Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















terça-feira, 11 de agosto de 2015

O Génio da Arquitectura descobre os Progressos da sua Arte

Nas pesquisas em torno de Paris de Haussmann encontrei uma publicação de 1801 Plans, Coupes, Élévations des plus belles Maisons et des Hotels construits à Paris et dans les environs. [1] do arquitecto Jean-Charles Krafft (1764-1833), que iremos examinar.
Comecemos pelo frontispício, uma gravura de Nicolas Ransonnette (1745-1810) Le Génie de l’Architecture découvrant les progrès de son Art que dá o título a este texto e que desde logo refere que os projectos apresentados são escolhidos pela sua modernidade. Leia-se o Progresso como a afirmação da arquitectura neoclássica.

g1fig. 1 - Jean-Charles Krafft (1764-1833) e Nicolas Ransonnette (1745-1810). Frontispício de  Plans, Coupes, Élévations des plus belles Maisons et des Hotels construits à Paris et dans les environs.
Ao elaborar um texto sobre esta curiosa alegoria da Arquitectura O Génio da Arquitectura descobre os Progressos da sua Arte [2], encontrei um texto de Artur Simões Rozestraten Um demônio alado e o arquiteto ausente: aspecto do entendimento da concepção e representação da arquitetura no início do século 19 que também e com a devida vénia, utilizaremos para a compreensão da gravura [3].

[1] Jean-Charles Krafft (1764-1833) e Nicolas Ransonnette (1745-1810). Plans, Coupes, Élévations des plus belles Maisons et des Hotels construits à Paris et dans les environs. Publiés par J.CH. Krafft, Architecte, et N. Raisonnette, Graveur. À Paris Chez: Les deux Associés, Krafft, Architecte, rue de Bourgogne, Nº. 1463, faubourg Saint- Germain; et Ransonnette, Graveur, rue du Figuier, Nº. 43, quartier Saint-Pual; Ch. Pougens, Imprimeur-Libraire, quai Voltaire, Nº. 10; Fuchs, Libraire, rue des Mathurins Saint-Jacques, Nº. 334; Calixte Volland, Libraire, quai des Augustins, Nº. 25; Levrault, Libraire, quai Malaquais, au coin de la rue des Petis-Augustins. Del’Imprimerie de Clousier, rue de Sorbonne, nº. 390 Paris, 1801.
[2] Na revisão do texto publicado neste blogue Os Rostos da Arquitectura http://doportoenaoso.blogspot.pt/2010/12/os-rostos-da-arquitectura.html
[3] Artur Simões Rozestraten Um demônio alado e o arquiteto ausente: aspectos do entendimento da concepção e representação da arquitetura no início do século 19, in pós v.18 n.30, São Paulo, Dezembro 2011. Na NET em http://www.revistas.usp.br/posfau/article/viewFile/43746/47368

I Parte O Génio

E se um génio aparecesse diante de ti, e rompesse as correntes que nos aprisionam a essa miserável vida quotidiana – o que tu farias? E.T.A. Hoffman [1]

…O fécondité de l'esprit et immensité de l'univers…. Rimbaud Génie [2]

Tudo quanto verdadeiramente somos, sofre (quando o vamos exprimir, ainda que só para nós mesmos), a interrupção fatal daquele visitante que também somos, daquela pessoa externa que cada um de nós tem em si, mais real na vida do que nós próprios: - a soma viva do que aprendemos, do que julgamos que somos, e do que desejamos ser. Fenando Pessoa [3]

O Frontispício apresenta um génio num cenário arquitectónico. Trata-se do Génio da Arquitectura, uma figura alada e masculina, que desce dos céus para o local de trabalho de um (ausente) arquitecto, trazendo nas mãos um tabuleiro com maquetes de edifícios. A originalidade deste desenho reside no facto de o Génio dominar toda a imagem e a Arquitectura apenas ser figurada pela maquete que transporta e pelo local de trabalho de um ausente arquitecto. Na maioria das imagens da época o Génio está acompanhado pela actividade ou pela figura que se pretende homenagear.
g2fig. 2 – O Génio. Detalhe do Frontispício.

[1] Ernst Theodor Amadeus Wilhelm Hoffmann (1776-1822), compositor e escritor alemão.
[2] Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (1854 -1891) Génie in Illuminations 1875, in Œuvres de Jean-Arthur Rimbaud, Soviété du Mercure de France XV, Rue de l’Échaudé-Saint-Germain, XV, Paris M DCCC XCVIII. (pág.203 e 204).
[3] Fernando Pessoa O Homem de Porlock, sobre o enigmático poema Kubla Kahn de 1798 da autoria do poeta inglês Samuel Taylor Coleridge (1772-1834), publicado no nº 2 da revista Fradique, a 15 de Fevereiro de 1934.

O Génio e a sua representação
A ideia do Génio como um espírito que condiciona, vigia ou intervém no destino do Homem, parte de tempos remotos.
Na Grécia eram os Daimons (palavra que deu origem aos Demónios), que os romanos designaram por Génios.
Estes eram seres de origem divina, intermediários entre os deuses e os homens, e que tinham como função proteger e guiar cada indivíduo. Simbolizavam o Espírito que presidia ao Destino.
Para Platão em todos nós reside um Daimon (fig.3) responsável pelo “divino delírio” que precede a criação.
Socrate: …Il y a une troisième espèce de possession et de délire, celui qui vient des Muses. Quand il s'empare d'une âme tendre et pure, il l'éveille et la transporte, et en exaltant dans des odes et des poèmes de toute sorte d'innombrables hauts faits des anciens, il fait l'éducation de leurs descendants. Mais quiconque aproche des portes de la poésie sans que les Muses lui aient soufflé le délire, persuadé que l'art suffit pour faire de lui un bon poète, celui-là reste loin de la perfection, et la poésie du bon sens est éclipsée parla poésie de l'inspiration. [1]
[Sócrates:…Há uma terceira espécie de possessão e de delírio, que vem das Musas. Quando toma conta de uma alma terna e pura, desperta-a e transporta-a, exaltando em odes e poemas de todo o género inumeráveis grandes feitos dos antepassados, e educa os seus descendentes. Mas todo aquele que se aproximar das portas da poesia sem que as Musas lhe tenham soprado o delírio, convencido que a arte é suficiente para dele fazer um bom poeta, ficará longe da perfeição e a poesia do bom senso será sempre eclipsada pela poesia da inspiração.]

Com o Cristianismo criou-se a divisão entre génios bons (os Anjos) e os génios maléficos (os Demónios), e o Cristianismo criou ainda o Anjo da Guarda, uma espécie de génio que também reside em todos nós, nos acompanha e protege.

Com o Renascimento e com a revalorização do estatuto do artista retoma-se a ideia de Platão de um espírito civil, de um génio não ligado à religião e que inspira o artista e o impele à criação.
Achille Bocchi (1488–1562) publica em Bolonha Symbolicarum quaestionum de universo genere quas serio ludebat libri quinque em 1555 [2], onde na edição de 1574 insere precisamente uma imagem de Sócrates e do seu Génio.
A imagem representa Sócrates iluminado pelo Sol (Apolo) sentado e desenhando, tendo na mão esquerda um compasso e uma régua (símbolos da Arquitectura), e a quem o Daimon, neste caso o Eudaimon (o Génio Bom) inspira e parece dar conselhos ao artista que desenha (a Pintura). Por detrás do Génio vê-se uma peça que poderá indicar a Escultura.
g34fig. 3 - Giulio Bonasone (activo entre 1530 e 1574) de um desenho de Prospero Fontana (1512-1597), estampa in Achille Bocchi, (1488–1562) Symbolicarum quaestionum, 1555.
Numa legenda antecedendo a imagem: PICTURA GRAVIUM OSTENDUNTUR PONDERA RERUM. QUAEQUE LATENT MAGIS, HAEC PER MAGE APERTA PATENT. [Com esta imagem pretende-se fazer compreender o quão grave é o peso das obras de extraordinária importância. Mediante as figuras claramente se manifestam os significados mais recuperados.]

[1] Platon Phedre página 244 in Oeuvres de Platon. Ion. Lysis, Protagoras, Phèdre, Le Banquet, traduction nouvelle avec des notices et des notes par E. Chambry, Librarie Garnier Frères, 6 rue des Saints-Pères, Paris 1919.
[2] Achillis Bocchi i Bonon, Simbolicarum Quaestionum, De universi genere, quas serio Ludebat, Libri Quinque. Bononiae, Apud Societatem Typographiae Bononiensis i M.D.LXXIIII. (Livro I pág.8).

E numa outra estampa da obra de Achillis Bocchi (Livro V, página 344) aparece já um Génio alado e com uma chama na cabeça. Numa cartela, que o Génio segura, estão representados diversos objectos, animais e um monstro marinho. Sobre a imagem a legenda: Pyrro Bocchio Filio. Ex Misticis AEgyptiorum Literis.
[Preferiu-se utilizar a imagem existente no British Museum em detrimento da imagem do livro]
g35fig. 4 – Achillis Bocchi i Bonon. symbolicarum quaestionum de Universo genere quas serio ludebat. 1555. Estampa 147. The British Museum.

Um outro italiano Vincenzo Cartari (c.1531–1569) publica um outro tratado Le Imagini Degli Dei degli Antichi, cuja edição de 1608 são acrescentadas algumas imagens. [1] O livro dividido em 15 capítulos, com textos clássicos traduzidos e adaptados por Cartari para o italiano, trata de deuses maiores e deuses menores, bem como de heróis com eles relacionados. Apesar de não ter nenhuma referência ao Génio, a iconografia dos deuses ou a eles associados permite ir construindo uma imagem do Génio.
Já Cesare Ripa (Giovanni Campani) de Perugia que viveu entre 1555 (ou 1560) e 1622, escreveu em 1593 um tratado Iconologia overo Descrittione dell'Imagini universal. [2]
Nesta primeira edição Ripa descreve duas iconografias de Génios:
GENIO BVONO secondo i Gentili.
VN Fanciullo, con bellissimi capelli, coronato di platano; in mano terrà un serpente. Così si vede scolpito in alcune medaglie antiche.

[Génio Bom, Um rapaz, com belíssimos cabelos, coroado de folhas de plátano & tendo na mão uma Serpente. Assim está esculpido em algumas medalhas antigas.]
GENIO CATTIVO secondo i Gentili.
Hvomo, grande nero, di volto spaventevole, con la barba, capelli lunghi, neri, in mano tiene un Gufo. Scrive Plutarco, che apparve a Marco Bruto uccisore di Cesare, il Genio cattivo, in questo medesimo modo. Et il Gufo, come uanamente stimavano gl'antichi, è uccello sempre di cattivo augurio. Però Virgilio nel 4. dell'Eneide. disse:
Solaq. culminibus ferali carmine bubo
Saepe queri, & longas in fletum ducere voces.
[Génio Mau, Homem grande, negro, de face assustadora, com barba, cabelos compridos, & negros,  na mão tem uma coruja. Escreve Plutarco, que assim apareceu a Marco Bruto o assassino de Cesar nesta mesma maneira. E a Coruja, como unanimemente estimavam os antigos, é sempre o pássaro de mau agouro. Mas Virgílio no Livro 4 da Eneida disse:
Muitas vezes ela que sobre os montes uma coruja solitária piava os lamentos de um canto fúnebre.
]

[1] Vincenzo Cartari (c.1531–1569)Le Imagini Degli Dei degli Antichi del Signor Vìncenzo Cartari Regiano. Novamente ristampate & ricorette. Nelle quali sono descritte la Religioni degli Antichi,li Idoli, riti,; Ceremonie loro, Con l'agiunta di molte principali Imagini, che nell'altre mancavano, Et con la espositone in epilogo de ciascicuna suo significato. Estratta dall'inteso Cartari per CesareMalfatti Padoano, Con un Cathalogo del Medesimo de 1oo è più famosi sDei loro natura è propietà estrato da questo & altri Autori, Opera utilìssìma a historici , Poeti, Pittori , Scultori, & professori di belle lettere. In Padova appresso Pietro Paulo Tozzi Libraro 1608.
[2] Iconologia overo Descrittione dell'Imagini universal cavate dall’antichita ed altri luoghi Da Cesare Ripa Perugino. O pera non meno utile, che necessária à Poeti, Pittori, Scultori, per rappresentare le virtù, vitij, affetti, & passioni humane. In Roma, Per gli Heredi di Gio. Gigliotti. M.D. XCIII.

Esta publicação irá ser reeditada sendo acrescentadas algumas imagens.
É o caso da edição de 1625, Della Novissima Iconologia di Cesare Ripa Pervgino, [1]onde se mantém a descrição dos Génios e é apresentada uma imagem (fig.5) na entrada GENIO, Come figurato dagli Antichi (Como era figurado pelos Antigos). E nesta entrada refere-se Vincenzio Cartari. (pág. 272).g4fig. 5 - Cesare Ripa (1555 ou 1560-1622) O Génio in La Novissima Iconologia del Sig. Cavalier Cesare Ripa, Padova 1625.
A figura refere-se à entrada Génio e refere um a imagem antiga encontrada em Roma em que o Génio é representado por Fanciullo di volto allegro; ridente, incoronato di papaveri, nella man destra teneva spighe di grano, nella sinstra pampani d'uva.
[Rapaz com um rosto alegre e sorridente, coroado de papoilas, na mão direita espigas de trigo, na esquerda folhas de videira e um cacho de uvas.]
Na longa legenda desta imagem descreve-se já o Génio ligado às várias actividades como um jovem alado.
Il Genio, che noi volgarmente dicemo per l'humore, e per il gusto, e naturale inclinatione, che hà uno ad una cosa, & essercitio: si può figurare Fanciullo alato, (simbolo del pensiero, che sempre nella mente vola di ciò , *** che si hà gusto, e fantasìa: tenga in mano stromenti atti a dichiarare quello, di che si diletta; se uno hà Genio alle lettere, gli si ponga in mano libri ;se a suoni e canti, intauolature di musica, lire, liuti, & altri stromenti; se ad armi, armi ; e cosi di mano in mano d'altre cose, in simili occasioni si potrà incoronare di Platano tenuto da gli antichi Arbore geniale, perche è grato,e gusta a tutti quelli, che lo mirano per la fua bellezza, e grande ampiezza, difende l'Estate con la sua ombra dall'ardor del Sole, & il Verno riceve il Sole , però l'Academia d'Athene intorno alla loggia si compiacque tenere molti Platani che fiorirono, e crebbero all'altezza di 3 6. Braccia, come scrive Plinio lib. 12. cap. primo. ****
*** Lembre-se o conhecido e belo Va pensiero, sull’alli dorate do Coro dos escravos do 3º acto da ópera Nabucco de 1842 de Giuseppe Verdi(1813-1901) e com libreto de Temistocle Solera (1815-1878).
****Gaius Plinius Secundus (23-79), autor em 77 de Naturalis Historia, cujo livro 12 trata de botânica.

[O Génio, que vulgarmente atribuímos ao humor, o gosto, e a natural inclinação que se tem por uma coisa e seu exercício: pode figurar-se por um Jovem alado (símbolo do pensamento, que sempre voa na mente de alguém, que tem gosto e fantasia; tenha na mão instrumentos ligados aquilo em se deleita; se um tem Génio para as letras, ponha-se livros nas suas mãos; se for para sons e cantos ponha-se nas suas mãos partituras de música, liras, alaúdes, e outros instrumentos; se para as armas, armas; e assim conforme os casos outras coisas, em semelhantes ocasiões pode-se coroar com Plátano tido como a antiga Árvores genial, porque agrada a todos aqueles que o admiram pela sua beleza e grande amplitude, defende no Verão com a sua sombra do ardor do Sol, e no Inverno recebe o Sol, razão porque a Academia de Atenas em volta da sua loggia desejava ter muitos Plátanos que florescessem e crescessem até uma altura de 36 Braças, como escreve Plínio lib.12.primo.]

Também aparece desenhada uma figura correspondente ao Desejo dos Deuses (pág. 164) com alguns dos atributos que irão ser atribuídos ao Génio. As asas e a chama, aqui no coração mas que no génio evoluirá para a chama na cabeça.
g3fig. 6 - Cesare Ripa (1555 ou 1560-1622) Desiderio verso Iddio in La Novissima Iconologia del Sig. Cavalier Cesare Ripa, Padova 1625.
A figura tem a seguinte legenda:
DESIDERIO VERSO IDDIO.
GIOVANETTO vestito di rosso & giallo i quali colori significano Desiderio, Sarà alato per significare la prestezza com cui l'animo inferuciato subitamcnte vola a pensieri celesti,dal petto gl'esca vna fiamma perche è quella fiammà,che Christo N.S.venne a portar'in terra. Terrà la sinistra mano al petto, & il braccio destro disteso, il viso rivolto al Cielo, & haverà acanto un cervo, che beva l'acqua d'un ruscello, secondo il detto di David nel Salmo 41. dove assomigliò il Desiderio dell'anima sua verso Iddio al Desiderio, che ha un cervo affectato d'anuicinarsi a qualche limpida fontana. La sinistra mano al petto, & il braccio destro disteso, il viso rivolto al cielo è per dimostrare, che devono l'opere, gl'occhi, il core & ogni cosa essere in noi rivolte verso Iddio .
[Jovem, vestido de vermelho, e amarelo, cores que significam desejo, com asas para significar a rapidez com que a alma excitada, subitamente voa para pensamentos celestes, do peito sai uma chama, porque é essa chama, que Cristo N. S. trazia na terra. Terá a mão esquerda no peito, o braço direito estendido, o rosto virado para o Céu e terá ao lado um veado, que bebe a água de um riacho, segundo o dito de David no Salmo 41.* onde compara o Desejo da alma para Deus ao Desejo que tem um veado sequioso de saciar-se na  água límpida de uma fonte. A mão esquerda sobre o peito e o braço direito estendido e o rosto virado para o céu são para demonstrar que devem as obras, os olhos, o coração e qualquer coisa ser em nós dedicada a Deus.]
* Salmo 41/42 2   Como suspira a corça pelas águas correntes, assim a minha alma suspira por ti, ó Deus.

[1] Della Novissima Iconologia di Cesare Ripa Perugino …In Padova, Per Pietro Paolo Tozzi, 1625.

Ainda nos finais do século XVII, Pierre Mignard o pintor do rei Luís XIV que sucedeu a Charles Le Brun [1], escreve uma Ode dedicada ao seu antecessor e insere num fim de página (cul-de-lampe) um desenho do Génio da Pintura, representando-o alado e com uma chama na cabeça. Está sentado sobre as nuvens, rodeado dos diversos instrumentos das artes destacando-se as tapeçarias para que ambos os pintores executaram cartões. Como no frontispício do Génio da Arquitectura, o Génio é desenhado segundo a iconografia mais utilizada no século XVIII e ocupa o sozinho lugar central da imagem.
g42fig. 7 - Pierre Mignard (1612-1695) Le Génie de la Peinture c. 1683. Cul-de-lampe de 'Ode à Mr Lebrun premier peintre du Roy. National Gallery.

[1] Charles Le Brun (1619-1690).

O século das Luzes

De facto é com o Iluminismo e o neoclássico que a figura do Génio ganha forma e se estabelece a iconografia usada na estampa que nos interessa. Abre-se então um longo debate sobre o génio como a origem da criação artística e forma-se o conceito de génio como “homem de génio”, um tema que será caro ao Romantismo.
O aparecimento da entrada “Génio” de Denis Diderot (1713 – 1792) e Jean le Rond d’Alembert (1717-1783)  na Enciclopédia de 1757, revoluciona a tradicional representação do entusiasmo criador:
L'homme de génie est celui dont l'ame plus étendue frappée par les sensations de tous les êtres, intéressée à tout ce qui est dans la nature, ne reçoit pas une idée qu'elle n'éveille un sentiment, tout l'anime; tout s'y conserve.[1]
[O homem de génio é aquele cuja alma aberta, tocada pelas sensações de todos os seres, interessada a tudo o que existe na natureza, em que cada ideia que recebe desperta um sentimento, tudo a anima e tudo nela se guarda.]
E o texto termina :
Dans les Arts, dans les Sciences, dans les affaires, le génie semble changer la nature des choses ; son caractere se répand sur tout ce qu'il touche; ses lumieres s'élançant au-delà du passé; du présent, éclairent l'avenir : il dévance son siecle qui ne peut le suivre ; il laisse loin de lui l'esprit qui le critique avec raison, mais qui dans sa marche égale ne sort jamais de l'uniformité de la nature.[2]
[Nas Artes, nas Ciências, nos negócios, o génio parece mudar a natureza das coisas; o seu carácter espalha-se por tudo o que toca; e as suas luzes lançando-se para além do passado e do presente, iluminam o futuro; ele ultrapassa o seu século que não o consegue seguir; afasta o espírito que o critica com razão, mas que na sua marcha sempre igual não sai nunca da uniformidade da natureza.]

O texto tem ainda uma outra entrada denominada Génios em Arquitectura:
GENIES en Architecture, figures d'enfans avec des aîles & des attributs , qui servent dans les ornemens à représenter les vertus & les passions, comme ceux qui sont peints par Raphaël dans la galerie du vieux palais Chigi à Rome. II s'en fait de bas-reliefs, comme ceux de marbre blanc dans les trente-deux tympans de la colonnade deVersailles,qui sont par grouppes tiennent des attributs de l'amour, des jeux, des plaisirs , &c. (…) On se sert aussi du mot de génie pour désigner le feu & l'invention qu'un architecte, un dessinateur, décorateur , ou tous autres Artistes mettent dans la décoration de leurs ouvrages ; c'est une partie três necessaire dans l'Architecture. Un homme sans génie & quoique muni des préceptes de son art, va rarement loin : la diversité des occasions; le détail immense d'un bâtiment , exigent absolument des dispositions naturelles, qui soient aidées d'un exercice laborieux & sans relâche ; qualités essentielles à un architecte pour mériter la confiance de ceux qui lui abandonnent leurs intérêts. [3]
[Génio em Arquitectura, figuras de crianças com asas e atributos, que servem para ornamentar as virtudes e as paixões, como aqueles que estão pintados por Rafael na galeria do velho palácio Chigi em Roma. Também se fazem baixo-relevos, como os em mármore branco nos trinta e dois tímpanos da colunata Versailles, que estão em grupos e têm os atributos do amor, dos jogos, dos prazeres, &c. (…) A palavra génio pode ainda servir para designar o fogo e a invenção que um arquitecto, um desenhador, decorador, ou todos os outros Artistas põem na decoração das suas obras; é uma dimensão fundamental da Arquitectura. Um homem sem génio e mesmo que munido de todos os preceitos da sua arte, raramente vai longe; a diversidade das ocasiões e a imensa pormenorização de um edifício, exigem em absoluto disposições naturais, que sejam ajudadas por um exercício laborioso  e sem pausas;  qualidades essenciais a um arquitecto para merecer a confiança dos que lhe entregam os seus interesses.]


[1]Encyclopédie ou Dictionaire Raisonné des Sciences , des Arts et des Métiers. Par une Societé de Gens de Lettres. Tome septième Chez Briasson, rue Saint Jacques, à la Science. David l'aîné, vis-à-vis la Grille des Mathurins. Lebreton, Imprimeur ordinaire du Roy, rue de la Harpe. Durand, rue du Foin, vis-à-vis la petite Porte des Mathurins. Paris M.DCC.LVII. (pág.582).
[2] Encyclopédie ou Dictionaire Raisonné des Sciences , des Arts et des Métiers. Par une Societé de Gens de Lettres. Tome septième Chez Briasson, rue Saint Jacques, à la Science. David l'aîné, vis-à-vis la Grille des Mathurins. Lebreton, Imprimeur ordinaire du Roy, rue de la Harpe. Durand, rue du Foin, vis-à-vis la petite Porte des Mathurins. Paris M.DCC.LVII. (pág.584).
[3] idem.

O próprio Jean-Jacques Rousseau já se tinha pronunciado sobre o Génio a propósito da música:
Ne cherche point, jeune artiste, ce que c’est que le génie. En as-tu : tu le sens en toi-même. N’en as-tu pas : tu ne le connaîtras jamais. […]Si tes yeux s’emplissent de larmes, si tu sens ton cœur palpiter, si des tressaillements t’agitent, si l’oppression te suffoque dans tes transports, travaille. Mais si les charmes de ce grand art te laissent tranquille, si tu n’as ni délire ni ravissement, si tu ne trouves que beau ce qui transporte, oses-tu demander ce qu’est le génie ? Homme vulgaire, ne profane point ce nom sublime. [1]
[Não procures, jovem artista, o que é o génio. Ou tu o tens e o sentes em ti mesmo. Se não o tiveres, não o conhecerás nunca. […] Se os teus olhos se enchem de lágrimas, se sentes o teu coração palpitar, se tens tremuras que te agitam, se a opressão te sufoca nos teus transtornos, trabalha. Mas se os encantos desta grande arte te deixam tranquilo, sem o delírio nem o encantamento, se apenas achas belo o que transtorna, ainda ousas perguntar o que é o génio ? Homem vulgar, não profanes este nome sublime.]

[1] Jean Jacques Rousseau entrada Génie in Oeuvres Complètes de Jean-Jacques Rousseau Nouvelle édition avec les Notes Historiques et Critiques de tous les commentateurs in Dictionaire de Musique. Tome I. Armand-Aübrée èditeur des oeuvres de Voltaire, Walter Scott, etc. Rue Taranne n.º14, Paris M DCCC XXXII. (pág.272).

Em 1791 Gravelot, pseudónimo de Hubert François Bourguignon (1699-1773) [1] publicou um livro ilustrado Iconologia por figuras, ou tratado das alegorias, emblemas &c. (Iconologie par figures, ou traité complet des allégories, emblémes &c. : ouvrage utile aux artistes, aux amateurs, et pouvant servir à l'éducation des jeunes personnes [2]), onde na entrada n.º61 Génio, apresenta uma figura acompanhada de um texto explicativo. Não por acaso a entrada seguinte é Anjo.
A página do livro de Gravelot na entrada (61) Génie.
g6fig. 8 – Página da entrada Génio in Gravelot (pseud. van Hubert François Bourguignon, 1699-1773) Iconologie par figures, ou traité complet des allégories, emblémes &c. : ouvrage utile aux artistes, aux amateurs, et pouvant servir à l'éducation des jeunes personnes. 1791.
_____________________
[1] Gravelot (pseud. van Hubert François Bourguignon) (1699-1773). Pintor, ilustrador, e gravador francês, que se afirmou sobretudo em Londres com a ilustração das obras de Shakespeare. Em 1745 de regresso a Paris ilustra entre outras as obras completas de Racine, Corneille e Voltaire. Maurice Quentin de La Tour (1704-1788) pintou um retrato de Gravelot. De Quentin de La Tour pode apreciar-se o retrato de Duval de Lepinou, marquês de Saint-Vrain de 1745, no Museu Calouste Gulbenkian em Lisboa.
[2] Gravelot (pseud. van Hubert François Bourguignon) (1699-1773) Iconologie par figures, ou traité complet des allégories, emblémes &c. : ouvrage utile aux artistes, aux amateurs, et pouvant servir à l'éducation des jeunes personnes. A Paris, chez Le Pan, Rue S. Guillaume la premiere porte Cochere à droite en entrant par la rue S. Dominique (Dl. 2: A Paris, chez Lattré graveur, Rue St. Jacques, à la Ville de Bordeaux; dl. 3-4: A Paris, chez Le Pan, Rue S. Guillaume la Ime. porte Cochere à droite en entrant par la rue S. Dominique. Paris, de l'Imprimerie de Clousier, rue de Sorbonne. 1791.

g5afig. 9 - Representação do Génio in Gravelot (pseud. van Hubert François Bourguignon, 1699-1773) Iconologie par figures, ou traité complet des allégories, emblémes &c. : ouvrage utile aux artistes, aux amateurs, et pouvant servir à l'éducation des jeunes personnes. 1791.
A gravura é acompanhada do seguinte texto descritivo:

On le représente avec des ailes & une flamme sur la tête, parce que le propre du Génie est de s’élever & de briller ; mais il ne se développe qu’à l’aide des connaissances, c’est ce qu’on a voulu indiquer par les livres qui sont à ces pieds. On y a joint les attributs des sciences & des arts qui lui doivent tout, & un aigle *, pour exprimer la hardiesse & l’élévation naturelle au Génie. Les différentes couronnes qu’on voit ceindre une colonne, signifient que la gloire est la récompense du Génie; le rayon qui tombe sur la figure qui le réprésente, fait connaitre que le Génie ne s’acquiert point, mais que c’est un don de la nature.
[[O Génio] é representado com asas e uma chama na cabeça, porque é próprio do Génio elevar-se e brilhar; mas ele apenas se desenvolve com a ajuda do conhecimento, foi o que se quis indicar com os livros que estão a seus pés. Acrescentaram-se os atributos da ciências e das artes que tudo lhe devem, e uma águia para exprimir a audácia e a elevação natural no Génio. As várias coroas que se vê cinturando uma coluna, significam que a glória é a recompensa do Génio; o raio que cai sobre a figura que o representa, diz que o Génio não se adquire mas é um dom da natureza.]

*A Águia associada à Força, à Audácia e à Elevação é associada por Victor Hugo (1802-1885) ao Génio num poema [1] dedicado a S.B. (Saint-Beuve) que se inicia pelos seguintes versos:
L'Aigle, c'est le génie ! oiseau de la tempête,
Qui des monts les plus hauts cherche le plus haut faîte ;
Dont le cri fier du jour chante l'ardent réveil;
Qui ne souille jamais sa serre dans la fange,
Et dont l'oeil flamboyant incessamment échange
Des éclairs avec le soleil.


[Este poema foi traduzido pelo poeta brasileiro Castro Alves (1847-1871) no livro Espumas Fluctuantes:[2]
A águia é o gênio... Da tormenta o pássaro,
Que do monte arremete altivo píncaro,
Qu'ergue um grito aos fulgores do arrebol,
Cuja garra jamais se pela em lodo,
E cujo olhar de fogo troca raios
- Contra os raios do sol.]

[1] Victor Hugo, Ode Dix-septième in Odes et Ballades, Livre IV, J. Hetzel et Cie, Éditeurs 18, Rue Jacob, 18. Paris 1869. (pág. 288).
[2] (Antônio Frederico) Castro Alves (1847-1871) em Espumas Fluctuantes Bahia 1870 in Poesias Completas São Paulo Ediouro, s.d.

Correspondendo a três outras entradas refere-se ainda com uma outra imagem o Génio Bom e o Génio Mau que acompanham cada indivíduo, e os Génios das ciências e das artes.

O Génio Bom e o Génio Mau
Numa outra imagem Gravelot representa os Génios Bom e Mau.
g36fig. 10 – O Génio Bom e o Génio Mau in Gravelot (pseud. van Hubert François Bourguignon, 1699-1773) Iconologie par figures, ou traité complet des allégories, emblémes &c. : ouvrage utile aux artistes, aux amateurs, et pouvant servir à l'éducation des jeunes personnes. 1791.
No texto lê-se:
Génie (le bon)
Un jeune homme d'une figure agréable , nud , tenant un serpent, couronné de feuilles de platane, c'est ainsî que le Bon Génie est représenté dans plusieurs médailles antiques. La couronne de feuilles de platane  * désïgne le bonheur, & le serpent est, comme on sçait, le symbole de la prudence. Les anciens croyoient qu'un Génie présidoit à la naissance de chaque homme, l'accompagnoit et veilloit à sa conservation.

[Génio (o bom)
Um jovem com uma agradável figura, nu, tem na mão uma serpente e está coroado com folhas de plátano, é assim que o Bom Génio é representado em diversas medalhas antigas. A coroa de folhas de plátano designa o bem-estar e a serpente é, como se sabe, o símbolo da prudência. Os antigos acreditavam que um Génio presidia desde o nascimento de cada homem e o acompanhava e cuidava da sua conservação.]

* Le platane étoit spécialement consacré au génie ; on lui faisoit des couronnes de ses feuilles & de ses fleurs on en ornoit ses autels. [1]

Génie (le mauvais )
Les Iconologistes représentent le Mauvais Génie par un vieillard ayant le regard effrayant, la barbe longue, les cheveux hérissés, & tenant un hibou. C'est ainsi qu'il apparut, dit-on, à Brutus à Actium. On sçait d'ailleurs que le hibou étoit regardé par les anciens comme un oiseau de mauvais augure.

[Génio (o mau) O s Iconologistas representam o Mau Génio por um velho com um olhar aterrador, de barba longa, cabelos eriçados e segurando uma coruja. Foi assim que apareceu, diz-se, a Brutus em Actium. Sabe-se aliás que a coruja era considerada pelos antigos como uma ave de mau agouro.]

A ideia de um génio mau e um outro bom que vem desde a antiguidade, atravessa toda a história sendo já referida por Shakespeare no Hamlet (acto I cena IV):
Angels and ministers of grace defend us!
Be thou a spirit of health or goblin damn'd,
Bring with thee airs from heaven or blasts from hell,
Be thy intents wicked or charitable,
Thou comest in such a questionable shape
That I will speak to thee: I'll call thee Hamlet,
King, father, royal Dane… 


[Anjos e ministros dos céus protegei-nos!
Sejais um génio do bem ou um génio do mal,
Tragas brisas do paraíso ou sopros do inferno,
Sejam os teus propósitos malvados ou benignos,
O teu aspecto insólito faz-me falar convosco: chamar-te-ei Hamlet,
Rei, pai, monarca da Dinamarca…]

E na já referida entrada Génio da Enciclopédia é feita a distinção entre o Génio Bom e o Génio Mau:
De plus on pensoit qu'il y avoit un bon & un mauvais génie attaché à chaque personne. Le bon génie étoit censé procurer toutes sortes de félicités, & le mauvais tous les grands malheurs. De cette manière, le sort de chaque particulier dépendoit de la supériorité de l'un de ces génies sur l'autre. On conçoit bien de-là que le bon génie devoit être très-honoré. Dès que nous naissons, dit Servius commentateur de Virgile , deux génies sont députés pour nous accompagner ; l'un nous exhorte au bien , l'autre nous pousse au mal ; ils sont appellés génies fort à-propos, parce qu'au moment de l'origine de chaque mortel, cum unusquisque genitus fuerit , ils sont commis pour observer les hommes & les veiller jusqu'après le trépas; alors nous sommes ou destinés à une meilleure vie , ou condamnés à une plus fâcheuse. [2]
[Além disso pensava-se que existia um bom e um mau génio ligados a cada pessoa. o bom génio estava encarregado de procurar toda a espécie de felicidades e o mau todas as grandes desgraças. Deste modo, a sorte de cada indivíduo dependia da superioridade de um destes génios sobre o outro. É fácil conceber que o génio bom deveria ser muito respeitado. Desde que nascemos diz Servius comentador de Virgílio, dois génios são encarregues de nos acompanhar; um exorta-nos ao bem, o outro empurra-nos para o mal; são muito a propósito chamados génios porque no momento da origem de cada mortal, cum unusquisque genitus fuerit (com que todo o mundo nasce), eles são encarregados de observar os homens e de os vigiar até à morte; e assim nós estamos destinados a uma melhor vida ou condenados a uma vida desgraçada.]

[1] Encyclopédie ou Dictionaire Raisonné des Sciences , des Arts et des Métiers. Par une Societé de Gens de Lettres. Tome septième Chez Briasson, rue Saint Jacques, à la Science, Chez David vis-à-vis la Grille des Mathurins. Lebreton, Imprimeur ordinaire du Roy, rue de la Harpe. Durand, rue du Foin, vis-à-vis la petite Porte des Mathurins. Paris M.DCC.LVII. (pág.584).
[2] idem (pág.581).

E esta concepção de um Génio Bom e um Génio Mau que preside ao destino de cada um de nós é retomada por Voltaire numa pequena peça intitulada Le Blanc et Le Noir de 1764. A sua personagem Rustan espanta-se com o aparecimento dos seus dois génios:
Comme il parlait ainsi, quatre ailes blanches couvrirent le corps de Topaze, et quatre ailes noires celui d'Ébène. Que vois-je? s'écria Rustan. Topaze et Ébène répondirent ensemble: Tu vois tes deux génies. Eh! messieurs, leur dit le malheureux Rustan, de quoi vous mêliez-vous? et pour quoi deux génies pour un pauvre homme? C'est la loi, dit Topaze; chaque homme a ses deux génies, c'est Platon qui l'a dit le premier, et d'autres l'ont répété ensuite; tu vois que rien n'est plus véritable: moi, qui te parles, je suis ton bon génie, et ma charge était de veiller auprès de toi jusqu'au dernier moment de ta vie; je m'en suis fidèlement acquitté…. [1]
[Como assim falava, quatro asas brancas cobriram o corpo de Topázio, e quatro asas negras o de Ébano. Que vejo? Gritou Rustan. Topázio e Ébano responderam em uníssono.: o que vês são dois génios. Mas senhores, disse-lhes o infeliz Rustan, porque vos meteis neste assunto? E porquê dois génios para um pobre homem? É a lei diz Topázio; cada homem tem os seus dois génios, foi Platão quem primeiro o afirmou, e outros repetiram-no de seguida; vê que nada é tão verdadeiro: eu que te falo sou o teu bom génio e estou encarregue de cuidar de ti até ao último momento da tua vida; a isso me comprometi fielmente….]

[1] Oeuvres Complètes de Voltaire avec des notes et une notice historique sur la vie de Voltaire. Tome VIII. Chez Furne, Libraire-Éditeur Qua ides Augustins, n.º 59. Paris M DCCC XXXVI. (pág.418).

Esta ideia de Voltaire serve para uma imagem de crítica política sobre as relações entre a Inglaterra e a França.

g17fig. 11 - Le Blanc et le Noir Georges entre Ses deux genies se jette dans les bras du Mauvais, 1792. eau-forte, coloriée ; 17,3 x 20,1 cm. Bibliothèque nationale de France.

Na imagem com o significativo título retirado do acima referido Le Blanc et le Noir de Voltaire, o rei Jorge III (1738-1820), que reinou entre 1760 e a sua morte, corre para os braços o Génio Mau que quer a guerra, na figura de William Pitt o Jovem (1759-1806) nomeado primeiro-ministro em 1783 e representado por um negro [1] enquanto o Génio Bom que quer a paz está representado por Charles Stanhope (1753-1829), 3e conde de Harrington.

[1] Lembre-se o papel de William Pitt com o seu amigo William Wilberforce (1759-1833) na abolição da escravatura.

Madame De Staël [1] no seu livro De L’Allemagne [2] entre várias referências ao Génio (de personalidades, dos povos Francês e Alemão, etc.) faz duas referências ao Génio Bom e ao Génio Mau.
Uma na página 173, em De la Poesie Allemande, quando comenta um poema de Bürger [3] e escreve Enfin , le cerf poursuivi se réfugie dans la cabane d'un vieil ermite; le chasseur veut y mettre le feu pour en faire sortir sa proie ; l'ermite embrasse ses genoux , il veut attendrir le furieux qui menace son humble demeure ; une dernière fois, le bon génie, sous la forme du chevalier blanc , parle encore ; le mauvais génie, sous celle du chevalier noir, triomphe; le chasseur tue l'ermite, et tout à coup il est changé en fantôme, et sa propre, meute veut le dévorer.
[Finalmente, o veado continuou e refugiou-se na cabana de um velho eremita; o caçador quer a queimar para fazer sair a sua presa; então o eremita abraçou os seus joelhos, querendo suavizar a fúria que ameaça a sua humilde morada;, o bom génio, na forma do cavaleiro branco, fala pela uma última vez; mas o génio do mal, na figura do Cavaleiro Negro, triunfa; o caçador mata o eremita, e de repente transforma-se num fantasma, e a sua própria matilha o quer devorar.]

A outra na página 299 em Attila onde refere: L'intention de l'auteur a été de faire d'Hildegonde et d'Honoria le bon et le mauvais génie d'Attila.
[A intenção do autor (Werner [4]) foi de fazer de Hildegunda e de Honória o bom e o mau génio de Átila]

[1] Anne-Louise Germaine Necker, baronesa de Staël-Holstein (1766-1817) conhecida por Madame de Staël.
[2] Madame De Staël, De l’Allemagne, Librairie Firmin Didot Frères, Imprimeurs de l’Institut, Rue Jacob, 56, Paris 1852.
[3] Gottfried August BÜRGER (1748-[]1794) Der wilde Jäger 1785, traduzido em 1820 por Gérard de Nerval (1808-1855) com o título de Le Féroce Chasseur.
 [4] Friedrich Ludwig Zacharias Werner (1768 -1823), Attila, König der Hunnen, eine romantische Tragödie in 5 akten,1808.

E o filósofo alemão Nietzsche [1] retoma dos gregos a ideia de um espírito apolíneo solar e racional e de um espírito dionisíaco nocturno e emocional, em A Origem da Tragédia (1872):
…a evolução progressiva da arte resulta do duplo carácter do espírito apolíneo e do espírito dionisíaco, tal como a dualidade dos sexos gera a vida no meio de lutas que são perpétuas e por aproximações que são periódicas. [2]

E o poeta brasileiro Tobias Barreto [3] mostra este conflito num poema intitulado O Génio da Humanidade.
Sou eu quem assiste às lutas,
Que dentro d’alma se dão,
Quem sonda todas as grutas
Profundas do coração:
Quis ver dos céus o segredo;
Rebelde, sobre um rochedo
Cravado, fui Prometeu;
Tive sede do infinito,
Gênio, feliz ou maldito,
A Humanidade sou eu...
[4]

[1] Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900).
[2] Friedrich Nietzsche A Origem da Tragédia, 5ªed., trad. de Álvaro Ribeiro, Guimarães Ed., Lisboa, 1988. (pág.35).
[3] Tobias Barreto de Meneses (1839 -1889) A povoação de Vila de Campos do Rio Real onde o poeta nasceu é actualmente a cidade de Tobias Barreto no Sergipe.
[4] Tobias Barreto, O Gênio da Humanidade 1866 in Dias e noites. Org. Luiz Antonio Barreto. Introd. e notas Jackson da Silva Lima. 7.ed. rev. e aum. Rio de Janeiro: Record; Brasília: INL, 1989. (p.79-80).

E esta ideia do Génio Mau e do Génio Bom (do Anjo ou do Demónio) que tentam seduzir a consciência do indivíduo, mantém-se até aos nossos dias sendo utilizada na banda desenhada, como nestes exemplos da cadela Milou em Tintin au Tibet de 1960 e do capitão Haddock em Coke en stock de 1958 de Hergé. [1]

[1] Hergé. Pseudónimo de Georges Prosper Remi (1907-1983).
g37fig. 12 – Extractos dos albuns Tintin au Tibet e Coke en stock de Hergé.

Mas Gravelot na entrada Génio do seu tratado Iconologia por figuras, ou tratado das alegorias, emblemas &c. refere ainda os Génios das Artes e das Ciências indicando a sua iconografia:
Génies (les)
Les Génies des sciences & des arts se représentent par des adolescens , ou des enfans, ayant une flamme sur la tête & tenant les attributs ou les instrumens des sciences ou des arts qu'on veut désîgner.
[Génios (os)
Os génios das ciências e das artes são representados por adolescentes, ou crianças, tendo uma chama na cabeça e segurando os atributos ou os instrumentos das ciências ou das artes que se pretende designar.]
A chama que ilumina o génio está na origem da lâmpada que significa na BD uma ideia genial.
g29fig. 13 - Disney Uma ideia genial.

Imagens do Génio no século XVIII e XIX - alguns exemplos

Estabelecida esta iconografia do Génio, um jovem ou uma criança, com asas e uma chama na cabeça, porque é próprio do Génio elevar-se e brilhar (fig. 2 e fig.8) mostramos diversas imagens onde assim se figura o Génio.
Em primeiro lugar uma imagem do Génio num desenho de Augustin Dupré para uma moeda retomando a ideia de figurar em moedas ou em medalhas os génios como acontecia nas moedas romanas. No pedestal o feixe do lictor símbolo da República.
g41fig. 14 – Augustin Dupré (1748-1833). Desenho grafite s/ papel 21 cm. de diâmetro. The British Museum.
A moeda foi cunhada a partir de 1791 ainda com a figura de Luís XVI. A moeda de ouro de 20 francos do tempo da II República adaptou o desenho anterior. O Génio torna-se um Anjo e depois o Génio da República. Ladeando o génio os símbolos da França Republicana: o feixe do lictor * e o galo. A inscrição é Republique Française. Na parte não visível lê-se Dieu garde la France. Esta moeda terá salvado a vida de Dupré no período conturbado da Revolução Francesa.
* O Feixe do Lictor na Revolução Francesa representava a união e a força dos cidadãos na defesa da Liberdade e da República una e indivisível. (Será também o símbolo do regime fascista de Mussolini)
g41cfig. 15 – Augustin Dupré. A moeda de 30 sols. de 1792 e a Moeda de 20 Francos ouro cunhada entre 1848 et 1849.


Esta figuração do génio será ao longo do século XVIII utlizada em alegorias ao génio individual de personalidades ou em alegorias das artes, das ciências, da política, dos povos, etc.

Os génios associados a personalidades – alguns exemplos

Para além da já mostrada imagem de Sócrates com o seu Daimon (fig.3), examinemos uma gravura de Picart [1] numa Alegoria ao génio de Homero. Calíope a musa da poesia épica conduz ao templo da Memória o Génio de Homero, neste caso representado por uma criança que transporta as obras do poeta. O Ciúme (Ftono) está desesperado e caído por terra depois de os tentar impedir. A deusa da Memória (Mnemósine a mãe das Musas) abre a porta do templo. O Tempo (Cronos) figurado num velho, pendura o retrato de Homero. A Fama pairando sobre as personagens anuncia o facto com um toque da trombeta.
g28fig. 16 - Bernard Picart. Alegoria do Génio de Homero Rijksmuseum Amesterdão.
g40afig. 17 – Detalhe da imagem anterior com o Génio e o Ciúme.

[1] Bernard Picart (1673-1733).

Na gravura de Pierre Paul Prud'hon o Génio de Racine sobraçando um livro, e Melpomene a Musa da Tragédia, conduzem o dramaturgo à Imortalidade, que sentada lhe coloca uma coroa de louros. Por trás um conjunto de bustos de autores clássicos (Ésquilo, Aristófanes, Sófocles…).
g38fig. 18 - Pierre Paul Prud'hon (1758–1823), Son Génie et Melpomene le menent à l’Immortalité. Alegoria ao Génio de Jean Racine (1639–1699) 1801. Gravura 50 x 35 x 7 cm. Obras ilustradas de Jean Racine The Metropolitan Museum of Art, NY.

Já de 1848, o Génio do Povo conduz Louis Napoléon Bonaparte (1808-1873) à Presidência da efémera II República. Em 1852 o mesmo Louis Bonaparte tornar-se-á Napoleão III, dando início ao Segundo Império.
g25fig. 19 - Louis-Napoléon Bonaparte Guidé par le Génie du peuple et la République reçoit des mains de la France la Couronne de la Présidence. 1848, lithographie 21,9 x 28,4 cm. Lorderdau, éditeur, rue Saint Jacques, 59 .Bibliothèque nationale de France.

O Génio das Artes – alguns exemplos

O Génio da Arquitectura é representado na conhecida gravura de Charles-Dominique-Joseph Eisen (1720-1778) para o frontispício da 2ª edição do célebre Essais sur l’Architecture de Marc-Antoine Laugier (1713-1769).
g8fig. 20 - Charles-Dominique-Joseph Eisen (1720- (1720-1778) e e Jacques Aliamet (1726-1788), LÁrchitecture 1755, Frontispício da 2ª edição de Essais sur l’Architecture de Marc-Antoine Laugier.
A Arquitectura tendo no braço esquerdo uma régua e na mão um compasso, sentada junto aos elementos que constituem uma coluna clássica, indica com mão a direita ao Génio (aqui figurado como uma criança), a cabana primitiva essência e origem da arquitectura. Neste caso é a Arquitectura que domina a imagem em detrimento do Génio.

g7fig. 21 – Detalhe da imagem anterior. A Arquitectura e o Génio.
g8afig. 22 – A Cabana Detalhe da fig.24
Sobre esta imagem escreve o próprio Marc-Antoine Laugier, indicando a cabana rústica como a origem da arquitectura clássica:
Telle est la marche de la simple nature : c’est à l’imitation de ses procédés que l’art doit sa naissance. La petite cabane rustique que je viens de décrire est le modèle sur lequel on a imaginé toute les magnificences de l’architecture. C’est en se rapprochant dans l’exécution de la simplicité de ce premier modèle que l’on évite les défauts essentiels, que l’on saisit les perfections véritables. Les pièces de bois élevées perpendiculairement nous ont donné l’idée des colonnes. Les pièces horizontales qui le surmontent nous ont donné l’idée des entablements. Enfin les pièces inclinées qui forment le toit nous ont donné l’idée des frontons : voilà ce que tous les maîtres de l’art ont reconnu. [1]
[Esse é o curso da simples natureza: é na imitação dos seus processos que a arte deve o seu nascimento. A pequena cabana rústica que acabei de descrever é o modelo sobre o qual imaginamos toda a magnificência da arquitetura. É pela aproximação à execução da simplicidade deste primeiro modelo que podemos evitar os defeitos essenciais defeitos que permitem as verdadeiras perfeições. As peças de madeira erguidas perpendicularmente deram-nos a ideia das colunas. altos perpendicular nos deu a ideia das colunas. As peças horizontais que os encimam deram-nos a ideia dos entablamentos. Finalmente as peças inclinadas que formam o telhado deram-nos a ideia dos frontões: eis o que todos os mestres da arte reconheceram.]

Lembremos a Fábula de um arquitecto o belíssimo poema de João Cabral de Melo Neto (1920-1999):
A arquitetura como construir portas,
de abrir; ou como construir o aberto;
construir, não como ilhar e prender,
nem construir como fechar secretos;
construir portas abertas, em portas;
casas exclusivamente portas e tecto.
O arquiteto: o que abre para o homem
(tudo se sanearia desde casas abertas)
portas por-onde, jamais portas-contra;
por onde, livres: ar luz razão certa.
Até que, tantos livres o amedrontando,
renegou dar a viver no claro e aberto.
Onde vãos de abrir, ele foi amurando
opacos de fechar; onde vidro, concreto;
até fechar o homem: na capela útero, com confortos de matriz, outra vez feto.
[2]

[1] Essai sur l’Architecture. Nouvelle Édition, revue, corrigée & augmentée. Avec un Dictionaire des Termes et des Planches qui en facilitent l’éxplication. Par le P. Laugier de la Compagnie de Jésus. Chez Duchesne Libraire, rue S. Jacques au-dessous de la Fontaine S. Benoît, au Temple du Goût. Paris MDCCLV. (pág.9). 
[2] João Cabral de Melo Neto, in Melhores Poemas de João Cabral de Melo Neto. Seleção Antônio Carlos Secchin, Global Editora, 8ª ed.,São Paulo 2001, (pag. 189).

Pelo contrário, numa pintura de Bénigne Gagneraux, são as três Artes que são representadas por crianças que mostram ao Génio com a chama num archote, as suas realizações. Ao fundo sobre uma montanha um irradiante templo clássico.
g10fig. 23 - Bénigne Gagneraux (1756-1795) Le Génie des Arts 1789, óleo s/ tela 109,5 x 83,5 cm. Museu da Revolução Francesa Vizille Isère France. Musée des beaux-arts Dijon.

Para Pierre-Paul Proudhon o Génio é representado por um adolescente com a chama na cabeça, que é conduzido por Minerva (deusa romana das Artes e da Sabedoria) à Imortalidade, uma nuvem onde têm assento as Musas.
g11fig. 24 - Pierre Paul Prud'hon (1758-1823) Minerve conduisant le génie des Arts à l'Immortalité, óleo s/tela 48 x 30 cm. Col. Part.

O pintor russo Karl Pawlowitsch Briullov, já no período romântico figura o Génio das Artes como um jovem nu, sentado e apoiando-se em elementos que figuram as diversas expressões artísticas.
g21fig. 25 - Karl Pawlowitsch Briullov ou Brioullov ou Bryullov (1799 – 1852) Génie de l'Art, 1817-20, pastel s/ papel. The Russian Museum, St. Petersburg.

Neste conjunto de Génios referentes a actividades, destaca-se uma litografia de Nicolas Henry Jacob, representando precisamente o Génio da Litografia, numa homenagem a Johann Aloys Senefelder (1771-1834) o austro-alemão que inventou em 1798 a técnica da impressão litográfica. Em 1819 imprime em francês L’Art de la lithographie a tradução de Vollstandiges Lehrbuch der Steindruckerei publicada em Viena e Munique em 1818.
g20fig. 26 - Nicolas Henry Jacob (1782-c.1871) Le Génie de la lithographie 1819. Litografia original , 23,5 x 17,8 cm. Dedicada ao Prince d’Eichstaett, pour L’art de la lithographie d’Alois Senefelder, 1819. Col. part.
O Génio e a Litografia neste caso são representados como um casal de apaixonados.
Na legenda por detrás das figuras:
ALoys Senefelder, inventeur de l’art Litographique / À Munich en 1796/Importation en France par André d’Offenbach en 1800/ Premiers Grands Etablissements à Paris/ Engelmann en 1815 De Lasteyrie en 1816
Na prensa uma pedra com a inscrição Pierre de Bavière.
O Génio tendo ao pescoço uma placa com a inscrição INVENTE/TU VIVRAS ** apoia a sua mão esquerda numa mesa onde se encontram os livros Principes du Dessin de Jean-Pierre Granger (1779-1840), dois Albuns de 1818 e 1819 e os Essais lithographiques de Jean-Baptiste Isabey (1767-1855) (Divers Essais Lithographiques de J. B. Isabey, publiés à Paris en 1818 par G. Engelmann).

A Litografia é representada por uma jovem de costas que segura uma prova litográfica onde se lêem os nomes de diversos artistas que se interessaram pela litografia como Quaglio, Carle Vernet, Horace Vernet, Isabey, Wagenbauer, Piloty, Granger, Hippolyte Lecomte, Marlet, Chrétien, Bourgeois, Bosio, Dubois, Moitte, Vauzelle, Chapuis, Grenier, Redouté, Mlle Jacob, etc.

** São as últimas palavras do poema La Peinture de Antoine-Marin Lemierre (1733-1793):
Artiste; suis mon vol au-dessus dela nue;
Un feu pur dans l’ether jaillissant par éclats
Trace en sillons de flamme ,
INVENTE, TU VIVRAS.

Um poema que se inicia pelos versos :
Je chante l' art heureux dont le puissant génie
Redonne à l' univers une nouvelle vie,
Qui, par l' accord savant des couleurs et des traits,
Imite et fait saillir les formes des objets,
Et prêtant à l' image une vive imposture,
Laisse hésiter nos yeux entre elle et la nature.
[1]

O poema tem no início do Canto III uma ilustração de Charles Nicolas Cochin (1715-1790) representando um Génio conduzindo o Artista e a Pintura para o céu onde está escrito INVENTE,TU VIVRAS. No título os versos Artiste suis mon vol, audessus de la nuë.
g44fig. 27 - Charles Nicolas Cochin, Artiste suis mon vol… in La Peinture Poeme en Trois Chants par M. Le Mierre, Amsterdam 1770.

[1] La Peinture, Poeme en Trois Chants par M. Le Mierre, Nouvelle Édition, augmentée de divers Morceaux de Comparaison, tirés des Ouvrages des meilleurs Poètes Didactiques Latins & Français, et du Recueil des Sentiments des plus habile Peintres sur la pratique de la Peinture & de la Sculpture, para Henry Testelin [Henri Testelin (1616-1695)]. Avec de belles figures en Taille douces. Chez M. Maderus, Libraire. A Amsterdam, MDCCLXX.

O Génio associado às transformações da Revolução Francesa - alguns exemplos

No Período da Revolução Francesa são produzidas diversas imagens em que um Génio tutela a política, as novas leis ou as figuras caras à Revolução.

Numa imagem de cerca de 1794 e de autor desconhecido é representado um Génio trazendo na mão uma outra chama e duas coroas de louros. O Génio conduz (François-Marie Arouet) Voltaire (1694-1778) sobraçando La Henriade (1723) e o Diccionaire Philosophique (Dicionário Filosófico 1764) e Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) tendo num dos braços Du Contrat Social (Do Contrato Social 1762) e o manuscrito do Le Devin du Village (O Advinho da Aldeia 1752), para um Templo. Neste com uma arquitectura neoclássica numa antecipação do Panteão, está inscrito Gloire et Immortalité (Glória e Imortalidade).
Por trás das personagens a estátua equestre de Henrique IV (1553-1610) tendo no pedestal gravado À Henri IV e ao fundo Paris onde se destaca a igreja de Notre-Dame sobre a qual voam três andorinhas e o Théatre Français (Teatro Francês) !!
g16fig. 28 – Autor Desconhecido. Le Génie de Voltaire et de Rousseau conduisit ces écrivains célèbres au temple de la Gloire et de l’Immortalité Eau-forte 29 x 40 cm. Bibliothèque nationale de France.
g16afig. 29 – O Génio num detalhe da imagem anterior.

Jean Baptiste Chapuy também evoca Rousseau numa outra imagem em que figura o seu Génio.
g13fig. 30 – Jean Baptiste Chapuy (1760-?) Assemblée nationale, écueuil des aristocrates : le génie de Rousseau en éclaire l'entrée 1789-1791 eau-forte, outils, monochr. bistre ; 20,5 x 28,5 cm (tr. c.) Bibliothèque national e de France.
Nesta curiosa imagem o Génio tem no seu braço direito o Contrat Social e tendo na mão esquerda um espelho que reflecte a luz do Sol o símbolo do saber, para a Assembleia Nacional o símbolo da Democracia.
Nas águas de uma embarcação encalhada num rochedo um aristocrata, um clérigo e um bispo tentam salvar-se.
A mesma imagem numa versão colorida.
Assemblée Nationale, écueil des aristocrates, le génie de Roussefig. 31 - Assemblée nationale, écueuil des aristocrates : le génie de Rousseau en éclaire l'entrée. Vizille Musée de la Révolution Française.

Na gravura assinada por Dorgez o Génio da Nação e da Lei coroa uma iluminada Constituição perante três figuras que representam o Povo Francês. Segura na mão esquerda o feixe do lictor.
g12fig. 32 - Dorgez (17..-18..) Promulgation de la Constitution française 1792, eau-forte ; 8 x 5 cm (tr. c.) Bibliothèque nationale de France.

No Génio da Geografia de Charle Monet, a Razão com o auxílio do Génio da Geografia explica a divisão da França em Departamentos em 1790.
g14fig. 33 - Charles Monnet (1732-180.?). Génio da Geografia , 1791 plume, lavis ; 19 x 14,5 cm. Bibliothèque nationale de France.
Na legenda : La Raison aidé par le genie de la géographie fait comprendre la nouvelle division du royaume de France en departemens egaux: et foule au pied les anciens titres de province que leur orgueil cherche en vain de retenir, que des flammes consument et anéantissent, des citoyens de divers lieux du royaume s'embrassent, un étranger demande à le devenir en epousant une francaise, tandis que d'autres jurent sur l'autel de la patrie devant la statue de la loy, d'observer l'egalité.

[A Razão auxiliada pelo génio da geografia explica a nova divisão do reino de França em departamentos iguais: e espezinha os antigos títulos de província que o seu orgulho procura em vão manter, mas que as chamas consomem e destroem, cidadãos de diversos lugares do reino abraçam-se, um estrangeiro pede para se tornar cidadão de França ao casar-se com uma francesa, enquanto outros juram no altar da pátria perante a estátua da lei, observar a igualdade.]
g15fig. 34 – O Génio da Geografia. Detalhe da imagem anterior.

De Jean-Baptiste, Baron Regnault uma outra pintura representando um Génio ao centro que mostra à França a escolha entre a Liberdade e a Morte. A Liberdade está representada por uma jovem com uma estrela na cabeça, tendo na mão direita o barrete frígio símbolo da República e na mão esquerda o fio-de-prumo símbolo da verticalidade e da Ética. Aos pés o feixe republicano.
g18fig. 35 - Jean-Baptiste, Baron Regnault (1754-1829) Un Génie montre à la France la Liberté et la Mort, 1794/95, óleo s/tela 60 x 49,3 cm. Kunsthalle Hamburg.

De um autor desconhecido uma gravura onde um Génio da Paz domina um conjunto de referências à Liberdade, à Justiça, à Felicidade e aos Direitos do Homem. Em contraste referências às Execuções na guilhotina, aos Massacres e à Discórdia.
g19fig. 36 – Autor Desconhecido. Oui, lorsque la parole sera réellement à nous, &c. 1793-1795, eau-forte, burin ; 9 x 6 cm. Bibliothèque nationale de France.

De Guillaume-François Colson o Génio da Leis.
g22fig. 37 - Guillaume-François Colson (1785-1850) Le Génie des Lois. 1827. Musée des Beaux-Arts Quimper, Bretagne France.

Também no Arco do Triunfo da praça de l’Étoile (Charles De Gaulle) em Paris do lado noroeste (da avenida de La Grande Armée que vai para La Défense) existe um baixo-relevo de Antoine Étex La Résistence de 1814. Na gravura a escultura no lado direito do Arco do Triunfo.
g43fig. 38 - Jules-Frédéric Bouchet (1799-1860) L’Arc de Triomphe et la Barrière de l’Étoile, 1837 aguarela 49 x 84 cm. colecção particular.

Na parte superior o Génio do Futuro, alado, de farta cabeleira de onde sobressai a chama, tem na mão uma espada, e protege um grupo onde uma figura a cavalo agoniza derrotada (a sua espada está partida). Um jovem ergue-se entre um ancião (o pai) e uma mulher que tem nos braços uma criança morta.
g23fig. 39 - Antoine Étex (1808-1888) La Résistance de 1814 (1833-37) alto-relevo em pedra fachada do Arco do Triunfo, Paris.
g24fig. 40 – Detalhe da imagem anterior.

Em Portugal que eu saiba, não existem muitas representações de Génios. No entanto existe uma escultura Fiat Lux de Maria Luísa Holstein 3ª Duquesa de Palmela (1841-1909) representando o Génio da Medicina.
g26bfig. 41 - Maria Luísa de Sousa e Holstein, 3ª Duquesa de Palmela, (Lisboa, 1841 - Sintra, 1909) Fiat Lux 1900 Mármore h.92 cm. Museu do Chiado – Museu Nacional de Arte Contemporânea.
A escultura é de um rapaz a meio-corpo representando o Génio do Progresso da Medicina, com uma túnica na cintura, tronco nu, sorrindo efusivamente para a tocha que segura ao alto na sua mão direita, nascendo-lhe também uma chama na cabeça. É visível uma simbólica cobra que se lhe enrosca no pulso esquerdo.
Joaquim Martins Teixeira de Carvalho (1861-1921) num texto intitulado A propósito de Calmels [1] escreve sobre a escultura:É um garoto nu, com ironia a rir nos dentes brancos, e a brilhar nos seus olhos negros. Corpo vivo de adolescente, formas indecisas dessa idade encantadora em que vai fugindo a graça e se vê afirmar a fôrça nos músculos delgados, mas duros a acentuarem-se. Levanta alto um facho, e ri com riso irónico o seu fiat lux, erguendo-se alto num movimento curvo de arco. É o progresso dêste século, que inventou a fotografia e parou o movimento, que descobriu o telefone e deu à voz humana a tonalidade rouca do alcool e que prendeu no fonógrafo a voz dos pensadores muito fina, apagada, voz de velho corpo a partir-se. (…)
(…) É por isso que eu adoro a estátua da Sr.ª Duquesa, pela sua compreensão tão cheia de fina ironia, e pela delicadeza com que soube modelar num sentimento tão vivo da carne, do movimento e da vida aquele pequeno corpo de rapaz que ninguém vê, e que me deu o prazer de ouvir o seu falar tão doce. [2]

[1] Célestin Anatole Calmels (1822-1906), escultor entre outras esculturas públicas do Arco da rua Augusta em Lisboa e da estátua de D. Pedro IV na praça da Liberdade no Porto, foi professor de Maria Luísa Holstein, a quem as más línguas chamavam a Duquesa de Calmels.
[2] A propósito de Calmels1904. In Joaquim Martins Teixeira de Carvalho. Notas de Arte e Crítica. Prefaciadas pelo Dr. Joaquim Costa. Livraria Moreira – Editora. 42, Praça da Liberdade, 44 Porto 1926. (pág. 245).

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