Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















terça-feira, 20 de dezembro de 2016

BOAS FESTAS

 

Este blogue atingiu um milhão de visitas. Esse número apenas significa que, embora seja elaborado para meu próprio prazer, ele tem sido de alguma utilidade e permitido partilhar esse prazer com os que o tem visitado.

Por isso, os meus desejos para todos de

UM SANTO NATAL e UM FELIZ ANO NOVO.

crivelli

Carlo Crivelli (c.1435- c. 1495). Adoração dos pastores, c. 1480, têmpera sobre madeira 36 x 51 cm. Musée des Beaux Arts Strasbourg.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Apontamentos sobre o Palácio da ilha da Cité 2

 

II Parte – Um breve percurso pelas frentes do Palácio

 

Cap. 5 - A frente nascente e principal do Palácio. Da rua de la Barillerie ao Boulevard du Palais.

Comecemos pela frente do Palácio no século XVII, da Topographia Galliae de Mérian.

fr33fig. 1 - Mattheus Merian (1593-1650) e Martin Zeiler (1589-1661) Topographia Galliae, oder Beschreibung und Contrafaitung der vornehmsten, unnd bekantisten Oerter, in dem mächtigen und grossen Kônigreich Franckreich. Frankfurt 1665.

Michel Charles Fichot elabora no século XIX, a partir da imagem de Merian, uma gravura, onde podemos observar a frente nascente do Palácio com (de sul para norte), a Capela de Saint-Michel, as Portas do Palácio, as boutiques, e a Torre do Relógio.

fr1fig. 2- Michel Charles Fichot (1817–1903), Le Palais en l’Ille, la Sainte-Chapelle, et la Chambre des Comptes in  M. F. de Guilhermy,Itinéraire Archéologique de Paris, illustré de 15 gravures sur acier et de 22 vignettes gravées sur bois d’aprés les desseins de M. Charles Fichot. Bance, Éditeur, rue Bonaparte, 13, en face de l’École des Beaux-Arts, Paris 1855.

A imagem legendada para uma melhor identificação dos espaços do Palácio.

fr40fig. 2a – A imagem anterior legendada.

A – Saint Michel  B – Tour de l’Horloge  C – Grande-Salle  D – Conciergerie  E – Sainte- Chapelle  F – Jardin du Roy  G – Place Dauphine  H – Pont-Neuf  I – rue Saint-Louis  J – rue de la Barillerie  K – Quai de l’Horloge M – Chambre des Comptes N – Entradas.

Na planta de Truchet e Hoyau temos uma perspectiva da frente nascente vista do interior do Palácio.

fr1afig. 3 – A frente nascente do Palácio vista do seu interior em 1550. Plan de Paris de Olivier Truchet et Germain Hoyau. Bibliothèque de l’Université de Bâle.

1 - A Capela de Saint-Michel

La chapelle de Braque & celle des Orfèvres,
Celle de Saint Michel allant dans le Palais,
La Sainte Egyptienne avecque ses balais.
D'autres hors de la Ville où croissent des genièvres.
 [1]

Na rua da Barillerie, entre a Sainte-Chapelle e a rua do mesmo nome, havia uma praceta onde foi construída a capela de Saint-Michel. No século XII ela é referida como Ecclesia Sancti-Michaelis de platea (Igreja de São Miguel da praça).

Segundo Gilles Corrozet, terá sido Lotaire (941-986) rei de 954 até à sua morte, quem fonda ladite chapelle, en l’an de grace neuf cens setãte cinq, une Abbaye en laquelle il mit abbé & religieux, ausquels il fit grands dons, & mit les chanoines seculiers en la chapelle sainct Nicolas, qui est à presente apellee sainct Michel, dedans la closture du Palais (…) Quant à l’Eglise sainct Michel, dans la closture du Palais, elle fut chappelle des Roys, iusques au temps de sainct Loys. [2]

[…fundou a dita capela, no ano de graça de novecentos e setenta e cinco, uma Abadia na qual pôs abade e religiosos, aos quais fez enormes doações e colocou os cónegos seculares na capela de Saint Nicolas, que é chamada actualmente Saint Michel, no recinto do Palácio (…) Quanto à Igreja de Saint Michel, no recinto do Palácio, foi a capela dos Reis, até ao tempo de Saint Louis.]

fr2fig. 4 - A igreja de Saint-Michel na planta da Tapeçaria.

Na capela de Saint-Michel foi baptizado Philppe II, Auguste (1165- 1223), que reinou entre 1180 e 1223, sendo o primeiro monarca a utilizar o título de Rei de França.

A capela era encimada por uma estátua de São Miguel matando o Dragão.

Foi demolida em 1782.

fr3bfig. 5 – Pormenor da fig. 1.

fr3fig. 6 - Martial, A.-P. (1828-1883). Bonnardot, Alfred (1808-1884). Chapelle Saint-Michel 1862-1863 eau-forte ; 23,7 x 11,9 cm Cadart et Luquet ; Potémont] (Paris), Bibliothèque nationale de France.

2 - As Portas do Palácio

As portas estavam situadas na rua de la Barillerie, uma no enfiamento da rua de Vieille Draperie (depois rua Constantine) e dando para a Cour de Mai (Pátio de Maio) [3] e a outra no enfiamento da rua de la Calandre abrindo para o pátio da Saint Chapelle e da Chambre de Comptes.

fr4fig. 7 – As Portas do Palácio realçadas in Michel Charles Fichot (1817–1903), Le Palais en l’Ille, la Sainte-Chapelle, et la Chambre des Comptes in  M. F. de Guilhermy,Itinéraire Archéologique de Paris, illustré de 15 gravures sur acier et de 22 vignettes gravées sur bois d’aprés les desseins de M. Charles Fichot. Bance, Éditeur, rue Bonaparte, 13, en face de l’École des Beaux-Arts, Paris 1855.

Num desenho de Jean-Baptiste Lallemand (1716-1803) vemos a porta que dava para a Cour de Mai, depois de transformado o edifício em frente (galeria Mercière ou galeria Marchande), nos finais do século XVIII.

fr5fig. 8 - Jean-Baptiste Lallemand, (1716?-1803?). Ancienne porte du Palais 1783, Dessin à la plume et lavis à l'encre brune, rehauts d'aquarelle ; 25,9 x 23,6 cm. Bibliothèque nationale de France.

3 - As lojas e boutiques

Adossadas ao muro do Palácio e ao longo da rua da Barillerie, um conjunto de lojas, onde se vendia de quase tudo, e que rivalizavam com as boutiques no interior da Cour de Mai, nas escada e na galeria Mercière.

No Terrier du Roy elaborado na segunda metade do século XVII, podemos ver numa planta as boutiques que se estendiam ao longo da rua da Barillerie.

fr7afig. 9 - La Rue de la Barillerie in Cour du Palais in Premier Tome du Terrier du Roy Contenu dans le Plan du Quartier de la Cité et des Isles du Palais, Paris (Paris, Ile-de-France, França) | 1666 - 1700 | AN Q1-1099-1 Document conservé au Centre historique des Archives nationales à Paris.

Na gravura de Fichot, vê-se as boutiques ao longo da rua de la Barillerie, na escada da Galerie e junto à Sainte-Chapelle e à Tour du Trésor.

fr6fig. 10 – Pormenor de Michel Charles Fichot (1817–1903), Le Palais en l’Ille, la Sainte-Chapelle, et la Chambre des Comptes.

Abrham Bosse desenhou um conjunto de gravuras mostrando algumas dessas boutiques.

fr7cfig. 11 – Abraham Bosse (1602-1676). La Galerie du Palais 1636, buril água-forte 25,1 x 31,7 cm. musée du Louvre, collection Rothschild Paris.

4 - A Torre do Relógio

François venait de lever les yeux, pour regarder l'heure, à l'horloge du Palais. [4]

A Torre do Relógio no ângulo nordeste do Palácio, foi mandada construir entre 1350 e 1353, por Jean II, Le Bon (1319-1364), rei de França entre 1350 e 1364.

O seu filho Charles V, le Sage (1338-1380), rei de França entre 1364 e 1380 mandou instalar em 1370 na Torre  um relógio construído por um relojoeiro de nome Henri De Vic. 

No tempo de Henrique III (1551-1589), rei de França de 1574 a 1589,  o mostrador foi substituído  por outro decorado com as figuras da Lei (da Piedade?) e da Justiça, com o manto e sobre um fundo real pontuado por flores-de-lis douradas, da autoria de Germain Pilon (1528-1590).

A Torre, com as destruições da Revolução foi restaurada nos meados do século XIX (tal como existia em 1558), assim como as torres da fachada norte pelos arquitectos Joseph-Louis Duc (1802-1879) e Étienne-Théodore Dommey (1801-1872).

Nas páginas (122 e 123) da Revue Générale de l’Architecture et des Travaux Publics de 1852 (10º Volume), num artigo não assinado e intitulado Restauration du cadran de l'horloge de la tour du Palais de Justice, apesar do elogio ao trabalho de restauro é criticada a pintura do relógio.

(…) Aussi, avons-nous entendu, en ce moment-là, beaucoup louer l'oeuvre de MM. Duc, Dommey (les architectes du Palais de Justice), Toussaint (sculpteur) *, et Vivet (peintre). Mais l'échafaud enlevé, nous avons recueilli les observations de la foule, de la masse dépourvue de toute érudition, et qui n'a que son sentiment naïf au service de l'art. (…)  Nos lecteurs nous excuseront si, au lieu de suivre l'exemple des journaux politiques, embarrassés depuis quelque temps pour remplir leurs colonnes, et de donner la série des inscriptions latines qui intriguent la foule, nous nous contentons de résumer laconiquement notre pensée. Exécution matérielle très soignée, — couleurs maladroitement combinées, — argent mal employé.

* François Christophe Armand Toussaint (1806-1862).

[Também, achamos por bem, neste momento, louvar a obra dos Srs. Duc, Dommey (os arquitectos do Palácio da justiça), Toussaint (escultor), e Vivet (pintor). Mas retirados os andaimes, escutamos as observações das pessoas, dos desprovidos de qualquer erudição, e que apenas tem o seu sentimento ingénuo na fruição da arte. (…) Os nossos leitores desculpar-nos-ão se, em vez de seguir o exemplo dos jornais políticos, embaraçados já há algum tempo para encher as suas colunas, dando a série de incrições latinas que tanto intrigam as pessoas, nós nos contentemos de resumir laconicamente o nosso pensamento. Execução material muito precisa – cores muito mal combinadas – dinheiro mal gasto.]

O relógio foi sucessivamente restaurado em 1909 e 1952, datando o último restauro de 2012.

fr8bfig. 12 - Detalhe de Michel Charles Fichot (1817–1903), Le Palais en l’Ille, la Sainte-Chapelle, et la Chambre des Comptes.

fr9fig. 13 - Richard Parkes Bonington (1801-1828), Palais de Justice, Tour de l’Horloge 182?, aquarelle sur traits à la mine de plomb ; 21,7 x 14 cm. Bibliothèque nationale de France.

fr10fig. 14 - Eugène Atget (1857-1927) in Le Quartier de Saint-Germain l’Auxerrois, 1899-1924, album photogr. pos. : n. et b. ; 16 x 22 cm. Bibliothèque nationale de France.

5 - O Relógio

Or, voeil parler del estat del Orloge.
La premerain-ne roe [roue] qui y loge,
Celle est la mère et li commencemens
Qui fait mouvoir les aultres mouvemens
Dont l’Orloge a ordenance et manière;
…………………………………………………………..
Le plonk [poids] trop bien à la beauté s'acorde.
Plaisance s'est monstrée par la corde,
Si proprement c'on ne poroit mieulz dire;
Car, tout ensi que le contrepois tire
La corde à lui, et la corde tirée,
Quand la corde est bien adroit attirée,
Retire à lui et le fait esmouvoir,
Qui autrement ne se poroit mouvoir;… 
[5]

fr11fig. 15 – Charles Marville (1813-1879) O Relógio do Palácio da Justiça de Paris c. 1853–70 albumina 34 x 24,8 cm. State Library of Victoria.

fr11afig. 16 - O relógio antes do último restauro de 2012.

Na cartela superior  pode ler-se: Qui dedit ante duas triplicem databile coronam (O que lhe deu já duas coroas, dar-lhe-á uma terceira)

E na cartela inferior “Machina quæ bis sex tam juste dividit horas Justitiam servare monet legesquetueri” (A máquina que divide exactamente as doze horas do dia adverte-nos para respeitar a justiça e obedecer às leis).

fr11bfig. 17 - O Relógio na actualidade.http://titeparisienne.over-blog.net/article-la-tour-de-l-horloge-116880974.html

A Justiça e a Lei

O mostrador do relógio está ladeado por duas estátuas, representando a Justiça e a Lei.

fr11gfig. 18 - A Justiça e a Lei in http://titeparisienne.over-blog.net/article-la-tour-de-l-horloge-116880974.html

Na tábua que a Lei tem no braço direito pode ler-se: “Sacra Dei celebrarepius, regale timejus” (Observador piedoso da Lei de Deus, respeita o direito real).

6 - A Pirâmide de Châtel (1597-1606)

Situada no exterior do Palácio junto da sua porta principal, devia o seu nome a um jovem chamado (Jean Chastel) ou Jean Châtel (1575-1594), que em 1594 tentou assassinar o rei Henri IV.

No período das guerras religiosas em França, esta tentativa de regicídio foi associada aos jesuítas e Châtel foi de imediato preso e executado alguns dias depois.

Voltaire descreve esta tentativa de assassinato, precisando que se deu a 27 de Dezembro de 1594, às seis horas da tarde:

"Il se mêla dans la foule des courtisans dans le moment que le roi embrassait le sieur de Montigny: il portait le coup au coeur; mais le roi, s’étant beaucoup baissé, le reçut dans les lèvres. La violence du coup était si forte qu’elle lui cassa un dent, et le roi fut sauvé pour cette fois" [6]

[Ele misturou-se com a multidão de cortesãos no momento em que o rei abraçava o senhor de Montigny; ele tentou golpeá-lo no coração; mas o rei tendo-se baixado demasiado recebeu o golpe nos lábios. A violência do golpe foi tão forte que lhe partiu um dente, e o rei salvou-se desta vez.]

A casa do seu pai na ilha da Cité foi demolida e em 1597, substituída por uma “pirâmide” comemorativa, no largo então aberto, junto à porta do Palácio.

fr12fig. 19- (Charles Albert) August Racinet (1825-1893) Pyramide de Jean Châtel in Curiosités de la Cité de Paris. Histoire Étymologique de ses rues nouvelles, anciennes ou supprimées. Recherches Archéologiques sur ses antiquités, monuments et maisons remarquables par Ferdinand Heuzey. Dessins de A. Racinet. E. Dentu, Éditeur, Libraire de la Société des Gens de Lettres, Palais Royal,17 et 19, Galerie d’Orléans. Paris 1864.

A pirâmide com cerca de vinte pés de altura tinha uma base quadrada em cujos cantos se erguiam estátuas representando as 3 Virtudes Teologais (Fé, Esperança e Caridade) e onde estavam inscritas com letras de ouro, frases em latim de Joseph Justus Scaliger (1540-1609), um erudito e líder religioso que polemizou com os jesuítas.

fr12bfig. 20 - Jakob de Weert (1569-16..) Portrait de la Pyramide Dressée devant la porte du Pallais [sic] 1597 burin ; 46 x 24,7 cm. Bibliothèque nationale de France.

fr12afig. 21 - Porte ancienne du Palais et la Pyramide 1780, Dessin à la plume, lavis à l'encre de Chine et rehauts d'aquarelle ; 39,5 x 31,6 cm. Bibliothèque nationale de France.

A Pirâmide na praceta em face do Palácio vista do sul. Ao fundo a Torre do Relógio.

fr12cfig. 22 - "Pyramide commémoratrice du crime de Jean Chastel et des jésuites." in Jacques-Antoine Dulaure, Histoire physique, civile et morale de Paris, seconde édition, t. 5, Paris, 1823.

fr12efig. 23 - Auguste-Sébastien Bénard (1810-1873) 49 x 37 cm. Musée du Carnavalet.

Em 1605, com o regresso dos Jesuítas, a pirâmide, que ostentava inscrições contra os jesuítas, foi por sua vez demolida e, no seu lugar, por iniciativa de François Miron (1560-1609) foi construída uma fonte dita dos Barnabites, [7] já que esta ordem ocupou o convento de Santo Elói de 1629 a 1631.

Aparece referenciada no Plano de Paris de Jacques Gomboust de 1652.

Posteriormente, segundo diversos autores, foi deslocada para a esquina das ruas de São Victor e do Sena tendo então tomado o nome de Fonte de São Victor.

fr12dfig. 24 - Alexandre Moisy (1763-1827?), Planche 36, Fontaine de Saint Victor , in Amaury Duval (1760-1838),  Les Fontaines de Paris, anciennes et nouvelles, ouvrage contenant 60 planches dessinées et gravées au trait, par M. Moisy, accompagnées de descriptions historiques et de notes critiques et littéraires, par M. Amaury Duval  Chez les Éditeurs, rue Boucher, n.1, au coin de celle de la Monnaie, et Firmin Didot, Imprimeur Libraire, rue Jacob, n.º 24. Paris 1812.

7 - A igreja de Saint-Barthélémy e a praça do Palácio

Na rua da Barillerie, siuava-se a igreja de Saint-Barthélémy, que na época da Revolução foi nacionalizada, sendo demolida em 1791.

Em frente do Palácio a praceta aí existente é regularizada e transformada numa praça semicircular com o nome de Place du Palais.

[Ver http://doportoenaoso.blogspot.pt/2016/12/apontamentos-sobre-o-palacio-da-ilha-da.html]


[1] Michel de Marolles Abée de Villeloin (1600-1681), Paris ou la description succincte et néanmoins assez ample de cette grande ville, par un certain nombre d'épigrammes de quatre vers chacune, sur divers sujets.1677. in Collection des Anciennes Descriptions de Paris, Introduction et notes par l'abbé Valentin Dufour. A. Quentin, Imprimeur-Editeur, 71 Rue Saint Benoit, Paris  1879.(pág.20).

[2] Gilles Corrozet (1510-1568) e Nicolas Bonfon (act. 1572-1610), Les Antiquitez Histoires, Chroniques et Singularitez de la grande & excelente cité de Paris, ville capitalle & chef du Royaume de France: Avec les fondations & bastiments des lieux: les sepulchres & E pitafes des princes, princeses & autres personnes illustres. Auteur en partie, Gilles Corrozet Parisien, mais beaucoup plus augmentees, par N. B. Parisien. Par Nicolas Bonfons, ruë neusve nostre Dame à l’enseigne S. Nicolas. Paris 1577. (pág. 50 e 51).

[3] Assim chamado por ser tradição em Maio aí ser plantada uma árvore.

[4] Émile Zola Les Trois Villes. Paris. Bibliothèque-Charpentier, Eugène Fasquelle, Éditeur, 11, Rue Grenelle Paris 1898.

[5] Jean Froissart (1337?-1410?), L'Orloge amoureus, c.1368, in Poesies de J. Froissart, extraites de deux manuscrits de la Bibliothèque du Roi et publiées pour la première fois par J. A. Buchon. Verdière, Libraire, Qua ides Agustins, nº 25. Paris 1829. (pág.146 e 147).

[6] Voltaire, Histoire du Parlement in Oeuvres Complètes de Voltaire, avec Préfaces, Avertissements, Notes, Etc. par M. Beuchot, Tome XXII Histoire du Parlement,  Cap. XXXVI, pag.181 A Paris, Chez Lefèvre, Libraire, Rue de L’Éperon, n.º6. Werdet et Lequien Fils, Rue du Battoir, n.20, M DCCC XXIX.

[7] Religiosos da Congregação de São Paulo cujo primeiro convento foi o de São Barnabé em Milão.

8 - A transformação da entrada do Palácio e da Cour de Mai [1]

A Cour de Mai, como se apresentava no século XVII, numa gravura de Israël Silvestre.

fr14afig. 25 - Israël Sivestre (1621-1691), Veüe de la Cour, et de la Gallerie Dauphine du Palais, à Paris, gravura de Gabriel Perelle (1603?-1677), editada por Pierre Mariette(1634-1716), rue S. Jacques a l’Esperance. eau-forte ; 13,4 x 16 cm. Bibliothèque Sainte Geneviève / collection Guénebault.

À esquerda a Tour du Trésor; em frente a Gallerie Mercière e à direita a Gallerie Dauphine.

E numa reconstituição do século XIX vemos, à esquerda a Sainte-Chapelle com a Tour du Trésor e de frente a Gallerie Mercière, tendo por trás a Tour Montgomery.

fr14fig. 26- Hubert Clerget (1818-1899). Paris vieux - Palais de Justice, dessin sur papier bistre : crayon noir, aquarelle et rehauts de gouache ; 18,5 x 22,5 cm. Bibliothèque nationale de France.

O incêndio de 1776

Em Janeiro de 1776, dois anos após o início do reinado de Luís XVI (1754-1793), um incêndio atingiu o Palácio destruindo-o parcialmente, incluindo os edifícios que envolviam a Cour de Mai, nomeadamente a galeria Mercière (Salle aux Merciers).

fr15fig. 27 - Salle des Merciers in Cour du Palais in Premier Tome du Terrier du Roy Contenu dans le Plan du Quartier de la Cité et des Isles du Palais, Paris (Paris, Ile-de-France, França) | 1666 - 1700 | AN Q1-1099-1 Document conservé au Centre historique des Archives nationales à Paris.

fr17afig. 28 - Nicolle Lemercier (17..-18..) Élevation des Bâtiments anciens qui formaient l’enceinte de la Cour du Mai du Palais. Dessi. Par Thierry Architecte et Lith. Par Nicolle. Imp. Lemercier, Bernard et Cie. lithographie ; 24,3 x 36 cm. Bibliothèque Sainte Geneviève / collection Guénebault.

A Cour de Mai após o incêndio

fr16afig. 29 - Thomas Froideau (17.._18..) Vue de la Démolition du Palais telle qu’elle était à la St. Jean de l’Année 1777. Dessiné par Thomas Froideau et litographié par Nicolle Lemercier. Imprimerie Lemercier, Bernard et Cie. Lithographie 24,3 x 36 cm. Bibliothèque Sainte Geneviève / collection Guénebault.

A mesma gravura colorida na Biblioteca Nacional de França.

fr16fig. 30 - Charles Thierry (1755?-1851),Vue de la Démolition du Palais, telle qu'elle étoit à la St. Jean de l'année 1777. Dessin à la plume et encre de Chine, rehauts d'aquarelle 37 x 47,5 cm. Bibliothèque nationale de France.

fr18fig. 31 - Vue de la galerie Mercière, prise après l'incendie de 1776,17 ?, Dessin à la plume et lavis à l'encre de Chine sur papier bleuté ; 21 x 15 cm. Bibliothèque nationale de France.

De imediato Luís XVI ordena a sua reconstrução, dando-lhe um aspecto que melhor mostrasse a importância do exercício da Justiça pelo Monarca.

C'est donc sur la façade urbaine, à l'est, que vont se concentrer les travaux, alors que dans le même temps seront conservés les icônes symboliques et historiques que sont la Sainte-Chapelle et la Conciergerie. [2]

[É, portanto, na fachada urbana, a leste, que se vão concentrar os trabalhos, ao mesmo que tempo que se conservarão os ícones simbólicos e históricos que são a Sainte-Chapelle e a Conciergerie.]

Surgem assim vários projectos como se lê nas Mémoires secrets em 14 Fevereiro de 1776:Plusieurs artistes se sont déjà évertués à faire des projets pour la construction d'un nouveau Palais; mais il est fort aisé de tracer de magnifiques idées sur le papier; le gouvernement ne semble pas disposé à en agréer aucune; il est question de réparer tant bien que mal pour rendre les lieux habitables.

[Vários artistas já se proposeram para elaborar projectos para a construção do novo Palácio; mas é muito fácil traçar magníficas ideias no papel; o governo não parece estar disponível para aprovar nenhuma delas; trata-se de reparar tant bien que mal de forma a tornar os espaços habitáveis.]

Mas é François Victor Pérard de Montreuil (1742-1821) architecte du Grand Prieuré de France, que publica um opúsculo denominado Nouveau Palais de la Justice d’après les Plans de M. Perrard de Montreuil, Censeur Royal, Architecte de Monseigneur le Comte d’Artois. [3]

Criticando o Palácio existente, escreve assumindo a personagem de um viajante e filósofo:

Que doit penser ce philosophe voyageur, lorsqu’après avoir vu tout ce que l’on a projetté & tout ce qui a reçu son exécution, il passe sous les portes sombres & étroites qui ferment les cours irrégulières du Palais? Sans doute, se dit-il, ce qu’il y a dans ce pays de moins en honneur, c’est la Justice; cette Justice qui mérite pourtant d’être honorée de tous les hommes, puisqu’elle assure leur repos;cette Justice à laquelle le sage bâtit des temples & dont les prêtres qui la servente doivent avoir fait preuve de savoir & d’intégrité avant d’environner ses autels.

[O que pensará este filósofo viajante, quando, depois de ter visto tudo o que se projectou e tudo o que foi executado, entra pelas portas sombrias e estreitas que abrem para os pátios irregulares do Palácio? Sem dúvida, dirá ele, o que neste país tem menos honra, é a Justiça; esta Justiça que merece contudo ser honrada por todos, por que lhes assugura o repouso; esta Justiça à qual o sábio constrói templos e cujos sacerdotes que a servem devem fazer prova de sabedoria e de integridade antes de rodear os seus altares.]

E Perard de Montereuil apresenta um projecto de total transformação do edifício do Palácio da Justiça, no espírito iluminista e racional da época, para dar à la France & à la Magistrature l'occasion favorable de marquer sa reconnaissance à son Souverain, en consacrant, par un monument éternel, l'époque la plus brillante du règne qui nous promet la justice & le bonheur. [4]

[dar à França e à Magistratura a ocasião favorável de marcar o reconhecimento ao seu Soberano, consagrando, com um monumento eterno, a época mais brilhante do reino que nos promete a justiça e a felicidade.]

fr23fig. 32 - François Perard de Montreuil. Idée d’un plan projetté pour un Palais de Justice. Estampa 54 x 35 cm. in Nouveau Palais de la Justice d’après les Plans de M. Perrard de Montreuil.

Na página 12 do seu opúsculo Perard de Montreuil faz uma descrição do projecto, onde afirma que o projecto utiliza todo o terreno entre a rua da Barillerie a nascente e a rua de Halay a poente, e entre o cais dos Morfondus a norte e o cais dos Orfèvres a sul.

A entrada principal do Palácio seria feita a poente pela rua de Halay onde um gradeamento dava acesso a uma primeira praceta formada do lado norte e sul por dois edifícios, destinados à Chanceleria e à Residência do Presidente do Parlamento.

La place Dauphine servira de premiere entrée au nouveau Palais projetté; on embellira seulement cette place en construisant deux nouveaux pavillons en face de la satue d'Henri IV. La façade sur la rue du Harlay sera formée par deux autres pavillons, qu’unira une grande balustrade posée sur un socle élevé, & ouverte par trois portes grilles basses, accompagnées de piédestaux, sur lesquels seront des figures & attributs allégoriques en marbre blanc, de même que les balustrades. L'un de ces pavillons sera destiné à la Chancellerie, l'autre sera l'Hôtel du Premier Président.

[A praça Dauphine servirá como principal entrada do novo Palácio projectado; esta praça será apenas embelezada pela construção de dois novos edifícios face à estátua de Henri IV. A fachada para a rua de Harlay será formada por dois outros edifícios, unidos por uma grande balaustrada apoiada numa base aberta em três portões, acompanhados de pedestais , sobre os quais se colocarão figuras e atributos alegóricos em mármore branco, como nas balaustradas. Um destes edifícios será destinado à Chancelaria e o outro à Residência do Primeiro Presidente.]

A nascente desta praceta, uma colunata, tendo nas extremidades as escadarias que permitiriam o acesso coberto às galerias da praça principal.

Esta praça sera terminée sur les côtés par des espaces demi-circulaires, occupés en partie par de larges trotoirs élevés de deux marches, & par de grands escaliers à découvert & en fer à cheval. Ces escaliers seront décorés de balustrades de marbre & conduiront à un grand palier en terrase, fermé aussi sur le devant par une balustrade à hauteur d'appui, & d'où l'on pourroit, si les circonstances l’exigeoient, haranguer le peuple assemblé.

[…será rematada nos dois lados por espaços semi-circulares, em parte ocupados por largos passeios de dois degraus, e por escadarias ao ar-livre em forma de ferradura. Estas escadarias serão decoradas com balaustradas de mármore e conduzirão a um grande terraço, tendo também na frente uma balaustrada com uma altura de apoio, onde se pode, se as circunstâncias o exigirem, harengar o povo reunido.]

Au fond de la cour s’élèvera le Temple de la Justice qui dominera tous ces bâtiments: six grandes colonnes corinthiennes isolées, de cinq pieds de diametre, formeront un avant-corps, & se détacheront sur deux arrières corps lisses.

[No fundo desta praceta erguer-se-á o Templo de Justiça dominando toda a construção: seis grandes colunas coríntias isoladas, com cinco pés de diâmetro, formarão um corpo saliente destacando-se dos dois corpos planos.]

La partie que je désigne sous le nom de Temple de Justice, renfermera dans son intérieur une vaste salle, où pourront se tenir les Lits de Justice & * les grandes assemblées extraordinaires.

*Sobre os Lits de Justice ver a III Parte.

Le ſrontispice sera terminé par un attique orné de figures & de bas-relief. La satue de la Justice, assise sur un piédestal avec ses attributs, couronnera toute cette décoration.

[A parte que designo por Templo da Justiça, terá no seu interior uma vasta sala onde se poderão realizar os Lits de Justce e as grandes assembleias extraordinárias.

O frontispício terminará num ático ornamentado por figuras e baixo-relevos. A estátua da Justiça, sentada num pedestal com os seus atributos, coroará toda esta decoração.]

Perard de Montreuil coloca no centro desta praça um monument à la gloire du Roi (monumento à glória do Rei) que descreve minuciosamente.

Do antigo Palácio apenas seria conservada a Sainte Chapelle e á sua direita erguer-se-ia um edifício destinado a prisão.

Por fim na rua da Barillerie abrir-se-ia uma grande entrada e em frente uma praça quadrada onde se poderia executar les jugemens terribles que la Loi aura prononcés. [5]

Segundo Lesterlin Gaël, teria sido elaborado por um engenheiro de nome Joseph Marie François Cachin (1757-1825), um outro ousado projecto datado de 1779, e que reconstruiria toda a zona ocidental da ilha.

O projecto de Joseph-Abel Couture [6]

Ao certo sabemos que, quem foi encarregado da renovação do Palácio foi Joseph-Abel Couture (c.1732-1799), então arquitecto do Rei, e que apresenta o seu projecto na Académie royale d'Architecture.

fr21fig. 33 – O projecto de Couture, in Lesterlin Gaël. La reconstruction du Palais de Justice à Paris après l'incendie de 1776. Le rôle des architectes face aux enjeux politiques. In: Monuments et mémoires de la Fondation Eugène Piot, tome 80, 2001. http://www.persee.fr/doc/piot_1148-6023_2001_num_80_1_1379

fr21dfig.33a – O projecto de Couture in Guillaume-Martin Couture (1732-1799), [e Joseph Abel Couture (antes 1732-1799)] architecte contrôleur des bâtiments des domaines de la ville et généralité de Paris, Paris Cité, 11 avril 1776, 60 x 32 cm. Bibliothèque nationale de France.

Segundo Gaël Lesterlin a fachada principal seria projectada por Couture, de modo a que:

Le long de la rue de la Barillerie, il valorise l'entrée principale qu'il offre au regard, au travers d'une arcade remplaçant l'enceinte que formaient les maisons au-devant de la cour du Mai.

[ao longo da rua da Barillerie, fosse valorizada a entrada principal, que se torna visível através de uma arcada substituindo a muralha formada pelas casas em frente da Cour de Mai.]

E continua Gaël Lesterlin:

Au fond de celle-ci, un large perron à trois volées conduit à la galerie Mercière, que l'architecte encadre de deux galeries terminées par de légères saillies formant pavillons sur la rue. Le corps principal est rythmé par un ordre monumental de pilastres et s'ouvre, au-delà de l'enceinte du Palais, sur une vaste place créée le long de la rue de la Barillerie.

[Ao fundo desta entrada principal uma grande varanda, com três patamares, conduz à galeria Mercière, que o arquiteto enquadra por duas galerias rematadas por pequenas saliências formando os pavilhões da rua. O corpo principal é pontuado por uma ordem monumental de pilastras e abre-se, para além do recinto do Palácio sobre uma ampla praça criada na rua da Barillerie.]

Si l'absence d'élévation jointe au plan ne permet pas l'analyse de la modénature de la façade, la conservation de l'emprise au sol de l'ancienne aile permet de faire l'hypothèse d'un rez-de-chaussée voûté surmonté de deux niveaux avec comble et qui correspond au projet finalement réalisé. [7]

[Se a ausência dos alçados em anexo à planta, não permite a análise da fachada, a planta do projecto da antiga ala permite formular a hipótese de um rés-do-chão abobadado com dois pisos a assunção de um piso térreo abobadado encimado por dois níveis, e que corresponderia ao projeto finalmente realizado.]

fr21afig. 34 – A Cour de Mai in Le Palais de Justice. Plan attribué à Joseph-Abel Couture vers 1776. Bibliothèque historique de la Ville de Paris, b29 (cliché GL). In Lesterlin Gaël. La reconstruction du Palais de Justice à Paris après l'incendie de 1776. Le rôle des architectes face aux enjeux politiques. In: Monuments et mémoires de la Fondation Eugène Piot, tome 80, 2001. http://www.persee.fr/doc/piot_1148-6023_2001_num_80_1_1379

Iniciadas as obras, segundo o projecto de Couture, um acidente com os tirantes da galeria Merciére em 1779, obriga a uma revisão de todo o projecto, pondo em causa a competência do arquitecto. Não sem alguma intriga política Couture é afastado da obra e são então nomeados os arquitectos Pierre-Louis Moreau (1727-1794) e Pierre Desmaisons (1711-1795), ambos pertencendo desde 1762 à Académie royale d'Architecture.

Em 1781 Pierre Moreau abandona a obra (morrerá na guilhotina em 1793 durante a Revolução) e é Pierre Desmaisons que irá desenhar a frente nascente do Palácio da Justiça, recuperando a Galeria da Cour de Mai.

fr32fig. 35 - Pierre Desmaisons (1711-1795): Projet for the Place du Palais de Justice, Paris, c. 1785. Black ink and coloured washes on paper, 245 × 186 mm. Drawing Matter Collections.

Mas um conjunto de conflitos que opuseram os empreiteiros a este arquitecto, com acusações reais ou inventadas, conduziu a um longo processo que se inicia em 1782, e que teve como consequência a efémera nomeação, como adjunto (ou controlador?) de Desmaisons, do arquitecto Jacques Gondouin de Folleville (1737-1818).

Desmaisons e Goudouin divergem na entrada do Palácio já que este pretendia uma arcada ao longo da rua da Barillerie onde, ao centro, um arco assinalava a entrada. Por seu lado Desmaisons justificando uma maior visibilidade sobre a Cour de Mai e do novo edifício pretendia um gradeamento na frente da rua da Barillerie.

fr20fig. 36 - Jacques Gondouin (1737-1818), Projet pour le Palais de Justice, 1783, água-forte 28,8 x 43,3 cm. Musée du Carnavalet.

Com as divergências com Desmaisons Gondouin demite-se ainda no ano de 1783 e é substituído por Jacques-Denis Antoine (1733-1801), o autor do hôtel des Monnaies.

O novo edifício com a fachada para a Cour de Mai é então concluído por Pierre Desmaisons e Jacques Denis Antoine entre 1782 e 1786.

fr24fig. 37 - Félix Narjoux, architecte de la Ville de Paris, Paris Monuments Élevés par la Ville 1850-1880, Deuxième Volume, V** A. Morel et C.ª, Libraires-Éditeurs, 13 rue Bonaparte Paris 1881.

O edifício é rematado por um frontão com as Armas de França suportadas por dois anjos.

fr25fig. 38 – O frontão com as Armas de França, ladeadas por dois Anjos.

Uma publicação de 1808 de Jean Toussaint Merle (1785-1852) dá a notícia de que, em 9 de Outubro de 1783, estão já concluídas as obras do Palácio da Justiça.

Le nouveau bâtiment du Palais de justice commence à se dégager par l'abattis des échoppes extérieures qui en étaient la vue. Le corps du milieu est orné de morceaux d'architecture. Au fronton se voient les armes de France en relief, supportées par deux anges de la façon de M. Pajou: * on y a placé en outre quatre statues qui, n'étant pas assez collossales, se distinguent très difficilement. Ces statues sont: la Force, la Prudence, la Justice, l’Abondance; la première & la dernière sont de M. Berruer **, les deux autres de M. le Comte***.

*Augustin Pajou (1730-1809).

**Pierre-François Berruer (1733-1797).

***Felix Lecomte (1737-1817).

[O novo edifício do Palácio da justiça começa a poder ser visto com a remoção dos andaimes exteriores. O corpo central está ornamentado de elementos de arquitectura. No frontão vê-se as armas da França em relevo, suportadas por dois anjos à moda do Sr. Pajou: foram também colocadas quatro estátuas, que não sendo suficientemente grandes, só dificilmente se distinguem. Estas estátuas são: a Força. A Prudência, a Justiça, a Abundância; a primeira e a última são do Sr. Berruer, as outras duas do Sr. Le Comte.]

E termina referindo e citando o epigrama:

Un plaisant a fait à ce sujet un calembourg en forme d'épigramme, qui par son extrême justesse & sa chute piquante mérite d'être distingué de la foule de ces platitudes.

Pour orner le palais trois artistes brillans
A l'envi l'un de l'autre ont montré leurs talens.
On se tait du cartel: quant à chaque statue,
L'on glose, l'on critique: on dit la Force bien,
La Prudence point mal; l'Abondance n'est rien,
Mais la Justice est mal rendue.
  [8]


[Um brincalhão fez a este propósito um epigrama que pela sua extrema justeza e um pouco picante merece ser distinguido do conjunto das banalidades.

Para decorar o palácio três brilhantes artistas
Emulando-se uns aos outros mostraram os seus talentos.
Calamo-nos sobre o cartel: quanto a cada estátu,
Glosamos e criticamos: dizemos a Força está bem,
A Prudência não está mal; a Abundência não vale nada,
Mas a Justiça não é feita.]

Sob esse frontão, apoiadas na balaustrada, as quatro estátuas: a Abundância, a Justiça, a Prudência e a Força.

A Abundância e a Força são do escultor Pierre-François Berruer (1733-1797), e a Justiça e a Prudência do escultor Felix Lecomte (1737-1817).

fr25afig. 39 - A Abundância,a Justiça, a Prudência e a Força.

Nas extremidades a Abundância e a Força.

fr26dfig. 40 – Pierre-François Berruer (1733-1797), A Abundância e a Força.

As esculturas das alegorias seguem de um modo geral, nos atributos, a Iconologia definida no século XVI por Cesare Ripa (1550 ou 1560-1622) [9], cujas representações foram, no entanto, variando ao longo das sucessivas edições desta obra.

Na edição francesa de 1643 [10], as representações gráficas são mais simplificadas.

fr37afig. 41 – A Abundância e a Força na edição francesa da Iconologia de Cesare Ripa.

Na edição italiana de 1764, talvez a mais próxima dos escultores das esculturas do Palácio, a representação da Abundância (Abbondanza) e da Força (Fortezza).

fr36efig. 42 - A Abundância e a Força na edição de 1764 da Iconologia de Cesare Ripa.

Ao centro a Justiça e a Prudência.

fr26efig. 43 - Felix Lecomte (1737-1817), a Justiça e a Prudência.

Na edição francesa a Justiça tem na mão direita uma espada flamejante com que afasta o Vicio representado pelo Diabo e na mão esquerda a balança. Uma cartela tem escrita a citação bíblica Esurientes implevit bonis. [11]

fr37bfig. 44 – A Justiça e a Prudência na edição francesa da Iconologia de Cesare Ripa.

Curiosamente na edição italiana de 1764, a Justiça está representada sem os tradicionais atributos.

fr36ffig. 45 – A Justiça e a Prudência na edição de 1764 da Iconologia de Cesare Ripa.

Pierre Desmaisons, já com Jacques Antoine, em colaboração com o escultor Antoine Rascalon (1742-1830) e um serralheiro de nome Bigonnet, executam, em 1787, o gradeamento com 40 metros de comprimento e três portões. Destes o magnífico portão central é encimado por um globo que ostenta uma coroa e está decorado com flores-de-lis, semelhante ao brasão que encima o edifício principal.

fr19afig. 46 - Pierre Desmaisons , Projet pour la grille du Palais de Justice Archive national H1 747 (cliché GL). À direita: Jacques Antoine, Desseins de la grille, Du pallais [sic] marchand 17..,  plume et lavis à l'encre de Chine ; 30 x 19,5 cm. Bibliothèque nationale de France.

O gradeamento, destruído durante a Revolução, foi restaurado, a partir de 1827, por Antoine Marie Peyre (1770-1843).

O arquitecto escreve nos seu Rapport:

Tous les ornemens et le couronnement qui la décoraient furent détruits à la révolution: le peu de soin qu'on prit pour préserver les panneaux de cette grille, causa la corrodation de tous les assemblages des venteaux qui auraient fini par se désassembler tout-à-fait. M. le Préfet, qui sentit l'importance de conserver ce chef-d'oeuvre de l'art, et de faire disparaître les traces du vandalisme que son état offrait à tous les yeux, en ordonna la réparation en 1825; (…) Ce travail qui offre les plus grandes difficultés pour l'exécution, ne sera terminé que dans les premiers mois de 1828. [12]

[Toda a ornamentação e o remate superior que o decoravam [o gradeamento] foram destruídos na revolução: o pouco cuidado que se teve para preservar os painéis deste gradeamento, provocou a corrosão de todas as dobradiças dos portões que acabariam por se desconjuntar. O Sr, Prefeito, sentindo a importância de conservar esta obra-prima e de fazer desaparecer todos os traços do vandalismo que se apresentava aos nossos olhos, ordenou a sua reparação em 1825; (…) Esta trabalho que apresenta as maiores dificuldades para a sua execução, apenas estará terminado nos primeiros meses de 1828.]

A Cour de Mai é finalizada por Desmaisons com a criação a sul um novo edifício que a par com o edifício, a norte, da antiga Galeria Dauphine completa a simetria da entrada principal. É Luís XVI que inaugurará a nova Cour de Mai.

fr22fig. 47 - Nicolas Ransonnette , (1745-1810). L'Arrivée du Roi [Louis XVI] à son Palais de justice, Dédiée et Présentée à Nosseigneurs de Parlement par son tres Humble et tres Respectueux Serviteur Ransonnette gravure à l'eau-forte et au burin ; 27,5 x 41 cm. Bibliothèque nationale de France.

fr28fig. 48 - B. Ferrey Delt.", "A. Pugin dirext.", "J. Romney sc." and publication line: "London, R. Jennings Poultry, Dec 1, 1828, Palais de Justice, from the Court Yard 1828, gravura 13,2 x 20,5 cm. British Museum.

fr29fig. 49 - Palais de Justice, 18.. ?, Dessin à la plume et lavis à l'encre de Chine, rehauts d'aquarelle ; 29,6 x 36 cm. Bibliothèque nationale de France.


[1] Ver Lesterlin Gaël. La reconstruction du Palais de Justice à Paris après l'incendie de 1776. Le rôle des architectes face aux enjeux politiques. In: Monuments et mémoires de la Fondation Eugène Piot, tome 80, 2001. pp. 81-121;

http://www.persee.fr/doc/piot_1148-6023_2001_num_80_1_1379

[2] Lesterlin Gaël. La reconstruction du Palais de Justice à Paris après l'incendie de 1776. Le rôle des architectes face aux enjeux politiques. In: Monuments et mémoires de la Fondation Eugène Piot, tome 80, 2001. pp. 81-121;

http://www.persee.fr/doc/piot_1148-6023_2001_num_80_1_1379

[3] Nouveau Palais de la Justice d’après les Plans de M. Perrard de Montreuil, Censeur Royal, Architecte de Monseigneur le Comte d’Artois. Chez P. G. Simon, Imprimeur du Parlement , rue Mignon Saint Andre-des-Arcs. M.DCCLXXVI.

[4] Discours Preliminaire do Nouveau Palais de la Justice d’après les Plans de M. Perrard de Montreuil, Censeur Royal, Architecte de Monseigneur le Comte d’Artois. Chez P. G. Simon, Imprimeur du Parlement , rue Mignon Saint Andre-des-Arcs. M.DCCLXXVI. (pág.IV).

[5] Em itálico citações de Nouveau Palais de la Justice d’après les Plans de M. Perrard de Montreuil, Censeur Royal, Architecte de Monseigneur le Comte d’Artois. Chez P. G. Simon, Imprimeur du Parlement, rue Mignon Saint Andre-des-Arcs. M.DCCLXXVI. (pág. 11 a 14).

[6] Ver Lesterlin Gaël. La reconstruction du Palais de Justice à Paris après l'incendie de 1776. Le rôle des architectes face aux enjeux politiques. In: Monuments et mémoires de la Fondation Eugène Piot, tome 80, 2001.

http://www.persee.fr/doc/piot_1148-6023_2001_num_80_1_1379

[7] In Lesterlin Gaël. La reconstruction du Palais de Justice à Paris après l'incendie de 1776. Le rôle des architectes face aux enjeux politiques. In: Monuments et mémoires de la Fondation Eugène Piot, tome 80, 2001. (pág. 89).

http://www.persee.fr/doc/piot_1148-6023_2001_num_80_1_1379

[8] Louis-Petit de Bauchaumont (1690-1771), Mémoires Historiques, Litteraires et Critique s de Bachaumont, depuis l’anné de 1762 jusques 1788; ou Choix d’Anecdotes historiques, litteraires, critiques et dramatiques; de bons mots, d’Epigrammes, de Pièces fugitives, tant en prose qu’en vers; de Vaudevilles et de Noëls sur la Cour; de Pièces peu connues; des Éloges des savants, des artistes et des hommes de lettres; Extrait des Mémoires secrets de la republique des lettres, et mis en ordre par J. T. M…E. Tome Second 1782=1788. Léopold Collin, Libraire, Rue Git-Le-Coeur. Paris 1808. (pág.80).

[9] Iconologia overo Descrittione dell’Imagini Vniversali cavate dall’Antichita et da altri lvoghi, da Cesare Ripa Perugino. Opera non meno vtile che necessária à Poeti, Pittori, & Scultorí, per rappresentare le virtù, affetti & passioni humane. In Roma. Per gli Heredi di Gio. Gigliotti. M. D. XCIII.

[10] Iconologie ov les principales choses qui peuvent tomber dans la pesée touchant les Vices et les Vertus, sont reprensentées souhs diverses figu.res . Gravées en cuivre Par Jacqves de Bie, & moralement expliquées Par I. Bavdoin. A Paris, M. DC. XXXXIII.

[11] Da Bíblia sagrada Lucas 1:53. (Aos famintos encheu de bens). É ainda uma ária do Magnificat de Antonio Vivaldi (1678-1741) e do Magnificat de Johann Sebastian Bach (1685-1750).

[12] Antoine-Marie Peyre, Palais de Justice Rapport a M. Le Comte de Chabrol, Conseller d’Etat, Préfet du Département de la Seine, sur les constructions et amélorations faites dans ce monumento pendant son administration. Impremerie de Mme Ve Agasse, Rue des Poitevins, Paris 1828. (pág. 9 e 10).

 

A Restauração

Já no século XIX no período chamado da Restauração (1815-1830), o arquitecto Antoine-Marie Peyre (1770-1843) é encarregado da renovação do Palácio, que se tinha vindo a degradar quer pelos vandalismos do período revolucionário quer pelo abandono a que, por razões várias, se tinha estado sujeito.

Peyre, para além das intervenções no interior do Palácio, ocupa-se da reformulação da Conciergerie e da parte norte do edifício, de que se ocupará entre 1824 e 1827.

Em 1828 publica um Relatório sobre as construções e os melhoramentos efectuados. [1]

E em 1836 escreve Projet général de restauration, d'agrandissement et d'isolement du Palais de justice. [2]

O Palácio da Justiça apresenta então, segundo Peyre, a seguinte configuração.

fr48fig. 51 – Antoine Marie Peyre, Plan du Palais de Justice in Rapport…1828.

De seguida na Monarchie de Juillet (1830-1848) foi lançado um programa de recuperação e de ampliação do Palácio de que se encarregou o arquitecto Jean-Nicolas Huyot (1780-1840).

O projecto impulsionado por Rambuteau iniciou-se em 1836, com um plano parcelar das propriedades a adquirir datado de 1838.

fr44fig. 52 – Jean-Nicolas Huyot (1780-1840). Plan des Propriétés a acquérir a l’exterieur du Palais de Justice. Pour effectuer le projet d’isolement de ce palais. Ordre des Avocats de Paris.

fr45fig. 53 - Jean-Nicolas Huyot (1780-1840). État des Constructions et Délimitations en 1838. Premier étage, Planche VII.Musée d’Histoire de la Justice, des Crimes et des Peines. Crimino Corpus.

Com a morte de Huyot, em 1840, substituíram-no os arquitectos Joseph-Louis Duc (1802-1879) e Étienne-Théodore Domey (1801-1872). Neste período entre 1838 e 1843, foi aberta a rua Constantine. (ver o cap. 3 da I Parte).

fr31fig. 54 - Aquarelle d'Armand de Polignac (1771-1847), où l'on voit dans la cour de Mai, les conjurés descendant d'une charette, escortés de gendarmes et s'engageant dans le couloir voûté donnant accès à la prison.

O Segundo Império

No Segundo Império (1852-1870), prosseguem as transformações do Palácio da Justiça, agora da responsabilidade de Joseph-Louis Duc (1802-1879), e que veremos na III Parte.

fr47fig. 55 - Louis-Auguste Bisson (1814-1876) et Auguste-Rosalie Bisson (1826-1900) Paris, panorama de la Seine, 1855/6. Albumina 34,5 x 49 cm. Museu d’Orsay.


No que se refere à frente nascente Duc projecta toda a fachada nascente do Tribunal Correctionel que a norte se prolonga para o Cais do Relógio, e a sul da Cour de Mai (a verde garrafa na imagem). Esta fachada que implicava a supressão da rua da Sainte-Chapelle, remataria num corpo pertencendo à Prefeitura da Polícia, projecto que não foi aprovado (a castanho). Realizar-se-ia em 1864

imagefig. 56 - Joseph-Louis Duc (1802-1879), Plan du projet de 1857 (Réalisé en partie). Deuxiéme étage. Musée d’Histoire de la Justice, des Crimes et des Peines. Crimino Corpus.

fr43fig. 57 – Charles Fichot , Le Palais de Justice dégagé in Paris Nouveau Illustré 1864-1872 , n.º 15, Journal périodique publié par l'Illustration impr. de E. Martinet (Paris).(pág. 249).

Mas o que significativamente se altera é a criação por Hoffmann do eixo sul-norte, que se designará por Boulevard Sebastopol na margem direita e Boulevard Saint Michel na margem esquerda, e na ilha da Cité, transformando a rua da Barillerie se chamará Boulevard du Palais, entre as reconstruídas pontes de Saint Michel e du Change.

No Boulevard du Palais, large, aéré, bordé de trottoirs magnifiques, il est digne du Palais, dont la façade splendide se déroule sur un de ces cotés, dans toute sa longueur, et ne fait pas regretter la rue étroite et sombre dont il a pris la place [3] é, construído em 1858 o Tribunal do Comércio, segundo um projecto de Antoine-Nicolas Bailly (1810-1892), junto ao qual se remodela o Mercado das Flores, e o edifício dos Bombeiros.

Na rua Constantine (que agora se chamará Lutèce) em frente à entrada principal do Palácio da Justiça é construída a Caserne de la Cité, depois Prefeitura da Polícia. (ver a I Parte).

fr39fig. 58 – Décembre-Alonnier, Les merveilles du Nouveau Paris, ouvrage orné de 100 magnifiques gravures. Bernadin-Béchet, Libraire-Éditeur, 31, Qua i des Grands-Augustins, Paris 1867. (pág.147).

fr42fig. 59 –Charles Fichot (1817-1903) Nouveau Tribunal de Commerce élevé au coin du quai aux fleurs et du boulevard Sebastopol in Paris Nouveau Illustré 1864-1872 Journal périodique publié par l'Illustration impr. de E. Martinet (Paris).(pág.53).

A entrada do Boulevard du Palais no Segundo Império, tendo à esquerda o Tribunal do Comércio e à direita o Palácio da Justiça.

fr35afig. 60 - Émile Théodore Thérond (1821-....).Nouveau Palais du Tribunal de Commerce de Paris, 18..photogravure ; 17,2 x 30,7 cm. Bibliothèque Sainte Geneviève / collection Guénebault.

fr49fig. 61 – A Ilha da Cité em 1867. Pormenor do Nouveau Plan de Paris et de son enceinte, Publié par Ledot, ainé, 174 rue de Rivoli et Ledot , jeune,168 rue de Rivoli1867.

O Palácio da Justiça, fica praticamente concluído em 1870, mas com a Comuna de Paris e o incêndio de 1871, sofre novas destruições.

Reconstruído, no fim do século XIX, a fachada ocupa practicamente todo o Boulevard du Palais e estão já consolidados os edifícios do Tribunal do Comércio e da Prefeitura da Polícia no lado nascente.

fr50fig. 62 - Alexandre Vuillemin (1812-1880),A Ilha da Cité no final do século XIX. Pormenor do Nouveau Plan de Paris, Librairie Hachette Cie, 79, Boulevard de Saint Germain, Paris 1892.

fr41fig. 63 – Gustave Fraipont (1849-1923), Le pont au Change et le Palais de Justice c.1890. In Charles-Lucien Huard (1839-1900?), Paris et ses Merveilles L. Boulanger, éditeur, 83 Rue de Rennes, Paris 1890.(pág. 121).


[1] Antoine-Marie Peyre, Palais de Justice Rapport a M. Le Comte de Chabrol, Conseller d’Etat, Préfet du Département de la Seine, sur les constructions et amélorations faites dans ce monumento pendant son administration. Impremerie de Mme Ve Agasse, Rue des Poitevins, Paris 1828.

[2] Projet général de restauration, d'agrandissement et d'isolement du Palais de justice. Impremerie de Mme Ve Agasse, Rue des Poitevins, Paris 1836.

[3] Paris Nouveau Illustré 1864-1872, n.012. Publié parMM. Aug. Marc et Ce. éditeurs de l'Illustration rue Richelieu, 60, Paris. (pág.192).

CONTINUA

fr51