Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















sábado, 14 de fevereiro de 2015

O jardim que foi primeiro da cidade 1

Nota – Quando iniciei este texto o Jardim de S. Lázaro foi  fechado para remodelação dos pavimentos. Por isso e porque - pese embora a proximidade da Academia de Belas Artes instalada no edifício da Biblioteca, e depois no palacete Braguinha, - são muito poucas as pinturas e desenhos tendo por tema o Jardim de S. Lázaro, fui “obrigado” a recorrer a outras imagens sobre o jardim de S. Lázaro (oficialmente Jardim Marques de Oliveira). Assim utilizei fotografias em diversos blogues sobre o Porto e sobre Jardins e plantas que encontrei na NET que antecipadamente agradeço aos blogues e autores que estão referenciados. E foram também utilizadas  pinturas e desenhos directamente relacionados ou não com o jardim. Hesitei na publicação agora deste texto, mas concluí que poderá servir para, findas as obras, se verificar houve melhoramentos, particularmente na jardinagem, que foram efectuados. 

índice:
I Parte – O lugar
Cap.1 – O lugar de S. Lázaro
Cap.2 - A conformação setecentista do Campo de S. Lázaro
Cap. 3 - A Praça de S. Lázaro
Cap. 4 - A praça de S. Lázaro depois do Cerco do Porto. A Biblioteca e o Museu.
II Parte – O Jardim
Cap. 5 - O romântico Jardim de S. Lázaro (1834 – 1865)
Cap. 6 - O Jardim de S. Lázaro e os novos jardins públicos
Cap. 7 - O Jardim de S. Lázaro na segunda metade do século XIX
Cap. 8 – O Jardim que conhecemos…
III Parte - O interior do jardim
Cap. 9 - As entradas
Cap. 10 - O tanque e a fonte
Cap. 11 – Árvores, plantas, flores…
Cap. 12 - O coreto
Cap. 13 – Os Bancos e os Candeeiros
Cap. 14 – As esculturas

Apontamentos e deambulações em torno do Jardim de S. Lazaro

No mistério do sem-fim
equilibra-se um planeta.
E, no planeta, um jardim,
e no jardim, um canteiro;
no canteiro uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,
entre o planeta e o sem-fim,
a asa de uma borboleta.
[1]
jsl1fig. 1 - Jardim de São Lázaro - vista do lago e da Igreja e Colégio da Nossa Senhora da Esperança ao fundo. Localizado na freguesia de Santo Ildefonso, Porto Portugal. Foto Jotacartas. Wikipédia.

I Parte – O lugar

Cap.1 – O lugar de S. Lázaro
¿Quién pudiera entender los manantiales,
el secreto del agua
recién nacida, ese cantar oculto
a todas las miradas
del espíritu, dulce melodía
más allá de las almas...? [2]
Ao princípio era apenas um campo num despedazado arrabal/de callejones donde el viento se cansa y de barro torpe [3], onde a cidade se abria para nascente e junto ao caminho que da porta de Cimo de Vila conduzia pela rua Direita para os lados de Penafiel.
Este campo era cruzado por águas escondidas no corpo da terra, a muita e boa água nativa [4], que vinha da Arca d’Água ou Manancial, do vizinho Campo Grande, também chamado de Largo de Mijavelhas ou Poço das Patas.
E por cima desta águas, [que] forte e firme [5], por aqueles terrenos corria, ergueram-se no século XVI os hospitais dos Lazaros no campo de S. Lazaro; o das Lazaras, que lhe está imediato. [6]
Foram esses hospícios dedicados aos leprosos que deram nome ao lugar e mais tarde ao jardim.
Lázaro e S. Lázaro
A denominação de S. Lázaro é uma referência à associação na Idade Média do Lázaro de Betânia, a personagem descrita no Evangelho de S. João, irmão de Marta e Maria e que Jesus ressuscitou tornando-se depois S. Lázaro, e o outro Lázaro, o mendigo e leproso da parábola do Rico e do Lázaro (Lucas 16:19-31). Com esta associação entre os dois S. Lázaro torna-se o padroeiro dos leprosos.
Das muitas interpretações da Ressurreição de Lázaro escolhi, pela modernidade e força expressiva, a de Cândido Portinari, o grande pintor brasileiro que tanto influenciou o nosso neorrealismo.
jsl2fig. 2 - Cândido Portinari (1903- 1962), Ressurreição de Lázaro (Série Bíblica) 1944, têmpera sobre tela 150 x 300 cm. MASP, Museu de Arte de S. Paulo, Brasil.
Portinari - nesta pintura que lembra necessariamente a Guernica de Picasso – realiza uma composição dramática, acentuada pela coloração acinzentada e pelas diagonais que sugerem o túmulo de Lázaro. Estas rompem o espaço dando profundidade ao quadro. O milagre está reduzido aos três irmãos estando ausente Jesus o autor do milagre. Como nas imagens convencionais Lázaro figura entrapado, braços abertos no espanto de quem perante a inevitabilidade da morte, regressa à vida. Marta e Maria ajoelhadas, os braços também abertos e os rostos num misto de dor ainda pela morte do irmão e de agradecimento e oração, pela sua ressurreição. Nesta pintura pela mão infinita/a mão-de-olhos-azuis de Candido Portinari [7] , destaca-se o tratamento das mãos, robustas, calejadas pelo trabalho de pescadores, mineiros, camponeses, operários e todos os que as usam como ferramenta. As mãos que são os mais belos sinais da terra [8]. Ainda Portinari desenha as suas personagens com pés descalços dos desprotegidos da vida.
Lázaro é ainda tema de um belíssimo e longo poema de Luís Cernuda, em que Lázaro descreve na primeira pessoa o seu regresso à vida. O poema inicia-se com os seguintes versos:
Era de madrugada.
Después de retirada la piedra con trabajo,
Porque no la materia sino el tiempo
Pesaba sobre ella,
Oyeron una voz tranquila
Llamándome, come un amigo llama
Cuando atrás queda alguno
Fatigado de la jornada y cae la sombra.

………………..
E termina:
Sé que el lirio del campo,
Tras de su humilde oscuridad en tantas noches
Con larga espera bajo tierra,
Del tallo verde erguido a la corola alba
Irrumpe un día en gloria triunfante.
[9]
Frederico Garcia Lorca também escreve sobre um fantasioso S. Lázaro, num poema em prosa a propósito da estação de caminho-de-ferro de Granada: San Lázaro nació palidíssimo. Despedia olor de oveja mojada.  Cuando le daban azotes echaba terroncitos de azúcar por la boca. Percebía los menores ruidos. Una vez confesó a su madre que podía contar en la madrugada, por sus latidos, todos los corazones que había en la aldeã. Tuvo predilección por el silencio de outra órbita que arrastran los peces y se agachaba lleno de terror sempre que pasaba por un arco. Después de resucitar invento el ataúd, el cirio, las luces de magnésio y las estaciones de ferrocarril. Cuando murió estaba duro y laminado como un pan de plata. Su alma iba detrás, desvirgada ya por el outro mundo, llena de fastídio, com un junco en la mano. [10]

[1] Cecília Meireles (1901-1964),Canção Mínima de Vaga Música de 1942 in Antologia Poética, Editora Record - Rio de Janeiro, 1963, (pág. 32).
[2] Federico Garcia Lorca, Manantial,Fragmento 1919 in Obras Completas, Aguilar S.A. de Ediciones. Juan Bravo 38, Madrid 1969 (pag.272 a 275)
[3] Jorge Francisco Isidoro Luís Borges (1899-1986), insomnio de Adrogué 1936, in Obras Completas, Emecé Editores, 14ª ed., Buenos Aires,1984 tradução: despedaçado arrabalde /De ruelas onde o vento se cansa e de barro rude.
[4] Carlos de Passos (1890 — 1958), O campo de Mijavelhas e a Quinta do Reimão, Boletim Cultural da Câmara Municipal do Porto, Vol.18, nº1-2 Porto, 1955.
[5] Luís de Camões (1524/25- 1579/80), Soneto CXXIV, in Obras de Luís de Camões Lello & Irmão-Editores Rua das Carmelitas 144, Porto 1970. (pag.66).
[6] Agostinho Rebello da Costa , Descripçaõ Topografica, e Historica da Cidade do Porto, na Officina de Antonio Alvarez Ribeiro, Porto Anno de MDCC LXXXIX. (pag.124).
[7] Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), poema A Mão de Lição das Coisas 1962, dedicado ao amigo Portinari na ocasião da sua morte a 6 de Fevereiro de 1962. In Antologia Poética 2ª edição, Editora do Autor, rua Araújo Pôrto Alegre 70, Rio de Janeiro 1963. (pag.99)
[8] Eugénio de Andrade (1923-2005) Coração habitado de Até Amanhã 1956 in Obra de Eugénio de Andrade /2, Fundação Eugénio de Andrade, Porto 2002.
[9] Luís Cernuda (1902-1963), Lázaro de Las nubes 1940 in Poesía completa, três Volumes, Ediciones Siruela, Madrid 1993. No ANEXO o poema completo.
[10] Frederico Garcia Lorca (1898-1936), Santa Lucia y San Lazaro in Obras Completas, Aguilar, S.A. de Ediciones Juan Bravo, 38, Madrid 1969 (pag. 17 e 18).Tradução de José Bento: S. Lázaro nasceu muito pálido. Rescendia a ovelha molhada. Quando lhe davam uns açoites, lançava torrõezinhos de açucar pela boca. Captava os menores ruídos. Uma vez confessou a sua mãe que podia contar na madrugada, pelas suas pulsações, todos os corações que havia na aldeia. Depois de ressuscitar inventou o ataúde, o círio, as luzes de magnésio e as estações de caminhos-de-ferro. Quando morreu estava duro e laminado como um pão de prata. A sua alma ia atrás, desvirgada já pelo outro mundo, cheia de aborrecimento, com um junco na mão.
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Cap.2 - A conformação setecentista do Campo de S. Lázaro
No século XVIII, com a expansão da cidade, o Campo de S. Lazaro vai ganhando uma forma estabilizada como o local por onde passam os caminhos que se dirigem para as Quintas do lado ocidental da cidade: a do Prado pertencente aos Excellentissimos Bispos do Porto, (…) a da China pertencente a Joaõ Lopes Ferrás que na grandeza da sua caza, do seu terreno, jardins, arvores, e muros tem poucas similhantes; a de Campanham pertencente a D. Antonio de Amorim Gama Lobo; a do Freixo, à Viuva, e Filhas de Vicente de Noronha Cernache, Quinta na verdade digna de hum Principe, tanto pela majestade do seu Palacio, como pela magnificência dos seus jardin, estatuas &c…. [1]
Criada em 14 de Agosto de 1720, também aí se realizava anualmente uma importante feira: as Lázaras. A sua importância provocou que a câmara, em 1757, [tenha] mandado plantar choupos e outras árvores no terreiro de S. Lázaro, a fim de melhorar a feira anual do santo, que se efectuava entre os domingos de S. Lázaro e Ramos. [2]

No século XVIII, aproveitando as águas do manancial de Mijavelhas, inicia-se a regularização e reorganização do Campo com a construção em 1724, junto dos hospitais das Lázaras e dos Lázaros, do Recolhimento das Órfãs de Nossa Senhora da Esperança que He piíssima a sua Instituiçaõ, porque serve de recolher, e educar Meninas Orfãs desde a idade de oito anos, até os vinte e cinco. Tem Mestras que lhes ensinaõ, com singular perfeiçaõ, todas as prendas próprias ao seu sexo. [3]
Camilo Castelo Branco que habitou por algum tempo uma casa na rua de S. Lázaro, refere-se ao lugar e ao jardim por diversas vezes quer directamente, quer através das suas personagens. Assim na novela A Viúva do Enforcado, Thereza a filha de Joaquim Pereira, preparando a sua fuga, mostra-se aparentemente satisfeita com a ida para o Recohimento portuense de Nossa Senhora, que depois se chamou de S. Lazaro, e n’aquelle tempo era um proscénio obscuro de farças e tragedias que eu bosquejei na “Filha” e “Neta do Arcediago” quando fazia a historia dos cabidos do meu paiz. [4]
jsl3fig. 3 - Joaquim Villanova - Recolhimento das Orphãs em S. Lázaro in Edifícios do Porto em 1833. Desenhos de Joaquim Cardoso Vitória Villa Nova . BPMP.

E a nascente instala-se em 1783 o convento dos Capuchos de Santo António da Cidade que pertence aos Religiosos Menores Reformados da Provincia da Conceiçaõ, e fundado em mil settecentos e oitenta e três. Tem somente doze moradores por causa de naõ estarem acabados os seus Dormitorios, e Claustro, cuja grandezade alicerces, e paredes, promete, que será hum dos maiores Conventos da Cidade, e Caza Capitular de Provincia. [5]

jsl4fig. 4 - Joaquim Villanova, Convento de S. António em S. Lázaro in Edifícios do Porto em 1833. Desenhos de Joaquim Cardoso Vitória Villa Nova . BPMP.
O edifício ainda com a fachada barroca e do lado esquerdo da imagem de um cruzeiro.
Entretanto havia no Largo da Ramadinha (ver adiante) o Cruzeiro de Nossa Senhora da Consolação, possivelmente do século XV, e hoje instalado no Cemitério da igreja do Bonfim.
jsl5fig. 5 – O cruzeiro do Senhor da Consolação de S. Lázaro. In O Tripeiro.
O Campo de S. Lázaro organiza-se assim, sobressaindo as fachadas barrocas das igrejas do Recolhimento das Órfãs, atribuída a Nicolau Nasoni e do Convento de Santo António da Cidade, (posteriormente demolida), conferindo ao Campo uma qualidade arquitectónica que o irá, de Campo transformar em Praça. A Praça fica então organizada pelos dois conventos, o cruzeiro e a fonte. Podemos ter uma ideia do Campo de S. Lázaro (com a letra C) e da sua envolvente em 1795, na Planta de Teodoro de Sousa Maldonado.
jsl6fig. 6 - Theodoro de Sousa Maldonado Approvado. Porto em Junta das obras Públicas 22 de setembro de1795. Na cartela inferior direita a legenda: (A) Capela de Santo André. (B) Rua Direita de Santo Ildefonso. (C) Campo de S. Lázaro. (D) Rua do Reimão. (E) Fonte das Patas. (F) Arca d’ água do Campo do Poço das Patas. (Z) Fonte de S. Lázaro
A mesma planta onde se destacaram a Rua Direita de Santo Ildefonso (a ponteado vermelho), o Campo de S. Lázaro (a vermelho), a Fonte do Campo do Poço das Patas (no círculo), e as águas que corriam para S. Lázaro fornecendo os Conventos e daí para a Batalha (a azul).
jsl6afig. 7 – A planta da fig. anterior com os destaques enunciados no texto.
jsl7fig. 8 – Projeto para a mudança da Fonte do largo de S. Lazaro. Approvadoa a Planta. Porto em Junta de 21 de Set.ro de 1817. AHMP.

[1] Agostinho Rebello da Costa, Descripçaõ Topografica, e Historica da Cidade do Porto, na Officina de Antonio Alvarez Ribeiro, Porto Anno de MDCC LXXXIX. (pag.39).
[2] Carlos de Passos (1890-1958), Guia Histórica e Artística do Porto, Casa Editora de A. Figueirinhas. Rua das Oliveiras 37, Porto. 1935.
[3] Agostinho Rebello da Costa. , Descripçaõ Topografica, e Historica da Cidade do Porto, na Officina de Antonio Alvarez Ribeiro, Porto Anno de MDCC LXXXIX. (pag.123).
[4] Camilo Castelo Branco, A Viuva do Enforcado Segunda Parte Novellas do Minho XI Livraria Editora de Mattos Moreira & C.ª 68, Praça de D. Pedro, Lisboa 1877 . (pag. 6).
[5] Agostinho Rebello da Costa, Descripçaõ Topografica, e Historica da Cidade do Porto, na Officina de Antonio Alvarez Ribeiro, Porto Anno de MDCC LXXXIX. (pag.117).
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Cap. 3 - A Praça de S. Lázaro
Organizada assim a Praça de S. Lázaro, numa outra planta - em que é projectado o Largo do Padrão e orientada com a parte de cima para sul -, podemos verificar como se apresentava a Praça de S. Lázaro nos finais do século XVIII, e como já no século XIX são projectadas as frentes Norte e Poente (realçadas a azul na planta).
jsl8fig. 9 - Theodoro de Souza Maldonado Approvada. Porto em Junta das Obras Publicas 15 de Fevereiro de 1798. AHMP.  Legenda: (A) Praça de S. Lazaro. (B) Convento de S.to Ant.o (C) S.to André.(D) Praça projectada no sitio do padrão das almas q se compreende entre os limites 123 A entre as ruas E. F. de S.to Ildefonso e nova do padrão. (G) Nova Comunicação da praça para a de S. Lazaro e Convento dos Antoninhos. (H) predio do Ill.mo Manoel Pedroso de Lima.
Temos os projectos para regular as fachadas Norte e Poente, ainda segundo os critérios neoclássicos, criando um efeito de cenário, dando uma aparência de um só edifício com corpos simétricos, não tendo em conta a propriedade e as dimensões dos lotes.
jsl9fig. 10 - Planta geral para regular o lado do Norte da Praça de S. Lazaro, na frente de cada hum de seus proprietários na extenção de […] palmos Comprehendidos desde o N.º 4 até 21. Approvada. Porto Paços do Com.co 31 de Maio de 1837. (Luiz Ignacio) Barros Lima. AHMP.
jsl10fig. 11 - Planta para o projecto geral que deve regular o lado do Poente da Praça de S. Lazaro, compreendendo toda a extensão dos terrenos alli existentes e acommodada quanto possível ás actuais dimenssoens dos mesmos terrenos. Approvada. Porto Paços do Com.co 31 de Maio de 1837. (Luiz Ignacio) Barros Lima. AHMP.
Na Planta Redonda de 1813, a Praça de S. Lazaro ainda incompleta na sua conformação, e a que se acede, vindo de poente a partir da rua Direita, pela rua de S. to André onde existe o adro de S.to André (29), o largo da Ramadinha (26) e a viela do Campinho (28). Um pouco mais a sul pela rua de S. Lázaro junto ao Beco do Gralho (27). Do sul pela rua das Fontainhas, outrora rua do Regato. E de nascente pelas tortuosas ruas do Reimão e do Mede Vinagre.
jsl11fig. 12 - A Praça de S. Lázaro na Planta Redonda (1813).
Na planta em torno da Pr.a de S. Lázaro, estão assinalados o Sítio do Pocinho, a R. Direita, conduzindo ao Poço das Patas, a R. do Caro Migjo, a R. de S.to André, a R. d’entre paredes, a R. de S. Lázaro, a R. do Reimão, a Travessa do Reimão, a R. das Fontainhas e a R. de Wellesley.
Na Legenda: F Conv.to dos Capuchos. G Coll.o dos Orfãos. 26 L.o da Ramadinha. 27 Beco do Gralho. 28Viela do Campinho. 29 Adro de S.to André
Na planta de José Francisco de Paiva elaborada antes de 1824, aparece projectado o troço recto que prolonga a rua de S. Victor até à Praça de S. Lázaro.
jsl12fig. 13 - A Praça de S. Lázaro no PLANO DA CIDADE DO PORTO(entre 1818 e 1824) por ]osé Francisco de Paiva. Dim. 100 x 66 (96 x 62) cm. Arquivo Histórico Municipal do Porto. Ver neste blogue http://doportoenaoso.blogspot.pt/2010/08/os-planos-para-o-porto-dos-almadas-aos.html
Na planta de 1833 de W. B. Clarcke estão nomeadas todos os acessos à Praça de S. Lazaro.
jsl13fig. 14 - A Praça de S. Lázaro na planta de W.B.Clarcke, Oporto, 1833 Published under the Superintendence of the Societyfor the Diffusion of Useful Knowledge. The Environs of Oporto,View of Oporto from Torre da Marca. Drawn by W. B. Clarke Arch.t Engraved by J. Henshall. Dim. 54 x 47 inch.(40x33) cm. Colecção do Arquivo Histórico Municipal.
Na envolvente da P.a de S.t Lazaro onde estão o Cov.to dos Capuchos e o Col. Des Orfans, aparecem nomeadas a Rua Formosa, a R. do Caro Migjo (Caramujo), o Sítio do Pocinho e a R. Direita. A R. de S.t André e o Lg. Da Romadinha (Ramadinha). A R. do Mede Vinagre e a Ta. Da Nora. A R. d’entre-paredes e a R. de S.t Lazaro a R. das Fontainhas. A R. do Reimão e a T.a do Reimão.
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Cap. 4 - A praça de S. Lázaro depois do Cerco do Porto. A Biblioteca e o Museu.

Após o Cerco do Porto com o triunfo das ideias liberais, impõe-se a vontade de democratizar a cidade, pondo à disposição dos cidadãos e para usufruto de todos, os edifícios e colecções até então pertencentes e reservados à Coroa, à Igreja e aos privilegiados membros da Aristocracia. Assim logo em 1833 são criados para além do Jardim ou Passeio Público, que mais adiante referiremos, a Biblioteca e o Museu no edifício de S. Lázaro. Apenas os importa o edifício, que marca o espaço urbano até aos dias de hoje, e não a evolução do seu conteúdo como biblioteca, museu e mais tarde academia de Belas Artes.

A Biblioteca
Por isso e atendendo ao significativo conjunto de bibliotecas dos conventos e daqueles que apoiaram D. Miguel que então revertem para a posse do Estado, a 9 de Julho de 1833 e comemorando o aniversário da entrada na cidade do Exército Libertador, D. Pedro como regente e em nome da rainha, institui a Real Bibliotheca Publica da Cidade do Porto. Foi inicialmente instalada no Hospício da Cordoaria [1] e muitos dos livros armazenados no Paço Episcopal.
jsl14fig. 15 - Joaquim Cardoso Villa Nova, Hospício dos Expostos in Edifícios do Porto em 1833. Desenhos de Joaquim Cardoso Vitória Vila Nova . BPMP.
Mas ainda em 1833 foi resolvida a sua transferência do pequeno Edifício em que ora se acha, para outro mais amplo e espaçoso. Foi encarregue o 1º bibliotecário de examinar, levando em sua companhia afim de dar os esclarecimentos necessários o Architecto da Cidade Joaquim da Costa Lima Sampaio [2] o melhor local que existe no abandonado Convento de St.o Antonio da Cidade, para se verificar para ahi a mencionada transferência, [3] sendo então realizado o levantamento do edifício.

jsl15fig. 16 - Joaquim da Costa Lima Sampaio, Plano ichonographico do Convento Abandonado, dos Religiosos Antoninhos em S. Lazaro. Frentes do Claustro, e Secção tomada no Plano sobre a linha de pontos A B. Frente exterior do Dormitorio, do lado do Sul. 1834 Arquivo Histórico do Ministério das Obras Públicas.
Em 1840 - informa o Archivo Popular que - Hum dos ângulos da praça do jardim de S. Lazaro he ocupado por hum nobre edifício, em parte já concluído, e na outra parte já adiantada sua construção de pedra. Este edifício (que d’antes era o Convento dos Capuchos) he destinado para a biblioteca pública, rica colleção, que por em quanto se acha estabelecida em alguma sallas do paço episcopal. [4]
O Museu e a Academia de Belas Artes
D. Pedro IV encarrega ainda em 1833, João Baptista Ribeiro (1790-1868) [5] de estabelecer nesta Cidade um Museu de pinturas e estampas. Para o instalar - de entre os conventos abandonados e casas sequestradas - é seleccionado o Convento de Santo António da Cidade, em S. Lázaro.
Em 1836 João Baptista Ribeiro publica Exposição historica na creação do Museo Portuense: com documentos officiais para servir à Historia das Bellas Artes em Portugal e à do Cêrco do Porto e em 1839 é criado o Museu Portuense de Pintura e Estampas, inicialmente designado por Atheneo e depois Museu Portuense. [6]
Ainda em 1836 é criada a Academia Portuense de Belas Artes pelo Decreto de 22 de Novembro da autoria de Passos Manuel. A Academia após partilhar com a Academia Politécnica o edifício da Praça dos Voluntários da Rainha instala-se em S. Lázaro, no mesmo edifício do Museu e da Biblioteca Pública.
jsl16fig. 17 - Reprodução do projecto da Academia de Belas Artes do Porto, mostrando o alçado e a respectiva planta, do ano de 1838. Pertence ao n.º 584 do catálogo da colecção de desenhos avulsos, do Arquivo Histórico do Ministério da Habitação e Obras Públicas. 0,090 x 0,120 m AHMP.
No citado número do Archivo Popular de 1840 escreve-se: Nos baixos do dito edifício [da Biblioteca] se praticou huma extensa e muito bem esclarecida galeria, na qual já se acha estabelecido hum avultado número das melhores pinturas, obtidas pela extincção dos ricos conventos das três províncias do norte; e outras muitas há ainda para serem colocadas. A ellas se têem juntado outros objectos; o que tudo forma huma interessante e rica collecção pública. [7]

jsl17fig. 18 - José Luís Nogueira Júnior. Plano ichonografico da Biblioteca publica, no qual se mostra na parte banhada de cor escura o que se construído, e na parte banhada de cor vermelha o que se deve fazer para tornar o edificio regular e simétrico. No pavimento térreo poder-se-há estabelecer nas peças A,A,A, diversas aulas d’Academia de Bellas Artes, excepto as aulas nocturnas, e a de modelo nu que deverão ser colocadas exteriormente, as quaes se podem fazer no terreno que nos accresce da cerca. Approvado. Porto em Câmara 26 de julho de 1848 AHMP.
O edifício de S. Lázaro evoluirá ao longo do século XIX. Demolida nos anos 70 a igreja do convento, é elaborado em 1882 um projecto de José Geraldo da Silva Sardinha [8] para o Alargamento do Edifício de S. Lazaro, com frente para a rua do Mede Vinagre agora já chamada de Rua da Murta. O novo corpo do edifício que prolongava o existente onde se instalaria o Museu Municipal e a Biblioteca, consistia num conjunto de salas para as artes da Arquitectura, da Escultura, da Pintura e do Desenho, rodeando um pátio interior.
jls18fig. 19 - José Geraldo da Silva Sardinha, Planta do projecto d’alargamento do edifício de S. Lazaro, 1881, desenho aguarelado 47 x 61 cm. Centro de Documentação da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto. (O desenho está orientado a sul).
A fachada para a rua da Murta (a rua de Mede Vinagre) de composição neoclássica, organizava-se por um corpo de dois pisos, rematados nas extremidades por dois corpos salientes com uma cobertura de várias águas que acentuava e diferenciava esses corpos. Um corpo recuado a sul abria para um pequeno jardim onde se situava a portaria à face da rua da Murta.
A planta e o alçado da rua da Murta deste projecto foram publicados na revista A Arte Portugueza em 1882. Embora não tenha sido realizado coube a José Sardinha, como docente e mais tarde director da Academia a elaboração dos planos e a direcção das obras para a adequação do espaço do edifício de S. Lazaro às necessidades da Academia Portuense de Belas-Artes. [9]
jsl18fig. 20 - Planta do projecto d’alargamento do edifício de S. Lazaro – projecto de José Geraldo da Silva Sardinha, desenho de Marques Guimarães. In A Arte Portugueza, Revista mensal de Bellas-Artes. Publicada pelo Centro Artistico Portuense, I Anno Abril de 1882 n.º 4, Typographia Occidental, Rua da Fabrica 66, Porto 1882.
jsl19fig. 21 - Alargamento do Edíficio de S. Lazaro, fachada da rua da Murta. Projecto de José Geraldo da Silva Sardinha, desenho de Joaquim Augusto Marques Guimarães. In A Arte Portugueza, Revista mensal de Bellas-Artes. Publicada pelo Centro Artistico Portuense, I Anno Março de 1882 n.º 3, Typographia Occidental, Rua da Fabrica 66, Porto 1882.
Existe ainda um esquisso assinado A. Carneiro, [10] datado de 1888, e que mostra a entrada da Biblioteca e da Academia Portuense de Bellas Artes, com a fachada já renovada e com a guarita à porta.


jsl20fig. 22 - António Carneiro in O Mosquito, 1º anno, n.os 1-34, 4 de Fev. 1888- 22 Set. 1888. In Luís Cabral, Catálogo da Exposição no 150º Aniversário da sua Fundação 1833-1983, Biblioteca Pública Municipal do Porto, 1984.

[1] Que se irá tornas A Roda. Agostinho Rebello da Costa descreve-o da seguinte forma O Hospício de Santo António da Cordoaria: pertence aos Religiosos Menores reformados da Provincia da Soledade, aonde reside hum Procurador Geral, e outros Religiosos do seu Convento de Valle de Piedade, que e a elle vem convalescer das suas enfermidades, visto que a sua situação, he das mais saudáveis, e da qual se logra toda a vista da Barra com mais de vinte legoas de Mar em circumferencia. Os Ex-Provimciais podem escolher este Hospicio para sua moradia: ele foi fundade no anno de mil settecentos e trinta. In Descripçaõ Topografica, e Historica da Cidade do Porto, na Officina de Antonio Alvarez Ribeiro, Porto Anno de MDCC LXXXIX. (pag. 121 e 122).
[2] Joaquim da Costa Lima Sampaio (17-- - 1837) a quem é atribuído o palácio das Carrancas de 1795, edifício construído para habitação e fábrica da família Moraes e Castro. Nele se instalou D. Pedro IV durante o Cerco do Porto e desde 1942 o Museu Nacional Soares dos Reis, herdeiro directo do Museu Municipal do Porto, que por sua vez resultou da junção do Museu Portuense com o Museu Allen (passou em 1850 a propriedade da Câmara embora se mantivesse na Rua da Restauração e foi para S. Lázaro apenas no início do século XX).
[3] Ver Biblioteca Publica Municipal do Porto Documentos para a sua História, Porto B.P.M.P. 1933. In Luís Cabral, Catálogo da Exposição no 150º Aniversário da sua Fundação 1833-1983, Biblioteca Pública Municipal do Porto, 1984.
[4] Archivo Popular - Semanario Pintoresco, n.º 13 Sabbado 28 de Março 1840. Na Typografia de A.J.C. da Cruz, S. José 140, Lisboa 1840. (pag.103).
[5] João Baptista Ribeiro (1790-1868). Em 1811 foi nomeado professor substituto da cadeira de desenho da Academia Politécnica e em 1833 torna-se proprietário da cadeira. Em 1836 torna-se Director e Professor da Academia Portuense de Belas Artes cargo que não aceita e torna-se Director da Academia Politécnica, lugar que desempenha até à sua aposentação em 1862.
[6] Sobre o Museu ver António Manuel Passos Almeida, Contributos ao Estudo da Museologia Portuense no Século XIX. O Museu do Coleccionador João Allen e o Museu Municipal do Porto, Revista da Faculdade de Letras, Ciências e Técnicas do Património, I Série vol. V-VI, Porto 2006-2007. (Pág.31-55), e a sua tese de mestrado Museu Municipal do Porto: Das Origens à sua Extinção (1836-1940), Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Janeiro 2008.
[7] Archivo Popular - Semanario Pintoresco, n.º 13 Sabbado 28 de Março 1840. Na Typografia de A.J.C. da Cruz, S. José 140, Lisboa 1840. (pag.103).
[8] José Geraldo da Silva Sardinha (1845-1906). Bolseiro em Paris entre 1869 e 1873, com uma interrupção em 1870 e 71 devido à Guerra Franco-Prussiana e à Comuna de Paris. Regressado ao Porto em 1873 é nomeado Académico de Mérito da Academia Portuense de Belas Artes onde se torna professor e em 1896 Director cargo que ocupará até à sua morte em 1906.
[9] Ver João Maria Távora de Magalhães Basto, José Geraldo da Silva Sardinha (1845-1906) - para a academia portuense de belas artes - Dissertação para obtenção do grau de Mestre em História da Arte Portuguesa, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2012.
[10] É possivelmente um desenho de António Teixeira Carneiro Júnior, o conhecido pintor António Carneiro (1872-1930) que tendo uma vocação e um talento precoces, entrou para a Academia em 1884.
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