Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















sábado, 14 de fevereiro de 2015

O jardim que foi primeiro da cidade 2

II Parte – O Jardim

Cap. 5 - O romântico Jardim de S. Lázaro (1834 – 1865)
El Jardín quiere la dama pálida y al Caballero poeta. Jardines crepúsculos de aquella edad sentimental y dramática. [1]
jsl21_thumb1fig. 23 – Dama e cavalheiro no parque. De uma revista de moda da primeira metade do século XIX.
Após o Cerco do Porto, em pleno período liberal e romântico é criado o Jardim Público de S. Lázaro por iniciativa de D. Pedro IV e desenhado por João José Gomes (1796 - ?) debaixo de um plano mui elegante, cuja planta terei a honra de mandar para ser presente a S. M. (...) Esta praça, no plano das de Londres, servirá ao mesmo tempo de passeio publico e jardim de recreio e também de instrução... [2] Foi inaugurado no dia 4 de Abril de 1834 por ser o aniversário natalício da rainha D. Maria II.
Um primeiro projecto centrava o jardim no lago rodeado por um largo círculo arborizado e previa uma entrada a nascente em frente do convento de S. António com um passeio a eixo. A poente, esse eixo bifurcava-se para seguir para os acessos da rua de S. André a norte e da rua de S. Lázaro a sul.
jsl22_thumb1fig. 24 - Atribuído a João Baptista Ribeiro (1790-1868). Planta da Praça de S. Lázaro 1834 Arquivo Histórico do Ministério das Obras Públicas.
Em 1840 o Archivo Popular refere: Recentemente se plantou hum jardim público, no antigo campo de S. Lázaro: as dimensões deste jardim não são tão extensas como o deverião ser se o local o permittsse; mas não obstante, este jardim, decorado com huma bella taça e seu repuxo, circulado de gradaria de ferro, mantido no maior aceio, guarnecido de bancos, e sempre matizado de verdura,e de frescas e odoríferas flores, offerece aos habitantes do Porto hum agradavel passeio de inverno. [3]

Mas, porque se procurava um Jardim perfeito/Onde se anula a tarde/Jardim sem erro//Jardim alheio/A qualquer idílio /Ou atrocidade, [4] logo de início é preocupação a manutenção do Jardim estabelecendo-se no contracto estabelecido com João José Gomes, um regulamento da responsabilidade do Jardineiro Municipal coadjuvado pela Guarda Militar:
A 18 de Setembro de 1837, João José Gomes assina o Termo como jardineiro do Jardim de S. Lázaro. Pela quantia de trezentos mil réis anuais, tinha de cumprir as seguintes
condições:
1º Que o referido Jardineiro se obriga a conservar o Jardim sempre plantado com as flores do tempo, com os arbustos e arvores que tem, bem como a pôr todas aquellas que seccarem e mesmo roubarem.
2º Que para que tenha effectividade a obrigação da condição precedente se obriga a vigiar de dia e noite, e finalmente a conserva lo sempre ainda melhor do que hoje existe, se tanto for possível.
3º Que a Illustrissima Camara nada mais despenderá com estrumes, plantas e qualquer objecto necessario ao officio e limpesa do Jardim, porque tudo fica incluido na quantia estipulada.
4º Que a Illustrissima Camara promoverá e deligenciará hua Guarda Militar para a policia do Jardim, todas as vêzes que a respectiva Authoridade a conceder.
5º Que elle Jardineiro se obriga a cumprir quaesquer regulamentos policiaes que se estabellecerem para o mesmo Jardim, e no entanto observará e fará observar o da data de vinte e dous d'Agosto de mil oitocentos e trinta e cinco.
6º Que quando elle Jardineiro não cumpra exactamente com as obrigações estabellecidas, não tenha o Jardim bem limpo, regado e sempre plantado, perderá o ordenado d'um mez, e será expulço [...] [5]
Na planta de 1839 de Joaquim da Costa Lima, o Jardim Publico de S. Lázaro é cartografado com um desenho rectangular, com as suas quatro veredas em diagonal, no topo das quais estão colocadas as entradas.
jsl23_thumb1fig. 25 – Joaquim da Costa Lima, Planta topográfica da Cidade do Porto ampliada e corrigida a "graphómetro" 1839. AHMP
Na envolvente a rua Direita é agora a Rua direita de S.to Ildefonso e hoje Rua de 23 de Julho. Estão assinaladas a nascente a Rua do mede vinagre e a Rua do Reimão. A sul a Rua das Fontainhas já rectificada.  Assinaladas na legenda: N.º 4 Bibliotheca e Athenêo Portuense [onde ainda está cartografada a igreja]. N.º13 Hospital do Lazaros. N.º14 Recolhimento das Orphans.

Numa outra publicação de 1838 e significativamente intitulada O Museu Portuense – Jornal de Historia, Artes, Sciencias Industriais e Bellas Letras, escreve-se que na cidade do Porto um lindo jardim público ainda que de pequenas dimensões, adorna a parte nascente da cidade, e serve de passeio aos seus habitantes. E antecipa a criação dos jardins da Cordoaria e do Palácio escrevendo: Talvez que chegue o tempo em que a extremidade oposta possua outro; e n’esse caso, abrangendo a vista um horizonte mais dilatado, possa ver desde o mesmo passeio a entrada e a saída dos navios pela foz do Douro. [6]
Em 1841 o jardim estava concluído e segundo Carlos de Passos tornou-se o lugar obrigatório de reunião das famílias do Porto e largamente se notabilizou na crónica elegante desses tempos. Durante 30 anos aura intensa fruiu. Era o centro do janotismo e da moda. [7]
E Magalhães Basto também refere: que animação, que luxo, que vida havia então nessa miniatura de Passeio Publico! Tinham passado de moda o Passeio do Carmo e das Fontainhas, e ainda não chegara o tempo da Cordoaria e do Palácio de Crystal. [8]
E Alberto Pimentel descrevendo esta época, aponta que os burgueses da praça do Porto estimavam as suas mulheres legítimas, arreavam-nas de custosas sedas e veludos quando as acompanhavam á missa, ao Jardim de S. Lázaro, á Foz, alguma vez ao teatro se a peça não ofendia a moral e premiava a virtude. [9]

E lembrando o Jardim ao anoitecer, escreve: E já pelo jardim de S. Lazaro, á noitinha, é pelas ruas da baixa, depois de accêso o gaz, se viam passar figuras estranhas rescendendo a aromas fortes, num ruge-ruge de sedas, saltitantes e leves como aves atraídas pela doçura do nosso clima e pela beleza serena do nosso céu... [10]

[1] Federico Garcia Lorca, Jardin Romantico in Obras Completas, Aguilar S.A. de Ediciones. Juan Bravo 38, Madrid 1969, (pag.1578).
[2] Carlos de Passos, Guia Histórica e Artística do Porto, 1935 Casa Editora de A. Figueirinhas. Rua das Oliveiras 37. Porto. 1935.
[3] Archivo Popular - Semanario Pintoresco, n.º 13 Sabbado 28 de Março 1840. Na Typografia de A.J.C. da Cruz, S. José 140, Lisboa 1840. (pag.103).
[4] Duda Machado (Carlos Eduardo Lima Machado 1944), Imagem de um Jardim in Crescente (1977-1990).  Desenho de Guto Lacaz.  Coleção Claro Enigma Editora Duas Cidades; Secretaria de Estado da Cultura, São Paulo 1990.
[5] A.H.M.P., Livro 1º de Termo Diverso, 1837, fl. 45 ( v. ). In Manuela Soares, Apontamentos para o estudo do verde lúdico no Porto http://www.apha.pt/boletim/boletim3/pdf/ManuelaSoares.pdf
[6] O Museu portuense. Jornal de historia, artes, sciencias, industriaes e bellas letras. Publicado debaixo dos auspicios da Sociedade da typographia commercial portuense. N.º9, 1 de Dezembro, Typographia commercial portuense,Porto 1838.
[7] Carlos de Passos, Guia Histórica e Artística do Porto, 1935 Casa Editora de A. Figueirinhas. Rua das Oliveiras 37. Porto. 1935.
[8] Artur Magalhães Bastos - O Porto do Romantismo, 1932
[9] Alberto Pimentel, Memorias do tempo de Camilo, Chave do Enigma Magalhães & Moniz L.da - Editores, Largo dos Loyos 14, Porto (pag.31).
[10] Alberto Pimentel, O Porto de Outros Tempos, Livraria Chardron, de Lelo & Irmão. Rua das Carmelitas, 144, Porto 1914. (pag. 20).
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Cap. 6 - O Jardim de S. Lázaro e os novos jardins públicos
Nos meados do século XIX, quando o Jardim está já consolidado é considerado contudo pequeno demais para Jardim Público, já que a sua envolvente encerrava o jardim num ambiente urbano, irrequieto e sufocante.
clip_image002_thumb1fig. 26 - O Jardim de S. Lazaro na sua envolvente na Planta de Perry Vidal 1844/1865.

Na planta de Perry Vidal - uma actualização da planta elaborada em 1844 para a Exposição Universal de 1865 - o Jardim está desenhado de uma forma esquemática e é designado por Passeio Publico. A Nascente com o n.º 9, o edifício da Bibliotheca e Atheneo.
A Sul com os n.os 59 e 29, o Recolhimento das Orphãs e o Hospital dos Lazaros. Estão ainda assinaladas na planta a R. D.ta de S.to Ildefonso que se prolonga pela R. 23 de Julho (seguindo pela R. do Bom Fim); a R. do Reimão que se prolonga pela R. 29 de Setembro dando acesso ao Cemitério do Prado do Bispo criado em 1839 e daí partindo a Estrada p.ra Campanham.

A crítica

A poetisa Maria de Clamowse Brown, critica o Jardim num poema dos meados do século, quando o S. Lázaro era ainda o único passeio público da cidade mas uma certa burguesia já preferia os jardins dos palacetes particulares, deixando o Jardim de S. Lázaro ir sendo apropriado pelas classes sociais de menor prestígio e poder económico.
Não tens vista, não alcanças
nem no campo nem no mar
nem ao horisonte onde vamos
As ideias espraiar…
Encerrado entre muralhas
Em que a desgraça gemeu,
jamais ideia risonha
á tua sombra nasceu.
Auras suaves não crusam
teu recinto docemente,
nem vem sacudir das flores
mago aroma, rescendente.
Se em noites de primavera,
em horas de soledade,
o rouxinol se ouve aqui
não canta com liberdade
aqui não canta em liberdade.
[1]

E Sousa Reis  - esquecendo os princípios liberais em que o Jardim foi criado - queixa-se da frequência pela populaça e creadagem, que então se vai apropriando do lugar e afasta as pessoas gradas. Assim escreve: O jardim publico de S. Lazaro, ainda que nos dá excellente sombra pelas muitas arvores de boas espécies que tem frondozas e com harmonia collocadas nas ruas e resumidos largos, em que retalharão o terreno, he pequeno e mal comporta grande numero de pessoas gradas pois sendo só na Cidade e franco para todos, he tanta a concorrência de gente da classe ordinária que ali passeia nos dias santificados, que não he possivel ser utilmente policiado guardando-se as conveniências respeitantes ás pessoas de diferentes classes da sociedade. Desta forma só nos dias de trabalho e ao cahir do sol se pôde descançar das fadigas, repouzando em algum dos bancos que tem o jardim, e deixar o mesmo jardim nos outros dias plenamente entregue ao goso da populaça e creadagem. [2]
A dimensão do jardim é também criticada por Joaquim de C. A. Mello e Faro, um dos colaboradores do Jornal d’Horticultura Practica, que escreve em 1872: Este jardim é pequeno para passeio publico de uma cidade, cuja população se aproxima ao numero de cem mil habitantes (Hoje, felizmente, este defeito tão sensível foi reparado pela construcção dos novos jardins do Campo dos Martyres da Pátria, e do Palácio de Crystal). É todo plano, e cercado em volta pelos edificios da bibliotheca, e recolhimento das orphãs, e pelas casas ao poente e norte; por esta rasão fica bastante abafado, não offerecendo dilatadas vistas aos passeantes que alli concorrem. Não tem aformoseamentos notáveis em architectura, ou esculptura, e apenas no centro ha uma taça circular, que melhor seria converter em um pequeno lago de risco elegante, fornecendo-lhe mais abundância d’agua. As plantas d'este jardim, em que predominam as Acácias e as plantas de folhagem caduca, estão muito desenvolvidas, e bom seria que algumas das mais velhas e desorganisadas fossem substituídas por outras plantas novas e raras, que ainda não possue. Um grande serviço prestava o município ao publico e á floricultura, se mandasse construir, por ser este local bastante abrigado, uma estufa, com a frente exposta ao sul, no local onde existe a fonte. A primitiva plantação d'este jardim foi feita pelo systema antigo, e apesar de ha poucos annos ser melhorada a sua disposição e risco, ainda alli se notam as symetrias dos antigos jardins; a sua cultura, e limpeza não é desprezada, com tudo merecem mais um poucochinho de attenção o corte e rega das relvas, e a maior variedade de plantas annuaes nas guarnições dos canteiros. [3]

Um outro colaborador do Jornal d’Horticultura, J.D. de Oliveira Júnior, após referir os jardins do Porto aponta que: No jardim de S. Lazaro não se falla egualmente, porque, além de um soldado da municipal que está a uma das portas e de um guarda que faz alli a policia, nada mais se encontra que seja digno de menção a não ser a extraordinária limpeza das ruas. [4] 
Pinho Leal por seu lado além das pequenas dimensões queixa-se – com uma das preocupações dos portuense na época -  da higiene já que o jardim não está suficientemente ventilado:
Mais tarde, transformou-se o jardim em passeio; porém quer antes quer depois d'esta transformação, é de tão acanhadas proporções, que pouca gente o frequenta.  Alem da sua pequenez, está por todos os lados cercado de casas altas, que não deixam correr o ar; a gente está allí, como no fundo de um poço, e é insuportável no verão; pelo que todos fogem para as Fontainhas ou para a Cordoaria. [5]

[1] Maria de Clamowse Brown (18 ?? - 1861), O Jardim de S. Lázaro in Virações da Madrugada, s/ edit. Porto 1854. (pag.11 e 12).
[2] Henrique Duarte e Sousa Reis (1810 – 1876), Apontamentos para a Verdadeira História Antiga e Moderna da Cidade do Porto (1863-1872), in Manuscritos Inéditos da Biblioteca Municipal do Porto, Edições B.P.M.P, Porto 1984. Os sublinhados são meus.
[3] Joaquim de C. A. Mello e Faro, Revista sobre Jardinagem , Jardim de S. Lazaro in Jornal d’Horticultura Practica, Volume III Typ. De José Coelho Ferreira, Taypas 65, Porto 1872. (pág.107).
[4] J.D. de Oliveira Júnior Chronica Horticolo-Agricola, in Jornal d’Horticultura Pratica Volume V Typ. De Bartholomeu H. de Morais, Rua da Picaria 50 a 54, Porto 1874. (pág.77).
[5] Augusto Soares d’Azevedo Barbosa de Pinho Leal - Portugal Antigo e Moderno, Vol. 5 e 7, Livraria Editora Tavares Cardoso & Irmão, Lisboa 1873-1890.
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Cap. 7 - O Jardim de S. Lázaro na segunda metade do século XIX

jsl24_thumb1fig. 27 - Claude Monet Les Promeneurs 1865, óleo sobre tela 93 x 69 cm. National Gallery, Washington.
A planta de Perry Vidal marca o momento da passagem da cidade liberal e romântica para a cidade burguesa e industrial.
Em 1865 com a realização da Exposição Universal no Porto, um dos grandes impulsionadores deste acontecimento Alfredo Allen [1] - que entre 1866 e 1869 foi vereador da Câmara Municipal do Porto - contrata Émile David jardineiro alemão para a criação dos Jardins do Palácio de Cristal e da Cordoaria, como refere Alberto Pimentel: Até então havia um único logar de reunião ao ar livre, o modesto Jardim de S. Lazaro, pequeno e sem horizonte.
Foi a circunstância de ter ido ao Porto riscar os jardins do Palácio um paisagista alemão, Emílio David, que fez que um dos vereadores da cidade, o visconde de Vilar Allen, pensasse em aproveitar-lhe a competência profissional no projecto de um novo jardim publico — o da Cordoaria. [2]
E num outro apontamento escreve: Jardim de S. Lázaro - Foi durante muitos annos o primeiro passeio publico do Porto. Já então era, como ainda hoje é, tudo - menos jardim...de flores. Alfobre das bellesas femininas de ha vinte annos, isso sim, e das gentis arvores animadas a cuja sombra nesse tempo se abrigavam os corações dos Adónis portuenses umas eram de folha caduca, e estão hoje esguias tias de inquietos sobrinhos, outras conservam ainda as suas verduras de ha quatro lustros, como no tempo d'ellas se dizia, graças á agua circassiana e a outros ingredientes modernos. Mas o que é certo é, que o jardim de S. Lázaro envelheceu como as primeiras, e que as segundas passeiam serodiamente elegantes na Cordoaria ou no Palácio de Crystal. O Velho jardim portuense lá ficou para o seu triste canto ao oriente da cidade, soterrado entre a Biblioteca Publica, o Recolhimento das Órfãs, e alguma casaria. Raro passeante antigo o povoa, e principalmente ao domingo, emquanto a musica toca, e um ou outro municipal, muito a gosto d'uma creada de servir, sustenta ainda a velha tradição amorosa d'aquelle logar. [3]
E no mesmo livro ao jardim mais adiante se refere: Com as suas enormes Austrálias e as suas lindas Magnólias, a sua taça ao centro com o tradicional repucho, os seus bancos pintados de verde, onde brasileiros gordos comentavam episódios da guerra do Paraguai, era um passeio acanhado, macambusio, triste. [4]

Entretanto o Porto ia crescendo, arborizando as novas ruas e avenidas e criando novos jardins, como escreve Henrique Duarte de Sousa Reis:
Em concluzão, aqui nesta segunda Capital do Reino, tem se já muito gosto pelo arvoredo, e nas ruas que por sua largura o permittem e em todas as Praças e Mercados se vêem lindas e variadas árvores, que não só deleitam a vista, mas também offerecem aos habitantes a frescura da sua sombra e balsâmico aroma da vegetação, e com elle a saúde na aspiração do ambiente… [5]
jsl25_thumb1fig. 28 – O Jardim de S. Lázaro na Planta de Telles Ferreira publicada em 1892
Na planta de Telles Ferreira o Jardim onde se assinalam as entradas do lado sul, aparece designado por Passeio de S. Lazaro. Está já aberta a rua de Passos Manuel. O Largo de S.to André, de onde foi demolida a igreja em 1850 e por onde se acede pela Tr.ª de S.to André no prolongamento da rua da Alegria ou pela rua de S.to André, confina com o Passeio de S. Lazaro. No Largo do Padrão confluem a rua Formosa e a rua da Duquesa de Bragança. A rua do Mede Vinagre é agora designada por Rua da Murta. Desaparece a designação de rua do Reimão e todo o arruamento a partir da rua de Entreparedes se designa agora por Rua de S. Lazaro. Cruzando com esta rua, estão já abertas a T. do V.e de Bobeda e o troço norte das ruas do Barão de S. Cosme, bem como das ruas do Duque da Terceira e do Duque de Saldanha estas pertencentes à urbanização da Quinta do Cirne. O troço da rua de S. Victor que parte do Jardim de S. Lazaro está já concluída.
Por estes anos estão já construídos os Jardins da Cordoaria e do Palácio de Cristal (ambos de 1865) e do Passeio Alegre no Aterro da Foz do Douro (1888).
Com a edificação da Estação de Campanhã, onde para além das linhas que se dirigem para o norte e para o Douro, se completa a ligação entre Lisboa e Porto com a construção da ponte Maria Pia em 1877, o Jardim de S. Lázaro adquire outra funcionalidade. Situado entre a Estação do caminho-de-ferro e o centro da cidade, com o aparecimento do transporte público urbano sobre carris - o Americano em 1873 e o Eléctrico no final do século - passa a ser um espaço de atravessamento mais do que um lugar de estar. Por outro lado a urbanização das grandes quintas setecentistas a poente, e a construção das unidades fabris na zona do Bonfim, com o consequente alojamento operário nas ilhas, vão trazer ao jardim outro tipo e outra classe de utentes.
jsl26_thumb1fig. 29 - foto de Alberto Ferreira Jardim de S. Lázaro e Rua de S. Lázaro 1905. Vista junto à Rua das Fontaínhas, negativo em vidro. Tipografia Peninsular in Mário João Mesquita A Cidade dos Transportes, Multitema, Porto 2008.
Na fotografia de 1905 vê-se a linha do eléctrico que unia a Estação de Campanhã com a praça da Batalha onde se situavam os principais hotéis.
A envolvente do Jardim. Dois apontamentos.
1 - O Largo da Ramadinha
No lado norte do Jardim e apesar da abertura da praça dos Poveiros com a demolição da Capela de Santo André, subsiste o Largo da Ramadinha.
O largo desenhado por António Cruz em 1941, mantinha a conformação dos finais do século XIX.
 jsl27_thumb1fig. 30  - António Cruz, Largo da Ramadinha 1941. Aguarela In Catálogo da Exposição António Cruz 1907-2007 no Museu Nacional Soares dos Reis de 14 de Dezenbro de 2007 a 31 de Janeiro de 2008.
Na aguarela destaca-se contra a parede fortemente iluminada do prédio do lado nascente, o quiosque que inicialmente foi colocado no largo de S. André, e com a abertura da praça dos Poveiros foi colocado no Largo da Ramadinha. (Actualmente na praça Carlos Alberto desde 2003).
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fig. 31 – O quiosque no Largo de Santo André. Foto in Guido de Monterey, O Porto Origem , Evolução e Transportes. Edição do Autor (2ª edição revista e aumentada) Porto 1972. (pág.280)
jsl29_thumb1fig. 32 – O quiosque recuperado no seu lugar actual na praça de Carlos Alberto. Foto do jornal Expresso de Sexta feira, 27 de Junho de 2014.
O quiosque é uma peça de mobiliário urbano que, a partir do Segundo Império pela acção em Paris do Barão de Haussmann e sobretudo da publicação do livro Les Promenades de Paris pelo seu seguidor Adolphe Alphand[6], se difunde por toda a Europa. Já Ramalho Ortigão refere que na cidade de Haia, a cada esquina, em pitorescos quiosques envernizados, a venda, ao copo, de leite quente e perfumado no tempo frio. [7]
jsl30_thumb1fig. 33 – Adolphe Alphand, Voie Publique, Boutiques et Orchestre, Boutique au Luxembourg, in Les Promenades de Paris. Vol. 2, J. Rothschild, Éditeur, 13, Rue ses S.tes Pères, Paris 1867-1873.
Existia um outro quiosque no lado oposto do Jardim no início da rua do Reimão na esquina da Biblioteca colocado em 1931, e ainda um terceiro na entrada junto à rua das Fontainhas.
jsl31_thumb1fig. 34 - Porto – Academia de Bellas Artes. Postal de Emílio Biel do início do século XX. Arquivo da FBAUP.
No postal para além de uma vendedeira sob um guarda-sol, vê-se a guarita da porta da Biblioteca e Academia.
fig. 34a - A implantação do quiosque no processo de licenciamento em 1931. AHMP.

fig. 34b - Desenho do alçado e planta do quiosque da Biblioteca, 1931. AHMP.

Na esquina da Biblioteca um urinol público, numa adaptação do modelo francês de urinol público a que chamavam Vespasienne.jsl34_thumb1
fig.35 – Adolphe Alphand, Voie Publique, Urinoirs in Les Promenades de Paris. Vol. 2, J. Rothschild, Éditeur, 13, Rue ses S.tes Pères, Paris 1867-1873.


jsl32_thumb1fig. 36  - Charles Marville (Charles François Bossu) (1813 – 1879), Urinoir enveloppé à 6 stalles, Jardin de la Bourse, Paris c.1865.
2 - A Rua da Murta [8]

Parfois je te disais de myrte et nous brûlions
L’arbre de tous tes gestes tout un jour.
[9]

Como já se referiu a rua que ia do Campo de S. Lazaro até ao Poço das Patas chamou-se primeiro de rua do Mede Vinagre. Por volta de 1877 passou a denominar-se rua da Murta. Se não se conhece a razão do primeiro nome da rua, há quem pense que o nome de Murta terá vindo de uma proprietária e moradora naquele arruamento.
Mas preferimos – romanticamente - pensar que o nome se deve porque aí se ergue a murta calma, [10] e a murta redolente. [11] Essa bela planta que permanece verde e floresce de verão a verão, e por isso no dizer do poeta a minha alma/Abriu-se para a vida como se abre/A flor da murta para o sol do estio. [12] O seu perfume era tão agradável e intenso que na Grécia antiga foram dedicadas a Afrodite. E de folha perene, é referida na Bíblia como eternidade: Em lugar da sarça, crescerá a murta. Isto será como memorial para o Senhor, por sinal eterno, que durará para sempre. (Isaías 55:13.) É por estes simbolismos que a flor da murta era e é muitas vezes usada nos bouquets das noivas.
jsl33_thumb1fig. 37 – Flor de murta. In Mercado Livre http://lista.mercadolivre.com.br/jardins-plantas-sementes/mudas-de-murta.
Pedro Fernandes Thomás (ou Thomaz) [13] em Cantigas do Povo transcreve uma canção que diz Muito espalhada em todo o paiz, intitulada a Flor da Murta e que espelha bem o simbolismo popular da murta.
jsl87fig. 38 – Flôr de Murta Canção Popular.
Flôr da murta
Raminho de freixo,
Deixar de amar-te
É que eu não deixo.
Amar-te sim,
Mas deixar-te não,
Ò flor da murta!
Amôr do meu coração.
Eu hei-de amar a meu gôsto,
Corra o p’rigo que correr:
Uma vida só que tenho,
O flor da murta!
Por ti a quero perder. (refrão)
Já no ceu não ha estrellas
Senão três ao pé da lua:
Nesta terra não se encontra,
O flor da murta!
Cara linda como a tua. (refrão)
Não sei quem possa cheirar
Manjaricão orvalhado:
Não sei quem possa trazer
O flor da murta
O seu amor enganado. (refrão)
Tendes dois olhos em casa,
Que parecem dois ladrões:
Abertos, são duas rosas,
O flor da murta!
Fechados são dois botões. (refrão)
Tenho feito um juramento,
Promettimentos a Deus:
De não amar outros olhos
Ó flor da murta
Meu amor, senão os teus! (refrão)
Tendes garganta de neve,
Onde o sol vai escrever:
O quem fora estudante,
Ó flor da murta
Para nella aprender. (refrão)
Vai-te carta venturosa
Ao jardim do meu amor:
Diz-lhe que fico chorando
O flor da murta!
Por não ser o portador. (refrão)
Ser feliz, ser venturosa,
Já me não é permittido:
Mas amar-te até morrer,
O flor da murta
Dei-te o sim, não me desdigo. (refrão) 
[14]


[1] Alfredo Allen(1828-1907), em 1866 Visconde de Villar de Allen, Foi um dos fundadores e Presidente da Sociedade do Palácio de Cristal Portuense e da Sociedade Hortícolo-Agrícola Portuguesa. Foi Director da Associação Comercial do Porto e Secretário e Comissário no Estrangeiro da Exposição Internacional Portuguesa de 1865. Foi Comissário da Exposição de Viena (1874), de Berlim (1888) e de Paris (1889). Foi Vereador da Câmara Municipal do Porto com o Pelouro dos Jardins.
[2] Alberto Pimentel Memorias do tempo de Camilo, Chave do Enigma Magalhães & Moniz L.da - Editores, Largo dos Loyos 14, Porto (pag.155).
[3] Alberto Pimentel, Guia do Viajante na Cidade do Porto e seus Arrabaldes, Editor Casa Mesquita, Porto 1876.
[4] Idem (pág. 86).
[5] Henrique Duarte de Sousa Reis Apontamentos para a Verdadeira História Antiga e Moderna da Cidade do Porto, in Manuscritos Inéditos da Biblioteca Municipal do Porto, Edições B.P.M.P, Porto 1984.
[6] (Jean Charles) Adolphe Alphand (1817-1891), Les Promenades de Paris. Histoire, description des embellissements, dépenses de création et d'entretien des bois de Boulogne et de Vincennes, Champs-Élysées, parcs, squares, boulevards, places plantées : étude sur l'art des jardins et arboretums, 2 vol. Paris, J. Rothschild, 1867-1873.
[7] José Duarte Ramalho Ortigão, A Holanda, Capítulo IV- As Cidades, Magalhães & Moniz Editores, Porto 1885. (pág. 139).
[8] Hoje Rua Morgado de Mateus.
[9] Yves Bonnefoy, Le Myrte de Pierre écrite, Mercure de France, Anthologie de la poésie française du XXe siècle, Poésie/Gallimard, 2004, (pag. 212). Tradução: Por vezes te dizia de murta e queimávamos /a árvore de teus gestos todo um dia.
[10] J.W.Goethe (1749-1832). Poemas. Antologia, versão portuguesa, notas e comentários de Paulo Quintela., Coimbra, Por Ordem da Universidade, 1958, (p.103)
[11] Alberto Mariano de Oliveira (1857-1937), Crescente de Agosto de Ramo de Árvore 1922 in Poesias, 4ª série. Rio de Janeiro: F. Alves, 1927 (pág.221).
[12] Vicente de Carvalho (1866-1924) Palavras ao Mar, Poemas e Canções. Segunda edição. Livraria Chardon, Porto 1909.
[13] Pedro Fernandes Thomás (1853-1927), musicólogo, professor da escola industrial, dirigiu a revista Figueira, fundador da Sociedade Arqueológicae da  escola maçónica Evolução. Fundou em 1910 a Biblioteca Pública Municipal dada Figueira da Foz que por isso tem o seu nome.
[14] Pedro Fernandes Thomás Flor da Murta in Cantares do Povo (Poesia e Música). Prefaciado por António Arroyo. F. França Amado Editor. Coimbra 1919 (pág. 95,96 e 97).
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Cap. 8 – O Jardim [1] que conhecemos…

As madressilvas
que em abril florescem entre os brejos
parecem dizer:
Vede como somos belas!

e os namorados
que na estrada passam, abraçados, aos beijos,
erguem os braços para colhê-las... 
[2]

jsl35_thumb4fig. 39 – Júlio ( Júlio Maria dos Reis Pereira, 1902-1983), O Poeta 1954. Tinta da china s/papel, Colecção R.F.

Em 1911 o Jardim é submetido a uma remodelação que lhe dá sensivelmente a configuração que hoje apresenta.


fig. 39a - Jardim de São Lázaro : projeto de modificação deste jardim . Documento/Processo, 1911/08/15 – 1911/08/17. Medições, orçamento e planta do projeto de modificação, aprovado em 1911-08-17. AHMP.


E em 1934 o arquiteto Januário Godinho elabora o Projeto de reforma e aformoseamento do Jardim de São Lázaro que se estende até 1947.
 

Todas las melancolías tienen esencia de jardín... [3]
jsl36_thumb1fig. 40 - João Martins da Costa (1921-2005), Árvores de S. Lazaro , 1951, óleo sobre madeira 44 x 53,6 cm. Museu nacional Soares dos Reis.
Em 1951 João Martins da Costa, pintou o Jardim de S. Lázaro num dia de Inverno.
O quadro, o único que conheço com uma vista geral do Jardim de S. Lázaro, é pintado em tons de um invernoso verde acinzentado e apresenta o jardim visto de nordeste, possivelmente de uma das janelas da Biblioteca. As tílias estão desfolhadas mas as magnólias que rodeiam o lago naturalmente apresentam as suas folhas perenes. No primeiro plano o monumento a Marques de Oliveira e em frente o busto de Silva Porto (ver adiante). Por trás daquele o Coreto mudo e vazio. Algumas figuras pontuam o quadro ou sentadas nos bancos do jardim ora percorrendo as alamedas.
O quadro faz-me evocar Fernando Pessoa na personagem de Bernardo Soares:
Breve sombra escura de uma árvore citadina, leve som de água caindo no tanque triste, verde da relva regular — jardim público ao quase crepúsculo —, sois, neste momento, o universo inteiro para mim, porque sois o conteúdo pleno da minha sensação consciente. Não quero mais da vida do que senti-la a perder-se nestas tardes imprevistas, ao som de crianças alheias que brincam nestes jardins engradados pela melancolia das ruas que os cercam, e copados, para além dos ramos altos das árvores, pelo céu velho onde as estrelas recomeçam. [4]
jsl37_thumb2fig. 41 – Planta do Jardim na actualidade.

[1] Hoje chama-se oficialmente Jardim Marques de Oliveira.
[2] Saul Dias ( Júlio Maria dos Reis Pereira, 1902-1983), Mais e Mais 1932, in Obra Poética, 3ª edição, Campo das Letras, Porto 2001.
[3] Frederico Garcia Lorca , Jardines, A Paquito Soriano. Espíritu exótico y admirable. In Prosa ,1 Obras VI - introducción, edición y notas de Miguel García-Posada , Ediciones Akal S.A. Madrid 1994. (pag.156).
[4] Fernando Pessoa. Livro do Desassossego por Bernardo Soares.Vol.I. 13-6-1930, Recolha e transcrição dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho. Lisboa: Ática, 1982.
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