Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Deambulações pelo Castelo da rua de Santa Catarina 4 parte

Deus ao mar o perigo e o abysmo deu,
Mas nelle é que espelhou o céu.
 
[1]

mul1fig. 1 - À esquerda a embarcação de pesca no quadro de John Thomas Serres (1759-1825) Torre de Belém óleo sobre tela 139,5 x 169,5 cm. Museu da Cidade de Lisboa . À direita a embarcação no quadro de John Thomas Serres (1759-1825) An English frigate in choppy waters in the Tagus passing the Belem Tower 1823 óleo s/ tela 35,6 x 44,4 cm. Wikimedia Commons.

1 – Em muitas das imagens do texto anterior eram inúmeros os barcos que circulavam no Tejo até ao início do século XX. Como na imagem de Bernardo de Caula de 1763.

mul2fig. 2 - Bernardo de Caula (?antes de 1763-1793) P.ro tenente dartilharia do algarve. desenha uma Vista e perspectiva da Barra Costa e Cidade de Lisboa Capitale do Reino de Portugal, desde a Torre do Bogio (com o n.º 1) a ocidente, até ao Palacio do Patriacha (com o nº 102) do lado oriental.- 1763. - 1 desenho : pena e aguadas de tinta sépia e cinza em duas f. coladas ; 22,5x140,5 cm. BND

Essa quantidade e diversidade, surge em textos do século XVII até aos inícios do século XX.

Assim em 1620 refere Frei Nicolau de Oliveira (1566-1634), no seu Livro das Grandezas de Lisboa:

Ha mais neste porto, mais de mil & quinhentos barcos de ganhar, & pescar, entre grandes, & pequenos; & disto he cauza o grande trato, & pescaría deste rio, de que adiante se dira; nao fallando em grande numero de barcos d'Alfama, que váo pescar ao alto, & de Cascaes, Cezimbra, Setuual, & Peniche, que quasi todos os dias entraõ neste porto, com toda a sorte de pescaria do alto. [2]

E em 1626 o autor anónimo da Relaçam, em que se trata, e faz hüa breve descrição dos arredores mais chegados à Cidade de Lisboanum apontamento:

São varias embarcações
De alto bordo, & das rasteiras
Urcas, naos, galès, pataxos,
Setias, & caravellas.
Aqui se lanção a monte,
& de ordinario daõ crena,
Fazem de novo, & desfazem
As embarcações já velhas
. [3]

E já dos finais do século XIX é, o muitas vezes citado, Brito Aranha na entrada Varino do indice alphabetico e descriptivo de A Gravura de Madeira em Portugal. Estudos em todas as especialidades e diversos estylos, de J. Pedrozo, publicado em 1872, que refere a enorme quantidade e nomeia a diversidade das embarcações que navegam no Tejo.

Varino - É numerosa e variada a navegação do Tejo. Na phrase elegante de um dos nossos mais primorosos escriptores, este rio tem a sua marinha especial, tão espantosa quantidade de barcos o sulcam e cruzam, tão diversa e a armação, a forma e a lotação d'elles, e tão extensa par isso a sua nomenclatura. Entre as embarcações pois, que pertencem ao Tejo, contam-se os moinhos, as rascas,as faluas, as moletas, os aveiros, as fragatas, os hiates, os varinos, as guigas, os vapores, os botes, os catraios, os escaleres, as canoas, etc. Muitos d'estes barcos, todavia, não se limitam à navegação fluvial e aventuram-se, barra em fora, como a rasca que vae carregar de figo nos portos do Algarve, e a moleta, que empregando-se na pescaria, tambem arma em hiate para desempenhar alguma comissão do commercio. Outros destinam-se tão somente à navegação fluvial, que se chama do Riba Tejo. A maior parte das embarcações indicadas procede dos estaleiros do Barreiro e Seixal, cujos moradores tambem formam, commummente, as suas companhas, como os habitantes da Trafaria dão o máximo contingente para os serviços da pesca. Os barcos de mais elevada lotação e mais numerosos tripulantes vem, comtudo, dos estaleiros de Espozende, da Figueira, do Porto e de outras terras da beira mar do norte do reino. A armação em geral, quer seja de dois mastros, quer seja dum, como a do varino [fig.3] da gravura é com velas latinas.[4]

mul4fig. 3 - J. Pedrozo VarinoBarco do Tejo Estampa 18 de Gravura de madeira em Portugal 1872.

E para que não percamos de vista o principal objectivo do texto, João Pedrozo insere no álbum uma vista da Torre de Belém.

mul14fig. 4 – J. Pedrozo Torre de Belém Estampa 7 de Gravura de madeira em Portugal 1872.

E podemos evocar ainda Ramalho Ortigão que em O Culto da Arte em Portugal de 1896 escreve:

6.º As embarcações – galeões, naus, caravellas, bergantins, fustas, toda essa portentosa collecção dos nossos barcos de guerra e dos tão variados typos empregados na cabotagem e na pesca, testemunhos sobreviventes ainda hoje do nosso genio marítimo e das sugestões do mais remoto trato do ocean… como se demonstra na forma dos saveiros, que trouxemos do Bosforo, e na da muleta do Seixal, que é o navio grego do tempo de Herodoto.

E mais adiante:

Em toda a nossa costa, desde o Minho ao Guadiana, a enorme variedade de formas nas embarcações da pesca marítima, da pesca fluvial e da pedra lacustre, basta para evidenciar a persistência da tradição no grande génio marítimo de tão pequeno povo. [5]

Por isso, se torna difícil a correcta identificação de muitas dessas embarcações à vela até porque há, ao longo do tempo em muitas delas uma evolução e porque os nomes variam muitas vezes conforme os lugares onde actuavam ou onde eram construídas.

Já o afirmava o Padre Fernando de Oliveira no Livro da Fabrica das Naus no Capitolo quinto, de quantos géneros & maneyras de navios há na arte da navegação:& dos nomes deles. [6]

... Os nomes das esppecies, ou maneyras dos navios, & barcos, assy dhum genero, como do outro, são quasi incompreensíveys: assy por serem muntos, como pola munta mudãça que fazem de tempo em tempo, & de terra em terra. Hüa mesma especia de navios ou barcos, tem hum nome na Espanha, outro em França, & outro na Itália. [7]

E Júlio de Castilho (1840-1919) na sua Lisboa Antiga em 13 volumes iniciada em 1879 e A Ribeira de Lisboa de 1893:

Entre esses operários da terra, e por meio das montuosas médas de pinho, e por entre as cordilheiras do mercado do tojo, ali erguidas de quando, em quando, zagarelhavam os operários do mar, os barqueiros com as suas vozes roucas, os fragateiros da Moita ou de agua-acima; e as fragatilhas, os saveiros, as muletas, aproavam, em renques ao longo da praia, lembrando a um estudantinho de humanidades (como eu era) a esquadra grega dos cercadores de Troia, prófugos longos annos de roda dos mares,.... maria omnia circum. [8]

e mais adiante:

Na orla, á beira-Tejo, agazalhavam-se e compunham-se as barcas pescadoras, as muletas da sardinha, as faluas cacilheiras, os saveiros de agua-arriba, e até, observa Frei Nicolau de Oliveira, «navios de alto bordo, com que se navega para as conquistas; e são muitos» acrescenta elle. [9]

Assim, a partir das embarcações de pescadores que figuram nos quadros, neste texto apenas nos debruçaremos sobre um tipo de embarcação, o que apresenta uma grande vela latina e um pequeno mastro inclinado para a frente, ou seja o Barco de Riba Tejo e a Muleta.

Referiremos um outro tipo de embarcações de vela latina e mastro inclinado para a frente, a partir de outras imagens, o Batel do Tejo e o Bote d’água acima.

Iremos socorrer-nos de muita da bibliografia existente sobre o tema, que iremos apontando ao longo do texto.


[1] Fernando Pessoa, X. Mar Portuguez, in Mensagem II parte, Fernando Pessoa - Obra Poética Companhia Aguilar Editora Rio de Janeiro 1965. (pág. 82).

[2] Frei Nicolau de Oliveira (1566-1634), Tratado Quarto do Sitio de Lisboa, pág.73 do Livro das Grandezas de Lisboa Composto pelo padre Frey Nicolao d’Oliveira Religioso da Ordë da Sãctissima Trindade & natural da mesma Cidade. Dirigido a D. Pedro d’Alcaçova Alcayde mor das tres Villas, Campo mayor, Ougella, & Idanha a nova, & Comendador das Idanhas. Com todas as Licenças necessarias. Impresso em Lisboa por Iorge Rodriguez. Anno 1620. (pág.5).

[3] Relaçam em que se trata & faz hüa breve descriçaõ dos arredores mais chegados à Cidade de Lisboa, & seus arrabaldes, das partes notaveis, Igrejas, Hermidas, & Conventos que tem, começando logo da barra, vindo corredo por toda a praya até enxobregas, & dahi pella parte de cima até São Bento o novo Publicada nos Anais das Bibliotecas e Museus Municipais n.º11, Jan. a Mar. Lisboa 1934. (pág 23)

[4] João Pedrozo Gomes da Silva (1825-1890) gravuras e Pedro Wenceslau de Brito Aranha (1833-1914) texto do indice alphabetico e descriptivo, in A Gravura de Madeira em Portugal - Estudos em todas as especialidades ediversos estylos, por J. Pedrozo, Lisboa, Empreza Horas Romanticas editou, 1872. (p. 8).

[5] Ramalho Ortigão O Culto da Arte em Portugal, António Maria Pereira, Livreiro-Editor 50-Rua Augusta-52, Lisboa 1896. (pág. 100, 101 e 127).

[6] Padre Fernando Oliveira (c.1507- 1585?), Liuro da fabrica das naos / composto de novo pllo. Licenciado Fernando Oliveira. - [ca 1580]. - [3] f., [164] p., enc. : il. ; 31 cm  BND http://purl.pt/6744 (pág. 43)

[7] Idem (pág. 46)

[8] Tradução: todos os mares in Júlio de Castilho (1840-1919) A Ribeira de Lisboa Descripção Histórica da Margem do Tejo desde a Madre-De-Deus até Santos-O-Velho, Imprensa Nacional Lisboa MDCCCXCIII Livro I Capitulo XIII (pág. 81)

[9] Júlio de Castilho (1840-1919) A Ribeira de Lisboa Descripção Histórica da Margem do Tejo desde a Madre-De-Deus até Santos-O-Velho, Imprensa Nacional Lisboa MDCCCXCIII. Livro II Capitulo VI (pag.137).

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