Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















segunda-feira, 11 de julho de 2016

Mais sobre os santos portadores e a representação da cidade

 
[Nota inicial – Enquanto recolhia mais dados e organizava o próximo texto sobre o Castelo da rua de Santa Catarina no Porto, encontrei um conjunto de referências a um outro santo portador, neste caso São Berardo na cidade italiana de Teramo, que aproveito para tentar conhecer um pouco melhor. Por isso faço aqui uma interrupção do texto que tinha em mãos para acrescentar esta referência às mensagens O Génio da Arquitectura descobre os Progressos da sua Arte 2 II Parte - O Génio Portador neste blogue.]

I Parte – Três quadros de S. Berardo e a representação de Teramo

ponto 1 –  O quadro de Pietro Gaia de 1661

Na igreja de São Benedito (Capuchinhos) na cidade de Teramo no norte dos Abruzos em Itália [1], na região sísmica e não longe de Ascoli Piceno, está exposta uma tela datada de 1661 de Pietro Gaia (?- ?) representando a Crucificação de Cristo acompanhado de São Francisco e de São Berardo [2] .

Este, bispo de Teramo como assinalam os atributos episcopais a seus pés, e patrono da cidade, transporta uma maquete da cidade que dedica ao Salvador pedindo a sua protecção para que a cidade viva em paz, sem as calamidades que frequentemente assolavam a cidade, entre as quais as epidemias, os frequentes terremotos e as guerras. 

t1fig. 1 - Pietro Gaia Crucificação com S. Berardo patrono de Teramo e S. Francisco 1661 óleo s/ tela igreja de San Benedetto, Teramo Italia.

A capa de uma publicação de 2001 intitulada Teramo. Imago Urbis iconografia storica della città [3] apresenta um detalhe desta pintura, precisamente San Berardo dedicando a cidade de Teramo a Cristo.

t2a cópiafig. 2 - Capa de Teramo. Imago Urbis – iconografia storica della città. Ricerche & Redazioni, Teramo 2011.

A cidade de Teramo, amuralhada, está representada do lado oriental vendo-se a Porta Carrese [1] o principal acesso para quem vinha de nascente. Com a abertura da Porta Reale (chamada pelos teramascos Porta Madonna) [4], a Porta Carrese foi demolida conservando-se a sua memória na toponímia (via di Porta Carrese).

No centro da representação da cidade emerge a torre (1453) símbolo de Teramo e a fachada encimada com ameias [2] da Catedral (1158-1176), À direita da maquete a igreja de Santo António [3].

Para uma melhor compreensão da representação da cidade e da própria cidade, numa planta que simula Teramo no século XVI, procurou-se assinalar a muralha e as suas portas, a localização dos edifícios religiosos (incluindo as portas e igrejas assinaladas na pintura) e civis, bem como os principais espaços públicos.

t10fig. 3 – Esboço de Teramo nos séculos XV e XVI.

0 – Porta Carrese  1 – Porta Melatina (porta de Santo António) 2 – Porta Vezzola (Porta Maggiore) 3 – Porta de S. Giorgio (porta Pretosa) 4 – Porta Romana 5 – Porta di Santo Spirito (Porta della Città detta della Quercia) 6 – Porta de S. Giovanni [7 – Porta Reale (Porta Madonna)] direcção santuário Madonna delle Grazzie

 

A – Duomo (Catedral)  B – convento de S. Agostino 1153   C – igreja de S. Matteo (São Mateusdemolida em 1940) D - convento dos Cappucinni (antigo San Benedetto 1362 onde se encontra a pintura) E – igreja e convento de S. Domenico (fundada em1327 primeira metade do século XIV) F – igreja do Santo Spirito (século XV)  G - igreja de S. Antonio di Padova  H – igreja da Annunziatta e Torre Bruciata I – Santo António Abade (Hospital psiquiátrico)   J - Loggia Comunale  antes de 1327 (Município) K – convento da Madonna delle Grazzie (fora da muralha)

I – primeira Cittadella (século XIV) II – segunda Cittadella (1410-1462)

a – Corso S. Giorgio  b – Corso Porta Reale (Corso Cerulli e Corso De Michellis) c- Via Vezzola  d – Via del Teatro Antico (via V. Irelli)  e – Via Porta Carrese  f – Corso Porta Romana g – Praça do Mercado (piazza Maggiore, piazza Victor Emanuele, piazza dei Martiri della Libertà)  h – (piazza Cavour, Piazza Orsini)  i – Piazza della Citadella  j - Piazza Melatina l – Largo Santo Agostino


[1] Para melhor compreensão abordaremos a história urbana de Teramo no ponto 4. Por curiosidade refira-se que Teramo é a cidade natal do político Marco Panella (1930-2016) fundador do Partido Radical, recentemente falecido.

[2] Berardo da Pagliara dito Berardo di Teramo (? – 1123) foi bispo de Teramo em 1115 pela morte do bispo Humberto.

[3] Teramo. Imago Urbis – iconografia storica della città. Com uma introdução de Fausto Eugeni. Ricerche & Redazioni, Teramo 2011.

[4] Construída em 1832 por ocasião da visita de Ferdinando II (Ferdinando Carlo Maria di Borbone 1810-1859) rei das Duas Sicílias entre 1830 e 1859. Reabilitada durante o fascismo sendo colocada a inscrição INTERAMNIA URBS.

 

ponto 2 – O políptico de Jacobello del Fiore de 1439

Na Catedral de Teramo, cuja construção se iniciou em 1158, existe a mais antiga representação da cidade num políptico de Jacobello del Fiore (c. 1370-1439) [1] dito o Polittico del Duomo de 1439. O quadro foi encomendado para a Igreja do mosteiro de Santo Agostinho, mas com o desaparecimento deste foi colocado na capela da Catedral dedicada a São Berardo, o patrono da cidade.

t3abfig. 4 –Jacobello del Fiore. Políptico da Catedral 1459. À direita o painel central.

Constituem o políptico 16 tábuas com fundo dourado, dispostas em duas filas, encimadas por pequenos frontões góticos em madeira dourada onde estão representados Evangelistas e Profetas.

Na parte superior da esquerda para a direita: Santa Reparata di Cesarea di Palestina, patrona de Atri; Evangelista e Apóstolo. Ao centro Cristo ladeado à esquerda pela Virgem e à direita por S. João Evangelista. Nos três painéis da direita: um Santo Mártir; um Santo com um livro e Santa Mónica.

Na parte inferior e da esquerda para a direita: Santo Arcebispo, S. Jerónimo e Santo Agostinho de Ippona. Ao centro a Coroação da Virgem. À direita S. Berardo Bispo e patrono de Teramo, S. Celestino V e São Nicolau Tolentino.

O painel central de maior dimensão (fig. 4 à direita) tem na parte superior a Coroação de Maria, com Cristo sentado no trono e na parte inferior uma representação da cidade de Teramo.

t4fig. 5 – Painel inferior do políptico da Catedral de Teramo.

Do lado esquerdo um grupo de fiéis com São Berardo e Santo Agostinho orando para que a cidade seja protegida e tenha a paz entre os seus habitantes. Na inscrição Ne moreris propter temetipsum Deus meus quare nomen tuum invocatum est super populum istum. Capitulo eodem.

É ainda possível identificar pela inscrição Magist´ Nicolaus o reponsável pela encomenda do políptico, bem como S. Nicolau de Tolentino, o arquidiácono Aprutinus e o próprio Jacobello del Fiore (Jacobell´ De Fiore pinxit.)

Ao centro a representação da cidade de Teramo entre os rios Vezzola e Trodino com a inscrição Teramum.

t5afig. 6 – A representação de Teramo no políptico da catedral.

A cidade muralhada é vista de nascente entre os dois rios o Tordino [1] e o Vezzola [2] que deram o nome à cidade de Interamnia de onde derivou o nome de Teramo.

Na bifurcação dos dois rios fora da muralha a igreja de N.ª Sr.ª da Graça [3]. Na muralha a Porta Carrese [4]. Ao centro a Catedral com a sua torre [5].

Ao fundo no interior da muralha a igreja de S. Agostinho [6].

Junto à Porta Carrese do lado interior da muralha a igreja de S. António [7].

Porta de S. Giorgio [8].

Num monte que se ergue a poente da cidade, uma capela [9] não identificada (S. Felice a Putignano ?).


[1] Jacobello del Fiore (c.1370-1439) filho de um pintor Francesco del Fiore. Foi o autor de uma vasta obra em Veneza e mais a sul do Polittico di Cellino no Museu Nacional d’Abruzzo e a Ancona di San Giacomo um políptico com S . Jerónimo e 18 episódios da sua vida, no Museu Capitolar de Atri. Carlo Crivelli foi seu discípulo.

 

Ponto 3 – O quadro de Giuseppe Bonolis de 1847

Na Sacristia da Catedral está exposto um outro quadro Il Miracolo di San Berardo [1], do pintor oitocentista Giuseppe Bonolis [2] em que está representada a cidade de Teramo.

A tela pretende evocar o dia 17 de Novembro de 1521, quando se verificou o Milagre de S. Berardo quando pela intervenção da Virgem se salvou a cidade do cerco das tropas do duque Andrea Matteo Acquaviva (1457-1529). Este aproveitando as dificuldades financeiras de Carlos V (1500-1558) obteve através do pagamento de 40 000 ducados, o condado de Teramo. Mas como a tal concessão se opuseram os habitantes de Teramo, o Duque através do seu filho Giovanfrancesco atacou a cidade sendo contudo obrigado a retirar-se e a desistir dessa pretensão.

Bonolis segue a descrição de Mutio de' Mutij [3] que refere:

E stando tutte le genti unite nel fiume di Vezzola a dritta del convento di Santa Maria delle Grazie, ed alquanto più su, videro sopra le mura della Città una donna risplendente vestita di bianco, ed un uomo a cavallo vestito di rosso, il quale parca, che scorresse in qua, od in là le muraglie. Questa visione diede tanto terrore all'esercito, che buttate le scale a terra si posero a fuggire;… [4]

Na parte superior do quadro a Virgem com o seu tradicional manto azul que contrasta com a veste amarelo ocre de S. Berardo.

Um anjo empunha uma espada de fogo e divide em duas partes o quadro. na parte inferior esquerda do quadro a fuga dos franceses , pela intervenção de Nossa Senhora da Graça respondendo ao apelo do protector da cidade S. Berardo.

t7fig. 7 - Giuseppe Bonolis (1800-1851) Il miracolo di San Berardo 1847 óleo s/ tela 300 x 210 cm. Sacristia da Catedral de Teramo.

Na parte inferior do quadro Bonolis segue a descrição do milagre por Mutio de' Mutij que refere:

E estando todos reunidos junto ao rio Vezzola à direita do convento de Santa Maria da Graça, quando de repente viram sobre a muralha da Cidade uma figura feminina resplandecente e vestida de branco, e um cavaleiro vestido de vermelho, o qual suplica que socorresse no exterior ou no interior das muralhas. Esta visão aterrorizou de tal forma o exército invasor que deitando ao chão as escadas, se puseram em fuga… [5]

t7afig. 8 – Pormenor do quadro com a cidade de Teramo.

Na parte inferior num halo dourado em torno da Virgem ilumina a cidade de Teramo.

Junto à figura de branco de N.ª Sr.ª da Graça, S. Berardo figurado como um cavaleiro vestido de vermelho, os dois patronos da cidade. Refira-se que o branco e o vermelho são as cores da cidade.

Sob a pálida luz da manhã de Inverno, a cidade de Teramo é representada vista do lado norte. As tropas estão reunidas junto ao rio Vezzola à direita do convento de Santa Maria da Graça o qual está parcialmente representado no lado esquerdo desta parte inferior da pintura. Na muralha de Teramo a Porta Melatina e a Porta Vezzola. Destaca-se à direita, no interior das muralhas, a torre da Catedral.

Ao fundo o Gran Sasso d’Italia, lembrando os versos de Fernando Pessoa:

Ao Longe os montes têm neve ao sol,
Mas é suave já o frio calmo
Que alisa e agudece
Os dardos do sol alto.
[6]


[1] O quadro também conhecido por S. Bernardo che salva Teramo dall'assedio del duca di Acquaviva relata este episódio da vida de S. Berardo, em que o Santo apela à Virgem para salvar a cidade do ataque das tropas do duque de Acquaviva. O apelo é ouvido e o cerco levantado.

[2] Giuseppe Bonolis (1800-1851) nascido em Teramo foi professor de Caligrafia no Regio Collegio daquela cidade. Em 1820 foi destituído do cargo por ter aderido à Carbonária e fixou-se em Nápoles, onde começou por dedicar-se à arquitectura e de seguida frequentou a Real Academia de Belas Artes.

[3] Mutio de’ Mutji (Muzio Mutii 1535-1602). Autor de Della storia di Teramo, escrita em 1596 em forma de diálogos entre Roberto Grandini e Giulio De Fabrici.

[4] Mutio de' Mutij Della storia di Teramo. Dialoghi sette con note ed aggiunte di G. Pannella, Tip. del Corriere Abruzzese Teramo 1893. (pág. 255 e 256).

[5] Tradução livre da citação de Mutio de' Mutij Della storia di Teramo. Dialoghi sette con note ed aggiunte di G. Pannella, Tip. del Corriere Abruzzese Teramo 1893. (pág. 255 e 256).

[6] Fernando Pessoa ficções do Interlúdio / Odes de Ricardo Reis poema de 16-6-1914 in Obra Poética Biblioteca luso-Brasileira Companhia Aguilar Editora Rio de Janeiro 1965 (pág.257)

 

II Parte – Um pouco mais para a compreensão do espaço urbano de Teramo.

1 – a situação geográfica de Teramo

t11afig. 1 – Enquadramento geográfico da cidade de Teramo

A cidade de Teramo situa-se entre a montanha e o mar, entre a ocidente o Gran Sasso d’Italia e a oriente o mar Adriatico de que dista cerca de 25 km.

Assim cabe-lhe por inteiro a citação da personagem Aligi da ópera La figlia di lorio de Gabriele D'Annunzio [1], com música de Alberto Franchetti (1860-1942) [2], quando no 2º Acto o tenor canta:

Pei monti coglierai le genzianelle
e per le spiagge le stelle marine
[3].

[ Pelos montes colherei as gencianas [4] / E nas praias as estrelas-do- mar. ]


[1] Gabriele D'Annunzio (1863-1938) nascido em Pescara nos Abruzos, num subtítulo situa esta sua obra Nella terra d’Abruzzi, or è molti anni.

[2] Estreada no Teatro alla Scala de Milão em 19 de Março de 1906.

[3]  Gabriele D'Annunzio La figlia di lorio Tragedia Pastorale in tre atti Atto. Musica di Alberto Franchetti. Edizioni G. Ricordi Milano 1906. (Secondo Atto pág.30). [4]

Gentiana planta perene com flores azuis (pneumonanthe) ou amarelas ( lutea) e com um pedúnculo curto. A gerenciana é citada na poesia de Rainer Maria Rilke (1875- 1926) nos belíssimos versos da nona  das Elegias de Duíno (1923):

…O viajante também não traz da ribanceira da montanha
para o vale uma mão cheia de terra, a todos indizível, mas sim
uma palavra adquirida , pura, a genciana azul e amarela.
Estamos aqui talvez para dizer: casa,
ponte, fonte, portão, bilha, árvore de fruta, janela, -
quando muito : coluna, torre… (
Rainer Maria Rilke  Elegias de Duíno. Sonetos a Orfeu, tradução de Vasco Graça Moura, Bertrand Editora 2007. pág. 67)

Também D. H. Lawrence (David Herbert Lawrence 1885-1930), no poema Bavarians Gentians refere a flor várias vezes. Escolhemos estes versos:

…Reach me a gentian, give me a torch!
let me guide myself with the blue, forked torch of this flower…

…Colhe-me uma genciana, dá-me uma tocha!
deixa que me guie com a forcada tocha azul desta flor… ( The Complete Poems of D. H. Lawrence
Wordsworth Poetry Library Wordsworth Editions Limited Hertfordshire 1994 pág.584).

 

continua2

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