Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Deambulações pelo Castelo da rua de Santa Catarina 5 parte

 
2 – O Barco de Riba Tejo

rt16_thumb2fig. 5 - John Thomas Serres (1759-1825) Torre de Belém 1811 óleo sobre tela 139,5 x 169,5 cm. Museu da Cidade de Lisboa.
rt6_thumb2fig. 6 - John Thomas Serres (1759-1825) An English frigate in choppy waters in the Tagus passing the Belem Tower 1823 óleo s/ tela 35,6 x 44,4 cm. Wikimedia Commons

Embora, como vimos, muitos autores designem por muletas [1] a generalidade das pequenas embarcações de pesca, de transporte e mesmo de pilotagem, operando no Tejo, como refere João Pedro d’Amorim no seu Diccionario de Marinha [2] nos quadros de John Thomas Serres as embarcações podem ser designadas por Barcos de Riba Tejo, como descrevia João de Souza. [3] (fig.7).
De facto se só no primeiro quadro é visível a proa arredondada e denteada, em ambas as pinturas vê-se a grande vela latina armada numa comprida verga articulada com o mastro, de que apenas se vê a ponta, muito inclinado para a proa.
Têm um leme com xarolo manobrado por uns cabos chamados gualdropes, bem visível no quadro de 1823, com a vela enfunada a bombordo.
Nos quadros, não são visíveis as espadelas laterais, também chamadas de pás das bordas, encobertas pelas ondas. [4]
São manobrados por seis marinheiros, sendo que no segundo quadro dois deles estão encavalitados na verga diminuindo o pano da vela. Eram barcos de pesca mas eram ainda utilizados para o transporte de mercadorias ou de passageiros e, eventualmente, como pilotos da barra.

rt8_thumb2fig. 7 - João de Souza, Barcos de Riba Tejo - Barques du haut Tage, eles portent des provisions a la Ville in Caderno de todos os Barcos do Tejo tanto de Carga e Transporte como d’ Pesca. Estampa 6.
Os elementos essenciais que caracterizam a embarcação são apontados na figura seguinte:

rt9_thumb2fig. 8 - Adaptação de um desenho de Aldo Cherini e Corrado Cherini, Barco de Riba Tejo in Barche e navicelle d'Europa - un ricchissimo e significativo patrimonio etnografico quasi completamente scomparso 1978. (pag.9).
Legenda:
1 – Proa
2 – Vela latina
3 – Verga
4 – Mastro
5 – Leme com xarolo
6 – Espadela ou pá-de-bordo (de bombordo)
Na figura seguinte vê-se o sistema de amarração da verga ao mastro de um barinho (varino) semelhante ao barco de Riba Tejo.

rt14_thumb2fig. 9 - Installazione della driza nel barinho. Adriças de amarração da verga e do mastro.Desenho de Aldo Cherini e Corrado Cherini, Barche e navicelle d'Europa - un ricchissimo e significativo patrimonio etnografico quasi completamente scomparso 1978.
Os Barcos de Riba Tejo bem como os designados por Muleta (que referiremos de seguida), com este sistema de vela latina não podem virar de bordo ou como indica João Pedro d’Amorim dar por d’avante, já que para trazerem as vellas doutra maneira dão por d’avante cõ a vella sobre o masto e se perdem. [5]
E João Pedro d’Amorim define:
Dár por d’avante, mudar de amura, passando com a proa pela linha do vento.[6]
E ainda Virar por d'avante, mudar de uma para outra amura na linha de bolina; passando com a proa do navio pela linha do vento, ou rumo d'onde elle sopra. [7]
Para passar a vela de uma amura para a outra era-se obrigado segundo define João Pedro d’Amorim, a Virar em roda, pelo lado opposto ao vento, ou seja passar com a popa pela linha do vento.
Repare-se que nos quadros de John Thomas Serres as embarcações navegam com diferentes amuras ou seja com a vela ora a estibordo ora a bombordo. Na embarcação da esquerda a vela latina está enfunada a estibordo, ou seja com o vento a bombordo, enquanto a embarcação à direita navega numa bolina seguindo outro bordo.

rt12_thumb2fig. 10 – As embarcações dos quadros de John Thomas Serre mostrando as duas diferentes posições da vela navegando à bolina.
Breve referência à génese do barco de Riba Tejo

Velejar tem uma poesia tão antiga quanto o mundo.  Antoine de Saint-Exupéry

Não vamos procurar a génese destas embarcações, com um mastro e vela latina e o casco em forma de meia-lua ou de feijão, (bean-cod como os ingleses as designavam desde o século XVIII [8]), já que remonta a épocas remotas.
 

De facto o poeta escocês William Falconer, no seu Dicionário da Marinha de 1780, define assim o bean-cod: a small fishing-vessel, or pilotboat,common on the sea-coasts and in the rivers of Portugal. It is extremely sharp forward, having it’s stem bent inward above into a great curve: the stem is also plated on the fore-side with iron, into which a number of bolts are driven, to fortify it, and resist the stroke of another vessel, which may fall athwart-hawse. It is commonly navigated with a large lateen sale, which extends over the whole length of the deck, and is accordingly well fitted to ply to windwards [1]

E o almirante William Henry Smyth no seu The Sailor’s Word-Book * define também o bean-cod, como A small fishing-vessel, or pilot-boat, common on the sea-coasts and in the rivers of Spain and Portugal; extremely sharp forward, having its stem bent inward above in a considerable curve; it is commonly navigated with a large lateen sail, which extends the whole length of the deck, and sometimes of an outrigger over the stern, and is accordingly well fitted to ply to windward. [2]

* Um livro revisto pelo Almirante Sir Edward Belcher (1799-1877), que esteve no Porto de que desenhou uma planta e uma vista da entrada da barra do Douro. Ver neste blogue os transportes marítimos e fluviais 7 http://doportoenaoso.blogspot.pt/2010/04/os-transportes-maritimos-e-fluviais-7.html

Segundo O. L. Filgueiras …a mais arcaica estirpe de barcos de entre as que por cá subsistem - aliás, Portugal, e o Iraque, detêm ainda o mais importante acervo de espécimes desta família - a sua principal zona de fixação, talvez desde a deslocação de populações resultante da destruição de Tartessos (500 a.C.), e a faixa litoral do centro, com predominância para o polo Ovar-Aveiro-Ílhavo, antiga região habitada pelos Turduli veteri para onde teriam afluído parte dos fugitivos, com os seus barcos.

E refere Ramalho Ortigão que coloca a origem do saveiro e da muleta do Seixal …como se demonstra na forma dos saveiros, que trouxemos do Bósforo, e na da muleta do Seixal, que é o navio grego do tempo de Heródoto. [3]

Sem fazer a génese e a história da embarcação na verdade ela figura em imagens desde o século XVI.

Do pintor anónimo que se convencionou chamar de Mestre da Lourinhã, o quadro São João Evangelista em Patmos da segunda década do século XVI estão representadas junto da figuração de Patmos, 5 embarcações. Mais à direita uma nau e um pequeno escaler. À esquerda da imagem navega uma embarcação de vela latina mas que não apresenta leme, sendo mareada através de um remo. No cais figura o martírio a que S. João Evangelista foi submetido: ser mergulhado num caldeirão de azeite mas de onde saiu não queimado mas rejuvenescido. No cais e apenas separada por uma embarcação manobrada por um homem de pé, uma embarcação de mastro inclinado, com a vela arreada que, numa interpretação algo forçada, podia ser uma embarcação do tipo ou semelhante à que nos ocupa.

rt17ab_thumb2fig. 11 - Mestre da Lourinhã (denominação convencional) S. João Evangelista em Patmos c.1510-1520. Santa Casa da Misericórdia da Lourinhã.

rt17b_thumb2fig. 12 – Pormenor da imagem anterior.

rt17f_thumb2fig. 13 – Pormenor da fig. 10 com as embarcações junto ao cais.

A representação do Barco de Riba Tejo

Já do século XVII, e sem dúvidas, é a embarcação que figura no primeiro plano da gravura de Dirk Stoop.

 

rt3_thumb2fig. 14 - Dirk Stoop (1610-c.1686) Vista do Convento de Madre de Deus 1662 gravura 18,3 x 25,4 cm British museum.Autor desconhecido.

Também este tipo de embarcação se encontra representada, embora de forma simplificada, num azulejo da primeira metade do século XVIII.

rt7_thumb2fig. 15 - Azulejo monocromático azul sobre branco com um barco à vela com marinheiros. No céu um bando de gaivotas. Aos cantos encontram-se quartos de flores de pétalas redondas, que servem de elementos de ligação.Primeira metade do século XVIII. Faiança 14,4 x 14,4 x 1,3 cm. Museu Nacional do Azulejo.

Mas é sobretudo no período romântico, na transição do século XVIII para o século XIX, com a proliferação da pintura com temas marítimos (marinhas) que aparecem representados no Tejo e na sua foz, barcos de pescadores e navios civis e de guerra.

Na aguarela de John Cleveley Jnr. [4], datada de 1775, os dois barcos do lado esquerdo são barcos de Riba Tejo sendo que um deles tem a vela arreada e no outro pode ver-se os pescadores recolhendo a rede.

O barco no centro da imagem com a proa em bico é um Batel de Rio Acima, que trataremos mais adiante.

rt13_thumb2fig. 16 - John Cleveley Jnr. (1747-1786), Fishermen at work off the mouth of the Tagus, 1775 25.4 x 35.6 cm.

Um outro pintor britânico Thomas Buttersworth [5] pintou no período romântico um conjunto de vistas do Tejo onde surgem estes e outros barcos de pescadores.

Neste primeiro quadro ao fundo,

Sobre as águas se recorta a branca escultura
Quasi oriental quasi marinha
Da torre aérea e branca
E a manhã toda aberta
Se torna irisada e divina…
 [6]

a Torre de Belém junto à qual, no Tejo, navegam diversas embarcações, entre as quais, no primeiro plano, um barco de Riba Tejo ancorado e com a vela descida, e onde 5 pescadores recolhem a rede de pesca.

rt1_thumb2fig. 17 - Thomas Buttersworth (1768-1842) An English frigate and an armed naval cutter becalmed in the Tagus off the Belem Tower 35.6 x 43.2 cm. Colecção particular.

Numa outra pintura enquanto

Bate na foz do Tejo, arfando, a vaga;
Resoa a viração no templo vasto,
Como harmonia mysteriosa e vaga…
 [7]

Sob forte vento, um semelhante barco de pesca com seis tripulantes, navega entre navios, nas águas agitadas da embocadura do Tejo entre o Bugio e S. Julião da Barra.

rt10_thumb2fig. 18 - Thomas Buttersworth (1768-1842) An armed cutter emerging from the mouth of the Tagus, past the Bugio lighthouse 41.3 x 64.8 cm. Colecção particular.

E finalmente um terceiro quadro apresenta à esquerda um Barco de Riba Tejo navegando entre outras embarcações junto ao Bugio, quando

L'horizon tout entier s'enveloppe dans l'ombre,
Et le soleil mourant, sur un ciel riche et sombre,

Ferme les branches d'or de son rouge éventail. [8]

rt15_thumb2fig. 19 - An English frigate off the Belem Tower in the Tagus, Lisbon, clawing her way to windward in the prevailing winds óleo sobre tela 35,6 x 45,7 cm. Christies

No pormenor da imagem da embarcação distingue-se o leme com o xaroco, o mastro inclinado para a proa e a tripulação de seis homens, que pela indumentária indica que a embarcação operará como piloto ou como transporte de oficiais para o navio de guerra que se vê no centro da imagem.

rt15a_thumb2fig. 20 – Pormenor da pintura anterior.

Finalmente, já do final do século XIX, uma pintura de Alfredo Keil onde uma embarcação dorme na praia de Cascais, e a curva do seu bico / Rói a solidão.[9]

Uma figura descarrega carqueja (?) por uma prancha, mostrando a utilização do barco como transporte de mercadorias. Ao fundo um navio a vapor [10] e a Torre do Bugio.

rt11_thumb2fig. 21 – Alfredo Keil (1850-1907) Barcos junto à Torre do Bugio, óleo sobre madeira 13,5 x 9 cm. Colecção particular.


[1] William Falconer (1732-1769) A n Universal Dictionary of the Marine : or, A copious explanation of the technical terms and phrases employed in the construction, equipment, furniture, machinery, movements, and military operations of a ship. 1780. Edição de 1830 com o título de A new and universal dictionary of the marinePrinted for T. Cadell London 1830.

[2] William Henry Smyth (1788-1865), The Sailor’s Word-Book. An alphabetical digest of nautical terms including some more especially militar and scientific, but useful to seamen as well as archaisms of early voyagers, etc. by the late Admiral W. H. Smyth, revised for the press by Vice-Admiral Sir E. Belcher, Blackie and Son, London Paternoster Row and Glasgow and Edinburgh . 1867. ( pág. 89).

[3] Ramalho Ortigão O Culto da Arte em Portugal, António Maria Pereira, Livreiro-Editor 50-Rua Augusta-52, Lisboa 1896. (pág. 100, 101).

[4] John Cleveley Jnr. ou the Younger era filho do carpinteiro naval e pintor de Deptford John Cleveley (c. 1712 - 1777) e irmão gémeo do aguarelista Robert Cleveley (1747 - 1809). Expôs pela primeira vez Free Society em 1767 e depois na Royal Academy em 1770. Em 1772 foi o desenhador da expedição de Sir Joseph Banks's às ilhas Hébridas, Orkneys e Islândia e, em 1773, acompanhou a expedição de Phipps na procura da rota norte para a India, que pouco mais avançou que a de Spitzbergen. A sua visita a Portugal parece datar-se entre Agosto de 1775 e Janeiro de 1776 e um volume de trinta e sete desenhos intitulado Views round the Coast and on the River Tagus (Sotheby's 17 Nov 1983, lot 51) apresenta essas datas.

[5] Thomas Buttersworth (1768-1842) alistou-se na Marinha Britânica em 1795 e tornou-se pintor de marinhas. O seu filho James Edward Buttersworth (1817-1894) seguindo as pisadas do pai também foi um reconhecido pintor de marinhas.

[6] Sophia de Mello Breyner Andresen O Búzio de Cós e outros poemas, Caminho, Lisboa, 2004. (pág.20).

[7] Raimundo António de Bulhão Pato (1828-1912), Livro do Monte, Georgicas-Lyricas. Typographia da Academia

1896. (pág. 234).

[8] José Maria de Herédia(1842-1905) Soleil Couchant de La Nature et le Rêve in Les Trophées, Chez Alphonse Lemerre Paris 1893 (pág.140)

[9] Sophia de Mello Breyner Andresen, poema Barcos in Coral, 1.ª ed., Porto, Livraria Simões Lopes  Lisboa, 1950.

[10] Ver neste blogue: os transportes marítimos e fluviais 8 em http://doportoenaoso.blogspot.pt/2010/04/os-transportes-maritimos-e-fluviais-8.html

 
 












































































 

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