escogidos/ apregonad por ahi/ mis milagros ascondidos.” (17)

(17) Gil Vicente, 1465?-1537 Obras de Gil Vicente Facsimile da edição de 1562 Biblioteca Nacional, 1928

O retrato de D. Catarina correspondente ao de D. João III na igreja de Madre de Deus.dm10Cristóvão Lopes Retrato de D. Catarina de Áustria e Santa Catarina 1565/70 óleo sobre madeira de castanho 198,2 x 150 cm Igreja de Madre de Deus Lisboa

O retrato de D. Catarina por Antonio Moro, correspondente ao de D. João III, pintado na sua vinda a Portugal. dm11Antonio Moro, Catarina de Áustria, 1552 óleo sobre madeira 107 cm x 84 cm Museu do Prado

Dona Catarina então com 45 anos, apresenta-se de pé, a mão esquerda segurando um leque e apoiada sobre uma mesa onde se encontra um manuscrito dobrado. Na mão direita segura um lenço de renda e um par de luvas. Veste um riquíssimo vestido, adornado por joias, e tem os cabelos num penteado à portuguesa.

A. Herculano em Opúsculos  refere a visita em 1571, do Cardeal Alexandrino (Michele Bonelli, 1541-1598, sobrinho do então papa Pio V), e como um dos membros da comitiva João Baptista Venturino narra o seu encontro com a rainha:“donde passou ao palacio da rainha D. Catharina, viuva de D. João III e irman de Carlos V, avó do rei actual. Terá d'edade sessenta annos ou mais, mas está bem conservada: é d'alta estatura e de gentil aspecto.”  (18)

(18) Alexandre Herculano Viagem do cardeal Alexandrino. 1571, em Opúsculos, VI, Lisboa Viúva Bertrand & C.ª Seccessores Carvalho 6 C.ª Chiado, 75 M DCCC LXXXIV

A rainha Catarina,  após a morte de D. João III em 1557, e como todos os seus filhos já tinham falecido,  foi regente do Reino, até 1562, quando foi substituída pelo cunhado o Cardeal D. Henrique, até  D. Sebastião (1554-1578) assumir o trono em 1568.

6 - D. Luís (1506-1555). Foi 5.º duque de Beja, condestável do Reino e prior no Crato. Pai de D. António, Prior do Crato.

“Foi muito catholico Christão, de pura & boa consçiencia, emparo de religiosos, pobres, viuvas, & orphãos, a cujas necessidades supria com muitas esmolas, & merces (…) assi a pé, quomo a cavallo era tam manhoso, que nenhum outro homem lhe fez nunqua avantagem. (…) Foi homem de mea statura, louro, & e de bom pareçer, bem disposto, & prazenteiro, no fallar, galante, no vestir, & e bõ cortesam, em todalas canas, touros, justas, & torneos em q se achou…”(Chronica do Felicissimo Rei Dom Emanuel, Composta per Damiam de Goes…)

O painel direito do tríptico dos Infantes (ver acima) com a representação de D. Luís enquanto jovem, e um dominicano.

dm7d      dm7edm7fAutor desconhecido (atribuído ao Mestre da Lourinhã) Tríptico dos Infantes O Príncipe D. Luís e um santo Dominicano 1515/18 óleo sobre madeira de carvalho 157 x 67,5 cm Museu Nacional de Arte Antiga

“O Infante , que veste opa, gibão e um colar de ouro, tem por detrás de si um dominicano, seu presumível patrono. Este ostenta na mão esquerda um crucifixo de madeira e enverga o hábito da Ordem Dominicana, constituído por escapulário e vestido brancos e manto preto. As figuras inserem-se num interior cuja parede fundeira abre através de um arco para um fundo de paisagem verdejante.” (MatrizNet/IMC)

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7 - D. Fernando (1507-1534), duque da Guarda e senhor de Trancoso, Alfaiates, Sabugal, Abrantes a alcaide-mor de Trancoso, Lamego a Marialva.

“Este Infante dõ Fernando, assi na moçidade, quomo depois de ser homem, foi de bom pareçer,& bem disposto, muito inclnado a letras, & dado aho studo das Historias verdadeiras, & imigo das fabulosas, & por haver has verdadeiras trabalhava muito, do que eu sou testemunha (…) & mandou a mî hum debuxo da arvore,& tronco de toda esta progenia, desno tempo de Noe, atte ho delrei dom Emanuel seu pai, pera lho mandar fazer de iluminura, pelo mor homem daquella arte que havia em toda Europa, per nome Simão, morador ê Bruges no condado de Flandres. (…) (19) Foi casado com donna Guiomar coutinha, filha de dom Francisco coutinho, Conde de Marialva…”(Chronica do Felicissimo Rei Dom Emanuel, Composta per Damiam de Goes…)

(19) O Simão morador em Bruges a que alude Damião de Góis é Simon Bening (1483 – 1561), de facto considerado o melhor iluminista da época. O manuscrito que Simon Bening executa em colaboração com António de Holanda, da Árvore com a genealogia dos Reis de Portugal, nunca foi acabado e muitas das armas e brasões não se encontram realizadas. Nas margens algumas cenas de batalhas, torneios, peregrinações e cidades associadas aos diversos reis e rainhas. Encontra-se na British Library, em Londres.

dm12   dm12aAdd. 12531 no.10    dm12d

Genealogia dos Reis de Portugal (Bruges), 1530-1534 The British Library, London

8 - D. Afonso (1509-1540),Cardeal do Reino em 1517, com 8 anos de idade, prática que não era surpreendente na época, mas com a condição de não se considerar promovido a cardeal até ter atingido a idade de 18 anos.

Sobre D. Afonso escreve Damião de Góis:

“A este Principe mandou ho Papa Leão deçimo ho capello de Cardeal no anno de M. D. XVI, cõ titulo de Bispo Zagitano, Diacono, Cardeal de Sancta Luçia, (…) Foi Bispo Devora, & Arcebispo de Lisboa juntamente, & Abbade Dalcobaça, (…)” (Chronica do Felicissimo Rei Dom Emanuel, Composta per Damiam de Goes…)

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9 - D. Henrique (1512-1580), o cardeal que reinou entre 1578 e 1580. Foi Arcebispo de Braga, Arcebispo de Évora,  Arcebispo de Lisboa e o Inquisidor-mor do Santo Ofício. Torna-se Cardeal em 1546.

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Autor desconhecido Retrato do Cardeal D. Henrique sec. XVIII óleo sobre tela  Museu de Évora

Atrás, do lado direito, pequena abertura por onde se vê uma paisagem com casario. Na parte superior, ao centro, panejamentos em tom escuro. Do lado esquerdo, em cima, brasão eclesiástico e, mais em baixo, sobre um suporte, uma coroa imperial e um papel. Em baixo, moldura com inscrição: "HERICVS/LVSITANIA/REX XVII/H (...)S/CO (...)G II/(...)OR". (Museu de Évora)

Damião de Góis traça o seu retrato de uma forma elogiosa, já que D. Henrique era o Inquisidor-mor:

“He sua condiçam encolhido & vergonhoso, ho que he causa muitas vezes de não contentar muito hos homês no bom acolhimento que elles dos Pricipes speram, nem trattar ho que entende, com tanta soltura quomo algûa vezes he neçessario. No tratto de sua pessoa he severo, & pouco mimoso, mui continente, & temperado, fora d toda a cobiça, & ambiçam de proveitos, & honras têporaes, & faz muito pouco por ellas. Tem grande sofrimêto  nas paixões, & trabalhos, grãde temperança nas palavras, he mui amigo d fallar verdade, & tem cõ ella muita conta, pelo que ho acham muitas vezes seco: he de muito segredo, nam sofre ouvir fallar mal de nenhua pessoa com paixão, ou modo de murmuraçam. Em ha justiça he tão inteiro, que nunca per nenhum repeito, ou affeição se inclinou mais a hua parte que a outra…” (Chronica do Felicissimo Rei Dom Emanuel, Composta per Damiam de Goes…)

Já Frei Bernardo de Brito, coloca algumas reticências na sua acção:

“Foy elRey dom Henrique de corpo meão, mais sobre piqueno,que grande, alvo & louro, os olhos azuis, algum tanto saidos, não feo, mas pouco amavel na presença. Teve grande zelo das cousas de Deos, & sua conciencia, foy continentissimo, & tão riguroso castigador do vicio da sensualidade, q não dissimulava nesta materia com frãqueza nenhûa em gente eclesiastica, & algûs castigava, com mais escandalo, que proveito.” (Elogios Dos Reis de Portugal com os mais verdadeiros retratos que se puderão achar, de Frei Bernardo de Brito 1602)

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Manuel de Faria y Sousa, na sua Historia del Reyno de Portugal, escreve:

“Fuè Don Henrique de estatura mas pequeña que grande, blanco y rubio, ojos azules, muy parecido al Rey Don Manuel su padre”dm14    dm14a

Retrato do Cardeal D. Henrique na Galeria do Patriarcado de Lisboa e no Museu Nacional de Arte Antiga

Contudo Jean Nicot (1530-1604), o introdutor em França do tabaco (nicotiane), e que foi o embaixador de França em Portugal entre 1559 e 1561 atreve-se a escrever:  “Le Conieslaggio a tracé de lui le portrait suivant : “Quoiqu'il eut plus de vertus que de vices, il ne laissait pas d'être plus vicieux que vertueux, parce que ses vertus étaient de prêtre, au lieu que ses vices étaient de prince”.” (20)

(O Conieslaggio traçou dele o seguinte retrato:"Ainda que tivesse mais virtudes do que vícios, não deixou de ser mais vicioso que virtuoso, porque as suas virtudes eram de padre e os seus vícios eram de príncipe.”)

(20) Jean Nicot  Ambassadeur de France en Portugal au XVIe siècle / Sa correspondance Diplomatique Inédite avec un fac-similé en pholotypie par Edmond Falgairolle Paris Augustin Challamel, Editeur, 17 Rue Jacob Librairie Maritime et Cloniale, 1897

10 - D. Duarte (1515-1540), foi casado com D. Isabel, filha de D. Jaime Duque de Bragança, de quem teve duas filhas, Maria (1538-1577) que casou com Alexandre Farnese (1545–1592), Príncipe de Parma e Catarina que casou com D. João Duque de Bragança.

“…foi mui inclinado a letras & armas, grande caçador, & monteiro, & muito musico, era tã dado aho monte que por mattar hum porco montês, ou hum veado, dormia muitas vezes vestido no campo, do que reprehêdido, p hum seu familiar, lhe respondeo q hos homês não podião be exercitar ha guerra se na mocidade senã acostumassem aho trabalho da caça, porque com elle se faziam habiles pera poderê sofrer todo los outros.”(Chronica do Felicissimo Rei Dom Emanuel, Composta per Damiam de Goes…)

dm15Armas dos Infantes D. Fernando, D. Afonso, D. Henrique e D. Duarte, Livro da nobreza e perfeiçam das armas de António Godinho Direcção Geral de Arquivos Torre do Tombo TT online

dm15aArmas dos Infantes D. Isabel, D. Beatriz, D. António e Duque de Coimbra, Livro da nobreza e perfeiçam das armas de António Godinho Direcção Geral de Arquivos Torre do Tombo TT online

D. António (1516 – morre de seguida).

As filhas de D. Manuel e de D. Maria, na Fons Vitae da Misericórdia do Porto.dm56

11 - D. Isabel de Portugal (1503-1539), é uma das figuras centrais desta teia de relações na península Ibérica e na Europa do século XVI. De facto, filha de D. Manuel e de D. Maria uma das filhas dos Reias Católicos, irmã de D. João III, casou-se em 1525 com o seu primo Carlos (1500-1558), o imperador Carlos V, foi mãe de Filipe II de Espanha e I de Portugal, e ainda avó de D. Sebastião.

(Sobre D. Isabel de Portugal ver a excelente e bem documentada biografia da autoria de Manuela Gonzaga, Imperatriz Isabel de Portugal, Bertrand Editora Lisboa 2012)

Escreve Damião de Góis:

“Foi molher muito fermosa, & muito isenta de sua condiçam, & de tão altos pensamentos, que prosopos de nam casar senam cõ ho mór senhor da Christandade, que era ho Emperador dom Carlos, quinto do nome, seu primo comirmão, senhor dos regnos de Castella, Aragão, Napoles, Sicilia, Archiduq Daustria, & de Ostrique, Duque de Milam, Conde de Tirol, senhor dos estados de Flandres, & das Indias Ocçidentaes,…”(Chronica do Felicissimo Rei Dom Emanuel, Composta per Damiam de Goes…)

E Duarte de Leão “Da Emperatriz Dona Isabel filha del Rei Dmom Manuel molher do Emperador Carlos Quinto se podia fazer grande volume de seu valor & altos pensamentos & da rara honestidade e modestia q desde sua tenra idade mostrou, & da singular prudêcia & igoaldade governou Hespanha nas absêcias  do Emperador seu marido q foram muitas, & de muito tempo.” (21)

(21) Duarte Nunez de Leão Descrição do Reino de Portugal, per Duarte Nunez de Leão, desembargador da casa da supplicação, em Lisboa, Impresso com licença , por Jorge Rodriguez, Anno 1610 

Gil Vicente também escreve uma peça Templo de Apolo, representada em Janeiro de 1526, em Almeirim, na celebração da partida de D. Isabel, irmã do rei D. João III, ao encontro de Carlos V.

“Esta seguinte tragicomedia he chamada templo Dapolo. Foy representada na partida da sacra & preclarissima Emperatriz filha del Rey dom Manoel, pera Castela, quando casou com o Emperador Carlos Era de M. D. xxvj. Annos”

A peça inicia-se por uma fala de

  “Apolo

………………….

y manda a cualquiera montaña
portuguesa y castellana
por do passare a España
la Emperatriz soberana

que sea muy fresca y llana
y que hagas convertidos
los caminos en cristales
y las estradas reales
sean lirios floridos
que le vengan naturales.”

Mais adiante é entoada uma canção de louvor à beleza de D. Isabel:

“Ordenaram se todos os romeyros em folia, & cantarão a cantiga seguinte:

Par deos, bê andou Castela,
pois tem Raynha tam bela.
Muyto bem andou Castela
& todos os Castelhanos,
pois tem Raynha tam bela,
Senhora delos Romanos.
Par deos, bem andou Castela
com toda sua Espanha,
pois tem Rainha tão bela,
emperatriz  Dalemanha.”

E Gil Vicente termina com:

“Boloo el aguila real
al trono imperial,

porque le era natural,
solo de um buelo,
sobirse al mas alto cielo.

E asi cantando se acabou o templo Dapolo.” (22 )

(22 ) Gil Vicente, 1465?-1537 Obras de Gil Vicente Facsimile da edição de 1562 Biblioteca Nacional, 1928

Alonso de Santa Cruz (1505-1567), o cronista de Carlos V, descreve a infanta do seguinte modo:

“Era la Emperatriz blanca de rostió y el mirar honesto y de
poca habla y baja, tenía los ojos grandes, la boca pequeña, la nariz aguileña, los pechos secos, de buenas manos, la garganta alta y hermosa, era de su condición mansa y retraída más de lo que era menester. Honesta, callada, grave, devota, discreta y no entremetida ; y esto era en tanta manera que para sí aun no quería pedir nada al Emperador ni menos rogarle cosa por otros ; de manera que podemos decir haber el Emperador hallado mujer á su condición.”
(23)

(23) Alonso de Santa Cruz Cronica del Emperador Carlos V Composta por Alonso de Santa Cruz, su Cosmógrafo Mayor y publicada por acuerdo de la Real Academia de la Historia por los Excmos. Sres.D. Ricardo Beltrán y Rózpide y D. Antonio Blázquez y Delgado-Aguilera Madrid Imprenta del Patronato de Huérfanos de Intendencia é Intervención Militares, Caracas, número 7, 1920

Os retratos da Imperatriz Isabel

( Seguiremos o texto de Vasco Graça Moura, “Retratos de Isabel – Imagens de uma Imperatriz” in Oceanos n.º3 Março de 1990 e Retratos de Isabel e outras tentativas, Quetzal, Lisboa 1994)

Vasco Graça Moura, refere um retrato de Carlos V pintado por Vermeyen, a que corresponderia um outro de Isabel de Portugal, que Gustav Glück (1871-1952), descreve assim: "A ce portrait (de Carlos V) qui paraît avoir été tout à fait fidèle correspond un pendant dressé vers la gauche qui nous semble être un portrait d’Ilsabelle peint d’après nature, le plus fidèle que l’on puisse trouver aujourd'hui.

A este retrato (de Carlos V) que parece ter sido completamente fiel ao original, corresponde um outro pintado pela esquerda, que nos parece ser um retrato de Isabel, pintado do natural, o mais fiel que podemos hoje encontrar. (tradução minha)

dm86c   dm86a

Jan Cornelisz Vermeyen (c.1500–1559) Carlos V e Isabel de Portugal 17 x 12,7 cm. colecção particular vendido num leilão da Christie’s em 1999

E o texto de Glück continua:

L’impératrice y est représentée les cheveux sépa­rés par une raie et liés par un étroit ruban de velours noir avec une agraffe de perles,

A imperatriz está representada com os cabelos separados por uma risca e ligados por uma estreita fita de veludo negro, com um alfinete de pérolas,

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E Glück refere ainda o colar com a inicial C:

sa robe au decolleté carré presente des manches à taillades qui découvrent la chemise bouffante. Son cou est orné d'une parure riche dont la chaîne d'émail reproduit plusieurs fois l’initiale de son époux, C.

o vestido com um decote quadrado tem mangas com fendas que descobrem a blusa bouffante. O pescoço está ornamentado de uma rica jóia, cujo colar de esmalte reproduz diversas vezes a inicial do seu esposo, C.dm86fE o texto citado por Vasco graça moura, termina com uma referência às mãos:

La aussi la forme des mains est tout à fait caractéristique pour Vermeyen"

Também as mãos são caracteristicamente do estilo de Vermeyen. (24)dm86g

(24) Citação de Vasco graça Moura de Gustav Glück, Les portraits de l’imperatrice Isabelle de Portugal, épouse de Charles-Quint, Boletim da Academia Nacional de Belas Artes V, Lisboa, 1939

Vasco Graça Moura reproduz este quadro semelhante ao anterior, mas com pequenas diferenças particularmente na posição das mãos.dm86

A miniatura de Parma

Também é referido por Vasco Graça Moura, o retrato dito A miniatura de Parma e que se encontra na Galleria Nazionale di Parma. Faz parte de um conjunto que teria sido levado pela Infanta D. Maria (1538-1577), filha do infante D. Duarte, quando do seu casamento em 1565 com Alexandre Farnese (1545–1592), Príncipe de Parma.

Vasco Graça Moura diz tratar-se de uma cópia do retrato de Vermeyen, (a mesma postura, o mesmo penteado com a mesma fita, o mesmo colar, etc.)  tendo sido provavelmente Francisco de Holanda (1517-1585), o seu autor.

De reparar no pormenor da mão direita saindo da moldura e da inscrição na moldura: A emperatiz Doña Isabeldm87Francisco de Holanda A emperatriz Doña Isabel Galleria Nazionale di Parma

De seguida Vasco Graça Moura descreve o retrato adquirido quando das Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, que deu origem às suas pesquisas que contribuíram para a identificação do seu possível autor, Joos van Cleve (c.1485-1540) ou à sua oficina. (25)

(25) Vasco Graça Moura Retratos de Isabel e outras tentativas, Quetzal editores, Lisboa 1994

dm16Joos van Cleve (?) Retrato de D. Isabel de Portugal cerca de 1526 óleo sobre madeira, 40 x 29 Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga

“…aqui, a expressão da retratada é algo mais jovem, mais in­génua, talvez mais inexpressiva, mas também mais doce, e o tra­tamento dos olhos é mais cuidado do que nos outros dois. (…) o cabelo não é entrançado, antes cai solto depois de fazer um tomado do lado esquerdo, seguro por uma fita trans­versal presa por uma jóia com pérola pendente; possivelmente devido ao restauro, no retrato agora adquirido o frisado do cabe­lo é mais acentuado.” (25)

(25) Vasco Graça Moura Retratos de Isabel e outras tentativas, Quetzal editores, Lisboa 1994

A Imperatriz Isabel foi ainda retratada por outros artistas, não se sabendo ao certo se terão sido executados em vida ou depois do seu falecimento.

dm71 Jakob Seisenegger (?)  Isabel, mulher de Carlos V. , filha do rei Emanuel I. de Portugal s/d papel sobre madeira 13,5 x 10,3 cm. Kunsthistorisches Museum, de Viena

dm19William Scrots (activo entre 1537 e 1553), “Retrato de Isabel de Portugal” (h. 1550) óleo sobre madeira 87, 5 x 66,5 cm Museu Nacional de Poznan, Polónia

María José Redondo Cantera, em Linaje, afectos y magestad en la construccion de la imagen de la Emperatriz Isabel de Portugal escreve: “La esbelta figura femenina, representada de algo más de medio cuerpo, posee unos afilados rasgos en su rostro que, junto a los animados plegados de sus ropajes, le confieren cierta
nerviosidad. En la cabeza lleva un rodeo confeccionado con tela rayada y adornado con un joyel en el frente.”

E assinala que o desenho atribuído a Le Boucq (? –1573) da Bibliotheque de la Ville d’Arras terá sido executado a partir da pintura de William Scrots.

dm17

Le Boucq (? -1573), Elyzabeth filla de Enmanuel Roy de portugal femme de Charles V empereur Recueil d’Arras. 1566 /1574 Bibliotheque de la Ville d’Arras

(sobre este desenho ver José Camón Aznar Carlos V. Exposição em Toledo Colóquio n.º 3 Maio 1959 Fundação Calouste Gulbenkian)

Retratos de Isabel depois da sua morte em 1539

Após a morte de Isabel Carlos V, em 1543 encarrega Ticiano (TizianoVecellio di Gregorio, c.1490-1576), de elaborar um quadro que retratasse Isabel.

Ainda Vasco Graça Moura, no texto citado, refere que o Imperador envia a Ticianopara modelo um outro retrato dela feito em vida”, que era “molto simile al vero, benchè di trivial pennello.”  (muito semelhante à verdadeira [Imperatriz] se bem que de um medíocre pincel)

Ticiano remete em 1545 um primeiro retrato que agrada a Carlos, apenas necessitando de um retoque no nariz. Esse quadro no entanto foi destruído no incêndio do Palácio do Prado em 1604.

Ainda segundo Vasco Graça Moura desse primeiro retrato pintado por Ticiano existe uma cópia da autor desconhecido pertencente ao Marquês de San Domingo, em Madrid. Repare-se nas semelhanças do que se conhece do primeiro retrato de Ticiano com os retratos anteriores, e em particular o de William Scrots.dm75

E uma gravura de Peter de Jode (1570/73 - 1634), com a legenda  Isabella Lusitana Imperatrix. Regina Hispaniarum et Indiarum vxor Caroli V Mater Philippi II, e com a imagem invertida.

dm75b

Peter de Jode (1570/73 - 1634), Isabella Lusitana Imperatrix. Regina Hispaniarum et Indiarum vxor Caroli V Mater Philippi II

O retrato por Ticiano do Museu do Prado

A partir desse primeiro retrato Ticiano em 1548 termina um outro retrato da Imperatriz, que se tornou justamente célebre e que deu origem a inúmeras reproduções.

dm18Tiziano Vecellio di Gregorio Isabel de Portugal 1548 óleo sobre tela 117 x 98 cm Museu do Prado Madrid

Provavelmente por se tratar de um quadro póstumo a Imperatriz apresenta um rosto estático com um olhar frio.dm18bEstá sentada, junto a uma janela com uma paisagem montanhosa.

 dm18a

No peito ostenta um riquíssimo colar de pérolas seguro por um alfinete cravejado de pedras preciosas.
dm18cNa mão esquerda segura um livro símbolo da sua condição de mulher letrada.

dm18d__________________

As pérolas

O que sobressai neste e em muitos destes retratos do séculos XVI, é o uso das pérolas, seja em joias (com o ouro e pedras preciosas), particularmente colares, brincos e alfinetes, mas também em adornos nos cabelos, nos trajes, nos chapéus e mesmo nos sapatos, tanto femininos como masculinos. Veja-se a descrição da festa de casamento e despedida que faz Garcia de Resende  na Ida da iffante Dona Beatriz pera Saboya no Livro das obras de Garcia de Resêde… e a profusão de pérolas que são utilizadas no vestuário tanto feminino como masculino.

Conhecidas e usadas como adorno, desde a antiguidade, as pérolas eram até ao século XV e XVI, importadas do oriente (Golfo Pérsico, Índia, Ceilão) mas a partir do século XVI, também começaram a ser trazidas da América, sobretudo da América Central. Ou como refere Manuel Souza e Faria, a propósito do manto de D. Manuel as “… perlas, si engendradas del Sol en playas remotissimas, halladas por el para ultimo adorno de todo el mundo.”.

A pérola mais célebre, a Peregrina, então a maior que foi encontrada, foi oferecida, segundo alguns, por Filipe II de Espanha, o filho de  Isabel e Carlos V, quando do seu casamento com Maria Tudor (1516-1558), rainha de Inglaterra. (ver adiante a Infanta D. Maria)

Seria a que figura no retrato de Maria Tudor feito por Antonio Moro.

dm74  dm74a  dm74b

Antonio Moro La reina María Tudor 1554 óleo sobre madeira 109 cm x 84 cm. Museu do Prado Madrid

Reinaldo dos Santos, a propósito de D. Maria, a filha do terceiro casamento de D. Manuel, e que esteve para casar com Filipe II de Espanha, mas que foi por este preterida a favor de Maria Tudor (a “Bloody Mary” que reinou entre 1553 e 1558) escreve, sobre este retrato: “Moro, de facto, pintou a horrível senhora (o retrato está no Prado) de expressão dura e fria, a boca cortada como por uma punhalada, com um cravo na mão, certamente em via de murchar, na frígida emanação do modelo…” (26)

(26) Reinaldo dos Santos   Os retratos da infanta D. Maria filha de D. Manuel, Colóquio N.o 16, Dez. 1961 Fundação Calouste Gulbenkian.

A pérola regressa a Espanha com a morte da rainha em 1558, e vai para França com José Bonaparte, o irmão de Napoleão, quando perde a batalha de Vitória. Vendida pela coroa francesa volta para a Grã Bretanha, e em 1969 é comprada em leilão pelo actor Richard Burton que a oferece à sua mulher a actriz Elizabeth Taylor.

_____________________

O retrato de Ticiano torna-se um modelo “oficial” da imagem da Imperatriz Isabel. 

Na pintura, como retrato de corpo inteiro da Imperatriz Isabel pintado por Jakob Seisenegger,e a que corresponde um outro de Carlos V, do mesmo pintor. (ver adiante)dm20bJakob Seisenegger (1505–1567) Retrato da Imperatriz Isabel de Portugal sec. XVII óleo sobre tela 202 x 145 cm Kunsthistorisches Museum Wien

Na gravura, como por exemplo a gravura de Martin Rota do museu Britânico.dm67Martin Rota (c.1520 - 1583) Isabel de Portugal 1555-1580 gravura 181 x 130 Diva Isabella Augusta Caroli V Ux' and along lower margin 'MR / SF'. the British Museum

E na escultura. Existem diversas medalhas com as efígies do Imperador e da Imperatriz de Leone Leoni (c. 1509-1590), que também fez esculturas de Carlos V e da Imperatriz, seguindo de um modo geral o retrato de Ticiano. O seu filho Pompeo Leoni (1533-1608) trabalhou com o pai e também seguiu uma carreira de escultor e medalhista.

A mais célebre das medalhas com Isabel de Portugal de Leone Leoni com o retrato de Isabel e na outra face As Três Graças com a inscrição HAS HABET ET SVPERAT que Carlos V dera como divisa a Isabel.

dm101 Leone Leoni Medalha de prata 75 mmm representando numa face a Imperatriz Isabel com a inscrição DIVA ISABELLA AVGVSTA CAROLI V VX e na outra face As Três Graças com a inscrição HAS HABET ET SVPERAT que Carlos V dera como divisa a Isabel Museu Numismático Portuguêsdm93Leone Leoni medalha de bronze c. 1550 na legenda IMP.CAES.CAR-OLUS V. AVG e no verso DIVA.ISABELLA-CA-ROLI.V.VX.

       dm90

Leone Leoni (1509- 1590) Carlos V e Filipe II no verso e Isabel de Portugal no reverso 1550 medalhão em onyx 34 x 26 mm the Metropolitan Museum of Art New York

dm97aLeone e Pompeo Leoni La emperatriz Isabel 1550-55. relevo em mármore 152 cm x 136 cm x 16 cm Museu do Prado Madrid

Isabel de Portugal cantada por poetas

Garcilaso de la Vega (1501 – 1536) que conheceu a Imperatriz  e a quem dedica o soneto XXIII:

“En tanto que de rosa y de azucena
se muestra la color en vuestro gesto,
y que vuestro mirar ardiente, honesto,
con clara luz la tempestad serena;


y en tanto que el cabello, que en la vena
del oro se escogió, con vuelo presto
por el hermoso cuello blanco, enhiesto,
el viento mueve, esparce y desordena:

coged de vuestra alegre primavera
el dulce fruto antes que el tiempo airado
cubra de nieve la hermosa cumbre.


Marchitará la rosa el viento helado,
todo lo mudará la edad ligera
por no hacer mudanza en su costumbre.”

e mais tarde por Góngora (D. Luis de Góngora y Argote, 1561-1627),

Mientras por competir con tu cabello
Oro bruñido al sol relumbra en vano,
Mientras con menosprecio en medio el llano
Mira tu blanca frente al lilio bello;

Mientras a cada labio, por cogello,
Siguen más ojos que al clavel temprano,
Y mientras triunfa con desdén lozano
Del luciente cristal tu gentil cuello,

Goza cuello, cabello, labio y frente,
Antes que lo que fue en tu edad dorada
Oro, lilio, clavel, cristal luciente,

No sólo en plata o vïola troncada
Se vuelva, más tú y ello juntamente
En tierra, en humo, en polvo, en sombra, en nada.

Também é conhecido o episódio com Francisco de Borja (1510-1572), Duque de Gandia e o futuro São Francisco de Borja, que teve um papel relevante na implantação da Companhia de Jesus em Portugal. No ano em que foi nomeado vice-rei da Catalunha e como estribeiro-mor da imperatriz D. Isabel, terá sido encarregado em 1549 pelo Imperador Carlos V, de acompanhar o corpo da sua falecida mulher, D. Isabel de Portugal, ao seu túmulo em Granada. dm21

José Moreno Carbonero (1858-1942) Conversión del duque de Gandía 1884 óleo sobre tela 315 cm x 500 cm Museu do Prado Madrid

Segundo a tradição perante o efeito da decomposição do corpo daquela cuja beleza tinha sido por todos exaltada, terá exclamado: Nunca más servir a señor que se me pueda morir!" (nunca mais servirei senhor que possa morrer!)

Sobre este tema escreveu Sophia de Mello Breyner, um célebre poema, que se popularizou dito magistralmente por João Villaret:

MEDITAÇÃO DO DUQUE DE GANDIA SOBRE A MORTE DE ISABEL ISABEL DE PORTUGAL

Nunca mais

A tua face será pura limpa e viva

Nem o teu andar como onda fugitiva

Se poderá nos passos do tempo tecer.

E nunca mais darei ao tempo a minha vida.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.

A luz da tarde mostra-me os destroços

Do teu ser. Em breve a podridão

Beberá os teus olhos e os teus ossos

Tomando a tua mão na sua mão.

Nunca mais amarei quem não possa viver

Sempre,

Porque eu amei como se fossem eternos

A glória, a luz e o brilho do teu ser,

Amei-te em verdade e transparência

E nem sequer me resta a tua ausência,

És um rosto de nojo e negação

E eu fecho os olhos para não te ver.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.

Sophia de Mello Breyner, Mar Novo, Guimarães Editores, Lisboa 1958

(para a interpretação deste poema, ver Fátima Freitas Morna Senhores que podem morrer (meditação acerca de um poema de Sophia de Mello Breyner Andersen) Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa)

No retrato de São Francisco de Borja, existente no Museu de S. Roque, junto à figura do santo, aparece uma caveira coroada, que simboliza o episódio do funeral da Imperatriz Isabel. Os chapéus cardinalícios evocam a sua recusa a tal dignidade.

dm22Domingos da Cunha, o Cabrinha (c.1598-1644 ) Retrato de S. Francisco de Borja, c. 1630 óleo sobre madeira 110 x 110 cm Museu de S. Roque Lisboa

14 – Carlos V (1500-1558), filho de Joana a Louca (1479-1555) e de Filipe o Belo (1478-1506), casou com D. Isabel de Portugal.

Dos inúmeros retratos do Imperador Carlos V, escolhemos estes por serem de Bernaert van Orley, um dos possíveis autores da Fons Vitae, da Misericórdia do Porto. (ver a 1.ª parte). Repare-se no colar da ordem do Toison d’Or.dm23Bernaert van Orley (c.1491/1492-1542) Retrato de Carlos V posterior a 1515 óleo sobre madeira Musée de Brou, Bourg-en-Bresse França

dm23a

Bernaert van Orley (c.1491/1492-1542)Retrato de Carlos V 1519-1520 óleo sobre madeira . 711,5 x 51,5 cm. Museu de Belas Artes de Budapest

E, correspondente ao retrato de Isabel de Jakob Seisenegger no Museu de História de Arte de Viena, o retrato de corpo inteiro de Carlos V.dm20aJakob Seisenegger (1505–1567) Imperador Carlos V (1500-1558) com o seu cão de água Inglês 1532 óleo sobre tela 203,5 x 123 cm Kunsthistorisches Museum, de Viena

Os retratos do casal

Também Carlos V se faz retratar com D. Isabel após a morte desta, por Ticiano, num quadro que foi destruído no incêndio do Alcázar de Madrid em 1734. Chegou até nós uma cópia de Peter Paul Rubens (1577-1640) de 1628.dm58Peter Paul Rubens “El Emperador Carlos V y la Emperatriz Isabel" 1628

Sobre a mesa entre os dois um pequeno relógio que tem servido a diversas interpretações. Contudo, sabe-se que Carlos V tinha oferecido um relógio de ouro à Imperatriz.

dm70Alonso de Mena  (1587-1646) detalhe do altar da Capela Real de Granada 1632

A Glória

Isabel e Carlos V, figuram ainda num outro quadro de Ticiano: La Gloria. ( teve ainda o nome de La Trinidad, El Juicio Final, El Paraíso, até se fixar no nome actual)

Encomendado por Carlos V a Ticiano, o quadro de grandes dimensões foi executado entre 1551 e 1554. No alto a Santíssima Trindade e num plano ligeiramente inferior a Virgem Maria, com o Pai, o Filho e a Maria vestidos de azul contrastando com o dourado do céu. Formando um círculo, como numa assembleia entre a terra e o céu e em adoração, um conjunto de personagens bíblicas: S. João Baptista, Moisés com as Tábuas, Noé erguendo a Arca, David com o saltério, S. João Evangelista com a águia. Ao centro uma jovem de costas, destacando-se no seu vestido esverdeado, que tem sido identificada como a Igreja, a Sibila Eritreia, Maria Madalena e até Raquel ou Judite. Os dois velhos na parte inferior tem sido identificados com Pietro Aretino (1492-1556)  e o próprio Ticiano.

dm89Ticiano, La Gloria, 1551/54, óleo sobre tela, 3,46 x 2,40 metros, Museu do Prado Madrid

Do lado direito entre anjos, a família do Imperador: Carlos V, a Imperatriz Isabel, os seus filhos Filipe e Joana e ainda as irmãs do rei, Maria da Hungria e Leonor (casada com D. Manuel e depois com Francisco I de França).dm89cEnvergando túnicas brancas, Carlos V, tendo a seus pés a coroa Imperial, e D. Isabel, já falecida e por isso amparada por um anjo.dm89aRepare-se que Ticiano desenha o rosto de Isabel de acordo com o retrato que havia elaborado em 1548.dm89b

12 - D. Beatriz de Portugal (1504-1538), que tornou Duquesa de Sabóia quando em 1521 se casou com Carlos III, Duque de Saboia.dm24

Sousa Viterbo O dote de D. Beatriz de Portugal Duqueza de Saboya, descreve pormenorizadamente as festas que rodearam a partida e a peça que Gil Vicente escreve para a ocasião. (27)

(27) SousaViterbo 1846-1910 O dote de D. Beatriz de Portugal Duqueza de Saboya, Lisboa : Of. Tip.-Calçada do Cabra, 1908.

Gil Vicente, as Cortes de Júpiter

A Tragicomedia seguinte foy feyta ao muyto alto & poderoso Rey dom Manoel, o primeyro em Portugal deste nome, aa partida da illustrissima, senhora iffante dona Beatriz, duqueza de Saboya,da qual sua invençam he, que o senhor Deos, querendo fazer mercê aa dita Senhora, mandou sua providencia por mensagera a Jupiter, Rey dos elementos, que fizesse Côrtes, em que se concertassem planetas & sinos em favor de sua viagem. Foy representada nos paços da ribeyra na cidade de Lixboa. Era de M. D. XIX. “ (28)

Providência: Nobre Rey venhaes embora/cumpre que façais néssora/cortes com solenidade//Jupiter: Sobre que divina joya//Providência: Porque vay hua princesa/alta infante portuguesa/duquesa pera Saboya…

E mais adiante:

Romance

Niña era la infanta/Doña Betriz se dezia/nieta del buen Rey Hernando/ el mejor Rey de Castilla/hija delRey don Manuel/y Reyna doña Maria/ Reyes de tanta bondad/que tales dos no avia./niña la caso su padre/muy hermosa a maravilla/con el duque de Saboya/que bien le pertencia.

(28) Gil Vicente, 1465?-1537 Obras de Gil Vicente Facsimile da edição de 1562 Biblioteca Nacional, 1928

Garcia de Resende descreve as festas do casamento e da partida de D. Beatriz e refere a representação:

“E as danças acabadas se começou hua muyto boa & muyto bem feyta comedia de muytas figuras muy bem ataviadas & muy naturaes/feyta & representada ao casamento & partida da senhora yffante/ cousa muyto bem ordenada & bem a proposito: & com ella acabada se acabou ho serão.”

E termina com: “E ao sabado polla manhã dia de sam Lourenço dez dias do dito mes  dagosto do dito anno de mil & quinhentos & vinte hum ãnos a senhora iffante com toda a frota de sua armada partio & sayo de foz em fora& fez sua viagem. Que prazeraa a nosso senhor Deos ser tâto por seu bem & descanso/quanto elrey seu pay & a senhora raynha/o principe/& hos iffantes seus irmãos & ela mesma desejã & todos desejamos. Amê.” (29)

(29) Garcia de Resende, 1470?-1536 Ida da iffante Dona Beatriz pera Saboya no Livro das obras de Garcia de Resêde que tracta da vida & grandissimas virtudes: bõdades:  magnanimo esforço: excelêtes costumes & manhas & muy craros feitos do christianissimo: muito alto & muyto poderoso.. el rey dom João o segundo deste nome: & dos Reys de Portugal o trezeno de gloriosa memoria: começado de seu nascimêto & toda sua vida ate ora de sua morte: cõ outras obras que adiante se seguem. Manoel da Costa o fez em Evora a XXVI dias do mes de Janeiro de mil quinhento & trinta & seys annos.

O terceiro casamento de D. Manuel

Espantou-se o Reyno, sintio-se o Principe. Fr. Luiz de Sousa

O terceiro casamento realizou-se em 1518, com D. Leonor da Áustria (15) que havia sido prometida ao príncipe herdeiro, o futuro D. João III.

Frei Luiz de Sousa nos Annaes de ElRei Dom D. João III, refere o espanto e o quase escândalo deste terceiro casamento de D. Manuel:

“A tão bons intentos, ou que fosse culpa dos que trazia junto de sy, a que não estava bem tomar elRey estado, com que elles perdessem o que tinhão de poder, e vali no Reyno: ou que fosse algum movimento de carne e sangue, a que todo homem he sogeito, e a complexão dos Reys muyto mais que as ordinarias dos outros homens, succedeo o que menos lhe armava para a vida, e mais danoso era pera o estado do seu Reyno: que foy determinar-se em terceyras vodas.”

“Espantouse o Reyno, sintio-se o Principe. Estranhava o povo ver hum Rey, por muyto prudente reputado, sem dar mais tempo ao nojo, e memoria de huma Raynha de tanto merecimento, como era a defunta, (cousa que até entre gente popular causa escandalo) pôr em obra casar-se: e em idade crecida, com a casa cheya de herdeyros: e sobre tudo com barbas brancas, buscar molher muyto moça e com fama de fermosa pera madrasta de oyto filhos: obrigar-se a sy e aos seus gastos superfulos e desnecessarios.” (30)

(30) Frei Luiz de Sousa Annaes de ElRei Dom D. João III publicados por A. Herculano Typ. da Sociedade Propaganda dos Conhecimentos Úteis Largo do Pelourinho Lisboa 1844

Entretanto em 1518,  D. Manuel recebe o colar do Toison d’Or.dm25dm25a

O colar da ordem do Toison d’Or

O Toison d’or, foi uma prestigiada ordem  fundada em Bruges por Filipe o Bom (1396-1467), duque da Borgonha em 1430, por ocasião do seu casamento com Isabel de Portugal (1397-1471), a filha de D. João I. D. Manuel recebe-a em 1517, e D. João III em 1531.

Damião de Goes, descreve a imposição das insígnias ao rei D. Manuel quando do seu terceiro casamento. Assim, na véspera do dia de Santo André, momento consagrado à cerimónia,

“…acabada a missa, elRei rçebeo ha ordê do Tosam, q ll.e elRei de Castella dõ Carlos seu cunhado mandou, em sinal de amizade, cõ hu colar douro das insignias da ordê, que sam fozis encadeados, & hum verlo afeiçam de pelle de carneiro, com ha cabeça, cornos, pes & mãos q pende deste collar.” (31)

(31) Chronica do Felicissimo Rei Dom Emanuel, Composta per Damiam de Goes, dividida em quatro partes das quaes esta he a primeira. Em Lisboa em casa de Françisco correa, impressor do serenissimo Cardeal Infante, ahos XVII dias do mes de Julho de 1566

Já Francisco de Andrada na Chronica de D. João III, além de descrever as insígnias “…hum colar d’ouro da dita ordê, o qual tê vinte & seis fuzis, & outras tãtas pedreneyras, esmaltadas & co toison & os agrapis q convê ao sobre dito colar douro…” narra o juramento de D. João III: “Eu me obrigo em quanto viver, ou ao menos em quanto na ordem perservar, a trabalhar por ajudar a sustentar & defender o estado, juridição, senhorios, terras, & quaisquer direyto & pertenças do senhor mestre cabeça desta ordem &, assy farey tudo o que em mym for para q a ordem floreça & permaneça em sua honra & dignidade, & não cõsintirey em quanto puder, perderse, nem minguar algua cousa do credito & primor della.”

E mais adiante: “…& quãto ao trazer do colar do toison so por sy, me obrigo atrazer o colar, & o toison hà vespera & ao dia de S. Andre somente, o que assy juro de comprir.” (32)

(32) Francisco d’Andrada (1540-1614) Cronica do muyto alto e muito poderoso Rey destes reynos de Portugal Dom João o III. deste nome... T. I cap. IV e VI, Impressa em Lisboa : Jorge Rodriguez : ha custa do autor : vendesse na Rua Nova em casa de Francisco Lopez livreiro, 1613.

 

O quadro de 1541, de Garcia Fernandes, por muito tempo considerado representar o Terceiro Casamento de D. Manuel e que hoje sabe-se ser o Casamento de Santo Aleixo

dm26Garcia Fernandes (1514 - 1565) 1541 óleo sobre madeira 210 x 165 cm Museu São Roque (Lisboa)

O quadro foi durante muito tempo titulado do Terceiro Casamento de D. Manuel, mas de facto Joaquim de Oliveira Caetano, do Museu Nacional de Arte Antiga, provou ser uma figuração do Casamento de Santo Aleixo, uma alegoria da fundação das Misericórdias “tendo o quadro sido encomendado pelo filho do primeiro provedor das Misericórdias, D. Álvaro da Costa. A iconografia seria, portanto, invulgar, uma vez que Santo Aleixo é maioritariamente representado como um pobre pedinte, no leito da morte ou segurando, já cadáver, a carta que o papa Bonifácio I leu permitindo-lhe reconhecer o ›homem santo‹. A hagiologia dá grande importância ao casamento forçado de Aleixo com Sabina, que abandona na noite núpcias, deixando-a casta e entregando-se ao seu apelo de santidade. Dedicando-se aos pobres, desfaz-se das suas ricas vestes e do seu colar do ouro (representados na pintura) e retira-se do meio mundano dedicando-se à esmola. Ficará conhecido como “o Homem de Deus”.

“De facto, não é plausível que se mandasse executar uma pintura representando o casamento de D. Manuel com D. Leonor, vinte e três anos após a sua ocorrência. À data da execução desta pintura, D. Manuel falecera, D. Leonor estava casada em segundas núpcias com Francisco I de França, e o rei de Portugal era D. João III, a quem D. Leonor estivera prometida antes de casar com D. Manuel. Por outro lado, tendo em conta as directivas tridentinas, é de estranhar a colocação de uma obra de temática profana, num espaço sagrado público. Acresce o facto de, o presumível D. Manuel não apresenta a insígnia do Tosão de Ouro que recebera pelo casamento com D. Leonor.”

“A existência de uma Confraria de Santo Aleixo, na Igreja da Misericórdia encontra-se documentada, embora não conheçamos a data de instituição desta Confraria. Contudo, sabemos que em 1538 foi anexada à Misericórdia, por vontade régia, uma confraria de caridade. Assumindo o pressuposto, que a confraria anexada à Misericórdia em 1538, foi a Confraria de Santo Aleixo, faria todo o sentido a execução, em 1542, de uma pintura dedicada a Santo Aleixo, para colocar na Igreja da Misericórdia. Justifica-se, deste modo, a presença do retrato de D. Álvaro da Costa na pintura -identificado por uma inscrição desenhada nas suas vestes -, uma vez que era Provedor da Misericórdia em 1538.”

“Em primeiro plano, e ao centro da composição, o pintor representou Santo Aleixo, a sua noiva e o sacerdote que celebra o casamento. As figuras que assistem à cerimónia distribuem-se de forma equilibrada, em torno do casal, separadas por sexos. Esta pintura, apresenta uma certa graciosidade que lhe é conferida pela idealização dos rostos, em particular dos rostos femininos, sinuosidades dos corpos e tratamento expressivo dos panejamentos das vestes. “(Museu de S. Roque)

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15 - D. Leonor de Áustria (1498-1558), infanta de Espanha, filha de Filipe o Belo e de Joana a Louca e irmã do imperador Carlos V. Era a prometida esposa do futuro rei D. João III, mas para surpresa da corte casou com o pai, D. Manuel. Teve dois filhos Carlos (1520-1521), que morreu com apenas um ano e Maria (1521-1577), Duquesa de Viseu (ver adiante 16 ). Quando enviuvou voltou a casar com o rei de França, Francisco I.

Retrato de D. Leonor no Museu Nacional de Arte Antiga.dm27dm27a 

Joss van Cleve Retrato de D. Leonor de Áustria  1530 óleo sobre madeira de carvalho 25 x 19 cm. Museu Nacional de Arte Antiga

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“Surge aqui profusamente ataviada de jóias, tendo na mão direita um anel com um rubi, provável alusão ao casamento que o xadrez diplomático da Casa de Áustria secretamente lhe impôs, em 1526, após a sua efémera estadia na corte portuguesa. Oferta de Calouste Gulbenkian. Esta pintura foi adquirida na venda da Colecção do Castelo de Nijenrode, Amesterdão, em 1923. Foi posteriormente oferecida ao Estado por Calouste Gulbenkian. Existem retratos idênticos a este em Londres, Madrid, Chantilly, Haia, Viena de Áustria e Cincinatti. O de Hampton Court tem sido considerado exemplar autógrafo de Van Cleve, chamado a França pelos emissários de Francisco I a fim de executar retratos ao natural do rei, da rainha e de outros membros da família real. Esta versão do MNAA é a única da série em que D. Leonor se mostra com um chapéu ricamente decorado e esboçando o gesto de apresentação do anel.” (Matriz Net/IMC)

Os filhos e as filhas de Filipe o Belo e Joana a Louca, entre os quais figura D. Leonor.

Para melhor se perceber os graus de parentesco das casas reais no século XVI, e os casamentos realizados por razões políticas, mostra-se a descendência de Filipe o Belo e Joana a Louca e os lugares reais que ocuparam.dm28Anónimo flamenco. Díptico com os filhos de Filipe o Belo e Joana a Louca 1507 Museu de Santa Cruz Toledo.

A descendência de Joana a Louca da esquerda para a direita:

D. Fernando (1503- 1564) imperador do Sacro Império em 1556.

dm29Hans Bocksberger der Ältere (1510–1561), Kaiser Ferdinand I. 206 x 109 cm Kunsthistorisches Museum, Wien

D. Carlos (1500-1558) o futuro Carlos V casado com D. Isabel filha de D. Manuel. (ver acima o n.º 13)

dm31Jan Cornelisz Vermeyen (c.1500–1559),Carlos V imperador do Sacro Império Romano c. 1530 óleo sobre madeira 16,4 x 14 cm Rijksmuseum Amsterdam

D. Leonor (1498-1558), terceira mulher de D. Manuel e rainha de França pelo casamento com François I. (ver o n.º 15)

D. Isabel rainha da Dinamarca pelo casamento com Cristiano II (1481-1559).

dm32Jacob Cornelisz van Oostsanen (c.1472-1533) retrato da rainha Isabel de Dinamarca (?) c. 1524 óleo sobre madeira 33 x 23 cm Museo Thyssen-Bornemisza, Madrid

D. Maria (1505-1558) rainha da Hungria pelo casamento com Luís II da Boémia e Hungria, sendo depois nomeada governadora dos Países Baixos pelo irmão Carlos V.

dm33Jan Cornelisz Vermeyen, (c.1500–1559) Maria rainha da Hungria óleo sobre madeira 54,6 × 45,7 cm Metropolitan Museum of Art New York

D. Catarina que se torna rainha de Portugal pelo casamento em 1525 com D. João III(ver o n.º 13)

A Morte de D. Manuel

“De Gil Vicente na morte do muyto alto & esclarecido rey dom Manoel, o primeyro do nome

Romance

Pranto facem em Lixboa /dia de Sancta Lucía,/por el Rey dom Manoel/que se finou nesse dia

choraram duques mestre cõdes/cada hum quem mais podia/os fidalgo & donzelas/muyto tristes em porfia

os Iffantes davan gritos/a Iffanta se carpía/seus cabelos, fios d’ouro/arricava & destroya

seus olhos maravilhosos/fontes d’agoa pareciã/bem merecen ser escriptas/as lástimas que dizia (*)

paço tam desemparado/derribado merecia/pois a sua fortaleza/se tornou em terra fria

ho, minha senhora madre/Rainha dona Maria/quem a vos levou primeyro /muy grande bem vos queria (**)

pois que vos librou da pena/que passamos neste dia /& outras magoas que de tristes/contar nam nas ousaria…” (33)

(*) A infanta D. Isabel, que quatro anos depois casaria com Carlos V

(**) A rainha D. Maria morreu em 1517

(33) Gil Vicente (c.1465-1536?) Copilaçam de todalas obras de Gil Vicente a qual se reparte em cinco liuros. O primeyro he de todas suas cousas de deuaçam. O segundo as Comedias. O terceyro as Tragicomedias. No quarto as Farsas. No quinto às obras meudas. - Vam emmendadas polo Sancto Officio como se manda no cathalogo deste Regno. - Lixboa : por Andres Lobato, 1586. Obras do Qvinto Livro  Biblioteca Nacional

Dona Leonor rainha de França

D. Leonor enviuvou em 1521, e em 1530 voltou a casar com Francisco I rei de França. Por isso existem diversos retratos de D. Leonor como rainha de França.

dm81 Jan Gossaert van Mabuse (1478–1532),  Queen Eleanor of Austria 1516 óleo sobre tela Worcester Art Museum

dm36Joos van Cleve (1485-1540)  Leonor de Áustria, rainha de França c.1530 óleo sobre madeira 35,5 x 29,5 cm Kunsthistorisches Museum Viena

dm36bA la cristianissima y muy golirosa siñora la Reyna mi siñora.

Um quadro semelhante, com o mesmo bilhete nas mãos, aparece  - possivelmente por engano - referenciado a D. Maria, e não à sua mãe D. Leonor.dm84Dona Maria, infante du Portugal (1521-1578) óleo sobre madeira 40 x 30,5 cm. Chantilly, musée Condé

E D. Leonor é ainda retratada usando outras técnicas.dm85Léonard Limosin (c.1505-1575) Eléonore d'Autriche 1536 esmalte pintado Limoges musée national de la Renaissance, château d'Ecouen

dm68Hans Weiditz ( c.1500-c.1536) Portrait of Eleonora of Habsburg, sister of Charles V; c.1518 xilogravura 44,5 x 35,8 cm. inscrição 'LENORA SOROR KAROLI R R' The British Museum

Também é retratada com Francisco I.dm82Autor desconhecido François I with Eleanor, Queen of France c.1520-40 óleo sobre madeira 70.8 x 56.4 cm the Royal Collection

1dm372 dm37a

1 Jean Clouet (1475/1485-1540) François Ier, roi de France (1494-1547) 1524 sanguínea e carvão 27,6 x 19,7 cm Collection Catherine de Médicis musée Condé Chantilly

2 Jean Clouet (1475/1485-1540) Leonor de Áustria (1498-1558), rainha de França 1531 sanguínea e carvão 28 x 20 cm musée Condé Chantilly

Um dos mais conhecidos retratos de Francisco I, rei de França por Jean Clouet e umoutro de perfil de Ticiano.

dm38Jean Clouet (1475–1540) François Ier, roi de France (1494 - 1547) c. 1530 óleo sobre madeira de carvalho 96 x 74 cm Museu do Louvre

dm38aTiziano Vecellio (1485/88-1576)François Ier, roi de France óleo sobre tela 109 x 89 cm Museu do Louvre

Em 1547 morre Francisco I e em 1557 morre D. João III. D. Leonor vai, finalmente, reencontrar-se com a filha a Infanta D. Maria (ver n.º 16)

Carolina Michaëllis de Vasconcelos relata desta maneira o encontro:

“D. Leonor, anciosa e afflicta, estava em Badajoz, à espera, havia dois meses! Finalmente, em dezembro de 1557, a Infanta chega com sequito apparatoso, brilhante não, porque ambas trajavam dó, por morte de D. João III. Vinte dias passaram juntas, recordando, entre sorrisos e lágrimas, os innumeros incidentes que as tynham matyrisado durante os ultimos vinte annos.” ( 34)

(34) Carolina Michaëllis de Vasconcelos, A Infanta D. Maria de Portugal (1521-1577) e as suas Damas, edição fac-similada Biblioteca Nacional Lisboa 1994

dm80François Clouet (vers 1515-1572)  Eleonore d'Autriche, femme de François Ier (1498-1558), en deuil du Roi c. 1558 lápis e sanguínea 34 x 23 cm. Chantilly, musée Condé

D. Maria, como prometido, voltou para Lisboa e a mãe recolhe ao convento de Talavera, perto de Badajoz, onde morre passados alguns dias em 18 de Fevereiro de 1578.dm98Antonio Moro D. Leonor Museu do convento das Descalzas Reales  Madrid

Os filhos de D. Leonor a terceira esposa de D. Manuel.

D. Carlos (1520-1521), que morreu com apenas um ano.

16 -D. Maria (1521-1577),  senhora de Viseu e de Torres Vedras

Filha de D. Manuel, enteada de François I, rei de França, sobrinha do Imperador Carlos V, e sobrinha dos outros filhos e filhas de Joana a Louca. A mais nova das tias, Catarina é simultaneamente sua tia e sua cunhada pelo casamento com D. João III. Assim torna-se uma das princesas mais ricas da Europa e herdeira da coroa de Portugal (o que apenas não aconteceu por ter morrido um ano antes de Alcácer-Quebir). Por isso, segundo alguns autores, o rei D. João III, seu meio irmão e vinte anos mais velho, não a deixa sair de Portugal e acompanhar a sua mãe D. Leonor quando esta se casa com François I de França. E embora aparentemente D. João III, tenha procurado o seu casamento quer com filho mais novo de Francisco I, o Duque de Orleães, quer com Maximiliano de Áustria, futuro imperador da Alemanha, quer ainda com Filipe II de Espanha então viúvo da filha de João III, (e que acaba por casar com Maria Tudor, rainha de Inglaterra), na prática segundo alguns, e pela mesma razão, o rei não terá sido alheio ao fracasso das negociações para tais matrimónios.

dm34Gregório Lopes (atribuído a) L’Infante du portugal fille de la reine leonor grafite sobre papel 33 x 22,5 cm. Museu Condé, Chantilly

Reynaldo dos Santos desvaloriza este desenho do Recueil d’Arrasdm78

No Recueil d’Arras há um desenho cuja legenda diz em francês: Infante Dona Maria de Portugal fille du roi emanuel et de Eleonore d’Autriche. É um desenho medíocre, bastante afastado da iconografia autêntica para que valha a pena insistir mais nele. (35)

(35) Reynaldo dos Santos, Os Retratos da Infanta D. Maria filha de D. Manuel, Colóquio n.º 16 Fundação Calouste Gulbenkian

Da vida de D. Maria encarrega-se Frei Miguel Pacheco (? – 1668), em Vida de la Serenissima Infanta Dona Maria hija delRey D. Manoel, fundadora de la insigne Capilla mayor del Cõvento de N.Señora de la Luz , y de su Hospital , y otras muchas casas dedicadas al culto divino, (36) obra dividida em dois livros. O primeiro expõe a vida da Infanta como princesa e as várias propostas de casamento de monarcas europeus. No segundo D. Maria é apresentada como um modelo de virtudes. O livro termina com um conjunto de referências elogiosas a D. Maria feitas por seus contemporâneos como João de Barros, André de Resende, Martim de Azpicuelta Navarro, Frei Luís dos Anjos, Duarte Nunes de Leão e Pedro Mariz.

E cita a célebre resposta de D. Maria ao seu meio irmão D. João III, cansada de ser (mal) “negociada” por um hipotético casamento real:

“Quando se ofrecían negocios que tratar,que parecían buenos
anduvo V. A, en dilaciones y de feria en feria , sin quererles concluir, y ahora que no ay ninguno me sale con esto ? Pues aunque fuesse Monarca del mundo no lo hare, ni se ha de pensar tal cosa de mi.”
(36)

(36)Vida de la Serenissima Infanta Dona Maria hija delRey D. Manoel, fundadora de la insigne Capilla mayor del Cõvento de N.Señora de la Luz , y de su Hospital , y otras muchas casas dedicadas al culto divino. por el M. P. R. M. Fr. Miguel Pacheco, Regular de la Orden de Christo, Lente muchos años en el Seminario del Real Convento de Thomar, Procurador general que fue de la dicha Orden en la Corte de Lisboa y en la de Madrid,y Administrador del Hospital Real de S. Antonio de los Portugueses en la dicha Corte. L isboa, En la Officina de Ivan de la Costa. A costa de Miguel Manescal Libreiro de S. Alteza  M. DC. L X X V. (1675)

Assim, D. Maria uma das mulheres mais cultas e mais ricas do seu tempo, acaba por ficar solteira (innupta, uma triste sempre-noiva, segundo Carolina Michaëllis).

Escreve Duarte Nunes de Leão (1530-1608) em  “Da habilidade das molheres portuguesas para as letras & artes liberaes”

“Mas com todo seu encerramento não faltarão nestes nossos tempos molheres Portuguesas que no estudo das letras se avantajarão das outras. De que poderiamos nomear por primaz a sereníssima Infante Dona Maria filha del Rei Dom Manuel, a qual alê das muito heroicas virtudes que nella resplandeciam & grãde exemplo de honestidade em que perseverou no estado viginal ate a morte, foi mui studiosa das letras, & fez na língua Latina e outras grãde progresso, com que gastava o tempo em ler livros: para o que tinha em sua casa muitas Donzellas doctas em muitas artes com as quaes communicava seus estudos: cuja casa era hu domicilio das Musas & hua schola de virtudes & honestidade, em aqual se achava quem revolvia livros, quê tocava muitos instrumentos musicos de diversas maneiras, & quê pintava e fazia os outros officios que são naturaes das molheres em grande perfeição.” (37)

(37) Descrição do Reino de Portugal per Duarte Nunez do Leão, desembargador da casa da supplicação. Em Lisboa Impresso com licença, por Jorge Rodriguez Anno 1610

Pedro de Mariz (1565-1615), também refere a riqueza da Infanta:

“… a Infanta Dona Maria, Princeza de reaes virtudes, & de hereditários patrimónios riquíssima: & de tão grande casa, que para dizer que foy igual a todas as Rainhas de Europa, não lhe faltou mais que o nome d’ellas.(38)

(38) Pedro de Mariz, Dialogos de varia historia em que summariamente se referem muytas cousas antiguas de Hespanha c [sic] todas as mais notauees q[ue] em Portugal acontecerão em suas gloriosas conquistas antes e depois de ser levantado a Dignidade Real, e outras muytas de outros reynos dignas de memoria : com os retratos de todos os Reys de Portugal,Em Coimbra, na Officina de Antonio de Mariz,1594

E Carolina Michaëllis de Vasconcelos, em A Infanta D. Maria de Portugal (1521-1577) e as suas Damas,(39) escreve:

“…senhora de terras, capitaes, explendidas baixellas d’ouro e prata, joias, pedras preciosas, tapeçarias, e outros mimos, por meio dos quaes a sua vivenda a par de Santos-o-Novo se transformou em uma residência sumptuosissima, de verdadeira soberana.”

(39) Carolina Michaëlis de Vasconcelos A Infanta D. Maria de Portugal (1521-1577) e as suas Damas, edição fac-similada Biblioteca Nacional Lisboa 1994

Edificou à sua custa em 1575 a igreja e a capela-mor do convento de Nossa Senhora da Luz, da ordem de Cristo, fundou o convento de Santa Helena do Calvário em Évora; o de Nossa Senhora dos Anjos, de capuchos arrábidos, junto a Torres Vedras, em cuja vila também teve um palácio; o de S. Bruno, e o de Santo Cristo dos Milagres, de Santarém, e deixou em seu testamento com que se edificasse um mosteiro para as comendadeiras da ordem de S. Bento de Avis, que se construiu em Lisboa com a invocação, que ela ordenara, de Nossa Senhora da Encarnação, que ainda hoje existe.

Jean Nicot (1530-1604), embaixador de França em Portugal escreve em 1559: “Madame l'Infante Marie estoit si richement drapée de perles et pierreries diverses, que le soleil n’est pas plus brillant.” 

E mais adiante

“L'Infante Donà Maria estoit avec le Roy quand je luy ay baisé lez mains, qui est une belle princesse et si richement estoit parée qu'il semblait qu'il ne fut demoerre pierre ni perle en lorient, on men a dict tant de choses honnestes et vertueuses ;…” (40)

(40) Jean Nicot Ambassadeur de France en Portugal au XVIe siècle / Sa correspondance Diplomatique Inédite avec un fac-similé en pholotypie par Edmond Falgairolle Paris Augustin Challamel, Editeur, 17 Rue Jacob Librairie Maritime et Cloniale, 1897

Carolina Michaëllis de Vasconcelos, escreve sobre o retrato La Dama del Joyel, do museu do Prado como se fosse o retrato realizado quando da visita de Moro a Portugal em 1552 para mostrar ao futuro monarca Filipe II (Filipe I de Portugal) quando se pensava no casamento dos dois, o que não veio a acontecer, já que Filipe casou com Maria Tudor.dm35 Antonio Moro D. Maria de Portugal (La dama del joyel) 1552 óleo sobre madeira 107 x 83 cm. Museu do Prado Madrid

Assim descreve o quadro Carolina Michaëllis de Vasconcelos:

“…Como symbolo de magoas fôra envolvendo o rosto gracioso, de feições tão regulares e puras, e parte do formoso cabello castanho-claro que o emmoldura num veu tenue que desce ao peito. A mão direita, de afilados dedos aristrocáticos, segura uma perola que lhe serve de firmal. Uma lagrima reprimida? Talvez. Todavia o pintor viu e reproduziu apenas uns olhos azues muito limpidos, com expressão serena e franca, suavemente perscutadora, nos quaes se reflecte uma intelligencia lucida, altiva rectidão, e principalmente um coração valente. Aos lábios finos, cerrados por inviolavel sigillo, e ao terço inferior da cabeça não falta energia. “

”O trage cujos tons sombrios dão à singular alvura das mãos e do rosto, finamente modelado, está em harmonia na sua singeleza disctintissima com a nobreza natural do porte, e com a melanchilica suavidade da physiognomia. O velludo preto, afogado, de corte modesto, guarnecido apenas na frente com alguns laços de côr clara que se repetem nas mangas golpeadas, denuncia a elevada categoria da personagem, sem ostentar as suas grandes e falladas riquezas que tantas cobiças despertaram. Poucas jóias de preço destacam-se do estofo e do seu gaze, sem anullar o aspecto tristonho do quadro. Poucas, relativamente – diadema, collar, remate do veu e cinto – se tivermos em mira, conforme reclama a justiça, outros quadros da mesma epoca e do mesmo pintor, representando damas de famílias reaes de Hespanha, poruqe o vestuario de algumas está literalmente coberto das mais raras preciosidades da ourivesaria e joalheria.” (41)

(41) Carolina Michaëlis de Vasconcelos A Infanta D. Maria de Portugal (1521-1577) e as suas Damas, edição fac-similada Biblioteca Nacional Lisboa 1994

No entanto, Reinaldo dos Santos, contesta que este retrato represente D. Maria e aponta o quadro existente no museu das Descalzas Reales de Madrid, como o retrato que se sabe Antonio Moro pintou da Infanta em 1552.

dm72Antonio Moro D. Maria 1552 óleo sobre tela 100 x 87 cm, Descalzas Reales Madrid

E Reinaldo dos Santos escreve: O oval é puro, os olhos azuis e fulgurantes, os lábios vermelhos um pouco fortes, em plena floração como os de sua ,ãe a Rainha D. Leonor. As sobrancelhas bem desenhadas, nariz um pouco largo e grosso, e traje à portuguesa, como D. Catarina sua cunhada no retrato do Prado. Luva numa mão, leque na outra, e de toda a figura elegante, altiva e nobre emana um verdadeiro charme que permite compreender as paixões  que esta figura de sedução desencadeou na corte portuguesa e sobretudo a lenda dos amores de Camões que outro poeta, Afonso lopes Vieira, e José Maria Rodrigues, consideravam a chave da interpretação das numerosas alusões da sua Lírica, aos altos pensamentos…à alta senhora(42)

(42) Reynaldo dos Santos, Os Retratos da Infanta D. Maria filha de D. Manuel, Colóquio n.º 16 Dez. 1961 Fundação Calouste Gulbenkian

No texto já referido de Alexandre Herculano em que um dos membros da  comitiva do Cardeal Alexandrino, João Baptista Venturino, narra essa visita e descreve a infanta D. Maria:

“Tendo anoitecido, acompanhados com vinte tochas adeante fomos ao palacio da infanta D. Maria, irman de D. João III, a qual, tendo ficado orphan em tenra edade, não quiz jámais casar, posto que fosse robusta, formosa, e procurada. Era alta, e teria d'edade cincoenta annos, posto que não pareça á primeira vista. Dizem que é a princeza mais rica da christandade, possuindo innumeraveis joias e milhão e meio de bens patrimoniaes, que gasta com os pobres.(…) Estava vestida a princeza com um vestido afogado de velludo preto com orla d'ouro e botões d'ouro no colarinho, coifa de rêde d'ouro na cabeça, e uma corôa no braço, de rubins e diamantes, que avaliámos em trezentos mil escudos.” (43 )

(43) Alexandre Herculano Viagem do cardeal Alexandrino. 1571, em Opúsculos, VI, Lisboa Viúva Bertrand & C.ª Seccessores Carvalho & C.ª Chiado, 75 M DCCC LXXXIV

Camões e a Infanta D. Maria

Oh ! Porque fez a natureza humana
Entre os nascidos tanta diferença ?
Camões

José Maria Rodrigues (1857-1942), defendeu a tese, não provada que D. Maria (1521-1577), terá sido uma das musas inspiradoras de Luís de Camões (c. 1524-1580), seu contemporâneo e que dela se teria enamorado, e por isso terá sido afastado da corte. No entanto com o livro Camões e a Infanta D. Maria, ficou criada a lenda deste amor impossível.

José Maria Rodrigues inicia a sua publicação com:

“Conta-se que o poeta é levado a frequentar o Paço por D. António de Noronha, cuja morte é citada num soneto. Ali conhece Dona Caterina de Ataíde, Dama da Rainha, por quem se apaixona perdidamente. O objecto de paixão é imortalizado na sua lírica sob o anagrama de Natércia. Há quem diga ainda que o autor d’Os Lusíadas se enamora da própria Infanta D. Maria, irmã de D. João III, Rei de Portugal.” (34)

(34) José Maria Rodrigues  Camões e a Infanta D. Maria Imprensa da Universidade Coimbra 1910

E logo de início cita a conhecida redondilha de Camões:
Perdigão, que o pensamento
Subio a um alto logar,
Perde a penna do voar,
Ganha a pena do tormento.
Não tem no ar, nem no vento,
Asas com que se sostenha.
Não ha mal qui lhe não venha !
Quis voar a uma alta torre,
Mas achou-se desasado;
E vendo-se depennado.
De puro penado morre.
Se a queixumes se soccorre,
Lança no fogo mais lenha.
Não ha mal que lhe não venha !

E José Maria Rodrigues acrescenta: “…o pobre perdigão depennado, que nem ao menos se podia queixar, sem lançar mais lenha ao fogo, sem aggravar a sua situação, era o próprio Camões.”

E ainda que:

“…o alto logar até onde subio o seu pensamento, a alta torre a que quis voar, era uma das mais nobres e mais sympathicas figuras femininas que teem vivido sob este bello sol de Portugal: era a filha mais nova del-rei D. Manuel, a infanta D. Maria.”

dm66Depois percorre a vida e a obra lírica de Camões, encontrando em diversos poemas possíveis referências a D. Maria, e conclui com o soneto CLXI  que relaciona com a morte da Infanta  em 1577.

Chorai, nymphas, os fados poderosos
Daquella soberana formosura.
Onde foram parar ? na sepultura ?
Aquelles reais olhos graciosos ?

Oh bens do mundo, falsos e enganosos
Que maguas para ouvir Que tal figura
Jaza sem resplandor na terra dura,
Com tal rosto e cabellos tão formosos

Das outras que será, pois poder teve
A morte sobre cousa tanto bella,
Que ella eclipsava a luz do claro dia ?

Mas o mundo não era digno della,
Por isso mais na terra não esteve
Ao ceu subiu, que já se lhe devia.

Camões irá falecer apenas três anos depois em 1580.

A infanta está representada na igreja de Nossa Senhora da Luz, sendo a primeira figura do lado direito.dm100dm77

Para terminar um poema de Cecília Meireles, que se poderia aplicar à Infanta D. Maria.

Retrato de Mulher Triste

Vestiu-se para um baile que não há.
Sentou-se com suas últimas jóias.
E olha para o lado, imóvel.
Está vendo os salões que se acabaram,
embala-se em valsas que não dançou,
levemente sorri para um homem.
O homem que não existiu.
Se alguém lhe disser que sonha,
levantará com desdém o arco das sobrancelhas,
Pois jamais se viveu com tanta plenitude.
Mas para falar de sua vida
tem de abaixar as quase infantis pestanas,
e esperar que se apaguem duas infinitas lágrimas.

Cecília Meireles, in Poemas (1942-1959)

1 comentário:

  1. Que artigo maravilhoso! Que pesquisa esmerada, e quantos detalhes! Sou um grande admirador da época das Navegações portuguesas e dos "Áustrias" espanhois, portanto, este post e o anterior me interessaram muitíssimo. Grato!

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