Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















quarta-feira, 17 de julho de 2013

Um Percurso por Paris do Segundo Império 1

Paris no Segundo Império 1848-1870

Nota prévia

Este longo texto resulta da revisão do texto publicado neste blogue com o título de Esboço incompleto da extraordinária história de La Paiva (1819-1884). O palco onde se desenrola a vida de Teresa Lachman, a marquesa de Paiva é Paris dos meados do século XIX, ou seja a cidade que então se desenvolve pela acção do Barão de Haussmann. Não se abordará toda a cidade de Paris, mas apenas o centro da cidade burguesa. O texto está dividido nas seguintes partes:

I Parte Introdução. A transformação e reorganização da rede viária de Paris. A Grande Croisée. A praça do Châtelet.

II Parte O eixo poente-nascente

III Parte O eixo sul-norte

IV Parte Os boulevards

V Parte Os jardins e Parques

VI Parte Revisão de  Esboço incompleto da extraordinária história de La Paiva (1819-1884)

I Parte

1 – Introdução

A Europa iniciara a partir de 1815 um período de prosperidade, tanto na economia e na ciência quanto nas diversas formas de artes. Tal prosperidade não era já um privilégio da antiga aristocracia, mas pertencia agora às novas fortunas surgidas com a Revolução Industrial e que usavam as extravagâncias do luxo como forma de demonstrar e afirmar o seu crescente poder.
O Segundo Império (1852-1870) quando Luís-Napoleão Bonaparte (1808-1873) se torna Napoleão III - Imperador dos Franceses, corresponde à Revolução Industrial em França, e à criação de uma enriquecida burguesia comercial e industrial, com uma revolução das infraestruturas, energia, portos, transportes e fábricas.
No plano da política externa Napoleão III vencedor da Guerra da Crimeia (1854-55) e na Itália (1859) que luta pela sua unificação, enreda-se no episódio Mexicano de 1862 a 1867. E em 1870, o chanceler da Prússia, Bismark (Otto Leopold Edvard von Bismarck-Schönhausen 1815-1898), primeiro-ministro do reino da Prússia, para realizar a unificação dos estados alemães provoca em 1870 a Guerra Franco Prussiana, tornando-se, entre 1871 e 1890, o primeiro chanceler do Império Alemão e provocando a queda de Napoleão III, a Comuna de Paris e a III República.

 

Paris

O desejo mais natural do homem é saber o que vae no seu bairro e em Pariz.
Eça de Queiroz Echos de Pariz 1905
(1)

Paris, com 1 milhão e 800 mil habitantes em 1872, torna-se no Segundo Império uma cidade moderna, a “cidade luz” e “capital” da Europa, com uma influência cultural e social que se estende a todo o mundo. De Paris difunde-se para todo o mundo, a literatura e o teatro, as artes plásticas e a música, a moda e as formas da vida urbana.

Cria-se uma burguesia rica e triunfante. Fazem-se e desfazem-se fortunas, na Bolsa, na indústria, no imobiliário, nos transportes e na Banca. Com a iluminação a gás cria-se uma vida nocturna em que a burguesia frequenta os teatros, os restaurantes e os cabarets. Ou como escreve Eça de Queiroz em Cartas Familiares e Bilhetes de Paris:

“O próprio nome de Paris simboliza tudo quanto não é grave nem puro - e Paris é, segundo todos os escritores que o têm explicado e celebrado, o berço natural dos risos, dos jogos, das graças inconstantes e dos vícios amáveis e finos.” (2)

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(1) José Maria de Eça de Queirós (1845-1900) foi cônsul em Paris em 1888 onde vem a falecer em 1900.

(2) Eça de Queiroz , Cartas Familiares e Bilhetes de Paris, Livraria Chardron, Lello & Irmão, Porto 1907

Paralelamente a este Paris burguês e boémio, aumenta o fosso que separa esta sociedade dos operários, artesãos, lojistas, com condições de vida que vão da precariedade até à maior das misérias.

E em 1871 eclode uma revolta conhecida por a Comuna de Paris, de que Eça de Queiroz dá notícia da violência e das destruições no Crime do Padre Amaro (1875):

“Com effeito, a cada hora, chegavam telegrammas annunciando os episodios successivos da insurreição batalhando nas ruas de Paris: telegramas despedidos de Versailles n’um terror dizendo os palacios que ardiam, as ruas que se aluiam; fuzilamentos em massa nos pateos dos quarteis e entre os mausoleos dos cemiterios; a vingança que isia saciar-se até à escuridão dos esgotos; a fatal demencia que desvairava as fardas e as blusas; e a resistencia que tinha o furor de uma agonia com os methodos d’uma sciencia, e fazia saltar uma velha sociedade pelo petroleo, pela dynamite e pelo nito-glicerina!”

…….

“Mas espalhára-se que o ministerio recebera outro telegramma mais desolador: toda a linha do boulevard da Bastilha à Magdalena ardia, e ainda a praça da Concordia e as avenidas dos Campos-Elyseos até ao Arco do Triumpho. E assim tinha a revolta arrazado, n’uma demencia, todo aquelle systema de restaurantes, cafés-concertos, bailes publicos, casas de jodo e ninhos de prostitutas! (…) Tinham pois as chammas aniquilado aquella centralisação tão commoda da patuscada ! Oh que infamia ! O mundo acabava ! Onde se comeria melhor que em Paris ? Onde se encontrariam mulheres mais experientes ? Onde se tornaria a ver aquelle desfilar prodigioso d’uma volta de Bois, nos dias asperos e seccos d’inverno, quando as victorias das cocottes resplandeciam ao pé dos phaetons dos agentes da Bolsa ?”  (3

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(3) Eça de Queiroz, O Crime do Padre Amaro - scenas da vida devota, terceira edição Livraria Internacionla de Ernesto Chardron, Porto 1889

Mas esmagada a revolta, “suffocada a insurreição”, da Comuna de Paris que eclodiu em 1871, reconstruídos os monumentos e os edifícios, Paris volta a ser a capital da burguesia triunfante, a cidade da boémia e da cultura, estatuto que conservará até aos meados do século XX e em alguns aspectos até aos nossos dias.

A realidade urbana e a sua imagem

As  transformações urbanas da segunda metade do século XIX, provocam uma nova visão da realidade urbana, quer no desenho e na pintura, quer na nova “arte” da fotografia.
A fotografia

Neste período tem particular importância o desenvolvimento e a difusão da fotografia.

No início do século Joseph Nicérophore Niepce (1765/1833) consegue realizar em 1826 uma reprodução fotográfica numa placa metálica, com um tempo de exposição de oito horas, e Jean Louis Daguerre (1787-1851) aperfeiçoa esta descoberta, com o nome de "Daguerrotipos" permitindo a utilização de um "positivo" directamente utilizável.

Por volta dos meados do século já existem em Paris milhares de fotógrafos profissionais, que se dedicam retratar a realidade, o acontecimento, o fait-divers, as pessoas, a sociedade, a paisagem rural e a paisagem urbana. Publicam-se os primeiros álbuns fotográficos, surgem as primeiras casas fotográficas e torna-se particularmente importante na consciência desta nova realidade urbana, a criação dos postais ilustrados, exibindo monumentos, ruas e boulevards, praças e pontes do Paris do século XIX, contribuindo para a afirmação do seu prestígio e atracção.

pa1

Pascal-Adolphe-Jean Dagnan-Bouveret (1852-1929) Noivos no estúdio do fotógrafo 1879 musée des beaux-arts Lyon

Dos fotógrafos que se dedicaram a construir essa nova visão da paisagem urbana, e cujas fotografias utilizaremos, destacam-se: Charles Marville (1816-1879), Charles-Henri Plaut (1819- 18?), Eugène Atged (1857-1927), Moyse Léon e Isaac (Georges) Lévy (1843 – 1926). Gaspard Félix Tournachon Nadar (1820-1910) conhecido por NADAR, escritor, pintor, caricaturista e aeronauta (detêm por algum tempo o recorde de altitude), é talvez o mais importante dos fotógrafos da época.
Não somente faz os primeiros "retratos" de artistas e personalidades da época, como é o autor das primeiras fotografias aéreas, tiradas do seu balão "Le Géant" com que modifica definitivamente a "visão“ da paisagem urbana.
Foi no seu estúdio no Boulevard des Capucines, que em Abril de 1874, se realizou a primeira exposição dos Impressionistas (Monet, Renoir, Pissarro, Sisley, Cézanne, Berthe Morisot e Edgar Degas).
Os artistas plásticos descobrem rapidamente as possibilidades a nova arte da fotografia.
Muitos utilizam-na já para as suas pinturas (numa época de "naturalismo", de "realismo" e sobretudo do nascimento do “impressionismo), como Degas, Courbet, Ingres, Cezanne, H. Rousseau, Rodin, Delacroix e Utrillo. Degas é mesmo fotógrafo, possuindo uma das primeiras máquinas de instantâneos e as suas pinturas de cavalos não seriam possíveis sem o recurso às primeiras fotografias.

A pintura


As artes plásticas no Segundo Império são ainda dominadas pelo romantismo e pelo academismo. Mas Gustave Courbet (1819-1877), Jean François Millet (1814-1875) e Honoré Daumier (1808-1879), iniciam a procura de uma pintura da realidade, criando o Realismo. 
Mas a fixação da paisagem urbana de Paris, centrada sobretudo nos seus monumentos é apenas tema de desenhos, litografias e gravuras, destinadas a ilustrar publicações e guias turísticos.
Serão os impressionistas, antes e depois da formação do grupo  a procurar na paisagem e nos ambientes urbanos os temas para as suas experiências pictóricas. E de entre eles será Camille Pissarro (1830-1903) que melhor conseguirá captar a realidade urbana de Paris, no movimento das suas avenidas e praças. (4)

Os textos

Da extensa bibliografia sobre Paris do Segundo Império, para além dos referenciados ao longo deste texto, destaca-se Émile Zola (1840-1902) com a série de 20 romances,  Les Rougon-Macquart, Histoire naturelle et sociale d'une famille sous le Second Empire (1871/1893), que em La Curée de 1872  (o segundo da série) procura desmontar os mecanismos da especulação que estão por detrás da cidade em transformação do Barão de Haussmann, e em Nana de 1880 ( o nono romance da série) descreve o retrato de uma mulher no Paris do Segundo Império.

Em Portugal, após a morte de D. Maria II em 1853, e após a breve regência de D. Fernando,  reina D. Pedro V entre 1855 e  1861 sucedendo-lhe o irmão D. Luís I entre 1861 e 1889, num período designado por Fontismo.

Três escritores portugueses referem ou descrevem Paris da segunda metade do século XIX: Júlio César Machado em Recordações de Paris e Londres, livro publicado em 1863, Ramalho Ortigão no seu livro Em Pariz publicado em 1868, e no final do século, Eça de Queiroz, que como diplomata viveu em Paris. Eça, para além do Crime do Padre Amaro,  faz referências a Paris em A Cidade e as Serras publicado em 1901, Echos de Pariz publicado em 1905 e Cartas familiares e bilhetes de Paris de 1907, todos publicados postumamente.

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(4) Procurou-se ilustrar este texto com desenhos, gravuras, pinturas, fotografias e textos quanto possível dos anos 50 a 70 do século XIX.

A reforma da cidade

Paris do Segundo Império é Paris do Barão Haussmann. (5) 
Quando Napoleão III o nomeia em 1853 Prefeito de Paris, Haussmann sistematiza um programa completo de renovação urbana sem paralelo em todo o mundo, tendo em atenção que nos anos 30 e 40 do século XIX, no tempo de Louis-Philippe (6), o prefeito de Paris, Rambuteau (7) já havia iniciado um conjunto de transformações no sentido de modernizar a capital francesa.
Honoré Fisquet (8), escreve em 1862 :


« M. de Rambuteau renouvela la face de Paris. Les vieilles rues furent rendues plus praticables; cent vingt kilomètres d'égouts furent remaniés, les boulevards nivelés, les quais et les places plantés d'arbres, et l'éclairage au gaz fut presque partout substitué aux lanternes de M. de Sartine. (9) Vingt-sept boulevards extérieurs furent commencés; on modifia et décora les places de la Concorde, et de la Bastille ; les Champs-Élysées se couvrirent d'hôtels. Des terrains incultes et des marais, dans les faubourgs du Temple, Saint-Martin et Montmartre et dans le clos Saint-Lazare, se transformèrent en quartiers salubres et aérés. Parmi les édifices restaurés ou construits, il faut citer l'Hôtel-de-Ville, la Sainte-Chapelle, Notre-Dame-de-Lorette, la Madeleine, Saint-Vincent-de-Paul, le Collège de France, le grand hôpital Lariboisière, les prisons modèles de La Roquette et de Mazas, les fontaines Cuvier, Richelieu et Saint-Sulpice, etc.» (10)

Assim, o principal mérito de Haussmann, foi dar continuidade a estas intervenções, mas, sobretudo, enquadrar as intervenções realizadas ou iniciadas e as que  projectou, num plano estratégico para Paris beneficiando do apoio político de Napoleão III.
A influência destas intervenções de Haussmann, ultrapassa a data de 1870 (queda de Napoleão III) e tem continuidade no seu sucessor e anterior colaborador Jean Charles Adolphe Alphand (1817-1891) na criação da moderna cidade de Paris que chegou aos nossos dias.
Para este prestígio de Paris contribuem as Exposições Universais realizadas no Segundo Império em 1855 e em 1867, e que culminam na Exposição de 1889, celebrando o centenário da Revolução Francesa, quando se constrói a Torre Eiffel.

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(5) Georges Eugène Haussmann (1809 – 1891), Prefeito de Paris (Sena) entre 1853 e 1870. 
(6) Louis Philippe I (1773- 1850) rei de França de 1830 a 1848. 
(7) Claude-Philibert Barthelot, conde de Rambuteau (1781-1869). Prefeito de Paris de 1833 a 1848. 
(8) Honoré Jean Pierre Fisquet (1818-1883) 
(9) Antoine Raymond Juan Gualbert Gabriel de Sartine (ou Sartines), comte d’Alby (1729-1801) 
(10) Entrada Rambuteau (Claude-Philibert Barthelot, comte de) em de Nouvelle biographie générale depuis les temps les plus reculés jusqu'à nos jours, avec les renseignements bibliographiques et l’indicatio des sources a consulter, publié par MM. Firmin Didot Frères, sous la direction de M. Le Dr Hoefer. Tome Quarante et unième, Firmin Didot Frères, Fils et Cie Éditeurs rue Jacob, 56 Paris M DCCC LXII

Tradução (todas as traduções são feitas por mim): “O Sr. de Rambuteau, renovou a face de Paris. As velhas ruas foram repavimentadas; cento e vinte quilómetros de esgotos foram reabilitados, os boulevards nivelados, os cais e as praças arborizados, e a iluminação a gás substituiu em quase toda a parte as lanternas do Sr. de Sartine. Vinte e sete boulevards exteriores foram iniciados; os Champs-Élysées apetrecharam-se de palacetes. Terrenos incultos e pantanosos, nos faubourgs do Temple, Saint-Martin e Montmartre e em saint-Lazare, transformaram-se em bairros saudáveis e arejados. Entre os edifícios construídos, deve citar-se o Hôtel-de-Ville (Paços do Concelho), a sainte-Chapelle, Notre-Dame-de-Lorette, la Madeleine, Saint-Vincent-de-Paul, le Collège de France, o grande hospital Lariboisière, as prisões modelo de La Roquette e de Mazas, as fontes Cuvier, Richelieu e Saint-Sulpice, etc.»

O Programa de Haussmann

A nova cidade de Paris

Em 1859 publica-se a lei que prevê “l’extension des limites de Paris jusqu’au pied de l’enceinte fortifiée”.
Esta reestruturação administrativa com a anexação dos núcleos periféricos e a criação dos 20 Arrondissements, (eram 12) faz com que Paris aumente a sua população de cerca de 350 000 habitantes e e faz com que duplique a sua área. Pretende-se integrar na cidade a indústria e o comércio, facilitar a circulação dos bens e das pessoas, fazer de Paris a capital moderna digna do Segundo Império.

pa2Os 12 arrondissements antes de 1860 ( a vermelho) e os 8 novos arrondissemens

pa3 Dire que nous v’la parisiens!    Honoré Daumier (1808-1879) Lithographie 1860, Le Charivari Musée Carnavalet

O «plano» de Haussmann para esta cidade alargada, consiste num conjunto coerente de intervenções - traçados, infraestruturas, edificações - que servirá de modelo quer para as cidades francesas, quer para outras cidades estrangeiras.
O programa de Haussmann compreende assim:

1. Os transportes. A organização dos transportes urbanos públicos e privados: omnibus, americanos, fiacres, carruagens de aluguer e carruagens privadas. Procura-se a acessibilidade às portas e gares de Paris, permitindo a deslocação entre o centro e as periferias.

 
2. Os traçados. A realização da "Grand Croisée" ou seja os eixos norte-sul e este-oeste que se cruzam na praça do Châtelet;
A organização de uma rede de circulação em volta do centro renovado, com a remodelação e criação dos boulevards;
A criação de um sistema de praças em volta do centro: Châtelet, Étoile, Concorde, Bastille, Trone (Nation), Chateau d’Eau (Republique).


3. Os Parques e jardins. A renovação ou criação de jardins e parques urbanos.

4. Os equipamentos. Edifícios administrativos, igrejas, mercados, teatros, hotéis, cafés, edifícios comercias e mobiliário urbano.

5. As infraestruturas. Rede de abastecimento de água através dos aquedutos de Dhuys e da Vanne, a captação das águas do Marne e do Sena; os esgotos duplos, arejados, inodoros que se distribuem por oitocentos quilómetros a partir de quatro enormes colectores; a rede de gás e a iluminação pública.

1 – Os transportes 

Durante o século XIX verifica-se o crescimento das cidades, fruto da Revolução Industrial, que se acentua nas últimas décadas do século. Pela primeira vez na história a expansão das cidades provocará a perda dos seus ritmos e limites naturais.

Haussmann procura responder às necessidades desta nova cidade alargada, em que se acentua a divisão entre centro e periferia. No centro é necessário edificar novos equipamentos administrativos, económicos, culturais e de lazer. Associados ao nascente turismo, criam-se hotéis, restaurantes e desenvolvem-se novas formas de comércio como as Passages e os Grands Magasins.

Torna-se necessário articular as estações de caminho de ferro geradoras de avenidas e praças, e principal meio de transporte de acesso a Paris com o centro e os novos quarteirões da periferia.

Aqui apenas alguns apontamentos do transporte público em Paris na segunda metade do século XIX.

pa124Public Cabs Adolphe Joanne The Diamond Guide For The Stranger in Paris, L. Hachette and Cª. Boulevard Saint Germain 77, Paris 1867

O omnibus

O principal meio de transporte para quem não dispõe de viatura ou montada própria é o omnibus.

As várias sociedades que, a partir de 1828, exploravam o omnibus em Paris são fundidas numa só em 1854, a Compagnie générale des omnibus, como relata o Barão Haussmann nas suas Memórias.

"La circulation dans Paris des premières voitures de
transport en commun, dites « Omnibus», avait été successivement autorisée en faveur de sociétés dont chacune
exploitait un réseau déterminé. Naturellement,
aucune n'avait demandé la concession du service des
quartiers les moins habités. C'est pourquoi le Préfet de Police, dès le 7 Juillet 1854, comme nous le fîmes en 1855 pour le Gaz, avait traité de la fusion de toutes les sociétés existantes en une seule, qu'il investit pour 30 ans du privilège de faire circuler des Omnibus dans Paris.”
(11) 

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(11) Mémoires du Baron Haussmann, Grands travaux de Paris/Le Plan de Paris / Les services d’ ingénieurs / Voie publique / Promenades et plantations /Service des eaux/ Architecture et Beaux Arts III, Victor-Havard, éditeur Boulevard Saint-Gemain 168, Paris 1893

tradução: “A circulação em Paris das primeira viaturas de transporte colectivo, chamadas “Omnibus”, foi sucessivamente autorizada a diversas sociedades em que cada uma explorava uma determinada rede. Naturalmente, nenhuma requereu a concessão do serviço nos bairros pouco habitados. Por isso o Perfeito de Polícia, a partir de 7 de Julho de 1854, como nós fizemos em 1855 para o Gás, tratou da fusão de todas as sociedades existentes numa só, a que concedeu por 30 anos o privilégio de fazer circular o Omnibus em Paris.”

Émile Zola destaca o omnibus na confusão da circulação nas ruas de Paris:

“Puis, sur la chaussée, le long des trottoirs, entre les colonnes et les kiosques, bleus, rouges, jaunes, quel encombrement, quelle cohue extraordinaire!
Les voitures roulaient avec un grondement de fleuve; et, de toutes parts, la houle des fiacres était sillonnée par
les manoeuvres lourdes des grands omnibus, semblables à d'éclatants vaisseaux de haut bord tandis que le flot des piétons ruisselait sans cesse, des deux côtés, à  l'infini, et jusque parmi les roues, dans une hâte conquérante
de fourmilière en révolution.”
(12)

__________

(12)  Émile Zola (1840-1902),Les trois Villes: Paris, Bibliotheque-Charpentier, Eugene Fasquelle, éditeur, rue de Grenelle, 11, Paris 1898.  Sublinhado meu.

tradução (lembrando que é uma tradução de amador de um texto de um grande escritor): Então, na faixa de rodagem, e ao longo dos passeios,  entre as colunas e quiosques, azuis, vermelhos, amarelos, que congestionamento, que extraordinária confusão! As viaturas deslocavam-se com um rugido de um rio, e de todos os lados, a onda dos fiacres era sulcada pelas pesadas manobras dos grandes omnibus , semelhantes a brilhantes navios, enquanto o fluxo de peões  escorria sem parar de ambos os lados, até o infinito, e mesmo entre as rodas numa pressa conquistadora de um formigueiro em revolução ".

Paris tem então uma rede de omnibus, cobrindo praticamente toda a cidade e articulando com as gares de caminho-de-ferro. Nas gares estacionam os “Omnibus spéciaux des chemins de fer, aux gares  de Paris.Ils stationnent dans chaque gare aux heures d'arrivée des trains ; ils déposent les voyageurs à domicile, s'ils le désirent, mais sans  s'écarter de leur itinéraire.” (13)

__________

(13) Guide général ou Catalogue indicateur de Paris, indispensable aux visiteurs et aux exposants /Exposition universelle de 1867, à Paris 1867.

tradução: “Omnibus especiais dos caminhos de ferro, nas gares de Paris. Estacionam em cada gare à hora da chegada dos combóios; levam os passageiros até ao domicílio, se desejarem, mas sem se desviar do itinerário.”

Em 1864, os 400 omnibus da Compagnie générale servindo 31 linhas, e puxados por um total de 7250 cavalos, percorrem Paris entre as 8 e as 23 horas.

“Paris est encore sillonné par un grand nombre de voitures-omnibus à 30 cent., qui presque toutes correspondent entre elles et conduisent les voyageurs dans toutes les directions” (14)

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(14) Nouveau Guide Alphabétique du Voyageur dans Paris,Librairie de Jules Taride , rue Marengo 2, Paris 1862

pa129Omnibus, Guide général dans Paris. 1855. Guides illustrées a 1 franc, Paulin et Le Chevalier, rue de Richelieu 60 Paris 1855

 

Maxime Du Camp descreve o omnibus:

“O próprio nome é uma obra-prima. É simultaneamente fácil de decorar, estranho pela sua origem exótica e contém em si uma definição completa. Com efeito, as viaturas eram para todos: foi isso que lhes assegurou o sucesso e os tornou indispensáveis à população. Cem omnibus foram colocados à disposição do público. Partiam de estações fixas, percorriam um itinerário invariável fixado pela autoridade competente e tinham catorze lugares (…) Eram pesadas viaturas cujo aspecto exterior lembrava as gôndolas; eram puxadas por três cavalos e o cocheiro – com a ajuda de um pedal de sopro colocado nos seus pés fazia soar três trombetas – tocando fanfarras lúgubres na sua passagem.”  (15)

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(15) Maxime Du Camp (1822-1894). Paris, ses organes, ses fonctions et sa vie dans la seconde moitié du XIXe siècle (5e éd.) tradução minha.

“…le lourd omnibus,criant sur ses essieux, avec son cocher drapé ou plutôt englouti,tant son manteau se replie sur lui de cascade en cascade, avec son conducteur penché en cherchant de l'oeil le complément de sa boîte roulante. La machine enfin fait
halte: coups de siflet, double flux et reflux de gens qui
descendent en hâte, offrant parfois les plus incroyables
raccourcis, les plus grotesques galbes de tailles, de jambes
et de tournures; échange bruyant de cachets, enchevêtrement de
paniers, parapluies, cannes, cartons à chapeaux…” 
(16)

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(16) Guide des Promenades, Paulin et Lechevalier, rue Richelieu, 60 Paris 1855

tradução: “…o pesado omnibus, rangendo nos seus eixos, com o seu cocheiro embrulhado  ou melhor engolido,  já que a sua manta o cobria em cascata, com o condutor debruçado, procurando avistar o resto do seu caixote rolante.
A máquina por fim parou: apitadelas, duplo fluxo e refluxo de pessoas que descem rapidamente, mostrando por vezes os mais incríveis atalhos, as mais grotescas curvas de cinturas, de pernas e de azáfamas; troca barulhenta de bilhetes, um imbricamento de cestos, guarda-chuvas, bengalas, caixas de chapéus…”

O omnibus na série de fotografias dedicada aos transportes de Paris de Eugene Atged.

pa125Eugene Atged (1857-1927) Omnibus : 1910. Photographie positive sur papier albuminé d'après négatif sur verre au gélatinobromure ; 17,4 x 21,8 cm (épr.). BnF

pa126Eugene Atged (1857-1927) Omnibus : 1910. Photographie positive sur papier albuminé d'après négatif sur verre au gélatinobromure ; 17,5 x 21,7 cm (épr.) BNF

Também na pintura o omnibus é tema, seja nas ruas de Paris, como em Pissarro…pa133aCamille Pissarro - Boulevard des Italiens le matin, 1897, óleo sobre tela 92 cm x 73 cm. National Gallery of Art

…seja o próprio omnibus o centro da composição…pa127Theodor Axentowics (1859-1936) l’omnibus pa135Frederick Childe Hassam (1859-1935) Chuva de Abril, Champs Elysées, 1888. Óleo s/ tela 31.8 x 42.5 cm Joslyn Art Museum, Omaha, Nebraska

…seja o seu interior e os seus passageiros.pa128Maurice Delondre - En omnibus 1890 óleo s/tela Museu du Carnavalet Paris

No quadro de Maurice Delondre representando o interior de um “omnibus” vemos como este era utilizado por todas as classes: duas mulheres do povo uma transportando um bebé ao colo e outra (talvez uma empregada doméstica de regresso do mercado) com uma cesta de legumes enquadram dois casais burgueses. Os lugares dispostos no sentido longitudinal são separados por apoios de braços.

pa134Honore Daumier. (1808-1879) In the Omnibus. 1864. Lápis e aguarela sobre papel. The Walters Art Gallery, Baltimore, MD, USA

pa137Charles Vernier (1831-1887), Entrée dans un omnibus, rue Notre-Dame de Lorette, ed.  Maison Martinet, 146, r. Rivoli et 41, rue Vivienne lithographie ; 20,4 x 27,2 cm.  Bibliothèque nationale de France

E o omnibus na literatura, descrito por Émile Zola:

“De cinq minutes en cinq minutes, l'omnibus des Batignolles passait, avec ses lanternes rouges et sa caisse jaune, tournant le coin de la rue Le Peletier, ébranlant la maison de son fracas; et elle voyait les hommes de l'impériale, des visages fatigués qui se levaient et les regardaient, elle et Maxime, du regard curieux des affamés mettant l'oeil à une serrure.”  (17)

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(17) Émile Zola (1840-1902) La Curée, segundo romance da série  Les Rougon-Macquart, G. Charpentier, Éditeur rue de Grenelle- Saint-Germain, 13 Paris 1879

tradução: “De cinco em cinco minutos, passava o omnibus de Batignolles, com as suas lanternas vermelhas e a sua carroçaria amarela, virando a esquina da rua Le Peletier, abanando a casa com o seu ruído; e ela via os homens da imperial, os rostos fatigados que se erguiam e os olhavam, ela e Maxime, com o olhar curioso de famintos a espreitar numa fechadura.”

O Americano (Chemins de fer américains, omnibus sur rails).

pa131

O transporte urbano sobre carris “o americano“ deve o seu nome a ter sido usado em Nova Iorque nos Estados Unidos em 1832.
Em 1853 Alphonse Loubat (1799-1866) propôs-se construir uma linha em Paris de “Caminho de Ferro Americano” e em 1855, removidas algumas objecções da Administração da Cidade, é oficialmente inaugurada a primeira linha do “Americano” na Europa, quando se realiza a Exposição Universal. De notar que os primeiros carris eram salientes provocando inúmeros acidentes e só na segunda metade do século foram substituídos pelos carris encastrados.

 

“Un mode de transport, qui participe à la fois de l'ancien et du nouveau système, a même été appliqué en concurrence avec les voitures et avec les chemins de fer. On devine que nous entendons parler des omnibus roulant sur des rails posés sur les
routes ordinaires. Grâce à cet arrangement, la traction est singulièrement facilitée. Deux ou trois chevaux suffisent pour traîner de lourds véhicules contenant jusqu'à cinquante ou soixante voyageurs. Deux services de ce genre fonctionnent à l'heure qu'il est, l’un entre Paris et Saint-Cloud, l'autre entre Paris et Versailles. Une grande affluence de promeneurs se pressent autour de ces voies ferrées, dont la place de la Concorde est le point de départ, et qu'on appelle communément chemins de fer américains.”
(18)

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(18) Audiganne et autres, Paris dans sa splendeur : Monuments, vues, scènes historiques, descriptions et histoire Dessins et lithographies par Philippe Benoist, vol. II,Publié par Henri Charpentier, Imprimeur-Éditeur Paris Qua ides Grands- Augustins, 55 M. DCCC. LXI.

tradução: “Um meio de transporte, que partilha simultaneamente do antigo e do novo sistema, foi criado para concorrer com as viaturas e o caminho de ferro. Advinha-se que estamos a falar dos omnibus circulando sobre trilhos colocados nas estradas normais. Graças a esta técnica, a tracção é singularmente facilitada. Dois ou três cavalos são suficientes para puxar pesados veículos com cinquenta ou sessenta passageiros. Dois serviços deste tipo funcionam hoje, um entre Paris e Saint-Cloud e o outro entre Paris e Versailles. Uma enorme afluência de passageiros apressam-se a utilizar estas vias férreas, cujo ponto de partida é a praça da Concórdia, e que são popularmente  apelidados de caminhos-de-ferro americanos.”


pa130Eugene Atged (1857-1927) Tramway : 1910.Photographie positive sur papier albuminé d'après négatif sur verre au gélatinobromure ; 17,5 x 22,5 cm (épr.) BNF

2 - Os Traçados


O traçado de grandes vias, boulevards e ruas, tem como objectivos:
- A salubrização de Paris, a que não é alheia a devastadora epidemia de cólera de 1832, com a criação de esgotos, a demolição de conjuntos degradados, a criação de um ambiente saudável pelo desenho e o arejamento das vias, de uma maneira geral, arborizadas;
- A segurança, entendida de uma forma abrangente, incluindo a repressão das manifestações e barricadas de que Paris tem uma longa experiência;
- A estruturação de uma rede de circulação, pondo em contacto o centro com os novos territórios de Paris, com as gares de caminho-de-ferro, permitindo uma melhor circulação de pessoas e mercadorias.

Esta rede viária apoia-se em três sistemas:
1. A Grande Croisée 1854-1858: os eixos poente-nascente e norte-sul que se cruzam na place du Châtelet.
2. A circulação a partir do centro, criando um “sistema” de boulevards (já existentes, remodelando outros e abrindo novos) e a criação e remodelação de praças. Destacam-se a abertura da avenida da Ópera e eixo da rua Rivoli que é duplicado na rive Gauche pela criação do boulevard St-Germain.

pa4 Intervenções de Haussman
Legenda
Antes de 1851
Antes de 1862
Antes de 1870
Depois de 1870

pa5 Intervenções de Haussman Fonte Benevolo L., Storia della città, La città contemporanea, Bari 1993.

Legenda
As novas vias A Grand Croisé Os novos parques urbanos
Os 12 arrondissements os novos quarteirões image

La Grande Croisée


A Grand Croisée (19) é o nome atribuído ao cruzamento na praça do Châtelet dos dois eixos estruturantes do Plano de Haussmann para Paris. (20)

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(19) Mémoires du Baron Haussmann, Grands travaux de Paris/Le Plan de Paris / Les services d’ ingénieurs / Voie publique / Promenades et plantations /Service des eaux/ Architecture et Beaux Arts III, Victor-Havard, éditeur Boulevard Saint-Gemain 168, Paris 1893
(20) A ideia de organizar a cidade a partir do cruzamento de dois eixos estruturantes será utilizada por Robert Auzelle no Plano Director da Cidade do Porto de 1962.

pa6Os dois eixos cruzam-se na praça do Châtelet, que é regularizada. Criam-se acesso ao Hotel de Ville (Paços do Concelho) com a criação da avenida Victoire (em 1854) e às Halles (Mercado) com a abertura da rua des Halles

O Barão Haussmann escreve nas suas Memórias:

“Il fallait accomplir ces entreprises, de l'Est à l'Ouest, en achevant la rue de Rivoli, de l'Hôtel de Ville à la Place de la Bastille, de manière à former une grande voie, non interrompue, allant de la Place de l'Étoile à la Place du Trône, par les Champs-Elysées, la rue de Rivoli, la rue et le Faubourg Saint-Antoine; et du Nord au Sud, en prolongeant le Boulevard de Strasbourg jusqu'à la Seine, puis, à travers l'île de la Cité et au delà du fleuve, jusqu'à la Barrière d'Enfer, en vue de constituer de la sorte une autre grande voie coupant la première au-dessus de la place du Châtelet.” (21 )

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(21) Mémoires du Baron Haussmann, Grands travaux de Paris/Le Plan de Paris / Les services d’ ingénieurs / Voie publique / Promenades et plantations /Service des eaux/ Architecture et Beaux Arts III, Victor-Havard, éditeur Boulevard Saint-Gemain 168, Paris 1893 

tradução: “Era necessário relizar estas intervenções de Este a Oeste, terminando a rua de Rivoli, do Hôtel de Ville até à praça da Bastilha, de modo a formar uma grande via, sem interrupções, indo da praça de L’Étoile à praça do Trône, pelos Champs-Élysées , a rua Rivoli, a rua e o Faubourg Saint-Antoine; e de Norte para Sul, prolongando o boulevard de Strasbourg até ao Sena, e de seguida, atravessando a ilha da Cité, e para além do rio até à Barreira do Inferno, visando constituir uma outra grande via, cruzando a primeira acima da praça do Châtelet.”

Émile Zola também refere a grande croisée em La Curée :

“Regarde là-bas, du côté des Halles, on a coupé Paris en quatre. Et de sa main étendue, ouverte et tranchante comme un coutelas, il fit le signe de séparer la ville en quatre parts.              

- Tu veux parler de la rue de Rivoli et du nouveau boulevard que l'on perce? demanda sa femme.

- Oui, la grande croisée de Paris, comme ils disent. Ils dégagent le Louvre et l'Hôtel de Ville.” (22)


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(22) Émile Zola (1840-1902) La Curée, segundo romance da série  Les Rougon-Macquart, G. Charpentier, Éditeur rue de Grenelle- Saint-Germain, 13 Paris 1879

tradução: “Repara lá ao fundo, para os lados das Halles, cortaram Paris em quatro. E com a mão estendida, aberta e afiada como um cutelo, ele fez o gesto de cortar a cidade em quatro partes.

- Tu estás a falar da rua Rivoli e do novo boulevard que estão a abrir? perguntou a mulher.

- Sim, a la grande croisée de Paris, como eles dizem. Eles libertam o Louvre e o Hôtel de Ville.

O eixo poente-nascente

O eixo poente-nascente une as entradas e o limite oriental e ocidental de Paris: Barreira de l’Étoile e Barreira do Trône.

Estende-se desde a praça da Étoile pelos Champs-Élysées, rua de Rivoli até à praça do Châtelet, e continua pela rua Saint Antoine até à praça da Bastille. Daqui pela rua do Faubourg Saint Antoine até à praça do Trône (Nation). (23)

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(23) Hoje do lado oriental prolonga-se pela avenida Charles De Gaule até ao Arco de La Défense. Do lado oriental pela Cours de Vincennes até ao Parque de Vincennes

pa7O Eixo poente-nascente. Detalhe o Nouveau Plan de Paris 1861, publié par Viallet & Cª. Rue Cadet, Paris BnF

pa9O Eixo poente-nascente Detalhe do Nouveau Plan de Paris, divisé en 20 arrondissements 1870, Hachette Pocket Map of Paris, Geographicus

pa10O Eixo pente-nascente na Planta de Paris de 1894

Na gravura seguinte distingue-se o eixo nascente-poente desde o Arco do Triunfo até à rua Saint Antoine e uma parte do eixo sul-norte.

pa13Paris en 1860 Vue à vol d'oiseau prise au-dessus du quartier de Saint Gervais lithographie 26,2 x 39,8 cm Collection de Vinck. Un siècle d'histoire de France par l'estampe, 1770-1870. Bibliothèque nationale de France

O eixo sul-norte

Parte do Observatório de Paris a sul, segue pelo boulevard de Saint Michel (inicialmente Bv. Sébastopol) atravessa o Sena na ponte S. Michel, passa na ilha da Citê, atravessa na ponte du Change até à praça do Châtelet e daqui parte o boulevard Sébastopol, cujo troço norte se denominará Boulevard Strasbourg terminando na gare de L’Est (inicialmente gare de Strasbourg).

pa8   pa11   pa12

O Eixo Sul-Norte nas plantas de 1861, 1870 e 1894

A praça do Châtelet: cruzamento dos dois eixos


A praça do Châtelet, que deve o seu nome às antigas fortificações e prisão, o Grand Châtelet e o Petit Châtelet, aí existentes e demolidas em 1808, sendo construída, no centro da praça então aberta, a coluna-fonte dita do Palmier.

A fonte-coluna é descrita no Nouveau Guide Alphabetique du Voyageur a Paris de 1862 (24) da seguinte forma:
“Colonne du Palmier. Place du Châtelet. Élevée en 1807 sur les dessins de Brosse,cette colonne a été nommée jusqu'en 1815 colonne de la Victoire. Elle est surmontée d'une statue de la Victoire et entourée à sa base de quatre statues qui se donnent la main et représentent la Loi, la Force, la Prudence et laVigilance. Le fût de là colonne a la forme d'un palmier; il est divise par des anneaux de bronze sur lesquels on lit les noms de nos principales victoires. Au-dessous des statues est placée une fontaine. Toutes les sculptures de ce monument ont été exécutées par Bosio.” (25)

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(24) Nouveau Guide Alphabetique du Voyageur a Paris, Librairie de Jules Taride, 2 rue Marengo Paris 1862 

tradução: “Coluna da Palmeira. Praça do Châtelet. Erguida em 1807 segundo desenho de Brosse, esta coluna foi chamada até 1815 coluna da Vitória. Ela tem no topo uma estátua da Vitória e é rodeada na base por quatro estátuas que se dão a mão e que representam a Lei, a Força, a Prudência e a Vigilância. O fuste da coluna tem a forma de uma palmeira; está dividido por aneis de bronze nos quais se lê os nomes das nossas principais vitórias. Sob as estátuas está colocada uma fonte. Todas as esculturas deste monumento foram executadas por Bosio.”

(25) Baron François-Joseph Bosio (1764-1845)

pa42Autor desconhecido Vue de la Place du Châtelet a Paris 181? taille-douce (colorié au pinceau), papier vergé (collé en plein), carton 28,7 x 45 cm. musée des Civilisations de l'Europe et de la Méditerranée Paris

pa14Christophe Civeton (1796-1831). Place du Châtelet, Fontaine du Châtelet 182 ?Dessin à la plume et lavis à l'encre brune ; 5,8 x 8 cm Bibliothèque nationale de France

pa15Place du Châtelet. Au fond le restaurant du Veau-qui-tete 1809 Dessin à la plume et lavis à l'encre de Chine, rehauts de gouache ; 17,3 x 24,1cm. Bibliothèque nationale de France

pa16Charles Marville (1813-1879). Fontaine de la Place du Châtelet 1851
Photographie Epreuve sur papier salé ; 19,2 x 15 cm Bibliothèque municipale de Lille

Com Haussmann a praça é renovada, desloca-se a coluna-fonte, constroem-se os teatros, abre-se o boulevard Sebastopol e o Châtelet torna-se o centro da circulação de Paris nomeadamente dos transportes públicos.

pa17O Châtelet e a ilha da Citê no Carta de Paris de Galignani 1865

pa18 O Châtelet e a ilha da Citê na Carta de 1870

pa19O Châtelet e a ilha da Citê na Carta de 1894

Haussmann nas suas Memórias escreve:


“M. Davioud (26) fut encore chargé par moi de déplacer la belle fontaine de la Place du Châtelet, dite du Palmier, qui ne se trouvait plus dans l'axe du nouveau Pont au Change, ni même au milieu de la Place, considérablement agrandie pour donner passage au Boulevard de Sébastopol, d'une part, et à la rue Saint-Denis élargie, de l'autre.
Il réussit, après avoir soulevé en bloc tout le monument, à le faire glisser jusque sur ses nouvelles fondations, sans compromettre en rien l'aplomb de sa colonne et de la victoire qui la surmonte.”
(27)

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(26) Gabriel Jean Antoine Davioud (1824-1881)
(27) Mémoires du Baron Haussmann, Grands travaux de Paris/Le Plan de Paris / Les services d’ ingénieurs / Voie publique / Promenades et plantations /Service des eaux/ Architecture et Beaux Arts III, Victor-Havard, éditeur Boulevard Saint-Gemain 168, Paris 1893

tradução:“O Sr. Davioud, foi ainda encarregado por mim de deslocar a bela fonte da Praça do Châtelet , dita do Palmier, que não se encontrava no eixo da nova ponte au Change, nem mesmo no meio da praça, consideravelmente aumentada para permitir o boulevard de Sébastopol de um lado e a rua de Saint-Denis alargada do outro. Ele conseguiu, após ter elevado em bloco todo o monumento, fazê-lo deslizar até às suas novas fundações, sem em nada comprometer o aprumo da sua coluna e da vitória que a coroa.”

No Paris dans sa Splendeur, pode ler-se:

“…au lieu du Châtelet, nous avons une sorte de square, pour lequel de grands arbres, pris en pleine terre à la barrière du Trône, ont improvisé, dès l'avant-dernier printemps, un magnifique ombrage. La fontaine dite du Palmier,— dont Bosio  sculpta les figures : la Renommée de bronze doré qui plane au sommet, avec une couronne dans chaque main et les quatre statues du piédestal, la Foi, la Vigilance, la Loi et la Force, — n'aurait pu, si on l'avait laissée à la place où elle fut élevée en 1807, occuper le point central du square; on la déplaça donc tout d'une pièce, et tout d'une pièce aussi on la hissa sur un piédestal dont la hauteur dépasse de plusieurs mètres celle du premier. La colonne commémorative, où les principaux triomphes de Bonaparte en Egypte et en Italie sont inscrits en lettres d'or sur les tronçons du fût à larges feuilles, peut, ainsi exhaussée aller de taille avec les arbres qui l'entourent, et ne pas paraître, comme auparavant, un monument pygmée auprès de la tour Saint-Jacques, sa gigantesque voisine, dont l'élévation est de 57 mètres.” (28)

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(28) Audiganne et autres, Paris dans sa splendeur : Monuments, vues, scènes historiques, descriptions et histoire Dessins et lithographies par Philippe Benoist, vol. II,Publié par Henri Charpentier, Imprimeur-Éditeur Paris Qua ides Grands- Augustins, 55 M. DCCC. LXI

tradução: “…no lugar do Châtelet temos uma espécie de square, para a qual grandes árvores colhidas do solo na Barreira do Trône, criam. desde a penúltima Primavera, uma magnífica sombra. A fonte dita du Palmier, – que Bosio esculpiu as figuras: a Fama de bronze que plana no topo, com uma coroa em cada mão e as quatro estátuas do pedestal, a F´, a Vigilância, a Lei e a Força, – não podia, se a deixassem no local onde foi erguida em 1807, ocupar o ponto central da praça; foi deslocada inteira e toda de uma vez, do mesmo modo que se ergueu um pedestal cuja altura ultrapassa em vários metros o primeiro. A coluna comemorativa, onde os principais triunfos de Bonaparte no Egipto e em Itália estão inscritos em letras de ouro sobre os anéis do fuste com largas folhas, pode assim exaltada acompanhar a dimensão das árvores que a rodeiam, e não parecer, como antes, um monumento pigmeu ao pé da torre Saint-Jacques, a sua gigantesca vizinha, que se eleva a 57 metros.”

pa21A coluna-fonte do Palmier Em Paris dans sa splendeur : Monuments, vues pittoresques, scènes historiques, descriptions et histoire / Texte par MM. Audiganne, P. Bailly, Eugène Carissan, etc. Dessins et lithographies par MM. Philippe Benoist et Jules Arnout, Paris 1861.E ainda:

“Puisque nous parlons des travaux opérés en 1858, pour ajouter à la splendeur de Paris, nous ne devons pas omettre de mentionner le déplacement de la fontaine du Palmier, élevée sur les débris de l'ancien Châtelet, et qui fut à la fois exhaussée d'environ 5 mètres et conduite dans l'axe de la nouvelle place. Cette entreprise, qui présentait d'énormes difficultés, fut menée à bonne fin par les soins habiles de M. Davioud, architecte de la ville, sous la direction et le contrôle de M. Alphand, ingénieur du service des ponts et,chaussées. (29)

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(29)Audiganne et autres, Paris dans sa splendeur : Monuments, vues, scènes historiques, descriptions et histoire III vol. Dessins et lithographies par Philippe Benoist,Publié par Henri Charpentier, Imprimeur-Éditeur Paris Qua ides Grands- Augustins, 55 M. DCCC. LXI.

tradução: “Já que falámos de trabalhos efectuados em 1858, para acrescentar ao esplendor de Paris, não podemos omitir a deslocação da fonte do Palmier, erguida sobre as ruinas do antigo Châtelet, e que foi ao mesmo tempo elevada em aproximadamente 5 metros e colocada no eixo da nova praça. Esta empresa, que apresentava enormes dificuldades, foi levada a bom porto, pelos cuidados hábeis do Sr. Davioud, arquitecto da cidade, e sob o controlo do Sr. Alphand, engenheiro do serviço de pontes e estradas.”

Na imagem seguinte a  praça Châtelet depois da intervenção, com a construção da ponte du Change, dos dois teatros, e a deslocação da coluna e a remodelação da fonte onde foram instaladas as estátuas de Henri-Alfred Jacquemart (1824-1896).

pa20Legenda: 1 - Théatre du Châtelet 2 – Chambre des Notaires 3 – Quai de la Mégisserie 4 – Fontaine 5 – Tour Saint Jacques 6 – Théatre Lyrique 7 – Pont au Change

pa22Adolphe Arphand Les Promenades de Paris: Histoire, Description des Embellissements, Depenses de Creation et d'Entretien des Bois de Boulogne et de Vincennes, Champs-Elysees, Parcs, Squares, Boulevards, Places Plantees, 2 Vol. Paris: J. Rothschild, Editeur, 1867-1873.

E Alexis Martin (1834-19?), em  Les étapes d'un touriste en France : Paris, escreve:

“Du milieu de la place du Châtelet, on jouit encore d'une de ces perspectives dont le Paris nouveau s'est embelli.
Si l'on regarde à droite, on a devant soi la large avenue Victoria, terminée par la façade toute neuve de l'Hôtel de Ville; si l'on se tourne vers le nord, on voit la ligne animée des boulevards Sébastopol et de Strasbourg; au midi, la coupole du Tribunal de commerce et les tours du Palais de justice se découpent sur le fond aérien de boulevard Saint-Michel. Faisons quelques pas et, laissant à notre gauche l'hôtel de la Chambre des notaires, construit en 1857, par M. Rohault de Fleury, nous nous trouverons devant le square de la tour Saint-Jacques.”
(30)

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(30) Alexis Martin (1834-19?). Les étapes d'un touriste en France : Paris, promenades dans les 20 arrondissements ilustre de 44 gravures hors-texte et de 2 plans coloriés A. Hennuyer, imprimeur-éditeur rue Lafite 47, Paris 1890.

tradução: “Do centro da praça do Châtelet, goza-se ainda uma dessas perspectivas de que o novo Paris se embelezou. Se olharmos para a direita, temos diante de nós a larga avenida da Vitória, rematada pela nova fachada do Hôtel de Ville; se nos voltarmos para o norte, vemos a linha animada dos boulevards Sébastopol e Strasbourg; a sul a cúpula do Tribunal do Comércio e as torres do Palácio da Justiça recortam-se sobre o fundo aéreo do boulevard Saint-Michel. Dando alguns passos e deixando à nossa esquerda o palacete da Câmara do notários, construído em 1857, pelo Sr. Rohault de Fleury, estaremos na square da torre Saint-Jacques.”

pa25Moyse Léon e Isaac (Georges) Lévy (1843 - 1926), Léon & Lévy. Place du Châtelet Photographe Promenades dans Paris. 1889 / Photographies réunies par le baron De Vinck 1 album de 81 photogr. pos. sur papier gélatino-argentique, d'après des négatifs sur verre ; 29 x 36 cm (vol.) Bibliothèque nationale de France, département Estampes et photographie.

Os teatros


O teatro é no século XIX o principal entretenimento cultural e social de Paris.
Júlio César Machado assim o refere em 1863:
“Estamos no paiz dos teatros, e é-nos preciso principiar por um. Para quem está nos boulevards é difícil a escolha, por encontrar todos ali reunidos, o Gymnase, o da Porte Saint-Martin, o Ambigu-Comique, o Théatre Cirque, Gaité, o Folies Dramatiques, o Déjaset, o Funambules; sem citar o Théatre Français e o Opera- Comique, que apenas distam dois passos.” (31)
Esta importância do teatro expressa-se no arranjo da praça do Châtelet com a construção face a face de dois teatros:
O novo Teatro Lírico do Châtelet, projectado por Davioud e inaugurado em 1862. Aqui se representou em 1859 o Fausto de

Gounod (32) e em 1863 Os Troianos de Berlioz. (33)

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(31) Júlio César Machado, Recordações de Paris e Londres, editor José Maria Correa Seabra rua dos Calafates Lisboa 1863. Referiremos os teatros ao longo do texto. 
(32) Charles Gounod 1818-1893
(33) Louis Hector Berlioz (1803- 1869). O teatro esteve encerrado durante a guerra franco-prussiana e foi incendiado durante a Comuna de 1871 mas reconstruído segundo o mesmo projecto.

No Paris dans sa Splendeur, um crítico interroga-se o futuro dos dois teatros.

“Jadis, ce grand milieu de la vie, de l'industrie et du commerce se trouvait où nous sommes. C'est là que battait vraiment le coeur de la ville immense. On a voulu l'y rappeler, en faisant affluer la vie par deux artères nouvelles : le boulevard de Sébastopol et la rue de Rivoli, mais y a-t-on réussi? Pour rendre complet ce retour de centralisation qui ne sera, selon nous, qu'artificiel, on va transporter à la place du Châtelet deux des théâtres que nous vous avons montrés au boulevard du Temple: le Cirque Impérial et le Théâtre Lyrique; mais dans leurs salles nouvelles, ces théâtres retrouveront-ils leur public et leur succès?” (34)

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(34) Audiganne et autres, Paris dans sa splendeur : Monuments, vues, scènes historiques, descriptions et histoire II vol. Dessins et lithographies par Philippe Benoist,Publié par Henri Charpentier, Imprimeur-Éditeur Paris Qua ides Grands- Augustins, 55 M. DCCC. LXI.

tradução: “Outrora, este grande meio de vida, da indústria e do comércio encontrava-se onde nós estamos. Era aqui que palpitava verdadeiramente o coração da cidade imensa. Quisearm, para o lembrar ,fazer confluir a vida por duas novas artérias: o boulevard Sébastopol e a rua de Rivoli, mas terão conseguido? Para tornar completo este regresso da centralização que será, na nossa opinião, apenas artificial, vai-se transportar para a praça do Châtelet dois dos teatros que mostramos no boulevard do Temple: o Circo Imperial e o Teatro Lírico: mas nas novas salas estes teatros reencontrarão o seu público e o seu sucesso?”

pa24Théatre du Châtelet

A propósito do Teatro do Châtelet, Georges Cain (1856-1919) conta a seguinte anedota:
“… le théâtre du Châtelet dont un ami disait à Hostein, son premier directeur, en 1862:
Quelle position unique! cette salle immense pour te ruiner, en face le Tribunal de commerce pour déposer ton bilan et le Palais de justice pour être condamné, — à tes pieds la Seine pour te jeter à l'eau ! Tu aurais beau chercher, tu ne trouveras jamais mieux!”
(35)

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(35) Georges-Jules-Auguste Cain (1856-1919) Promenades dans Paris /125 Illustrations et Plans, Ernest Flammarion éditeur, Rue Racine, 26 Paris 1906.

tradução:”…o teatro do Châtelet de que um amigo dizia a Hostein, o seu primeiro director, em 1862:

Que localização única! esta sala imensa para te arruinar, em frente o Tribunal do Comércio para depositares as tuas Contas e o Palácio da Justiça para seres condenado, – a teus pés o Sena para te deitares à água! Tu bem poderias procurar, não encontrarias melhor!”

Do outro lado, o Teatro Imperial do Châtelet, também projectado por Davioud, era a maior sala de Paris com 2 500 lugares, e foi inaugurado em 1862. Nele se representaram peças de teatro adaptadas dos romances de Alexandre Dumas (1824-1895), e de Émile Zola (1840-1902).

pa23 O Teatro Imperial do Châtelet

As pontes e a Ilha de la Cité


A abertura do eixo norte-sul implicou a demolição de edifícios degradados da ilha da Cité, isolando a igreja de Notre-Dame e a construção de pontes ligando as duas margens do Sena com a ilha. A Ponte do Change construída entre 1858 e 1860 liga a praça de Châtelet com a ilha da Cité. A Ponte Saint Michel de 1857, liga a praça de Saint Michel com a ilha da Cité. Ambas  ostentam medalhões com o "N" imperial de Napoleão III.

pa26Postal com a Ponte au Change (com o N de Napoleão III) e o Teatro Sarah Bernhardt (antigo Teatro Lírico)

pa27Postal do final do século XIX Biblioteca do Congresso USA

pa28Johan Barthold Jongkind (1819-1891) La Seine et Notre-Dame de Paris 1864 óleo s/ tela 42 x 56 cm. Museu de Orsay. Paris.

pa29Le Palais de Justice Dessin de M. Parent, gravé par M. Coste in Paris Guide par les principaux écrivains et artistes de la France Deuxième partie La Vie, Librairie Internationale Boulevard Montmartre, A. Lacroix, Verboeckhoven et C.ª Éditeurs, Paris 1867

pa30Pont au Change vista de norte para sul. Postal do final do século XIX. Biblioteca do Congresso USA

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