Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Eça de Queiroz e uma pintura de Courbet

1. Em 1857 Courbet (1819- 1877) [1] expõe no Salon de Paris seis telas [2] de que se destaca um quadro de grandes dimensões, intitulado Demoiselles des bords de la Seine.

c1fig. 1 - Gustave Courbet (1856-1857) Demoiselles des bords de la Seine 1857, óleo sobre tela 174 x 200 cm Museu do Petit Palais Paris.

Apesar de hoje o quadro de Courbet nos parecer pacífico, ele provocou a incompreensão do público e o escândalo da crítica, acentuados pela personalidade rebelde de Courbet.


[1] (Jean Désiré) Gustave Courbet (1819- 1877). Em Paris torna-se conhecido pela propaganda que faz da sua actividade de pintor, o que lhe valeu a desconfiança da crítica. Em 1855 ao ver recusados os seus quadros na Exposição de Belas Artes da Exposição Universal de Paris , monta junto do Palácio da Exposição um pavilhão próprio onde sob o título de Realismo expõe 40 dos seus quadros. Envolvido na Comuna de Paris em 1871, acaba por ser acusado pela demolição da Coluna de Vandoma, preso exila-se depois na Suiça  onde acaba por morrer.

[2] Demoiselles des bords de la Seine, Curée de cherreuil, Biche forcée dans la neige, Les bords de la Loue, o retrato do tenor Louis Gueymard (1822–1880) no papel de Robert le Diable, e o retrato do violinista Alphonse Promayet (1822-1872).

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2. O texto de Eça de Queiroz

Quinze anos depois Eça de Queiroz escreve em As Farpas um texto sobre a educação da nova geração feminina em Lisboa.

Para melhor ilustrar as suas teorias sobre a moda e a educação das jovens e suas consequências, Eça socorre-se do quadro de Courbet:

“Courbet, o mais poderoso pintor crítico dos tempos modernos, fez um quadro: As duas meni­nas do segundo império. É uma paizagem magní­fica: duas mulheres solteiras descansam alli, na frescura tepida das sombras. Uma, alta, loira, branca, está sentada; tem o perfil frio, secco, o olhar direito, e, com um dedo apoiado à face, calcula: — sente-se que pensa em dinheiro, juros, acções de companhia e jogo de fundos.

c1dfig. 2 – Detalhe do quadro; a rapariga loira.

A outra, deitada na relva, com os braços estendidos, como abraçando a terra, trigueira, de physionomia ner­vosa e imaginativa, a testa curta, os labios seccos, cisma: sente-se que sonha festas, bailes, as gran­des voluptuosidades, os encontros rapidos e peri­gosos no fundo de um parque, e todas as exal­tações da sensibilidade.

c1ffig. 3 – Detalhe do quadro: a rapariga morena.

E Eça de Queiroz termina a sua referência ao quadro vendo nas figuras representadas as consequências da (má) educação das jovens: Hoje, pela educação moderna dos collegios, cidades, romances, theatros, musica, moral contemporanea — as duas meninas do segundo império, estão em cada mulher: fria ambição de dinheiro, exaltado ardor de sentimen­talismo.” [1]

Conheceria Eça o quadro, em 1872, data do texto das Farpas?

Directamente parece pouco provável. Mas conhecia certamente as críticas ao quadro desde a sua exibição no Salon e, sobretudo, os comentários de dois dos seus autores preferidos, Proudhon e Zola (que Eça visita em Paris em 1885).

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[1] Eça de Queiroz (1845-1900), O Paiz e e a Sociedade Portugeza in Uma Campanha Alegre de As Farpas Vol. II XXIII Março 1872 Companhia Nacional Editora Largo do Conde Barão 50 Lisboa 1891. (pág. 144 e 145).

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3. A composição

Em primeiro lugar o próprio título Demoiselles du bord de la Seine. Houve quem nele visse a palavra bordel, e daí sublinhar que se trata de duas prostitutas repousando depois de uma noite de prazer.

O quadro de grandes dimensões já que para além do aspecto publicitário Courbet recuperando princípios da pintura barroca, pretende introduzir o espectador dentro do quadro, apresenta duas figuras femininas de tamanho natural, estendidas na relva e uma terceira personagem ausente mas simbolicamente representada pelo chapéu abandonado no barco.

No centro da composição, chamando a atenção do espectador o bouquet que a personagem em segundo plano segura nos braços.c1bfig. 4 – O centro da composição.

c1efig. 5 – O bouquet no centro da composição.

A horizontalidade da composição reforça a posição das duas figuras pelas horizontais que unem os elementos do quadro: olhos, mãos, pés e remos do barco.c1afig. 6 – As horizontais da composição.

A pintura de Courbet não é expontânea. Resulta de um conjunto de estudos, em particular do rosto das duas figuras femininas.

c11fig. 7 - Estudo para Les Demoiselles des bords de la Seine 1856, óleo s/ tela 64,6 x 81,2 cm. National Gallery of Australia.

4. O quadro através da crítica no Salon de 1857

c5fig. 8 - Honore Daumier (1808-1879) Aspect du Salon le Jour de l'Overture...(Le Salon de 1857) Le Charivari, 22 June 1857. Litografia 19,05 x 25,24 cm. Los Angeles County Museum of Art (LACMA).

Logo na sua apresentação no Salon de 1857, a crítica que não apreciava nem compreendia o realismo de Courbet, considerado provocatório e contrário aos princípios dos academismos históricos, alegóricos ou elogiosos do Segundo Império, pronuncia-se de uma maneira feroz e exaltada sobre este e outros quadros de Courbet, vingando-se dos aspectos publicitários da sua arte e da sua própria personalidade.

Maxime du Camp (1822-1894), escritor e fotógrafo, membro da Academia e reputado crítico escreve:

Cette année, M. Courbet, mieux inspiré qu'en 1855, n'a pas ouvert boutique de tableaux, n'a point collé d'affiches sur les murs de Paris et n'a pas fait d'annonces dans les journaux; nous pouvons donc nous en occuper. Indépendamment de quatre tableaux, il expose un portrait qu'il eut mieux fait de garder chez lui. Si l'habileté matérielle suffisait en art, M. Courbet ne mériterait que des éloges, car il peint matériellement comme depuis longtemps on ne peintplus en France ; il faut remonter à Valentin [1] pour trouver une fermeté de pâte, une vigueur de tons et une solidité de brosse semblables; c'est beaucoup assurément, mais ce n'est pas assez ; chez lui la main est d'une inconcevable habileté, mais l'âme manque absolument, cette âme qui constitue seule l'artiste et qui sort, comme un charme invincible, des tableaux de M. François Millet. [2] La peinture de M. Courbet est três habile et trop savante peut-être, car elle n'ignore aucune des ficelles, aucun des trompe-l'oeil connus.

Sous une apparence de naïveté tranquille et paysanne, elle est essentiellement corrompue et vise à l'effet per fas et nefas; [3] elle y parvient souvent, mais cet effet n'a rien que de physique et d'extérieur. On regarde les tableaux de M. Courbet avec étonnement et curiosité, comme on regarderait une tapisserie bien faite ou des persiennes bien peintes, mais voilà tout; en eux rien n'émeut, rien ne trouble, rien ne vit; quels que soient ses sujets, c'est toujours de la nature morte.

Les Demoiselles du bord de la Seine sont deux créatures qui, sans doute, sont sorties le matin même de la rue de Lourcine [4] et qui, dans huit jours, y retourneront.

Elles sont vautrées sur l'herbe, près de la rivière.

L'une, appuyée contre un arbre, dort en soutenant sa tête avachie sur un gros bras mollasse; l'autre, couchée, aplatie sur le ventre, la tête et les bras par terre, montre au spectateur un visage verdâtre et malsain troué de deux yeux impudentes et orné de cheveux noirs.

Ces deux espèces, d'un dessin plus que douteux, apparaissent comme un paquet d'étoffes, très-réussies du reste, d'où sortent des pieds, des bras et des têtes ; le corps est absent, point d'anatomie;c'est un ballon dégonflé.

Le bras de la femme couchée, le châle [5] qui recouvre les parties absentes de son corps sont des chefs-d'oeuvre d'adresse et prouvent que si M. Courbet n'avait pas de parti pris, il pourrait devenir un peintre sérieux. c1gfig. 9 – O xaile nos pés da figura do primeiro plano.

Pour établir une agréable harmonie avec ses premiers plans verdàtres, M. Courbet a peint la Seine en bleu ! La Seine azurée ! aux bourbeux environs de Paris! réalisme, voilà de tes coups ! [6]

c1cfig. 10 – O Sena na pintura.

E Maxime du Camp termina a sua crítica sentenciando que Courbet ne sait ni chercher, ni composer, ni interpréter; il peint des tableaux: comme on cire des bottes; c'est un ouvrier de talent, ce n'est pas un artiste.

[tradução do texto: Este ano, o Sr. Courbet, mais inspirado que em 1855, não abriu uma galeria própria, não colou cartazes nos muros de Paris e não colocou anúncios nos jornais; podemos por isso ocupar-nos dele. Independentemente de quatro quadros expõe um retrato que faria melhor se o tivesse deixado em casa. Se a habilidade técnica chegasse em arte, o Sr. Courbet apenas mereceria elogios, já que pinta tecnicamente como já não se pinta há muito tempo em França; é preciso regressar a Valentin para encontrar uma segurança de pâte, um vigor nos tons e uma solidez das pinceladas; é certamente muito mas não é suficiente; nele a mão é de uma inconcebível habilidade mas falta-lhe a alma, essa alma que constitui o artista e que transparece, com um charme invencível, nos quadros do Sr. François Millet. A pintura do Sr. Courbet é muito hábil e muito sábia talvez, já que não desconhece nenhuma das vias, nenhum dos conhecidos trompe-l’oeil. Sob a aparência de ingenuidade tranquila e rural, a sua pintura é essencialmente corrompida e visa o efeito per faz e nefas; consegue-o por vezes mas este efeito não é mais do que físico e exterior. Olhamos os quadros do Sr. Courbet com espanto e curiosidade, como olhamos uma tapeçaria bem feita ou persianas bem pintadas, e é tudo; neles nada emociona nada inquieta, nada vive; quaisquer que sejam os seus temas é sempre natureza morta.

As Demoiselles du bord de la Seine são duas criaturas que sem dúvida saíram de manhã da rua de Lourcine, e que daqui a oito dias aí regressarão. Elas estão estendidas sobre a relva perto do rio.

Uma apoiada contra uma árvore dorme segurando a sua cabeça avacalhada sobre um gordo e mole braço; a outra, deitada, achatada sobre o ventre, a cabeça e o braço no chão, olha o espectador com um rosto esverdeado e doentio, onde sobressaem dois olhos impúdicos e o penteado dos cabelos negros.

Estas duas figuras com um desenho mais que duvidoso aparecem como um embrulho de tecidos, muito conseguidos aliás, de onde saem pés, braços e cabeças; o corpo está ausente, nenhuma anatomia; é um balão esvaziado. O braço da mulher deitada, o xaile que cobre as partes ausentes do seu corpo são obras-primas de desenvoltura e provam que se o Sr. Courbet não tivesse preconceitos, ele poderia tornar-se um sério pintor. Para estabelecer uma agradável harmonia com os seus primeiros planos esverdeados, o Sr. Courbet pintou o Sena de azul! O Sena azulado! Nos bordejantes arredores de Paris! Realismo eis as tuas consequências!]

[ não sabe nem procurar, nem compor, nem interpretar; ele pinta quadros como se engraxa sapatos; é um operário de talento, não é um artista.]


[1] Valentin de Boulogne, dit le Valentin (1591-1632), pintor francês a trabalhar em Roma e o principal discípulo de Caravaggio. Morreu muito novo afogado na fonte Barberini depois de uma noite de excessos de tabaco e vimho.

[2] Jean-François Millet (1814-1875). Contemporâneo de Courbet foi também um dos percursores do Realismo.

[3] Latim: por todo e qualquer meio.

[4] A rua Lourcine, hoje rua Broca pertence a um quarteirão que sofreu a intervenção de Haussmann. A rua é referida por Honoré de Balzac em L’interdiction e em Ferragus e por Victor Hugo nos Miseráveis. Eugène Labiche (1815-1888) escreveu uma comédia representada em 1857 chamada L’Affaire de la Rue de Lourcine.

[5] O xaile como o bouquet são dois atributos identificados como a tentativa das lorettes ou grisettes, jovens aventureiras que no segundo império procuravam em Paris encontrar um marido ou amante rico, imitarem as jovens da burguesia triunfante.

[6] Maxime du Camp, Le Salon de 1857, Librarie Nouvelle Boulevard des Italiens,15, en face de la Maison Dorée, Paris 1857. (pág. 101 a 105).

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5. Um outro crítico Gustave Planche (1808 – 1857), na Revue des Deux Mondes, escreve:

(…) Nous retrouvons M. Courbet tel que nous le connaissons depuis ses Baigneuses, qui ont excité tant de scandale [1]. Il exprime habilement ce qu’il veut, mais ce qu’il veut est toujours singulier, et blesse le goût des moins délicats. Ses Demoiselles des bords de la Seine semblent un défi porté à tous ceux qui ont blâmé le choix des sujets qu’il se plaît à traiter. Comment est placée la femme qu’il nous montre ? Je ne me charge pas de le deviner. Il y a pourtant du talent dans cette figure étrange, un talent d’exécution que personne ne peut songer à contester ; mais quel talent mal dépensé ! Toutes les remontrances viennent échouer contre l’obstination de l’auteur : lui dire qu’il se trompe est parfaitement inutile. Je croyais d’abord qu’il avait choisi le scandale comme un moyen de succès, avec l’intention de prendre une autre voie dès que son nom serait connu. Maintenant je commence à changer d’avis, car son nom est connu, et il persévère. La réalité, qu’il imite avec adresse, est à ses yeux le dernier terme de l’art ; il ne voit rien au delà, ses ouvrages nous donnent le droit de le penser. [2]

[Tradução do texto: Nós reencontramos o Sr. Courbet tal como o conhecemos desde as suas Baigneuses que suscitaram tanto escândalo. Ele exprime habilmente o que quer, mas o que ele quer é sempre algo de singular e fere os gostos dos menos delicados. As suas Demoiselles des bords de la Seine parecem um desafio lançado a todos os que criticaram a escolha dos temas que se propõe tratar. Como está colocada a mulher que ele nos mostra? Não sou eu que tentarei adivinhar. Há contudo talento nesta figura estranha, um talento de execução que ninguém pode sonhar em contestar; mas tanto talento desperdiçado! Todas as advertências esbarram contra a obstinação do autor: dizer-lhe que está errado é absolutamente inútil. Creio em primeiro lugar que escolheu o escândalo como um meio para alcançar o sucesso, com a intensão de seguir outro caminho desde que o seu nome se tornasse conhecido. Mas agora começo a mudar de opinião, já que o seu nome é conhecido e ele persiste. A realidade que imita com desenvoltura é aos seus olhos o sujeito último da arte; ele nada vê para além disso, e as suas obras, dão-nos o direito de assim pensar.]c1fig. 11 - Gustave Courbet (1856-1857) Demoiselles des bords de la Seine 1857, óleo sobre tela 174 x 200 cm Museu do Petit Palais Paris.

E ainda Edmond About (1828-1885), se refere ao quadro salientando que Il y a des prodiges de trompe-l'oeil dans les Demoiselles des bords de la Seine. Je n'ai pas besoin de vous recommander une certaine paire de gants frais, exécutée dans la dernière perfection. Ce qui est encore plus miraculeux, c'est l'éclat luisant de ces deux figures lunaires dont l'épiderme se graisse d'un commencement de sueur. Ceci posé, j'ai quelque peine à retrouver un corps féminin dans chacune des deux robes. M'est avis que la demoiselle du premier plan possède en moins ce que la baigneuse avait en trop. Celle du second plan, j'ai regret de le dire, n'est pas tout a fait à son plan. [3]

[tradução do texto: Há prodígios de trompe-l'oeil nas Demoiselles des bords de la Seine. Não é necessário recomendar um certo par de luvas novas, executadas com requintada perfeição. E o que é ainda mais miraculoso é o luzidio brilho destas duas figuras lunares, cuja epiderme se besunta de um início de suor. Dito isto, tenho alguma dificuldade em descobrir um corpo feminino em qualquer dos dois vestidos. Na minha opinião a demoiselle do primeiro plano possui a menos o que a banhista (baigneuse) tinha demais. A do segundo plano, tenho pena de o dizer, não está totalmente à sua altura.]


[1] Baigneuses é um quadro de Courbet, também de consideráveis dimensões (227 x 193 cm.), apresentado no Salon de 1853 provocando escândalo. Mostra duas figuras femininas num bosque, uma das quais despida e de costas, saindo do banho enquanto a outra a contempla sentada. A figura pouco elegante da Banhista e os pés sujos, (lembrando Caravaggio) porque não correspondiam aos cânones da pintura onde o nu feminino era símbolo do ideal de beleza, foram considerados como indecentes e um sinal de falta de moralidade.

[2] Gustave Planche (1808 – 1857), Le salon de 1857 in Revue des Deux Mondes, 2º, tome 19, 1857. (pág. 397).

[3] Edmond About (1828-1885), Nos Artistes au Salon de 1857, Librairie de L. Hachette et Cle, Rue Pierre-Sarrazin n.º14, Paris 1858. (pág.153).

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c3fig. 12 – Detalhe do quadro. O olhar da figura do primeiro plano.

6. Alguém já escreveu que o olhar da figura em primeiro plano lembra os versos de Charles Baudelaire de quem aliás, Courbet pintou o retrato :

Comme un bétail pensif sur le sable couchées,
Elles tournent leurs yeux vers l'horizon des mers
[1]

[Como um gado pensativo deitado na areia/Elas desviam os seus olhos verdes para o horizonte dos mares…]

c7fig. 13 - Courbet, Retrato de Charles Baudelaire 1848. Óleo s/ tela 53 x 61 cm. Musée Fabre, Montpellier.

Pintado em 1848, o quadro de modestas dimensões comparado com os enormes quadros de Courbet, representa Baudelaire, então com 27 anos, e que se tornará conhecido quando publica em 1857 as Fleurs du Mal. O poeta, que morrerá prematuramente dez anos depois, é representado a fumar cachimbo e a ler um livro. Está sentado a uma escrivaninha onde se encontram os instrumentos do escritor: os livros, o papel, o tinteiro e a pena. Todo o quadro tem um tom avermelhado e castanho contrastando com a camisa azulada de Baudelaire e o seu laço dourado. Baudelaire amigo de Courbet e que inicialmente defendeu a sua pintura acaba por mais tarde mudar de posição e tornar-se um dos seus mais acérrimos críticos.


[1] Charles Baudelaire (1821-1867), Les Fleurs du Mal, seconde édition (1ª edição 1857). Augmemté de trente cinq poemes nouveaux et orné d’um portrait de l’auteur dessiné et grave par Bracqemond .Poulet- Malassis et de Broise, éditeurs 97, rue de Richelieu et Passage Mirés 36 Paris 1861. (pág. 265 e 266). Nota de Rf - Felix Bracquemond (1833–1914). O Poema completo:

Femmes damnées

Comme un bétail pensif sur le sable couchées,
Elles tournent leurs yeux vers l'horizon des mers,
Et leurs pieds se cherchant et leurs mains rapprochées
Ont de douces langueurs et des frissons amers.
Les unes, coeurs épris des longues confidences,
Dans le fond des bosquets où jasent les ruisseaux,
Vont épelant l'amour des craintives enfances
Et creusent le bois vert des jeunes arbrisseaux ;
D'autres, comme des soeurs, marchent lentes et graves
A travers les rochers pleins d'apparitions,
Où saint Antoine a vu surgir comme des laves
Les seins nus et pourprés de ses tentations ;
Il en est, aux lueurs des résines croulantes,
Qui dans le creux muet des vieux antres païens
T'appellent au secours de leurs fièvres hurlantes,
Ô Bacchus, endormeur des remords anciens !
Et d'autres, dont la gorge aime les scapulaires,
Qui, recélant un fouet sous leurs longs vêtements,
Mêlent, dans le bois sombre et les nuits solitaires,
L'écume du plaisir aux larmes des tourments.
Ô vierges, ô démons, ô monstres, ô martyres,
De la réalité grands esprits contempteurs,
Chercheuses d'infini, dévotes et satyres,
Tantôt pleines de cris, tantôt pleines de pleurs,
Vous que dans votre enfer mon âme a poursuivies,
Pauvres soeurs, je vous aime autant que je vous plains,
Pour vos mornes douleurs, vos soifs inassouvies,
Et les urnes d'amour dont vos grands coeurs sont pleins
!

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7. O crítico de arte Charles Perrier [1] no seu L’Art Français au Salon de 1857, cria um capítulo intitulado O Realismo onde refere Courbet e Biard [2].

M. Courbet a bien compris son siècle; en voyant qu’on ne vit plus maintenant que par le reclame, il en a fait une tellement colossale que la pareille ne se verra jamais.(…) Les Demoiselles des bords de la Seine avec leur peau huileuse et leurs mains gantées de beurre frais ne sont qu’une dernière transformation des Venus Callipyges du Salon de 1853. [3]

cijfig. 14 – Detalhe do quadro. O braço da figura em primeiro plano.

C’est la queue du réalisme bestial délaissé par M. Courbet, c’est une dernière satisfation accordé à M. Champfleury, [4] le portraitiste ordinaire des bourgeois de la rue aux Ours [5]. Ces nouvelles demoiselles ne sont pas plus belles que les premièrs, mais eles ont compris que pour paritre en public, il était bom de se soumettre aux exigences du costume moderne. Cette transaction tardive ne les rend pas beaucoup plus chastes , mais elle permet au moins aux jeunes collégiens de les regarder sans rougir jusq’aux oreilles, malgré leur posture equivoque, et les comentaires malins des femmes du vrai monde ne sont plus réduits à s’abriter derrière un éventail. C’est toujours cela de gagné. Ce tableau est du reste une pièce de circonstance. Il fait si chaud au Salon qu’on pardonne jusq’à un certain point aux demoiselles de M. Courbet de se rouler sur le ventre pour trouver un peu de fraicheur sur le gazon. [6]

[tradução do texto: O Sr. Courbet compreendeu o seu século; vendo que hoje não se vive sem a publicidade, ele produziu uma tão colossal que semelhante não veremos jamais (…) As Demoiselles des bords de la Seine, com a sua pele oleosa e as suas mãos enluvadas de manteiga fresca, não são mais do que uma transformação das Vénus Callipyges do Salão de 1853. É a cauda do realismo bestial abandonado pelo Sr. Courbet, é uma última satisfação dada ao Sr. Champfleuty o retratista habitual dos burgueses da rua aux Ours. Estas novas demoiselles não são mais belas do que as primeiras, mas elas perceberam que para aparecer em público é necessário que se submetam às exigências do traje moderno. Esta transição tardia não as torna mais castas, mas permite pelo menos que as jovens colegiais as possam olhar sem corar até às orelhas, apesar da sua postura equívoca, e os comentários maliciosos das verdadeiras mundanas não ter se esconder por detrás de um leque. Pelo menos isso sempre está ganho. Este quadro é de resto uma obra de circunstância. Faz tal calor no Salão que se desculpa, até certo ponto, que as demoiselles do Sr. Courbet rolem sobre si mesmas para encontrar alguma frescura na relva.]


[1] Charles Perrier (1813-1878).

[2] François-Auguste Biard (1798-1882).

[3] Venus Callipyge. Era na antiguidade a representação de Vénus numa pose em que levantando a saia mostrando as nádegas, como o nome grego indica. Tornou-se por isso uma forma de indicar os nus femininos pintados de costas num ideal de beleza. Contudo nas Baigneuses, Courbet faz uma representação de uma mulher de costas que está longe de corresponder a esse ideal.

[4] Jules François Félix Husson, dito Fleury, dito Champfleury (1821-1889), escritor defensor do Realismo e admirador de Courbet, que lhe pintou em 1877 um retrato.

[5] Rua do III arrondissement próxima do mercado des Halles. Hoje prolonga-se pela rua Étienne-Marcel. Referência às personagens dos romances de Champfleury e dos seus textos sobre o Realismo.

[6] Charles Nicolas Perrier(1813-1878), L’art Français au Salon de 1857, Peinture-Sculpture-Architecture, Michel Levy Frères, Lib.-Éditeurs, rue Vivienne 8 bis, Paris 1857. (pág. 123 e 124).

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8. O escultor e crítico de arte Louis Auvray também critica Courbet, referindo de passagem o quadro Demoiselles des bords de la Seine:

M. Courbet est un artiste de talent, mais d'un talent qui réside plus dans la main qu'au cerveau; en terme d'atelier, il a de la pâte. On prétend que les peintures bizarres qu'il a exposées, il les a faites tout exprès pour attirer l'attention et répandre son nom dans le public. Si c'est un moyen, il a parfaitement réussi; mais ce renom là peu d'artistes le rechercheront, et il est temps que M. Courbet devienne plus correct, plus sérieux. Pour nous, nous n'avons jamais ajouté foi à ces prétendues manoeuvres, à ces calculs; nous pensons que cet artiste peint comme il sait, car nous retrouvons toujours et partout dans ses ouvrages les mêmes défauts et les mêmes qualités. Ainsi, son ridicule tableau: les Demoiselles des bords de la Seine (620)[1] manque de perspectif et les figures sont laides, plates et sans modelé.

Est-ce assez pour être et surtout pour rester un peintre célèbre?

Nous ne le pensons pas. Nous engageons cet artiste à se méfier de la camaraderie qui n'a pas peu contribué à égarer son talent. [2]

[tradução do texto: O Sr. Courbet é um artista de talento, mas com um talento que reside mais na mão do que no cérebro; na gíria de atelier, il a de la pâte. Há quem pretenda que as pinturas bizarras que expõe são feitas expressamente para chamar a atenção e difundir o seu nome no público. Se é um meio ele está perfeitamente conseguido; mas esta tipo de notoriedade, poucos artistas desejam; e é já tempo do Sr. Courbet se tornar mais correcto e mais sério. Nós nunca acreditamos nestas pretensas manobras nem nos seus cálculos; pensamos que este artista pinta como sabe já que encontramos sempre e em toda a obra, os mesmos defeitos e as mesmas qualidades. Assim o seu ridículo quadro: as Demoiselles des bords de la Seine (620), não tem perspectiva e as figuras são feias, achatadas e pouco modeladas.

Será suficiente para ser e sobretudo continuar a ser um pintor célebre?

Pensamos que não. Nós aconselhamos este artista a desconfiar das companhias que muito contribuíram para desperdiçar o seu talento.]

Finalmente o fotógrafo, pintor e caricaturista Felix Nadar [3] publica um álbum Nadar jury au salon de 1857 1000 comptes rendus 150 dessins que entre várias críticas à personalidade de Courbet, e apesar de se abster de a comentar faz uma caricatura das Demoiselles du bord de la Seine, representadas como manequins, mas que pelo lugar que ocupa no referido álbum mostra a importância que Nadar lhe atribui.

c6afig. 15 – Courbet (et Nadar) in Nadar jury au salon de 1857 1000 comptes rendus 150 dessins a la librairie nouvelle et partout.


[1] Número atribuído ao quadro no Salon de 1857.

[2] Louis Auvray, (1810-1890). Exposition des beaux-arts. Salon de 1857. Au Bureau de l’Europe Artiste , 57 Faubourg Montmartre Paris 1857

(pág. 66 e 67).

[3] Gaspard-Félix Tournachon dito Nadar (1820-1910), Nadar jury au salon de 1857 1000 comptes rendus 150 dessins a la librairie nouvelle et partout. Nadar fez uma fotografia de Courbet datada de 1861 a 1865.

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9. As Demoiselles des bords de la Seine e as críticas de 1865

Proudhon

c8fig. 16 – Courbet, Retrato de Proudhon e os filhos 1863/65. Óleo s/ tela 147 x 198 cm. Musee du Petit-Palais, France.

Em 1865 Courbet pinta este retrato de Proudhon. Apesar de a crítica ter considerado este quadro como dos mais fracos de Courbet, nomeadamente pela composição e pelo tratamento dado às personagens secundárias (a mulher e os filhos de Proudhon), foi esta  a imagem do filósofo que mais se difundiu e difunde.

Mas no mesmo ano é publicado Du principe de l’art et de sa destination sociale, de Pierre-Joseph Proudhon [1], um longo texto que pretendia ser uma defesa da arte de Courbet, mas onde Proudhon explicita as suas teorias sobre a arte e sobre o Realismo. Um dos quadros que Proudhon analisa é precisamente as Demoiselles de la Seine.

Les Demoiselles de la Seine: titre déporvu de sens, parfaitement imaginé pour tuer une oeuvre. La Seine n’a rien à faire ici; on ne la découvre seulement pas.

L’auteur a voulu dire: Deux jeunes personnes à la mode, sous le Second Empire. Mais ce titre aurait paru séditieux; on ne pouvait permettre. Notez cependant que l’Empire ne sert à designer ici qu’une date; de même que la Seine indique, par synécdoque, la civilization parisienne. C’est tout ce qu’il y a de politique dans le tableau de Courbet. Sous le premier Empire, à quoi songeaient les jeunes filles? Je suppose qu’en 1812 cette idée fut venue à un peintre, comme elle est venue de notre temps à Courbet. Il aurait peint ces deux figures pleurant comme les Troyennes de l’Énéide au bord de la mer; lisant le bulletin de la Moskowa ou celui de la Bérisina; pâles et amaigries, comme il convient à des demoiselles en train de coiffer Sainte Catherine, et portant dans leur coeur le deuil de leurs amoureux. Grâce au ciel, nous n’en sommes pas là. Napoléon III a fait des grandes guerres; il a livre de grandes batailles; il a remporté de grandes victoires: on ne peut pas dire qu’il ait fait rareté d’hommes; et si l’on épouse moins aujourd’hui, si la population semble diminuer, cela tient à d’autres causes. Nos idées ainsi que nos moeurs ont pris une autre direction. C’est ce que vont nous apprendre les deux figures qui posent là devant nous, sans qu’elles s’en doutent, et que le livret a appelées Demoiselles de la Seine. Demoiselles, oui; car eles ne sont ni mariées ni veuves, cela se voit du premier coup; eles ne sont pas même promises, peut-être par leur faute, et c’est pouquoi vous les voyez plongées dans leurs réflexions.

La première est une belle brune, aux traits accentués, légerement virils, de ces traits qui donnent à une femme de dix-huit à vingt-deux ans des séductions sataniques. Elle est étendue sur l’herbe, pressant la terre de sa poitrine brûlante; ses yeux à demi ouverts, nagent dans une érotique rêverie. C’est Phèdre qui rêve d’ Hippolyte :

Dieux! Que ne suis-je assise à l’ombre des forèts! [2]

C’est Lélia qui accuse les hommes des infortunes de son coeur, qui leur reproche de ne savoir pas aimer, et qui cependant repousse le timide et dévoué Sténio. [3] Au premier abord, le sentiment qu’elle vous inspire est celui d’une pitié mêlée de crainte. On a une peur instictive de ces créatures aux passions tantôt concentrèes, tantôt bondissantes, Jamais assouvies. Il y a en elles du vampire. Puis, à mesure que vous considérez cette tête charmante, étrangement magnétique, votre pitié tourne à la sympatie; vous vous sentez fasciné par elle, saisi par le démon qui l’obsède. Vous voudriez, au prix de tout votre sang, éteindre l’incendie qui la consume. Fuyez, si vous tenez à votre liberté, à votre dignité d’homme; si vous ne voulez que cette Circé fasse de vous une bête. [4]

L’autre est blonde, assise, semblable à un buste de marbre. Elle parle cependant; elle s’entretien tout haut avec elle-même; sa compagne ne l’écoute pas. Elle aussi poursuit sa chimère, chimère non d’amour, mais de froide ambition. Pourquoi ne serait-elle pas un jour princesse, comme tant d’autre, femme tout au moins d’un archimillionnaire? N’a-t-elle pas la jeunesse, la beauté, l’esprit, les talents? Serait-elle déplacée dans une haute position? Elle vaut bien sa pareille. Personne d’ailleurs ne pourra dire qu’il l’a épousée sans dot; elle a recueilli déjà; elle atttend encore quelque chose; elle a su augmenter sa fortune, bien suffisante pour une femme seule. Elle possède des actions et des titres de rente; ellese connait aux affaires et suit attentivement les cours. Elle ne joue pas: quelque sotte! Elle opère sur bonnes valeurs achetées à propos, et dont elle sait, avec non moins d’à-propos, se défaire. Oh!on ne la prendra pas au dépourvu; elle ne se fait pas d’illusions; le fol amour ne la tourmente pas. Elle saura attendre: tout ne vient-il pas á point à qui sait attendre? Bien différente de son amie, elle est maitresse de son coeur et sait commander à ses désirs. Elle gardera longtemps sa fraicheur: à trente ans, ellen’en paraitra pas plus de vingt. Díci là, peut-elle manquer de rencontrer un lord, un prince russe, un grand d’Espagne ou un agent de change? Du reste, à quelaque âge que’elle se marie, elle n’aura pas d’enfants: c’est la première condition qu’une fille prudente met à son contrat de mariage. (…) [5]

(…) Ces deux femmes vivent dans le bien-être, entourées de tout ce que les arts du luxe peuvent ajouter de raffinements à l’existence. Elles cultivent ce qu’on apelle l’idéal; elles sont jeunes, belles, délicieuses; elles savent écrire, peindre, chanter, déclamer; ce sont des vraies artistes. Mais l’orgueil, l’adultère, le divorce et le suicide, remplaçant les amours, voltigent autour délles et les accompagnent; elles les portent dans leur douaire; c’est pourquoi, à la fin, elles paraissent horribles. (…)

E Proudhon acrescenta

On a fait je ne sais plus quels reproches aux Demoiselles de la Seine. La seconde figure me parait, à moi, trop effacée. J’aime, je l’avoue, que tout soit rendu et mis en saillie dans une peiture d’expression; plus le sens m’en parait élevé et profond, moins je supporte le négligences. Je hais la pochade. Ces réserve faites, je demande si de telles conceptions ne sont pas dans la vraie donnée de l’art; si ce n’est pas du plus haut idéalisme, de cet idéalisme qui, au lieu de s’ériger en religion, double sa puissance en se mettant au service de la philosophie et de la morale. [6]

[Tradução do texto: Título desprovido de sentido, imaginado de uma forma perfeita para destruir uma obra. O Sena não está aqui a fazer nada; nem se vê.  O autor quis dizer: duas jovens na moda no Segundo Império. Mas este título pareceu sedicioso; não podia ser permitido. Notai contudo que o Império apenas serve para designar uma data; do mesmo modo que o Sena indica, por sinédoque, a civilização parisiense. É tudo o que de político existe no quadro de Courbet. No primeiro Império, com que sonhavam as jovens? Suponhamos que em 1812 se um pintor tivesse tido esta ideia como teve Courbet no nosso tempo. Ele teria pintado estas duas figuras chorando como as Troianas da Eneida junto ao mar; lendo o boletim da Moskova ou da Bérisina; pálidas e emagrecidas, como convém a meninas a pentear Santa Catarina, e trazendo ao coração o luto dos seus apaixonados. Graças a Deus já não estamos assim! Napoleão III fez grandes guerras; travou grandes batalhas; conseguiu grandes vitórias: não se pode dizer que ele reduziu o número de homens; e se hoje há menos matrimónios, se a população parece diminuir, isso deve-se a outras causas. As nossas ideias como os nossos costumes tomaram outra direcção. É o que nos vão ensinar as duas figuras que posam para nós, sem que disso se apercebam e que o catálogo chamou de Meninas do Sena (Demoiselles de la Seine). Meninas sim, porque elas não são casadas nem viúvas basta olhar para elas; elas não são mesmo noivas, talvez por culpa sua, e é por isso que as vemos mergulhadas nas suas reflexões.

A primeira é uma bela morena, de traços vincados, ligeiramente viris, esses traços que dão a uma mulher de dezoito a vinte e dois anos seduções diabólicas. Está estendida sobre a relva comprimindo o solo com o seu peito quente: os seus olhos semicerrados nadam num erótico devaneio. É Fedra que sonha com Hipólito:

O Deuses! Como não me sentei à sombra das florestas!

É Lélia que acusa os homens dos infortúnios do seu coração, que lhes critica o não saber amar, e que contudo recusa o tímido e devotado Sténio. Numa primeira abordagem sentimento que vos inspira é de piedade misturada com temor. Temos um medo instintivo destas criaturas com paixões uma vezes concentradas, outras saltitantes, nunca realizadas. Há nelas algo de vampiro. Depois à medida que considerais esse rosto encantador, estranhamente magnética, a vossa piedade transforma-se em simpatia; vocês senti então o seu fascínio, com a obsessão de estar possuída pelo demónio. Vós quereis, com o preço do vosso sangue, apagar esse incêndio qua a consome. Fuji se prezais a vossa liberdade, à vossa dignidade de homem; se não quereis que Circe faça de vós um animal.

A outra é loira, está sentada parecendo um busto de mármore. Contudo ela fala; ela entretem-se com ela própria; a sua companheira não a escuta. Também ela persegue a sua quimera, quimera não de amor, m as de fria ambição. Porque não será ela um dia uma princesa, como muitas outras, mulher ao menos de um arquimilionário? Não tem ela a juventude, a beleza, o espírito, os talentos ? Estaria deslocada numa alta posição ? Ela vale bem a sua semelhante. Ninguém aliás poderá dizer que a desposaram sem dote; ela já amealhou; espera ainda mais qualquer coisa; soube aumentar a sua fortuna, mais do que suficiente para uma mulher só. Ela possui acções e títulos; ela conhece como são os negócios e segue atentamente a bolsa. Ela não brinca: que parva! Ela negoceia apenas em bons valores pertinentemente comprados e de que ela sabe, com não menor pertinência desfazer-se. Oh! Não será colhida sem nada; não tem ilusões; o amor louco não a atormenta. Ela saberá esperar: não vem tudo a quem sabe esperar? Muito diferente da sua amiga, ela é dona do seu coração e sabe gerir os seus desejos. Guardará por muitp tempo a sua frescura: aos trinta anos, parecerá que tem apenas vinte. Até lá não deixará de encontrar um lorde, um príncipe russo, um grande de Espanha ou um banqueiro? De resto qualquer que seja a idade em que se case, não terá crianças: é a primeira condição que uma rapariga prudente põe no seu contrato de casamento (…)

(…) Estas duas mulheres vivem no bem-estar, rodeadas de tudo o que as artes do luxo podem acrescentar de refinamento da existência. Elas cultivam o que se chama de ideal; são jovens, belas deliciosas; sabem escrever, pintar, cantar, declamar; são verdadeiras artistas. Mas o orgulho, o adultério, o divórcio e o suicídio, substituindo os amores, volteiam em seu redor e acompanham-nas; elas transportam-nos no seu dote: é por isso que no fim elas parecem horrorosas. Fizeram-se já não sei quais, algumas críticas às Demoiselles de la Seine. A segunda figura parece-me demasiado apagada. Gosto, confesso, que tudo seja posto de uma forma nítida numa pintura de expressão; quanto mais o sentido me parece elevado e profundo, menos admito negligências. Odeio as pochades. Postas estas reservas, pergunto-me se tais concepções não estão no verdadeiro objectivo da arte; se não é do mais alto idealismo, deste idealismo que, em lugar de se erigir em religião, duplica a sua força pondo-se ao serviço da filosofia e da moral.]


[1] Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865) de quem em 1865 Courbet pinta o conhecido retrato.

[2] Nota de RF - Jean Racine (1639-1699) Phèdre Tragédia em 5 actos de 1677. Acte I Scène 3, PHEDRE -
Dieux ! que ne suis−je assise à l'ombre des forêts !
Quand pourrai−je, au travers d'une noble poussière,
Suivre de l'oeil un char fuyant dans la carrière ?

[3] Nota de RF – personagens do romance de Geoges Sand (1804-1876) Lélia de 1833.

[4] Veja-se o texto de Eça: A outra, deitada na relva, com os braços estendidos, como abraçando a terra, trigueira, de physionomia ner­vosa e imaginativa, a testa curta, os labios seccos, cisma: sente-se que sonha festas, bailes, as gran­des voluptuosidades, os encontros rapidos e peri­gosos no fundo de um parque, e todas as exal­tações da sensibilidade.

[5] Eça: Uma, alta, loira, branca, está sentada; tem o perfil frio, secco, o olhar direito, e, com um dedo apoiado à face, calcula: — sente-se que pensa em dinheiro, juros, acções de companhia e jogo de fundos.

[6] Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865), Du principe de l’art et de sa destination sociale, Garnier Frères, Libraires Éditeurs, 6 Rue des Saints-Pères et Palais-Royal 215, Paris 1865. (pág. 244 a 247).

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10. A resposta de Zola

No mesmo ano e em resposta a este escrito de Proudhon, Émile Zola então com 25 anos escreve Mes Haines, Causeries littéraires et artistiques. Num capítulo intitulado Proudhon et Courbet [1] Zola recusa as teorias sobre a arte de Proudhon e procura refutar o realismo de Courbet.

Zola define a obra de arte como un coin de la création vu à travers un tempérament. [2]

Ou seja à nudez forte da Verdade que Courbet pinta, Zola propõe a mediação do manto diáfano da Phantasia, para utilizar a consagrada frase de Eça de Queiroz no subtítulo de A Relíquia. [3]

O realismo não se conformar aos temas sociais e ideológicos mas acrescentar a forma e o tratamento que o artista dá a esses temas.

E na segunda parte do texto refere-se a Courbet e ao quadro Demoiselles de la Seine, citando Proudhon:

Les Demoiselles de la Seine et Les Casseurs de pierres [4] servent à établir un bien merveilleux parallèle : Ces deux femmes vivent dans le bien-être... ce sont de vraies artistes. Mais l'orgueil, l'adultère, le divorce et le suicide, remplaçant les amours, voltigent autour d'elles et les accompagnent ; elles les portent dans leur douaire : c'est pourquoi, à la fin, elles paraissent horribles. [5]

[As Demoiselles de la Seine (sic) e Les Casseur de pierres servem para estabelecer uma excelente comparação: estas duas mulheres vivem no bem-estar…são verdadeiras artistas. Mas o orgulho, o adultério, o divórcio e o suicídio, substituindo os amores, volteiam em roda delas e acompanham-nas ; elas transportam o seu dote: é por isso que no fim elas parecem horrorosas…]

E Zola para contrapor as suas teorias da arte em que sublinha o papel do criador às de Proudhon que põe a arte ao serviço do social e ideológico [6] afirma que Il désire faire de moi un citoyen, je désire faire de lui un artiste. [7]


[1] Émile Zola (1840-1902), Proudhon et Courbet in Mes Haines, Causeries littéraires et artistiques. Mon Salon (1866). Edouard Manet, Étude Biographique et Critique. Nouvelle édition. In Bibliothèque-Charpentier G. Charpentier et E. Fasquelle, éditeurs 11 rue Grenelle Paris 1893. (pág. 21 a 40).

[2] Idem pág. 25. Um canto da criação visto através de um temperamento.

[3] Eça de Queiroz , A Relíquia, Typ. De A. J. da Silva Teixeira, rua da Cancella Velha, 70. Porto 1887.

[4] Um dos mais importantes dos quadros de Courbet, pintado em 1849 e apresentado no Salon de 1851. O quadro foi destruído durante a Segunda Guerra Mundial.

[5] Émile Zola (1840-1902), Proudhon et Courbet in Mes Haines, Causeries littéraires et artistiques. Mon Salon (1866). Edouard Manet, Étude Biographique et Critique. Nouvelle édition. In Bibliothèque-Charpentier G. Charpentier et E. Fasquelle, éditeurs 11 rue Grenelle Paris 1893. (pág.36).

[7] As teorias da Arte em Proudhon irão servir para fundamentar os realismos socialistas do século XX, bem como as de Zola para fundamentar os neorrealismos do pós guerra.

[8] Émile Zola (1840-1902), Proudhon et Courbet in Mes Haines, Causeries littéraires et artistiques. Mon Salon (1866). Edouard Manet, Étude Biographique et Critique. Nouvelle édition. In Bibliothèque-Charpentier G. Charpentier et E. Fasquelle, éditeurs 11 rue Grenelle Paris 1893. (pág. 39). Tradução: Ele quer fazer de mim um cidadão, eu quero fazer dele um artista.

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11 - Picasso e a reinterpretação do quadro

c10fig. 17 – Pablo Picasso Les demoiselles des bords de la Seine (d’après Courbet) Vallauris Février 195. Óleo sobre contraplacado 105 x 201 cm. Kunstmuseum, Basileia.

Há ao primeiro olhar uma reinterpretação do quadro de Courbet, que apesar da desconstrução formal, no essencial mantém os elementos da pintura inicial. Com sensivelmente as mesmas (grandes dimensões), são visíveis as duas figuras deitadas num primeiro plano de relva com trajes de semelhante coloração, ao fundo o Sena onde está ancorado um barco e a grande árvore que enquadra a parte superior da pintura. Mas Picasso introduz algumas alterações nas formas: o bouquet que ocupa o centro do quadro é agora seguro pela mão da personagem em segundo plano em que os dedos são peixes! Do mesmo modo a outra mão onde a segunda demoiselle apoia a cabeça. Na figura do primeiro plano, as mãos tem agora dedos que são folhas. Ambos os rostos são agora divididos em duas partes: uma clara de perfil e uma outra de frente mais escura. Ainda assim Picasso mantém o olhar vago da segunda figura e o olhar provocador da figura em primeiro plano.

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[Nota final 1 – Existem em Portugal e podem ser vistos 4 pinturas de Courbet. Duas na Casa Museu Dr. Anastácio Gonçalves: Floresta Fechada e Narciso (atribuído). E existem outros dois no Museu Nacional de Arte Antiga: Neve e O Homem do cachimbo.]

[Nota final 2 – todas as traduções e sublinhados a bold são da minha autoria.]

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