Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















quarta-feira, 27 de março de 2013

O Homem do Leme

Nota inicial – Este texto faz parte de um trabalho em elaboração aproveitando e revendo muitos dos posts publicados. Esse trabalho com o título de Um Álbum do Porto, de onde irei publicando alguns excertos, sem qualquer preocupação de seguir uma ordem cronológica. O Homem do Leme pertence a um capítulo com o título de O Porto dos anos trinta. Todos os realces a negrito são do autor deste texto. Conservou-se a ortografia original dos textos.

O Homem do Leme

 

“O Homem que vai ao leme

Olha atento para o mar:

Não tem medo de morrer,

Tem medo de naufragar.”

Eugénio de Castro (1869-1944), Coimbra, Dezembro de 1936. [1]

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fig. 1 e fig. 2 – O Homem do Leme, fotografias do livro O Homem do Leme 1938

A Navegação

Na I Exposição Colonial Portuguesa, realizada em 1934 no Palácio de Cristal do Porto, na nave principal do então baptizado Palácio das Colónias, o espaço central era ocupado por uma temática com o título de A Navegação.

Este espaço era assim descrito no Roteiro da Exposição:

“Ao centro do grupo vê-se a Estátua do Mari­nheiro. Cercando a estátua duas secções: a da ma­rinha de guerra e a da marinha mercante. Na primeira faz-se referência à sua cooperação na ma­nutenção da soberania portuguesa e a recons­trução naval; na segunda às carreiras de navegação regulares para a África, exibindo-se no grupo maquetes, material de guerra e náutico, plantas, dia­gramas e fotografias.”[2]

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fig. 3- Um aspecto da secção oficial da Navegação vendo-se ao centro a escultura O Homem do Leme

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fig. 4 – Outro aspecto da mesma secção

O Homem do Leme (A estátua do Marinheiro)

No centro, a maquete em gesso da escultura “A estátua do Marinheiro” que ficará conhecida pelo nome de “O Homem do Leme”, encomendada para a Exposição por Henrique Galvão (1895-1970) [3], ao escultor Américo Gomes (1880-1964).

Um timoneiro, o rosto concentrado e as mãos bem agarradas na roda do leme, os braços em esforço, e as pernas bem assentes no convés, luta contra a intempérie, determinado a levar a embarcação a bom porto. Protege-se com o sueste [4] e com a capa de oleado.

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fig. 5 e fig. 6 – O Homem do Leme na Exposição Colonial

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fig. 7 e fig. 8 – …o rosto concentrado…

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fig. 9 – …as mãos bem agarradas na roda do leme…

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fig. 10 - …as pernas bem assentes no convés…

No pedestal relevos alusivos à temática da Exposição: a Descoberta, a Conquista e a Colonização do Império Português.

Após a Exposição e com o sucesso da escultura que “tem carácter, expressão e movimento” [5] a maquete recolheu à “…salinha aconchegada do Museu Municipal de Ílhavo, onde veio encontrar carinhoso e seguro abrigo, [onde] nem destoa pelo inevitável contraste das suas dimensões nem corre o perigo de deixar incompreendido o pensamento que o inspirou.” [6]

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fig. 11 – A maquete no Museu de Ílhavo

Mas, terminada a Exposição Colonial e perante a qualidade da obra, foi criada uma Comissão para o Levantamento na Foz do Douro da Escultura O Homem do Leme com o objectivo de a reproduzir em bronze, tendo o trabalho sido executado em 1937 na oficina de Bernardino Inácio [7].

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fig. 12 – A escultura quando foi colocada na Foz do Douro fotografia do livro O Homem do Leme 1938

Em 1938 a Câmara Municipal do Porto [8] deliberou a sua colocação no local onde está presentemente, a Avenida de Montevideu em Nevogilde, para o que foi desenhado um novo pedestal, pelo arquitecto Manuel Marques (1890 -1956). [9]

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fig. 13 – O pedestal em granito desenhado pelo arquitecto Manuel Marques

O livro O Homem do Leme

Ainda no mesmo ano de 1938, foi publicado um Livro O Homem do Leme, [10] com textos, poemas, desenhos, partituras de composições musicais, todos com datas entre 1936 e 1938. De entre as diversas personalidades que participam neste livro destacam-se as directamente ligadas à Exposição como o capitão Henrique Galvão, e personalidades como o Cardeal Patriarca e o Bispo do Porto, o comandante Gago Coutinho, o engenheiro Ricardo Severo [11] , o escultor Teixeira Lopes e a actriz Palmyra Bastos. Ainda os poetas Teixeira de Pascoaes, António Corrêa d’Oliveira, Eugénio de Castro, Afonso Lopes Vieira e Martha de Mesquita da Câmara, os pintores Carlos Reis, José de Brito, Alberto de Sousa, António Costa, os músicos José Viana da Motta, Guilhermina Suggia, Cláudio Carneiro, Óscar da Silva e Armando Leça, os escritores Aquilino Ribeiro, Júlio Dantas e Carlos Passos e os professores Joaquim de Carvalho, Damião Peres, Hernâni Cidade e Aarão de Lacerda.

No livro, ainda uma lista de 270 pessoas que contribuíram para a transposição da escultura para bronze e a sua colocação na Foz do Douro.

O Homem do Leme e a sua interpretação

Os diversos textos apresentam duas interpretações, por vezes simultâneas.

A maioria, no espírito da época e da Exposição, associam O Homem do Leme a Portugal, ao Povo Português e aos Navegadores das Descobertas.

Nestes, destaca-se a abrir o livro, o depoimento (autógrafo) do cardeal Patriarca Manuel Gonçalves Cerejeira (1888-1977) escrevendo:

“Quiseram muitos ver no Homem do Leme mais do que uma obra de arte: um símbolo de Portugal! Que a Mão de Deus ampare sempre, nas rotas incertas da história, as mãos fortes do Homem do Leme!” (Abril de 1937).

E a do então Bispo do Porto, D. António Augusto Meirelles (1885-1942), que por sua vez escreve: O Homem do Leme é o emblema do Génio Lusitano que se afirmou perante o mundo, com esplendores de epopeia, na imensidade dos mares.” (24 Dezembro de 1934).

António Corrêa d’Oliveira (1878-1960), num poema de que se apresenta um excerto:

“Homem do Leme, cuidado à mão !

Ao largo o olhar !

É Deus, é Pátria: é todo um Povo

Que passou Ondas, e que, de novo,

- Há de passar!” (Março de 1936).

Antero de Figueiredo (1866-1953), “ O “Homem do Leme” é o Homem diante da Vida; neste caso, Portugal diante do Mar (…) O “Homem do Leme” simboliza a coragem calma que afronta tempestades.” (Outubro de 1936)

Outros, sem descurarem a carga simbólica, fazem uma interpretação mais realista e mais humana, associando a escultura aos pescadores e patrões de traineira, e à difícil e perigosa vida dos homens do mar. Hoje, passado o período de exaltação da história pátria, promovida pelo Estado Novo, é esta homenagem aos homens do mar que valoriza e dá sentido ao monumento na frente marítima da cidade do Porto.

Assim, António Gomes da Rocha Madail (1893-1969), Director do Museu Municipal de Ílhavo,[12] num texto já citado e intitulado Na Arte como na Vida, encontra correspondências entre o Homem do Leme e o marinheiro ilhavense:

“Desde a máscara enrugada pelo vento cortante de largos mares, fronte contraída dominando a emoção, atenção concentrada no horizonte distante, procurando divisar a linha da costa, até o oleado e o sueste por aquele corpo envergados, tudo se transmudou ali no marinheiro ilhavense que não receia desafiar as porcelas medonhas nem as vagas alterosas dos mais longínquos mares do globo, onde a vida de tantos tem sido o preço da heróica aventura constantemente renovada.” (Ílhavo, Dezembro de 1937).

E o poeta Teixeira de Pascoaes (1877-1952), evocando os Lusíadas: “Portugal é mais mar do que terra e o portuguez, um marinheiro de nascença.” (Novembro de 1936).

Também Aquilino Ribeiro (1885-1963) escreve: “Para representar Portugal em estatuária onde buscar a figuração? Na gente do mar, certamente.” (Casa de Soutosa, 5 de Outubro de 1936).

Num outro ponto de vista, Hernâni Cidade (1887-1975), compara o Homem do Leme com o Penseur de Rodin, como os símbolos que podem representar plasticamente o “esforço do homem na devassa do Desconhecido.” (Lisboa, 6 de Fevereiro de 1937)

E o historiador Carlos de Passos (1890 — 1958), num extenso texto denominado a Caravela de Santiago e o Homem do Leme, junta as duas interpretações:

“…coraçudo e firme, alheio às doidas e giganteas rebentinas da tormenta, o HOMEM DO LEME, com o rosto e o ânimo pela fragura de muitas rotas duramente curtidos, não larga do seu lugar, não abandona o posto de honra que lhe haviam confiado. O vento não cançava de o flagelar, de truculentamente o fustigar; como se fossem um manto, cingiam-no, obstinadamente o envolviam as caricias pérfidas da chuva enregelada; aferravam-se em o entontecer o raio com seus fulgores e o trovão com seus bramidos. Todavia, firme e destemido, alheio à demência exterminadora dos elementos, o HOMEM DO LEME nada mais via que a justeza do rumo, nada mais escutava que a voz do seu dever, nada mais sentia que a iminência do perigo, senão a Morte em ronda tétrica, em ronda lugente às vidas confiadas na sua valerosa e férvida guarda.”

E termina “… porque nesse peito, no peito do homem do leme palpitava o glorioso e eviterno espirito de Portugal, chamejava o inclito e peregrino génio do povo portuguez, em férvido e perenne holocausto ao seu Dever, à sua Honra, em firme e vehemente desvelo de sublimação do seu Nome, do nome de Portugal.” (No Burgo Portucalense, Terra Mater da Nacionalidade, Novembro de 1936).

A Mensagem de Fernando Pessoa

Coincidência ou talvez não, é em 1934 que Fernando Pessoa (1888-1935), publica Mensagem, a única obra em língua portuguesa organizada e publicada pelo poeta, com poemas datados a partir de 1913.

E assim, a escultura ficará sempre associada ao conhecido poema O Mostrengo onde Pessoa descreve o homem do leme como o símbolo do povo português:

“Aqui ao leme sou mais do que eu:

Sou um Povo que quer o mar que é teu;

E o herói determinado a cumprir a sua missão, apesar de todos os medos e dificuldades,

“E mais que o mostrengo, que me a alma teme

E roda nas trevas do fim do mundo,

Manda a vontade, que me ata ao leme,

D' El-rei D. João Segundo!”

O Homem do Leme pelos Xutos & Pontapés

Mais recente é a canção O Homem Do Leme do álbum Cerco de 1985, dos Xutos & Pontapés, cujo refrão diz:

“E mais que uma onda, mais que uma maré...
Tentaram prendê-lo impor-lhe uma fé...
Mas, vogando à vontade, rompendo a saudade,
vai quem já nada teme, vai o homem do leme...”


[1] No livro O Homem do Leme Oficinas Gráficas de O Comércio do Porto, chefe da composição Virgílio Fortes de Almeida, chefe da impressão Eduardo da Costa Andrade, gravuras de Marques de Abreu, fotografias de A. Teixeira Lopes e Virgílio Mengo Filho, cópia da música Américo Oliveira e escrínio da casa Venâncio do Nascimento. Dezembro de 1938.

[2] No Roteiro de O Império Português Na Iª. Exposição Colonial Portuguesa Álbum – Catálogo Oficial, Mário Antunes Leitão e Vitorino Coimbra editores, Porto 1934.

[3] Henrique Carlos da Mata Galvão (1885-1970), Director-Técnico (Comissário) da Exposição, então ainda um dos militares ligados ao Regime e um dos homens mais conhecedores dos nossos territórios coloniais, já que tinha sido Governador da província de Huíla em Angola (1929), participado na Exposição Colonial de Paris em 1931 e ter organizado as feiras coloniais de Luanda e Lourenço Marques (1932). Tinha ainda escrito diversos ensaios, crónicas e narrativas relacionadas com África. Henrique Galvão, rompendo depois com o regime, será como se sabe conhecido pela acção política como o assalto ao paquete Santa Maria.

[4] Chapéu de oleado usado pelos homens do mar.

[5] Teixeira Lopes 1934, em O Homem do Leme , Oficinas Gráficas de O Comércio do Porto, chefe da composição Virgílio Fortes de Almeida, chefe da impressão Eduardo da Costa Andrade, gravuras de Marques de Abreu, de 1938 edição da Comissão Organisada para o Levantamento na Foz do Douro da Escultura “ O Homem do Leme” Porto gravuras de Marques de Abreu, fotografias de A. Teixeira Lopes e Virgílio Mengo Filho, cópia da música Américo Oliveira e escrínio da casa Venâncio do Nascimento. Dezembro 1938.

[6] António Gomes da Rocha Madail, Director do Museu Municipal de Ílhavo, Da Exposição Colonial, do Pôrto, de 1934, ao Museu Municipal de Ílhavo Na Arte como na Vida, Ílhavo, Dezembro de 1937, em O Homem do Leme , Oficinas Gráficas de O Comércio do Porto…Dezembro 1938.

[7] Fundada em 1933 por Bernardino Inácio Leite e hoje com o nome de “Bernardino – Fundição d’Arte L.ª” .

[8] Então presidida pelo professor António Augusto Esteves Mendes Correia (1888-1960) e prosseguindo o plano dos finais dos anos 20 de embelezamento da Orla Marítima.

[9] Manuel Marques, professor da Escola de Belas Artes, já havia desenhado o pedestal do Monumento aos Mortos da Grande Guerra, na praça Carlos Alberto e o magnífico pedestal da Menina Nua, na avenida dos Aliados.

[10] O Homem do Leme Oficinas Gráficas de O Comércio do Porto, chefe da composição Virgílio Fortes de Almeida, chefe da impressão Eduardo da Costa Andrade, gravuras de Marques de Abreu, fotografias de A. Teixeira Lopes e Virgílio Mengo Filho, cópia da música Américo Oliveira e escrínio da casa Venâncio do Nascimento. Dezembro de 1938.

[11] Que escreve de S. Paulo no Brasil, a partir de uma fotografia que lhe foi enviada.

[12] Hoje Museu Marítimo e Regional de Ílhavo.

6 comentários:

  1. Belo artigo com detalhes importantes (nota: a escultura em gesso(?) original encontra-se na Câmara de Ilhavo e não no Museu). Venho juntar-lhe algo que escrevi e que foi publicado em Março de 1999 n'O Progresso da Foz e, reproduzido mais tarde, em Setembro de 2004, Suplemento Arte, do semanário Matosinhos Hoje, sob a direcção de A. Cunha e Silva. Ver:
    http://gilreu.blogspot.pt/2008/10/salazar-ao-leme.html

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  2. Caro Joaquim Pinto da Silva: agradeço o comentário e a disponibilidade sobre o seu artigo n'O Progresso da Foz.Cumprimentos RF

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  3. Caro Sr. RF, sou o editor de uma página no Facebook chamada Porto Desaparecido (facebook.com/PortoDesaparecido). A página começou sem grandes aspirações mas, aos poucos, foi granjeando uma certa popularidade naquela rede social. Numa altura em que se completa um ano da criação da página, cria agradecer-lhe pela inspiração que – mesmo sem o saber – me foi dando ao longo deste ano e pelas milhentas informações e imagens que tem publicado neste seu estupendo blogue! Muito obrigado por tudo, Manuel de Sousa

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  4. Que espaço magnífico. Bem gostaria de o ter conhecido há mais tempo, pelo tempo que me teria poupado (estou a brincar, claro).
    Cheio de informação fidedigna, de inteligente reflexão, seríissimo e excelentemente documentado e ilustrado. Sou fã desde hoje e recomendarei nas minhas redes.

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  5. cara Manuela Gonzaga. Muito obrigado pelo comentário ao meu blogue. Devo dizer que o seu excelente livro é que me foi precioso, e que deve ser recomendado.

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  6. Obrigada por referir o meu livro. Isabel de Portugal, suponho?
    No Facebook já está o link para este sítio que recomendo vivamente:
    https://www.facebook.com/manuelagonzaga?hc_location=stream

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