Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















sábado, 14 de fevereiro de 2015

O jardim que foi primeiro da cidade 3

III Parte - O interior do jardim

Cap. 9 - As entradas
Ayant poussé la porte étroite qui chancelle,
Je me suis promené dans le petit jardin
Qu'éclairait doucement le soleil du matin,
Pailletant chaque fleur d'une humide étincelle.
 [1]

O Jardim cujo recinto era protegido por um gradeamento, possuía quatro entradas com portões, que de Maio a Setembro abriam ao nascer do sol e fechavam três horas após o toque das Ave Marias. Nos restantes meses abriam às sete horas e fechavam uma hora depois desse toque. Do lado sul e para vencer o desnível as entradas possuem quatro degraus.

jsl55_thumb1fig. 42 - Para sustentar a gradaria com que tem de ser fechado o Passeio Publico ajardinado em S. Lazaro. Approvada a 1ª e 3ª Planta. Porto em Camara 25 de Junho 1835.
António Cruz numa tarde de sol, pinta uma dessas entradas.jsl56_thumbfig. 43 - António Cruz. Portão. Jardim de S. Lázaro, 1941 óleo s/madeira. In Catálogo da Exposição António Cruz 1907-2007 no Museu Nacional Soares dos Reis de 14 de Dezembro de 2007 a 31 de Janeiro de 2008.
Na parte superior o castanho da folhagem e a utilização das cores complementares para o contraste entre o azul do céu expandindo-se pelos troncos do arvoredo, com o amarelo da terra dos pavimentos e dos pilares da entrada e dos suportes do gradeamento, conferem ao quadro uma risonha luminosidade, acentuada pelas sombras que acentuam a entrada do jardim. Ao fundo uma advinha-se um banco do jardim onde uma figura humaniza toda a composição.
jsl57_thumb1fig. 44 – A entrada numa fotografia actual. Foto in Cidade não Dorme. http://cidade.iol.pt/agenda/body.aspx?id=552
jsl60_thumbfig. 45 – O jardim de S. Lázaro num postal d início do século XX. c. 1905
A entrada pelo lado sudoeste numa das raras fotografias antigas do Jardim de S. Lázaro. A Avenida Rodrigues de Freitas ainda não está arborizada.
jsl59_thumb1fig. 46 - A entrada na actualidade. Foto do blogue Bucólico Anónimo http://bucolico-anonimo.blogspot.pt/2014/05/jardim-de-sao-lazaro.html
As entradas on the east side of the garden place./Where entrance up from Eden easiest climbs… [2]
jsl58_thumb1fig. 47 - A entrada pelo lado nordeste. Foto do blogue Bucólico Anónimo http://bucolico-anonimo.blogspot.pt/2014/05/jardim-de-sao-lazaro.html

[1] Paul (Marie) Verlaine (1844-1896), III Après Trois Ans in Poèmes Saturniens, in Oeuvres de Paul Verlaine, Tome I Editions Bernard Valiquette, Montréal 1869. (pág. 17).
[2] John Milton (1608-1674), Paradise Lost A Poem Twelve Books (na 2.ª edição 1674), Published by Timothy Belington Sylvester T. Goss printer, Boston 1820. Tradução: Do jardim pelo oriente, onde é mais fácil/A entrada nele posta um corpo de anjos. Tradução António José de Lima Leitão (1787-1856) edição digital 2006.
________________________________________________________________
Cap. 10 - O tanque e a fonte
Ô le calme jardin d'été où rien ne bouge !
Sinon là-bas, vers le milieu
De l'étang clair et radieux,
Pareils à des langues de feu,
Des poissons rouges.
 [1]

jsl62_thumb1fig. 48 - O Tanque central. Foto Carlos Silva in Oficina da Cultura. http://oficinadacultura.blogspot.pt/
Das entradas do jardim as veredas conduzem ao tanque, com um repuxo que provoca o indispensável murmúrio da água, e é o elemento central de toda a organização do jardim.

A Fonte de S. Domingos
Tiene el mármol de la fuente
el beso del surtidor, 
sueño de estrellas humildes.
[2]

La fuente cristalina pide labios  
y suspira el viento.
[3]

El agua de la fuente su canción le decía.  [4]


Como não pode haver jardim sem fontes, logo em 1838 foi transferida para o Jardim de S. Lazaro o chafariz que pertencia provavelmente à sacristia do extinto convento de S. Domingos, e colocada a norte do jardim.
jsl63_thumb1fig. 49 - Fotografia de Guilherme Bomfim Barreiros.1934.Dimensões 18 x 24 cm. AHMP.
A fonte, possivelmente um lavatório, está esculpida em mármore branco e com tons rosados, com duas bicas que abrem para uma taça semicircular apoiada numa coluna central em forma de pêra. Na parte superior uma prateleira trabalhada de folhas suporta um vaso de flores. A pia está encostada e enquadrada por um suporte de mármore em que dois pilares se encimam por volutas que apoiam o frontão semicircular envolvido numa grinalda e tendo ao centro uma concha. A pedra de fecho do arco tem ainda uma cartela barroca. A parede de granito onde o conjunto se encosta é encimada por dois pináculos e tem ao centro uma outra concha.

[1] Emile Verhaeren (1855-1916) Les heures d'après-midi in Les heures d'après-midi Les heures du soir ; précédées de Les heures claires ; (12e éd.) Mercure de France, Rue de Condé XXVI, Paris MCM XXII (pag. 117).
[2] Federico Garcia Lorca Canción menor , Diciembre de 1918 (Granada),de Libro de Poemas, 1921.In Obras Completas, Aguilar S.A. de Ediciones. Juan Bravo 38, Madrid 1969, (pag.184 e 185).
[3] Federico Garcia Lorca Cantos Nuevos Agosto de 1920, de Libro de Poemas, 1921.In Obras Completas, Aguilar S.A. de Ediciones. Juan Bravo 38, Madrid 1969, (pag.211 e 212).
[4] Federico Garcia Lorca , Sueño Mayo de 1919 de Libro de Poemas, 1921.In Obras Completas, Aguilar S.A. de Ediciones. Juan Bravo 38, Madrid 1969, (pag.224).
__________________________________
Cap. 11 – Árvores, plantas, flores…
Out of the fertile ground he caus'd to grow
All trees of noblest kind for sight, smell, taste…
  [1]
Como não há jardim sem árvores nem flores, e como ao longo dos seus quase 130 anos de existência o Jardim de S. Lázaro teve diversas e variadas árvores e plantas, apenas damos um perfume, uma indicação das mais importantes e actuais.
As tílias rodeando o jardim
As tílias a cujo corpo, o vento que passa [deu] este ar escultural de bayadera [2] rodeavam todo o jardim junto às grades.
jsl38_thumb1fig. 50 - A entrada pelo lado da Praça dos Poveiros do Jardim de S. Lázaro. Anos 50.

jsl61_thumb1fig. 51 - Duas tílias abatidas no Jardim de S. Lázaro 2007 in http://dias-com-arvores.blogspot.pt/2007_12_01_archive.html

As magnólias rodeando o tanque central
Em torno do lago florido Juntavam-se, como affins,/Os perfumes das magnólias… [3]
clip_image005_thumbfig. 52 - As magnólias junto ao tanque. Foto do excelente blogue Bucólico Anónimo http://bucolico-anonimo.blogspot.pt/2014/05/jardim-de-sao-lazaro.html
As doze classificadas e grandiosas magnólias (Magnolia Grandiflora) com o seu odor oleoso [4] talvez aí plantadas por Émile David na remodelação do jardim em 1869, ou na remodelação efectuada em 1911.

A magnólia com
o som que se desenvolve nela
quando pronunciada,
é um exaltado aroma
perdido na tempestade… [5]

As camélias

O perfume delas é talvez a cor. [6]




jsl40_thumb1fig. 53 – As Camélias de S. Lázaro. O Jardim em reestruturação. Foto do autor de 2015.


jsl65_thumb1fig. 54 - Camélia do Jardim de S. Lázaro foto do incontornável e instrutivo blogue Dias Com Árvores.
O gosto no século XIX pelo cultivo das camélias no Porto deve-se em grande parte a José Marques Loureiro o fundador e proprietário do Jornal de Horticultura Practica, o floricultor que no seu viveiro nas Virtudes cultivou espécies únicas desta planta. [7]
Camillo Aureliano [8] um dos colaboradores desse jornal, a propósito da criação pelo floricultor da camélia Rainha Santa Isabel escreve: Que encantos não tem uma Camellia Branca arfando sobre o peito da donzella que doudeja uma walsa? Que belleza quando guarnece uns cabellos louros, castanhos, ou de azeviche? [9]

A camélia era nesta altura a flor que os elegantes ostentavam nas suas lapelas, como Eça de Queiroz tantas vezes refere nos seus livros. Como exemplo citemos ao acaso os Maias:
Carlos ao fim do primeiro acto do Barbeiro, ficou assombrado ao ver Pedro da Maia installado na frisa da Monforte, á frente, ao lado de Maria, com uma camelia escarlate na casaca - egual ás d'um ramo pousado no rebordo de velludo.
E se não há muitas pinturas do jardim de S. Lázaro o mesmo não se passa com as pinturas de flores, no final do século XIX. Em particular com as muito apreciadas camélias - a flor da cidade -como refere Gabriel de Saint-Victor que, de visita a Portugal, considera que o Porto e arredores é a verdadeira pátria das camélias. Vêm-se por todo o lado; elas são enormes, cobertas de flores no Inverno… [10]
Os pintores de flores
É António José da Costa [11] o pintor que mais se dedica a pintar flores, em particular as camélias. Cerca de 1890, resolve dedicar-se em exclusivo à pintura de flores em particular as camélias que cultivava no jardim de sua casa. Sobre António José da Costa diz Pedro Vitorino:
Estudou na Academia Portuense de Belas-Artes, onde concluiu o curso em 1862. Desde a Exposição Interna­cional do Palácio de Cristal Portuense em 1865 para cá, o seu nome apare­ceu, quási sem interrupção, nas exposições de arte do Porto, firmando espe­cialmente quadros de flores, género em que muitíssimo brilhou. Foi professor particular dos pintores Marques de Oliveira e Artur Loureiro. Há trabalhos seus no Museu Municipal, vendo-se aí o seu retrato pintado por Júlio Costa, sobrinho do artista. [12]
E escreve o crítico de Arte Manoel M. Rodrigues [13] no O Occidente:
Antonio José da Costa dedicou-se d’esta vez ás flôres, apresentando uns dez quadros d’essa natureza e tres de paizagem. Todos os quadros de flôres, em que se representam principalmente camelias e rosas, são pintadas com um vigor e um brilhantismo de côr que encantam, tendo o artista pôsto toda a sua competencia e toda a sua observação, na copia fiel d’essas adoraveis musas dos jardins.
O melhor quadro, porém, d’esse genero é o que se intitula “Gloximia”. [14] Soberbamente pintado, ha n’aquellas pequenas petalas uma suavidade de colorido e um avelludado tão sensivel, que o seu aspecto ilude. Formoso pedaço de pintura, emfim… [15]

Num outro artigo assinado pelo mesmo Manoel M. Rodrigues, sobre a Exposição de Belas Artes e que se inicia pela elogio a Marques de Oliveira, afirmando que o mais importante e certamente o melhor quadro da exposição é “Esperando os barcos” [16] é feita nova referência a António José da Costa, que continua a encantar-nos com os seus primorosos quadros de flôres.
As “Arthemisias” [17] são de uma frescura e de uma verdade de colorido surpreendentes. (…) Interessantes as “Peonias e rosas”, e muito boas as “Camélias e mimosas”. [18]
jsl41_thumb1fig. 55 - António José da Costa (1840-1929), Vaso com camélias 1889, óleo s/madeira 54,5 x 38cm. Museu Nacional Soares dos Reis.
O quadro representa a parte superior de um vaso de camélias. Uma planta segura por uma estaca, provavelmente da produção do próprio artista. Três flores abertas, camélias brancas com algumas manchas rosa destacam-se entre os botões ainda por abrir. O fundo de um verde-escuro mais acentua a delicadeza das flores. Nesta pintura António José da Costa afirma-se como um mestre na arte da pintura de camélias, basta para isso ver-se o modo admirável como traduz, nas pétalas das camélias, esse quer que é duro e opaco que fica para além da transparência da sua “ epiderme” e que, junto ao acentuado do seu recorte, é o melhor do seu carácter e faz pensar no esmalte típico de certas porcelanas do extremo-oriente, ou sejam as do país de procedência daquelas flores. [19]
Henrique Pousão o grande pintor desaparecido prematuramente, que foi discípulo de António José da Costa, pinta também uma tela com camélias e intitulada Flores. Repare-se na delicadeza das pétalas tombadas sobre a mesa.
jsl42_thumb1fig. 56 - Henrique César de Araújo Pousão (1859-1884), Flores 1877 ? óleo sobre tela 43,2 x 59 cm. Museu Nacional Soares dos Reis.
E um outro discípulo de António José da Costa, José de Almeida e Silva [20] também segue o mestre em duas telas intituladas: Jarro com camélias e Cesto com camélias.
 jsl43_thumb1fig. 57 - José de Almeida e Silva (1864 - 1945), Jarro com camélias 1906. Óleo sobre tela 41,7 x 31,4 cm. Museu Nacional de Soares dos Reis.
jsl44_thumb1
fig. 58 - José de Almeida e Silva (1864 - 1945), Cesto com camélias 1906, óleo sobre tela 30,6 x 40,1 cm. Museu Nacional de Soares dos Reis.
Discípulo de António José da Costa ainda um quadro de flores de um outro pintor, Marques Guimarães. [21]
jsl45_thumb1fig. 59 - Marques Guimarães (1857- 1937), Natureza morta com flores 1886. Óleo sobre madeira 41,5 x 28,5 cm. Colecção particular.

Arbustos e canteiros de flores.
jsl49_thumb1fig. 60 – Jardim de S. Lázaro, foto de http://www.feelporto.com/destinos/jardim-de-sao-lazaro/

A gardénia, o gerânio e a violeta.

Les galants gardénias dans leurs suaves pourpoints
entendaient le doux cri des arbres enfantins
Les charmants géraniums agiles et mutins
se lavaient les cheveux tout autour du bassin
Les violettes émues en robe de satin
tendrement respiraient le bon air du matin.
[22]

A gardénia é uma flor que pelo seu aroma intenso se utilizava para fazer perfumes. De folha perene era muito decorativa em jardins.
Nadir Afonso pintou um extraordinário quadro intitulado Gardénias, onde estuda as geometrias da natureza mostrando que a pintura de flores é compatível com o Modernismo.
jsl46_thumb2fig. 61 - Nadir Afonso, Gardénias, óleo s/tela. Fundação Nadir Afonso.
Num fundo onde predomina o azul desenvolvem-se formas “espiraladas” em cores que vão do complementar amarelo ao laranja e dos compostos verdes e castanhos até ao negro.

Gerânios e Pelargónios

Os pintores do Naturalismo abandonam de um modo geral a pintura de flores, procurando horizontes mais vastos marinhas, praias, searas e espaços urbanos. A pintura de flores prossegue contudo em pinturas de jardins normalmente associadas a figuras femininas. Carlos Reis pinta assim um quadro que intitula Gerâneos e Malva-Rosa, onde sob uma luz de verão, uma jovem de chapéu, olha sorridente para o espectador, numa pose fotográfica. A jovem junto a um arbusto onde os gerânios se misturam com a malva rosa - rose trémière au jardin des caresses ! [23] - vai colhendo flores que deposita num cesto que  segura no braço esquerdo. O caminho faz uma diagonal acentuada pela esvoaçante prega do vestido, que nos conduz a um arvoredo.
jsl47a_thumb1fig.62 - Carlos Reis (1863-1940). Gerâneos e malva rosa, 1912. Óleo sobre tela 130 x 165 cm. Museu Carlos Machado. Ponta Delgada, Açores.

E Juan Gris no período de afirmação do Cubismo elabora um quadro intitulado Pote de Gerânios, uma natureza morta onde predominam os tons de azul. Sobre uma pequena mesa está um jornal (significativamente Le Figaro, o jornal que primeiro publicou o Manifesto Futurista), uma taça e um vaso de gerânios. Utilizando a técnica mista de pintura e colagem, os objectos decompõe-se em planos simultâneos e sobrepostos segundo a arte cubista. jsl48_thumb1fig. 63 - Juan Gris (1887-1927), Pote de gerânios 1915, óleo s/ tela 81,3 x 60,5 cm. Colecção particular.

Os Pelargónios
Os pelargónios são muitas vezes confundidos com os gerânios. As populares sardinheiras são de facto pelargónios. Era uma das plantas utilizadas por Adolphe Alphand para arborizar os jardins criados durante o Segundo Império em Paris.

jsl51_thumb1fig. 64 - Pelargonium Zonale Inquinan. In (Jean-Charles) Adolphe Alphand (1817-1891), Les Promenades de Paris , J. Rothecild, Éditeur 13 Rue des S.tes Pères, Paris.

jsl50_thumb1fig. 65 - Pelargónio do jardim de S. Lázaro. foto de Dias com Árvores http://dias-com-arvores.blogspot.pt/2008_06_01_archive.html

As violetas e os amor-perfeitos

Alberto Pimenta em Memorias do tempo de Camilo, refere a existência de canteiros de violetas.
Os canteiros das camélias estavam floridos, os das violetas perfumados. O sino do Recolhimento das Órfãs havia acabado de repicar o meio dia. As midinettes atravessavam o Jardim chalrando em caminho do seu jantar. [24]

As violetas eram e são usadas em pequenos bouquets nos trajes das senhoras.
Edouard Manet pinta por isso um desses bouquets acompanhado de uma carta endereçada a Berthe Morisot, a sua cunhada e também ela pintora. Junto ao ramo e à carta um leque.
jsl67_thumb3fig. 66 – Edouard Manet (1832-1883), le bouquet de violettes  1872, óleo sobre tela 22 x 27 cm. Col. particular.
O mesmo tema do bouquet de violetas e da carta, é tratado por um contemporâneo de Manet,  Paul Trouillebert. Na carta distingue-se o nome do pintor.
jsl68_thumb4fig. 67 - Paul Désiré Trouillebert  (1829 -1900)Bouquet de violettes 1883, óleo sobre tela 17 x 21 cm. Palais Frech Musée des Beaux-Arts. Ajaccio, Córsega.
Manet irá ainda pintar a sua cunhada com um bouquet de violetas no peito.
jsl64_thumb1fig. 68 - Edouard Manet (1832-1883). Berthe Morisot avec a Bouquet de Violets 1872, óleo s/tela 55 x 40 cm. Musée d’Orsay.

O Amor-perfeito

O amor-perfeito ou viola é utilizado por Luís de Camões num belo soneto em que utiliza o nome da flor para um trocadilho com o nome de uma das suas paixões, Dona Violante de Andrade.
Num jardim adornado de verdura,
Que esmaltavam por cima várias flores,
Entrou um dia a deusa dos amores,
Com a deusa da caça e da espessura.


Diana tomou logo üa rosa pura,
Vénus um roxo lírio, dos melhores;
Mas excediam muito às outras flores
As violas na graça e fermosura.


Perguntam a Cupido, que ali estava,
Qual daquelas três flores tomaria
Por mais suave e pura e mais fermosa?

Sorrindo-se, o Menino lhes tornava:
— Todas fermosas são; mas eu queria
Viol’antes que lírio, nem que rosa.
[25]

Giovanni Boldini, pintor conhecido pelo seu retrato de Verdi, pinta em 1910 um quadro intitulado Viole del Pensiero (Amor-perfeitos do pensamento).jsl52_thumb1fig. 69 - Giovanni Boldini (1842-1931) Viole del pensiero 1910, 46 x 66 cm. Col. Boldini, Pistoia Italia.
Boldini com a pincelada nervosa que então utiliza, pinta uma tela tendo por centro um bouquet de amor-perfeitos, em que uma figura reclinada com mãos femininas, segura entre os folhos de um vestido Os braços esguios traçam duas verticais dividindo a composição entre a parte esverdeada e escura que contrasta com o branco da parte direita realçando a coloração das flores.

Os rododendros

On Being Asked, Whence Is the Flower?
……………………………………………………..
Rhodora! if the sages ask thee why
This charm is wasted on the earth and sky,
Tell them, dear, that if eyes were made for seeing,
Then Beauty is its own excuse for being
[26]

jsl53_thumb1fig. 70 – foto de http://www.feelporto.com/destinos/jardim-de-sao-lazaro/
Para se ter uma ideia do arbusto, existe uma pintura de Joaquim Lopes de um magnífico rododendro do jardim de Fontelo, a antiga quinta de Verão do Bispo de Viseu.
jsl54_thumb1fig. 71 - Joaquim Francisco Lopes (1886 — 1956), Rododendro 1921. Óleo sobre madeira 31 x 41 cm. Museu Grão Vasco,Viseu.

[1] John Milton (1608-1674), Paradise Lost - A Poem Twelve Books. (na 2.ª edição 1674). Published by Timothy Belington Sylvester T. Goss printer, Boston 1820. (Book IV, v.216, pág.84). Tradução: Muito excedendo o que era dado ao solo:/Coloca ali as árvores mais aptas/Para encantar a vista, o olfato, o gosto. Tradução António José de Lima Leitão (1787-1856) edição digital Brasil 2006.
[2] Florbela Espanca (1894-1930), A Voz da Tília de Charneca em Flor 1931, in Sonetos. Prefácio de José Régio. Lisboa: Bertrand Editora, 1982.
[3] Alberto Mariano de Oliveira (1857-1937), Rio Verde Alma e Céu in Poesias 4ª série 1912-1925. 3.a edição, Livraria Francisco Alves, Rio de Janeiro- S. Paulo – Belo Horizonte, 1928. (pag.27)
[4] Giuseppe Tomasi di Lampedusa (1896-1957) Il Gattopardo 1958 Ed. Giangiacomo Feltrinelli Milano 1999
[5] Luiza Neto Jorge A Magnólia in A Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro, 3.ª edição, Lisboa: Assírio & Alvim, 2001.
[6] Frase atribuída a Pedro (da Cunha Pimentel) Homem de Mello (1904-1984).
[7] Ao grande floricultor foi dedicada a escultura Flora, de António Teixeira Lopes (1866-1942) erguida em 1904, no jardim João Chagas (Cordoaria).
[8] Camillo Aureliano Silva e Sousa (1809-1883), autor sob pseudónimo J.M.P. de Cultura das arvores fructiferas, pereiras, macieiras, e pecegueiros : modo pratico de plantar estas arvores, de dirigilas, obrigando-as a fructificar dentro de tres annos... 1830 Biblioteca Nacional
[9] Camillo Aureliano, A Rainha Santa Isabel in Jornal de horticultura practica, Proprietário José Marques Loureiro Volume I Typographia Lusitana, rua das Flores 84 ,Porto 1870 (pag.154).
[10] Gabriel de Saint-Victor (1824-1893), Souvenirs et Impressions de Voyage. Librarie Blériot Henri Gautier, sucesseur, Rue des Grands-Augustins 55, Paris 1891. (pag.26).
[11] António José da Costa (1840-1929). Sobre o pintor ver António Vilarinho Mourato O pintor António José da Costa (1840-1929) Revista da Faculdade de Letras Ciências e Técnicas do Património, I Série vol. V-VI, Porto 2006-2007 ( pag. 347 a 362).
[12] Pedro Vitorino (1882-1944), Artistas Portuenses in Nova Monografia do Porto, Companhia Portuguêsa Editora, Porto 1938. (pag.181).
[13] Manuel Maria Rodrigues (1847-1899). Conhecido pelo seu romance A Rosa do Adro de 1870.Como jornalista colaborou em muitos jornais literários e artísticos de Lisboa e do Porto, bem como na revista O Occidente. Foi um dos fundadores da Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto.
[14] Gloxinia (Sinningia speciosa) é uma planta exótica de pétalas aveludadas com cores em tons vermelhos, rosa, laranja e roxo, por vezes com as extremidades esbranquiçadas.
[15] Manoel M. Rodrigues, Exposição d’Arte no Porto no Atheneu Commercial do Porto. In O Occidente, 13.º Anno, Volume XIII, N.º 410 de 11 de Maio de 1890.
[16] Ver neste blogue http://doportoenaoso.blogspot.pt/2011/09/apontamentos-sobre-pintura-em-portugal_28.html
[17] Artemisia vulgaris também conhecida como flor-de-são-joão, ou erva-de-são-joão.
[18] Manoel M. Rodrigues Exposição de Bellas Artes no Porto. In O Occidente 15.º Anno, XV Volume, N.º 475 de 1 de Março de 1892.
[19] Manuel de Figueiredo, Um Pintor de Flores António José da Costa, Colóquio - revista de artes e letras. N.º 18 FCG ( pag. 8 a 11).
[20] José de Almeida e Silva (1864 - 1945). Estudou na Academia de Belas-Artes do Porto entre 1882 e 1890, tendo sido aluno de Tadeu de Almeida Furtado, Soares dos Reis e António José da Costa.
[21] Joaquim Augusto Marques Guimarães (1857-1937). Pintor e arquitecto formado pela Academia de Belas Artes do Porto. Emigrou para o Brasil em 1898. Participou no Salão Nacional de Belas Artes, onde recebeu Medalha de Ouro. É o autor de um retrato do Imperador que foi adquirido pelo Museu Nacional de Belas Artes. Projetou vários prédios de Guaratinguetá, cidade onde se instalou e onde exerceu o cargo de professor de desenho da Escola Normal.
[22] Raymond Queneau (1903-1976), Le Jardin Précieux in Battre la champagne, Éditions Gallimard, Paris 1968. Tradução: As galantes gardénias nos seus suaves coletes/escutavam o doce grito das árvores infantis /Os encantadores gerânios ágeis e rebeldes/lavavam os cabelosem volta do tanque/As violetas comovidas vestidas de cetim/respiravam com ternura o ar fresco da manhã.
[23] Paul (Marie) Verlaine (1844-1896), Il Bacio de Poèmes Saturniens in Oeuvres de Paul Verlaine, Tome 1, Editions Bernard Valiquette, Montréal 1869. (pág.52). Tradução: malva-rosa em jardim de carícias!
[24] Alberto Pimenta, Memorias do tempo de Camilo, Magalhães & Moniz, L.da –Editores, Largo dos Loyos, 14, Porto 1913. (pag. 47).
[25] Luís Vaz de Camões (1524-1580) soneto VII in, in Obras de Luís de Camões Lello & Irmão-Editores Rua das Carmelitas 144, Porto 1970. (pag.6).
[26] Ralph Waldo Emerson (1803–1882). The Rhodora 1834/39 in The Works of Ralph Waldo Emerson, V. 9 in 12 vols. Fireside Edition, Boston and New York, 1909.(pág. 39). Tradução: Rododendro: ¿Perguntamo-nos de onde vem esta flor?//!Rododendro! Se os sábios perguntam porquê./Este encanto gasta-se da terra ao céu:/ Diz-lhes, querido, isto se os olhos se fizeram para ver,/Então a Beleza é a sua própria razão de ser.
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Cap. 12 - O coreto
 
Em dia de música, S. Lázaro é o ponto de reunião elegante. Quase se não cabe lá, tal é a multidão que ali passeia com ar endomingado e solene. Há bancos por toda a parte, mas os que primeiro se enchem são os que estão em volta do pequeno lago central. [1]
E se não há jardim sem o murmúrio da folhagem e da água, não está completo um jardim sem música.
Assim instalou-se um coreto octogonal com uma base de pedra e com pilares que sustentam a cobertura em ferro fundido.
jsl69_thumb1fig. 72 – Coreto do Jardim de S. Lázaro. Foto in Bucólico Anónimo http://bucolico-anonimo.blogspot.pt/
Todos os Domingos o Coreto do jardim de S. Lázaro recebia as Bandas dos Regimentos que tocavam para os inúmeros assistentes.
Camilo Castelo Branco frequentador do Jardim com a sua escrita mordaz descreve o ambiente num dia de música no coreto.
Se o leitor está no Porto, e vai apaixonado ao Jardim de S. Lazaro, e conhece a família da menina casadoura, por quem anda em brasa, faz a sua primeira cortezia, e foge de encontral- a segunda vez, porque repetir a cortezia é, além de provincianismo puro minhoto, cousa que cheira a inconveniência, e pôde ser até escândalo. Resta lhe o expediente commum, e salva assim a honra das familias : é amoutar-se como fauno por entre as murtas e bosques de acácias, lobrigando aqui, e além, a caça estranha. No Jardim de S. Lazaro os dous sexos dão ao passeio o que as sovinas municipalidades não teem querido dar-lhe ; isto é, uma luxuosa superabundância de estatuas, as quaes, tirante a alma, nem sempre se avantajam ás do mármore nacional. Sentam-se as meninas, mui bem compostas e ageitadas de mãos e cabeça, e alli se estão deleitando na vista do repuxo, em quanto o papá rufa com trez dedos na tampa da caixa do tabaco o compasso da modinha conhecida de Verdi ou Donizetti, que as trombetas bastardas estão executando. . . executando, sim, é a palavra. [2]

E Alberto Pimenta retrata os Domingos em S. Lázaro quando o jardim já era frequentado por outra classe social.
A única distracção que podia, n'esse tempo, animar os domingos, depois da missa da uma hora na Trindade, era o jardim de S. Lazaro, pequeno, fechado por grades de ferro e ladeado por edificios, que lhe tolhiam a vista. Tocava ahi uma banda regimental, que attraía a concorrência. Às três horas acabava a música no jardim de S. Lazaro. As familias gradas retiravam-se para as suas casas, indo jantar um pouco mais tarde do que o costume.  Depois d'essa hora era alli que as criadas de servir ouviam as declarações amorosas dos Martes da guarda municipal, até que, descendo a noute, as criadas recolhiam apressadamente para ir lavar a louça do jantar, que, por concessão obsequiosa dos patrões, tinha ficado encastellada na cozinha. [3]
Num outro texto de Camilo Castelo Branco, o grande escritor relaciona o Jardim de S. Lázaro, com o Mabille, um jardim de Paris junto aos Campos Elísios, onde uma orquestra colocada num coreto tocava música de baile, na animação das tardes e noites de boémia no Segundo Império. [4]
Escreve Camilo: Passeavam nostalgicos as suas indigestões de trufas pelos boulevards. À noite, esporeados pelo tédio, entravam em Mabille, e respiravam um ar saturado de anisette, de patchouly, de marrasquino e almíscar — o bafio das carnes nuas bezuntadas e sacudidas pelo regambolear do cancan et demi.*
Sahiam d’ali, todavia, frios e impollutos como os sacerdotes de Cybele; e, ao outro dia, afivelam as malas, e regressavam da Europa, cheios de cansaço e com mais alguns gallicismos, a restaurar-se no jardim de S. Lazaro e nas Fontainhas.

*Nous avons le cancan gracieux, la Saint-Vemonienne, le demi-cancan, le cancan, le cancan et demi, et le chant. Cette derniere danse est la seule prohibée. Alph.Karr. [nota de Camilo] [5]
jsl70_thumb1fig. 73 - Bal Mabille, Dessin à l'encre de Chine et gouache 18,7 x 27,3 cm. Bibliothèque nationale de France.
Nos anos trinta do século passado, ainda se realizavam concertos em S. Lázaro como se pode observar num extraordinário quadro de Nadir Afonso.
jsl71_thumb1fig. 74 - Nadir Afonso Coreto do Jardim de São Lázaro, c. 1938, óleo sobre tela colada em aglomerado de madeira. 21,5 x 32,2 cm. Fundação Nadir Afonso.
O tema é quase um pretexto para criar uma atmosfera que se aproxima do abstracionismo lírico acentuada pelas pinceladas espessas.
O quadro divide-se em faixas horizontais. No primeiro plano o azul da banda. Depois contrastando ocres e amarelos dos caminhos de saibro. Segue-se de novo uma faixa escura com os espectadores do concerto. Finalmente ao fundo e na faixa superior, o verde do jardim. O ritmo vertical é dado subtilmente pela vertical de um dos pilares do coreto e pelos trocos das árvores.
E nos anos 40, António Cruz pinta duas aguarelas do coreto, uma no Outono e outra no Inverno.
jsl72_thumb1fig. 75 - António Cruz (1907-1983), Coreto. Jardim de S. Lázaro, 1941. Aguarela In Catálogo da Exposição António Cruz 1907-2007 no Museu Nacional Soares dos Reis de 14 de Dezenbro de 2007 a 31 de Janeiro de 2008.
Na primeira sob uma melancólica luz de Outono, o Jardim é desenhado em tons azulados e dourados, a partir da rua de S. Lázaro (na República Avenida Rodrigues de Freitas). No primeiro plano o gradeamento do jardim. As tílias que enquadram a composição estão nuas e sem folhas, bem como as árvores junto do coreto vazio e silencioso que centra o desenho. Nos bancos do jardim três figuras isoladas. Uma outra atravessa o jardim em direcção à porta, enquanto ao fundo se distinguem mais dois vultos.
Na outra aguarela de António Cruz, o jardim é também visto do exterior, do lado da Biblioteca, e apesar de um tom mais cinzento e do coreto vazio, o quadro parece mais animado de pessoas. Um casal e uma outra personagem caminham pelo jardim em direção à Praça dos Poveiros (antigo largo de S. André). Duas figuras estão isoladas nos bancos de jardim, mas uma delas folheia o jornal junto de uma outra de costas.
jsl73_thumb1fig. 76 - António Cruz, Coreto. Jardim de S. Lázaro 1941. Aguarela In Catálogo da Exposição António Cruz 1907-2007 no Museu Nacional Soares dos Reis de 14 de Dezenbro de 2007 a 31 de Janeiro de 2008.

Os Coretos dos jardins da nossa infância
Nos agora (quase?) emudecidos coretos dos jardins da cidade, ainda se ouvia música na primeira metade do século XX, pelas bandas da Guarda Republicana, da Infantaria, dos Bombeiros Voluntários, da PSP, etc., como José Cid canta, nas suas (e minhas) memórias de infância, esses domingos no jardim:

A banda já chegou
àquele domingo, no jardim
com fardas engomadas
e um perfume de jasmim.

E enche-se o coreto
de trompetes e trombones
de clarins
e saxofones.
Foi há tanto tempo
num domingo no jardim
era como se a banda
só tocasse para mim
e o maestro regia
com tais modos de importância
que marcou a minha infância
marias e magalas, mão na mão,
crianças de berlinde ou de pião,
senhores empertigados
ofereciam rebuçados
às senhoras
pois então!
E o largo do coreto, pouco a pouco
enchia-se no quadro mais barroco
e o homem das castanhas
com as suas artimanhas
enganava-se no troco.
Foi há tanto tempo
num domingo, no jardim
era como se a banda
só tocasse para mim.
E o maestro regia
com tais modos de importância
que marcou a minha infância
marias e magalas, mão na mão,
crianças de berlinde ou de pião,
senhores empertigados
ofereciam rebuçados
às senhoras
pois então!
E o largo do coreto, pouco a pouco
enchia-se no quadro mais barroco
e o homem das castanhas
com as suas artimanhas
enganava-se no troco.
Marias e magalas, mão na mão,
crianças de berlinde ou de pião,
senhores empertigados
ofereciam rebuçados
às senhoras
pois então!
E o largo do coreto, pouco a pouco
enchia-se no quadro mais barroco
e o homem das castanhas
com as suas artimanhas
enganava-se no troco.
[6]

E o agora - quase mudo - coreto de S. Lázaro

jsl74_thumb1fig. 77 - foto Wilkipedia

Muita gente inda não sabe,
Digo com melancolia,
O valor desse coreto,
Se soubesse não agredia,
Muito menos desprezava,
Mas, com carinho, cuidava
Dele de noite e de dia!
[7]

[1] Artur Magalhães Basto(1894-1960), O Porto do Romantismo, Imprensa da Universidade,Coimbra1932.
[2] Camilo Castelo Branco, Annos de Prosa, segunda edição revista e correcta pelo author. Companhia Editora de Publicações Illustradas. Travessa da Queimada 35, Lisboa 1863. (pag.62).
[3] Alberto (Augusto de Almeida) Pimentel (1849-1925), O Porto Ha Trinta Annos, Livraria Universal de Magalhães & Moniz , Largo dos Loyos 12, Porto 1893.
[4] Ver neste Blogue Um Percurso por Paris no Segundo Império 2 http://doportoenaoso.blogspot.pt/2013/08/um-percurso-por-paris-do-segundo.html
[5] Camilo Castelo Branco, O Degredado in Novellas do Minho IX, Livraria Editora de Mattos Moreira & C.ª 68, Praça de D. Pedro, Lisboa 1877. (pág. 17). A nota é de Camilo.
[6] José Cid/ Mário Contumélias, o largo do coreto, canção classificada em 7º lugar no Festival RTP 1978. [ver vídeo em http://youtu.be/eJQUIokVM8U]
[7] Antonio Costta (1972) Coreto de Itabaiana 2014, Poema para o Centenário do Coreto de Itabaiana.
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Cap. 13 – Os Bancos e os Candeeiros

Os Bancos do jardim

No banco de jardim,
o tempo se desfaz
e resta entre ruídos
a corola de paz.
No banco de jardim,
a sombra se adelgaça
e entre besouro e concha
de segredo, o anjo passa.

No banco de jardim,
o cosmo se resume
em serena parábola,
impressentido lume.
  [1]

Até aos anos 60 do século XIX, supõe-se não existirem bancos no jardim de S. Lázaro e a existirem, como alguns textos parecem referir, não se conhece o seu desenho. Acresce que durante os concertos no coreto eram alugadas cadeiras pelo Asilo de Mendicidade.
Ao longo da segunda metade do século, sente-se por toda a Europa a influência de Paris do Segundo Império, com a criação pelo Barão de Haussmann e por Adolphe Alphand dos boulevards arborizados e dos parques e jardins de Paris. Alphand, o colaborador e depois sucessor de Haussmann como Perfeito de Paris, abre o Service des Promenades et Plantations, e ao encomendar ao arquitecto G. Davioud o desenho dos bancos para os jardins e boulevards afirmava: ...qu'un banc soit un banc, et non un rocher, un fragment de colonne ou d'entablement, et ainsi du reste. Rien est plus beau que le vrai. [2]


jsl80_thumb1fig. 78 – Adolphe Alphand. Banco de Jardim. In Les Promenades de Paris. Vol. 2, J. Rothschild, Éditeur, 13, Rue ses S.tes Pères, Paris 1867-1873.
jsl79_thumb1fig. 78 -  Adolphe Alphand. Banco de jardim in Les Promenades de Paris. Vol. 2, J. Rothschild, Éditeur, 13, Rue ses S.tes Pères, Paris 1867-1873.
São então desenhados várias peças de mobiliário urbano entre as quais alguns tipos de bancos.
O desenho desses bancos, com diversas variantes e adaptações, espalharam-se por toda a Europa, incluindo Lisboa e Porto.
Erica Alexandra Balata Gentil [3] apresenta dois desenhos indicados e aprovados por Frederico Ressano Garcia para Lisboa, variantes aos dois modelos mais difundidos na segunda metade do século.
Um deles é o conhecido e difundido banco de jardim de ripas de madeira e com pés de ferro forjado.
jsl76_thumb1fig. 79 - Frederico Ressano Garcia (1847-1911). Desenho junto ao programma da arrematação do banco de ferro e madeira para a Avenida da Liberdade. Vista em perspectiva do Banco e Planta. Typo n.º2. 1885. Arquivo Municipal de Lisboa . Núcleo Arco do Cego. In Erica Alexandra Balata Gentil, O Banco Público – Significado e Importância deste Equipamento no Espaço Público. Mestrado em Design de Equipamento, Especialidade de Design Urbano e de Interiores, Faculdade de Belas Artes, Universidade de Lisboa, 2011.
jsl94fig. 80 – Os bancos duplos do jardim de S. Lázaro. In Blogue Bucólico Anónimo http://bucolico-anonimo.blogspot.pt/2014/05/jardim-de-sao-lazaro.html
Numa pintura impressionista de Claude Monet a sua esposa, que veste segundo a moda um traje de veludo e damasco, está sentada num destes bancos.  jsl77_thumb4fig. 81 - Claude Monet (1840–1926) Camille Monet ((1847–1879) assise sur un banc de jardin 1873, óleo sobre tela 60,6 x 80,3 cm. The Metropolitan Museum of New York.
No banco, que criando uma diagonal remete o olhar para o jardim onde uma outra personagem de sombrinha passeia no jardim. Neste destaca-se a mancha vermelha dos gerânios floridos, um vermelho que acompanha o chapéu da figura sentada e do ramo de flores pousado no banco do jardim. Este bouquet foi talvez oferecido pela personagem masculina que se debruça sobre Camille, para possivelmente a consolar da morte de seu pai ocorrida no ano em que Monet pintou o quadro. O chapéu desta personagem, a cabeça de Camille e a mão esquerda que se apoia na sombrinha formam outra diagonal que se opõe à primeira criando uma dinâmica e uma relação entre as três personagens.jsl77a_thumb1 fig. 81a - Claude Monet (1840–1926) Camille Monet ((1847–1879) assise sur un banc de jardin 1873, óleo sobre tela 60,6 x 80,3 cm. The Metropolitan Museum of New York.
James Tissot mostra um deste bancos numa sua utilização frequente com uma personagem masculina de chapéu, fumando e lendo um livro.
jsl83_thumb1fig. 82 - James Jacques Joseph Tissot (1836?-1902), La lecture sur le banc du parc, início do seculo 20, água forte 10,7 x 14,2 cm. Musée des Beaux-Arts, Nantes.
Augusto César dos Santos arquitecto municipal de Lisboa inspirado no desenho parisiense, desenhou um outro tipo de banco, neste caso duplo, também com uma estrutura de ferro forjado, com um assento e um apoio constituídos por uma ou mais tábuas de madeira.
jsl78_thumb1fig. 83 – Banc double. in Les Promenades de Paris. Vol. 2, J. Rothschild, Éditeur, 13, Rue ses S.tes Pères, Paris 1867-1873.
jsl75_thumb1fig.84 - Augusto César dos Santos, Projecto do banco duplo, 1882. Arquivo Municipal de Lisboa . Núcleo Arco do Cego. In Erica Alexandra Balata Gentil, O Banco Público – Significado e Importância deste Equipamento no Espaço Público. Mestrado em Design de Equipamento, Especialidade de Design Urbano e de Interiores, Faculdade de Belas Artes, Universidade de Lisboa.
 
O namoro no banco de jardim

jsl91fig. 85 – Théophile Alexandre Steinlen (1859-1923). Amoureux sur un banc 1902. Eau-forte, vernis mou et aquatinte 39,9 x 51,4 cm. Bibliothèque de l'Institut National d'Histoire de l'Art.
E é conhecida a canção de Georges Brassens (1921-1981) Les amoureux des bancs publics de 1954.

Les amoureux qui se bécotent sur les bancs publics,
……………………………………..
car à la vérité, ils sont là c'est notoire, Pour accueillir quelques temps les amours débutants ………………………………………
Quand les mois auront passé quand seront apaisés leurs beaux rêves flambants,
Quand le ciel se couvrira de gros nuages lourds, Ils s'apercevront, émus, que c'est au hasard des rues, sur l'un de ces fameux bancs,
Qu'ils ont vécu le meilleur morceau de leur amour...
[4]



[1] Carlos Drummond de Andrade No banco do Jardim in Poesia Completa. Editora Nova Aguilar, Rio de Janeiro 2002.
[2] Adolph Alphand (1817-1891). Tradução: …que um banco seja um banco, e não uma pedra, um fragmento de coluna ou de cornija, e assim sucessivamente. Nada mais belo que o verdadeiro.
[3] Erica Alexandra Balata Gentil, O Banco Público – Significado e Importância deste Equipamento no Espaço Público. Mestrado em Design de Equipamento, Especialidade de Design Urbano e de Interiores, Faculdade de Belas Artes, Universidade de Lisboa, 2011.
[4] Pode ser visto no YouTube https://www.youtube.com/watch?v=AFC_ATRExsA
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Os candeeiros – breve apontamento

Em 1855 inicia-se a instalação da iluminação pública a gás na cidade do Porto.
Foram então desenhados candelabros (candeeiros) e consolas seguindo o modelo parisiense, que posteriormente se vieram a simplificar.
jsl84fig. 86 - Candelabros e Consolas para servir à iluminação a Gás da Cidade do Porto 1855. In Ana Cardoso de Matos (coord) Fátima Mendes e Fernando Faria, O Porto e a Electricidade. Museu da Electricidade EDP, Agosto 2003.
Um dos modelos parisienses
jsl81  jsl92
fig. 87 – Candélabre ordinaire in Adolphe Alphand, Les Promenades de Paris. Vol. 2, J. Rothschild, Éditeur, 13, Rue ses S.tes Pères, Paris 1867-1873. e fig. 88 – Typo de Lampeão. Illuminação a petróleo.
No postal do início do século vemos um dos candeeiros a gás no jardim de S. Lázaro.
jsl60afig. 89 – Postal do início do século XX. c.1905.
E na Rua de S. Lázaro (Rodrigues de Freitas) junto à entrada do Jardim.
jsl95fig. 90 - Detalhe de Alberto Ferreira Jardim de S. Lázaro e Rua de S. Lázaro 1905. Vista junto à Rua das Fontaínhas negativo em vidro Tipografia Peninsular in Mário João Mesquita A Cidade dos Transportes, Multitema Porto 2008.
No início do século XX inicia-se a iluminação eléctrica no Porto e o gás vai sendo substituído pela electricidade como fonte de energia. A iluminação pública irá beneficiar ao longo das primeiras décadas do século sendo os candeeiros substituídos por novos, que no jardim de S. Lázaro se mantêm, tendo apenas sido utilizados os globos esféricos.jsl82fig. 91 – Os candeeiros actuais do jardim de S. Lázaro. Foto em Bucólico Anónimo http://bucolico-anonimo.blogspot.pt/
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Cap. 14 – As esculturas

O Monumento a Marques de Oliveira de Soares dos Reis e Marques da Silva

jsl96fig. 92 - Soares dos Reis e Marques da Silva monumento a Marques de Oliveira 1929. Foto do blogue Porto Antigo de Gabriel Silva http://www.portoantigo.org/
Colocado em frente à Academia de Belas Artes de que Marques de Oliveira [1] foi Professor e Director. O busto foi esculpido em 1881 por Soares dos Reis numa troca com Marques de Oliveira que pintou o retrato do escultor. Em 11 de Abril de 1929, dois anos após a morte do mestre, foi inaugurado o monumento em sua homenagem da autoria do arquitecto Marques da Silva.
O busto de Marques de Oliveira é de facto uma cópia em bronze do busto em gesso realizado em 1881 por Soares dos Reis numa “troca” de amizade com Marques de Oliveira que pinta o seu retrato.
O busto em gesso tendo na base uma paleta com os respectivos pincéis e o retrato de Soares dos Reis feito por Marques de Oliveira.
jsl97     jsl98
fig. 93 - António Soares dos Reis (1847-1889). O pintor Marques de Oliveira. Gesso patinado 69 x 41 x 26 cm. Museu do Chiado – Museu Nacional de Arte Contemporânea.  e  fig. 94 - João Marques de Oliveira, (1853-1927) Retrato de António Soares dos Reis 1881. Óleo sobre tela 72,9 x 54,5 cm. Museu Nacional de Soares dos Reis.
Curiosamente é na contestação desta homenagem, que um grupo de estudantes de Belas Artes, pugnando por uma modernização das artes, forma o Grupo + Além. O grupo de que faziam parte Domingos Alvarez, Guilherme Camarinha, Augusto Gomes, Ventura Porfírio, Laura Costa, Reis Teixeira, e os futuros arquitectos Januário Godinho, Fernando Cunha Leão e Fortunato Cabral, escreve um manifesto Em Defesa da Arte e organiza uma exposição no Salão Silva Porto.

O Busto de Silva Porto de Barata Feyo

Em 1950 é inaugurado um busto de Silva Porto. [2]
O pintor é representado com uma expressão pensativa e veste uma bata de escultor da época. [3]
jsl100fig. 95 – Salvador Barata Feyo (1899-1990). Busto de Silva Porto ing. 1950, bronze altura 92 cm. Foto Claudio Reis in http://www.skyscrapercity.com/

jsl99fig. 96 -Busto de Silva Porto ing. 1950, bronze altura 92 cm. In Bucólico anónimo  http://bucolico-anonimo.blogspot.pt/2014/05/jardim-de-sao-lazaro.html
A
 Ternura (A Criança e a Corça) de Henrique Moreira

No lado sul do jardim encontra-se a escultura A Ternura [4] de Henrique Moreira (1890 - 1979).jsl101fig. 97 – Henrique Moreira (1890-1979) bronze altura: 123; largura: 62,5; profundidade: 90,4. Foto http://bucolico-anonimo.blogspot.pt/2014/05/jardim-de-sao-lazaro.html
Uma criança nua abraça ternamente um pequeno veado, que acariciando con ternura humilde [5] inclina a sua cabeça com a ternura de uma mãe que embala o filho.

O nadador de Sérgio Taborda [6]

No centro do lago nada um nadador. A escultura de Sérgio Taborda, em mármore, de um nadador à escala natural não parece adequar-se ao pequeno lago do Jardim de S. Lázaro. É certo que o nadador é uma metáfora, um símbolo da determinação da vontade de chegar a um fim. Assim o diz Jorge de Lima no seu Poema do Nadador:
A água te lambe, a água te abraça
a água te leva, a água te mata.
Nada, nadador!
Senão, que restara de ti, nadador?
                                 Nada, nadador.
[7]

jsl102fig. 98 – Sérgio Taborda (1958) O Nadador mármore 1985. Foto de Bucólico Anónimo http://bucolico-anonimo.blogspot.pt/2014/05/jardim-de-sao-lazaro.html

Ou como no poema do argentino Viel (Hector Viel Temperley), uma quase oração do homem que nada tentando atingir o inalcançável:
…Soy el hombre que nada hasta los cielos
con sus largas miradas.
Soy el nadador, Señor, sólo el hombre que nada.
Gracias doy a tus aguas porque en ellas
mis brazos todavía
hacen ruido de alas...
[8]

O Torso de João Cutileiro

Dai-me um torso dobrado pela música, um ligeiro
pescoço de planta,
onde uma chama comece a florir o espírito
.
[9]

jsl103fig. 99 – João Cutileiro (1937) Torso 1985 mármore rosa. Foto http://bucolico-anonimo.blogspot.pt/2014/05/jardim-de-sao-lazaro.html
Realizado para o Simpósio Internacional de escultura em Pedra de 1985, O Torso de João Cutileiro filia-se nos fragmentos das Afrodites da escultura clássica revistos pelo romantismo, encontrando no Jardim de S. Lázaro o seu local apropriado.
Cutileiro já havia realizado uma escultura sob o mesmo tema, que se encontra no Museu de Évora.
jsl104fig. 100 - João Cutileiro (1937), Fragmento de Francis 1979. Mármore altura: 70. Museu de Évora.
Em ambas Cutileiro suprime os ombros e o arranque dos braços.
O tema do Torso de Mulher, foi tratado por diversos autores recordando esses torsos antigos fragmentos de estátuas grega e romanas dedicadas de um modo geral a Afrodite ou Vénus na mitologia romana ditas anadyomène que em grego significa nascida do mar. São assim chamadas já que segundo a mitologia Afrodite grega consagrada na Teogonia de Hesíodo, sai das águas Secouait, vierge encor, les larmes de sa mère,/Et fécondait la terre en tordant ses cheveux. [10] Afrodite torcendo os cabelos com que fecunda a Terra, explica a inclinação dos ombros. Afrodite, deusa do amor faz compreender os versos de David Mourão Ferreira:
Não, meu amor...Nem todo o amor é carne:
é também água, terra, vento, fogo...
É sobretudo sombra é despedida;
onda de pedra em cada reencontro;
no parque da memória o fugidio
vulto da Primavera em pleno Outono...
Nem só de carne é feito este presídio,
pois no teu corpo existe o mundo todo! [11]
jsl105fig. 101 - Aphrodite Anadyomene século I a.C.mármore 42,6 cm. Museo civico archeologico (Bologna).
Na escultura o torso de Afrodite teve várias interpretações ao longo da história. Em Portugal lembremos apenas o Torso de Mulher de Francisco Franco, escultura de 1922, passada a bronze em 1957 e colocada nos jardins da Fundação Calouste Gulbenkian. A referência a Afrodite, mais uma vez se encontra na posição dos ombros implicando a posição dos braços torcendo os cabelos.
jsl106fig. 102 - Francisco Franco (1885-1955), Torso de Mulher 1922. Bronze 115 x 56 x 43 cm. Museu do Chiado-Museu de Arte Contemporânea.
Na pintura De Chirico e Henri Matisse ambos utilizam a cópia em gesso de um torso de Afrodite utilizado no Desenho de Estátua das Escolas de Belas Artes. [12]
jsl107fig. 103 – Torso de Afrodite, gesso utilizado nas Belas Artes para o Desenho de Estátua.
Torso de Afrodite de Van Gogh

Van Gogh desenha e pinta o torso de Afrodite por diversas vezes quando da sua estadia em Paris nos anos oitenta do século XIX.
jsl108fig. 104 - Vincent van Gogh (1853-1890), Torso feminino, Estudo 1887. Carvão sobre papel. Van Gogh Museum, Amsterdam, Netherlands.
jsl86fig. 105 - Vincent van Gogh, Torso feminino 1887/88, óleo sobre tela 73 x 54 cm. Ashinoko Museum of Fine Art Hakone, Japão.
A Incerteza do Poeta de De Chirico 1913
jsl109fig. 106 - Giorgio de Chirico (1888-1978), L'incertezza del poeta (A incerteza do poet) 1913, 106 × 94 cm. The Tate Gallery Londres.
Na obra misteriosa e melancólica A incerteza do poeta de De Chirico, a Afrodite em gesso está colocada num estrado junto a um enorme cacho de bananas. Com uma luz de fim de tarde, a arcada de um edifício de que não se vê a parte superior, projecta uma sombra que como o gesso e o cacho, projectam sombras geometrizadas. Ao fundo um muro inquietante de tijolo e por detrás deste um comboio que se desloca deixando um rasto de fumo, único sinal embora indirecto da presença humana.

Torso de gesso e bouquet de Henri Matisse 1919

jsl110fig. 107 – Henri Matisse (1869-1954) Torso de gesso e bouquet 1919. Óleo sobre tela 113 x 87 cm. Museu de arte de S. Paulo Brasil.
Na pintura de Matisse, o mesmo torso de Afrodite aparece colocado sobre uma mesa junto a uma jarra de flores. E Eduardo Viana pinta também uma natureza morta em que o torso aparece junto dos instrumentos do pintor (a paleta e os pinceis) e uma jarra de flores.

fig. 107 a - Eduardo Viana, Natureza Morta s/d, óleo s/ tela 195 x 90 cm. Centro de Arte Moderna-Fundação Calouste Gulbenkian.


O torso deitado

Um outro torso feminino, cujo autor desconheço mas que suponho ter sido realizado no Simpósio referido, em granito lembra neste caso as esculturas primitivas de deusas da fertilidade. Basta lembrar a célebre Mulher de Willendorf.
jsl111fig. 108 - Autor desconhecido torso de mulher 1985. Foto JotaCartas Wilkipedia.
A escultura está rodeada de camélias tombadas sobre a relva. Não sei se deliberadamente ou se foram os deuses do Olimpo uma delas pousa no sexo da Afrodite.

Sem título de Zulmiro de Carvalho

jsl112fig. 109 – Zulmiro (Neves) de Carvalho (1940), Sem título, 1985. Foto do blogue Silva Texas http://silvatexas.blogspot.pt/2011/03/minha-infancia-ou-criancices-de-alguem.html
Zulmiro realiza uma enigmática coluna, não e/ou apenas uma pedra abandonada, mas uma construção - ou o que resta dela - já que evidencia a mão de quem a criou pelas ranhuras e pelo corte horizontal com um significado que radica na coluna ou no pilar, letra ou elemento base da arquitectura - de qualquer arquitectura - como refere Victor Hugo:
Tandis que Dédale, qui est la force, mesurait, tandis qu'Orphée, qui est l'intelligence, chantait, le pilier qui est une lettre, l'arcade qui est une syllabe, la pyramide qui est un mot, mis en mouvement à la fois par une loi de géométrie et par une loi de poésie, se groupaient, se combinaient, s'amalgamaient, descendaient, montaient, se juxtaposaient sur le sol, s'étageaient dans le ciel, jusqu'à ce qu'ils eussent écrit, sous la dictée de l'idée générale d'une époque, ces livres merveilleux qui étaient aussi de merveilleux édifices. [13]

[Enquanto que Dédalo que é a força, media, enquanto que Orfeu que é a inteligência, cantava, o pilar que é uma letra, a arcada que é uma sílaba, a pirâmide que é uma palavra, postos em movimento, simultaneamente por uma lei de geometria e por uma lei de poesia, agrupavam-se, combinavam-se, amalgamavam-se, desciam, subiam, justapunham-se no solo, sobrepunham-se no céu, até terem escrito sob o ditame de uma época, estes livros maravilhosos, que eram também edifícios maravilhosos.]


Final
Agora, como escrevia Eugénio de Andrade, para as bandas de S. Lázaro, as ruas estão coalhadas de silêncio. Os pas­sos de quem regressa tarde a casa são raros, até os mais leves se ouvem à distância. Na noite alta, o repuxo do jardim tem a nitidez de um coração muito jovem. Fora as magnólias, não há árvore com folha. Os bancos estão desertos…  [14]

jsl116fig. 110 - Georges Seurat (1859–1891) O Jardineiro, 1882/83. Óleo sobre madeira 15,9 x 24,8 cm. The Metropolitan Museum of Art New York.

E como
O que mata um jardim não é mesmo
alguma ausência
nem o abandono…
O que mata um jardim é esse olhar vazio
de quem por eles passa indiferente.
[15]

Por isso
 Não esqueçais o jardim, eu vos rogo, o jardim com suas cancelas douradas. [16]

[1] Sobre o pintor Marques de Oliveira ver neste blogue 3. Marques de Oliveira (1853/1927) in Apontamentos sobre a pintura em Portugal na esquina dos séculos 19 e 20 (II parte) - http://doportoenaoso.blogspot.pt/2011/09/apontamentos-sobre-pintura-em-portugal_28.html

[2] Silva Porto (1850 – 1893).António Carvalho da Silva acrescentou o apelido Porto ao seu nome numa homenagem à sua cidade natal. Sobre Silva Porto ver neste blogue http://doportoenaoso.blogspot.pt/2011/09/apontamentos-sobre-pintura-em-portugal.html
[3] Existe um busto semelhante no parque D. Carlos I nas Caldas da Rainha.
[4] Existe uma escultura semelhante no parque D. Carlos I nas Caldas da Rainha.
[5] Frederico Garcia Lorca Hora de estrelas, 1920 de Libro de Poemas, 1921.In Obras Completas, Aguilar S.A. de Ediciones. Juan Bravo 38, Madrid 1969, (pag.254).
[6] O tema do nadador na escultura recente está representado em La Cisterniga com uma escultura de Belén González (1954). Em Vigo com uma escultura de Francisco Paco Leiro(1957) em Vecindario, Santa Lucia na Gran Canaria por uma escultura de Paco Perez Betancor (?) e ainda em Londres pela gigantesca London ink swimmer.
[7] Jorge (Mateus) de Lima (1895-1953) , Poema do Nadador 1934in Poemas Escolhidos, selecão de Gilberto Mendonca Teles, Global Editora e Distr. Lt.da, São Paulo 1994. É conhecido pelo poema Essa negra fulô dito por João Villaret.
[8] Héctor Viel Temperley (1933-1987) El Nadador 1967 in Obra Completa. Ediciones del Dock 2006.
[9] Herberto Helder (1930), O amor em visita in Ou o Poema Contínuo, edições Assírio & Alvim Lisboa 2004.
[10] Alfred Musset (1810-1857) La désespérance nouvelle de Poésies nouvelles (1833). In Henri Sensine ChrestomathieFrançaise du XIXe Siècle(Poètes), Payot & C.ie Libraires-Éditeurs Lausanne 1907. (pag.151, 152,153). Tradução: Sacudia, virgem ainda, as lágrimas da sua mãe/E fecundava a terra ao torcer os seus cabelos.
[11] David Mourão-Ferreira (1927-1996) Presídio in Obra Poética 1948-1988 , Presença, Lisboa 1988.
[12] O Desenho de Estátua constituía uma das provas de admissão à Escola de Belas Artes do Porto, e prolongava-se numa disciplina do 1º ano dos cursos. Manteve-se no Curso de Arquitectura até 1969, embora na prática fosse substituída por uma disciplina de desenho.
[13] Victor Hugo (1802-1885), Ceci Tuera Cela in Notre Dame de Paris. Edition Illustrée, Perrotin Éditeur Rue Fontaine- Molièr 41, Garnier Frères Palai-Royal Péristyle Montpensier 214, Paris 1844 (pag. 169).
[14] Eugénio de Andrade, A Domingos Peres das Eiras, com umas violetas in Daqui Houve Nome Portugal, Editorial Inova Limitada, Praça Gomes Fernandes 38-2º, Porto 1968. (pag.16).
[15] Mário Quintana (1906-1994), Jardim Interior de A Cor do Invisível, 1989. In Poesia Completa, Editora Nova Aguilar, Rio de Janeiro 2006 (pag. 858).
[16] Friedrich Wilhelm Nietzsche, Alem do Bem e do Mal, Prelúdio de uma Filosofia do futuro. Tradução de Paulo César de Souza ,Companhia de Bolso 2005. (pag.37).
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