Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Um Percurso por Paris do Segundo Império 3.2.A


nota – Pretendia retomar o blogue no início do ano. No entanto outros afazeres e solicitações não me o permitiram. Espero retomar esta página no final do mês de Janeiro, e entretanto publico a continuação do Percurso por Paris do Segundo Império, ressalvando que está em construção e incompleto.
La Grande Croisée - O Eixo Sul-Norte
3.2 – Da ponte Saint-Michel à ilha da Cité e desta à Gare de l’Est pela margem direita (Rive droite).
[EM CONSTRUÇÃO]
O eixo sul-norte corresponde à abertura do boulevard de Sébastopol, a partir da Gare de l’Est a norte até perto do Observatoire (Observatório) de Paris a sul. Porque para os portugueses que se deslocam a Paris, de uma maneira geral, tem uma imagem de um percurso de sul para norte, preferimos seguir este sentido, sem esquecer a cronologia do boulevard e utilizando a toponímia que ainda no século XIX, se consolidou nos diversos troços do boulevard de Sébastopol: boulevard de Saint Michel (ver o post anterior), ponte de Saint Michel, boulevard do Palais, ponte du Change, place du Chatelet, boulevard de Sébastopol (o único que conserva o nome original) e boulevard de Strasbourg.

A praça de Saint Michel é o limite da margem esquerda (Rive Gauche) e abre-se com o Quai des Grands Augustins para o Sena, o rio que atravessa Paris, o Sena que, como canta Prévert: “Tout doucement, sans bruit, sans sortir de son lit/Et sans se faire de mousse/Elle s'en va vers la mer/En passant par Paris. (…) En passant comme un rêve/Au milieu des mystères/Des misères de Paris.” (1)
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(1) Jacques Prévert (1900-1977), La Seine a de la chance in Spectacle, Ed. Gallimard.Collection Le point du jour.1951. Embora eu procure conter-me no Segundo Império e nos finais do século XIX, é impossível falar do Sena sem citar Prévert.

A Ponte S. Michel

A ponte de Saint Michel, atravessa o Sena e liga a praça de Saint-Michel à ilha da Cité.
Construída em 1378/1387, sobre ela e de ambos os lados, rapidamente foram edificadas diversas casas, que foram destruídas por uma cheia do Sena em 1408. Por razões militares (Guerra dos Cem Anos), em 1416, foi então reconstruída em madeira. Foi esta nova ponte que recebeu o nome de Saint-Michel, mas que de novo colapsou em 1547.
Nesta iluminura de Jean Fouquet, vemos a ponte de Saint-Michel ao fundo à direita.rd1Jean Fouquet(1415/20-1478/81) La Main de Dieu protégeant les fidèles,miniature du Livre d'heures d'Étienne Chevalier 1452/1460.
De novo reconstruída em 1549, durou até 1616, sendo reconstruída em 1618/24, com 4 arcos tornando-a uma das maiores de Paris. Tinha então de cada lado 32 casas, apenas demolidas em 1809.
rd2ard2bMelchior Tavernier,  (1594-1665) e Jacques Callot (1592-1635), Le plan de la ville, cité, université, fauxbourgs de Paris avec la description de son antiquité . 1630. 1 folha 31 x 25 cm. Detalhe da ponte de Saint Michel.
rd3Allain Manesson-Mallet, (1630-1706), Maistre de Mathématique des Pages de la Petite Ecurie de Sa Majesté, ci-devant Ingénieur & Sergent Major dÁrtillerie en Portugal. Pont Saint-Michel, 1702, estampe 14,2 x 9,9 cm (au trait) ; 15,7 x 11,2 cm. No livro II de La Géométrie Pratique, divisée en quatre livres, Paris, Chez Anisson Directeur de l’Imprimerie Royale, ruë de la Harpe, M. DCCII. Bibliothèque de l'INHA
rd4bA ponte de Saint Michel. Detalhe da Planta de Michel-Étienne Turgot (1690–1751) de 1739.
rd5aPons Sanctis Michaelis Parisiis, Vue d'optique représentant le Pont de St Michel à Paris, 1750, eau-forte,  30 x 43 cm. Bibliothèque nationale de France.
A ponte, já sem as casas, demolidas em 1809, pintada por Camille Corot.
rd6Jean-Baptiste Camille Corot (1796-1875), le Vieux Pont Saint-Michel c. 1823/24, óleo s/tela 25 x 30 cm. musée départemental de l'Oise, Beauvais.
rd7Jean-Baptiste Camille Corot (1796-1875) Le quai des Orfèvres et le pont Saint-Michel,1833, óleo s/tela 46 x 63 cm. Musée Carnavalet Paris.
rd8Masson, Le vieux pont Saint Michel 1850, aguarela. Musée Carnavalet Paris.
rd9Le pont St-Michel – souvenir historique Le Monde illustré, n°913 June 1857
A nova ponte de Saint Michel
Em 1857 é construída, segundo concepção de Paul-Martin Philémon Gallocher de Lagalisserie (1805-1871) e Paul Vaudrey (?), a ponte actual de 3 arcos com o símbolo do Segundo Império, o "N" imperial de Napoleão III, esculpido por Nicolas-Louis Cabat (1812-1893).
rd15aAuguste Hippolyte Collard (1812-188.?). Photographe  1857. Pont Saint-Michel. Vues photographiques des phases principales des travaux de reconstruction de ce pont exécutés en 1857. Album de 8 photographies positives sur papier albuminé d'après des négatifs sur verre au collodion, 48 x 64 cm. Bibliothèque nationale de France.
rd15bAuguste Hippolyte Collard (1812-188.?).Pont Saint-Michel. Vue du nouveau pont. 1857. Bibliothèque nationale de France.
Já no final do século, em 1895, o pintor Henri Matisse (1869 – 1954) habitou num quarto andar do Cais Saint-Michel, que chegou a partilhar com Albert Marquet (1875-1947). Ambos pintaram diversas vistas da ponte de Saint Michel. Foram em 1905, com André Derain (1880-1954) e Maurice Vlaminck (1876- 1958), os fundadores do Fauvismo que provocou polémica no Salon d'Automne desse ano.
rd11Henri Matisse (1869 – 1954) Pont Saint-Michel, Paris, c. 1900 óleo s/ tela 60 x 73 cm E.G. Bührle Collection, Zurich.
rd12Henri Matisse (1869-1954) The Pont Saint-Michel, 1900, óleo s/ tela. Museum of Fine Arts, Boston.
rd14Albert Marquet (1875-1947), La Seine au Pont Saint-Michel et le Palais de Justice, 1916. Colecção particular.
rd13Albert Marquet, Le Pont Saint-Michel et le Quai des Grands Augustins 1910-1911. Óleo s/tela 65 x 81 cm. Musée de Beaux Arts Grenoble França.
A Ilha da Cité
Fluctuat nec mergitur divisa de Paris. (1)

Victor Hugo no seu livro Notre-Dame de Paris (2) compara a Ilha da Cité a um grande navio ancorado no Sena.
“D’abord la Cité. L’île de la Cité, comme dit Sauval (3), qui à travers son fatras a quelquefois de ces bonnes fortunes de style, l’île de la Cité est faite comme un grand navire enfoncé dans la vase & échoué au fil de l’eau vers le milieu de la Seine. Nous venons d’expliquer qu’au quinzième siècle ce navire était amarré aux deux rives du fleuve par cinq ponts. (…)La Cité donc s'offrait d'abord aux yeux avec sa poupe au levant et sa proue au couchant.” (4)
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(1) “Fustigado pelas vagas mas não se afunda.” A divisa refere-se ao navio que figura no Brasão de Paris.
(2) Victor Hugo, Notre Dame de Paris, Troisième Édition  Charles Gosselin, Libraire, Rue Saint-Germain-des-Prés n.º9, Paris MDCCCXXXI.
(3) Victor Hugo refere-se a Henri Sauval, ou Sauvalle (1623-1676), arqueólogo e autor da Histoire et recherches des antiquités de la ville de Paris. A Paris : chés (sic) Charles Moette et Jacques Chardon, publicado em 1724. V. Hugo baseou-se em Sauval para muitas das descrições dos seus romances. Sauval é ainda o autor da polémica La Chronique scandaleuse de Paris, ou Histoire des mauvais lieux, publicada por J.-J. Gay. Libraire -Éditeur Bruxelles em 1833
(4) Victor Hugo, Notre Dame de Paris, Troisième Édition  Charles Gosselin, Libraire, Rue Saint-Germain-des-Prés n.º9, Paris MDCCCXXXI.
tradução: “Em primeiro lugar a Cité. A ilha da Cité, como diz Sauval, que apesar das suas confusões tem por vezes boas figuras de estilo, a ilha da Cité é como um grande navio enterrado na lama & encalhado no meio do Sena. Acabamos de explicar que no século XV este navio estava amarrado às duas margens por cinco pontes. (…) A Cité apresentava-se ao olhar com a sua popa no levante e a sua proa no poente.”
rd32
Sebastian Münster (1489-1552), Detalhe de Lutetia Parisiorum urbs, toto orbe celeberrima notissimaqúe, caput  regni Franciae in Cosmographiae Universalis 1550  Basileia
rd31 Plan de Saint-Victor vers 1550, d'après la reprise de Dheulland en 1756
rd16A ilha de La Cité na Planta de Michel-Étienne Turgot (1690–1751) de 1739.

A imagem da ilha da Cité como um grande navio populariza-se na época, tornando-se quase um lugar-comum.
Alfred Delvau (1825-1867), numa publicação periódica intitulada Paris qui s’en va, Paris qui vient, escreve sobre a Cité e, também referindo Sauval, escreve:
“« L'humanité est en voyage » — il ne faut pas qu'elle s'arrête. Sauval a comparé l'île de la Cité — le Paris primitif— à un grand navire enfoncé dans la vase et échoué au fil de l'eau vers le milieu de la Seine. Ce grand navire s'est remis à flot. Les ancres sont levées. Les voiles sont tendues. Le vent va souffler. En route pour l'Avenir, Léviathan!... “(5)
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(5) Léopold  Flameng,(1831-1911). Paris qui s'en va, Paris qui vient : publication littéraire et artistique. N.º 3, Janeiro de 1860. Publié par Alfred Cadart, Éditeur d’Estampes, Rue Saint-Fiacre, 3 Paris.
tradução: “A humanidade está em viagem – é necessário que não pare. Sauval comparou a ilha da Cité – a primitiva cidade de Paris – a um grande navio afundado na lama, encalhado nas águas do Sena. Este grande navio voltou a flutuar. As âncoras foram levantadas. As velas estão desfraldadas. O vento vai soprar. Em marcha para o Futuro, Leviathan! ...”
E o poeta Albert Mérat , num poema intitulado Le Matin, fala da Cité, proa enorme, referindo ainda as torres da igreja de Notre-Dame e a sua flecha, bem como a flecha da Sainte–Chapelle.
D’un côté le palais immense, les maisons, /La Cité, proue enorme, et les deux tours jumelles, /Et le ciel découpant un clocher de denteles… (6)
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(6) Albert Mérat (1840-1909), Poèmes de Paris – Au Fil de l’Eau, 1877-1880 nouvelle édition, Alphonse Lemerre, Éditeur, Passage Choiseul, 23-33, Paris M DCCCCVII.
Também o jornalista e crítico de arte Jules-Antoine Castagnary, escreve em 1860:
La Cité, berceau de Paris, n'apparaît plus seulement comme l'embryon d'une ville ou d'un peuple, c'est l'image réduite de l'humanité tout entière. La formule du progrès, par une sorte de prédestination unique dans l'histoire, est mystiquement enfermée dans ses édifices, comme le symbole de la civilisation est figuré dans la forme de son vaisseau : étrange effet de cette loi mystérieuse qui gouverne l'homme et qui lui fait déposer à son insu, dans quelques pierres, le secret de sa destinée! (7)
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(7) Jules-Antoine Castagnary (1830-1888).
tradução: “A Cité, o berço de Paris, não se apresenta apenas como o embrião de uma cidade ou de um povo, mas é a imagem reduzida de toda a humanidade. A fórmula do progresso, por uma espécies de predestinação única na história, está misticamente encerrada nestes edifícios, como o símbolo da civilização está figurado na sua forma de navio: estranho efeito desta misteriosa lei que governa o homem e o faz  colocar em algumas pedras, mesmo sem o saber, o segredo do seu destino!”
Finalmente, Louis Lacour escreve, justificando o brasão de Paris e, na minha opinião trocando a proa pela popa do navio.
“Les deux plus illustres monuments du vieux Paris sont la Cathédrale à l'Orient, le Palais à l'Occident. On a souvent comparé cette île, qui fut le berceau de la cité parisienne, au navire d'argent qui brille sur l'écusson municipal. A la proue, veillait le Clergé, les yeux toujours fixés vers ces plages mystérieuses où doit luire un jour le signal de la fin des temps. A la poupe, le Roi et son Parlement tenaient le gouvernail, et dirigeaient d'une main sûre, à travers les écueils, ce vaisseau dont les flancs sont battus par de si redoutables tempêtes, mais qui ne sombre pas : Fluctuat nec mergitur, noble devise que les édiles parisiens inscrivent au front de nos édifices modernes.” (8)
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O Brasão de Paris no Segundo Império
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O Brasão de Paris na planta de Matthäus Mérian, numa escola de Paris e o Brasão actual.
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(8) Louis Lacour de La Pijardière (1832-1892), bibliotecário e escritor in Paris dans sa splendeur : Monuments, vues pittoresques, scènes historiques, descriptions et histoire, Henri Charpentier, Imprimeur-Editeur, Quai des Grands-Augustins, 55 Paris 1861
tradução: “Os dois mais ilustres monumentos do velho Paris são a Catedral a Oriente e o Palácio a Ocidente. Comparou-se, muitas vezes esta ilha , que foi o berço de Paris, a um navio de prata que brilha no brasão municipal. Na proa, vigiava o Clero, olhando para essas praias misteriosas de onde brilhará um dia o sinal do fim dos tempos. Na popa o Rei ao leme com o seu Parlamento , dirigindo com mão segura, através dos rochedos, esse barco cujos flancos são batidos por temíveis tempestades, mas que nunca se afunda: Fluctuat nec mergitur, a nobre divisa que os edis parisienses inscrevem nas fachadas dos nossos modernos edifícios.”



A Ilha da Cité como o lugar original de Paris
“Je suis la cité qui, comme une reine, brille au dessus de toutes les autres.”    Abbon Cernuus (9)

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(9) Abbon Cernuus (c. 858 - 923) monge francês beneditino alcunhado de "O curvo", foi padre da Abadia de Saint-Germain-des-Prés, em Paris. Assistiu ao cerco desta cidade pelos normandos ocorrido entre 885 e 887 e escreveu o seu relato num poema latino muito obscuro: de Bello Parisiace urbis (da guerra de Paris).
tradução: “Eu sou a cité que, como uma rainha, brilha sobre todas as outras.”

Não cumpre aqui fazer a história de Paris e da ilha da Cité, (10) mas apenas apontar resumidamente a sua natureza de embrião do desenvolvimento de Paris e das suas características de centro, motivos pelos quais as intervenções de Haussmann, provocaram na época tanta polémica.
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(10) Para conhecer a história e a evolução urbana de Paris consultar Atlas Historique de Paris em  http://paris-atlas-historique.fr/index.html,.
É certo que Lutécia, a cidade romana, se desenvolveu na margem esquerda em torno do “cardo” (correspondente às ruas de Saint-Jacques e de Saint-Martin) e do “forum”, mais ou menos situado na actual rua Soufflot, que constituiam então, o centro da cidade. Mas, a partir dos meados do século III, as invasões bárbaras, Alamanos e Francos, provocaram a fortificação da ilha da Cité onde estava edificado o palácio romano, e assim provocando o progressivo abandono da margem esquerda. Ainda no século III, inicia-se a conversão dos Francos ao cristianismo. A cidade de Lutécia torna-se, pouco a pouco, a cidade de Paris.
No início do século VI, Paris torna-se a capital do reino dos Francos até pelo menos ao século VII. No reinado de Clovis (c. 466-511), o rei que unificou os Francos e se converteu ao catolicismo, inicia-se a ocupação da margem direita com a construção das igrejas de St. Germain l’Auxerrois, St. Jacques-de-la-Boucherie e de St. Gervais.
Mas a partir do século VII, Paris perde a sua importância, já que nela já não residem os monarcas. A cidade dos artesãos e dos comerciantes, reduz as suas actividades à ilha da Cité, e aos arrabaldes (Ville) da margem direita junto das igrejas, e em particular em torno da praça da Greve, junto do porto de Paris. Com a dinastia Carolíngia, Paris recupera o seu estatuto de capital.
A cidade do século IX, é descrita pelo já citado, monge Abbon Cernuus (c. 858 - 923) que assistiu ao cerco pelos Normandos entre 885 e 887:
Tu frappes en effet les regards par un port plus beau qu'aucun autre. Quiconque porte un œil d'envie sur les richesses des Francs te redoute, une île charmante te possède ; le fleuve entoure tes murailles, il t'enveloppe de ses deux bras, et ses douces ondes coulent sous les ponts qui te terminent à droite et à gauche ; des deux côtés de ces ponts, et au-delà du fleuve, des tours protectrices te gardent.” (11)
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(11) Abbon Cernuus (c. 858 - 923) de Bello Parisiace urbis (da guerra de Paris).
tradução:  “Tu despertas com efeito os olhares pelo teu porto mais belo do que qualquer outro. Qualquer um que deite um olhar de inveja para as riquezas dos Francos, teme-te, uma ilha encantadora te possuiu; o rio abraça as tuas muralhas, envolvendo-te nos seus dois braços, e as suas doces ondas correm sob as pontes que te limitam à direita e à esquerda; dos dois lados dessas pontes, e para além do rio, torres de defesa te protegem.”
Com o fim das invasões normandas, Hugo Capeto (938-996), rei dos Francos entre 987 e 996, e os seus sucessores da dinastia dos Capetos, tornam Paris a principal cidade do País.
Na segunda metade do século XII e durante todo o século XIII, nos reinados de Philippe-Auguste (1180-1223) que constrói a muralha,  Saint-Louis (1226-1270), Philippe III (1270-1285) e Philippe o Belo (1285-1314), Paris quadruplica a sua população, provocando o seu desenvolvimento.
rd33Paris no tempo de Filipe Augusto, século XII/XIII.Jean-Baptiste Bourguignon d'Anville (1697-1782), Quatrième plan de la ville de Paris, son accroissement et l'etat ou elle étoit sous le regne de Philippe Auguste qui mourut l'an 1223 aprs avoir regné 43 ans, 1705 BnF

Victor Hugo, no seu já citado Notre-Dame de Paris, cuja acção decorre no século XV, mas onde o autor faz reflexões sobre a cidade sua contemporânea, escreve:
“Paris est né, comme on sait, dans cette vieille île dela Cité qui a la forme d'un berceau. La grève de cette île fut sa première enceinte, la Seine son premier fossé. Paris demeura plusieurs siècles à l'état d'île, avec deux ponts, l'un au nord, l'autre au midi, et deux têtes de ponts, qui étaient à la fois ses portes et ses forteresses : le grand Châtelet sur la rive droite, le petit Châtelet sur la rive gauche.” (12)
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(12) tradução:  “Paris nasceu como se sabe, nesta velha ilha da Cité que tem a forma de um berço. As arribas desta ilha foram as sua primeiras muralhas e o Sena o seu primeiro fosso. Paris vivei vários séculos no seu estado de ilha, com duas pontes, uma a norte e outra a sul, e duas testas de ponte, que eram ao mesmo tempo, as suas portas e as sua fortalezas: o grande Châtelet na margem direita, o pequeno Châtelet na margem esquerda.”
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Allain Manesson-Mallet, (1630-1706), Maistre de Mathématique des Pages de la Petite Ecurie de Sa Majesté, ci-devant Ingénieur & Sergent Major dÁrtillerie en Portugal. Grand Châtelet, 13,8 x 9,7 cm. e Petit Chastelet, 13,8 x 9,6 cm. No livro II de La Géométrie Pratique, divisée en quatre livres, Paris, Chez Anisson Directeur de l’Imprimerie Royale, ruë de la Harpe, M. DCCII. Bibliothèque de l'INHA
A cidade de Paris, na Idade Média é constituída por três zonas: a Cité ao centro no Sena, a Ville a norte na margem direita, e a Université a sul, na margem esquerda. Com Philippe-Auguste, estabelecem-se as primeiras muralhas e com Charles V uma nova cintura de muralhas de pedra a norte.
Ou como escreve Victor Hugo:
“La Cité, qui occupait l'île, était la plus ancienne, la moindre et la mère des deux autres, resserrée entre elles ( qu'on nous passe
la comparaison) comme une petite vieille entre deux grandes belles filles.”

e, mais adiante,
“Dans la Cité abondaient les églises, dans la Ville les palais, dans l'Université les colléges.” (13)
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(13) tradução: “A Cité, que ocupava a ilha, era a mais antiga, a menor e a mãe das outras duas, abraçada por elas (permitam-nos a comparação) como uma pequena idosa entre duas grandes e belas raparigas.”
“ Na Cité abundavam as igrejas, na Ville os palácios, na Université os colégios.”
rd25Georg Braun (1541-1622) Franz Hogenberg (1535-1590), Lutetia, vulgari nomine Paris, urbs Gallia maxima in Civitates Orbis Terrarum I, 1572
A ilha da Cité constitui o centro político e religioso da cidade. Nela situa-se a poente o Palácio Real, no local onde habitou o governador romano. A nascente ergue-se a Catedral (Notre-Dame) e um conjunto de construções que constituem o conjunto episcopal. No centro da ilha “le tortueux labyrinthe de la Cité”, uma densa malha urbana, com uma rede de ruelas estreitas onde se erguem igrejas e habitações.
rd25bGeorg Braun (1541-1622) Franz Hogenberg (1535-1590), Detalhe de Lutetia, vulgari nomine Paris, urbs Gallia maxima in Civitates Orbis Terrarum I, 1572
Na planta de Braun estão indicados na ilha da Cité: a -  Jardin du Roy. b - Nostre Da[me]. c - Ostel Dieu. d - Palais du Roy. e - Petit pont. f - Pont au Change. g - Pont au Muniers. h - Pont Nostre-Dame. i - Pont S. Michel. j - Sainne. k - S. Denis de la Chartre. l - S. Je[an] le ront. m - S. Capelle.
E no texto que acompanha esta planta de Paris, na versão em francês, pode ler-se:
“A Cité está entre a Université e a Ville, à qual se liga com três pontes, e à Universidade por duas. Estas pontes mais se assemelham a belas ruas do que a pontes, por causa dos edifícios construídos nos seus dois lados.


N’esta parte de Paris está o Palais Royal (Palácio Real), outrora construído por Filipe o Belo, e neste a Sainte-Chapelle (Santa Capela), uma obra admirável: paralelamente, à grande Igreja de Notre-Dame, a qual, por causa da sua bela e magnífica estrutura, grandiosidade e magnificência de ornamentos e imagens, é considerada um milagre da França. Quando se fizeram as fundações do Palácio, foi encontrado um crocodilo vivo, cujos restos se veem ainda hoje na grande sala do Palácio. As outras Igrejas da Cité são em número de XX, I hospital e V. capelas.”
A Pont-Neuf (Ponte-Nova) e a praça Dauphine.
No extremo poente da ilha da Cité, onde se situava a ilhota do Passeur-aux-Vaches, em 1577 é aprovado por Henri III (1551-1589, rei da Polónia entre 1573 e 1575 e rei de França de 1574 a 1589) um projecto, e no ano seguinte  inicia-se a construção da Pont-Neuf.
A construção foi interrompida entre 1588 e 1598, e apenas concluída em 1606.
rd48aO Projecto para a Pont-Neuf, 1577 aprovado por Henri III, Musée Carnavalet, Paris
Em 1607, Henri IV (1553-1610), cedeu ao primeiro presidente do Parlamento entre 1582 e 1611,  Achille de Harlay (1536-1616) os terrenos entre o Palais Royal e a Pont-Neuf, para a construção de uma praça triangular segundo um plano de Maximilien de Béthune, duque de Sully (1559-1641). A praça foi rapidamente edificada entre 1612 e 1613. Deve o seu nome ao Delfim (Dauphin) de França, o futuro Luís XIII.rd34Matthäus Merian (1593 -1650) Detalhe do “Plan de la Ville, Cité, Vniversité, et Favx-Bovrgs de Paris avec la description de son Antiqvité et Singvlarités” 1615
Marie de Médicis (1575-1642) a viúva do monarca e regente do reino, mandou erguer na extremidade da ilha, em 1614 a estátua equestre de Henrique IV, uma obra de Jean de Boulogne (1529-1608) que, com a morte deste, foi terminada pelo seu discípulo Pietro Tacca (1577-1640).
rd47Anónimo, La Seine vue de la place Dauphine, século XVII, óleo sobre madeira, musée Carnavalet, Paris.

Ferdinand Heuzey, conta uma outra história. Teria sido Fernando de Médici (1549-1609), Duque da Toscânia, quem teria mandado fazer esta estátua a Jean de Boulogne (1529-1608). Com a morte de Fernando, o seu sucessor Cosme II (1590-1621) ofereceu a estátua, então apenas com o cavalo, a Maria de Médicis, a viúva de Henrique IV e regente de França. Depois de uma atribulada viagem, em 1614 a estátua chega a Paris e é completada com a figura do monarca francês, pelo escultor Guillaume Dupré (1576-1643) e colocada na extremidade da ilha da Cité. (10)
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(10) Célestin Ernest Ferdinand Heuzey (? – 1886) , Curiosités de la Cité de Paris – Histoire Étymologique de ses rues nouvelles,  anciennes  ou supprimées, Recherches Archéologiques  sur ses antiquités, monuments et maisons remarquables, E. Dentu, Éditeur, Libraire de la Société des Gens de Lettres, Palais-Royal, 17 et 19, Galerie d’Orléans , Paris 1864
Por isso, e a propósito desta escultura resultante de uma “colagem”, e da notória diferença de qualidade dos seus autores, Habert de Montmor escreve o seu conhecido poema Le Cheval de Bronze:
“Superbes monuments, que votre vanité/Est inutile pour la gloire/Des grands Héros dont la mémoire/ Mérite l’immortalité !//Que sert-il que Paris, au bord de son canal,/Expose de nos Rois ce grand original,/Qui sut si bien régner, qui sut si bien combattre ?/On ne parle point d’HENRI QUATRE:/ On ne parle que du cheval.” (10)
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(10) Henri Louis Habert de Montmor (c.1600-1679) in Annales Poétiques, depuis l’origine de la Poésie Françoise, Tome XXIV, Chez les Editeurs, rue de la Jussienne, viv-à-vis le Corps-de-Garde ; Et chez Merigot le jeune, Libraire, quai des Augustins, au coin de la rue Pavée. Paris M. DCC. LXXX III.
No período revolucionário a estátua, como todas as outras esculturas dos monarcas franceses, foi fundida para fabricar peças de artilharia. Em 1814 Henri-Victor Roguier (1758-1841) executa uma escultura provisória em gesso. A estátua actual foi realizada por François-Frédéric Lemot (1772-1827), fundida em bronze em 1818, e colocada no local onde hoje se encontra.
rd40aÉtablissement de la nouvelle statue de Henri IV 1818, Plume et encre de Chine, aquarelle 29,8 x 50,3 cm. Bibliothèque nationale de France
rd40bAntoine-François Peyre (1739-1823). Le Pont Neuf. Fête pour l'érection de la statue d'Henri IV, 1818, Plume et encre de Chine, aquarelle ; 17 x 28 cm. Bibliothèque nationale de France
rd39Inauguration de la statue équestre de Henri IV sur le pont-neuf, lithographie Bibliothèque nationale de France.
A ilha da Cité no século XVIII
rd17Jean-Baptiste Scotin (1678-17..), Plan et Description du Quartier de la Cité avec ses Rues et se Limites.  in Jean Aimar Piganiol de la Force (1673-1753), Description historique de la ville de Paris et de ses environs, 1742.
rd18Gotrot Detalhe do "Plan de Paris dédié à M. le marquis de Savine, gouverneur de Paris, officier de la gendarmerie, par son très humble et tres obbeissant serviteur Gotrot" c.1775 cor 78,5 x 93 cm. Bibliothèque Royale de Belgique
rd24
A transformação da ilha da Cité no século XIX
A seguir à Revolução Francesa, a maioria das igrejas da Cité, são demolidas.
Em 1838, no reinado de Louis-Philippe, com o Perfeito Rambuteau (11) concretiza-se o projecto do traçado de uma rua a partir do Palácio da Justiça para nascente, e que tinha sido interrompido pela Revolução. A rua chamar-se-á de rua de Constantine em memória da conquista da cidade de Constantine na Argélia em 1837. A rua estendia-se desde a praceta em frente do Palácio até à rua d’Arcole. Esta foi aberta entre 1836 e 1838 entre o Parvis (Adro) da catedral de Notre-Dame  e a ponte d’Arcole. A rua d’Arcole tomará depois o nome de rua de Lutèce.
A abertura da rua de Constantine fez desaparecer a medieval rua da Vieille-Draperie,  e provocou a demolição da igreja da Sainte-Madeleine.
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(11) Claude-Philibert Barthelot, conde de Rambuteau, (1781-1869)
rd45Edme Verniquet (1727-1804) Detalhe de Plan de la Ville de Paris avec sa nouvelle enceinte Levé Géometriquement sur la Méridienne de l’Óbservatoire par le C.[itoy] en  Verniquet, Parachevé en 1791.
rd44Charles Marville (1813-1879), Rue de Constantine,1865. albumina 36,8 x 27,3 cm. Metropolitan Museum of Art, NYC.
Também entre 1845 e 1864, Violet-le-Duc e Lassus se encarregam do restauro da igreja de Notre-Dame. Em 1848, como Félix Duban  é chamado para o restauro do Louvre, Lassus encarrega-se do restauro da Sainte-Chapelle. (11)
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(11) Eugène Emannuel Viollet-le-Duc (1814-1879). Jean-Baptiste-Antoine Lassus, (1807-1857). Jacques Félix Duban (1798-1870).
rd21Detalhe de Plan de la Ville de Paris divisé en 12 Arrondissements et 48 Quartiers, Indiquant tous les Changements faits & Projetés Dressé par X. (Xavier) Girard, Géographe des Postes, Paris Chez J.Goujon et J. Andriveau, éditeur rue du Bac n.º17 près du Pont Royal 1843
Haussmann e a ilha da Cité
Devem-se a Haussmann, as transformações mais radicais e mais polémicas da Cité.
A criação do eixo norte-sul (boulevard de Sébastopol) com a substituição da rua da Barillerie pelo boulevard du Palais, e as profundas intervenções na Cité, implicaram a destruição de grande parte do tecido medieval e a demolição quase total dos edifícios de habitação. Num período em que o “medievalismo”, fruto do romantismo domina a cultura nas suas diversas expressões, as intervenções “progressistas” de Haussmann, baseadas em razões de higiene, de segurança e de circulação, causaram natural contestação.
rd36architecte A.Portret (18..-18.. ),Plan de la Cité, 1862 carte 27 x 69 cm. Bibliothèque nationale de France.
rd19aPlan d’Ensemble de la Cité et de ses Abords avec ses Embelissements et Amélorations Projetés  Avril frères éditeur, 18.., carte 72 x 60 cm. Bibliothèque nationale de France

rd19A amarelo as demolições na Ilha da Cité.
Entre 1858 e 1866, a rua de Constantine e as ruas adjacentes desaparecem, e são abertas a rua de Lutèce e a rua da Cité.
No Segundo Império é remodelado o Palácio da Justiça, é construído o Quartel da Cité (depois Perfeitura da Polícia) o Tribunal do Comércio, o novo Hôtel-Dieu (hospital) e no lado nascente da ilha são ainda ainda, remodelados os acessos e o adro (Parvis, hoje praça de João Paulo II) da igreja de Notre-Dame e o novo Mercado das Flores.
No limite Haussmann, na ilha da Cité, apenas conservaria Notre-Dame, a Sainte-Chapelle e o Palácio.  A própria praça Dauphine apenas terá sido conservada porque em 1870 terminou o Segundo Império.
rd22Na planta de 1870 todo o eixo sul-norte ainda se chama Boulevard de Sebastopol.
Haussmann escreve nas suas Memórias:
“…je crois bon de dire que, si la conception du Boulevard du Centre (13) ne reçut pas, dès le principe, l'accueil favorable qu'elle méritait du Public Parisien ; si d'ardentes critiques ont été dirigées contre elle et pendant bien des années, toute justice lui fut rendue et de très haut, mais longtemps après l'ouverture de cette grande voie, à la fin de mon administration, comme maintenant, arrivé au terme de mon existence, pour l'ensemble de la Grande OEuvre de la Transformation de Paris.” (14)
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(12) Para além das obras de Victor Hugo, em particular Notre-Dame de Paris, refira-se  Les Mystères de Paris de Joseph Marie Eugène Sue (1804-1857), um livro de grande sucesso, publicado em folhetins em 1842 no Le Journal des débats. Nesta obra Sue descreve o “tapis franc” (nome dado aos piores cabarets de Paris) com o nome de Lapin-Blanc, situado na  rua aux Fèves, uma paralela à rua da Citè. O II capítulo L’Ogresse, inicia-se com: “Le cabaret du Lapin-Blanc est situé vers le milieu de la rue aux Fèves. Cette taverne occupe le rez-de-chaussée d'une haute maison dont la façade se compose de deux fenêtres dites à guillotine.” (O cabaret do Lapin-Blanc, está situado mais ou menos a meio da rua das Fèves. Esta taberna ocupa o rés-do-chão duma alta casa cuja fachada se compõe de duas janelas ditas de guilhotina.)
(13) Nome também atribuído por Haussmann ao eixo sul-norte.
(14)  Mémoires du Baron Haussmann, Grands travaux de Paris/Le Plan de Paris / Les services d’ ingénieurs / Voie publique / Promenades et plantations /Service des eaux/ Architecture et Beaux Arts III, Victor-Havard, éditeur Boulevard Saint-Gemain 168, Paris 1893
tradução: “.. devo dizer, que se a concepção do Boulevard du Centre não recebeu, desde o início, o acolhimento favorável que merecia do Público Parisiense; se inflamadas críticas contra ela foram dirigidas durante muitos anos, toda a justiça lhe foi feita, ao mais alto nível, mas muito tempo após a abertura desta grande via, já no fim da minha administração, como agora, chegado ao termo da minha existência, ao conjunto da Grande Obra da Transformação de Paris.”
rd23Na planta de 1894, estão já realizadas as transformações da ilha da Cité. Nesta planta o Boulevard de Sebastopol dá já origem aos nomes de Saint-Michel, na margem esquerda, e boulevard do Palais na ilha. De notar a introdução do transporte público sobre carris.
O Boulevard de Sebastopol, que na ilha se chamou de boulevard du Palais, veio substituir a rua da Barillerie, que começava na ponte de Saint-Michel e terminava na ponte au Change. Primitivamente era formada por três ruas: a rua da Barillerie, a rua de Saint-Éloi e a rua de Saint-Barthélémy (da igreja de Saint- Barthélémy, que na época da Revolução foi nacionalizada e demolida em 1791.
rd41Pierre-Antoine Demachy (1723–1807) Démolition de l'église Saint-Barthélemy de la Cité à Paris, 1791, Musée Carnavalet
No seu lugar ergueu-se o Théâtre de la Cité. Construído por Alexandre Lenoir (1761-1839) em 1791. Em 1793, torna-se o  Théâtre Cité-Variétés. Em 1802 chamar-se-á Teatro Mozart, até 1806, dando lugar ao baile do Prado.

1 comentário:

  1. http://otripeiroemmim.blogspot.pt/2014/02/o-porto-ganhou-o-premio-de-melhor.html

    partilhe se puder. obrigado

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