Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















terça-feira, 9 de setembro de 2014

Ramalho Ortigão em Paris


O portuense José Duarte Ramalho Ortigão (1836-1915), então com 30 anos e colaborador de diversos periódicos (como a Gazeta Literária do Porto, a Revista Contemporânea e o Jornal do Porto) visita a Exposição Universal em Paris de 1867. Desta visita a Paris - então no apogeu do Segundo Império e da acção do Barão de Haussmann - resulta um livro: Em Pariz, primeira publicação de Ramalho com notas de viagem. [1]
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[1] Ramalho Ortigão Em Pariz, Porto Typographia Lusitana rua de Bellomonte, 74, 1868.

I – A Sala de Jantar do Grand Hotel
O livro será abordado no final desta mensagem. Por ora vejamos a minuciosa descrição  da sala de jantar do Grand Hotel, então o mais luxuoso e prestigiado hotel de Paris. Compare-se a descrição com esta litografia da época.

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Provost. Salle à manger du Grand Hôtel (Boulevard des Capucines) lithographie en camaïeu ; 19,8 x 28,8 cm. Paris - Maison Martinet Bibliothèque nationale de France.

“Um dos jantares de Pariz que mais captiva a attenção dos estrangeiros é o do Grand Hotel. [II] A sala de jantar do Grand Hotel tem a amplidão e a magestade de uma igreja. À volta de seis enormes mesas, cobertas de uma esplendida baixella, servidas por um regimento de criados de gravata branca e calção curto, debaixo de tectos doirados e de milhões de lumes infinitamente reflectidos em cristaes formosissimos, reunem-se em cada noite centenaros de viajantes, vindos do todos os pontos do globo á romagem da nova Meka. Eu jantei lá uma vez entre um beduíno e um turco, vestidos com os seus trajes nacionaes. Defronte de mim estavam tres alegres e palradoras hispanholas ladeadas de dois inglezes inteiriços e pansudos como dois postes d'eça funerária. A mesa do Grand Hotel, bem como a do Hotel du Louvre [III] e a do Café de la Paix, [IV] é o rendez-vous ordinário dos abastados paes de família e dos maridos ricos que viajam com as suas consortes, levando pelo braço a fidelidade conjugal e na bagagem as taboas da lei domestica. No Grand Hotel rega- se a virtude com um vinho de Hermitage, [V] que é o mais saboroso néctar a que um chefe, de familia honesto pode sem peccado chegar os beiços ungidos pelo matrimonio para os prazeres immaculados e celestiaes. A virtude aproveita sempre com estas imersões em liquidos de lei.” (pag. 102)

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Versão colorida da litografia de Provost. Salle à manger du Grand Hôtel (Boulevard des Capucines).

O Guide Joanne [2] descreve a sala da seguinte forma: «La grande salle à manger est un monument unique au monde. Ses proportions permettent d'y dresser 600 couverts. Sa forme demi-circulaire, la coupole vitrée qui la domine, sa cheminée artistique, ses nombreuses cariatides, ses attributs multiples, ses lustres étincelants, ses milliers de girandoles étonnent l'esprit et éblouissent le regard. » 
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[2] Adolphe Laurent Joanne (1813-1881) Paris Illustré, Nouveau Guide de L’Etranger et du Parisien, Librairie de L. Hachette et C.ª Boulevard Saint-Germain, n.º 77, Paris 1867. O Guia foi sucessivamente editado com o  título de  Guide Joanne Paris-diamant, e na sua edição de 1870/76, 3ª. edição, Librairie Hachette et C.ª, Boulevard Saint-Germain, 79, Paris, apresenta um apêndice de  publicidade de 1877/78 tendo na pag. 38,uma referência ao Grand-Hôtel e à sua sala de jantar, de onde é retirada a citação.
Tradução: A grande sala de jantar é um monumento único no mundo. As suas enormes proporções permitem aí instalar 600 couverts. A sua forma semi-circular, a cúpula envidraçada que a domina, o seu fogão de sala artístico, as suas numerosas cariatides, os seus múltiplos atributos, os seus lustres brilhantes, as suas mil girândolas espantam o espírito e fascinam o olhar.”

E das personagens que se instalaram no Grand-Hôtel, citadas nesta publicidade, destaca-se  “S. M. Marie-Pie, reine de Portugal, et sa suite.”

A sala na actualidade, Hotel Intercontinental Paris.

Intercontinental Paris Le Grand

II - O Grand-Hôtel

O Grand Hôtel inicialmente chamado de Hôtel de La Paix, foi construído entre 1861 e 1862, tendo em vista a Exposição Universal, segundo um projecto de Alfred Armand (1805-1888).

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Félix Thorigny (1824-1870),Travaux exécutés entre les rues Neuve-des-Mathurins, de la Chausée d’Antin et le Boulevard des Capucines. – Emplacement de la Nouvelle Salle de l’Opéra. – Construction de l’Hôtel de la Paix. Gravure in Le Monde Illustré Journal Hebdomadaire,  5.eme année n.º 229, 31 Aout 1861 Librairie Nouvelle, Boulevard des Italiens 15 Paris.

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Charles Rivière, Grand Hôtel Boulevard des Capucines, litografia 21 x 29,5 cm., Maison Martinet, Paris, Bibliothèque nationale de France.

Situado no gaveto do Boulevard des Capucines foi inaugurado pela imperatriz Eugénia de Montijo, no dia 5 de Maio de 1862, acompanhada pelo proprietário Émile Pereire [3] . A imperatriz terá então exclamado: « C'est exactement comme chez moi ; je me suis crue à Compiègne ou à Fontainebleau ».
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[3] Émile Pereire e o seu irmão Isaac, eram netos de um português Jacob Rodrigues Pereira, judeu português natural de Peniche e que imigrou para França em 1741.
Grandes empresários e financeiros, em 1856 fundaram a Société Immobilière responsável pela construção, primeiro do Hotel do Louvre em 1861 na rua Rivoli e, no ano seguinte, do Grand Hôtel, os dois maiores e mais luxuosos hotéis de Paris.




Precisamente em 1867, em Les Merveilles du nouveau Paris, Décembre Alonnier [4] escreve:
“C'est là que s'élève le gigantesque hôtel élevé par M. Péreire, le Grand-Hôtel, qui tient à la disposition des voyageurs sept cents chambres et soixante-dix salons, et dont le merveilleux service n'a de rival peut-être que celui de l'hôtel du Louvre, élevé par le même financier.” [5]
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[4] Nome conjunto de  Joseph Décembre (1836-1906), tipógrafo e editor e do seu sogro Edmond Alonnier (1828-1871).
[5]Décembre Alonnier Les Merveilles du nouveau Paris Bernadin-Béchet, Libraire-Éditeur Quai des Grands-Augustins, 31 Paris 1867, Pag.63
Tradução: “É ali que se ergue o gigantesco hotel construído pelo Sr. Péreire, o Grand-Hôtel, que dispõe de setecentos quartos e setenta salões, e cujo maravilhoso serviço apenas pode rivalizar com  o do Hôtel du Louvre, construído pelo mesmo financeiro.”


Mas é sobretudo com a edificação da nova Ópera de Paris entre 1861 e 1875, segundo o projecto ganho num concurso por Charles Garnier (1825-1898) - o edifício mais emblemático do Segundo Império - que o Grand-Hôtel se torna um dos mais prestigiados e conhecidos hotéis de Paris.
Em 1864 Amédée de Cesena no seu Le Nouveau Paris Guide de l’ Étranger assinala o Grand-Hôtel e a sua proximidade com a nova Ópera, então em construção.

“Au premier rang de cette classe exceptionnelle figure le GRAND-HÔTEL,qui a du s'appeler d'abord Grand hôtel de la, Paix, puis Grand hôtel de Paris, et qui a fini par ne pas s'appeler du tout, car le titre qu'il porte est une qualification et n'est pas un nom. Le Grand Hôtel est un immense édifice, de forme presque triangulaire, dont la façade principale est située sur le boulevard des Capucines, où elle porte le numéro 12, et qui possède trois autres façades, l'une sur la rue de Mogador, l'autre sur la rue de Rouen, en regard de l'une des façades du Grand Opéra en construction; enfin, la dernière, très-peu étendue, sur la place même à laquelle ce dernier monument doit donner son nom.
Le Grand Hôtel, qui est de création toute récente et qui est complètement dégagé de toute construction voisine, contient huit cents chambres ou salons de 4 à 50 francs par jour.” [6]
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[6]Amédée Barthélemy de Cesena (1810-1889), Le Nouveau Paris Guide de l’ Étranger Guides Garnier Frères, Libraires-Éditeurs, rue des Saints- Pères, 6 Paris, 1864.
Tradução: “Na primeira linha desta classe excepcional figura o GRAND-HÔTEL, que devia ter sido inicialmente chamado de Grande hotel de La Paix, depois Grande hotel de Paris, e que acabou por não se  nada, já que o título que usa é uma qualificação e não um nome. O Grand Hôtel é um imenso edifício, de forma quase triangular, cuja fachada principal está situada no boulevard des Capucines, que ostenta o número 12, e possui três outras fachadas, uma sobre a rua Mogador, a outra sobre a rua de Rouen virada para uma das fachadas da Grande Ópera em construção; por fim a última de pouca dimensão, abre para a praça que este último monumento deve dar o nome.
O Grand Hôtel, de criação recente e completamente separado de qualquer construção vizinha, contém oitocentos quartos ou salões de 4 a 50 francos por dia.”

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Plan du grand hôtel de la Paix inParis nouveau illustré. Journal périodique publié par l'Illustration. [v. 1864-1872].

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Le grand hôtel de la Paix et le nouvel Opéra. Vue prise du Boulevard a l’angle de la rue de la Paix in Paris nouveau illustré. Journal périodique publié par l'Illustration. [v. 1864-1872].

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Cour du grand hôtel de la Paix in Paris nouveau illustré. Journal périodique publié par l'Illustration. [v. 1864-1872].

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Plaut, Charles-Henri (1820-18..). Le Grand-Hôtel boulevard des Capucines e rue Scribe, c. 1864 in Vues de Paris et de ses environs, 1865-1870, 1 album de 40 photogr. pos. sur papier albuminé d'après des négatifs sur verre au collodion ; 34 x 42 cm (vol.) Bibliothèque nationale de France.

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Frères Ledot Detalhe da implantação da nova Opera e da abertura da avenida, no Nouveau plan de la ville de Paris et de son enceinte 1867.

Com a concretização do Edifício, da Praça e da Avenida da Opera, segundo o plano de Haussmann, o Grand-Hôtel ganha uma enorme popularidade graças à sua excepcional localização. A Avenida da Ópera (inicialmente avenida Napoléon e avenida da Nation. Em 1873 torna-se definitivamente Avenue de l’Opéra  ligando a praça da Ópera à praça du Palais Royal (da Comédie Française), e o Grand-Hôtel ao Grand-Hôtel du Louvre. A rua Mogador torna-se a rua Aubert e a rua de Rouen, a rua Scribe.

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Nouvelles rues autour de l'Opéra Wilkipedia France.

O Barão Haussmann projecta a “Avenue Napoléon (de l'Opéra, maintenant), à ouvrir, de l'autre  côté du Boulevard, dans l'axe de la nouvelle Académie Impériale de Musique, jusqu'à la Place du Théâtre Français ! [7]
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[7] Georges Eugène Haussmann, (1809-1891). Mémoires du Baron Haussmann. Victor-Havard, Éditeur 168, Boulevard Saint-Germain Paris 1893. (pag. 70)
tradução: “Avenida Napoleão (da Ópera agora), a abrir do outro lado do Boulevard, no eixo da nova Academia Imperial de Música, até à praça do Teatro Francês

E descreve a praça do Teatro Francês:

“…La Place du Théâtre-Français, à l'entrée de l'Avenue de l'Opéra bordée par deux plateaux triangulaires où s'élèvent, au centre de bassins entourés de fleurs, les charmantes fontaines de M. Davioud, dont les vasques appuyées de groupes d'enfants sont surmontées de colonnes portant d'élégantes chimères; …” [8] (ver a praça adiante em o Grand-Hôtel du Louvre)
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[8] Georges Eugène Haussmann, (1809-1891). Mémoires du Baron Haussmann. 1893. Tome III Grands Travaux de Paris, Victor-Havard, Éditeur 168, Boulevard Saint-Germain Paris 1893 (pag.253
tradução: “…A Praça do Teatro Francês, na entrada da Avenida da Ópera ladeada por duas placas triangulares onde se erguem no centro de tanques rodeados de flores, as encantadoras fontes do Sr. Davidoud, onde as taças apoiadas de grupos de crianças apoiam-se  em colunas com elegantes quimeras…”

E, perante as críticas desta intervenção Haussmann defende-se :
“ L'étude attentive des mouvements de l'opinion publique à Paris m'a fourni un curieux enseignement, excellent à noter. En général, une oeuvre nouvelle éveille une impression défavorable par cette raison qu'elle constitue un changement et trouble les habitudes de la vie. Mais cette impression est éphémère ; elle fait bientôt place à des appréciations plus, justes et plus bienveillantes. (…) Quelqu'un pense-t-il aujourd'hui qu'on ait eu tort d'ouvrir la grande artère qui a métamorphosé si complètement, en les rendant abordables, tous ces espaces qui faisaient tache sur la carte de Paris entre la Chaussée-d'Antin et le faubourg Saint-Honoré? Ainsi disparaîtra l'émotion que produit en ce moment la démolition de quelques maisons de la rue de la Paix et du boulevard des Capucines, lorsque le regard pourra  embrasser le bel ensemble des voies magistrales qui rayonneront do toutes parts sur cette vaste place du nouvel Opéra dont si peu de personnes savent se faire encore une idée nette. » [9]
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[9] Relatório do Perfeito de Paris em 18 de Junho de 1868. Citado em M. Haussmann et les Parisiens par Félix Mouttet. 1868. E. Dentu Libraire-Éditeur Galelerie d'Orléans, 17-19 (Palais Royal) M DCCC LX VIII.
Tradução: “O estudo atento dos movimentos de opinião pública em Paris forneceram-me um curioso ensinamento, excelente de tomar nota. De uma forma geral, a obra nova produz uma impressão desfavorável, já que constitui uma transformação e abala os hábitos da a das pessoas. Mas esta impressão é efêmera; rapidamente dá lugar a apreciações mais justas e mais benévolas. (…) Alguém ainda pensa que se fez mal ao abrir a grande artéria que transformou tão completamente, tornando-os acessíveis todos aqueles espaços que manchavam a planta de Paris entre a Chaussée-d’Antin e o faubourg Saint-Honoré? Assim desaparecerá a emoção que produz hoje a demolição de algumas casas da rua de La Paix e do boulevard des Capucines, quando se puder admirar o belo conjunto das vias magistrais que irradiarão de todos os lados para esta vasta praça da nova Ópera e que poucas pessoas conseguem ainda ter uma nítida ideia.”

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Autor desconhecido, Percement de l’Avenue de l’Opéra 1878 óleo sobre tela 46 x 64 cm. Musée Carnavalet Paris.

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Charles Marville (1813-1879),Percement de l'avenue de l'Opera, 1877, tirage sur papier albuminé, 35,8 x 24,8 cm. State Library of Victoria e também na Brown University Library.

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Percement de l'avenue de l'Opéra en 1867 Coll. Archives Larousse

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Louis-Émile Durandelle (1839-1917) Place de l’Opéra, 1868, tirage sur papier albuminé, 38.7 x 27.1 cm. Bibliothèque de l’École nationale des beaux-arts, Paris.

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A Avenida da Ópera vista do Grand-Hôtel du Louvre c.1890

Émile Zola (1840-1902) no seu romance Nana [10],  - um dos mais conhecidos do conjunto intitulado Les Rougon-Macquart,  
Histoire Naturelle et Social d’une famille sous le Second Empire,
que como o título indica pretende traçar o ambiente de Paris no Segundo Império – coloca a personagem principal morrendo num quarto do Grand-Hôtel.
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[10] Emile Zola, Nana - Les Rougon-Macquart,  Histoire Naturelle et Social d’une famille sous le Second Empire, G. Charpentier, Éditeur, rue de Grenelle-Saint-Germain, 13, Paris 1880. pag.516.

Enquanto no Boulevard a multidão grita exaltada, A Berlin ! à Berlin !, a favor da guerra com a Prússia, num quarto do 4º andar morre Nana, a sua beleza desfigurada pela varíola.
É evidente o simbolismo da morte de Nana em 1870, com a queda do Segundo Império, que se avizinha, na sequência da guerra franco-prussiana.
Numa versão ilustrada da obra de Zola, Paul Fouché desenha a fachada do Grand-Hôtel no Boulevard des Capucines, onde a multidão grita à Berlin !, sob o olhar de Lucy, Blanche e Caroline, as companheiras de Nana, assomando à varanda do quarto andar.

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“A Berlin ! à Berlin ! à Berlin !”

“Un ronflement se dégageait de cette masse compacte, muette encore, venue par un besoin de se mettre en tas et piétinant, s'échauffant d'une même fièvre. Mais un grand mouvement fit refluer la foule. Au milieu des bourrades, parmi les groupes qui s'écartaient, une bande d'hommes en casquette et en blouse blanche avait paru, jetant ce cri, sur une cadence de marteau battant l'enclume :  — A Berlin ! à Berlin ! à Berlin !
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Lucy appela Blanche et Caroline, s'oubliant, criant :
— Venez donc... On voit très bien de cette fenêtre.”
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[11]  Oeuvres Complètes Illustrées de Emile Zola, Edition Ne Varietur,  Les Rougon-Macquart, Histoire Naturelle et Social d’une famille sous le Second Empire, Nana, Tome Premier Bibliothèque-Charpentier, Eugène Fasquelle, Éditeur Rue Grenelle, 11 Paris 1906 (pag.444 e 448) . Não traduzimos por se tratar do texto de Zola.


Mais tarde, também Eça de Queiroz refere, em A Cidade e as Serras, o Grand-Hôtel:
“ Com que linda manhã de Maio entrei em Paris! Tão fresca e fina , e já macia, que, apesar de cansado, mergulhei com repugnância no profundo, sombrio leito  do Grande-Hotel, todo fechado de espessos velludos, grossos cordões, pesadas borlas, como um palanque de gala.”

E mais a diante “…imediatamente me pareceu que todos esses cinco anos eu ali permanecera à porta do GrandeHotel, tão estafadamente conhecido me era aquele estridente rolar da cidade, e as magras árvores, e as grossas tabuletas, e os imensos chapéus emplumados sobre tranças pintadas de amarelo, e as empertigadas sobrecasacas com grossas rosetas da legião de honra, e os garotos, em voz rouca e baixa, oferecendo baralhos de cartas obscenas, caixas de fósforos obscenas...”

E ainda

“Abalei para o Grande-Hotel, bocejando - como outr’ora Jacintho. E findei o meu dia de Paris, no Theatro das Variedades, estonteado com uma comédia muito fina, muito acclamada, toda faiscante do mais vivo parisianismo, em que todo o enredo se enrodilhava à volta duma Cama, onde alternadamente se espojavam mulheres em camisa, sujeitos gordos em ceroulas, um coronel com papas de linhaça nas nádegas, cosinheiras de meias de sêda bordadas, e ainda mais gente, ruidosa e saltitante, a esfuziar de cio e de pilhéria.” [12]
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[12] Eça de Queiroz (1900) A Cidade e as Serras Porto Livraria Chardron de Lello & Irmão Editores 1901. pag. 301 e 373.

Em 1905, os arquitectos Henri Paul Nénot (1853 – 1934), L.-C. Lacau e A. Lacau modificam o hotel transferindo a entrada principal para a rua Scribe, bem como a disposição da cour d'honneur.

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Francisco Nicolas Tamagno (1851 - 1933), Grand Hôtel Paris Affiche chromolithographiée,110 x 90 cm.  Imprimerie Victor Camis, 58 rue Saint-Sabi Paris.

Hoje o Grand-Hôtel é o Hotel Intercontinental de Paris.

III – O Grand-Hôtel du Louvre

“A mesa do Grand Hotel, bem como a do Hotel du Louvre …”
Alguns anos antes do Grand-Hôtel, em 1855, os irmãos Péreire edificaram o Grand-Hôtel du Louvre tendo em vista a Exposição Universal de 1855, segundo um projecto de Alfred Armand. Era então o maior hotel da Europa e funcionou até 1887, dando origem aos Grands Magasins du Louvre. O Hôtel du Louvre transferiu-se então para o outro lado da praça do Palais Royal, onde ainda hoje se encontra.

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Charles Fichot (1817-1904) Hotel du Louvre 1860? Recueil. Topographie de Paris. Ier arrondissement, 3ème quartier. Rue de Rivoli et Hôtel et Magasins du Louvre.

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Paris nouveau illustré. Journal périodique publié par l'Illustration. [v. 1864-1872].

O Hotel do Louvre na sua nova localização nos finais do século XIX.

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Postais dos finais do século XIX.

Já no final do século, Camille Pissarro (1830-1903) numa carta diz ter encontrado um quarto no Grand-Hôtel du Louvre, óptimo para pintar as suas paisagens urbanas.
«J'ai trouvé une chambre au Grand Hotel du Louvre avec une vue superbe sur l'avenue de l’Opera et le coin de la place du Palais-Royal. Cest trés beau à faire! Ce n’es t peut-être pas trés esthétique, mais je suis enchanté de pouvoir essayer de faire ces rues de Paris que l'on a l'habitude de dire laides et qui sont si argentées, si lumineuses et si vivantes. C’est tout différent des boulevards. C’est moderne en plein! J'expose en avril.» [13]
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[13] Camille Pissarro, Lettres, pag. 441/2, 15 décembre 1897, , Editions de la Réunion des Musées Nationaux.
tradução: “Encontrei um quarto no Grande Hotel do Louvre com uma soberba vista para a Avenida da Ópera e a esquina da praça do Palais-Royal. É belíssimo para pintar ! Não é talvez muito estético, mas estou encantado por poder ensaiar pintar as ruas de Paris que temos o hábito de dizer que são feias mas que são tão prateadas, tão luminosas e tão vivas. São muito diferentes dos boulevards. É verdadeiramente moderno ! Exporei em Abril.”

Assim, entre 1897 e 1899, irá pintar um conjunto de quadros representando a praça do Palais Royal e a Avenue de l’ Opéra, ensaiando a luminosidade dos quadros em várias horas do dia e em dias com sol ou enevoados. Reproduzimos alguns desses quadros.

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Camille Pissarro - Avenue de l'Opera, Place du Theatre Francais 1898, óleo sobre tela 74 x 91.5 cm colecção particular New York

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Camille Pissarro, Avenue de l'Opera, Place du Theatre Français,1898, óleo s/ tela 74 x 91,5 cm. coleção particular New York, USA.

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Camille Pissarro, Avenue de l´Opera, 1898, 73 x 92 cm. Reims, musée des Beaux-Arts.

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Camille Pissarro, Avenue de l´Opera, 1898,  Museum of Fine Arts, Houston, Texas.

IV – O Café de la Paix

“A mesa do Grand Hotel, bem como a do Hotel du Louvre e a do Café de la Paix…”
O café de la Paix abriu as portas em 1862. Era então o café- restaurante do Grand Hôtel de la Paix.
Graças à vizinhança da Ópera Garnier, tornou-se nos finais do século XIX e ao longo do século XX o local preferido do Tout-Paris, como se pode constatar das muitas imagens que o referem.

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P. Sellier (18..-18..) Rêve de Monsieur de Bismarck 1870, lithographie ; 31 x 20,5 cm (tr. c.) et 39,9 x 26,5 cm (f.) : imp. lemercier et comp. Paris, Bibliothèque nationale de France.

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Postal do início do século XX.

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Antoine Blanchard (1910-1988) Café de la Paix, Place de l’Opéra, óleo s/ cartão 13 x 18 polegadas, coleção particular USA.

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Henri Julien Dumont (1859-1921) Le Café de la Paix, óleo s/ cartão 77,5 x 116,2 cm. coleção particular.

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Postal do início do século XX

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Agence Rol (1904-1938), Café de la Paix, 1911, photographie de presse, nég. sur verre ; 13 x 18 cm. Bibliothèque nationale de France.

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Konstantin Korovin (1861-1939) Café de la Paix à Paris c. 1939, óleo s/cartão, 40 x 55 cm. Coleção particular.

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Edouard Léon Cortes (1882 – 1969) L’ Opéra et le Café de la Paix c. 1947, óleo s/cartão 13 x 18 pol. coleção particular.

V - Os vinhos de l’Hermitage

“No Grand Hotel rega- se a virtude com um vinho de Hermitage, que é o mais saboroso néctar a que um chefe, de familia honesto pode sem peccado chegar os beiços ungidos pelo matrimonio para os prazeres immaculados e celestiaes.”
Ramalho Ortigão faz referência aos vinhos de l’ Hermitage que, ainda hoje, são produzidos numa zona junto a Valence, na margem esquerda do Ródano (Rhône) nas comunas de Crozes-Hermitage e Tain-l'Hermitage do Departamento de Drôme.
Sobre os Hermitage é conhecida a frase de Alexandre Dumas: "Devant L'Hermitage, messieurs découvrons-nous."

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Postal da época.

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Uma garrafa actual.

VI – O Livro, algumas citações.

O livro, o primeiro dos livros de viagem do autor, abre com um PROLOGO EM VIAGEM, em que Ramalho, de certo modo, antecipa o que hoje chamamos de globalização.
“Este mundo está visto e revisto. A electricidade e o vapor tornaram toda a redondeza do globo terrestre tão comprehensivel como a circumferencia de uma tangerina que a gente atravessa com um palito e mette na algibeira ao acabar de jantar.”

E continua referindo-se aos viajantes:
“Para aprender lá temos as cartas de guia dos viajantes nos museus, nas bibliothecas, nos arsenaes, nos jardins, nos palácios, nas officinas, nos theatros, nos passeios e nas ruinas; temos, além d'isto, o periódico que nos traz noticias do todos os dias ; temos o telegrapho para perguntar de cinco em cinco minutos o que ha de novo ; temos finalmente o caminho de ferro para ir dentro d'algumas horas confirmar uma opinião ou desfazer uma dúvida. Os viajantes com quem se possa aprender teem ordinariamente o defeito de chegar tarde, e isso os torna importunos. (pags.71 e 72)

Ramalho de seguida, num primeiro capítulo intitulado NO ASPHALTO PARISIENSE, e EPILOGO DESTA HISTORIA, utiliza uma história amorosa, para referenciar os diversos locais da vida parisiense.

Numa segunda crónica intitulada UMA VISITA A FERDINAND DENIS  [14] Ortigão (que foi professor de francês)homenageia “…o author da mais completa, para não dizermos da única historia litteraria de que possuimos, e na qual estão quotidianamente plagiando, melhor ou peor, quantos hoje se encarregam de despachar resuminhos de quatro vinténs para as aulas de instrucção primaria.”
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[14] Jean-Ferdinand Denis (1798-1890) foi um viajante, historiador e escritor francês especialista em História do Brasil. Foi administrador da Biblioteca de Santa Genoveva em Paris.

Com este autor fala “de A. Herculano ; de Rebello da Silva; de António de Castilho; de Mendes Leal; de Camillo Castello Branco ; do snr. José Silvestre Ribeiro, cujo nome firmava um artigo de critica ultimamente publicado cm um numero do Jornal do Commercio, que estava na banca de Ferdinand Denis; do snr. Moraes Sarmento, que lhe dedicou o seu precioso Romanceiro; do conde de Lavradio, que ultimamente lhe mandara um exemplar das Lendas da Índia, d'esse portuguezissimo livro em que tão brilhantemente avulta a agigantada figura de Vasco da Gama, maior ainda na historia que na legenda, e que felizmente ainda alguém conhece em Pariz, onde a Grande Opera representa agora um episodio da vida do nosso navegante, o qual episodio é a mais suja torpeza histórica que a um libretista é dado commetter.(pag.64) [15]
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[15] Ramalho refere L’ africaine, ópera em 5 actos, com libreto de Eugène Scribe (1791-1861), música de Giacomo Meyerbeer (1791-1864), estreada no Théâtre de l'Opéra-Le Peletier, em 28 de Abril de 1865.

O papel de Vasco da Gama foi interpretado pelo tenor italiano Emilio Naudin (1823-1890).

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Alfred Albert (1814?-1879) e Paul Lormier (1813-1865), Naudin no papel de Vasco da Game in  L’Africaine: cinquante-deux maquettes de costumes, plume, crayon, aquarelle, 13 x 9 cm. Bibliothèque nationale de France, département Bibliothèque-musée de l'opéra.

Ferdinand Denis evoca ainda o, então falecido, poeta brasileiro António Gonçalves Dias (1823-1864) autor da famosa Canção do Exílio:
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.
Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar — sozinho, à noite —
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.”


Depois de evocar o poeta Filinto Elísio, segue-se um novo capítulo intitulado O DOUTOR VÉRON—O NECROLÓGIO—OS CABEÇAS DE TURCO.

Logo no início Ramalho refere o fascínio e a importância de Paris:

“O que é certo ó que a popularidade em Pariz é a celebridade no mundo. Quem quizer ter uma reputação em termos não tem outro remédio senão fazer como cora a roupa á moda : mandar tomar-lhe a medida no boulevard dos Italianos.
Um homem notável em Pariz é tão conhecido no terraço do café Riche como no Porto á porta do Moré ou em Lisboa nos passeios do Chiado.” (pag. 71)


Segue-se um capítulo JANTARES E JANTANTES, muito do agrado do autor, conhecido gastrónomo. A este capítulo pertence a citação inicial deste post.

Ramalho entre outros locais onde se janta em Paris refere:
“Uma das poucas coisas verdadeiramente úteis que Deus nos permitte gosar n'este mundo é jantar a uma mesa de litteratos ou d'artistas parisienses Chez Paschal-Philipjpe ; na Maison Dorée; na casa Bréhant-Vachette, no boulevard des Italiens; no café de Peters, na Passage des Princes, ou no Café Riche, á esquina da rua Lepeletier.” (pag.99)

O Café de Paris um dos conhecidos cafés do Segundo Império do boulevard des Italiens, oi fundado em 1785 e ampliado em 1865, pouco antes da estadia de Ramalho em Paris. Desapareceu em 1916. Ao seu lado, no boulevard des Italiens, situava-se a Maison Dorée que Ramalho refere por várias vezes.

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Edmond Morin (1824-1882), Les troupes passant devant le Café Riche, 1859, desenho a partir de fotografia 8,4 x 12,6 cm. Bibliothèque nationale de France.

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Le Café Riche Paris postal de c. 1890.

O autor refere ainda um conjunto de grandes vinhos onde se destacam os portugueses Madeira e Porto.

“…tendo em vista que o successo do jantar, qualquer que seja o 
que o determina,—a amizade, a gratidão, o respeito, a especulação, a politica ou o amor,—está na distribuição sob todos os aspectos completa e perfeita do Chably, do Madeira, do Château-d’Issan, do Romannée, do Chambertin, do Rudsheimer, do Xerez, do Champagne, do Château-Laffitte, do Leóville-Poyféré, do Málaga e do Porto.”
(pag. 105)

Na página seguinte refere o pastel de Chartres (Pâté de Chartres) “…uma empada feita de carne de lebre, de perdiz e de gallinhola, desossadas, empastadas com tubaras em uma massa compacta, e mettidas dentro d'um delicioso folhado, redondo e alto como metade da copa d'um chapéo, e temperado com os succos mais substanciaes e appetitosos.” (pag.106)

E mais adiante volta a referir o dito pastel:
“Emquanto ao pastel de Chartres digo eu que se quer comido em tête-à-tête e assim é. O pastel de Chartres é, como o nosso arroz doce, um prato de festasinha intima, sincera e sem-ceremonia : um prato de verdadeiros amigos como os presentes de pouco preço. O pastel de Chartres convida ao prazer da conversa, á alegria desaffectada, ás confidencias queridas.”  (pag.112)

O Pastel (Le Pâté) de Chartres
  
Conhecido desde o século XVIII, ganha notoriedade a partir do início do século XIX, quando referido por Alexandre-Balthazar-Laurent Grimod de La Reynière (1758-1837), no seu célebre Almanache des Gourmands, servant de guide dans le moyens de faire excellente chère.

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Um conjunto de vários e conhecidos autores do século XIX mencionam o Pâté de Chartres na suas obras. É o caso de Alexandre Dumas no seu Diccionnaire de la Cuisine e de Anatole France no seu Le crime de Sylvestre Bonnard
Considerado como património da cidade de Chartres hoje existe uma Confraria do Patê de Chartres.


Também Ramalho, como bom tripeiro, não deixa de referir as Tripas à moda do Porto comparando-as com as Tripe à la Lyonnaise:
As próprias tripas portuenses, em cuja nacionalidade mais alguma fé eu tinha por se achar filiada a historia dellas á historia d'uma das expedições portuguezas para as conquistas do ultramar; as tripas portuenses, das quaes o meu antigo amigo Vieira de Castro, jantando uma vez comigo em uma casa do Porto, me dizia descriminando com uma colher de servir a sopa o conteúdo d'uma terrina posta entre os nossos talheres: —isto é um jantar inteiro n'um tomo só: aqui temos sopa, vacca, arroz, batatas, chouriços, galinha, cenoiras, mão de boi e pé do porco... no fluido da terrina vem naturalmente o entremet e a sobremesa, um naco de podim do pão com passas, uma talhada de melancia e um marmello do calda para cada um»; —as tripas, digo eu, aqui se fazem tão realmente como na minha terra. E d'isto dou parte áquelles dos meus patrícios que desmedram em Pariz, extranhando os comeres. Na rua Mazagran, á esquina da rua de L'Echiquier há uma taverna ; á porta da taverna uma loisa ; escripta na loisa com tinta branca a designação dos pratos do dia e o seu respectivo preço. Ora bem: quando na dita loisa encontrarem, entre um civet e uma matelotte, estas palavras—tripe à la lyonnaise, preparem o appetite e entrem á hora do jantar.” (pags. 107 e 108)

Na mesma página , o autor conclui que “O melhor jantar de Pariz—creiam que lhes está fallando um entendido—o mais fino, o mais delicado, o mais plantureux, o mais fidalgo, é o do Café Anglais. Quem quer ser elegante por menos dinheiro, janta no Café Riche, nos Irmãos Provenceaux no Café da Opera, ou no Café de Paris; quem quer ter um banquete de verdadeiro leão vai ao Café Anglais, tira o porte-monnaie da algibeira e exclama como Luiz XV: Après moi le déluge! Depois d'isto a ruina.

E na página seguinte remata escrevendo: “…tenha-se entendido pois, para os devidos effeitos, que as ceias de Pariz se comem na Maison Dorée, 0s almoços em casa de Petters, e os jantares no Café Anglais.”

Fundado em 1822 o Café Anglais na esquina do boulevard des Italiens e a rua Marivaux, tornou-se no Segundo Império o mais requintado (e caro…) restaurante de Paris.

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A. P. Martial (1828-1883), Boulevard des Italiens. Café Anglais, 1877, água-forte e aguarela 15,8 x 11,9 cm. Bibliothèque nationale de France.

Foi no Café Anglais que, precisamente no ano em que Ramalho Ortigão está em Paris, se realiza o "Dîner des Trois Empereurs " que reúne Alexandre II, Czar da Rússia e o seu filho o futuro Alexandre III, e o futuro Imperador da Prússia  Guilherme I, acompanhado de Bismarck.

O capítulo seguinte intitula-se A PARISIENSE e em que o autor refere as mulheres de Paris, dos mais diversos estratos sociais, e de como “quem faz de Pariz a capital do mundo civilizado é a parisiense.”
Ramalho descreve os ambientes de Paris no Segundo Império e os seus lugares de referência, particularmente os teatros e os escritores da época.

É neste capítulo que ramalho escreve sobre Paris afirmando que “…todas as grandes e bellas cidades que tem o mundo cedem a Pariz o privilegio de ser elle em cada inverno o prazo dado ao encontro de todos os viajantes illustres e á reunião de tudo quanto ha mais elegante, mais novo, mais bello, mais rico e mais aristocrático no mundo. Ahi refervem em portentosa e fascinadora ebulição de luz e d’harmonia todas as aspirações elevadas acima do nivel usual, todo o trabalho, todos os talentos e todas as glorias, todos os deleites finalmente—se querem que se lhes chame assim— provenientes da victoria conquistada nas maiores luctas em que pôde entrar a intelligencia, communicada de Deus á humanidade dispersa no mundo, e convergindo toda para esse ponto culminante da civilisação cuja imagem palpável e visível é Pariz.” (pag.144)

Segue-se um novo capítulo intitulado PONSON DU TERRAIL, onde Ramalho, sempre utilizando imagens e comparações com a gastronomia, faz uma violenta crítica a este autor então muito popular.

E um outro denominado O PETIT CREVÉ  “…nome com que mais vulgarmente se designa em Pariz o elegante da geração que desponta agora para o absintho e para o tabaco do fumo.

O livro termina com o capítulo A MOCIDADE, sendo que nestes três últimos capítulos, Ramalho discorre sobre a educação, a literatura francesa e os seus autores, sempre referindo os diversos lugares de Paris, e os ambientes onde se movem estes autores e onde se enquadram as suas personagens.

[Este texto faz parte de uma série intitulada Porto e Paris, a publicar neste blogue.]

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