Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















quarta-feira, 9 de setembro de 2015

O Génio da Arquitectura descobre os Progressos da sua Arte 2

II Parte - O Génio Portador

introdução

O Génio no frontispício de Ransonnette traz numa bandeja uma maquete com um conjunto de arquitecturas.

gp1afig. 1 - O Génio da Arquitectura.

Na bandeja um palacete (hôtel), um edifício que parece ser um teatro e uma variante da Rotonda (Villa Capra) de Andrea Palladio (1508-1580) a que falta a cúpula central.

gp2fig. 2– Detalhe da bandeja com edifícios do génio da Arquitectura.

Se são frequentes as imagens que representam personagens tendo nos braços maquetes de arquitecturas, já são raras as representações de personalidades segurando conjuntos de edifícios e sobretudo de maquetes de cidades.

Não faremos a história nem apresentaremos as muitas imagens de representação de portadores de arquitecturas. Remete-se mais uma vez para Artur Simões Rozestraten A iconografia do portador do modelo de arquitetura na arte medieval, Tese de Doutoramento Faculdade de Arquitectura e Urbanismo da Universidade de São Paulo 2007 http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/16/16133/tde-20082009-090910/pt-br.php

Apenas acrescentamos dois exemplos portugueses, todos não medievais e referentes a Santa Bárbara, talvez a mais popular das mártires, sendo em Portugal uma das santas com mais devoção e por isso mais representada, tendo muitas vezes nos braços uma miniatura da torre em que foi prisioneira.

gp3fig. 3 - Santa Bárbara 1501 Pedra. Policromada e dourada.69,4 x 25,7 x 19,4; Museu Nacional de Arte Antiga e Santa Bárbara séc. XVIII Policromada e dourada : 69,5 x 19 x 18 cm. Palácio Nacional de Sintra

O seu martírio teve lugar possivelmente no século III. Bárbara uma jovem muito bela era filha de Dióscoro, um rico pagão persa. Querendo-a resguardar para um casamento conveniente encerrou-a numa torre, com duas janelas. Bárbara mandou construir uma terceira, em honra à Santíssima Trindade. Perseguida pelo pai padeceu toda sorte de suplícios: foi queimada com grandes tochas, teve os seios cortados e finalmente foi executada pelo próprio pai, que lhe cortou a cabeça com uma espada. Logo após sua morte, um raio fulminou o seu assassino. É por isso que Santa Bárbara é invocada, nas tempestades, contra o raio. É também a protectora dos mineiros.

Os santos protectores e portadores de cidades

Nos finais do século XV, na transição do gótico para o renascimento surgem em Itália na região de Marche, cuja capital é Ancona, pinturas com santos padroeiros transportando modelos de cidades. Provavelmente esses santos protectores carregam não apenas o modelo de um edifício, mas miniaturas das povoações para as proteger dos terramotos muito frequentes nesta região.

gp72fig. 4 – Mapa de Itália. Classificazione sísmica al 2014. A vermelho a região central de que nos ocupamos .

Assim apresentamos, sem seguir uma ordem cronológica, três obras que apresentam santos que transportam maquetes de cidades, todas da região sísmica de Marche em Itália, sendo duas de Carlo Crivelli (em Ascoli Piceno e Camerino) e uma terceira de Giovanni Boccati em Belforte de Chenti junto a Camerino.

gp73afig. 5 - Bernardino Olivieri, Carta della Marca di Fermo dopo la sottrazione dei territori a sud del fiume Tronto 1803. Cartoteca storica delle Marche.

No final mais pinturas em que personagens seguram tabuleiros com representações de cidades.

capítulo 1 - Carlo Crivelli e os santos protectores e portadores

O autor do frontispício que nos ocupa certamente não desconhecia a obra do pintor veneziano Carlo Crivelli. 1

Carlo Crivelli (1430-1495) é um pintor veneziano, do início do Renascimento 2. É o autor de dois trabalhos A Anunciação com Santo Emídio de 1486, hoje na National Gallery de Londres, e no Tríptico da igreja de S. Domingos em Camerino de 1482, onde figuram dois santos transportando a maquete realista de uma cidade.

Conhecedor da pintura de Mantegna 3, a sua obra apresenta personagens, objectos e elementos naturais (nomeadamente frutos e flores) tratados com cores límpidas e puras, com alguma influência dos ícones bizantinos, e caracterizadas, segundo René Huyghe, por criar uma matéria excessiva, hiperbólica, cuja consistência e dureza nunca são inferiores às do mármore. Esta matéria parece condensar a sua presença exagerada para o olhar como para o tacto. A sua concentração assegura-lhe uma extrema firmeza do contorno linear, que por vezes se assemelha a uma fractura, de tal forma que a matéria e a forma são exaltadas, de concerto, por esta solução arbitrária. 4

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1 Referido no trabalho de Rozentarten

2 A sua primeira obra datada é um Políptico (184x179 cm.) no altar da Igreja dos santos Lorenzo, Silvestro e Rufino em Massa, perto de Fermo de 1468. Trabalhou principalmente em Ancona e Ascoli. Há apenas duas obras suas em Veneza na Igreja de São Sebastião. Estudou em Veneza e depois em Pádua onde trabalhou com Francesco Squarcione (1397-1468). Trabalhou ainda em Zara, na Dalmácia (hoje na Croácia). Trabalhou em Ascoli Piceno onde morreu. Em Ascoli Piceno encontram-se diversos dos seus trabalhos na Pinacoteca cívica, dois trípticos com N.ª Sr.ª e o Menino com santos; na Capela do Sacramento da Catedral de Santo Emídio um políptico datado de 1473 também de N.ª S.ª e o Menino com os santos; e ainda no Museu Diocesano – a Nossa Senhora de Poggio de Bretta, que se pensa ser um dos seus primeiros trabalhos. Assinando sempre Venetus (veneziano) foi em Ascoli Piceno que viveu desde 1470 até à sua morte, tendo aí casado e constituído família e adquirido a sua casa e atelier.

3 Andrea Mantegna (c.1431- 1506).

4 René Huyghe (1906-1997), A Arte e a Alma tradução de Jacinto Baptista, Livraria Bertrand 1960.

A Anunciação com Santo Emídio de 1486

The Annunciation, with Saint Emidiusfig. 6- Carlo Crivelli (1430-1495), A Anunciação com Santo Emídio 1486. óleo s/ madeira (transferido para tela), 207 x 147 cm. National Gallery Londres.

Esta belíssima obra foi encomendada a Crivelli para a igreja franciscana da Santissima Annunziata 5 em Ascoli Piceno, para comemorar a emissão pelo papa Sisto IV (Francesco Della Rovere nascido em 1414 e papa de 1471 até à sua morte em 1484 ) em 22 de Março de 1482 da bula Libertas ecclesiastica, que conferia a Ascoli direitos de autonomia municipal. 6

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5 O conjunto com a igreja construída entre 1485 e 1514 sobre ruínas romanas, e o Convento que, abandonado pelos frades menores na Unificação Italiana foi em 1881 uma escola de agricultura e em 1926, um orfanato. Curiosamente desde 1998 aí se instalou a Faculdade de Arquitectura.

6 A obra permaneceu quase esquecida sendo contudo referida por Tulio Lazzari em Ascoli in Prospettiva de 1724 e Baldessare Orsini na Descrizione delle Pitture Sculture Architetture ed altre cose rare nella Marca de 1790. Precisamente neste ano com as guerras napoleónicas a Anunciação foi transferida para Milão e em 1811 para a Pinacoteca de Bera. Em 1829 é trocada com várias outras obras por um Caravaggio com o antiquário Augusto Luigi de Livry. Posta à venda em L ondres foi adquirida por Henri Labouchère Lord Taunton (1789-1869) que em 1864 a doou à National Gallery.

Esta determinação do Papa chegou à cidade em 25 de Março, dia da Anunciação o que explica a sua temática.

A referência a Santo Emídio padroeiro de Ascoli deve-se a que aquele Santo, nascido em 279, foi ordenado Bispo de Ascoli e perseguido pelo governador romano Polímio e foi martirizado em 303. Em 1703 um violento terramoto atingiu a região mas preservando Ascoli pelo que os habitantes consideram como um milagre do Santo Emídio, a quem é dedicada a Catedral que na cripta alberga as relíquias do Santo.

The Annunciation, with Saint Emidiusfig. 7 – Detalhe da Anunciação de Crivelli.

Por isso a obra tem escrita no rodapé LIBERTAS ECCLESIASTICA, 7 tendo ao centro as Armas de Inocêncio III (Giovanni Battista Cibo (1432- 1492) o Papa que em 1484 sucedeu a Sisto IV e em cujo papado a pintura foi terminada.

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7 A mesma inscrição do quadro de Crivelli a Virgem com o Menino, Santo Emídio, São Sebastião, São Roque, São Francisco de Assis e o Beato Tiago da Marca de 1487, cuja venda por um proprietário português foi alvo de recente polémica.

gp6fig. 8 - As Armas do Papa Inocêncio II no quadro e numa publicação da época.

À esquerda as Armas do nomeado em 1463 Bispo de Ascoli Piceno, Prospero Caffarelli (? -1500).

gp7fig. 9 – As Armas da família Cafarelli no quadro e na actualidade.

À direita as Armas da cidade de Ascoli Piceno.

gp8fig. 10 – As Armas da cidade de Ascoli Piceno.

A pintura está assinada e datada em duas colunas como OPUS CAROLI.CRIVELLI VENETI (Obra de Carlo Crivelli Veneziano) e 1486.

gp9fig. 11 – A assinatura de Crivelli e a data da pintura.

Na Anunciação de Crivelli não figuram apenas o Arcanjo Gabriel e a Virgem Maria mas são introduzidas mais personagens. Trata-se mais de comemorar uma data importante para a cidade do que evocar a Anunciação.

A pintura associando um tema religioso e bíblico a um facto real da crónica urbana e pintado a têmpera e a óleo está dividida em duas partes. The Annunciation, with Saint Emidiusfig. 12 – A perspectiva da rua do lado esquerdo da pintura.

Com uma luz que vem da esquerda e detrás do espectador, apresenta à direita um edifício de dois pisos, a “Casa de Maria”, cuja fachada lateral dá para uma rua urbana, que preenche toda a metade esquerda do quadro com uma longa e perfeita perspectiva que atravessa um arco e termina numa janela rasgada num muro e onde se encontram as outras personagens que aliás servem para sublinhar a profundidade criada pela perspectiva.

O lado direito do quadro

The Annunciation, with Saint Emidiusfig.13 – A “Casa de Maria”.

À direita a “Casa de Maria”, um edifício de dois pisos onde no piso térreo a Virgem ajoelhada num púlpito com um livro recebe a pomba do Espírito Santo que, percorrendo um raio de luz originado num estranho disco celestial 8, penetra por uma pequena janela numa evidente metáfora da fecundação mística segundo o Evangelho de S. Lucas.

26 Ao sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, 27 a uma virgem desposada com um homem chamado José, da casa de David; e o nome da virgem era Maria. 28 Ao entrar em casa dela, o anjo disse-lhe: «Salve, ó cheia de graça, o Senhor está contigo.» 29 Ao ouvir estas palavras, ela perturbou-se e inquiria de si própria o que significava tal saudação. 30 Disse-lhe o anjo: «Maria, não temas, pois achaste graça diante de Deus. 31 Hás-de conceber no teu seio e dar à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus. 32 Este será grande e será chamado filho do Altíssimo; o Senhor Deus lhe dará o trono de David seu pai; 33 e reinará eternamente sobre a casa de Jacob, e o seu reino não terá fim. 34 Então Maria perguntou ao anjo: Como se fará isso, se não conheço homem? (Quomodo fiet istud, quoniam virum non cognosco?) 35 O anjo respondeu-lhe: «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo estenderá sobre ti a sua sombra. Por isso, aquele que vai nascer é Santo e será chamado Filho de Deus. 36 Também a tua parente Isabel concebeu um filho na sua velhice e já está no sexto mês, ela, a quem chamavam estéril, 37 porque nada é impossível a Deus38 Maria disse, então: «Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra.» (Ecce ancilla Domini). E o anjo retirou-se de junto dela. (Lucas 1,26-34).

E Dante Alighieri na Divina Comédia evoca a Anunciação com os versos:
Jurado se teria dissesse “Avé!”
porque ali era imaginada aquela
que a abrir o alto amor rodou a chave;
e no seu gesto impresso se revela
“Ecce ancilla Dei”, propriamente
como figura em cera se modela
. 9
E mais adiante
E junto ao fim dos últimos compassos,
alto gritavam: “Virum non cognosco”;
baixos recomeçando então a espaços
. 10

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8 Há quem veja nele um extraterrestre disco voador!
9 Dante Alighieri, Divina Comédia, Purgatório Canto X, 40-45. De todas as citações da Divina Comédia usamos sempre a incomparável tradução do saudoso Vasco Graça Moura.
Giurato si saria ch’ el dissesse “Ave!”;
Perche iv’ era imaginata quella
Ch’ad aprir l’altro amor volse la chiave;
E avea in atto impressa esta favela
“Ecce ancilla Dei”, propriamente
Come figura in cera si sugella.

10 Apresso il fine ch’a quell’ inno fassi,
Gridavano alto:
“Virum non cognosco”;
Indi ricominciavam l’inno bassi.

O piso térreo

No piso térreo uma porta, emoldurada por pilastras coroadas por capitéis coríntios, abre-se para uma sala onde Maria trajando um rico vestido vermelho ornado de pérolas (outro símbolo de pureza), sobre o qual enverga um manto de cor verde azulada, se ajoelha humildemente em oração lendo um livro, a palavra de Deus, pousado numa escrivaninha. The Annunciation, with Saint Emidiusfig.14 – O piso térreo da “Casa de Maria”

O capitel coríntio com as folhas de acanto uma taça central e vários motivos florais, onde se destacam as espigas de trigo símbolo ligado à Virgem Maria.

The Annunciation, with Saint Emidiusfig. 15 - Detalhe de um capitel do quadro.

Compare-se com os capitéis do, também veneziano, Andrea Mantegna (c.1431-1506) no S. Sebastião do Museu do Louvre de Paris e no S. Sebastião do Kunsthistorisches Museum de Viena, ambos dos finais dos anos 50 do século XV.

gp12fig. 16 – Andrea Mantegna, detalhes das pinturas de S. Sebastião. À esquerda detalhe do S. Sebastião de 1456-9, painel, 255 x 140 cm, Museu do Louvre, e à direita detalhe do S. Sebastião de 1457-8, madeira, 68 x 30 cm., Kunsthistorisches Museum, Viena.

Compare-se ainda com o capitel coríntio do Livro IV de Vitrúvio e o capitel do palácio de Diocleciano em Split na Croácia.

gp13fig. 17 – À esquerda o Capitel Coríntio de Vitrúvio (numa edição de 1782) e à direita o capitel do Palácio de Diocleciano em Split.

E refira-se as colunas e os capitéis coríntios existentes em Ascoli Piceno, uma cidade de fundação romana.

Sobre os capiteis coríntios encimando as colunas de granito do altar-mor da igreja do mosteiro de S. Ângelo Magno, fundado no século IX mas sendo a fachada da igreja reformulada em 1290, e o seu interior ao longo do século XV, escreve Baldessare Orsini em 1790 refere que sobre as colunas de granito do altar mor, exitem capitelli di marmo, d'ordine corintio, di bellezza straordinaria (…) Non mi sono mai incontrato a vedere nelle Antichità Romane capitelli così delicatamente intagliati come lo sono quelli, e con tal varietà, che incanta.(..). Tradirei il gusto degl’ intendenti delle cose architettoniche antiche, sé non mostrassì loro inciso in rame uno di coteili capitelli. 11

[capiteis de mármore, de ordem coríntia, de beleza extraordinária(…) nunca vi na Antiguidade Romana capiteis tão delicadamente esculpidos como aqueles, e com tal encantadora variedade(…) Trairia o gosto dos sabedores das coisas arquitectónicas antigas, se não mostrasse uma gravura dos referidos capiteis.]

gp60fig. 18 – Baldessare Orsini, Desenho do Capitello Corintio a S. Angelo Magno.

E Tulio Lazzari, sobre a igreja de S. Gregório Magno uma igreja edificada sobre um templo romano aproveitando paredes e colunas, refere que se vêm al canto sinistro della sua Porta due altissime Colonnes riate , colle loro basi , e capitelli d' ordine Corintio, che, quantunque di saldissimo trivertino, scorgonsi nullameno non poco corròse dal tempo, benchè tuttavia dimostrino la gran perizia dell' Arte di que' Secoli. 12

[no canto esquerdo da sua Porta duas altas Colunas estriadas, com as suas bases, e capiteis de ordem coríntia, que embora de um firme travertino, se bem que desgastadas pelo tempo, mostram ainda a grande perícia da Arte daqueles Séculos.]

gp74fig. 19 – ângulo da igreja de S. Gregório Magno em Ascoli Piceno.

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11 Baldessare Orsini Descrizione delle Pitture Sculture Architetture ed altre cose rare nella Marca.Opera di Baldassare Orsini Pittore ed Architetto. Socio onorario dell' Accademia Clementina di Bologna ed Etrusco di Cortoña e s. Nella Stãperia Baduelliana, Perugia 1790. (pág.171)

12 Tulio Lazzari, Ascoli in Prospettiva colle sue píu singolari pitture, scultture, ed Architetture. Esposto, e dedicato da Tulio Lazzari all’Ill.mo, e Rv.mo Monsignore Alessandro Marucelli patrizio Fiorentino, suo plauditissimo governatore. Per il Morganti, e Picciotti, In Ascoli M DCC XXIV. (pág.35)

The Annunciation, with Saint Emidiusfig.20 – No interior da “Casa de Maria”.

Numa prateleira, entre uma vela (símbolo de fé) e uma jarra de vidro (símbolo de pureza) pousada sobre dois livros. E ainda vários objectos entre os quais uma peneira. Atrás da Virgem um leito sobre o qual se estende um pano imaculado e três almofadas.

O piso superior

No piso superior uma espaçosa varanda com um riquíssimo tecto em caixotões decorados com flores estilizadas. (Flores de ancólia de cinco folhas, comparadas a cinco pombas, associadas à pomba do Espírito Santo).

The Annunciation, with Saint Emidiusfig. 21 – O piso superior da “Casa de Maria”.

Chama de imediato a atenção o pavão pousado na cornija do piso térreo.

The Annunciation, with Saint Emidiusfig. 22 – o Pavão.

O pavão cuja carne demora a apodrecer é um símbolo da realidade da morte e significa para o Cristianismo, a esperança na imortalidade, e por extensão ao milagre da Ressurreição. Daí ser associado às representações da Virgem Maria. (Ver por exemplo a Virgem do Chanceler Rolin de van Eyck). Mas o pavão, sobretudo a partir do Barroco, tem ainda um significado de  vaidade e ostentação.

The Annunciation, with Saint Emidiusfig. 23 – A varanda do piso superior da “Casa de Maria”.

Na balaustrada dois vasos e um tapete oriental com desenhos geométricos e flores estilizadas.

gp25fig. 24 – Os dois vasos.

À esquerda o vaso de iris (iris mársica), uma das flores da região sugerindo pelas três pétalas a Santíssima Trindade, e o seu caule o ceptro real de Cristo ou de Maria.  À direita um vaso com um pé de loureiro.

The Annunciation, with Saint Emidiusfig. 25 – A gaiola com o pintassilgo e o pombo.

Por detrás uma gaiola com um pintassilgo pendurada no varão de cana onde está pousado um pombo.

O lado esquerdo do quadro

The Annunciation, with Saint Emidiusfig. 26 – O lado esquerdo do quadro salientado.

No primeiro plano e embora na iconografia da Anunciação para além do Arcanjo Gabriel e da Virgem Maria, seja raro incluir outras personagens, aqui aquele está acompanhado de Santo Emídio o padroeiro de Ascoli Piceno.

The Annunciation, with Saint Emidiusfig.27 – O Arcanjo Gabriel e Santo Emídio.

Com um desenho que o relaciona com o desenho do Génio, de asas abertas 12 transporta uma açucena, símbolo da pureza e da virgindade, e está ajoelhado e contempla a Virgem através da janela gradeada.

O Arcanjo Gabriel nos versos de Dante:

O anjo que que veio a terra co decreto
da muitos anos tão chorada paz,
que abriu o céu de há tanto sobre um veto,
perante nós surgia tão veraz
lá entalhado num fazer suave,
nem se diria imagem não loquaz.
13

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12 São João Crisóstomo recomenda que o Anjo Gabriel seja representado em atitude de estar na eminência do voo "(...) não que Deus o tenha criado provido de asas, mas para dar a entender que ele desceu da sua morada celeste até à terra, junto do género humano." nota - Sobre a iconografia da Anunciação veja-se o excelente trabalho de Luís Alberto Esteves dos Santos Casimiro A Anunciação do Senhor na Pintura Quinhentista Portuguesa (1500-1550) - Análise Geométrica, Iconográfica e Significado Iconológico. Tese de Doutoramento apresentada à Faculdade de Letras da Universidade do Porto 2004.

13 Dante Alighieri, Divina Comédia, Purgatório Canto X, 34-39. Usamos como sempre a incontornável tradução do saudoso Vasco Graça Moura.

L’angel che venne in terra col decreto
de la molt’anni lagrimata pace,
36
ch’aperse il ciel del suo lungo diveto,
dinanzi a noi pareva sì verace
quivi intagliato in un alto soave,
39 che nom sembiava imagine che tace.

O Arcanjo está acompanhado de Santo Emídio o padroeiro da cidade, com um rico hábito episcopal também adornado de joias, que parece interceder junto dele para proteger a cidade - a sua cidade cuja miniatura carrega num tabuleiro -  da guerra, da peste e sobretudo dos frequentes abalos sísmicos que se dão na região.

The Annunciation, with Saint Emidiusfig.28 – A miniatura da cidade de Ascoli Piceno nas mãos de Santo Emídio.

A cidade vista do lado norte, está ainda contida no recinto amuralhado. Reconhece-se a Ponte e a Porta Solestà e as torres que ainda hoje a caracterizam.

Compare-se com a planta de Ascoli Piceno elaborada por Petrus Miotte em 1646.

gp59afig. 29 - Petrus Miotte, Ascoli Piceno 1646, gravura 55 x 75 cm. Col. particular.

Destacam-se à direita a figuração dos rios Tronto e Castellano.

gp59hfig. 30 – Os rios Tronto e Castellano na margem direita da gravura de Petrus Miotte.

Compare-se ainda com a planta de Ascoli de 1790 de Baldessare Orsini. A norte o rio Tronto. A sul e nascente o rio Castellano. Marcada com um t (sublinhada a vermelho) a porta Solestà.

gp29cfig. 31 –Baldessare Orsini (1732-1820), Pianta Scenografica della insigne Città di Ascoli nella Marche in Descrizione delle pitture sculture architetture ed altre cose rare della insigne città di Ascoli nella Marca Nella stamperia Baduelliana, Perugia 1790.

Na cartela Scala di passi Ascolani. Il passo è di palmi otto corrispondenti à palmi romani. Marcada com um t (sublinhada a vermelho) a porta Solestà.

Esta porta que defendia a ponte romana de acesso ao norte da cidade foi edificada uma centena de anos depois da ponte que data do século I. Nada se sabe contudo dessa porta já que em 1230 sobre ela se edificou uma nova porta mandada construir por Fidelsmo da Mogliano Podestà. Mas em 1256 para defender a cidade dos sucessivos ataques da população da vizinha Fermo, foi construída uma nova porta (ou anteporta) a cerca de 8 metros da existente, na direcção da ponte. Esta anteporta foi demolida em 1880. gp77fig.32 – A ponte e a porta Solestà numa gravura do século XIX.

Os fruto aos pés do Anjo.

frequentes na pintura de Crivelli vegetais, plantas, flores e frutos seria interessante explorar as três linhas possíveis da sua  interpretação. São evocações religiosas? São os vegetais da época? No caso desta pintura frutos e flores dos finais de Março? Ou são ainda os produtos da região da Marche? Ou ainda qualquer combinação destas três hipóteses? The Annunciation, with Saint Emidiusfig.33 – A Maça e o Pepino.

Aos pés do Anjo e do Santo, como esquecidos no pavimento, uma maça e um pepino. Se a maçã sugere o pecado de Eva e o pepino fertilidade e fecundidade, os outros frutos sempre presentes em Crivelli, são os frutos da árvore que evocam o filho da Virgem, mas são também um exercício pictórico, precursor das naturezas mortas. 14

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14 No quadro de Crivelli que esteve em Portugal também uma maçã está “esquecida” no pavimento.

As outras 13 personagens do quadro

The Annunciation, with Saint Emidiusfig. 34 – As 13 personagens, para além do Arcanjo e do Santo, na parte esquerda do quadro.

(1) No primeiro edifício à esquerda …surge uma criança de olhos vegetais, carregados de espanto e de alegria que espreita com olhos inocentes o mistério da Anunciação. 15

Por trás da criança três outras personagens, dois monges e um civil. (2,3,4)

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15 Eugénio de Andrade, Abril in Os Amantes sem Dinheiro 1950.

The Annunciation, with Saint Emidiusfig.35 - A criança na Anunciação e as três personagens na varanda.

Um magistrado atravessa a cena, seguido por uma camponesa com um cesto na cabeça. (5 e 6)The Annunciation, with Saint Emidiusfig.36 – O magistrado e a camponesa.

Sob o arco uma personagem parece procurar no céu o pombo que traz a feliz mensagem (7) tendo por trás quatro outras figuras, duas femininas que se cruzam com duas masculinas que dialogam junto do janelão. (8,9,10,11)

The Annunciation, with Saint Emidiusfig.37 – No primeiro plano a personagem que olha o céu e ao fundo duas figuras femininas e duas masculinas.

Numa passagem sobre o arco uma personagem (12), que poderá ser o notário de Ascoli, Antonio Benincasa 16 lê a mensagem da Bula Papal que um pombo-correio que está na gaiola transportou. Junto a ele com uma gaiola o mensageiro que lhe entregou o bilhete com a esperada notícia do Papa que o pombo-correio transportou. (13)The Annunciation, with Saint Emidiusfig.38 – O Notário e o mensageiro com a gaiola do pombo-correio.

Sobre o balcão, repare-se num outro vaso com uma planta idêntica à que se encontra na varanda do lado direito da pintura, e à esquerda um tapete de formas geométricas que o aproxima do da varanda do lado direito e ao que se entrevê sob a Virgem, conferindo uma unidade ao quadro.

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16 Antonio Benincasa - patrizio Anconitano, e fratello di Monsig. Benincasa, Vescovo di sua patria, si contraddistinse sulla fine del secolo xv nell’arte oratoria, e nella poesia. Fu segretario del comune di Perugia, e di Ascoli (impiego a quel tempo onorevolissimo, ed esercitato da soggetti egualmente nobili, che addominati), e venne prescelto l’anno 1485 per ambasciatore della sua patria al sommo Pontefice Sisto IV, e poi a Carlo VIII Re di Francia. Scrisse in poesia Latina con molta eleganza, ed un saggio se ne ha nell’ Opera di Andrea Stagi, di lui concittadino, intitolata Amazzonida, impressa in Venezia 1503. In Biblioteca Picena o sia Notizie Istoriche delle opere e degli scrittori Piceni Tomo secondo Lett.B. Presso Domenicantonio Quercetti. Osimo. MDCCXCI (pág.199).
[António Benincasa – patrício Anconiano, e irmão de Monsenhor Benincasa, Bispo da sua pátria, distinguiu-se nos finais do século XV na arte da oratória, e na poesia. Foi secretário do município de Perugia, e de Ascoli (emprego naquele tempo honrosíssimo, e ocupado por indivíduos tão nobres como competentes), e foi escolhido no ano de 1485 para embaixador da sua terra junto ao Sumo Pontífice Sisto IV, e seguidamente junto a Carlos VIII Rei de França. Escreveu poesia Latina com muita elegância, e um ensaio incluído na Obra de Andrea Stagi, seu conterrâneo, intitulada Amazonas, imprimida em Veneza em 1503.]

The Annunciation, with Saint Emidiusfig.39 – O muro com o janelão ao fundo e os ciprestes.

Por trás do muro com ameias onde se abre um janelão, e que delimita o Hortus Conclusus 17 avista-se um campo onde crescem quatro cedros. O cedro tem um valor simbólico de força, nobreza e perenidade. Mas pelo facto de ser uma madeira que não apodrece é ainda um símbolo de incorruptibilidade. São diversas as referências ao cedro do Líbano na Bíblia. Com a madeira desta árvore Salomão edificou o seu palácio como em Reis 7,1-5:

  1 foram precisos treze anos para terminar a construção. 2 Levantou a “Casa da Floresta do Líbano”: cem côvados de comprimento, cinquenta de largura e trinta de altura. Estava construída sobre quatro ordens de colunas de cedro, com traves de cedro sobre as colunas. 3 Forrou de cedro o tecto dos quartos que assentavam nas colunas, em número de quarenta e cinco, ou seja, quinze colunas em cada ordem. 4 É que havia três naves com janelas em correspondência umas com as outras. 5 Todas estas portas com as suas vigas eram de forma quadrada, e as janelas correspondiam umas às outras.

E Salomão no Cântico dos Cânticos 1,17 refere:

17 Cedros são as vigas da nossa casa, e os ciprestes, o nosso tecto.

E ainda nos Salmos 92,13:

13 Os justos florescerão como a palmeira e crescerão como os cedros do Líbano.

Também o poeta Tomaz António Gonzaga (1744-1810), nascido no Porto escreve:

Enquanto pasta alegre o manso gado,
Minha bela Marília, nos sentemos
À sombra deste cedro levantado.
Um pouco meditemos
Na regular beleza,
Que em tudo quanto vive, nos descobre
A sábia natureza.
18

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18 Tomaz António Gonzaga Lira XIX in Marília de Dirceu 1792, 1799 e 1812.

The Annunciation, with Saint Emidiusfig.40 – O pombal na parte superior do quadro.

Num pombal superior esvoaçam ou estão aninhados em postes diversos pombos, lembrando os versos de Cecília Meireles:

O crepúsculo é este sossego do céu
com suas nuvens paralelas
e uma última cor penetrando nas árvores
até os pássaros.
É esta curva dos pombos, rente aos telhados,
este cantar de galos e rolas, muito longe;
e, mais longe, o abrolhar de estrelas brancas,
ainda sem luz.
19

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19 Cecília Meireles (1901-1964), Elegia 7 em Mar Absoluto, 1945.

continua

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