Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Deambulações pelo Castelo da rua de Santa Catarina 3 parte

 

Cap. 3 - A Torre de Belém e o espírito romântico.

A Torre de Belém, alterada ou mesmo perdida a sua função militar, foi-se degradando ao ponto de Almeida Garrett escrever no seu Camões:

Juncto da torre antiga, e veneranda,
- Hoje mal conservado monumento
Das glórias de Manoel, ánchora desce…
[1]

E será precisamente o Romantismo, na transição do século XVIII para o XIX, que reabilitará a sua imagem.

E se a Torre de Belém não muda, com o Romantismo, muda a maneira como é vista.

O espírito romântico

O romantismo tem origem no movimento alemão dos finais do século XVIII, significativamente intitulado Sturm und Drang (Tempestade e Ímpeto).

Simplificando, o Romantismo procura o “sublime” que vê na Natureza como um ambiente duro e hostil que nos provoca a angústia da nossa pequenez face ao infinito e onde descobrimos o sentido trágico da existência e do nosso inexorável destino. Por isso acentua o movimento, o dramático e o trágico.

O artista romântico procura exprimir esse sublime, por uma arte dramática, onde, numa visão violenta, selvagem e grandiosa da realidade, o homem se confronta com o seu destino.

Assim um temporal, um mar em tempestade, a força dos ventos, um naufrágio, tornam-se temas que através da visão do artista se podem elevar à categoria de sublime.

O Naufrágio de um Cargueiro de W. M. Turner

Para ilustrar o tema do naufrágio nesta procura de imagens do sublime, com tempestades, mares revoltos, marinheiros e pescadores lutando contra a Natureza, destaca-se o jovem William Turner (1775-1851), de quem, entre diversas pinturas, escolhemos o quadro O Naufrágio do Cargueiro de 1801, já que o podemos admirar na Fundação Calouste Gulbenkian em Lisboa, a que pertence.

rom1fig. 1 - Joseph Mallord William Turner (1775–1851), Naufrágio de um Cargueiro (The Wreck of a Transport Ship)  c.1810. Óleo sobre tela 173 x 245 cm. Museu Calouste Gulbenkian, Lisboa.

O quadro representa o naufrágio de um navio, que com os mastros partidos se adorna à esquerda da composição, enquanto os náufragos parecem perdidos na violência do naufrágio agarrando-se às frágeis embarcações que os tentam socorrer no meio das violentas vagas, com:…o desamor à vida quando o vento grita temporais / e a morte vem abraçar os homens na espuma das vagas; [2]

O naufrágio e a fúria das águas e dos ventos provocam-nos um sentimento de solidariedade com os náufragos e os que os tentam salvar, e comove-nos a indefinição e o temor que nos provoca a inútil luta do homem contra o seu fado ou destino.

Assim este quadro faz-nos sentir como José Régio, no poema Portugal de todo o Mundo do livro precisamente intitulado Fado:

Em mim se rasgam velas
Se abatem mastros fendidos,
E das águas amarelas
Se esforcem para as estrelas
Mãos de braços submergidos…
 [3]

A composição do quadro

O espaço da composição, aparentemente caótico, constrói-se e desenvolve-se a partir de diagonais formadas por mastros e remos quebrados, a que se justapõem as curvas de redemoinhos das águas em turbilhão.

rom2fig. 2 – As diagonais que estruturam o quadro.

Essas diagonais remetem o olhar do espectador para uma mancha clara como um incêndio, que no centro da composição contrasta com o casco adornado e negro do navio.

E essas diagonais que estruturam a composição estão já apontadas no esboço do artista para a preparação do quadro.

D05398fig. 3 - Joseph Mallord William Turner (1775–1851) Study for ‘The Wreck of a Transport Ship’ From Shipwreck Sketchbook Turner Bequest LXXXVII c.1805–10, 118 x 185 mm Tate Gallery, Londres.

D05398fig. 4 – As diagonais estruturantes no esboço preparatório do quadro.


[1] Almeida Garrett Camões Canto I Na Livraria Nacional e Estrangeira Rue Mignon, n.º2, faub.St.-Germain, Paris 1825 (pág. 9)

[2] Manuel da Fonseca Canção de Hans o marinheiro, Publicado no Diabo n.º222 de 24 de Dezembro de 1938 e dedicado a Jorge Amado in Obra poética Editorial Caminho, 1984 (pág.62).

[3] José Régio (José Maria dos Reis Pereira 1901-1969) e Júlio (Júlio Maria dos Reis Pereira, ou Júlio ou Saúl Dias 1902 — 1983) Portugal de Todo o Mundo in Fado, versos de José Régio e desenhos de Júlio, Arménio Amado, Editor – Coimbra 1941.(pág.17).

Os quadros de John Thomas Serres

Sem a expressividade nem o dramatismo do Naufrágio de Turner, o inglês John Thomas Serres [1] (1759-1825) pintou no início do século XIX dois quadros que exemplificam um Romantismo mais tranquilo do início do século XIX (uma das pinturas está datada de 1811 e a outra de 1826) e onde

A paisagem é o mar, o rio, a torre,
Postos nos lugares certos por acaso.
[2]

Um dos quadros encontra-se no Museu da Cidade de Lisboa e o outro está reproduzido na Wikimedia Commons. Algo semelhantes os quadros apenas diferem nos pormenores do barco de pescadores no primeiro plano e na embarcação de três mastros, que no primeiro quadro está saindo da barra e no outro está chegando ao Tejo.

O quadro do Museu da Cidade de Lisboa.

rom4fig. 5 - John Thomas Serres (1759-1825) Torre de Belém 1811 óleo sobre tela 139,5 x 169,5 cm. Museu da Cidade de Lisboa .

E o quadro, de colecção particular, reproduzido na Wilkimedia Commons.

rom5fig. 6 - John Thomas Serres (1759-1825) An English frigate in choppy waters in the Tagus passing the Belem Tower 1823 óleo s/ tela 35,6 x 44,4 cm. Wikimedia Commons.

Nestes quadros, com um céu de cores e sons de tempestade, a tarde declina com uma luz ténue que se situa na soleira do crepúsculo, num Tejo agitado de ondas cor de azeitona surgem três elementos de tons amarelos pela luz poente, que ocupam o centro da composição: a Torre de Belém, uma fragata britânica e uma pequena embarcação de pesca.

Ao fundo citando Sophia:

Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata
Lisboa oscilando como uma grande barca.
 [3]

E podíamos ainda dizer como Pascoais, Lisboa, branca ao pé do Tejo e na outra margem em mancha azul, a Arrábida saudosa. [4] 

[1] John Thomas Serres filho de um pintor, especializou-se na pintura naval e está representado em diversos museus como a Tate Gallery e a Royal Collection em Londres, no National Maritime Museum de Greenwich e ainda noutros museus internacionais como a National Gallery of Art de Washington. Foi Mestre de Desenho do Royal Naval College e foi nomeado, pela morte do pai em 1793 Pintor de Marinhas do Rei Georges III.

[2] Egito Gonçalves Maquinismo in Cadernos das Nove Musas – com um desenho de Fernando Lanhas 1ª edição Maranus Porto, 1952 e in O Pendulo Afectivo Antologia Poética 1950-1990 Edições Afrontamento 1991.

[3] Sophia de Mello Breiner Andersen Lisboa 1977 in Navegações 1ª edição INCM 1983. Assírio & Alvim Lisboa 2015 (pág.31)

Porque digo / Lisboa com seu nome de ser e de não-ser / Com seus meandros de espanto insónia e lata / E seu secreto rebrilhar de coisa de teatro / Seu conivente sorrir de intriga e máscara / Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata / Lisboa oscilando como uma grande barca / Lisboa cruelmente construída ao longo da sua própria ausência / Digo o nome da cidade / – Digo para ver

[4] Teixeira de Pascoais (Joaquim Pereira Teixeira de Vasconcelos 1877- 1952) Painel. Com Desenhos de Almada Negreiros. Ed. Oficina Gráfica, Limitada. 1935.

John Thomas Serres e a visão romântica da Torre como um navio

A Torre de Belém de pedra e renda [1] surge navegando, soberba, como uma enorme embarcação, protectora e vigilante entre revoltas e apressadas ondas, com o sopro do vento, a levantar a cara
e a escutar a voz do rio.
[2]

Ali onde o Tejo furioso em ondas e negaças de mar a valer [3], perde o sabor das águas com que nasceu.

rom6fig. 7 – A Torre de Belém destacada no quadro de 1811.

rom7fig. 8 – A Torre de Belém destacada no quadro de 1823.

rom8fig. 9 – Comparação entre a Torre de Belém no quadro do Museu de Lisboa e no quadro da Wilkimedia Commons.

No primeiro quadro de 1811 a Torre colocada mais ao centro da composição, tem hasteada a bandeira nacional utilizada entre 1707 e 1816, e nenhuma personagem está representada.

Já na segunda pintura datada de 1823, após a Revolução Liberal o mastro não apresenta nenhuma bandeira e na Torre que surge mais à esquerda e isolada na composição, parecem figurar algumas personagens.


[1] Maria Teresa Horta Olhar in Poemas para Leonor, Ed. D. Quixote Lisboa 2012.

As águas recamadas
De saudade e
a Torre
De Belém de pedra e renda.

[2] Cesare Pavese Paesaggio VIII 1940 in Poesie, con introduzione di Massimo Mila, Nuova Universale Einaudi, Torino 1961 . (pag.179)

I ricordi cominciano nella sera
sotto il fiato del vento a levare il volto
e ascoltare la voce del fiume.
L'acqua
è la stessa, nel buio, degli anni morti…

[3] Luís Chaves Dos Barcos Miúdos de Lisboa. Botes, Canoas, Chatas etc. (Nota Etnográfica Olisiponense) in Revista Municipal n.º 62 1954 (pág. 21 a 32).

A fragata britânica

Junto à Torre de Belém como um navio e com ela dando sentido aos versos de Sophia: a porta da cidade é feita de dois barcos [1], uma fragata britânica de três mastros ao serviço de Sua Majestade [2] mostrando as brancas velas e redondas [3].

Significativa e serenamente num dos quadros parte e no outro chega, dessa viagem para mundos vislumbrados e prometidos a que o destino, com doce certeza, os chamou.

Pelas datas percebemos que, no quadro de 1811, o navio veio cumprir a aliança com Portugal no conflito conhecido como Guerra Peninsular.

No outro, de 1823, com a Revolução Liberal e o regresso do Brasil, os britânicos regressam a Portugal.

rom9fig. 10 – A fragata partindo de Lisboa no quadro de 1811.

rom10fig. 11 – A fragata entrando na barra do Tejo no quadro de 1823.

rom11fig. 12 – Comparação entre a fragata britânica no quadro do museu da cidade de Lisboa e no quadro da Wilkimedia.

De notar o pavilhão conhecido como Red Ensign ou Red Duster que a partir do século XVIII passou a identificar os navios britânicos.

Trata-se de uma fragata da classe Leda que foram construídas no início do século XIX e que lutaram nas Guerras Napoleónicas, de que é exemplo entre outras a Pomone de que apresentamos uma litografia.

rom12fig. 13 - T. G. Dutton (1819-1891) Fragata Pomone Litografia colorida a partir de uma pintura de G.F. St. John wilkimédia.

E das diversas pinturas da época escolhemos a de Thomas Luny, A Frigate of the Royal Navy leaving Cork Harbour.

rom17fig. 14 - Thomas Luny (1759–1837) A Frigate of the Royal Navy leaving Cork Harbour 1830. Óleo sobre tela 38,5 × 51,5 cm. colecção particular.

rom13fig. 15 – Desenho de uma fragata Leda. In blogue Alternavios http://alernavios.blogspot.pt/2015_03_01_archive.html


[1] Sophia de Mello Breiner Andersen Mar Novo (1ª edição 1958 Guimarães Editores). Lisboa, Editorial Caminho, 2003.

Na cidade da realidade encontrada e amada
O sol dá lentamente a volta às praças e aos quartos
Para varrer o chão e preparar a noite
Que é redonda azul e atenta
E a porta da cidade é feita de dois barcos
Oh quem dirá o verde o azul e o fresco
O hálito da água e o perfume do vento
Vê-se a manhã criar uma por uma cada coisa
Vê-se quebrar a onda da noite transparente.

[2] No primeiro quadro embora o rei fosse Georges III (George William Frederick, 1738-1820) que reinou entre 1801 e 1820, foi precisamente no ano de 1811 em que o quadro está datado que o filho Georges August Frederick , Príncipe de Gales (1762-1830), o futuro Georges IV assumiu a Regência do Reino, tendo sido coroado em 1820. O segundo quadro datado de 1823 corresponde ao reinado de Georges IV. A época caracteriza-se por uma forte relação e interferência do Reino Unido e Portugal. Lembre-se as consequências da independência dos Estados Unidos (1776), as Guerras Napoleónicas e as Invasões Francesas (1808 a 1810), a Revolução Liberal (1820) e a independência do Brasil (1822).

[3] Luís de Camões Lusíadas canto IX Estrofe XLIX.

 

O barco de pesca

No primeiro plano enfrentando uma larga, crua e inquieta onda cor de azeitona, uma embarcação típica do Tejo, com mastro inclinado para a proa, nas águas revoltas do Tejo, é manobrada por uma infatigável equipagem de pescadores salgados de espuma arremessada pelos ventos [1].

E como canta Hans o marinheiro:

…o desamor à vida quando o vento grita temporais
e a morte vem abraçar os homens na espuma das vagas;
 [2]

Esta embarcação de pescadores colocada no centro dos quadros simboliza a permanente luta do Homem contra o naufrágio da existência no seu permanente confronto com a Natureza,

com que o Céu (seja força, acaso, ou sorte)
Em tão pesada perdição nos lança.
[3]

rom6fig. 16 – O barco de pesca no quadro de 1811.

rom10fig. 17 – O barco de pesca no quadro de 1826.

rom16fig. 18 - A embarcação de pesca no quadro do Museu da cidade de Lisboa eno quadro da Wikilmédia.

A partir do(s) barco(s) representado(s) no primeiro plano dos quadros de John Thomas Serres, que não são semelhantes e porque sobre os barcos do Tejo existe muita matéria, abrir-se-á um novo

capítulo 4 - Os barcos do Tejo a publicar num próximo post.


[1] Fernando Pessoa / Álvaro de Campos. Ode marítima 1915 in Ficções do Interlúdio in Fernando Pessoa Obra Poética Biblioteca Luso-Brasileira Companhia Aguilar Editora Rio de Janeiro 1965. (pág.322).

[2] Manuel da Fonseca Canção de Hans, o marinheiro

[3] John Milton (1608-1674) Paradise Lost Book I (pág.6 v.128 a 137) 1667 in Paradise Lost a Poem in Twelve Books, Published by Timothy Bedlington Boston 1820.

O Prince, O Chief of many Throned Powers,
That led th’ imbattelld Seraphim to Warr
Under thy conduct, and in dreadful deeds 130
Fearless, endanger’d Heav’ns perpetual King;
And put to proof his high Supremacy,
Whether upheld by strength, or Chance, or Fate,
Too well I see and rue the dire event,
That with sad overthrow and foul defeat 135
Hath lost us Heav’n, and all this mighty Host
In horrible destruction laid thus low…

Tradução de António José de Lima Leitão (1787-1856):

Príncipe, chefe dos imensos tronos
Que às batalhas trouxeste em teu comando,
Tu que, por feitos da mais nobre audácia,
Querendo conhecer a quanto avonda
Do Rei dos Céus a grã supremacia,
Em p’rigo lhe puseste o império e a glória,
Vejo, e punge-me assaz, o atroz sucesso

Com que o Céu (seja força, acaso, ou sorte)
Em tão pesada perdição nos lança
Com tamanha vergonha e tanto estrago;
Vejo, e punge-me assaz, que a tal baixeza
Chegasse nosso exército tão forte,
A ponto de sofrer quanto é possível
Que substâncias do Céu e Deuses sofram.

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