Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















terça-feira, 20 de outubro de 2015

Um preciso olhar sobre a calma da terra. Fotografias de JOOL.

Realizou-se em Setembro/Outubro no Palacete Viscondes de Balsemão na Praça Carlos Alberto no Porto, uma Exposição de fotografia intitulada F O Z b o t â n i c o – Geomorfologias de José Oliveira, JOOL, para o catálogo da qual tive o prazer de escrever um texto que aqui reproduzo.
O texto é aqui ilustrado por algumas (propositadamente fracas) cópias das fotografias exibidas, com a autorização do autor.

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A verdade é semelhante a uma adolescente
vibrante, flexível, em radiosa sombra.
Quando fala é a noite translúcida no mar
e a esfera germinal e os anéis da água.
Um apelo suave obstinado se adivinha.
Ela dorme tão perfeitamente despertada
que em si a verdade é o vazio. Ela aspira
à cegueira, ao eclipse, à travessia
dos espelhos até ao último astro. Ela sabe
que o muro está em si. Ela é a sede
e o sopro, a falha e a sombra fascinante.
Ela funda uma arquitectura volante
em suspensas superfícies ondulantes.
Ela é a que solicita e separa, delimita
e dissemina as sílabas solidárias.

António Ramos Rosa, A Verdade in “Volante Verde”

Um preciso olhar sobre a calma da terra

Para encontrar o segredo das imagens de JOOL não é suficiente saber olhar a natureza. A fotografia não é a realidade.
A fotografia suscita sempre uma reflexão sobre a realidade, impõe-nos uma interrogação do real e evoca em nós o fascínio da ilusão. A fotografia cava em nós uma distância entre o real e a sua interpretação. Como diz o poeta a verdade é a sede e o sopro, a falha e a sombra fascinante… Por isso se estas fotografias nos parecem difíceis ao primeiro olhar, para verdadeiramente as compreender na sua beleza enriquecedora, é necessário, como um viajante em terra estranha, nelas irmos penetrando, descobrindo os traços puros da natureza virgem e original que, ainda e sempre, se escondem secretamente entre as pedras e entre as sombras.
    
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As belas fotografias de JOOL não querem apenas reproduzir a natureza mas dar-lhe expressão, a sua expressão.
Utilizando os recursos do olhar fotográfico, transpondo-os para um espaço e um tempo diverso e sublinhando contrastes e pormenores, são uma educação para um olhar mais minucioso e mais perfeito dos fragmentos da natureza em que a impressão se transforma em expressão.    
JOOL propõe-nos assim que usemos o nosso olhar por conta (im) própria no risco que vai da penumbra à luz clara, e que procuremos o equilíbrio entre matéria, espaço e sombra, evocando a presença de um tranquilo, sempre tranquilo movimento.
Propõe-nos que sigamos Leonardo e o seu Ostinato Rigore, que lembrava que se não devia desprezar aquele olhar atento para as manchas da parede, para os carvões sobre a grelha, para as nuvens, para a correnteza da água ou outras coisas similares e aí ver composições diversas: de batalhas, de animais e homens, de paisagens, de demónios e de outras coisas fantásticas.

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Para a realização destas séries de fotografias são percorridos espaços de silêncio e solidão, lugares onde a natureza se torna matéria, praias e jardins. Ambos remetem para a Terra Mãe, a Gea mãe do Oceano e do Céu mas ainda a mãe da Memória.
Além, descobrimos um mundo telúrico e mineral, uma praia alva e cheia de pequenos brilhos sob o sol claro; mais perto percorremos um mundo vegetal, um jardim de sombras pensadas na parede e cujas vozes nos aconselham a paz e a felicidade.
JOOL propõe-nos percorrer, atentos,os caminhos desses lugares com um olhar que, oscilando e estremecendo, se fixe ali na praia, numa pedra e nas suas curvas doces que evocam corpos entre
uma escarpa que os esconde e o mar que tudo aceita em ondas sucessivas
; ou se detenha numa concha de água ou numa toalha de areia, nas cicatrizes da pele da terra.
Ou num jardim se surpreenda na sombra de uma folha ou de um ramo, na fissura ou no musgo de um muro ou ainda na dobra de um fruto ou de uma flor.
Mas, em ambos, sempre revelando os ocultos volumes e manchas, descobrindo os sinais, os fragmentos, as alusões, as preciosidades, as fracturas, dando-nos todo um sentido às partes de um todo que não está ausente, mas escondido nas paisagens e nas marcas efémeras do nosso eu profundo.

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Estas fotografias permitem-nos, se soubermos olhar, captar as fugidias e serenas sombras que as nuvens transportam por cima do dia, ou o sopro do vento, coro antigo de vozes rumorosas, transformando a realidade do que é visível para o que é imaginado, do objectivo para o poético, por essa misteriosa e constante necessidade, esse não sei quê, que nasce não sei onde, que parte do nosso interior ao encontro das expressões da vida.

Tudo então é verdade,
Toda a rama parece
Um tecido que tece
A eternidade. *


ricardo figueiredo
Setembro de 2015

* Miguel Torga, Nihil Sibi
[Notas sobre o texto: Ostinato Rigore – Divisa de Leonardo Da Vinci e título de um livro de Eugénio de Andrade; a praia alva e cheia de pequenos, brilhos sob o sol claro, Ricardo Reis poema Inutilmente parecemos grandes in Odes; sombras pensadas na parede, Sophia de Melo Breyner Andersen poema Quadrado in Geografia; corpos entre uma escarpa que os esconde e o mar que tudo aceita em ondas sucessivas, Jorge de Sena in Sobre esta Praia oito meditações à beira do Pacífico; que as nuvens transportam por cima do dia, poema Murmúrio de Cecília Meireles; esse não sei quê, que nasce não sei onde – Soneto de Camões.]

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[Nota sobre José Oliveira JOOL. 
Arquitecto e Fotógrafo amador, natural de Espinho e vive no Porto. Expôs em diversas instituições e tem obras em diversos Museus e Bibliotecas nacionais e estrangeiras, bem como em coleções particulares.] 

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