Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















sábado, 8 de outubro de 2016

Deambulações pelo Castelo da rua de Santa Catarina 7 parte

 


[Nota – Não seguiremos uma ordem cronológica e todos os sublinhados a negrito bem como a tradução dos textos são da minha autoria.]

4 - A Muleta a todo o pano


Mas a Muleta tornou-se conhecida quando, conforme a qualidade da pesca a que se destinam, e o tamanho, porque as há maiores e menores [1], de popa redonda ou mais achatada, arvorava todo o seu velame, criando uma imagem única e fascinante, que provocava o espanto de nacionais e estrangeiros que ao Tejo chegavam ou de Lisboa partiam.

Já em 1780, Pierre Ozanne [2] apresenta uma imagem de uma muleta no 3º caderno do seu álbum Mélanges de vaisseaux.

tp28fig. 1 - Pierre Ozanne (1737-1813), Mulet de Lisbonne fesant la pêche vu par le travers. 11,4 x 12 cm. In Pierre Ozanne (1737-1813), Melanges des vaisseaux 3é Cahier Paris, 1780. Médiathèque internationale e National Maritime Museum, Greenwich, London.


E ao longo de todo o século XIX e no início do século XX, muitos foram os que, fascinados por esta embarcação, a descreveram, desenharam e pintaram, como neste belíssimo quadro de João Vaz.

tp1afig. 2 - João Vaz (1859-1931) Muleta frente aos moinhos de Alburrica Barreiro in  Revista da Armada, publicação oficial da Marinha , n.º 475 Ano XLII, Junho de 2013.

Atrevo-me, por isso, a imaginar que, para além do sentido metafórico, ao ver uma muleta a todo o pano, nela se inspirou Almeida Garrett, para o seu conhecido poema Barca Bella.[3]

Pescador da barca bella,
Onde vas pescar com ella,
Que é tam bella,
Oh pescador?  



E dada instabilidade do tempo,
Não ves que a última estrêlla
No ceo nublado se vela?
Colhe a vela,
Oh pescador!



E a dificuldade de velejar com tanto pano e o manuseamento da rede
Deita o lanço com cautela,
Que a sereia canta bella…
Mas cautella,
Oh pescador!


Não se inrede a rede nélla,
Que perdido é remo e vela
Só de vê-la,
Oh pescador!



Por isso o poeta recomenda toda a prudência ao escutar o canto da sereia…
Pescador da barca bella,
Inda é tempo, foge d’ella,
Foge d’ella
Oh pescador!
 [4]


E a Muleta a todo o pano é o título de uma bela imagem de J. Almeida no Estado actual das pescas em Portugal de Baldaque da Silva. Trata-se de uma muleta pequena, de popa arredondada e mareada por 5 homens. [5]

tp2fig. 3 - Muleta a todo panno largo Estampa de J. Almeida in A. A. Baldaque ds Silva (1852-1915), Estado actual das pescas em Portugal, Compreendendo a Pesca Marítima, Fluvial e Lacustre em Todo o Continente do Reino, Referido ao Ano de 1886, Lisboa, Imprensa Nacional, 1891 (pág. 397).

E Baldaque da Silva descreve assim o velame: A muleta antiga tem a meio do casco um mastro, muito inclinado para vante, onde iça a verga de uma véla grande triangular latina; a ré caça no extremo do batelós um triangulo, que iça na penna da véla grande, denominado varredoura de cima e por baixo outro, a varredoura de baixo; e em estaes que vão da cabeça do mastro para a roda da prôa e para o batelós de vante, içam umas seis a sete pequenas vélas, chamadas toldos, muletins, varredoura e cozinheira, que segundo o seu número, compensam o efeito das vélas de ré, mantendo a embarcação atravessada. [6]


Usemos a imagem de Baldaque da Silva para identificar as velas.

tp2afig. 4 - Adaptação da imagem anterior com legendagem das velas.

Legenda 1 – Varredoura de cima 2 – Varredoura de baixo 3 – Latina grande 4 – Pano da vara 5 -Cozinheira 6 – Varredoura de proa 7 – Polaca 8 – Toldo
A varredoura de cima (1) e de baixo (2) amarram no botaló da popa; as restantes velas (4,5,6, 7) e os dois toldos (8) amarram no botaló da proa.
Note-se a utilização de uma vara suplementar a bombordo onde amarra o pano da vara e de uma outra a estibordo onde amarra a varredoura de proa.

No Museu da Marinha de Paris, fundado e dirigido pelo contra almirante François-Edmond Pâris [7] existe um desenho do levantamento rigoroso de uma Muleta do Tejo de Rafael Monléon y Torres [8] que corresponde à figura do livro de Baldaque da Silva.


tp3fig. 5 - Rafael Monléon, Muleta do Tejo, 1887. Plan, coupe, élévation d’une Muleta du Tage, bateau de pêche et de charge portugais Dessin encre noire, lavis, plume 26 x 36 cm. Musée national de la Marine e Biblioteca Digital Hispánica (Biblioteca Nacional de España).

E o mesmo Museu apresenta uma maquette de uma muleta.

tp4afig. 6 – Muleta du Tage, Portugal, c. 1887,modèle fabriqué à Lisbonne ou au musée de la Marine ?? Madeira 73,1 x 105,5 x 15,5 cm. escala 1:30. Musée national de la Marine. Paris.

Segundo o Capitão-de-Fragata João Braz de Oliveira [9] que foi o autor de Modelos de Navios existentes na Escola Naval que pertencem ao Museu da Marinha, obra publicada em 1896, esta maquette será uma réplica de uma idêntica, acompanhada de um conjunto de desenhos, oferecida em 1896, por João Monteiro Pinto da Fonseca Vaz [10] representante do governo português, ao contra almirante Edmond Pâris para figurar no Museu da Marinha de Paris, de que era director.
A imagem que figura na maquette do livro de João Braz de Oliveira.


tp4fig. 9 - Muleta. Barco de pesca da Barra de Lisboa. Figura Y 1895. in Modelos de Navios existentes na Escola Naval que pertencem ao Museu da Marinha 1896.

A imagem da maquette é acompanhada pelo seguinte texto em português e francês:
Antigo barco de pesca na barra de Lisboa, hoje raro. Modelo construído em 1886 por Joaquim Baptista, carpinteiro de machado do arsenal de Lisboa, sob a direcção e risco de Joaquim José Salgueiro, chefe dos desenhadores da repartição de construcção naval.
Um modelo igual e do mesmo auctor foi mandado pelo governo ao almirante Paris, director do museu naval de Paris, e os seus planos figuram no 4.º volume dos seus atlas Souvenirs de la marine.
A pesca com as muletas, hoje quasi abandonada, fazia-se com uma rede de sacco e bandas. Os alares ligavam-se aos laises das antennas que deita pela popa e pela proa. A rede fica no fundo por meio de pesos, e abertas as mangas e sacco com fluctuadores. A muleta arrasta abatendo para sotavento. Este processo é parecido com as artes de Bou, ou parelhas, differindo no emprego de uma só embarcação. [11]

E dois dos desenhos que acompanhavam a maquette.

tp20fig. 10 - Fig. 2 Muleta Bateau pêcheur Portugais, d’après les modéles et les dessins dûs à Dr. Fonseca Vas - Le Ministre de la Marine. 1888.


tp20afig. 11 - Fig.6 Élévation du travers, Muleta Bateau pêcheur Portugais, d’après les modéles et les dessins dûs à Dr. Fonseca Vas- Le Ministre de la Marine. 1888.


[1] Estas embarcações são tripuladas por companha de seis, dez, doze e dezasseis homens, conforme a qualidade da pesca a que se destinam, e o tamanho, porque as há maiores e menores. B. A. (Brito Aranha), Moleta in Archivo Pittoresco Semanario Illustrad, Editores Proprietarios , Castro Irmão & C.ª vol. IX, nº 42, 1866, (pág.333).
[2] Pierre Ozanne (1737-1813) capitão da Marinha ,engenheiro naval e pintor, desenhador e gravador de marinhas. O seu irmão Nicolas Marie (1728-1811) e a sua irmã Jeanne-Françoise (1735-1795), também se destacaram como pintores de marinhas.
[3] Almeida Garrett (1799-1854), Barca Bella de Folhas Cahidas livro segundo inVersos do V. de Almeida-Garrett, II Fábulas – Folhas Cahidas, segunda edição Na Imprensa Nacional Lisboa 1853. (pág. 201e 202).
[4] Idem.
[5] A. A. Baldaque ds Silva (1852-1915), Estado actual das pescas em Portugal, Compreendendo a Pesca Marítima, Fluvial e Lacustre em Todo o Continente do Reino, Referido ao Ano de 1886, Lisboa, Imprensa Nacional, 1891 (pág. 397).
[6] A. A. Baldaque ds Silva (1852-1915),Estado actual das pescas em Portugal, Compreendendo a Pesca Marítima, Fluvial e Lacustre em Todo o Continente do Reino, Referido ao Ano de 1886, Lisboa, Imprensa Nacional, 1891, (capítulo VII, pág. 299 e 300).
[7] François-Edmond Pâris (1806-1893) Contra Almirante. De 1826 a 1829, esteve embarcado na corveta Astrolabe na exploração da Oceania. De 1829 a 1832 embarcado na Favorite realizou uma expedição científica à volta do mundo. Em 1837 a bordo da fragata Artemisa realizou uma terceira viagem científica que dura até 1840, tendo recolhido elementos sobre as embarcações dos povos extra europeus, que lhe permitiram no ano seguinte uma publicação sobre este tema. Foi um dos primeiros a estudar a adaptação da máquina a vapor à navegação, tendo comandado em 1856 a fragata l’Audacieuse de propulsão mista. Participou na construção do famoso transatlântico SS Great Eastern. Foi Membro da Academia das Ciências e Director do Arquivo das cartas e mapas da Marinha. Condecorado com a Légion d’ Honneur foi o fundador do Museu Nacional da Marinha que dirigiu até à sua morte. Em 1886 publica Souvenirs de la Marine, uma obra em três volumes.
[8] Rafel Monléon y Torres (1843-1900), Pintor espanhol, filho do arquitecto Sebastián Monleón, foi piloto naval e dedicou-se à pintura de marinha. Em 1870 foi nomeadodirector do Almirantazgo e do Museo Naval. Colaborou na reconstrução da nau Santa Maria para o quarto centenário da descoberta da América. Entre 1863 e 1871, produziu um conjunto de desenhos de diversas embarcações, que navegavam nas costas da Holanda, de França, de Inglaterra, de Espanha e de Portugal.
[9] Contra-almirante João Braz de Oliveira (1851-1917), Ver biografia na Revista da Armada n.º 418 de Abril de 2008.
[10] João Monteiro Pinto da Fonseca Vaz. 1840-1899 1º Conde de Sena oficial da Marinha Portuguesa cartógrafo, terá estado em Londres como adido naval à legação portuguesa entre 1881 e 1883 para tratar da indemnização pelo abalroamento do transporte Índia com a barca sueca Svanen (ver Documentos apresentados às Cortes na Sessão Legislativa de 1887 pelo Ministro e Secretário d’Estado dos Negócios Estrangeiros Imprensa Nacional Lisboa 1887) sendo ministro José de Melo Gouveia (1815-1893), a quem sucedeu José Vicente Barbosa du Bocage(1823-1907) zoólogo trabalhou no Museu de História Natural de Lisboa. Na década de 1880 foi Ministro da Marinha e mais tarde Ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal. Era primo do conhecido poeta Manuel Maria Barbosa du Bocage. (1765-1805). Em 1896, data da suposta doação o Ministro da Marinha era o açoriano Jacinto Cândido da Silva (1857-1926) jurista. Fundou o Partido Nacionalista, e não João Monteiro da Fonseca Vaz , como os desenhos fazem supor.
[11] MULETA figura Y 1895 in Modelos de Navios existentes na Escola Naval que pertencem ao Museu da Marinha. Apontamentos para um Catálogo, por João Braz de Oliveira Capitão de Fragata. Traducção franceza por José Augusto Celestino Soares Capitão Tenente. Imprensa Nacional Lisboa 1896.

2 – A Muleta do Barreiro e do Seixal

No entanto o que tornou ainda mais conhecida a muleta foi a versão conhecida por Muleta do Barreiro e do Seixal, que na faina de arrasto lateral enverga [va] um conjunto de velas auxiliares determinado pelo mestre e que, normalmente, era composto por duas varredouras na ré, e na vante por um conjunto de velas composto por uma varredoura, uma polaca, uma cozinheira, um pano da vara e dois toldos moletins. [1]


Ou como afirma A. A. Baldaque da Silva “o velame distribuído de maneira que possa haver uma fácil compensação de forças segundo a direção e a maior ou menor intensidade do vento e das correntes[2]

O systema de pesca consiste em deixar cair atravessada ao vento e à corrente a embarcação que reboca a tartaranha, indo esta arrastando pelo fundo, e percorrendo assim um longo trajecto.
Para conseguir isto, têem as embarcações empregadas n’esta pesca o velame distribuído de maneira que possa haver uma fácil compensação de forças, segundo a direcção e a maior ou menor intensidade do vento e das correntes, deitando à poupa e à proa dois compridos paos, denominados batelós, que servem para amurar e caçar as vélas e ao mesmo tempo para nas extremidades amarrarem os alares da tartaranha. [3]

O seu comprimento andava entre os 12 e 13 metros com uma tripulação de 11 a 12 homens.
Ainda do século XVIII podemos ver esta muleta de maiores dimensões e mareada por estas tripulações de uma dezena de homens.

Na aguarela de Charles Gore duas destas muletas estão ancoradas na praia, tendo ao fundo a Torre de Belém e à direita o Palácio dos Marqueses de Marialva.

tp25fig. 12 - Charles Gore (1729-1807) View of Belem Town 1773 aguada 12,3 x 24,7 cm. National Maritime Museum, Greenwich, London.

Na aguarela de John Cleveley vê-se, no primeiro plano, uma muleta com uma tripulação de 12 homens, com a vela latina ferrada na parte inferior e dois pescadores encavalitados na verga. Nas pontas dos botalós estão amarrados os cabos que seguram a rede de arrasto, enquanto, a estibordo dois outros pescadores recolhem a rede.

tp30fig. 13 - John Cleveley the younger (1747-1786) Chasselis Point, Old Lisbon, tinta e aguarela 11,5 x 18,5 inch. in Views round the Coast and on the River Tagus de 1775.

Segundo Fernando Gomes Pedrosa: A muleta do Seixal e do Barreiro não é portanto anterior ao séc. XVII. É, na origem, uma tartane francesa, que terá depois recebido alterações de maior ou menor amplitude. [4]

A muleta sendo essencialmente um barco de pesca era ainda usada como barco de carga e barco piloto.
Essa tripla utilização, bem como a sua bizarra imagem, é descrita pelo príncipe Maximilan Alexander Philipp zu Wied-Neuwied (1782-1867), naturalista, etnólogo e explorador alemão, quando regressou de uma expedição científica ao Brasil, realizada entre os anos 1815 e 1817. Sobre esta expedição escreve um livro, publicado em 1822 com ilustrações, Viagem ao Brasil, [5] de uma importância fundamental para conhecer diversos aspectos da vida e da fauna e flora dessa colónia portuguesa que nesse mesmo ano se tornará independente.

No capítulo XIX, Regresso à Europa, o príncipe Neuwied, descreve a sua viagem de regresso a Lisboa a bordo do navio da carreira da Índia Princesa Carlota [6], sob o comando capitão Bethencourt. [7]

No relato dessa viagem, de que utilizamos a tradução francesa, Neuwiert escreve que ao aproximar-se o navio da entrada da barra de Lisboa entre o Cabo Espichel e o cabo da Roca vers le soir un muleta, bateau pêcheur d’une construction singulière, ayant le pavillon des pilotes, nous accosta. Il nous apportait une grande quantité d’excellent poisson, et amenai un pilote de Cascaes qui monta tout de suite à bord. Le jour était trop avance pour que l’on pût entrer dans le Tage; on louvoya jusqu’au lendemain matin.


[Ao fim da tarde uma muleta, barco de pesca com uma singular construção, arvorando o pavilhão dos pilotos, abordou-nos. Trouxe-nos uma enorme quantidade de um excelente peixe, e trouxe um piloto de Cascais que imediatamente subiu a bordo. O dia ia, contudo, demasiado avançado para que pudesse-mos entrar no Tejo; ficou adiada para o dia seguinte.]


E na página seguinte ao descrever a entrada na barra Neuwied escreve: Des muletas, des bareiros et d’autres bateaux pêcheurs de forme bizarre et des navires espagnols se croisaient dans tous les sens et faisant route avec nous. [8]

[Muletas, bareiros (varinos) e outras embarcações de pesca com uma forma bizarra e navios espanhóis cruzavam-se em todas as direcções e seguindo ao nosso lado.]

De facto o Admiral Sir Edward Gennys Fanshawe no seu Fanshawe's Baltic and later album, elaborado entre 1843 e 1883, [9] já apresentava uma muleta (desenho n.º11).

tp29fig. 14 - Admiral Sir Edward Gennys Fanshawe, (1814-1906) Fishing boats off the Rock of Lisbon 1856, aguarela 17,5 x 25,6 cm. National Maritime Museum, Greenwich, London.



Em 1859 Guillaume-Joseph-Gabriel de La Landelle [10] também se deixa fascinar pela imagem da muleta a todo o pano quando em Le Langage des marins, recherches historiques et critiques sur le vocabulaire maritime, na entrada mulet, assinala o extraordinário conjunto das velas:

Mulet — s. m.— autre bâtiment de charge en usage sur les côtes du Portugal, où l'on rencontre aussi des bâtiments de pêche voilés de la façon la plus bizarre et qu'on nomme mulettes (muletas). — Ces noms étant portugais la question est de savoir s'ils viennent bien des motswum, mulo, muta, mulet, mule, — muleta signifiant d'autre part crosse et béquille. [11]

[Muleta – s.m. – outra embarcação de carga usada na costa de Portugal, onde se pode ainda encontrar embarcações de pesca com um conjunto bastante bizarro de velas e que se chamam mulettes (muletas). – Estes nomes sendo portugueses colocam a questão de saber se vêm de motswum, mulo, muta, mulet, mule, - muleta significando por outro lado cruz e béquille (muleta).]

E em 1866 na sua obra Souvenirs de la Marine o, já aqui citado, contra almirante François-Edmond Pâris descreve assim a muleta:
Bateau de pêche et de transport régional à fond concave et doté d’une étrave haute et courbe pour franchir les vagues des barres du Tage. Son gréement étonnant est particulièrement morcelé : l’antenne porte une voile latine complétée par des bouts dehors et mâteraux qui permettent d’ajouter cinq ou six focs et voiles diverses. L’ensemble offrait une grande puissance nécessaire à la traîne de longs filets dans les estuaires du Tage… [12], que acompanha de desenhos de Rafael Monléon y Torres.

[Barco de pesca e de transporte regional, com fundo plano e dotado de uma proa alta e curva para cortar as ondas da barra do Tejo. O seu espantoso velame é particularmente complexo: na verga iça uma vela latina e o velame é completado por botalós e varas que permitem acrescentar cinco ou seis polacas e velas diversas. O conjunto permite a potência necessária para arrastar as compridas redes no estuário do Tejo…]

Nesse desenho de Rafael Monléon, no campo superior direito figura a muleta a todo o pano com o título de Muleta trainant leurs filets à la derive. [Muleta arrastando de lado as suas redes].

tp5fig. 15 - Rafael Monleón, Muleta, bateau de pêche et de charge portugais. Bateaux du Tage déssinés et mésurées à Lisbonne par Mr Raphael. in Octávio Lixa Filgueiras, Introdução ao “Caderno de Todos os Barcos do Tejo tanto de carga e transporte como d’ pesca. por João de Souza” Academia da Marinha Lisboa 1985.

tp5afig. 16 - Pormenor da figura anterior.

[1] 3º Curso de Iniciação e Desenvolvimento em Modelismo Naval http://carlosmontalvao.blogspot.pt/
[2] A. A. Baldaque ds Silva (1852-1915),Estado actual das pescas em Portugal, Compreendendo a Pesca Marítima, Fluvial e Lacustre em Todo o Continente do Reino, Referido ao Ano de 1886, Lisboa, Imprensa Nacional, 1891 (pág. 299).
[3] Idem capitulo VII Em Portugal (pag.299 e 300).
[4] Fernando Gomes Pedrosa, A Muleta e a Tartaranha (séculos XV-XX), Comunicação apresentada na Academia da Marinha em 5 de Abril de 2016.
[5] Voyage au Brésil, dans les années 1815, 1816 et 1817, par S. A. S. Maximilien, Prince de Wied-Neuwied.
Traduit de l’Allemand par J. B. B. Eyriès. Ouvrage enrchi d’un superbe Atlas, composé de 41 planches graves en taille-douce, et de trois cartes. Tome Troisième , Arthus Bertrand, Libraire, Rue Hautefeuille, n.º23, Paris 1822.
[6] Haverá aqui alguma imprecisão já que a fragata Princesa Carlota construída no estaleiro da Bahia e lançada ao mar em 1791, aliás na presença de D. Maria e do príncipe D. João, e que participou na batalha de Trafalgar ao lado dos ingleses em 1801, foi posta fora de serviço e desmantelada no Rio de Janeiro noem 1812, não coincidindo com as datas da viagem do príncipe Neuwied. Tratar-se-à da fragata Princesa do Brasil, essa sim desmantelada apenas em 1820?
[7] Capitão de Mar e Guerra Francisco Betencourt (ou Bitancurt) Perestrelo ?
[8] Voyage au Brésil, dans les années 1815, 1816 et 1817, par S. A. S. Maximilien, Prince de Wied-Neuwied. Traduit de l’Allemand par J. B. B. Eyriès. Ouvrage enrchi d’un superbe Atlas, composé de 41 planches graves en taille-douce, et de trois cartes. Tome Troisième , Arthus Bertrand, Libraire, Rue Hautefeuille, n.º23, Paris 1822 (pág. 265 e 266).
[9] Admiral Sir Edward Gennys Fanshawe Album of watercolours of the Baltic, Mediterranean, Scotland, Switzerland and Burma 35 x 348 x 550 mm National Maritime Museum, Greenwich, London http://collections.rmg.co.uk/collections/objects/154611.html#smkMvL6XyC8FrhE2.99
[10] Guillaume-Joseph-Gabriel de La Landelle (1812-1886) oficial da Marinha serviu no Brasil, em Guadalupe e em Portugal. Em 1839, deixa a Marinha para se tornar jornalista e escritor. Publica um extenso conjunto de romances sobre a vida marítima que inicia com Une haine à bord de 1843, seguindo-se umas dezenas de títulos até 1884 quando publica os seus três últimos romances: Robert Surcouf, Le Dernier des flibustiers e Après le naufrage. Publicou ainda livros de poesia (La Vie du marin, poème, 1852, Poèmes et chants marins, 1861), peças de teatro (Pare-à-virer ! tableau maritime en 1 acte, representado no Théatre des Champs –Élysées em Paris1862), ensaios sobre aeronáutica (Pigeon vole, aventures en l'air, aviation,1868 e Dans les airs, histoire élémentaire de l'aéronautique, 1884) e ensaios sobre a marinha como Le Langage des marins, recherches historiques et critiques sur le vocabulaire maritime,...de 1859. Um dos seus romances A vinganca do sargento: romance maritimo foi publicado pelas edições Romano Torres em 1890.
[11] Guillaume-Joseph-Gabriel de La Landelle Le Langage des marins, recherches historiques et critiques sur le vocabulaire maritime, expressions figurées en usage parmi les marins, recueil de locutions techniques et pittoresques, suivi d'un índex méthodique, par G. de La Landelle, Ancien Officier de la Marine E. Dentu, Libraire-Éditeur Palais Roya, 13, Galerie d’Orleans, Paris 1859. (pág.204) [sublinhado meu]. (pág.204).
[12] François-Edmond Pâris (1806-1893) Souvenirs de la Marine Collection de Plans ou Dessins de Navires et de Bateaux anciens et modernes existants et disparus avec les éléments numériques necessaires a leur construction. Par le Vice-Amiral Pâris, Grand-Croix de la Légion d’Honneur, Membre de l’Institut et du Bureau des Longitudes, Conservateur du Muséede Marine. 3 Tomes. Gauthier-Villars, Imprimeur-Libraire du Burea des Longitudes et de l’École Polytschnique. Successeurs de Mallet-Bachelier Qua ides Augustins 55, Paris 1886.
 
3 – Os desenhos de Rafael Monléon y Torres

Os outros desenhos são retirados de apontamentos realizados por Rafael Monléon em Lisboa em 1863, que se encontram na Biblioteca Nacional de Espanha.

Num primeiro desenho, datado de 1863, que Rafael Monléon denomina Muleta a que acrescenta El palo más al medio (o mastro mais ao meio), que tratando-se de uma embarcação de carga, não apresenta contudo os botalós característicos da muleta de pesca.

tp6fig. 15 - Rafael Monleón y Torres (1843-1900) Muleta, El palo mas al medio 1863 dibujo sobre papel amarillento : pluma, tinta negra y lápiz grafito ; 25 x 34,3 cm. Inscripción manuscrita a lápiz en el ángulo superior derecho: "96" Biblioteca Digital Hispánica. BNE.

No verso da folha estão desenhados apontamentos sobre um varino.

tp6vfig. 16 - Rafael Monleón y Torres (1843-1900) Desenhos no verso da folha da figura anterior. Biblioteca Digital Hispánica. BNE.

Numa outra folha do mesmo caderno de desenhos de Rafael Monléon, mais desenhos de uma muleta.

 
tp7fig. 17 - Rafael Monleón y Torres (1843-1900) Muleta Lisboa 1863 dibujo papel amarillento : lápiz grafito, pluma y tinta negra ; 25,3 x 34,2 cm. dibujo principal de un barco acompañado por otros 2 dibujos de las partes del mismo (popa y proa) y apuntes con inscripciones manuscritas: "DRIZA" y "TROZA"Inscripciones manuscritas a lápiz grafito en los ángulos: "Palo y antena pintado de verde... solo por un agujero del palo" "98" "la vela es medio amarilla y medio blanca con dos escotas" Biblioteca Digital Hispánica. BNE.

E no verso desta folha mais apontamentos sobre a muleta.

tp7vfig. 18 - Rafael Monleón y Torres (1843-1900) Apunte a lápiz grafito en el verso: 3 barcos. Verso da folha da figura anterior. Biblioteca Digital Hispánica.BNE.

E sobre a muleta Rafael Monléon apresenta uma terceira folha, tendo no verso mais um conjunto de apontamentos.

tp8fig. 19 - Rafael Monleón y Torres (1843-1900) Muleta de pesca en el Astillero de Cassillas, entre 1863 y 1900 4 dibujos (1 h.) sobre papel amarillento : lápiz grafito ; 253 x 343 mmnscripción manuscrita a lápiz en el ángulo superior derecho: "97 dibujo principal: vista lateral de un barco acompañado por 3 figuras humanas; los otros 3 dibujos son: popa y vistas frontal y transversal de la proa. Biblioteca Digital Hispánica. BNE.

No verso da folha:

tp8vfig. 20 - Rafael Monleón y Torres (1843-1900) Apuntes a lápiz grafito en el verso: 4 apuntes con diversas perspectivas de un barco vistas desde la popa. Biblioteca Digital Hispánica. BNE.

Mais tarde, em 1871, Rafael Monléon desenha mais pormenores da Muleta do Tejo, apontando as cores com que normalmente são pintadas.

tp9fig. 21 – Rafael Monléon, Proa de una muleta del Tajo Lisboa 1871. Biblioteca Digital Hispánica. BNE.

No verso o levantamento de uma muleta.

tp9vfig. 22 – Rafael Monléon, Apontamentos para o levantamento de uma muleta. 1871. Biblioteca Digital Hispánica. BNE.
 

Ainda de Rafael Monléon duas vistas do Tejo onde, em ambas, navega uma muleta sem os botalós, desenhos existentes na Biblioteca Nacional de España.

tp10fig. 23 - Rafael Monléon, El Tajo cerca de Lisboa 1874. dibujo sobre papel de color lápiz de grafito y gouache línea de encuadre 57 x 103 mm, en h. de 227 x 290 mm Anotación superior manuscrita a tinta: "109"Anotación inferior manuscrita a lápiz: "N 121" Anotación manuscrita a tinta negra tomada de las notas autógrafas que aparecen al verso de la hoja: "Nº 121 El Tajo cerca de Lisboa" Museu do Prado Madrid. BNE.

tp11fig. 24 - Rafael Monléon Zafarias desembocadura del Tajo / Lisboa Ag 1881, [de facto Tafaria na embocadura do Tejo]. No canto superior direito 72. Desenho sobre papel amarelado aguarela e lápis de grafite, 25,2 x 34 cm. Biblioteca Digital Hispánica. BNE.

No verso deste último desenho, a Torre de Belém e apontamentos de um saveiro.

tp11afig. 25 - Torre de Lisboa (Torre de Belém) e Salciroy Lisboa (eu leio Saveiros Lisboa) Biblioteca Digital Hispánica. BNE.

E, a título de curiosidade, mostramos um desenho da Barra do Douro no Porto de Rafael Monléon...

tp12fig. 26 - Rafael Monléon, Oporto La Barra del Duero 1881, dibujo sobre papel amarillento : lápiz de grafito, pluma y tinta negra ; 6,2 x 12,2 cm. Biblioteca Digital Hispánica. BNE.

4 – Mais sobre a Muleta.

Voltando à espectacular e fascinante imagem da Muleta, Baldaque da Silva já havia publicado em 1886, uma pequena referência acompanhada por um desenho de J. Pedrozo, no Archivo Pittoresco. [1]


tp15fig. 27 - J. Pedrozo, imagem intercalada no texto Moleta de B. A. (Brito Aranha), in Archivo Pittoresco, vol. IX, nº 42, 1866, (pág.333).



Cerca de três décadas mais tarde (1895), publica na revista Arte Portugueza [2] um artigo intitulado A Muleta de Pesca, ilustrado agora por desenhos de Raphael Monléon, intercalados com o texto e agora legendados em português, de uma muleta do Barreiro e do Seixal e de pormenores da sua construção.

tp13fig. 28 - Cabeçalho do artigo de Baldaque da Silva in Arte Portuguesa, Revista ilustrada de arqueologia e arte moderna. pág. 98.

Curiosamente a figura que acompanha o título do artigo representa uma muleta sem o botaló da proa e navegando apenas com a latina.
Baldaque da Silva inicia o seu artigo afirmando: Um desenho bem simples e genuinamente portuguez: A muleta de pesca, deslisando á superficie das aguas, desfralda ao vento as ponteagudas vélas e deixa ver a seu bordo os arrojados tripulantes, ao longe descobre-se a linha da terra, e no ultimo plano accumulam-se os tons da atmosphera.


tp13cfig. 29 - Desenho de Rafael Monléon na página 99 de Arte Portuguesa n.º5 Maio de 1895.


E Baldaque da Silva [3] avança que: de entre os variados typos de embarcações portuguezas, possue certamente um original sabor artistico a muleta usada pelos pescadores do Seixal e do Barreiro, para o lançamento da muito antiga rede de arrastar a reboque pelo fundo, denominada Tartaranha. [4]

Na mesma página os desenhos de Rafael Monléon, mostrando uma muleta - aqui sim - a todo o pano e pormenores da sua construção. De notar o pormenor de um desenho D’uma gravura antiga.

tp13afig. 30 - Rafael Monleon Muleta na página 1000 de Arte Portuguesa n.º5 de Maio de 1895.

E exaltando a beleza desta embarcação Baldaque da Silva afirma que a muleta de pesca, pela sua fórma exqusita e pittoresca, e pelo gosto artístico que revela, tem sido representada em modelos, desenhos, gravuras e aguarellas. Merecendo a predilecção de muitos admiradores da sua belleza, entre os quaes se contam o finado Rei D. Luiz, El-Rei D. Carlos, o almirante Páris, Pedroso, Pinto Basto, Camacho, Vaz, Casanova, o auctor destas linhas, e o sr. R. Monleon, de quem são os bellos desenhos que acompanham este artigo, e que representam as mais minuciosas particularidades do casco, apparelho, velame e accessorios, da muleta…

No desenho da página 101, Rafael Monléon aponta as cores com que são pintadas as muletas e em particular a sua proa. (Ver as fig.s 13, 14 e 15).

tp13bfig. 31 - Rafael Monleon desenho de Muleta na página 101 de Arte Portuguesa n.º5 de Maio de 1895.

Na página 102, com a inscrição No Barreiro, duas perspectivas do casco de uma muleta.

tp13dfig. 32 - Rafael Monleon desenho de Muleta na página 102 de Arte Portuguesa n.º5 de Maio de 1895.

E, numa época em que se inicia a discussão sobre a Casa Portuguesa, Baldaque da Silva termina o seu artigo lembrando: Carecemos tanto de um estylo genuinamente característico da nossa feição especial de povo de navegadores, cheio de tradições marítimas, perpetuadas em poemas sublimes e monumentos grandiosos que é forçoso reunir, e methodisar em formulas practicas, os elementos simples e as concepções geraes, que devem orientar o nosso gosto artístico na composição dos produtos da industria nacional. A arte portugueza não pode desenvolver-se sem conseguir este desideratum.


Também o marquês de Folin [5], no seu Bateaux et Navires Progrès de la Construction Navale, a tous Ages et dans tous les Pays, de 1892, escreve sobre a fantástica muleta, exagerando o número de velas.

A Muleta cujo caractère le plus excentrique se trouvai dans une voilure à nulle autre pareille. Une grande antenne supportait une voile trapézoïdale, parce que son point d’écoute était tronque, ce qui nécessitait deux écoutes. De minces et longs espars étaiente disposés sur plusieurs points afin de recevoir une vingtaine au moins, quelque fois plus, de petites voiles de toutes formes, fort solvente percées de larges trous et qui s’étageaient les unes au-dessus des autres en demeurant orientées de manière à faire dériver le bateu le plus possible. Ceci donnait à l’ensemble quelque chose de fantastique. Cette disposition avait pour but la derive afin de favoriser le traînage du chalut sur le fond. Ce filet lui-même était três particulier et ingénieusement établi. [6]

Intercalada no texto, uma figura reproduzindo dois tipos de embarcação, que correspondiam segundo Folin à actual e mais pequena muleta no primeiro plano e à antiga e maior muleta, esta com todo o pano.

tp14fig. 33 - Muleta, bateau de pêche du Tage celle actuelle et celle d’autrefois.

Mais adiante quando se refere aos Barcos do Tejo, refere novamente dois tipos de muleta. Uma que pescaria no mar e conduziria o produto dessa faina até ao porto de Paço de Arcos, local onde se faria o transbordo para um outro tipo de embarcação a Enviada-Muleta que o conduziria até Lisboa.
Escreve o Marquês de Folin:

Muleta ou Rasca, [7] nous avons déjà parlé de ce bateau et de la singulière voilure qu’il établi dans le but de dériver pour traîner efficacement son filet. Ajoutons, que lorsqu’il a terminé sa pêche en vue de la côte en dehors du Tage, il rentre dans le fleuve et se rend dans le port de Paço d’Arcos où il transborde son poisson sur les Enviadas qui le portent, à Lisbonne, au marché de Ribeira. On donne aussi le nom de Rasca à ce bateau, nom tiré d’un filet qui lui est spécial et dont il fait usage. Douze à vingt hommes arment la Muleta, appelée ainsi parce que les espars dont elle se sert pour gréer ses voiles et pour relever les filets, s’appellent des Muletas.
Enviada sert à porter le poisson que prennent les Muletas, on l’emploie aussi à la pêche, remarquons qu’alors elle se sert d’espars à l’avant et à l’arrière, cést à dire de muletas, elle porte une antenne assez élevée. Dans ce cas, on l’appelle Enviada-Muleta. [8]

[Muleta ou Rasca, nós já falamos deste barco e do seu singular velame que arvora com o objectivo de navegar de lado para eficazmente arrastar a rede de pesca. Acrescentemos, que quando termina a sua pesca junto à costa e fora do Tejo, ele regressa ao rio e dirige-se ao porto de Paço d’Arcos onde se faz o transbordo do peixe para as Enviadas que o transportam para o mercado da Ribeira em Lisboa. Chama-se também Rasca a esta embarcação, nome que tem origem na rede especial que utiliza. Doze a vinte homens operam na Muleta, assim chamada porque as longarinas de que se serve para armar as velas e para segurar as redes chamam-se Muletas. A Enviada serve para transportar o peixe que é pescado pelas Muletas, mas são também usadas para a pesca, e notemos que então utiliza os paus à frente e atrás, isto é as muletas, e utiliza uma verga bastante grande. Neste caso é chamada de Enviada-Muleta.]


Intercalado neste texto o desenho da Enviada Muleta.

tp14afig. 34 - Enviada Muleta fig. 122 de Alexandre Guillaume Léopold de Folin, marquis de Folin, Les Flotteurs de Transport. Les Bateaux du Tage. in Bateaux et Navires Progrès de la Construction Navale, a tous Ages et dans tous les Pays 1892.


Em apoio a esta descrição do Marquês de Folin, e dada a actividade portuária e piscatória da povoação, sabe-se que em 1773, o Marquês de Pombal solicitou a Manoel Reinaldo dos Santos (1731-1791), arquitecto-mor do Reino, a elaboração de um projecto para a construção de um porto em Paço de Arcos. A obra iniciou-se em 1774 mas foi suspensa e nunca foi completada, não tendo por isso sido realizado este ambicioso projecto de um porto que visava a reorganização urbana de Paço de Arcos.

Mas o marquês de Folin num outro dos seus livros Pêches et Chasses Zoologiques, publicado em 1893, refere de novo a muleta quando se trata da pesca de arrasto:

Si c'est avec un bâteau à voiles, c'est la dérive qui convient le mieux pour traîner le chalut, c'est ce qui explique cette énorme quantité de petites voiles qu'il était facile d'orienter pour dériver que portaient les Muletas du Tage, ces chalutiers portugais. [9]

[Se (a pesca) se faz com um barco à vela, é a navegação lateral que melhor convém para arrastar a rede, e assim se explica essa enorme quantidade de pequenas velas fáceis de orientar para essa navegação, que usavam as Muletas do Tejo, essas embarcações de pesca portuguesas.]

Os autores de língua inglesa também são sensíveis à imagem da muleta a todo o pano.
Em 1883 no semanário The Graphic [10] é publicada uma imagem de uma Muleta do Tejo.

tp18fig. 35 - Muleta, Tagus, The Graphic, May 1883. In Almada Virtual Museum, https://almada-virtual-museum.blogspot.pt/2015_11_01_archive.html

[1] Archivo Pittoresco, vol. IX, nº 42, 1866, (pág.333).
[2] Arte Portuguesa, Revista ilustrada de arqueologia e arte moderna. Sob protecção de Suas Magestades. Maio de 1895, Anno I – N.º 5. Redacção e Administração: Salitre, 346, 1º Lisboa.
[3] Baldaque da Silva A Muleta de pesca in Arte Portuguesa, Revista ilustrada de arqueologia e arte moderna. Sob protecção de Suas Magestades. Maio de 1895, Anno I – N.º 5. Redacção e Administração: Salitre, 346, 1º Lisboa. (pág.99).
[4] Sobre a Tartaranha ver Fernando Gomes Pedrosa, A Muleta e a Tartaranha (séculos XV-XX). Comunicação apresentada à Academia da Marinha em 5 de Abril de 2016.
[5] Alexandre Guillaume Léopold de Folin marquis de Folin (1817-1896) oceanógrafo participou em diversas expedições científicas marítimas. Foi o criador do Museu do Mar em Biarritz em 1871
[6] Alexandre Guillaume Léopold de Folin marquis de Folin, Les bateaux de pêche in Bateaux et Navires Progrès de la Construction Navale, a tous Ages et dans tous les Pays, par le Marquis de Folin, Ancien Officier de Marine, Membre de la Comission Scientifique d’Exploration des Grands Fonds de la Méditerranée et de l’Atlantique, de l’Académie Royale des Sciences de Lisbonne, de la Société Imperiale des Naturalistes de Moscou, etc., etc.. Avec 132 figures intercalées dans le texte. Bibliothèque Scientifique Contemporaine Librairie J. B. Baillière et Fils, Rue Hautefeuille, 19, près du Boulevard Saint Germain, Paris 1892. (pág. 88).
[7] Folin, confunde as duas embarcações, Muleta e Rasca, possivelmente por uma deficiente leitura do artigo de Brito Aranha no Archivo Pittoresco n.42 de 1866, onde ele se refere aos homens robustos, de boa presença, alegres e corajosos, que tripulam as duas diferentes embarcações. No mesmo artigo Brito Aranha remete para artigo anterior publicado no n.39, sobre a Rasca, também com uma gravura de Pedrozo, e onde são visíveis as diferenças entre as duas embarcações. A Rasca tem um casco e um velame diferente da Muleta.
[8] Alexandre Guillaume Léopold de Folin marquis de Folin, Les Flotteurs de Transport. Les Bateaux du Tage. in Bateaux et Navires Progrès de la Construction Navale, a tous Ages et dans tous les Pays, par le Marquis de Folin, Ancien Officier de Marine, Membre de la Comission Scientifique d’Exploration des Grands Fonds de la Méditerranée et de l’Atlantique, de l’Académie Royale des Sciences de Lisbonne, de la Société Imperiale des Naturalistes de Moscou, etc., etc.. Avec 132 figures intercalées dans le texte. Bibliothèque Scientifique Contemporaine Librairie J. B. Baillière et Fils, Rue Hautefeuille, 19, près du Boulevard Saint Germain, Paris 1892. (pág.221 e 222).
[9] Alexandre Guillaume Léopold de Folin marquis de Folin ,Chapitre XIII Les poissons de Pêches et chasses zoologiques par le Marquis de Folin Avec 117 figures dessinées par l'auteur, Bibliothèque Scientifique Contemporaine Librairie J. B. Baillière et Fils, Rue Hautefeuille, 19, près du Boulevard Saint Germain, Paris 1893. (pág.244).
[10] The Graphic: An Illustrated Weekly Magazine, semanário ilustrado fundado e publicado na Grã-Bretanha entre 1869 e 1932 William Luson Thomas (1830 – 1900).

5 – No século XX

Já no século XX, o escritor inglês, especializado em temas marítimos, Edward Keble Chatterton publica em 1912, Fore & Aft Craft and their Story na Account of the fore & Aft Rig from the earliest Times to the presente day, em que descreve com espanto e admiração a muleta do Tejo.

But it is the Portuguese moletta or muletta which, though a lateener by descent and nationality, does her very best to disguise herself from any other vessel afloat in any part of the world. Looked at for the first time, it seems impossible to place her in any category of sailing craft. Her sailplan seems less like that of any rational vessel than a terrible nightmare of a geometrician. Everywhere it seems all angles and squares ; the number of straight lines is bewildering and apparently utterly meaningless.
You would put her down at the best as a freak of an exceptional type and past the wit of any sailingman to comprehend, let alone the average layman accustomed only to pleasure craft or the picture of full-rigged ships. But it is when we begin to examine the muletta that we find out her true nature. In the main she is still a lateener, as her biggest sail shows. [1]

[Mas é a Moletta Portuguesa ou muletta que, apesar de ser um barco de vela latina por descendência e nacionalidade, dá o seu melhor para se distinguir de qualquer outra embarcação à tona em qualquer parte do mundo. Ao vê-la pela primeira vez, parece impossível colocá-la em qualquer categoria de embarcações à vela.
O seu velame parece-se menos com o de qualquer navio racional e mais com um terrível pesadelo de um geómetra. Por todo o lado existem triângulos e quadrados; o número de linhas retas é desconcertante e total e aparentemente sem sentido.
Pode-se compreende-lo como o melhor velame de um aberrante ou excepcional tipo de sagacidade de qualquer velejador, mas torna-se incompreensível para um leigo acostumado apenas a embarcações de recreio ou a vulgares imagens de navios. Mas é quando começamos a examinar a muletta que descobrimos a sua verdadeira natureza. No essencial, é um barco de vela latina a que se acrescenta um dos maiores espectáculos de velas.]

E Keble Chatterton prossegue: What is the meaning of all this complication, do you ask ? The answer is very simple. These muletas are employed in the trawling industry, and the intention is to balance the sail of the bows against that of the stern, so that they may easily regulate the speed of the ship when the trawl is down. These beamy, black-hulled craft are about fifty feet in length and carry a crew of ten men, their home being up the Tagus.

[Qual é o significado de toda essa complicação, pergunta-se? A resposta é muito simples. Estas muletas são empregues na indústria de pesca de arrasto, e a intenção é equilibrar todo o velame de modo que se possa facilmente regular a velocidade do navio, quando a rede de arrasto está submersa. Essas naves navegam no Tejo, têm cerca de 50 pés de comprimento e transportam uma tripulação de dez homens.]

E faz ainda uma referência aos olhos pintados nos flancos da proa:
The muletta is evidently very proud of her ancestry, for she still paints eyes on her bows, still fits those curious spikes forward above the waterline, features which are curious but interesting survivals from the time when the Roman galleys used to ram each other on the waters of the Mediterranean.

[A muletta está, evidentemente, muito orgulhosa da sua ascendência, pois ainda pinta olhos nos seus flancos, ainda ostenta aqueles curiosos picos na proa acima da linha de água, características tão curiosas, como interessantes sobrevivências do tempo em que as galeras romanas usavam os arietes para se atacarem umas às outras sobre as águas do Mediterrâneo.] (Ver fig.36a).


A esta descrição de Keble Chatterton corresponde um desenho de uma muleta a todo o pano de Cecil G. Tew [2] publicado em 1936 no The Story of Sail de Geoffrey Swinford Laird Clowes, acompanhada de uma extensa legenda. [3]

tp17fig. 36 - Cecil G. Trew (Cecil Gwendolen Russell 1897- 1958) Portuguese Muleta in The Story of Sail de Geoffrey Swinford Laird Clowes 1936.


These mulettas, althoug no longer very common. May still be met with along the coast of Portugal. If once seen they will never be forgotten, on account of the extraordinary jumble of sails which they hoist when engaged in fishing.(…) The sails, of various shapes, serve to increase and to control this broadside drift, while further contro lis obtained from the large leeboards wich can be set vertically on the lee side, so as to reduce the rate of drift of either the bow or the stern. The bow of these mulettas is of considerable interest, both on account of its shape and of its paintwork. The curved stem, feely adorned with spikes, is extremely reminiscente of the ram os a Greek or Roman galley, while the nearly vertical post abaft the stem seems also to represente a survival from these vessels. The human eye or “oculus” which is painted on each bow finds its prototype in the eye painted near the bow of so many of the vessels of ancient Egypt.
These “oculi” are still common in China and in many parts of the East, while in Greek and Roman galleys, as has been already seen, eyes appeared in the head of a sea-monster which so often formed the ram. When under ordinary sail to and from their fishing grouds these mulettas hoist a single large lateen-sail only and in that condition they differ very little in appearance from the many tartans to be seen along the Portuguese coast.


[Estes mulettas, já não são muito comuns mas ainda podem ser vistas ao longo da costa de Portugal.
Mas vistas uma vez nunca mais serão esquecidas, pelo extraordinário conjunto e diversidade de velas que arvora quando na faina da pesca. (…) As velas, com várias formas, servem para aumentar e controlar esta navegação lateral, enquanto esse arrastamento é obtido a partir das grandes tábuas laterais que podem ser ajustadas verticalmente no lado de sotavento, de modo a reduzir a deriva quer da proa quer da popa.
O casco destas mulettas tem um considerável interesse, quer pela sua forma quer pela sua pintura.
A proa curva adornada com espigões, é uma reminiscência do ariete das galeras gregas ou romanas, enquanto a ré parece também representar uma sobrevivência destas embarcações. O olho humano ou "óculo", que é pintado em cada lado da proa, encontra o seu protótipo no olho pintado perto da proa de muitos dos barcos do antigo Egito.
Estes "oculi" ainda são comuns na China e em muitas partes do Oriente, enquanto nas galeras gregas e romanas, como já foi dito, e também aparece na cabeça de um monstro marinho que tantas vezes conforma a proa. Quando navegam de e para os seus portos de pesca estas mulettas içam, e só nessa condição, uma única e ampla latina e eles pouco diferem na aparência de muitas tartanas que podem ser vistas ao longo da costa Portuguesa.]

tp36fig. 36a – E. Keble Chatterton,The ship of Odysseus From a Greek vase, c. 500 B.C., in the British Museum (Third Vase Room, Case G, No. E. 440). Fig.16, pág.66 de Sailing Ships, The story of their development from the earliest times to the presente day by E. Keble Chatterton, Sidgwuck & Jackson, Ltd., Adam Street Adelphi W. Q. 1909 ed.1914.

A muleta segundo Lionel Casson

O professor Lionel Casson [4] muito mais tarde, quando as muletas e outras embarcações à vela, já quase desapareceram, numa publicação de 1964, refere The Portuguese muletas, which work trawl nets at the mouth of the Tagus, set a bewildering assortment of sails to control the rate and direction of their drift, but their basic driver is a big lateen. [5]

[As muletas portuguesas que trabalham com redes de arrasto na embocadura do Tejo, tem um desconcertante conjunto de velas para controlar a velocidade e a direcção do barco, mas a base é uma grande latina.]

E apresenta na página seguinte, uma imagem de uma muleta com a legenda: The purpose of all the extra sails is to provide precise controlo ver the direcction and rate of movement as the vessel trawls. The basic driver is the big lateen.

[O objectivo de todas esta velas extra é permitir o controlo da direcção e da velocidade quando a embarcação navega de arrastando a rede. Basicamente a embarcação desloca-se pela acção do vento na ampla latina.]

A imagem de Lionel Casson reproduz o desenho Mulet de Lisbonne fesant la pêche vu par le travers de Pierre Ozanne (1737-1813), do seu álbum Melanges des vaisseaux publicado em Paris em 1780. (fig.1).

tp31fig. 37 - Lionel Casson (1914-2009) in Illustrated History of Ships and Boats From all ages and all parts of the world, le fascinating story of craft under oar, sail, and power, and of the men who went to sea in them. 1964.

[1] Edward Keble Chatterton (1878 –1944) Fore & Aft Craft and their Story na Account of the fore & Aft Rig from the earliest Times to the presente day, by E. Keble Chatterton New & Cheaper Edition with over 150 illustrations & plans, Philadelphia J.B. Lippincott Company London Seeley, Service & Co., Limited 38, Great Russell Street London 1912. (pág. 36 e 37).
[2] Cecil G. Trew (1897-1958), ilustradora inglesa, pseudónimo de Cecil Gwendolen Russell que se tornou Cecil Gwendolen Trew pelo seu casamento com o físico americano Niel Charles Trew, em 1918. Com a morte do marido regressa a Inglaterra onde em 1932 volta a casar com Rolf Killigrew Ehrenborg, tornando-se Cecil Gwendolen Ehrenborg. Contudo profissionalmente sempre utilizou o nome de Cecil G. Trew.
[3] Geoffrey Swinford Laird Clowes (1883-1937) The Story of Sail ed. Eyre & Spottiswoode, London 1936
[4] Lionel Casson (1914-2009) , professor de História Marítima na Universidade de Nova Iorque. Publicou The Ancient Mariners: Seafarers and Sea Fighters of the Mediterranean in Ancient Times de 1959 e Illustrated History of Ships and Boats, de 1964.
[5] Lionel Casson (1914-2009) Illustrated History of Ships and Boats From all ages and all parts of the world, le fascinating story of craft under oar, sail, and power, and of the men who went to sea in them. With over 300 illustrations from contemporary sources, 50 in full color. Doubleday & Company, Inc. Garden City New York 1964. (pág.194).

6 – Mais imagens da Muleta

Existe na Biblioteca Nacional uma litografia que reproduz um curioso e anacrónico quadro de Vicente Urrabieta y Ortiz [1], com o título Reunida en Lisboa la soberbia armada Española que se llamó Invincible, de cerca de 1850. O quadro relata o episódio que ocorreu em 1588no contexto da tentativa de Filipe II (primeiro de Portugal) de destronar Isabel I de Inglaterra. Para isso reuniu nos diversos portos sob o seu domínio, um considerável número de navios, a que se chamou a Grande y Felicísima Armada. De Lisboa, um dos maiores senão o maior porto da época partiram 127 navios.

tp35fig. 38 - Vicente Urrabieta y Ortiz (1813-1879), Reunida en Lisboa la soberbia armada Española que se llamó Invincible c.1850, litografia aguarelada 30 x 45 cm. sobre um quadro existente no Museu Marítimo de Barcelona. Biblioteca Nacional Digital.

Vicente Urrabieta, em meados do século XIX, evoca este episódio colocando junto à Torre de Belém vários navios de guerra do século XVI, de que se destacam dois idênticos, e podemos imaginar, que o do primeiro plano seria o navio-almirante da esquadra, o São Martinho sob o comando do duque de Medina Sidónia.
Mas o que torna anacrónica esta imagem é que toda a envolvente refere-se à Lisboa do século XIX, desde a paisagem onde aparece no lado esquerdo, por trás da Torre de Belém, o Palácio da Ajuda que apenas foi projectado em 1796 e só parcialmente concluído no século XIX, até às duas muletas a todo o pano típicas também do século XIX. Destaca-se no primeiro plano uma muleta representada com varas suplementares e um velame que não corresponde à forma tradicional.

João Pedrozo, pinta uma composição onde navegam três muletas junto ao Cabo da Roca. A muleta do primeiro plano, mareada por oito homens, pela forma como “cavalga” a onda com a proa levantada, dá ao espectador uma sensação de velocidade apesar de apenas navegar com a latina desfraldada, uma cozinheira e um toldo na proa e a varredoura à popa, lembra os versos do poeta brasileiro Manoel Andrade:
Mar afora, mar adentro
lá vai singrando um veleiro
quem dera ser passageiro
pra correr nas mãos do vento. [2]

tp33fig. 39 - João Pedrozo Gomes da Silva (1825-1890) Muleta junto ao Cabo da Roca , óleo sobre tela 57,5 x 100 cm. Cabral Moncada leilões.

E ainda uma outra imagem de uma muleta do francês Adolphe Rousse, de que apenas conheço esta versão a preto e branco.

tp19fig. 40 - Adolphe Marie Ernest Rousse  (1844–1887) Portuguese fishing boats in the Tagus aguarela, 51,5 x 70 cm. Colecção particular.

No final do século XIX e no início do século XX, como afirma Baldaque da Silva no seu artigo A Muletade Pesca, acima citado, a muleta de pesca, pela sua fórma exqusita e pittoresca, e pelo gosto artístico que revela, tem sido representada em modelos, desenhos, gravuras e aguarellas. E cita vários artistas entre os quais o Rei D. Carlos.
D. Carlos coloca diversas muletas fundeadas Baía de Cascais, numa aguarela de 1885.

tp23fig. 41 - D. Carlos de Bragança, (1863 - 1908) Baía de Cascais 1885, aguarela sobre papel13,2 x 34,3 cm.

E no mesmo ano desenha uma muleta navegando, desenho que servirá para a execução de uma pintura.

tp24fig. 42 - D. Carlos de Bragança (1863 - 1908) Uma muleta, Cascais 1885 Desenho a lápis 11,2 x 13,4 cm. Museu do Chiado – Museu Nacional de Arte Contemporânea.

tp26fig. 43 - D. Carlos de Bragança Marinha -Muleta 1885? in Almada concelho Arte Pintura.

E desenha ainda uma outra muleta navegando em águas mais pacíficas, apenas com a grande latina.

tp32fig. 44 - Carlos I, Rei de Portugal (1863 - 1908) Desenho, pena sobre papel, Museu Nacional de Soares dos Reis.

Alfredo Keil, mostra uma muleta com as velas recolhidas num óleo intitulado Caxias.

tp22fig. 45 - Alfredo Keil (1850-1907) Marinha - Caxias sec.20 Pintura a óleo sobre tela colada em cartão10,2 x 19,5 cm. Museu de José Malhoa.

E o menos conhecido pintor José Rodrigues, (1828-1887) num Apontamento de marinha, mostra ancorada uma muleta que terá servido de barco-escola, já que arvora a bandeira nacional, então da Monarquia.

tp27fig. 46 - José Rodrigues, (1828-1887) Apontamento de marinha sec.20 Lápis sobre papel 26,5 x 18 cm. Museu de José Malhoa.

E João Vaz, de que mostramos no início uma Muleta a todo o Pano, num conjunto de pinturas que executa para o Palácio da Ajuda, também entre várias embarcações, coloca a muleta.

tp21bfig. 47 - João Vaz Marinha Duas marinhas c.1886 Palácio Nacional da Ajuda.

[1] Vicente Urrabieta y Ortiz (1813-1879), desenhador, ilustrador e litógrafo, colaborou com desenhos e gravuras, entre outras publicações no Semanario Pintoresco Español  e La Ilustración Española y Americana e ilustrou diversas obras literárias.
[2] Manoel Andrade (1940-Veleiro (Baia de Zimbros, janeiro de 2005) in Cantares, Editora Escrituras Rua Maestro Callia, 123 - Vila Mariana São Paulo-SP 2007.
 

7 – Breve referência ao Bote ou Batel d’água acima


Para finalizar, apenas uma breve referência ao Batel d’água acima, porque embora pertencendo a outro tipo de embarcações, a sua imagem apresenta contudo algumas semelhanças com a muleta.

aa0fig.48 - Bateis d’Agoa á ssima. Bateaux du haut Tage, ils transportent des provisions a la Ville, et changent aussi de voile come dans la fig. A.Gravura 7 de Caderno de todos os Barcos do Tejo tanto de Carga e Transporte como d’ Pesca de João de Souza.

Trata-se de uma embarcação de transporte que se destinava a trazer mercadorias de montante do Tejo para Lisboa ou daqui levar mercadorias de Lisboa subindo rio acima. Até ao aparecimento do Caminho-de-Ferro, a via fluvial era o mais eficiente e seguro meio de transporte de mercadorias e passageiros do litoral para o interior.

Na gravura de Pedroso, publicada em 1860 no Archivo Pittoresco, podemos observar os dois meios de transporte e as respectivas vias.

aa3fig.49 - Ponte de Sacavem – Desenho e gravura de Pedroso in Archivo Pittoresco n.º 024, 1860. (pág.185).

Octávio Lixa Filgueiras [1] ao comentar os bateis d'agoa á ssima, do Caderno de todos os Barcos do Tejo tanto de Carga e Transporte como d’ Pesca de João de Souza, escreve: A configuracão da sua proa lançada em bico agressivo (em vez de revirada e um tanto arrufada), evidencia o fundo chato, e, elevando-se em remate de feição semelhante ao do barco do mar; essa configuracão da proa é algo diferente da do barco d'agua acima=monaio=cu!e, 0 modelo congénere. A popa, ao que parece, está dentro das linhas da do monaio.
Além do leme, de nascença triangular, destacam-se, ainda, as pás de borda, para não deixar o barco rolar, de través, com o vento, durante a navegação á vela.
Estaremos, então, perante a versão mais antiga desta modalidade de embarcacões?


E cita A. J. Pinto Basto [2] afirmando que essas embarcações conseguiam subir o Tejo passando em certas epochas ainda alem de Abrantes metendo-se pelos cannaes e vallas que das margens do rio se internam para diversos portos onde carregam cortiça e fructas, etc. productos que vem trazer a bordo dos vapores que a Lisboa os vem buscar, [3] ou para aprovisionamento da cidade.


Já o Marquês de Folin mostra uma figura (fig.49) e descreve assim o Barco d’agua acima ou Coulé; forme élégante et allongée, à fond plat, tirant peu d’eau; il remonte le Tage jusq’à Abrantes, il porte ving-cinq tonnes en moyenne. Comme voilure, une grande antenne qui se borde avec deux écoutes, l’une au point ordinaire à la junction de la ralingue de chute et de celle de fond, l’autre sur cette ralingue à une certaine distance en avant de la première. [4]

aa2fig. 50 – Bateau d’água acima fig. 118 de Bateaux et Navires Progrès de la Construction Navale, a tous Ages et dans tous les Pays, par le Marquis de Folin, 1892.

Também nas gravuras de Henri L’Evêque [5] da mesma época mas passadas as Invasões Francesas, surgem representações deste tipo de embarcação.

No álbum Campaigns of the British Army in Portugal, under the command of general the Earl of Wellington [6] Henri L’Evêque desenha uma gravura célebre que descreve a partida de D. João VI para o Brasil em 1807.

[Esta gravura já foi tratada neste blogue pela diversidade de meios de transporte terrestres e marítimos que apresenta, em Os transportes terrestres http://doportoenaoso.blogspot.pt/2010/04/os-transportes-terrestres-no-inicio-do.html]

Nela figura atrás do bergantim real, um barco de água acima, que se nota pelas duas características que o identificam: a longa verga apoiada no mastro inclinado para a frente e a proa em bico. Nele 5 marinheiros trepam pela enorme verga. Outros carregam a embarcação com pertences da família real para os transportarem aos navios que a conduziram ao Brasil.

aa11fig. 51 – Henri L’Evêque , Departure of the Prince Regent of Portugal for the Brazils, Novembre the 27th, 1807 in Campaigns of the British Army in Portugal, under the command of general the Earl of Wellington 1812.

aa11 - Cópiafig.52 - Pormenor da figura anterior, destacando-se atrás do bergantim o barco de rio acima.

Desta gravura existe uma cópia a óleo atribuída a Nicolas (Louis-Albert) Delerive (1755-1818) no Museu Nacional dos Coches.

aa9afig. 53 – Nicolas Delerive (1755-1818), Embarque para o Brasil do principe regente D. João VI em 27 de Novembro 1807 Óleo s/ tela 62,5 x 87,8 cm. Museu Nacional dos Coches.


aa9bfig.54 – Pormenor da figura anterior.

E ainda numa outra gravura onde Henri L’Evêque mostra o Mosteiro de Santa Maria De Belém (Jerónimos) que Almeida Garrett canta (desiludido) no seu Camões:

Ingrata — ingrata pátria! — Fatigado
Como de tanta glória, e tal vergonha.
Parei. Juncto me achava então do Templo
Que a piedade, e fortunas appregoáo
De Manoel o feliz : padrão sagrado
De glória, e religião ; esmero d'artes
Protegidas d'um rei, que soube o preço
— Alguma vez ao menos —ao talento
A' lealdade, ao valor, ao patriotismo.
[7]

aa13a - Cópiafig. 55- Henri L’Eveque (1769-1832), Vista do Convento de St.º Jeronimo de Belem e Da Barra de Lisboa. Dedicada a Sua Alteza Real O Principe Regente de Portugal etc etc. etc. Pelo Seu Muito Humilde e Reverendo Criado Henrique L’Evêque. 1816.

O mosteiro ainda possui o relógio de sol e o remate em pirâmide da torre, tal como na gravura de Robert Batty (fig.16 do post anterior).

aa13bfig.56 – Pormenor da figura anterior mostrando o terreiro em frente dos Jerónimos.

No terreiro em frente do mosteiro circula um carruagem puxada por duas parelhas de cavalos com cocheiro e sota, e uma sege fechada por cortina. Dois cavaleiros, um deles com a montada empinada e o outro a galope no primeiro plano. Um outro cavalo é conduzido por uma figura apeada e outro segura um cavalo que escouceia. Um pouco por todo o lado vendedores ambulantes. No primeiro plano duas barracas onde são servidas refeições. Nota-se que as personagens pertencem a idades, classes e profissões diversas e surge mesmo um negro junto a um dos barracões.

aa13cfig.57 – Pormenor da fig.55 mostrando os barracos do primeiro plano.

E no Tejo estão fundeados três barcos d’água acima, em que o do primeiro plano carrega (ou descarrega) troncos de madeira para dois carros de bois que se encontram próximos.
Ao fundo a Quinta da Praia dos Marqueses de Marialva e a Torre de Belém.

aa13fig.58 – Pormenor da fig.55 mostrando os barcos fundeados na praia do Restelo.

Do Portugal Illustrated [8] do reverendo William Morgan Kinsey [9] , uma gravura com a Torre de Belém e junto à qual diversos barcos de água acima, aqui utilizados como barcos de pesca, como se vê na embarcação do primeiro plano onde um pescador repara uma rede.

aa15fig. 54 - Rev. William Morgan Kinsey (1788-1851) Belem Castle 1827 gravura de J. Skelton a partir de um desenho de Thomas Lesson Rowbotham(1783-1853) in Portugal Illustrated in a series of letters. Entre as páginas 10 e 11.

De S. Clegg (?-?) pintor de que não encontrei qualquer referência, o quadro Shipping in the Mouth of the Tagus de 1840, onde no centro da composição vemos um barco de água acima, entre o Bugio (Torre de S. Lourenço) e o forte de S. Julião da Barra. Ao fundo à esquerda a Serra de Sintra.

Portugese Shipping in the Mouth of the Tagusfig. 55 – S. Clegg (?-?), Shipping in the Mouth of the Tagus 1840, óleo s/ tela 44 x 99 cm. Ministry of Defence Art Collection London.

De Silva Porto [10] um quadro de 1890 mostrando uma destas embarcações acostada à margem do Tejo.

aa16fig.56 – António Carvalho de Silva Porto (1850-1893) Porto Caldelas margens do Tejo, 1890, óleo s/ tela 42,5 x 56 cm. Museu Nacional Soares dos Reis, Porto.

E finalmente para fechar o ciclo e concluir esta extensa deambulação, que partiu das visões românticas da Torre de Belém nos quadros de John Thomas Serres, uma aguarela, datada de 1868 [11] de Thomas Rowbotham (1823-1875), filho do aguarelista do mesmo nome de que mostrámos a gravura do livro de Kinsey Portugal Illustrated, (fig. 54) com a Torre de Belém enquanto navega(s) em oceanos azuis de rochas negras, uma muleta. [12]


aa17fig.57 - Thomas Leeson Rowbotham Fort of Belem at the mouth of the Tagus outside Lisbon, 1868 aguarela 13 x 21 cm. The Saleroom.

[1] Octávio Lixa Filgueiras, Introdução ao “Caderno de Todos os Barcos do Tejo tanto de Carga e Transporte como d’Pesca, por João de Souza, Lente d’Arquitectura Naval e da Companhia de Guardas Marinhas”, Academia da Marinha Lisboa 1985
[2] António Aluísio Jervis de Atouguia Ferreira Pinto Basto (1862- 1946), oficial da armada, amigo de infância do rei D. Carlos I foi depois ajudante em campo deste rei e do seu sucessor, D. Manuel I. Terceiro visconde de Atouguia. Fez a primeira viagem de circum-navegação no cruzador S. Gabriel. Encontrando-se a bordo deste anvio quando foi proclamada a República ao desembarcar em Portugal pediu a demissão da marinha. Foi depois nomeado para a Empresa  Nacional da Navegação (depois Companhia Nacional de Navegação ) até se reformar.
[3] A. J. Pinto Basto, «As Embarcações que Navegam no Tejo», in Revista do Exercito e da Armada, Lis boa 1893.
[4] Alexandre Guillaume Léopold de Folin marquis de Folin, Les Flotteurs de Transport en Portugal et en Espagne, Les Bateaux du Tage in Bateaux et Navires Progrès de la Construction Navale, a tous Ages et dans tous les Pays, par le Marquis de Folin, Ancien Officier de Marine, Membre de la Comission Scientifique d’Exploration des Grands Fonds de la Méditerranée et de l’Atlantique, de l’Académie Royale des Sciences de Lisbonne, de la Société Imperiale des Naturalistes de Moscou, etc., etc.. Avec 132 figures intercalées dans le texte. Bibliothèque Scientifique Contemporaine Librairie J. B. Baillière et Fils, Rue Hautefeuille, 19, près du Boulevard Saint Germain, Paris 1892. (pág. 215 e 216).
[5] E. Henri l'Éveque (1769-1832), viajante, pintor, aguarelista e gravador suíço, esteve várias vezes em Portugal, tendo registado graficamente, entre outros temas, numerosos episódios das Invasões Francesas no seu álbum Campaigns of the British Army in Portugal, under the command of general the Earl of Wellington de 1812 dedicado a este militar, com 19 gravuras. Foi ainda autor de outro álbum Costume of Portugal um belo livro dos costumes portugueses publicado durante o século XIX dedicado ao conselheiro, ministro e secretário de Estado António de Araújo de Azevedo, primeiro conde da Barca (1754-1817) com texto bilingue (inglês e francês) descritivo das imagens e 50 águas-tintas, coloridas à mão. Em algumas das imagens em que se entrvê o Tejo figuram apontamentos deste e de outros tipo de embarcações.
[6] E. Henri l'Éveque (1769-1832) gravura in Campaigns of the British Army in Portugal, under the command of general the Earl of Wellington, K. B., dedicated by permission to his lordship. London, printed by W. Bulmer and Co. Cleveland-Row, St. James, and published (for the proprietor) by Massrs. Colnaghi and Co. Cockspurs-Street, Charing-Cross, London 1812.
[7] Almeida Garrett , CAMÕES, Na Livraria Nacional e Estrangeira, Rue Mignon, n.º 2, faub. St. Germain Paris 1825.(Canto III, pág. 49 e 50).
[8] William Morgan Kinsey (1788-1851), Portugal illustrated : in a series of letters, by the Rev. W. M. Kinsey.B.D. Fellow of Trinity College, Oxford, and Chaplain to the Right Honourable Lord Auckland, Embellished with A Map, Plates of Coins, Vignettes, Modinhas, and various Engravings of Costumes, Landscape Scenery, &c.- Second edition. - London : published for the author, by Teuttel and Würtz, Treuttel Jun. and Richter Foreing Booksellers to the King, 30 Soho Square, printed by A. J. Valpy,Red Lion Court, Fleet Street 1829.
[9] O reverendo William Morgan Kinsey (1788-1851), esteve em Portugal em 1827. A partir do seu Diário, das cartas que escreveu ao poeta e dramaturgo Thomas Haynes Bayly (1797-1839) e ainda de outras fontes, escreveu um livro que publicou em 1828 com o título Portugal Illustrated, com gravuras de G. Cooke e J. Skelton. A segunda edição que utilizamos é de 1829.
[10] Sobre António Carvalho da Silva Porto (1850-1893) ver neste blogue A pintura de Silva Porto em Apontamentos sobre a pintura em Portugal na esquina dos séculos 19 e 20 http://doportoenaoso.blogspot.pt/2011/09/apontamentos-sobre-pintura-em-portugal.html
[11] E portanto ao contrário do que refere a leiloeira não pode ser de Thomas Rowbotham pai, falecido em 1853.
[12] Sophia de Mello Breyner Andresen, Obra Poética III, Editorial Caminho, Lisboa 1991. (pág. 202).
 
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