Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















terça-feira, 31 de maio de 2016

Deambulações pelo Castelo da rua de Santa Catarina 1 parte

 

…a minha
fantasia veste de florestas d’ouro
e de castelos azuis e de cidades
nunca vistas e de homens felizes
e imortais.
[1]

ca1_thumb2fig. 1 - O Castelo de Santa Catarina.

Os castelos da infância

Naquela idade em que ainda somos crianças, quando cada um de nós era

Um menino sonhador, com olhos castanhos e macios,
Um construtor de castelos, com seus cubos de madeira,
E torres que tocam os céus imaginários.
 [2]

[Nesta publicação ilustrada os versos de Longfellow são acompanhados por desenhos de Olive Rush e o poema A Castle-Builder é acompanhado por uma aguarela de uma criança tendo ao fundo por entre a bruma um castelo com torres que tocam os céus imaginários construindo um castelo de cubos de madeira.[3] ]

ca2_thumb2fig. 2 - Olive Rush (1879-1967) A castle-builder, with his wooden blocks, And towers that touch imaginary skies.

Nesse tempo em que todos queríamos um pratinho de tremoços, (…) ser Sandokan Soberano da Malásia, (…) usar calças compridas, (…) descer dos eléctricos em andamento…[4]

Quando imaginávamos como Quixote um castelo dos contos e dos sonhos, um castelo encantado de uma bela e inacessível princesa, un castillo con sus cuatro torres y chapiteles de luciente plata, sin falta de su puente levadiza y honda cava, con todos aquellos adherentes que semejantes castillos se pintan. [5]

E quando começávamos a levantar na imaginação castellos de esperanças, que não são por certo mais firmes e sólidos do que os castellos de Hespanha... [6]

Nessa cidade ideal das minhas saudades, erguida sobre o promontório sagrado das chimeras azues e dos sonhos côr de rosa dos primeiros annos da vida [7] quando entre a praça do Marquês de Pombal e a Fontinha circulávamos pela rua de Santa Catarina, nos robustos e operários eléctricos belgas da linha nove ou nos elegantes e burgueses da linha 15, ambos com um suave deslizar [que] embala [va] a imaginação! [8] no lado em que o sol se põe,

Hum excelso edificio se descobre
………………………………………………
A torre bela que melhor se exorna
Com produções das terras portuguezas.
Unindo variedades e grandezas.
 [9]

Era o castelo dos sonhos, um espantoso castelo que tinha, de estranha arquitectura, uma alta torre

Torreão de glória, o que é a fantasia,
Todo de lápis-lazuli e coral!
……………………………….
…Parecia
O território d’um Senhor-feudal!
 [10]

Era o modelo dos castelos dos sonhos e dos contos que construímos ao longo da vida. Moradas sólidas e sempre nas alturas ou na clareira de uma floresta criando difíceis acessos a quem nos viesse importunar.

Por vezes no Romantismo o sonho confundia-se com a realidade.

ca3_thumb2fig. 3 – O castelo de Stolzenfels, onde entre outros trabalhou Karl Friedrich Schinkel (1781 – 1841).

Mas habitantes delicados das florestas que são em nós, [11] quem não teve e mesmo ainda não tem, dentro de si, esses castelos imaginários do nosso interior, esses castelos de coragem depositados e murmurando na nossa memória e no nosso inconsciente, quem não tem no fundo do coração / um sombrio castelo de Elsinore ? * [12]

* Referência ao castelo onde Shakespeare coloca o seu drama A Tragédia de Hamlet, Príncipe da Dinamarca.

Esse fascínio em que exigia lendários castelos onde misteriosos caminhos faziam comunicar para além de todo o recinto, toda a muralha e todos os fossos, o centro do castelo com a distante floresta. [13]

ca4_thumb2fig. 4 - Paul Klee (1879 – 1940) Stadburg Kr. (castelo da cidade Kr.) 1932. Óleo e têmpera sobre gesso 36 x 30,5 cm. Colecção privada.


[1] Enrico Annibale Butti (1868-1912), Il Castello del Sogno. Poema Tragico, (1910), disegni di Alberto Martini (1876-1954),Fratelli Treves Editori Milano ed. 1919. (pág.70, v. 838-842).

…la mia
fantasia veste di foreste d'oro
e di castelli azzurri e di città
non mai vedute e d'uomini felici
ed immortali.

[2]Henry Wadsworth Longfellow (1807-1882) The Castle-Builder (1848)

A gentle boy, with soft and silken locks
A dreamy boy, with brown and tender eyes,
A castle-builder, with his wooden blocks,
And towers that touch imaginary skies.

A fearless rider on his father's knee,
An eager listener unto stories told
At the Round Table of the nursery,
Of heroes and adventures manifold.

There will be other towers for thee to build;
There will be other steeds for thee to ride;
There will be other legends, and all filled
With greater marvels and more glorified.

Build on, and make thy castles high and fair,
Rising and reaching upward to the skies;
Listen to voices in the upper air,
Nor lose thy simple faith in mysteries.
And towers that touch imaginary skies.
in The Children’s Hour, escrito para a sua filha Erny Longfellow em 1859 in The Children’s Longfellow illustrated, Houghton Mifflin Company, Boston & New York 1908. (pág.232).

[3] Poderia estar a construir outros castelos. Quem na infância não construiu frágeis castelos de cartas ou castelos na areia ou, nos dias de hoje, um castelo com peças de lego.

[4] António Lobo Antunes excertos da crónica de 15 de Dezembro de 1996, in Crónicas do Público 1996.

[5] Miguel de Cervantes y Saavedra (1547-1616), El ingenioso Hidalgo Don Quijote de la Mancha, compuesto por Miguel de Cervantes Saavedra. Nueva Edición con notas sobre el texto, del puño y letra del autor, en el ejemplar prueba de corrección de la 1.ª edición de 1605, único ejemplar conocido. Palencia, Administración, Zapata, 11. 1884. (pág.10).

[6] Alberto Pimentel O Natal in Atravez do passado Guillard Aillaud e C.ia 47 Rua de Saint-Andre-des-Arts Paris e 29, rua Ivens Lisboa 1888 (pág. 292).

[7] Alberto Pimentel Um bouquet de joannas in Atravez do passado Guillard Aillaud e C.ia 47 Rua de Saint-Andre-des-Arts Paris e 29, rua Ivens Lisboa 1888 ( pág. 91).

[8] Olavo (Brás Martins dos Guimarães) Bilac (1865-1918), O Bonde, In Vossa Insolência, Crónicas Companhia das Letras, São Paulo 1996. (pág. 316 a 328). E, já agora, deixa-me dizer-te tudo. Tu és o grande amigo dos poetas! Eu, por mim, devo-te, grande parte dos meus versos, dos meus pensamentos, das minhas páginas de tristeza ou de bom-humor... O teu suave deslizar embala a imaginação! o teu repouso sugere idéias; a tua passagem por várias ruas, por vários aspectos da cidade e da Vida (...) vai dando à alma do sonhador impressões sempre novas, sempre móveis, como as vistas de um cinematógrafo gigantesco. Chronica. Gazeta de Notícias. Rio de Janeiro, 19/04/1903.

[9] Joachim Joseph Moreira de Mendonça in Torre do Amor. Epithalamio nas faustíssimas núpcias do senhor Diego Xavier de melo Cogominho, senhor da Torre dos Coelheiros…com a senhora D. Maria Victoria de Morais Monis de Melo. oficina de Antonio da Sylva, 1747 Lisboa. Citado por Gabriel Pereira (1847-1911) no Boletim da Associação dos Architectos Civis e Archeologos Porrtuguezes, Tomo VII, N.º3 e 4, 1ª Série. Anno de 1895. (pag. 54). A torre referida, a Torre dos Coelheiros com 15 metros de altura faz parte de um conjunto de origem medieval e situa-se na freguesia com o mesmo nome do concelho de Évora .

[10] António Nobre Conde, in Só, Léon Vanier, Éditeur, 16, Quai Saint-Michel19, Paris 1892 (pág.43). É certo que Estamos habituados a ver na Boa Nova os versos de António Nobre que falam de um castelo e não de um torreão. No entanto na edição de de 1892 o poema Conde é

Na praia lá da Boa Nova, um dia,
Edifiquei (foi esse um grande mal)
Torreão de glória, o que é a fantasia,
Todo de lápis-lazuli e coral!
N’aquellas redondezas, não havia
Quem se gabasse d’un domínio egual:
Oh o Torreão de gloria! Parecia
O território d’um Senhor-feudal!
Um dia, não sei quando, nem sei d’onde,
Um vento secco de tortura e spleen
Deitou por terra, ao pé que tudo esconde,
O meu condado, o meu condado, sim!
Porque eu já fui um poderoso Conde,
N’aquella idade em que se é conde assim…
Porto 1887

[11] Jules Supervielle (1884-1960) Habitants délicats des forêts de nous-mêmes poema Rien qu’ un cri (1972) in La Fable du monde, suivi de Oublieuse Mémoire, Éd. NRF Poésie/Gallimard n° 219 Paris 1987. (p. 83). O poema Rien qu’un cri

Rien qu'un cri différé qui perce sous le cœur
Et je réveille en moi des êtres endormis.
Un à un, comme dans un dortoir sans limites,
Tous, dans leurs sentiments d'âges antérieurs,
Frêles, mais décidés à me prêter main forte
Je vais, je viens, je les appelle et les exhorte,
Les hommes, les enfants, les vieillards et les femmes,
La foule entière et sans bigarrures de l'âme
Qui tire sa couleur de l'iris de nos yeux
Et n'a droit de regard qu'à travers nos pupilles.
Oh ! population de gens qui vont et viennent,
Habitants délicats des forêts de nous-mêmes,
Toujours à la merci du moindre coup de vent
Et toujours quand il est passé, se redressant.
Voilà que lentement nous nous mettons en marche,
Une arche d'hommes remontant aux patriarches
Et lorsque l'on nous voit on distingue un seul homme
Qui s'avance et fait face et répond pour les autres.

Se peut-il qu'il périsse alors que l'équipage
A survécu à tant de vents et de mirages?

[12] Vincent do Rego Monteiro (1899-1970), poeta e artista plástico brasileiro viveu alguns anos em Paris.

Qui n'a pas au fond de son coeur
Un sombre château d'Elseneur…
In Vers sur verre, ed. P. Seghers Paris, 1953 (pág.76).

[13] Gaston Bachelard, “Sa demeure veut les souterrains des châteaux-forts de la légende où de mystérieux chemins faisaient communiquer par-dessous toute encein-te, tout rempart, tout fossé, le centre du château avec la forêt lointaine.” In La Poétique de l’espace (1957) Les Presses universitaires de France, 3e édition, Paris 1961. (pag.47 e 48).

O ruir dos castelos

Ó meus castelos de vento
que em tal cuita me pusestes,
como me vos desfizestes!
[1]

Contudo, quando se chega à idade adulta, esses imponentes e misteriosos castelos, dos sonhos, quimeras, altos pensamentos, tudo se desfaz e desaparece como a nuvem e como o fumo. [2]

ca5_thumb2fig. 5 - Joseph Mallord William Turner (1775 – 1851). Sunset over a Ruined Castle on a Cliff (Um Castelo em ruínas num penhasco ao pôr-do-sol) c.1835-1839, guache sobre papel, 14 x 19,1 cm. Tate Gallery Londres.

Na idade adulta vamos descobrindo que a cidade ideal das minhas saudades, erguida sobre o promontório sagrado das chimeras azues e dos sonhos cor-de-rosa dos primeiros annos da vida; são as montanhas invenciveis das minhas ambições de outr'ora, os jardins floridos dos idyllios, ephemeros e castos, as ruinas dos castellos que a phantasia architectára e que o tempo foi derruindo pedra a pedra n'uma lenta oscillação dolorosa [3] vão desaparecendo.

E assim, quando nos restam apenas os lugares em ruína das nossas raízes, os castelos da nossa infância clamam então pela renúncia ou o abandono, e com o ruir das ilusões à nossa alma resta partir à procura do vieux château du Souvenir…[4]

ca6_thumb2fig. 6 - Lluis Rigalt y Farriols (1814-1894) Paisagem nocturna com ruínas 1850. Caneta, tinta e aguarela sobre papel 28,7 x 34,8 cm. Museu Nacional de’Art de Catalunya.

Melhor que ninguém o diz Florbela Espanca:

Se é sempre Outono o rir das primaveras,
Castelos, um a um, deixa-os cair...
Que a vida é um constante derruir
De palácios do Reino das Quimeras!
E deixa sobre as ruínas crescer heras.
Deixa-as beijar as pedras e florir!
Que a vida é um contínuo destruir
De palácios do Reino de Quimeras!
Deixa tombar meus rútilos castelos!

Tenho ainda mais sonhos para erguê-los
Mais altos do que as águias pelo ar!
Sonhos que tombam! Derrocada louca!
São como os beijos duma linda boca!
Sonhos!... Deixa-os tombar... deixa-os tombar...
[5]


[1] Sá de Miranda Vilancete IX,

Ó meus castelos de vento
que em tal cuita me pusestes,
como me vos desfizestes!

Armei castelos erguidos,
esteve a fortuna queda,
e disse:– Gostos perdidos,
como is a dar tão grã queda!
Mas, oh! fraco entendimento!
em que parte vos pusestes
que então me não socorrestes?
Caístes-me tão asinha
caíram as esperanças;
isto não foram mudanças,
mas foram a morte minha.
Castelos sem fundamento,
quanto que me prometestes.
quanto que me falecestes!
in Carolina Michaëlis de Vasconcelos Poesias de Francisco Sá de Miranda Edição feita sobre cinco manuscritos inéditos e todas as edições impressas. Acompanhadas de um estudo sobre o poeta, variantes, notas, glossário e um retrato. Bale Max Niemeyer 1885. Na Parte primeira Poesias que Sá de Miranda mandou ao Príncipe D. João pela primeira vez (pág. 33).

[2] Firmino Pereira O Porto d’Outros Tempos Notas Históricas-Memorias-Recordações, Livraria Chardron, de Leio & Irmão. Rua das Carmelitas, 144, Porto 1913. (pág.73).

[3] Alberto Pimentel Um bouquet de joannas in Atravez do passado Guillard Aillaud e C.ia 47 Rua de Saint-Andre-des-Arts Paris e 29, rua Ivens Lisboa 1888 ( pág. 91).

[4] Théophile Gautier (1811-1872) in Émaux et Camées 1852 Édition Définitive Avec une Eau-forte par J. Jacquemart Charpentier et Cie, Éditeurs Quai du Louvre, 28. Paris 1872. (pág. 173).

[5] Florbela Espanca poema Ruínas in Livro de Sóror Saudade 1923 in Sonetos Completos Livraria Gonçalves Rua Sá de Miranda, 60, Coimbra MCMXXXIV (pág. 68).

A realidade do Castelo na rua de Santa Catarina.

Hoje adulto e quando já Perdi meus fantásticos castelos
Como névoa distante que se esfuma...
[1]  sei que foi o Comendador António Pimenta da Fonseca [2] industrial em Gaia, proprietário desde 1887 do terreno onde a casa/castelo foi edificada que iniciou a sua construção nas primeiras décadas do século XX.

ca17_thumb2fig. 7 – O Castelo de Santa Catarina. Foto do arquitecto Nelson Miguel 2009.

Com o número de polícia 1347 ocupa um lote de terreno com 4780 metros quadrados, dos quais tem 900 de área coberta.

Breve história do sítio

Antes de nos ocuparmos do Castelo da rua de Santa Catarina, da sua arquitectura e génese, abordamos o sítio desde o século XVIII. 

A rua de Santa Catarina e a rua Bella da Princeza

ca7_thumb2fig. 8 - A expansão da cidade para o Norte e o sistema de reorganização viária dos finais do século XVIII e princípios do século XIX, na planta OPORTO 1833 Published under the Superintendence of the Society for the Diffusion of Useful Knowledge. Drawn by W. B. Clarke Arch.t Engraved by J. Henshall. Dim. 40 x 33 cm.

Na estratégia dos Almadas de reorganizar as vias de acesso à cidade entre 1774 e 1779 foi aberta uma rua que partia da Batalha até ao sítio de Aguardente, uma rua em dois tramos e que ligava a cidade intra-muros com a estrada de Guimarães.

Ao primeiro tramo da rua foi atribuído o nome de rua de Santa Catarina.

De acordo com o desenho de embelezamento da cidade foi desenhado e aprovado em 1778 o projecto de Francisco Pinheiro da Cunha para os alçados desse primeiro troço.

ca8_thumb2fig. 9 - Francisco Pinheiro da Cunha Frente da rua de S. Catherina do lado do poente/ Porto 15 de Janeiro de 1776.

ca9_thumb2fig.10 - A rua de S.a Catherina e à direira a rua Bella da Pinceza num pormenor da planta do Porto de 1813 (Planta Redonda).

A rua Bella da Princeza

O tramo norte da rua aberto a partir da sua aprovação em 1784 foi inicialmente designado por Rua da Boa Hora (1802) mas em 1807 passou a chamar-se de Rua Bella da Princeza e não como muitos escrevem rua da Bela Princesa.

Rua Bella já que pertencia ao plano de Embelezamento da cidade e da Princeza já que Carlota Joaquina se casou no ano seguinte (1785) com o Príncipe D. João (1767-1826).

A Princesa D. Carlota Joaquina

Não cumpre aqui fazer a biografia de Carlota Joaquina, mas de facto a Princesa da Rua Bella era Carlota Joaquina Teresa Cayetana de Borbón y Borbón (1775-1830), casada quando tinha apenas dez anos, com o príncipe D. João que se tornaria príncipe herdeiro em 1788, por morte de seu irmão primogénito D. José.

O casamento foi realizado em simultâneo com o casamento da infanta portuguesa D. Mariana Vitória Josefa (1768-1788) com o filho do rei de Espanha Carlos III (1716-1788) D. Gabriel António Francisco Xavier de Bourbon (1752-1788), em Março/Abril de 1785.

Mas só entre 11 e 29 de Junho desse ano se realizam na cidade do Porto os festejos comemorativos do duplo consórcio, promovidos pelo Corregedor e Provedor da Comarca do Porto, Francisco de Almada e Mendonça (1757-1804) o que poderá explicar a atribuição do nome da rua. [3]

D. João em 1799 pela interdição de sua mãe D. Maria I tornou-se oficialmente Príncipe Regente (o que de facto já vinha acontecendo desde 1792) e em 1816, com a morte da rainha, torna-se Rei de Portugal com o nome de D. João VI até à sua morte em 1826.

Carlota Joaquina era filha do rei de Espanha Carlos IV (1748-1819) e de D. Maria Luísa Tereza de Parma e Bourbon (1751-1819). O casamento de conveniência correspondeu a uma aliança entre os dois reinos num período em que para além das disputas de territórios coloniais entre os dois reinos, de França chegavam notícias de convulsões políticas e sociais que eclodiriam na Revolução Francesa.

E se a jovem princesa era retratada (por conveniência?) de uma forma simpática, na realidade de belo, como a Rua, pouco ou nada tinha.

ca10_thumb2fig. 11 - Mariano Salvador Maella (1739-1819) Carlota Joaquina 1785. Óleo sobre tela 116 x 177 cm. Museu do Prado.

Carlota Joaquina foi uma personalidade polémica no período controverso da transição do século XVIII para o século XIX, onde o Ancient Régime do poder absoluto da monarquia, o mundo da aristocracia e da Igreja, cedia a um novo regime laico e constitucional de uma burguesia ascendente (que se transforma com Napoleão numa nova aristocracia!).

Assim a sua vida pode ser dividida em três períodos: do casamento até à ida para o Brasil (1785-1808); o período brasileiro (1808-1822) e o período de 1822 até à sua morte em 1830. Em todos eles se tornou alvo de ferozes críticas, fundamentadas ou não, dos que não lhe perdoavam a sua ligação ao antigo regime.

ca11_thumb2fig.12 - Domingos Sequeira (1768-1837) Retrato de Carlota Joaquina, cópia de original de 1802, óleo s/ tela 102 × 77 cm. Museu de arte de São Paulo Brasil.

Naquele primeiro período, seguindo os interesses de Espanha procurou alcançar o poder depondo o Regente na chamada “Conspira­ção dos Fidalgos". Dessa tentativa falhada resultou ser “exilada” da Corte em 1805 e o Regente, instalando-se no Palácio de Mafra, “desterrou” Carlota Joaquina para o Palácio de Queluz.

Por essa altura Laure Junot [4] Duquesa de Abrantes descreve-a como uma princesa nada bela:

Le fait est qu'à l'époque où je l'ai vue (1804-1805), elle était fort laide. Elle n'avait plus de dents, et celles qu'un dentiste lui avait replantées ne l'avaient pas été assez bien pour faire illusion. [5]

ca13_thumb2fig.12 - Nicolas Antoine Taunay, (1755-1830) Retrato da Rainha D. Carlota Joaquina 1816 óleo sobre tela 64 x 58 cm. Palácio de Queluz.

No segundo período que corresponde à estadia da Corte no Brasil, pelas suas intervenções na política, na tentativa de se tomar rainha das colónias espa­nholas do Rio da Prata (actuais Argentina e Uruguai), a partir de 1808, alegando a incapacidade do pai Carlos IV e do irmão Fer­nando VII, prisioneiros de Napo­leão, para além da sua fealdade sobre que todos estão de acordo é acusada de ninfomaníaca como mais tarde a descreve Tarquínio de Sousa na sua História dos fundadores do Império do Brasil:

[…] A Bourbon, que as negociações diplomáticas e os arranjos de dinastias lhe deram [a Dom João VI] como parceira, era quase horrenda, ossuda, com uma espádua acentuadamente mais alta do que a outra, com uns olhos miúdos, uma pele grossa que as marcas de bexiga ainda faziam mais ásperas, um nariz avermelhado. E pequena, por um triz anã, claudicante. Nesse corpo mirrado uma alma ardente, ambiciosa, inquieta, sulcada de paixões, uma natureza exigente, com os impulsos do sexo alvoraçados, isenta de escrúpulos, afirmativa quando possível, mansa por cálculo, tenaz, ávida de mando, corajosa, capaz de arrostar a adversidade. [6]

A própria nora, a austríaca Carolina Josefa Leopoldina de Habsburgo-Lorena (1797-1826), depois conhecida como Maria Leopoldina, quando em 1817 casa com D. Pedro (o futuro Imperador do Brasil e D.Pedro IV de Portuga), chocada com o comportamento da então rainha (já que D. Maria I morreu em 1816), escreve em carta: Sua conduta é vergonhosa, e desgraçadamente já se percebem as consequências tristes nas suas filhas mais novas, que têm uma educação péssima e sabem aos dez anos tanto como as outras que são casadas.

ca16_thumb3fig. 13 - Manuel António de Castro (1814-1862) Carlota Joaquina de Bourbon imperatriz do Brasil, rainha de Portugal e Algarves 1827 gravura 49,5 x 21 cm. Biblioteca Nacional de Portugal.

De regresso a Portugal Carlota Joaquina recusa-se a jurar a Constituição de 1822 e apoiada na restauração do trono espanhol pelo seu irmão Fernando VII, incita o filho D. Miguel ao regresso ao regime absolutista que se consuma na Vilafrancada de 26 de Maio de 1823. Neutralizada por D. João VI a revolta, cerca de um ano depois realiza-se nova tentativa de tomada do poder por D. Miguel, esta conhecida por Abrilada já que se realiza em 30 de abril de 1824. Fracassada esta nova tentativa o Rei mandou D. Miguel para o exílio e D. Carlota definitivamente para o Palácio de Queluz.

Laure Junot em 1837 descreve-a nas suas Mémoires como uma créature effrayante de laideur:

Figurez-vous être devant une femme de quatre pieds dix pouces tout au plus, et encore d'un côté, parce que les deux n'étaient pas égaux.

Avec un corps ainsi déjeté, vous pouvez imaginer facilement quel buste, quels bras, quelles jambés et quelle personne enfin c'était qu'une femme ainsi bâtie: encore si la tête avait été regardable; mais, mon Dieu, quelle figure!. quelle épouvantable figure!. Des yeux éraillés et de méchante humeur, n'allant jamais ensemble sans qu'on pût leur reprocher de loucher. Vous connaissez de ces yeux-là, et moi aussi. Et puis une peau qui n'avait rien d'humain, dans laquelle on pouvait tout voir, une peau végétante. Son nez, je ne me le rappelle plus, si ce n'est pour me le représenter descendant sur des lèvres bleuâtres qui, en s'ouvrant, laissaient voir la plus singulière denture que Dieu ait créée; c'étaient bien des dents, si vous voulez, et elle aussi l'aurait bien voulu; mais Dieu avait été d'un autre avis, et lui avait planté dans la bouche de gros os qui montaient et descendaient comme le pourrait faire une flûte de Pan; et puis, couronnant tout cela, une sorte de crinière formée avec des cheveux secs, crépus, de ces cheveux qui n'ont pas de couleur;cependant ils étaient noirs, oui, ils étaient noirs… [7]

ca14b_thumb2fig.14 - João Baptista Ribeiro (1790-1868) Retrato da Rainha D. Carlota Joaquina, 1824. Óleo sobre tela 213 x 146,5 cm. Palácio Nacional de Queluz.

E no século XIX e no início do século XX Carlota Joaquina pela sua defesa do absolutismo, é sempre impiedosamente apresentada como uma mulher horrivelmente feia, intriguista e devassa.

Assim Oliveira Martins retratou-a como uma Carlota Joaquina, megéra horrenda e desdentada, creatura devassa e abominavel em cujas veias corria toda a podridão do sangue bourbon, viciado por tres seculos de casamentos contra a nature­za, atiçava essa chamma, como a horrida feiticeira, no fundo do seu antro, assopra o lume da sua cosinha diabolica. [8]

E Faustino da Fonseca, um defensor da causa republicana, inicia a sua crónica histórica sobre D. Miguel da seguinte forma:

No torpor da sesta, sorvendo com delicia pitadas de rapé, que mais lhe sujavam de polvilhos o penteador, a rainha D. Carlota Joaquina, também hespanhola, outr’ora companheira nas danças, mas agora derrancada e gasta, feia, bexigosa, a face descahida, a bocca de maus dentes, fatigada de excessos, velha já aos quarenta e oito anos, encruzada n’um tapete de veludo, onde mais se amesquinhava a saia de chita, fundo amarello em ramos verdes, gosava o espectaculo excitante, embriagada de prazer, olhos húmidos, peito arquejante, narinas dilatando-se nervosas. [9]

Em 1826 com a morte de D. João VI, segundo alguns envenenado com arsénico - a que não seria alheia a própria rainha - D. Miguel regressa a Portugal para se tornar de facto rei, mas Carlota Joaquina já não verá a sua derrota e o seu exílio definitivo, já que morre em 1830 no Palácio de Queluz, com 58 anos de idade.


[1] Florbela Espanca, in "A Mensageira das Violetas"

[2] António Pimenta da Fonseca industrial em Lever foi em 1916 um dos responsáveis pela remodelação do teatro Sá da Bandeira. Em 1933 pela portaria n.º 7:524 do Ministério da Instrução Pública assinada por Gustavo Cordeiro Ramos então ministro da Instrução Pública, e “tendo o comendador António Pimenta da Fonseca prestado relevantes serviços à escola de ensino primário elementar da freguesia de Lever, concelho de Vila Nova de Gaia” foi atribuída à referida escola o nome de Comendador António Pimenta da Fonseca por deliberação em Conselho de Ministros de 28 de Janeiro de 1933.

[3] Sobre os festejos ver Joaquim Jaime B. Ferreira-Alves Festejos no Porto pelos casamentos dos príncipes D. João com D. Carlota Joaquina de bourbon e de D. Mariana vitória com D. Gabriel de bourbon in Teatro do Mundo Tradição e vanguardas: cenas de uma conversa inacabada, Centro de Estudos Teatrais da Universidade do Porto. Porto 2011. (https://repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/55979/2/jaoquimferreiraalvesfestejos000127834.pdf).

[4] Laure Martin de Permond (1784-1838) madame Junot e duquesa de Abrantes, pelo casamento em 1800 com Jean-Andoche Junot (1771-1813) o general de Napoleão.

[5] Laure Junot, Mémoires secrets de Madame la Duchesse D’Abrantès où Souvenirs Historiques sur Napoléon, La Revolution, le Directoire, le Consulat, l’Empire et la Restauration. Tome Second. Chez les Libraires du Palais-Royal MDCCCXXXVII. (pág.44).

[6] Octavio Tarquínio de Sousa (1889-1959) A vida de D. Pedro I (tomo 1º). In: História dos fundadores do Império do Brasil (vol. II). Brasília: Senado Federal/Conselho Editorial, (pág. 2015).

[7] Laure Junot, Mémoires secrets de Madame la Duchesse D’Abrantès où Souvenirs Historiques sur Napoléon, La Revolution, le Directoire, le Consulat, l’Empire et la Restauration. Tome Second. Chez les Libraires du Palais-Royal MDCCCXXXVII. (pág. 206 e 207).

[8] Joaquim Pedro de Oliveira Martins (1845-1894) Historia de Portugal Bibliotheca de Sciencias Sociaes. 4ª edição, TomoII. Livraria Bertrand Viuva Bertrand & C.ª Successores Carvalho& C.ª 73, Chiado,75 Lisboa 1887. (pag.267).

[9] Faustino da Fonseca (1871-1918) El-Rei D. Miguel (Chronica popular do absolutismo) Primeira Parte A Villafrancada I A abelha mestra, Guimarães & C.ª – Editores, 68, Rua de S. Roque, 70, Lisboa 1905. (pág.1 e 2).

A rua Bella da Princeza

Regressemos à Rua Bella, ao troço entre a Fontinha e a Aguardente.

ca28_thumb3fig. 15 - Planta G.al da nova Rua (…) Praça d’Aguardente. 1798. AHMP.

ca24_thumb2fig. 16 - Luiz Ignacio de Barros Lima Planta Geral da Rua Bella da Princeza. Aprovada a Planta Porto em Junta das Obras Publicas 21 de Março de 1805. AHMP.

Na planta de José Francisco de Paiva a rua Bella da Princeza é cartografada no limite superior da planta e está projectada uma rua em linha recta no sentido sudoeste-nordeste desde a Trindade até ao limite da planta, passando por uma praça que se percebe ser quadrada apesar da deterioração do suporte de papel.

ca25_thumb2fig. 19 – Pormenor da planta de Francisco de Paiva anterior a 1824.

Na planta de 1833 ao longo da rua estão já cartografadas algumas edificações particularmente do lado nascente.

ca27_thumb2fig. 20 - A rua de S.ª Catherina e a rua Bella da Princeza na planta de 1833. (ver fig 8).

Podemos ter uma ideia dessas edificações por um desenho de Luiz Ignacio de Barros Lima.

ca19_thumb2fig. 21 – Luiz Ignacio de Barros Lima . Copia do Prospecto para a casa Nobre que projecta fazer na rua Bella da Princeza José Joaq.im de Moraes. Approvada esta Planta. Porto em Junta de 13 de Maio de 1830. AHMP

Na planta de 1839 cujo limite superior se situa um pouco a norte da Fontinha, o lado nascente da rua está já bastante edificado mas o mesmo não acontece no lado poente.

ca26_thumb2fig. 22 - A Rua Bella da Princeza na planta de 1839.

O largo da Aguardente (praça do Marquês de Pombal) vai-se conformando com uma forma orgânica e triangular, resultante do encontro da rua da Agoa ardente (Bonjardim) com a rua Bella da Princeza. O lado poente da praça tem ainda uma irregularidade de alinhamento.

ca21_thumb2fig. 23 – Luiz Ignacio Barros Lima Planta da Praça d’Agoa ardente Esta planta mostra a figura que actualmente tem, a referida praça; igualmente mostra a irregularidade d’alhinhamento que tem do lado do Poente. Aprovada em Junta de 5 de Março de 1812. AHMP.

No lado sul da praça estava edificado desde os finais do século XVIII.

ca29_thumb2fig. 24 - Theodoro de Sousa Maldonado Planta geral da Praça da Agoa ardente. Lado Meridional. Aprova’s esta Planta. Porto em Junta das Obras Publicas 6 de Julho de 1797. AHMP.

A planta de Perry Vidal de 1844, mas adaptada para a Exposição Universal do Porto em 1865, ainda não inclui o encontro das duas ruas e o Largo da Aguardente, já que só por estes anos os limites da cidade edificada atingiriam a rua da Constituição.

ca22_thumb2fig. 25 - Rua Bella da Princesa na planta de Perry Vidal 1844/65.

No entanto em 1864 está já aprovada uma planta que mostra a praça da Aguardente com uma forma rectangular e estão já cartografadas as ruas da Constituição (Caminho para Paranhos) para poente e a rua de Costa Cabral (Estrada para Guimarães) para norte. Ainda projectados o prolongamento da rua da Constituição para nascente e um rua destinada a substituir a rua das Doze casas que não foi aberta.

 

ca20_thumb2fig. 26 – Planta que mostra o novo projeto d’alinhamento do lado Nascente do Largo d’Aguardente, e da nova transversal projetada para comunicar do Largo para a Rua d’ Allegria. Approvada. Porto em Camara 16 de Julho de 1864.AHMP.

A ilha

Na planta de 1892 a rua é já denominada rua de Santa Catarina desde a praça da Batalha até à praça do Marquês de Pombal. O troço correspondente à rua Bella da Princeza está já consideravelmente loteado e edificado em ambos os lados.

Quando o Comendador António Pimenta da Fonseca adquiriu e registou a propriedade ela continha uma ilha formada por trinta e quatro casas, pequenas e de piso térreo.

A ilha encontrava-se na parte posterior do lote e a entrada para a mesma era feita por um portão no limite norte do terreno que era então a entrada principal.

Viviam nela 152 pessoas em regime de arrendamento.

Porto_1892_b_05belaprinceza_thumb2fig. 28 - Localização do lote onde se localiza a pensão na planta do Porto de 1892. Notória a presença da ilha com 24 casas descrita em documentos.

Porto_1892_b_05castelo_thumb2fig.29 – Pormenor da planta de 1892.

Em 1918 já no período republicano duas das trinta e quatro casas são demolidas, numa tentativa de higienização, devido ao seu mau estado de conservação.

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