Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Para o DIA DE REIS

 

Esboço de uma leitura do tema da Adoração dos Magos na pintura [1]

Salmo 72, 10

Os reis de Társis e das ilhas oferecerão tributos;
os reis de Sabá e de Seba trarão suas ofertas.

 

O tema da Adoração dos Magos aparece na cultura cristã, ligado à Natividade, baseado no Evangelho segundo S. Mateus (Mat. 2, 1-12).

«Viemos do Oriente adorar o Rei»
Tinha Jesus nascido em Belém da Judeia, nos dias do rei Herodes, quando chegaram a Jerusalém uns Magos vindos do Oriente.
«Onde está – perguntaram eles – o rei dos judeus que acaba de nascer? Nós vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-l’O». Ao ouvir tal notícia, o rei Herodes ficou perturbado e, com ele, toda a cidade de Jerusalém. Reuniu todos os príncipes dos sacerdotes e escribas do povo e perguntou-lhes onde devia nascer o Messias. Eles responderam: «Em Belém da Judeia, porque assim está escrito pelo Profeta: ‘Tu, Belém, terra de Judá, não és de modo nenhum a menor entre as principais cidades de Judá, pois de ti sairá um chefe, que será o Pastor de Israel, meu povo». Então Herodes mandou chamar secretamente os Magos e pediu-lhes informações precisas sobre o tempo em que lhes tinha aparecido a estrela. Depois enviou-os a Belém e disse-lhes: «Ide informar-vos cuidadosamente acerca do Menino; e, quando O encontrardes, avisai-me, para que também eu vá adorá-l’O».

Ouvido o rei, puseram-se a caminho. E eis que a estrela que tinham visto no Oriente seguia à sua frente e parou sobre o lugar onde estava o Menino. Ao ver a estrela, sentiram grande alegria. Entraram na casa, viram o Menino com Maria, sua Mãe, e, prostrando-se diante d’Ele, adoraram-n’O.

Depois, abrindo os seus tesouros, ofereceram-Lhe presentes: ouro, incenso e mirra.

E, avisados em sonhos para não voltarem à presença de Herodes, regressaram à sua terra por outro caminho.

Como a Bíblia não especifica o número dos Reis, mas como três eram os presentes, consolidou-se a ideia que os Magos eram três .

Os nomes de Gaspar, Melchior (ou Belchior) e Baltasar aparecem num manuscrito do século VI conservado na Biblioteca nacional de França, intitulado Excerta Latina Barbari (Excertos latinos de um bárbaro) como Bithisarea, Melichior e Gathaspa.

rm21x_thumb_thumbfig. 2 – Pormenores de Círculo de Gerard David, Adoração dos Magos 1495-1510. Óleo s/ Madeira de carvalho 186 x 93 cm. Museu de Évora.

Os três Magos representam as três idades do Homem simbolizando que, do nascimento até à morte, se deve adorar Jesus.

Representam ainda os três continentes, Europa, Ásia e África, conhecidos até ao século XV.

Embora varie, de um modo geral fixou-se que Melchior [2] o ancião (senex et canus, barba prolixa et capillis) que seria o rei dos Persas oferece o ouro símbolo da realeza de Cristo; Gaspar de meia-idade (fuscus, integre barbatus), rei da Índia oferece o incenso símbolo divino e Baltasar (juvenis imberbis, rubicundus), o jovem rei dos Árabes oferece a mirra símbolo da natureza humana de Jesus.

O Papa Leão Magno nos seus Sermões, consagra a natureza destes presentes.

Et pour donner des marques plus authentiques de leur foy, & de l'intelligence qu'ils avoient de ce mystere, ils font connoître les secrets mouvemens de leur coeur, par l'espece de leurs presens. Ils offrent de l'Encens à Jesus-Christ comme à un Dieu, de la Myrrhe comme à un homme, de l'Or comme à un Roi; persuadez qu'il faloit reconnoître la Nature Divine, avec l'Humaine réunies dans une seule personne, qui rassembloit les proprietez des deux Natures, sans les confondre. [3]

[E para manifestar a veracidade da sua fé, e da compreensão que tinham deste mistério, eles atestam pela qualidade dos seus presentes o que acreditam no coração. Oferecem Incenso a Jesus Cristo como a um Deus, a Mirra como a um homem, e o Ouro como a um Rei; persuadidos que era necessário reconhecer a Natureza Divina, com a Humana reunidas numa só pessoa, que juntasse as duas Naturezas sem as confundir.]

Assim os caracteriza Rubén Darío no poema Los três Reyes Magos:

-Yo soy Gaspar. Aquí traigo el incienso.
Vengo a decir: La vida es pura y bella.
Existe Dios. El amor es inmenso.
¡Todo lo sé por la divina Estrella!

-Yo soy Melchor. Mi mirra aroma todo.
Existe Dios. Él es la luz del día.
La blanca flor tiene sus pies en lodo.
¡Y en el placer hay la melancolía!

-Soy Baltasar. Traigo el oro. Aseguro
que existe Dios. Él es el grande y fuerte.
Todo lo sé por el lucero puro
que brilla en la diadema de la Muerte.

-Gaspar, Melchor y Baltasar, callaos.
Triunfa el amor y a su fiesta os convida.
¡Cristo resurge, hace la luz del caos
y tiene la corona de la Vida!
[4]


[1] Nota inicial - Existe uma extensa bibliografia sobre o tema dos Reis Magos e sobre a sua iconografia. Este texto, como aliás todos os deste blogue não pretende mais do que apontar algumas considerações pessoais, a pretexto do Dia de Reis.

[2] Por vezes é Gaspar que aparece como o mais velho dos Reis Magos. No entanto é esta hierarquia que iremos utilizar, assinalando quando ela é alterada. Tambémvariam os presentes atribuídos a cada um dos Reis Magos.

[3] Leon le Grand (Papa entre 440 e 461), Sermon XXX. Pour la Feste de l'Epiphanie de N. Sauveur Jesus-Christ. I. in Sermons de S. Leon Pape surnommé Le Grand. Traduits sur l’Édition latine du Reverend Père Quesnel, Prêtre de l’Oratoire. A Paris, Chez André Pralard, ruë Saint Jacques, à l’Occasion. M. DC. XCVIII. (pág. 175).

[4] Ruben Darío (1867-1916) Cantos de vida y esperanza 1905.

 

As pinturas

A Adoração dos Magos ou dos Reis Magos [1], tornou-se um tema muito popular entre o século XV e o século XVI razão porque existe um considerável número de obras que tratam o tema.

De entre essas muitas representações da Adoração dos Reis Magos, escolhi apenas a pintura (e os mosaicos) deixando de lado a escultura, e apenas escolhi quer algumas por gosto pessoal, quer outras que penso melhor traduzirem a evolução da iconografia associada ao dia de Reis, prestando uma particular atenção para as que se podem observar em Portugal.

Sobre o tema da Adoração dos Magos, que atravessa toda a História de Arte ocidental, seria necessário analisar cada uma das obras sob um conjunto de variáveis: a geometria, o espaço e o lugar da Adoração; a posição e a figuração da Estrela; a evolução da arquitectura do estábulo (raramente aparece a gruta) e dos edifícios representados; Maria e o Menino, S. José e as personagens que figuram nas obras e as suas posições; as características de cada um dos Reis; os presentes que oferecem ao Menino e os séquitos e os animais que acompanham os Magos, etc.

O tema da Adoração dos Magos aparece cedo na pintura, mas só a partir do século XV se torna autónomo e um dos temas mais populares da iconografia cristã.

Por isso apresentamos, em breve, a pintura até ao século XII.


[1] Terá sido o escritor Tertuliano (sé. II-séc.III) que baseando-se no Salmo que inicia este texto, e em Isaías (60.3) quem conferiu aos Magos o título de Reis, e sobretudo, dado o caracter pejorativo e diabólico, que a partir do século X tinham os magos ou bruxos, passou a referir-se a vinda dos Reis do oriente, conferindo a Jesus o título de Reis dos Reis.

 

Na Arte Paleocristã

Na arte paleocristã, os três Reis Magos surgem representados em frescos das catacumbas de Roma.

O número dos Reis Magos não está ainda fixado, e assim nas Catacumbas de Santa Domitila do século III, estão representados quatro Reis Magos e nas Catacumbas dos Santos Pedro e Marcelino, estas do século IV, apenas figuram dois Reis Magos.

rm00_thumb3_thumbfig. 3 - Os Reis Magos nas catacumbas de Santa Domitila, Roma séc. III, e nas catacumbas dos Santos Pedro e Marcelino, Roma, séc. IV.

Só nas Catacumbas de Santa Priscila, também do século III figuram os três Reis Magos.

rm10_thumb2_thumbfig. 4 - Catacumba de Santa Priscila séc. III Capela Grega Roma.

Os Reis Magos Na Arte Bizantina

Na arte bizantina encontramos um mosaico da igreja de Santo Apolinário em Ravena que representa os Reis Magos dirigindo-se para Maria e o Menino. Nestas primeiras representações Jesus está vestido, ao colo de sua Mãe. Esta figuração do Menino vestido apenas será retomada no século XV.

rm11a_thumb2_thumbfig. 5 - Mosaico c. 550 na igreja de Santo Apolinário em Ravena, Itália.

Aqui aparecem, pela primeira vez, os Reis Magos identificados pelos respectivos nomes: Balthassar, Melchior e Gaspar. Caminham em fila como na catacumba de Santa Priscila.

Neste mosaico os Reis Magos não correspondem à nomenclatura tradicional.

Gaspar é neste caso o mais velho, farto cabelo e barba branca, segura uma taça cheia de ouro; Melchior, entre os dois o mais novo e imberbe carregando um incensório e Baltasar o de meia-idade, barba e cabelo escuro, transportando uma taça coberta contendo certamente a mirra.

Têm na cabeça uns barretes frígios dos astrólogos e não coroas.

rm11_thumb2_thumbfig. 6 - Os Três Reis Magos. Pormenor do Mosaico da igreja de Santo Apolinário, c.550. Ravena , Itália.

 

Séculos XII e XIII

No século XII, Bernard de Clairvaux (1090-1153), nos seus sermões para a Epifania, começa por questionar o que viram os Reis quando chegam ao estábulo, para depois reafirmar a natureza e o significado dos presentes.

5 Alors, dit l'Evangéliste « Ils ouvrent leurs trésors et ils lui offrent en présents, de l'or, de l'encens et de la myrrhe. S'ils ne lui avaient offert que de l'or, peut-être auraient-ils paru avoir eu la pensée de venir en aide à la pauvreté de la mère, et lui donner les moyens d'élever son enfant.

Mais comme ils lui offrent en même temps de l'or, de l'encens et de là myrrhe, il est évident que leurs offrandes ont un sens spirituel. [1]

[5 Então, diz o Evangelista “Eles abrem os tesouros e oferecem como presentes o ouro, o incenso e a mirra.” Se eles apenas lhe tivessem oferecido ouro, talvez tivessem pensado em ajudar a pobre mãe, dando-lhe os meios para criar a sua criança. Mas como lhe ofereceram, simultaneamente, ouro, incenso e mirra, torna-se evidente o sentido espiritual destas oferendas.]

Jorge Guillén, de uma maneira poética, afirma a humanidade e a humildade de Cristo no seu poema Epifania:

Llegan al portal los mayores,
Melchor, Gaspar y Baltasar.
Se inclinan con sus esplendores
y al Niño adoran sin cantar.
Dios no es rey ni parece rey,
Dios no es suntuoso ni rico.

Dios lleva en sí la humana grey
y todo su inmenso acerico.
El cielo estrellado gravita
sobre Belén, y ese portal
a todos los hombres da cita
por invitación fraternal.
Dios está de nueva manera,
y viene a familia de obrero,
sindicato de la madera,
el humilde es el verdadero.
Junto al borrico, junto al buey
la criatura desvalida
dice en silencio: No soy rey,
soy camino, verdad y vida
.  [2]

Já do século XII, mas ainda influenciada pela arte bizantina, um mosaico da Capela Palatina de Palermo.

Ao alto um grande disco representa a Estrela de que um raio desce sobre Jesus.

Ao centro a Virgem com o Menino. Este está envolto em ligaduras, uma representação que será frequente e que representa a mortalha.

Na lapinha de Belém
'Stá o menino deitado
Rodeado dos pastores
Pelos três Reis adorado.
[3]

rm36_thumb2_thumbfig. 7 - Mestre do Palácio Normando Natividade 1150 Mosaico Capela Palatina Palermo.

 

Em baixo Zelomi e Salomé, as parteiras segundo o Pseudo-Mateus, dão o banho a Jesus, numa alusão ao baptismo e às pias baptismais. 

rm36c_thumb2_thumbfig. 8 – Pormenor da fig. 7.

Os três Reis Magos, com rostos que definem as três idades, cavalgam apontando a Estrela.

 

rm36a_thumb2_thumbfig. 9 – Pormenor da fig.7.

Como os Reis Magos viram uma Estrela que os guiou, nas palavras de Sophia de Mello Breiner Andersen:

Gaspar

Primeiro pareceu a Gaspar que a estrela era uma palavra, uma palavra de repente dita na muda atenção do céu.
Mas depois o seu olhar habituou-se ao novo brilho e ele viu que era uma estrela, uma nova estrela, semelhante às outras, mas um pouco mais próxima e mais clara e que, muito devagar, deslizava para o Ocidente.
E foi para seguir essa estrela que Gaspar abandonou o seu palácio.

Melchior

… Nessa noite, depois de a Lua ter desaparecido atrás das montanhas, Melchior subiu ao terraço e viu que havia no céu, a Oriente, uma nova estrela.

A cidade dormia, escura e silenciosa, enrolada em ruelas e confusas escadas. Na grande avenida dos templos já ninguém caminhava. Só de longe em longe se ouvia, vindo das muralhas, o grito de ronda dos soldados.
E sobre o mundo do sono, sobre a sombra intrincada dos sonhos onde os homens se perdiam tacteando, como num labirinto espesso, húmido e movediço, a estrela acendia, jovem, trémula e deslumbrada, a sua alegria
.
E Melchior deixou o seu palácio nessa noite.

Baltazar

…A estrela ergueu-se muito devagar sobre o Céu, a Oriente.
O seu movimento era quase imperceptível. Parecia estar muito perto da terra. Deslizava em silêncio, sem que nem uma folha se agitasse. Vinha desde sempre. Mostrava a alegria, a alegria una, sem falha, o vestido sem costura da alegria, a substância imortal da alegria.
E Baltasar reconheceu-a logo, porque ela não podia ser de outra maneira.
[4]

Numa iluminura do século XIII surgem duas representações dos Reis Magos, lembrando a viagem e a adoração.

rm12_thumb2_thumbfig. 10 - Evangelistar von Speyer, um 1220, Codex Bruchsal 1, Bl. 11r c.1220, Manuscript in the Badische Landesbibliothek, Karlsruhe, Germany.

Curiosamente em baixo da página, num espaço que se quer profano, os Reis cavalgam em direcção a Belém seguindo a Estrela que aparece no cimo da página.

rm12b_thumb2_thumbfig. 11 – Pormenor da parte inferior da iluminura da fig.10.

 

Melchor Primero, Baltasar Primero,

Gaspar Primero son los reyes únicos,

Más reales que todo otro monarca.

En su guía convierten a una estrella,

Se postran ante lo desconocido,

Ya con fe en la gran Equis del futuro,

Varones de esperanza.

Vamos, vamos. [5]

Na figura superior, num espaço sagrado, os Reis Magos coroados apresentam em bandejas iguais as oferendas, diante do Menino e de Maria, numa posição que se tornará canónica: o mais velho ajoelha enquanto os outros dois esperam a sua vez. O mais novo, Baltazar, aparece em segundo lugar.

rm12a_thumb2_thumbfig. 12 - Pormenor da parte superior da fig.10.

Pietro Cavallini (1250-1330)

Na Basílica de Santa Maria in Trastevere, reconstruída e ampliada entre 1140 e 1143, a cabeceira é decorada com um conjunto de mosaicos de Pietro Cavallini (1250-1330), do século XIII, e um deles representa a Adoração dos Reis Magos.

Maria com o Menino nos braços, está sentada tendo S. José por trás. Estão protegidos por uma construção estreita, que nada tem a ver com o estábulo tradicional. Na parte superior a Estrela, e numa elevação uma cidade (Jerusalém ou Belém) cinturada por uma muralha e uma oliveira.

rm32_thumb2_thumbfig. 13 - Pietro Cavallini (1250 – 1330), o Romano Adoração dos Magos mosaico na cabeceira da Basílica de Santa Maria in Trastevere.

Os Magos oferecem os seus presentes. O Rei mais idoso está já ajoelhado, enquanto os outros dois se inclinam para ajoelhar-se de seguida.

rm32a_thumb2_thumbfig. 14 – Pormenor da fig. 13.

 


[1] Bernard de Clairvaux (1090-1153), Troisième Sermon pour le jour de l’Épiphanie de Notre Seigneur , Œuvres Complètes de Saint Bernard , traduction nouvelle par M. L’Abbé Charpentier, Librairie Louis Vivès, éditeur, 9, Rue Delambre Paris 1866. Tome III, in

http://www.abbaye-saint-benoit.ch/saints/bernard/tome03/homtemps/noel/epiphanie003.htm

[2][2] Jorge Guillén (1893-1984) Epifania in Jorge Guillen para Ninõs. Edicion preparada por Antonio A. Gomez Yebra e ilustrada por John Rosenfeld, Ediciones de la Torre Alba Y Mayo, Madrid 1984. (pág.72).

[3] Pedro Fernandes Thomaz Canção popular da Estremadura Cantares do Povo F. França Amado Editor, Typographla França Amador rua Ferreira Borges, 1o3 a 111, Coimbra.

[4] Sophia de Mello Breiner Andersen (1919-2004), Os Três Reis do Oriente, Porto Editora, 2013.

[5] Jorge Guillén (1893-1984) Belén de Y Otros Poemas 1973 in Jorge Guillen para Ninõs. Edicion preparada por Antonio A. Gomez Yebra e ilustrada por John Rosenfeld, Ediciones de la Torre Alba Y Mayo, Madrid 1984.

 

Século XIV e XV

Jacopino di Francesco (activo na 1ª metade do século XIV)

rm1_thumb2_thumbfig. 15 - Jacopino di Francesco (activo na 1ª metade do século XIV) Adoração dos reis Magos 1325-30 ouro e têmpera sobre madeira 52,7 x 80,3 North Carolina Museum of Art Raleigh.

Na pintura de Jacopino di Francesco, com uma composição caracterizada por um espaço sem profundidade, num fundo dourado está representado um estábulo com uma arquitectura que se estrutura por quatro pilares e uma cobertura de duas águas. Junto a este abrigo duas figurações de Maria. O nascimento de Jesus à esquerda e a adoração dos Reis à direita.

Estes são figurados na posição que se tornou canónica. Melchior o ancião, ajoelhado e com a coroa pousada a seu lado, oferece o ouro. Gaspar e Baltazar de pé com as suas respectivas oferendas. Os Reis Magos, vestidos com longas vestes estão coroados mas não exibem a auréola da santidade.

Giovanni Baronzio (activo na 1ª metade do século XIV, até c.1362)

rm2_thumb2_thumbfig. 16 - Giovanni Baronzio (activo na 1ª metade do século XIV- c.1362) Natividade e Adoração dos Magos c.1325, ouro e têmpera sobre madeira 45,5 x 27,8, Courtauld Institute Londres.

A pintura de Baronzio, com as características medievais assinaladas para a pintura anterior, divide-se agora em duas partes.

Na parte superior, à esquerda, o estábulo, para onde Maria levou Jesus após o nascimento, com uma cobertura de quatro águas. Na gruta estão agora o burro e a vaca lembrando Isaías (1, 3.):

O boi conhece o seu dono,
e o jumento, o estábulo do seu senhor;

Na parte superior os anjos que conduziram os pastores.


rm2a_thumb2_thumbfig. 17 - Pormenor da parte superior da fig. 16 .

Os Reis Magos, nessa posição que se torna habitual e são associados às três idades do Homem.

Assim Melchior ajoelhado perante Maria e com a coroa pousada ao seu lado, oferece ao Menino, que aparece agora despido, um objecto de ouro. É o mais velho como se pode constatar pela barba e cabelos brancos.

Gaspar um homem de meia-idade, figura de pé com barba e cabelos escuros, trazendo o incenso.

Baltazar, o mais novo e ainda imberbe, segura um corno decorado onde traz a mirra.

Todas as figuras estão aureoladas, menos os dois pastores que descem da montanha para adorar o Menino.

Na parte inferior, sob o olhar vigilante de S. José, as duas aias Zelomi e Salomé, dão o banho ao Menino, que como já se referiu é uma alusão ao baptismo.

À direita dois pajens ocupam-se dos cavalos reais.

rm2b_thumb2_thumbfig. 18 - Pormenor da parte inferior da fig. 16.

 

Nos finais do século XIII, surge um manuscrito Meditationes de Vita Christi (Meditações da Vida de Cristo), atribuído a São Boaventura, mas que se mostrou ser de um autor anónimo (Giovanni de Caulibus?) conhecido por isso por Pseudo-Boaventura. Este manuscrito de grande difusão, terá importância na iconografia da Adoração, e nele entre outras referências diz-se que os Magos: Então beijaram os pés do menino Jesus, com reverência e devoção, o que aparecerá em muitas outras imagens.

rm35_thumb2_thumbfig. 19 - Pseudo-Bonaventure, traduzido por Jean Galopes dit le Galoys Meditationes vitae Christi (Le Livre doré des meditations de la vie de nostre seigneur Jesu Christ) c. 1420, before 1422 (f. 24). The British Library.

 

Giotto di Bordonni (1267-1337)

As Meditationes de Vita Christi do Pseudo-Boaventura, terão seguramente influenciado a pintura de Giotto. [1]

rm3_thumb2_thumbfig. 20 - Giotto de Bordonni A Adoração dos Magos, (1304-06) fresco, 200 x 185 cm.; Cappella Scrovegni, Pádua. Itália.

No fresco de Giotto, apesar de datado do início do século XIV, mantém-se a arquitectura do estábulo (estrutura de madeira e cobertura de duas águas apoiada em quatro pilares).

No entanto alteram-se as posições dos Reis, agora à esquerda.

No alto aparece a estrela-cometa que conduziu os Reis Magos.

Surge uma outra personagem, o condutor dos camelos, animais que sugerem a proveniência dos Reis Magos. Todas as personagens estão aureoladas excepto o pajem que conduz os camelos.

Sob o alpendre está Maria, ladeada por José e pelo Anjo que terá guiado os Reis Magos até ao Menino.

Maria está vestida de vermelho com bordados de ouro e um manto azul.

O rei mais velho (Melchior), com a coroa pousada a seu lado, ajoelha em adoração e reverência, e beija agora os pés do Menino, que com Giotto volta a figurar vestido e com uma capa.

Chegam os Magos. De joelho,
Cheios de unção e de amor,
Beijam o pesinho vermelho
Do pequenino Senhor.

Trazem-lhe mesmo um tesouro
Lembrando glória e tormento:
Caçoulas de incenso e ouro
É a mirra do sofrimento.
[2]

rm3b_thumb2_thumbfig. 21 – Pormenor da fig.20.

Aqui um Anjo, que figura nas Adoração dos Pastores, mas muito raramente nas Adorações dos Magos. O Anjo está à direita e segura o relicário de ouro que o rei oferece.

rm3c_thumb2_thumbfig. 22 - Pormenor da fig.20.

Os outros dois reis, de pé, seguram as suas oferendas.

O rei de idade madura (Baltazar) segura um dente de elefante (lembrando a nobreza e o valor do marfim) cheio de incenso e o mais novo (Gaspar) abre uma taça, também de marfim, cheia de mirra.

rm3d_thumb2_thumbfig. 23 - Pormenor da fig.20.

Todas as personagens se olham com naturalidade, e só o pajem ocupando-se dos camelos, que substituem os cavalos,  parece desinteressar-se da cena.

rm3e_thumb2_thumbfig. 24 - Pormenor da fig.20.


[1] Ver Raimond Van Marle (Valentin Raimond Silvain). Recherches sur l'iconographie de Giotto et de Duccio, par Raimond Van Marle, J. H. Ed. Heitz,Strasbourg 1920.

[2] Auta de Souza (1876-1901), in Horto 1ª edição 1900, prefácio de Olavo Bilac. 2ª edição, com ilustrações de D. Widhopff. Paris 1910.

 

No século XV

Gentile da Fabiano (c. 1370-1427)

rm6_thumb3_thumbfig. 25 - Gentile da Fabriano Adorazione dei Magi (or Pala Strozzi) 1423 têmpera, prata e ouro sobre madeira 203x282 cm. Galeria dos Uffizi Florença.

Nesta belíssima obra gótica de Gentile da Fabriano (c. 1370-1427), encomendada pelo banqueiro Palla Strozzi para a capela da família na igreja de Santa Trinità em Florença, aparece representado todo um cortejo que acompanha os Reis Magos.

Do retábulo ressalta o tom dourado da moldura do céu, dos trajes das personagens e dos diferentes objectos representados.

De facto na Idade Média a luz era a presença divina e o ouro a forma de a fazer brilhar.

Enquadrada por uma moldura do gótico tardio, dois pilares laterais com folhas e flores sustêm três arcos de volta inteira encimados por elaborados frontões. No da esquerda está representado o arcanjo Gabriel com os profetas Ezequiel e Micaías.

rm6a_thumb2_thumbfig. 26 - Pormenor da fig. 25.

Ao centro Jesus com Moisés e David.

rm6b_thumb2_thumbfig. 27 - Pormenor da fig. 25.

À direita Maria (uma Anunciação) com Baruque e Isaías.

rm6c_thumb2_thumbfig. 28 - Pormenor da fig. 25.

Na base do retábulo três pinturas que narram a infância de Jesus: à esquerda o Nascimento, ao centro a Fuga para o Egipto e à direita a Apresentação no Templo.

Note-se a introdução renascentista do céu azul em vez do tradicional céu dourado que aliás é ainda utlizado na pintura central.

Por cima na moldura está escrito OPVS GENTILIS DE FABRIANO / MCCCCXXIII MENSIS MAIJ (obra de Gentile da Fabriano, 1423, mês de Maio).

rm6d_thumb2_thumbfig. 29 - Pormenor da fig. 25.

No centro do retábulo o tema principal, representa o caminho percorrido pelos três Reis Magos seguindo a estrela-cometa, até ao estábulo em Belém onde nasceu Jesus.

A pintura deve ser lida como um percurso dos três Reis Magos, numa peregrinação que serpenteia por toda composição, desde o canto superior esquerdo onde se reúnem até ao estábulo onde se encontra o Menino.

rm6e_thumb5_thumbfig. 30 – A pintura central do retábulo. Pormenor da fig. 25.

Sob o arco da esquerda os reis Magos com vestes douradas, seguem um raio que lhes indica a estrela-cometa.

Diz a Sagrada Escritura
Que, quando Jesus nasceu,
No céu, fulgurante e pura,
Uma estrela apareceu.

Estrela nova … Brilhava
Mais do que as outras; porém
Caminhava, caminhava
Para os lados de Belém.

Avistando-a, os três Reis Magos
Disseram: “Nasceu Jesus!”
[1]

Estão no cume de um monte tendo por trás um porto com algumas embarcações junto a uma cidade muralhada.

rm6f_thumb2_thumbfig. 31 - Pormenor da fig.30.


Cheios de assombro à janella,
mudos ficam os seus lábios!
De pé olhando uma estrella,
velam noites os reis sábios..[2]

Abraçam a esposa amada.
Dão as chaves aos herdeiros.
Mandam vir seus escudeiros,

Os seus bordões de jornada.

Despejam os seus erários,
cheios de alvoroço immenso.
Carregam seus dromedários,
d’ouro, de mirra, de incenso.
[3]

O cortejo dirige-se para a direita para Belém no alto e no centro do segundo arco, e rodeada por campos cultivados, bosques, uma quinta, vacas e lenha.

Os três Magos no centro do cortejo, parecem elegantes aristocratas numa caçada.

rm6g_thumb2_thumbfig. 32 - Pormenor da fig.30.

Passam rios e cidades
cheias de estátuas guerreiras,
palácios, campos, herdades,
cisternas sob as palmeiras.

Passam collinas, rebanhos,
campos de louras searas,
quando a lua faz desenhos
no chão das estradas claras.
[4]

No arco da direita os Reis entram em Belém por uma porta com uma ponte levadiça.

rm6h_thumb2_thumbfig. 33 - Pormenor da fig.30.

Chegados a Belém a cena central descreve a Adoração.

rm6i_thumb2_thumbfig. 34 - Pormenor da fig.30.

O cortejo guiado pela estrela chega a uma construção algo arruinada (simbolizando a decadência do mundo anterior a Cristo), onde está adossado um alpendre sob o qual Maria vestida de azul, está sentada com o Menino que passa agora a figurar despido, que José ao seu lado esquerdo olha enternecido.

Numa pequena gruta (segundo alguns textos seria numa gruta que Jesus teria nascido e só depois levado para o estábulo) estão o burro e a vaca, os animais do presépio.

Os Reis Magos, com auréola, estão ricamente vestidos, com brocados pespontados a ouro.
Melchior, o ancião, com a coroa pousada junto do Menino ajoelha para receber a bênção.

Rojam as barbas nevadas
Sobre o Deus que adormecera.
Com as mãozinhas rosadas
Da Mãe nos seios de cera. [5]

O seu presente está já na mão de duas jovens que por trás de Maria o apreciam.

rm6j_thumb2_thumbfig. 35 - Pormenor da fig.34.

 

Seus olhos sentem assombros
e nadam cheios de choro.
- Rasgam seus mantos de ombros.
- Dão-lhe myrra, incenso e ouro. [6]

rm6k_thumb2_thumbfig. 36 - Pormenor da fig.34.

Gaspar está prestes a ajoelhar e a tirar a coroa com a mão direita, enquanto na esquerda segura o incensório.

rm6l_thumb2_thumbfig. 37 - Pormenor da fig.34.

Baltazar, o mais novo, tendo há instantes desmontado do seu cavalo, já que um pajem lhe retira as esporas, olha para o Menino segurando na mão direita o recipiente de ouro em que traz a mirra.

rm6m_thumb2_thumbfig. 38 - Pormenor da fig.34.

Por trás dos Reis Magos um enorme cortejo de acompanhantes.

rm6n_thumb2_thumbfig. 39 - Pormenor da fig.34.

No primeiro plano do cortejo junto a Baltazar, o homem com um falcão na mão, com um traje adamascado e de turbante é o doador Palla di Nofri Strozzi (1373-1462) [7] , tendo à sua direita, com um chapéu de pelo vermelho e olhando para o espectador o que se supõe ser o seu filho Lourenço.

No século XV e XVI era frequente os doadores, ou os que encomendavam as obras, nela se fazerem representar, e por vezes assumindo mesmo a figura de personagens bíblicas.

(Ver neste blogue Dia de Reis de 6 de Janeiro de 2015, http://doportoenaoso.blogspot.pt/2015/01/dia-de-reis.html)

rm6o_thumb2_thumbfig. 40 - Pormenor da fig.34.

Ainda no primeiro plano, do lado direito, um pajem segura na mão direita a espada e na esquerda as rédeas do cavalo provavelmente de Baltazar. Ao seu lado e de costas um outro cavalo que pela riqueza do seu aparelhamento seria o de Gaspar e ainda mais à direita a cabeça de um terceiro cavalo que seria o de Melchior.

Junto às patas destes cavalos um cão ornamentado com uma preciosa coleira de ouro (veja-se no arco da esquerda um soldado conduzindo o mesmo ou um cão semelhante).

rm6p_thumb5_thumbfig. 41 - Pormenor da fig.34.

Por trás o cortejo composto por um conjunto de personagens ricamente vestidas e por diversos animais. Para além dos cavalos (são sete ao todo), dois leopardos: um entre os cavalos e outro na perpendicular por detrás, um dromedário, dois macacos, um outro falcão voando e diversos pássaros.

rm6q_thumb2_thumbfig. 42 - Pormenor da fig.34.

rm6r_thumb2_thumbfig. 43 - Pormenor da fig. 34.


[1] Olavo Bilac, Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac (1865-1918 ), Os Reis Magos in Poesias infantis Rio de Janeiro, Livraria Francisco Alves: 1949, 17ª edição.

[2] António Duarte Gomes Leal (1848-1921) Os Reis Magos in História de Jesus para as criancinhas lerem, Santos Valente & Faro, Editores, Rua Oriental do Passeio, 8 a 20, Lisboa 1883 (pág. 21 a 25).

[3] idem

[4] ibidem

[5] António Duarte Gomes Leal (1848-1921) Os Reis Magos in História de Jesus para as criancinhas lerem, Santos Valente & Faro, Editores, Rua Oriental do Passeio, 8 a 20, Lisboa 1883 (pág. 21 a 25).

[6] Idem.

[7] Palla di Nofri Strozzi (1373-1462) durante 60 anos foi um protagonista e político de Florença. Expulso em 1434 estabeleceu-se em Pádua. Doou ao convento de S. Giustina di Padova a sua colecção de códigos e manuscritos.

 

A pintura flamenga do século XV

Rogier van der Weyden (c.1399–1464)

rm7_thumb2_thumbfig. 44 - Rogier van der Weyden (c.1399–1464) e oficina Anunciação, Adoração dos Magos e Apresentação no Templo, Retábulo de Sainte-Colombe c. 1455, óleo s/ madeira Alte Pinakothek. Munique.(inicialmente na igreja de Sainte-Colombe Colónia).

O tríptico conhecido como Triptyque Sainte-Colombe, do nome da igreja de Santa Colombe em Colónia, contém três episódios da vida de Maria e do nascimento de Jesus.

No painel da esquerda a Anunciação; no painel da direita a Apresentação do Menino.

No painel central a Adoração dos Reis Magos. Estes são aliás os padroeiros da cidade de Colónia onde, segundo a tradição, se encontram sepultados.

Todo o painel parece obedecer a uma lógica oculta de iniciação.

rm7a_thumb2_thumbfig. 45 – O painel central com a Adoração dos Magos.Pormenor da fig. 44.

De notar o aparente anacronismo do crucifixo no pilar central do estábulo. A gruta agora desaparece.

À esquerda do painel central apoiado num murete e ajoelhado por trás de S. José, o retrato de Johann Dasse, cuja viúva após a sua morte, teria encomendado o retábulo.

São José, que se pensa ser um autoretrato do próprio Van der Weyden, está no último degrau de uma pequena escada que leva ao estábulo onde está a Virgem, aureolada e trajando o tradicional azul, com o Menino.

rm7b_thumb2_thumbfig. 46 - Pormenor da fig. 45.

Os Reis Magos.

rm7d_thumb2_thumbfig. 47 - Pormenor da fig. 45.

O Rei Mago mais velho, Melchior, ajoelhado inclina-se para beijar os pés do Menino. O seu chapéu, cintado por uma delicada coroa, está pousado a seu lado.

O seu presente está colocado numa banqueta triangular e de três pés, que se encontra junto à Virgem.

Gaspar, o segundo Rei Mago, prepara-se para ajoelhar (note-se a posição da perna esquerda) e entregar o seu presente que segura com ambas as mãos.

rm7e_thumb2_thumbfig. 48 – Pormenor da fig.45.

O Rei Mago Baltasar, à direita, trajando de vermelho, com um cão de caça a seus pés, e que aparece levantando o chapéu com a mão direita numa saudação, seria Charles le Téméraire (1433-1477), Duque da Borgonha. [1]

rm7y_thumb2_thumbfig. 49 - Rogier van der Weyden Pormenores da fig. 45. Também de Rogier van der Weiden à direita Retrato de Charles le Téméraire 1462 com o Toison d’Or. Óleo sobre madeira 49 x 32 cm. Gemäldegalerie Berlim.

O estábulo é uma ruína de um edifício em pedra onde uma estrutura de arcos de volta inteira suporta uma cobertura de madeira e colmo.

rm7a_thumb5_thumbfig. 50 – O painel central do tríptico.

No canto superior esquerdo “espreita” a estrela que guiou os Magos.

rm7k_thumb2_thumbfig. 51 - Pormenor da fig.50.

Por trás do estábulo uma paisagem urbana.

rm7m_thumb2_thumbfig. 52 - Pormenor da fig.50.

A cidade com uma arquitectura de características flamengas simboliza a cidade de Belém.

rm7n_thumb2_thumbfig. 53 - Pormenor da fig.50.

 

Um retábulo de Rogier van der Weyden 

rm15_thumb2_thumbfig. 54 - Oficina de Rogier van der Weyden (c.1399–1464) Natividade c. 1450, têmpera e óleo sobre madeira 151,8 x 274,3 x 49,5 cm. The Metropolitan Museum of Art.

Neste outro retábulo de Rogier van der Weyden, no painel central da Natividade, a composição é agora totalmente diferente. Na parte esquerda da imagem o estábulo, agora uma construção em perfeitas condições, protege Maria que contempla o Menino deitado numa ponta do seu manto, tendo por trás S. José. Ambos parecem ignorar a presença dos Reis Magos.

 

rm15a_thumb2_thumbfig. 55 – Pormenor da fig.54.

 

 

Na parte direita estão figurados os Reis Magos, agora os três ajoelhados.

São os Reis Magos felizes,
joelho assente na terra,…
[2]

Contemplam, não o Menino recém-nascido, mas a sua imagem que surge numa auréola no lugar da estrela, segurando uma longa fita na mão esquerda

rm15b_thumb2_thumbfig. 56 – Pormenor da fig.54.

Ao fundo, uma paisagem pontuada de castelos, onde num curso de água os Reis se vão baptizando. O rei mais velho está já despido e na água, enquanto os outros dois se despem.

rm15d_thumb2_thumbfig. 57 - Pormenor da fig.54.


[1] Charle Le Téméraire era filho de Filipe o Bom (1396-1467) e de Isabel de Portugal (1397-1472), filha de D. João I.

[2] José Jorge Letria, O Livro do Natal ilustrado por Afonso Cruz. Oficina do Livro 2008.

São os Reis Magos felizes,
joelho assente na terra,
com um voto e uma prece:
“Menino, põe fim à guerra.”
Gaspar, Baltazar e Belchior
pedem à estrela brilhante:
“Dá nome a este menino
antes que o galo cante.”
Viemos aqui nesta noite
com um desejo profundo:
queremos ver o menino
que vem dar esperança ao mundo.

 

Do gótico ao Renascimento

Duas imagens francesas de Jean Bourdichon (1457–1521)

No Livro de Horas de Luís XII, uma representação da Adoração dos Magos. Num estábulo de madeira de que se vê apenas um dos cantos, os três Reis Magos oferecem os seus presentes ao Menino colocado ao colo de sua Mãe. S. José figura por trás da Virgem.

rm17_thumb2_thumbfig. 58 - Jean Bourdichon (1457–1521) L’Adoration des Mages miniature extraite des anciennes Heures de Louis XII, aujourd'hui dispersées. Enluminure sur parchemin, rehauts d'or et or au pinceau. Au bas de l'encadrement, début de sexte des heures de la Vierge : Deus. I[n] adjutoriu[m] . meu[m]i[n]tende . D[omi]ne . ad adjuvandu[m]. me. [festina]. 24,1x 17 cm. Museu do Louvre.

E de Jean Bourdichon uma outra iluminura, esta do Horae ad usum Parisiensem.

Em outra imagem dos Reis Magos e da Virgem com o Menino,algo semelhante, onde não aparece S. José, os Reis, agora ricamente vestidos, estão acompanhados por um numeroso séquito.

rm17a_thumb2_thumbfig. 59 - Jean Bourdichon (1457 ou1459 - 1521) Horae ad usum Parisiensem. 1475-1500.

 

 

Sandro Botticelli (1445-1510)

Botticelli retoma, na Adoração dos Magos, a composição com o Presépio visto de frente, utilizando a perspectiva central, e colocando ao centro a Virgem e o Menino e em cada um dos lados as outras personagens.

rm44_thumb2_thumbfig. 60 - Sandro Botticelli Adoração dos Magos 1475 têmpera sobre madeira 111 x 134 cm. Galleria Uffizi Florença.

O quadro divide-se em duas partes com a colocação da figura de Maria rigorosamente ao centro. Duas das personagens, à direita e à esquerda, definem um triângulo que orienta, subtilmente, o olhar para a figura de Maria.

rm44y_thumb7_thumbfig. 61 – Esquema compositivo.

No centro da composição uma arruinada construção, com uma mal sustentada e improvisada cobertura de madeira. Junto a essa construção estão umas ruínas da Antiguidade, simbolizando o paganismo derrotado pelo nascimento de Cristo.

A Virgem num degrau mais alto do que seria o estábulo, trajando o tradicional vestido vermelho e uma capa azul, dá os pés do Menino, despido e iluminado pelos raios que vêm do alto, a beijar ao mais velho dos Reis Magos, tem sido referenciado, desde Vasari como um retrato de Cosimo di Giovanni de’ Medici (1389-1464).

Por trás, um São José pensativo ou adormecido, a cabeça apoiada no seu braço direito.

rm44c_thumb2_thumbfig. 62 – pormenor da fig.60.

Não figuram a vaca e o burro, os animais tradicionais do estábulo mas, na parede em ruínas do lado direito da composição, está pousado um pavão, símbolo da imortalidade.

rm44x_thumb2_thumbfig. 63 – O Pavão. Pormenor de fig.60.

Os outros dois Reis Magos, de costas e de cabeça descoberta, os presentes já pousados no degrau, entreolham-se como a discutir qual deve ser o próximo na oferta do seu presente.

À esquerda, de vermelho, o Rei Mago, tem sido apontado como Piero di Cosimo de’Medici (1416-1469) dito o Gottoso (com a gota), filho de Cosimo.

E o Rei Mago à direita, de branco, seria o irmão mais novo de Piero, Giovanni di Cosimo de' Medici (1421-1463).

rm44d_thumb2_thumbfig. 64 – Os Reis Magos. Pormenor da fig.60.

Em cada um dos lados da pintura um grupo de personagens, algumas das quais, com dúvidas, tem sido identificadas.

No grupo à esquerda vê-se, com um chapéu de pluma e uma veste branca sobraçando uma capa azul, Lorenzo di Piero de' Medici, il Magnifico (1449-1492).

Abraçado à personagem com um cavalo, figura o poeta Agnolo (Angelo) Ambrogini dito Agnolo Poliziano (1454-1494) e de seguida indicando a cena da Adoração, Pico della Mirandola (Giovanni Pico, conde della Mirandola e della Concordia (1463-1494). [1]

A personagem que se destaca por trás destes, olhando para o espectador, poderia ser Giovanni di Zanobi Del Lama, o rico banqueiro que encomendou a pintura para a igreja de Santa Maria Novella, onde inicialmente foi colocada. Outros autores referem uma figura do grupo à direita, trajando de azul e também voltada para o espectador, como sendo esse banqueiro.

rm44a_thumb2_thumbfig. 65 – O grupo à esquerda. Pormenor da fig.60.

No grupo à direita com um traje negro e vermelho bordado a ouro, está Giuliano di Piero de' Medici (1453-1478), numa posição simétrica à do seu irmão Lorenzo.

rm44e_thumb2_thumbfig. 66 – O grupo à direita.

A última personagem da direita é identificada como o próprio Botticelli que se auto retrata olhando o espectador.

rm44z_thumb3_thumbfig. 67 – O autoretrato de Sandro Botticelli. Pormenor da fig.60.

 


[1] Se a figura representasse Pico della Mirandola, colocaria a data da pintura para depois de 1475, já que Pico della Mirandola nesta data apenas teria 12 anos!

 

O aparecimento do Rei Negro

Se a figuração do rei de pele escura existe antes, é a partir do século XV, com a Expansão e os Descobrimentos que ela se generaliza.

No entanto o Rei Negro (Baltazar), o mais novo, porque é nova a exploração da África Austral, é quase sempre subalternizado, como se lê neste belo poema de Olavo Bilac, Os Reis Magos.

Ora, dos três caminhantes,
Dois eram brancos: o sol
Não lhes tisnara os semblantes
Tão claros como o arrebol

Era o terceiro somente
Escuro de fazer dó …
Os outros iam na frente;
Ele ia afastado e só.

Nascera assim negro, e tinha
A cor da noite na tez :
Por isso tão triste vinha …
Era o mais feio dos três !

………………………………

E Jesus os contemplava
A todos com o mesmo amor,
Porque, olhando-os, não olhava
A diferença da cor
[1]

Livro de Horas da BPMP (século XV)

Em dois postais editados pela Inova na última década do século XX, reproduzindo um Livro de Horas do século XV existente na Biblioteca Pública Municipal do Porto, estão representadas duas Adorações dos Reis Magos.

Ambas seguem a representação canónica de Maria com um manto azul, sentada e tendo nos braços o Menino, a quem os três reis oferecem os presentes.

Seguindo a tradição Melchior o ancião de joelhos com a coroa a seu lado, e por trás os dois outros reis.

No entanto há uma mudança fundamental na imagem da direita: Baltazar é agora representado como um negro.

rm18b_thumb2_thumbfig. 68 - Adoração dos magos, Livro de Horas, séc. XV. Ciclo de Natal, nº 6, Biblioteca Pública Municipal do Porto.

Hans Multscher (1390 ou 1400-1467)

Hans Multscher pinta para o Altar de Wurzach, uma cidade do estado de Baden-Württemberg na Alemanha, um retábulo.

O retábulo é constituído por dois painéis, cada um dividido em quatro partes. No painel da esquerda a Paixão de Cristo e no painel da direita a Vida de Maria.

rm19c_thumb2_thumbfig. 69 - Hans Multscher, Altar Wurzach 1437 óleo sobre painel 296 x 300 cm. Gemäldegalerie Berlim.

No canto superior direito do 2º painel está representada a Adoração dos Reis Magos.

rm19a_thumb3_thumbfig. 70 – Pormenor da fig.69.

Os Reis Magos, de diferentes idades, vem adorar e presentear o Menino.

O mais velho está de joelhos, sem a coroa e apresenta um pequeno cofre de ouro com o seu presente.

O seguinte está já ajoelhando-se e retirando a coroa.

O terceiro de pele mais escura ainda de pé, com a coroa na cabeça e segurando o seu presente, é por alguns considerado a primeira figuração de um rei negro, embora não apresente as características faciais de um africano.

Curiosamente, São José por trás da Virgem Maria, traz comida numa frigideira.

rm19b_thumb2_thumbfig. 71 - Pormenor da fig.69.

 

Hans Memling (1440/44-1494)

Já no tríptico de Hans Memling, a representação de Baltasar não oferece qualquer dúvida quanto à sua origem.

rm20_thumb2_thumbfig. 72 - Hans Memling (1440/44-1494), Tríptico do Nascimento de Cristo c.1470, óleo sobre madeira 96,4 x 147 cm. Museu do Prado.

Nos painéis laterais a Anunciação e a Apresentação no Templo.

No painel central um estábulo com a vaca e o burro, visto de frente, construído em pedra mas com uma arruinada cobertura, onde num dos buracos a armação do telhado forma uma cruz. Três colunas de capitel jónico, formam a estrutura do casebre e enquadram a figura central da Virgem com o Menino. Nas traseiras uma parede redonda com janelas abre para uma paisagem urbana. 

rm20y_thumb2_thumbfig. 73 – Pormenor da fig.72. Painel central representando A Adoração dos Reis Magos. 95 x 145 cm.

Ao centro a Virgem com o Menino, São José, envergando uma longa capa vermelha, e Melchior.

rm20z_thumb5_thumbfig. 74 - Pormenor da fig.72.

Melchior, o mais velho dos reis, ajoelhado beija os pés de Jesus.

rm20x_thumb2_thumbfig. 75 - Pormenor da fig.72.

Gaspar à direita da Virgem, ajoelhando-se oferece o seu presente. Tem atrás de si três figuras que admiram a cena, sendo que a primeira, trajando de branco e segurando um chapéu, seria o doador.

rm20v_thumb2_thumbfig. 76 - Pormenor da fig.72.

À esquerda de Maria, surge Baltasar, o rei negro, tirando o chapéu com a mão esquerda, enquanto na outra mão segura o seu presente.

rm20h_thumb2_thumbfig. 77 - Pormenor da fig.72.

Ou como o descreve Manuel Mujica Láinez (1910 -1984) no seu extraordinário conto Elegancia, que descreve um concurso entre as personagens dos quadros existentes no Museu do Prado. [2]

Depois de outras personagens, diante do júri desfilam os Reis Magos do quadro tríptico de Hans Memling:

Gaspar y Melchor arrastran sus largos mantos de armiño y de paños amarillos, rojos y castaños, y son portadores de cálices de oro.

Asombran su porte y su nobleza, que se considerarían insuperables, si detrás no avanzara el Rey Baltasar, el Rey negro, ceñida la fina silueta por el jubón de damasco de oro y bruno, entre el doble y trémulo manantial de las mangas, a un costado el alfanje de vaina bermeja, y libres, delgadas y recortadas, las extraordinarias piernas oscuras, que a juicio de Júpiter y de Diadumeno, son superiores a las del Felipe II de Tiziano. Él también trae una primorosa orfebrería en la mano derecha, y con la izquierda agita un rojo birrete. Desliza su

desenvoltura de bailarín ritual, muy serio, relampagueante el azabache de los ojos, y los encomios estallan doquier, en tanto repiquetean los « ¡ ole! ¡ ole! », del gentío español.

Gaspar e Melchior arrastam os seus longos mantos de arminho e de tecidos amarelos, vermelhos e castanhos, e seguram cálices de ouro.

Espantam o seu porte e a sua nobreza, que se considerariam insuperáveis, se não fossem seguidos pelo Rei Baltazar, o Rei negro, cingida a sua fina silhueta pelo gibão de damasco dourado entre o duplo e trémulo manancial das mangas, onde a bainha vermelha da adaga, e livres, delgadas e recortadas, as extraordinárias pernas escuras, que no juízo de Júpiter e de Diadúmeno, são superiores às do Filipe II de Tiziano. Trás também uma preciosa peça de ourivesaria na mão direita, e com a esquerda agita um chapéu vermelho. Desliza a sua desenvoltura de bailarino, muito sério, os olhos relampejantes, e os elogios estalam de todo o lado, enquanto se sucedem os !ole! ole! , dos espectadores espanhóis.]

 

Por trás de Baltasar os séquitos dos três reis hasteando bandeiras.

rm20c_thumb2_thumbfig. 78 – Pormenor da fig.72.

Do outro lado uma outra bandeira.

rm20a_thumb5_thumbfig. 79 - Pormenor da fig.72.

Pelas janelas em semicírculo do estábulo entrevê-se uma paisagem urbana simbolizando Belém.

rm20e_thumb2_thumbfig. 80 - Pormenor da fig.72.

 


[1] Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac (1865-1918 ) Poesias infantis, Rio de Janeiro, Livraria Francisco Alves: 1949, 17ª edição.

Diz a Sagrada Escritura
Que, quando Jesus nasceu,
No céu, fulgurante e pura,
Uma estrela apareceu.

Estrela nova … Brilhava
Mais do que as outras; porém
Caminhava, caminhava
Para os lados de Belém.

Avistando-a, os três Reis Magos
Disseram: “Nasceu Jesus!”
Olharam-na com afagos,
Seguiram a sua luz.

E foram andando, andando,
Dia e noite a caminhar;
Viam a estrela brilhando,
sempre o caminho a indicar.

Ora, dos três caminhantes,
Dois eram brancos: o sol
Não lhes tisnara os semblantes
Tão claros como o arrebol

Era o terceiro somente
Escuro de fazer dó …
Os outros iam na frente;
Ele ia afastado e só.

Nascera assim negro, e tinha
A cor da noite na tez :
Por isso tão triste vinha …
Era o mais feio dos três !

Andaram. E, um belo dia,
Da jornada o fim chegou;
E, sobre uma estrebaria,
A estrela errante parou.

E os Magos viram que, ao fundo
Do presépio, vendo-os vir,
O Salvador deste mundo
Estava, lindo, a sorrir

Ajoelharam-se, rezaram
Humildes, postos no chão;
E ao Deus-Menino beijaram
A alava e pequenina mão.

E Jesus os contemplava
A todos com o mesmo amor,
Porque, olhando-os, não olhava
A diferença da cor …

[2] Manuel Mújica Láinez  (1910 -1984), Elegancia in Un novelista en el Museo del Prado, Barcelona 1997. No extraordinário concurso acabam por vencer, Adão e Eva de Albercht Durer, pois que se apresentam na sua nudez original.

 

Século XVI

Vincenzo Foppa (c.1430-c.1515) 

Na Adoração dos Magos de Vincenzo Foppa, junto a uma arruinada construção, servindo de estábulo, Maria tem ao colo o Menino, que agora e de novo figura vestido. São José ao lado observa a cena.

Melchior, o mais velho dos reis, ajoelha e beija os pés do Menino, enquanto Gaspar avança para prestar a sua homenagem.

Baltazar, de turbante olha na direcção do espectador.

rm43_thumb2_thumbfig. 81 - Vincenzo Foppa (c.1430-c.1515) A Adoração dos Reis Magos c. 1500, óleo sobre madeira 238,8 x 210,8 cm National Gallery Londres.

Atrás dos Reis Magos o seu séquito com os cavalos.

La carovana
non è lontana
dei Magi d’Oriente.
Scalpitìo di cavalli si sente,
suoni di pifferi, confuse
aria di cornamuse.
I re portano tesori
su cavalli bardati d’argento,
e i pastori a passo lento
ingenui cuori.
[1]

[A caravana / não está longe / dos Magos do Oriente. / Ouve-se o tropel de cavalos / sons de pífaros, confusas / árias de gaitas de foles. / Os reis trazem tesouros / em cavalos ajaezados de prata, /e os pastores num ritmo lento /  ingênuos corações.]

rm43a_thumb2_thumbfig. 82 – Pormenor da fig.81.

No fundo uma paisagem, montanhosa com uma ladeira por onde descem os Reis a cavalo.

rm43d_thumb2_thumbfig. 83 – Pormenor da fig.81.

Now as at all times I can see in the mind’s eye,
In their stiff, painted clothes, the pale unsatisfied ones
Appear and disappear in the blue depth of the sky
With all their ancient faces like rain-beaten stones,
And all their helms of silver hovering side by side,
And all their eyes still fixed, hoping to find once more,
Being by Calvary’s turbulence unsatisfied,
The uncontrollable mystery on the bestial floor. 
[2]

[Agora, como sempre, vejo-os imaginando / Com as suas roupagens, pálidos e insatisfeitos, / Em um, vê que não vê, na profundeza azul do céu, /Com os seus velhos rostos como pedras à chuva, / E os seus elmos de prata, um ao lado de outro, /E os olhos fixos, esperando de novo, / Encontrar – insatisfeitos o turbulento Gólgota – / O indomável mistério naquele solo bestial.]

No cimo de um monte ao fundo, uma cidade que deveria ser Belém mas onde está representado o Templo de Salomão de Jerusalém.

rm43c_thumb2_thumbfig. 84 – Pormenor da fig.81.


[1] Angiolo Silvio Novaro (1866-1938) I magi in Il Cestello. Poesie per i piccoli, 1910.

[2] William Butler Yeats (1865-1939), The Magi in Responsabilities and other poems by William Butler Yeats, The MacMillan Company New York 1916 (pág. 77).

 

Três pinturas do século XVI em Portugal

1 - Gérard David (c. 1460-1523)

A cena desenvolve-se numa composição estreita que obriga a que as seis personagens (Maria, Jesus, S. José e os três Reis Magos) figurem numa composição que, aproximadamente, serpenteia do ângulo inferior direito até ao canto superior esquerdo.

rm21_thumb2_thumbfig. 85 - Círculo de Gerard David, Adoração dos Magos 1495-1510. Óleo s/ Madeira de carvalho 186 x 93 cm. Museu de Évora.

A Virgem voltada para o espectador, está sentada e segura no colo o Menino envolto num tecido transparente.

Sob o abrigo arruinado, que apresenta um tronco substituindo uma coluna, São José parece abençoar a cena ou acalmar os reis na sua Adoração.

rm21p_thumb2_thumbfig. 86 – Pormenor da fig.85.

Melchior, o mais idoso dos reis, com pouco cabelo branco e sem barba, está ajoelhado em oração.

rm21t_thumb2_thumbfig. 87 – Pormenor da fig.85.

Repare-se no pormenor do tecido transparente que envolve o Menino e nas mãos de Melchior em oração.

rm21z_thumb2_thumbfig. 88 – Pormenores da fig.85.

Tem à cinta uma bolsa de veludo verde com uma rica fivela de prata. No chão o seu presente, uma taça aberta com moedas de ouro.

rm21o_thumb2_thumbfig. 89 – Pormenores da fig.85.

Gaspar está de pé (apenas se vê a parte superior do corpo), o rei de meia- idade com barba e cabelo escuro, segura cuidadosamente, com ambas as mãos, um recipiente cilíndrico e dourado com uma tampa decorada que contém a mirra.

rm21r_thumb2_thumbfig. 90 – Pormenores da fig.85.

rm21s_thumb2_thumbfig. 91- Pormenor da fig.85.

Tendo ao fundo uma paisagem com o cortejo dos Reis e ocupando uma boa parte do lado direito da composição, Baltazar, o jovem rei negro, coberto por um enorme manto verde, a perna esquerda avançada, com uma jarreteira e bota dourada, parecendo concorrer com Gaspar na apresentação das oferendas, segura na mão direita um frasco de ouro, onde estão rasgadas janelas góticas, e onde trás o incenso.(fig.91).

rm21b_thumb2_thumbfig. 92 - Pormenor da fig.85.

rm21y_thumb4_thumbfig. 93 – Pormenores da fig.85.

Os rostos dos três Reis Magos.

rm21x_thumb3_thumbfig. 94 – Os três Reis Magos. Pormenores da fig.85.

 

2 - Autor Desconhecido Museu de Évora

A Virgem com um vestido vermelho e uma capa azul, segura o Menino, que abençoa Melchior que lhe beija os pés. São José por trás observa a cena segurando uma ânfora. As três figuras estão aureoladas.

rm41_thumb2_thumbfig. 95 - Adoração dos Magos [Políptico da Vida da Virgem] Século XVI. Óleo s/ madeira 66,9 x 51,9 cm. Museu de Évora.

No chão, junto a Melchior está o presente – a caixa com as moedas de ouro – a coroa e ceptro do rei, e uma tartaruga e uma aranha.

rm41a_thumb2_thumbfig. 96 – Pormenor da fig. 95. Repare-se na tartaruga e na aranha junto da pedra.

Se a aranha não oferece dúvidas como animal maléfico, a tartaruga pode ter, para além disso outro significado.

Por um lado a sua carapaça redonda é uma representação do universo significando a união da terra com o céu, em que as patas representariam os quatro pilares que suportam o templo sagrado.

A tartaruga é, também, um sinal do tempo longo, símbolo de longevidade e de sabedoria dada a sua longa vida e a sua lentidão, significando a perseverança no caminho da fé.

Por outro lado é considerado como um animal malévolo, entre cobras e lagartos, (por uma errada tradução da Bíblia?).

Na Sagrada Família de Gaudi em Barcelona está representada a tartaruga.

Como símbolo do tempo e do suporte do templo sustentam os pilares do portal da Natividade.

Na correspondente fachada estão esculpidas duas tartarugas entre os animais maléficos, serpente e salamandras.

rm41c_thumb2_thumbfig. 97 - Pormenor da fig. 95.

Os outros Reis Magos, de coroa na cabeça, compõe o resto da cena. Gaspar de longas barbas, está já de joelhos e destapa a taça com a mirra, e Baltazar, o Rei negro, ainda de pé, tem na mão direita o incensório e na mão esquerda o ceptro real. Por trás duas cabeças representam o séquito dos reis.

rm41b_thumb2_thumbfig. 98 - Pormenor da fig.95.

 

3 - Autor desconhecido (1500-1550)

Ao fundo, um edifício arruinado com um arco por onde entra o cortejo dos Reis, com os seus estandartes e bandeiras.

A Virgem está agora colocada à direita da composição, tendo nos braços o Menino envolto num pano branco.

rm39_thumb2_thumbfig. 99 - Autor Desconhecido Adoração dos Reis Magos Século XVI [1ª metade] Óleo sobre madeira de carvalho155,5 x 102 cm. Museu Nacional de Arte Antiga.

Os Reis Magos perfilam-se os três ajoelhados, as mãos postas, adorando Jesus.

rm39a_thumb2_thumbfig. 100 - Pormenor da fig.99.

Os presentes são agora transportados por pajens que, por trás, dos respectivos senhores têm à sua esquerda as principais personagens do cortejo dos reis.

rm39d_thumb2_thumbfig. 101 – Pormenor da fig.99.

 

Albrecht Durer (1471-1528)

A Adoração dos Magos terá, segundo alguns, pertencido a um políptico encomendado por Frederico da Saxónia para a capela do castelo de Wittenberg.

A Adoração dos Magos foi doada ao Imperador Rudolfo (1552-1612) em 1603, e em 1793 foi trazida para a Galeria dei Uffizi em Florença.

Numa paisagem pontuada de ruínas, em frente de um improvisado estábulo onde se vê os dois animais do Presépio, Maria, com as tradicionais vestes azuis e um véu branco na cabeça, está sentada tendo nos joelhos o Menino.

Os três reis estão num estrado para onde se acede por dois degraus.

rm22_thumb2_thumbfig. 102 - Albrecht Durer (1471-1528), A Adoração dos Magos 1504, óleo sobre madeira 99 x 113,5 cm. Galeria degli Ufizzi, Firenza.

Melchior, o rei mais velho com a coroa pousada a seu lado, oferece um cofre em ouro, onde está gravada a figura de São Jorge matando o Dragão, cofre que o Menino tenta segurar.

rm22a_thumb2_thumbfig. 103 - Pormenor da fig.102.

Os outros dois Reis, Gaspar e Baltasar, estão de pé, numa atitude algo estática. Gaspar, ricamente vestido e ornamentado, segurando na mão direita o seu presente e na esquerda a sua coroa, parece olhar para o presente de Baltazar, o Rei negro, que contempla a Virgem com o Menino.

Este segura na sua mão direita uma taça esférica de ouro e na mão esquerda um chapéu frígio adornado de pluma, e adornado por uma coroa dourada.

rm22b_thumb2_thumbfig. 104 - Pormenor da fig.102.

Uma figura, no primeiro plano no canto inferior direito, de que se vê apenas a parte superior do corpo, usando turbante, segura um saco que se supõe ter contido os presentes para o Menino. Por trás de Baltazar, ergue-se uma colina pontuada de construcções.

rm22d_thumb2_thumbfig. 105 - Pormenor da fig.102.

Ao fundo sob as ruínas de uma arcada, o séquito dos Reis Magos. Ao fundo um lago (?) onde navega uma embarcação.

rm22e_thumb2_thumbfig. 106 – Pormenor da fig.102.

Um tríptico de Hyeronimus Bosch e dois quadros, com dúvidas, a ele atribuídos. 

Hieronymus Bosch (1450-1516) [1]

Na frente do tríptico fechado está representada em tons de castanho, a Missa de S. Gregório Magno.

Junto ao altar estão representados o pontífice, um clérigo e os doadores (estes coloridos).

Duas cortinas, ao que se sabe, pintadas posteriormente, escondem um conjunto de figuras por trás do altar.

rm23a_thumb2_thumbfig. 107 - Hieronymus Bosch (1450-1516), Tríptico fechado. A adoração dos Magos 1510, óleo sobre madeira Museu do Prado, Madrid.

Na parte superior do altar, rodeando a figura de Cristo, sete cenas da Paixão (Cristo no Horto, a Prisão, perante Pilatos, a Flagelação, a Coroação com Espinhos, o percurso do Calvário), encimadas pela Crucificação.

Repare-se à direita no pormenor de Judas enforcado numa árvore e de um demónio levando a sua alma.

rm23p_thumb2_thumbfig. 108 – O Gólgota. Pormenor da fig. 107.

No tríptico aberto, no painel da esquerda figura Peeter Scheyfve com São Pedro, o seu protector, e com a divisa Een voert (Um para todos). No painel da direita a sua esposa Agneese de Gramme, com a sua protectora Santa Inês.

No painel central a Adoração dos Magos.

rm23_thumb2_thumbfig. 109 - Hieronymus Bosch (1450-1516) Tríptico de A Adoração dos Magos 1510, óleo sobre madeira Museu do Prado, Madrid.

O painel central mostra junto a um casebre, a cena da Adoração dos Magos tendo por trás uma paisagem e ao fundo uma cidade. Sob a figura de Baltazar, o Rei Mago negro, a assinatura de Hieronymus Bosch.

rm23f_thumb2_thumbfig. 110 – O painel central da Adoração dos Magos.

Os três Magos, ricamente vestidos estão venerando e oferecendo os seus presentes ao Menino, despido e sentado num pano, ao colo de Maria, trajando uma capa azul esverdeada e sem auréola.

rm23b_thumb2_thumbfig. 111 – Pormenor da fig.110.

Melchior está ajoelhado com as mãos juntas em oração e tem pousado no chão o seu presente e a sua coroa em forma de elmo.

rm23g_thumb2_thumbfig. 112 – Pormenor da fig.110.

O presente é uma taça de ouro e pérolas, em que está representada a cena bíblica do sacrifício de Isaac.

rm23g1_thumb2_thumbfig. 113 - Pormenor da fig.110.

Gaspar está de pé envergando uma túnica azul, com uma riquíssima gola de prata trabalhada, em que se vê a cena da Bíblia (1 Rs. 10, 1-13) em que a rainha de Sabá oferece os seus presentes a Salomão. O Rei Mago traz na mão esquerda o seu presente, uma bandeja de prata carregada de moedas.

rm50_thumb2_thumbfig. 114 - Pormenor da fig.110.

rm23j_thumb2_thumbfig. 115 - Pormenor da fig.110.

Baltazar, o Rei negro, com uma túnica branca, tem na mão o seu presente, um recipiente em forma de esfera que contém o incenso. Sobre a esfera está pousada a Fenix, evocando a Ressurreição.

Nele está representada outra cena do Antigo Testamento, (2 Samuel 20,21) em que Abner se apresenta perante o rei David.

rm51b_thumb3_thumbfig. 116 - Pormenor da fig.110.

Na porta do casebre, onde não figura nem a vaca nem o burro, surge o Anti-Cristo, o corpo apenas coberto com uma capa.

Ao seu lado, contribuindo para este ambiente maléfico, um conjunto de personagens com rostos e expressões aterradoras.

rm52a_thumb3_thumbfig. 117 - Pormenor da fig.110.

Do outro lado do casebre três pastores espreitam a cena, um deles através de um buraco na arruinada parede, enquanto outros dois se encontram sobre a cobertura. Um deles exibindo uma gaita-de-foles.

rm23c_thumb2_thumbfig. 118 – Pormenor da fig.110.

rm23m_thumb2_thumbfig. 119 - Pormenor da fig.110.

No lado esquerdo do vão do telhado está uma coruja olhando um rato sublinhando o carácter maléfico da figura do Anti-Cristo que, por baixo assome à porta do casebre.

rm53_thumb2_thumbfig. 120 - Pormenor da fig.110.

Ao fundo uma paisagem que se estende do casebre até uma cidade. No céu a estrela que guiou os Reis Magos.

rm23d_thumb2_thumbfig. 121 – Pormenor da fig.110.

Nessa paisagem, num primeiro plano por trás do casebre, de ambos os lados, deslocam-se dois exércitos, que têm sido associados às forças de Herodes procurando Jesus.

Mais acima vê-se do lado esquerdo uma casa identificada como um bordel, pela insígnia de um cisne.

Para ela dirige-se um homem conduzindo um burro montado por um macaco, animal que simboliza a luxúria.

rm45_thumb2_thumbfig. 122 - Pormenor da fig.110.

A cidade que se perfila no fundo, estendendo-se pelos três painéis, poderá representar uma imaginária Belém.

rm46_thumb2_thumbfig. 123 - Pormenor da fig.110.

No painel central, fora da cidade um moinho e um outro conjunto de cavaleiros.

À cidade acede-se por uma porta monumental constituída por dois torreões entre os quais se situa uma estrada murada.

No interior da muralha e em grande destaque uma torre de planta circular.

rm47_thumb2_thumbfig. 124 - Pormenor da fig.110.


[1] Ver o comentário no site do Museu do Prado de Madrid.

 

2 – Hieronymus Bosch

Têm sido atribuídos a Hieronymus Bosch outros painéis com a temática da Adoração dos Magos, embora se pense tratar de obras ou dos seus seguidores ou mesmo imitações, já que ao contrário da anterior não estão assinadas.

Se do quadro do Museu do Prado não existem quaisquer dúvidas da sua autoria, estes,  pela sua extraordinária composição, obrigam a uma breve análise.

O quadro do Metropolitan Museum de Nova Yorque.

rm24_thumb2_thumbfig. 125 - Adoração dos Magos c.1475, óleo sobre madeira 71 x 57 cm. Metropolitan Museum, New York.

A composição é dominada por uma construção em pedra, limitada por muros com baluartes, formando um espaço por trás das personagens, (que pode ser uma referência ao hortus conclusus).

Três anjos seguram um enorme pano que serve de cobertura, enquanto um quarto anjo espreita do alto do Baluarte.

Cantano tra il fischiare
del vento per le forre,
i biondi angeli in coro;
ed ecco Baldassarre
Gaspare e Melchiorre,
con mirra, incenso ed oro.
[1]

[Cantam entre o assobiar / do vento para as ravinas, / anjos louros em coro; / e eis Baltazar / Gaspar e Melchior, / com a mirra, o incenso e o ouro.]

Ao centro a Virgem trajando de azul, com o Menino nos braços, sentada num colchão dourado.

rm24a_thumb2_thumbfig. 126 - Pormenor da fig. 125.

Melchior, ajoelhado, segura na mão uma bandeja que transporta uma ânfora, ambas de ouro trabalhado. No chão junto ao Rei Mago o seu chapéu-coroa.

E um cão branco com coleira está sentado junto a ele.

rm24b_thumb2_thumbfig. 127 – Pormenor da fig. 125.

À direita, os dois outros reis de pé, trajando ricas vestes seguram nas mãos os seus presentes. Gaspar está de frente, usa um turbante encimado por uma coroa, e segura com as duas mãos uma peça em ouro.

Baltazar, trajando uma túnica branca, que contrasta com a sua pele escura, adornada com uma gola, e um cinto de onde pende uma adaga tudo em ouro. O seu presente é um recipiente esférico em ouro, tendo na parte superior uma ave, semelhante ao da pintura anterior do Museu do Prado.

rm24c_thumb2_thumbfig. 128 – Pormenor da fig. 125.

Numa janela, olhando para o recinto onde se encontra a Virgem com o Menino, espreitam duas personagens. O mais velho aquece a mão direita numa pequena e improvisada fogueira.

rm24x_thumb2_thumbfig. 129 – Pormenor da fig. 125.

No lado esquerdo do quadro, um ancião (S. José?), de joelhos e agarrado a uma frágil bengala, olha para Melchior.

rm24d_thumb2_thumbfig. 130 – Pormenor da fig. 125.

O espaço do quadro é limitado à esquerda por um muro de pedra, onde de uma fresta espreita um outro ancião; num baluarte redondo abre-se uma porta onde estão os animais tradicionais; e na parede que se prolonga até ao fundo, rasga-se uma abertura com grade.

rm24e_thumb2_thumbfig. 131 - Pormenor da fig. 125.

No cimo deste baluarte surge um pombal e no alto os, já referidos, anjos.

rm24z_thumb2_thumbfig. 132 – pormenor da fig.125.

Ao fundo uma paisagem dividida pela parede do lado direito da construção.

rm24g_thumb2_thumbfig. 133 – pormenor da fig.125. 

À esquerda, no primeiro plano uma paisagem ondeada e arborizada, onde um par se dirige para um casal que ensaia um passo de dança ao som de flauta tocada por um pastor sentado sob uma árvore.

Num plano intermédio diversos exércitos de cavalaria deslocam-se en sentidos contrários. E no plano mais afastado, uma cidade muralhada onde sobressai a catedral e uma alta torre de menagem.

rm24y_thumb2_thumbfig. 134 – Pormenor da fig.125.

À direita, no primeiro plano pousado sobre o muro um recipiente e um cajado. Do outro lado do muro as ossadas de um animal que vários pássaros debicam.

Mais adiante um casal atravessa uma ponte sobre um curso de água, dirigindo-se para uma paisagem arborizada, seguido por um cão. No plano intermédio uma construção piramidal tendo ao lado uma forca com um enforcado (Judas?). Ao longe um castelo edificado numa ilha isolada num vasto lençol de água, onde navega uma pequena embarcação à vela.

rm24w_thumb2_thumbfig. 135 – Pormenor de fig.125.


[1] Gabriele D'Annunzio (1863-1938) in Laudi del Cielo Fratelli Treves Editori Milano 1917.

 

Hieronymus Bosch (Philadelphia)

A outra pintura atribuída a Hieronymus Bosch mostra uma composição diferente, mas com elementos que a aproximam das duas pinturas anteriores

rm25_thumb2_thumbfig. 136 - Adoração dos Magos c.1499 óleo sobre painel 94 x 74 cm. Museum of Art, Philadelphia. USA.

O estábulo é agora uma construção em madeira, apoiada em dois muros de pedra, com uma cobertura de duas águas em colmo. No vão do telhado tem um pombal. Algo semelhante ao casebre da Adoração dos Magos do Museu do Prado. No alto a Estrela.

rm25b_thumb2_thumbfig. 137 – Pormenor da fig.136.

As personagens Maria e o Menino, S. José e os três Reis Magos, reunem-se em volta de uma mesa.

rm25a_thumb2_thumbfig. 138 –Pormenor da fig.136.

Maria está trajada de azul-turquesa com um largo manto rosa e exibe o Menino despido. Aos seus pés, ajoelhado e com o chapéu-coroa pousado ao seu lado, Melchior oferece o seu presente. O rei segura na mão esquerda uma taça de pé alto em ouro com moedas, cuja tampa Melchior segura na mão direita. No seu traje esverdeado apenas figura uma bolsa que tem presa à cintura.

rm25y_thumb2_thumbfig. 139 – Pormenor da fig.136.

Do outro lado da mesa S. José levando a mão à cabeça e ao fundo a vaca e o burro, os animais do presépio.

rm25x_thumb2_thumbfig. 140 – Pormenor da fig.136.

Os outros dois reis, estão de pé parecendo ignorar a cena da Adoração. Estão ricamente trajados, Gaspar de frente, trajando uma túnica cor-de-rosa, tendo à cintura uma longa espada com uma bainha em ouro. Baltazar com uma veste branca com bordados a ouro e um turbante onde tem a coroa na parte superior.

 

rm25w_thumb2_thumbfig. 141 – Pormenor da fig.136.

Gaspar parece inquirir Baltazar do episódio da Estrela, criado por Edmond Rostand.

Ils perdirent l'étoile, un soir ; pourquoi perd-on
L'étoile ? Pour l'avoir parfois trop regardée,
Les deux rois blancs, étant des savants de Chaldée,
Tracèrent sur le sol des cercles au bâton.
Ils firent des calculs, grattèrent leur menton,
Mais l'étoile avait fui, comme fuit une idée.
Et ces hommes dont l'âme eût soif d'être guidée
Pleurèrent, en dressant des tentes de coton.
Mais le pauvre Roi noir, méprisé des deux autres,
Se dit "Pensons aux soifs qui ne sont pas les nôtres,
Il faut donner quand même à boire aux animaux."
Et, tandis qu'il tenait son seau d'eau par son anse,
Dans l'humble rond de ciel où buvaient les chameaux
Il vit l'étoile d'or, qui dansait en silence.
[1]

[Eles uma noite perderam a estrela; como se perde
uma estrela? Por a ter olhado, por vezes, demasiado
Os dois reis brancos, sendo sábios da caldeia,
Traçaram com a vara círculos no chão.
Fizeram cálculos, coçando as cabeças,
Mas a estrela tinha fugido, como foge uma ideia.
E aqueles homens cuja alma com sede de ser guiada
Choraram, enquanto erguia as suas tendas de lona.
Mas o pobre Rei negro, desprezado pelos outros dois,
Diz para ele mesmo: "Pensemos na sede que não é a nossa,
É preciso, é mesmo, dar de beber aos animais. "
E enquanto segurava a ânfora de água pela asa,
No humilde canto do céu onde bebiam os camelos
Ele viu a estrela de ouro, dançando em silêncio.]

Ambos exibem os presentes: Gaspar um recipiente cilíndrico em vidro esmeralda numa estrutura de ouro e Baltasar uma comprida taça coberta em ouro trabalhado, onde se vê uma Anunciação.

rm25e_thumb2_thumbfig. 142 – Pormenor da fig. 136.

Figuram ainda duas outras personagens, um militar e um clérigo, assistindo à cena de uma abertura no estábulo, simbolizando o séquito dos Reis Magos.

Sobre o telhado o único animal que figura no quadro, para além do burro e da vaca, uma ave simbolizando a pureza da Virgem. (Em português AVE é EVA ao contrário).

rm25t_thumb2_thumbfig. 143 – Pormenor da fig.136.

Ao fundo uma paisagem com uma cidade muralhada onde se vê uma alta torre em pirâmide, e mais três torres correspondentes a igrejas.

rm25c_thumb2_thumbfig. 144 – Pormenor da fig.136.

 


[1] Edmond Rostand (1868-1918), Le Cantique de l’Aile, Librairie Charpentier et Fasquelle, Eugene Fasquelle, Éditeur 11, Rue Grenelle Paris, 1922. (pág.28).

 

 

Um Rei Mago Índio [1]

Vasco Fernandes (c.1475-1542) e/ou Francisco Henriques (act.1508-1518)

E o arco, e as settas, e as vistosas penas
São as nossas fantásticas riquezas…
 [2]

rm26l_thumb2_thumbfig. 145 - Atribuído a Vasco Fernandes (c.1475-1542) mas possivelmente de Francisco Henriques (act.1508-1518), Adoração dos Reis Magos/Políptico da Capela-Mor da Sé de Viseu 1501/1506, óleo sobre madeira de carvalho, 131x81 cm. Museu Grão Vasco. Viseu, Portugal.

Esta obra, ou o retábulo de que fazia parte, formado inicial­mente por um conjunto de dezoito painéis com dimensões e soluções artísticas idênticas, de que se conservam catorze painéis na colecção do Museu Grão Vasco, e um, o Calvário, no Seminário Maior de Coimbra, é também a mais indicada para introduzir algumas questões centrais, de âmbito histórico-artístico, para o entendimento da pintura portuguesa da primeira metade do século XVI. [3]

A composição divide-se em duas partes. À direita, o estábulo onde está Maria com o Menino, S. José e Melchior.

À esquerda, Gaspar (com o presente) e Baltasar, o Rei Índio. A flecha tupinambá deste, cria uma diagonal que dinamiza toda a composição.

rm26k_thumb2_thumbfig. 146 – Duas linhas de força da composição.

À direita da composição, a Virgem com a veste azul, e uma auréola radiante na cabeça está sentada com o Menino nu e uma auréola em cruz, que prolonga a trança dos cabelos louros de Maria, segura uma moeda de ouro.

rm26c_thumb2_thumbfig. 147 - Pormenor da fig. 145.

A moeda de ouro, que o Menino tem na mão, por vezes aparece representada como um presente de cada um dos Reis Magos, segundo o Pseudo-Mateus. [4]

rm26p_thumb2_thumbfig. 148 - Pormenor da fig. 145.

De joelhos está Melchior com uma riquíssima capa dourada, as mãos postas em oração e o chapéu-coroa colocado num murete em primeiro plano. O seu presente está já na mão direita da Virgem, que S. José ajuda a segurar.

O arqueólogo e director do Museu Grão Vasco, Fernando Russell Cortez (1913-1994), avançou a ideia de o Rei Mago ajoelhado junto de Maria ser um retrato de Pedro Álvares Cabral, que possivelmente esteve em terras de Viseu na altura em que esta pintura foi executada. [5]

rm26m1_thumb2_thumbfig. 149 - Pormenor da fig. 145.

Com o achamento da América, e o encontro com os indígenas:

Já para o nosso campo vem descendo,
Por mandado dos seus, dous dos mais nobres,
Sem arcos, sem aljavas; mas as testas
De varias, e altas penas coroadas,
E cercadas de penas as cinturas,
E os pés, e os braços, e o pescoço.
 
[6]

E sendo os três Reis Magos, para além das três idades do homem, associados aos três Continentes então existentes, para figurar esta nova Parte do Mundo, ou se criava um quarto rei, o que iria contra toda a tradição, ou se optava por fazer coincidir na figura de Baltazar, os continentes ainda por explorar.

Foi esta a opção do(s) autor(es) da Adoração dos Magos, uns escassos anos após a descoberta do Brasil.

No centro e dinamizando toda a composição a figura de Baltazar, o rei com um rosto com traços que seguem a Carta de Pêro Vaz de Caminha [7]a feiçam deles he seerem pardos maneira dauerme lhados de boõs Rostros e boos narizes bem feitos”.

Veste uma camisa e uns calções à europeia, se bem que na descrição de Caminha os índios am dam nuus sem nenhuua cubertura nem estimam ne nhuua coussa cobrir nem mostrar suas vergonhas, e estam açerqua disso com tamta jnocemçia como teem em mostrar o Rostro.”

Tem na mão a flecha índia, e sobretudo está ornamentado com penas, na coroa que traz na cabeça (baretes de penas daues deles verdes e deles amarelos), na gola que tem ao pescoço, e na cintura.

Em ouro são as inúmeras pulseiras e os brincos e no pescoço um colar de pérolas, e outros dois de contas negras e vermelhas (huu ramal grande de comtinhas brancas meudas que querem pareçer daljaueira). Calça sandálias se bem que os índios andassem de pés descalços.

O seu presente é uma taça feita de um coco com um rebordo em prata.

rm26b_thumb2_thumbfig. 150 - Baltazar o rei negro com alguns adereços de um índio tupinambá. Pormenor da fig. 145.

rm26u_thumb2_thumbfig. 151 – Pormenores da fig. 145.

A taça do Rei Índio e São José ajudando a Virgem a segurar o presente de Melchior.

rm26x_thumb2_thumbfig. 152 – Pormenor da fig. 145.

 

Gaspar, não tão ricamente vestido como Melchior, nem tão exoticamente adornado como Baltazar, está pronto a ajoelhar-se, retirando com a mão direita o seu chapéu-coroa e segurando na esquerda a taça de mirra. Na parede duas aranhas.

rm26a_thumb2_thumbfig. 153 - Pormenor da fig. 145.

O estábulo onde a cobertura de madeira coberta com colmo, assenta num dos lados num muro de pedra, e no outro num improvisado tronco, encosta a uma gruta. Na porta tem pendurada uma vela acesa sobre a qual está pousado um pássaro. Nela figuram os animais tradicionais e um vaso de barro com uma colher.

rm26e_thumb2_thumbfig. 154 - Pormenor da fig. 145.

Na paisagem de fundo um castelo onde se acede por um caminho em zig-zag do esquerdo e algumas árvores. Ao longe uma planície com montanhas ao fundo.

rm26z_thumb2_thumbfig. 155 - Pormenor da fig. 145.


[1] Sobre a representação do índio brasileiro na pintura ver Maria Aparecida Ribeiro, Penas de Índio: a representação do “Brasileiro” na arte portuguesa, in Mathesis 5, Miscelânea em Honra de Monsenhor Celso Tavares da Silva Universidade Católica Portuguesa Faculdade de Letras, Viseu 1996. (pág. 293 a 323).

[2] Basílio da Gama (1741-1795) O Uraguay Poema de José Basílio da Gama, na Arcádia de Roma Termindo Sipilio, nova edição Rio de Janeiro na Impressão Régia M. DCCC. XI. (pág.23).

[3] Dalila Rodrigues, Obras-Primas da Arte Portuguesa, pintura, Athena. Babel, Lisboa 2011.(pág.22).

[4] Então descobriram os seus tesouros e ofereceram a Maria e a José riquíssimos presentes. Ao Menino cada um ofereceu uma moeda de ouro. Depois um ofereceu ouro, outro incenso e outro mirra. Pseudo-Mateus XVI,1-2.

[5] Fernando Russell Cortez, Pedro Álvares Cabral e Viseu, in Panorama, Revista Portuguesa de Arte e Turismo 27, Setembro de 1968 (pág.49-55).

[6] Basílio da Gama (1741-1795) O Uraguay Poema de José Basílio da Gama, na Arcádia de Roma Termindo Sipilio, nova edição Rio de Janeiro na Impressão Régia M. DCCC. XI. (pág.21).

[7] Todas as frases em itálico são da Carta ao Rei de Pêro Vaz de Caminha, 1500, na ortografia original. Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Lisboa, Portugal.

 

Um Retábulo e uma pintura atribuídos a Jorge Afonso (1470-1540)

Esta pintura, atribuída a Jorge Afonso, o possível Mestre de 1515, seria o canto superior esquerdo de um retábulo para o Mosteiro da Madre de Deus em Lisboa, de que fariam parte a Anunciação, a Assunção da Virgem, a Aparição de Cristo à Virgem, a Adoração dos Pastores, e o Pentecostes. Dagoberto Markl e Fernando António Baptista Pereira acrescentaram S. Francisco entregando os Estatutos da Ordem de Santa Clara.

Dagoberto Markl e Fernando António Baptista Pereira [1] avançam um esquema conjectural do retábulo, que adaptamos.

rm37y2_thumb3_thumbfig. 156 –Reconstituição conjectural do Retábulo da Madre de Deus segundo Dagoberto Markl e Fernando António Baptista Pereira (adaptado).

Legenda: 1 - Adoração dos Magos; 2 - Aparição de Cristo à Virgem; 3 - Ascensão; 4 - Anunciação; 5 - Assunção; 6 - Pentecostes; 7 - Adoração dos Pastores; 8 - Sacrário (?); 9 - S. Francisco entregando os Estatutos da Ordem de Santa Clara.

rm37b_thumb2_thumbfig. 157 - Mestre 1515 [Jorge Afonso?] Adoração dos Reis Magos [Retábulo da Igreja da Madre de Deus] c. 1515, Óleo sobre madeira de carvalho 170 x L.205 cm. Museu Nacional de Arte Antiga.

Os Reis Magos, com Melchior o mais velho ao meio, como a adaptar-se à forma do painel, estão de joelhos, quase deitados. Os dois primeiros de mãos postas e Baltazar de braços abertos. As respectivas coroas e presentes estão alinhados à frente de cada um deles.

rm37c_thumb2_thumbfig. 158 – Pormenor da fig. 157.

Do outro lado Maria segura com ambas a s mãos o Menino, enquanto ao fundo, por trás do templo arruinado que serve de estábulo, caminha o séquito dos reis, descendo a ladeira que de um castelo chega até ao local do nascimento de Jesus.

Na construção que serve de estábulo aparecem duas colunas avermelhadas e de capitel coríntio.

rm37d_thumb2_thumbfig. 159 - Pormenor da fig. 157.


[1] Dagoberto Markl e Fernando António Baptista Pereira, História da Arte em Portugal. O Renascimento 1993,vol. 6. (pág. 134).

 

Adoração dos Magos atribuída a Jorge Afonso (1470-1540)

rm57k_thumb2_thumbfig. 160 - Jorge Afonso (atribuída), Adoração dos Magos c. 1520. Museu de Setúbal.

A composição, mais uma vez, define-se por uma geometria triangular, onde se enquadram as principais figuras do quadro: a Virgem com o Menino e os três Reis Magos. Note-se que S. José está ausente.

rm57f_thumb3_thumbfig. 161 – Linhas compositivas.

A Virgem Maria, à esquerda, trajando o tradicional vestido azul com uma bainha de dourados e pérolas, está sentada encostada a um biombo com motivos florais dourados, segurando com ambas as mãos o Menino, envolto num pano branco. Ambas as figuras estão aureoladas.

rm57a_thumb2_thumbfig. 162 – Pormenor de fig. 160.

Os três Magos em frente, numa posição que se torna habitual na época. Trajados e ornamentados com a ostentação e magnificência da Corte manuelina, estão alinhados em devoção.

Melchior o mais velho e Gaspar, de joelhos e mãos postas, adoram o Menino. A seus pés os seus chapéus-coroa, bem como os seus presentes, duas taças com tampa, uma em ouro e a outra em vidro e ouro, contendo as moedas de ouro e o incenso.

Baltazar, o rei negro, sempre um pouco subalternizado, ainda de pé, segura a taça de ouro destapada mostrando a mirra, na mão esquerda e tira o chapéu-coroa com a direita.

rm57b_thumb2_thumbfig. 163 - Pormenor de fig. 160.

Na parte superior da composição, na vertical de Jesus, a Estrela, um círculo de fogo amarelo com raios dourados no interior, e o estábulo.

Este, uma construção de dois pisos de pedra e madeira, apresenta em primeiro plano, repetindo-se no piso superior, uma coluna de mármore vermelho encimada por um capitel coríntio.

rm57c_thumb2_thumbfig. 164 - Pormenor de fig. 160.

rm57h_thumb2_thumbfig. 165 - Pormenor de fig. 160.

Do lado direito, junto à vaca que espreita do estábulo, quatro figuras, dois pajens e dois peregrinos, conversam entre si.

rm57d_thumb2_thumbfig. 166 - Pormenor de fig. 160.

Por trás do estábulo uma paisagem pontuada de árvores tendo ao fundo num monte um cruzeiro e um poço, e no cimo um convento.

rm57_thumb2_thumbfig. 167 - Pormenor de fig. 160.

 

 

Gregório Lopes (c. 1490 - 1550) e Jorge Leal.

rm58_thumb2_thumbfig. 168 - Gregório Lopes e Jorge Leal, Adoração dos Reis Magos c. 1524 [Retábulo de S. Bento]. Óleo sobre madeira de carvalho 176,5 x 133 cm. Museu Nacional de Arte Antiga.

No lado direito o estábulo é agora substituído por uma edificação em pedra, devidamente aparelhada, e onde se destacam duas colunas em mármore vermelho e capitel coríntio, semelhantes às da pintura anterior.

No interior desta construção S. José, afastando um cortinado, observa a cena.

rm58a_thumb2_thumbfig. 169 - Pormenor da fig. 168.

A Virgem está sentada num degrau e encostada à construção, envergando o tradicional traje azul com uma bainha dourada, abraça, com ambas as mãos o Menino envolto num pano branco. Ambas as figuras têm delicadas auréolas de filigrana dourada.

rm58b_thumb2_thumbfig. 170 - Pormenor da fig. 168.

Os Reis Magos, ricamente trajados, colocam-se em frente à Virgem, Gaspar e Melchior ajoelhados e com as mãos juntas olham o Menino. Tem à sua frente no pavimento os seus presentes e a tampa da taça com moedas de ouro, está na mão de Maria.

 

rm58e_thumb2_thumbfig. 171 - Pormenor da fig. 168.

Baltazar, o mais ricamente vestido com uma vistosa capa vermelha de gola e alamares, brinco de preciosas pérolas adornando a orelha esquerda, ainda não totalmente ajoelhado, olha para o séquito que está atrás, e com a mão esquerda recebe de um pajem o seu presente, parecendo também, descrever a cena para os acompanhantes.

rm58g_thumb2_thumbfig. 172 - Pormenor da fig. 168.

Atrás dos Reis Magos os seus três pajens, seguidos por três personagens, de diferentes idades correspondendo e alinhados com os respectivos Reis, vestidos de negro, os dois mais à esquerda terão sido identificados como os indivíduos que encomendaram a pintura, mas que podiam, também, representar os pintores Gregório Lopes, Jorge Leal, e o mais jovem o filho de Gregório, Cristóvão Lopes.

rmd_thumb2_thumbfig. 173 - Pormenor da fig. 168.

Segue-se um enorme cortejo que serpenteia desde as bandeiras à esquerda e que de novo se vê, por cima da cabeça de Baltazar, numa curva da estrada que conduz a uma cidade que seria Belém.

rm58h_thumb2_thumbfig. 174 - Pormenor da fig. 168.

 

Francisco Campos (c.1515-1580)

Esta pintura maneirista, destinada à Sé de Évora, tem um particular interesse por apresentar já características, quer na dinâmica da composição, quer nas soluções plásticas, que se irão desenvolver no Barroco.

rm56_thumb2_thumbfig. 175 - Francisco Campos Adoração dos Magos c.1565-1570 Museu de Arte Sacra de Évora.

A Virgem, segurando o Menino, é representada algo alongada, inclinada criando uma diagonal, com São José que, numa pose dinâmica, surge como correndo.

Melchior e Gaspar ajoelhados, definem a outra diagonal. Ambas apontam para Maria.

rm56x_thumb3_thumbfig. 176 –Diagonais compositivas.

A Virgem, trajando o tradicional azul, sem auréola mas com um penteado de entrançados, está num degrau redondo.

Nesse degrau, ao lado de Maria está um assador de barro onde assenta uma panela de latão, e um cesto com alguns panos.

rm56a_thumb2_thumbfig. 177 – Pormenor de fig. 175.

Melchior debruça-se para o Menino a quem parece dizer alguma coisa, tem pousada à sua frente e aberta a caixa onde trouxe o ouro. No pavimento o seu chapéu-coroa , sobre o qual está pousada a espada com um punho trabalhado.

Gaspar, numa posição de joelhos mais correcta, destapa a taça onde traz a mirra.

rm56b_thumb2_thumbfig. 178 - Pormenor de fig. 175.

Baltazar, de pele escura mas sem feições negroides, surge em pé, a mão direita na anca o que, com o olhar, dá a sensação de uma atitude algo desafiadora.

Traja uma exótica indumentária, consistindo num saiote azul com elementos dourados, turbante cujo pano enrola em várias curvas e um enorme fio de ouro, de duas voltas, ao pescoço. Tem na mão direita uma vistosa taça de porcelana com uma estrutura em ouro.

rm56c_thumb2_thumbfig. 179 - Pormenor de fig. 175.

O cenário é agora constituído por ruínas de uma arquitectura clássica, com colunas jónicas de fuste estriado e um arco em ruína, por onde assoma o séquito dos reis.

rm56y_thumb2_thumbfig. 180 - Pormenor de fig. 175.

Por trás desse um meio arco em ruínas ainda se vê uma coluna partida e os restos de um templo com quatro colunas.

rm56d_thumb2_thumbfig. 181 - Pormenor de fig. 175.

 

 

Autor Desconhecido (1550-1600)

As figuras dos dois reis, Melchior e Gaspar, de joelhos, apontam para duas direções formando um triângulo, onde se inscreve a figura da Virgem, aureolada, segurando nos braços o Menino. No chão o turbante de Melchior (nesta pintura os Magos não trazem coroas) e o seu presente.

Por trás de Maria, São José com o braço direito levantado.

À direita o triângulo compositivo.

rm42z_thumb2_thumbfig. 182 - Desconhecido / Flamenga Adoração dos reis Magos Século XVI [2ª metade] Óleo sobre cobre 26,5 x 20,5 cm Museu Nacional de Soares dos Reis.

À esquerda o estábulo, onde se avista o burro e a vaca. É a ruína de uma construção pagã, com uma coluna coríntia reduzida à base e ao capitel.

À direita Baltazar, um pouco à margem, está de pé segura na mão direita o incensório e na esquerda o seu chapéu. Tem por trás um miúdo negro que serve de pajem. Ao fundo o séquito.

rm42x_thumb2_thumbfig. 183 – Pormenores da fig. 182.

 

Século XVII

A Adoração dos Magos na pintura Barroca

Simão Rodrigues e Domingos Vieira Serrão

Do início do século XVII, a Adoração dos Magos de Simão Rodrigues (c.1560-1628) e Domingos Vieira Serrão (1570-1632), executada para a Sacristia da Sé Velha de Coimbra, ainda com algumas características do Maneirismo, representa a cena da Adoração de uma forma mais austera. Os Reis são mais contidos no vestuário, não estão representados séquitos nem pajens, e não estão figurados quaisquer animais.

rm40_thumb2_thumbfig. 184 - Simão Rodrigues (c.1560-1628) e Domingos Vieira Serrão (1570-1632) Adoração dos Reis Magos, Sacristia da Sé Velha 1608, óleo sobre madeira de carvalho 130,7 x 149,3 cm. Museu Nacional Machado de Castro. Coimbra.

As figuras de Melchior, da Virgem e de S. José formam uma diagonal que dinamiza toda a composição.

rm40a_thumb2_thumbfig. 185 – A Diagonal compositiva.

A pintura apenas representa as seis personagens da Adoração: Maria, Jesus, José e os três Reis Magos. E um elemento que dá significado ao episódio que é a Estrela.

rm40_thumb5_thumbfig. 186 - Simão Rodrigues (c.1560-1628) e Domingos Vieira Serrão (1570-1632) Adoração dos Reis Magos, Sacristia da Sé Velha 1608, óleo sobre madeira de carvalho 130,7 x 149,3 cm. Museu Nacional Machado de Castro. Coimbra.

À esquerda a Sagrada Família. Maria está sentada com o rosto em destaque pelo contraste com o arco da austera arquitectura que abre para a paisagem. Tem nos braços um Menino Jesus já um pouco crescido.

S. José, agora aureolado seguindo as determinações da Contra-Reforma, está apoiado numa bengala e curva-se observando a cena.

rm40b_thumb2_thumbfig. 187 – Pormenor da fig. 184.

À direita os três Reis Magos. Melchior inclina-se para beijar os pés de Jesus. O seu presente e a sua coroa estão pousados no estrado onde está a Virgem.

Gaspar, de turbante e com a sua coroa, coloca-se por trás de Melchior. Segura a sua capa dourada com a mão esquerda e com a direita exibe a taça de ouro onde traz a mirra.

Baltazar, o Rei negro, em pé e um pouco afastado da cena, com a cabeça coberta da mesma forma de Gaspar, está vestido à romana e ergue com a mão direita o seu incensório em ouro trabalhado.

rm40d_thumb2_thumbfig. 188 – Pormenor da fig. 184.

 

Diego (Rodríguez de Silva y) Velásquez (1599-1660)

O jovem Velásquez assume nesta pintura a visão do Barroco como o mundo da representação, (como já neste blogue [1] se afirmou), e que o seu contemporâneo Pedro Calderón de la Barca (1600-1681) muito bem define no La vida es sueño do Gran teatro del mundo de 1635.

Na Adoração dos Magos de Velasquez, um quadro de grandes dimensões que nos remete para o seu interior, desaparece qualquer ostentação de riquezas e as personagens tornam-se mais humanas. Essa humanidade e realismo das figuras, por ser a família de Velasquez que aí foi retratada, conduz a que, para além do carácter religioso do tema, o pintor procurou celebrar a Família na sua própria família.

A 3852fig. 189 - Diego Velasquez (1599-1660) Adoração dos Magos 1610 óleo sobre tela 204 × 126,5 cm. Museo del Prado, Madrid.

Uma subtil diagonal aponta para o Menino e a Virgem, e separa a Sagrada Família dos Reis Magos e do pajem.

rm27qfig. 190 – A diagonal compositiva.

À direita a Sagrada Família. A luminosidade do quadro, que provem da esquerda incide sobre Maria (que teve como modelo Juana Pacheco a mulher do pintor) com a cabeça coberta por um véu e o Menino, de branco e já um pouco crescido (seria um retrato de Francisca a filha do pintor).

São José que a partir da Contra-Reforma ganha um papel mais destacado, surge mais novo e olhando amorosamente a Virgem.

A 3852fig. 191 – Pormenor da fig. 189.

À esquerda os três Reis Magos que não parecem nem Reis nem Magos, já que não apresentam quaisquer sinais de realeza ou de sábios. Todos eles apresentam como presentes taças iguais.

Por trás um pajem cujo modelo terá sido um serviçal da família do pintor.

A 3852fig. 192 - Pormenor da fig. 189.

Aqui é Gaspar, (um retrato do próprio pintor ou do seu irmão, que ajoelha perante a Virgem tendo na mão a taça de incenso. À sua esquerda surge a cabeça de Melchior, o Rei mais velho, cujo modelo terá sido Francisco Pacheco del Rio (1564-1644), pintor e sogro de Velásquez.

A 3852fig. 193 - Pormenor da fig. 189.

Baltazar, cuja coloração da pele é sublinhada pela gola branca surge de pé, envergando uma capa vermelha, cuja cor vibrante junto com os tons de castanho, de azul e os rosas compõe toda a coloração da pintura.

A 3852fig. 194 - Pormenor da fig. 189.

No canto superior esquerdo num fundo de tons escuros, através de um arco abre-se uma paisagem onde o sol se põe, entre a folhagem, por trás de uma colina.

A 3852fig. 195 - Pormenor da fig. 189.

 


[1] Barroquismos I http://doportoenaoso.blogspot.pt/2011/12/barroquismos-i.html

 

 

Peter Paul Rubens (1577-1640) [1]

 

Dos cosas despertaron mis antojos,
extranjeras, no al alma, a los sentidos:
Marino *, gran pintor de los oídos,
y Rubens, gran poeta de los ojos.
[2]

[ * Giambattista Marino (1569-1625) ver http://doportoenaoso.blogspot.pt/2011/12/barroquismos-i.html]

Na ocasião da assinatura de um tratado de paz entre Espanha e as Províncias dos Países Baixos, em Antuérpia, esta obra foi encomendada a Rubens e teve uma primeira versão elaborada entre 1608 e 1609, quando o pintor regressou de Itália.

Com a pintura já em Madrid, em 1628 a pedido do rei de Espanha, a obra foi reformulada e ampliada estando concluída no ano seguinte.

Se no quadro de Diego Velásquez as personagens se reduziam aos protagonistas do tema, num ambiente intimista, nesta Adoração dos Magos de Rubens, de grandes dimensões, o que chama de imediato a atenção do espectador é a quantidade de figuras que enchem todo o espaço da tela, criando um ambiente de grande cerimónia e ostentação.

rm29fig. 196 - Peter Paul Rubens (1577-1640) A Adoração dos Reis Magos 1608 e 1628-1629, óleo sobre tela 355,5 x 493 cm. Museu do Prado.

Talvez para sublinhar o carácter religioso do tema, Rubens na reformulação do quadro colocou na parte superior da composição, num céu quando a noite se faz dia, dois anjos que cantam "Gloria in excelsis Deo" dirigindo-se para o Menino, retomando a tradição medieval. 

frm29fig. 197 - Pormenor da fig. 196.

A composição organiza-se a partir de uma diagonal que parte do Menino e se dirige para a direita onde o enorme conjunto de personagens se acumula.

rm29zfig. 198 - Pormenor da fig. 196.

Rubens ilumina a cena com um fundo azulado do pôr-do-sol, e por trás das personagens, algumas tochas.

Mas parte de Jesus a luz que ilumina a Virgem e os Reis Magos, ou como diz o seu contemporâneo, Lope de Vega (1562-1635), os Reis não conseguem ver mais as estrelas, e

Ya no hallaréis luz en ellas,
el niño os alumbra ya,
porque donde el sol está
no tienen luz las estrellas.
[3]

E é para o Menino que também se dirigem todos os olhares.

rm29a 2fig. 199 - Pormenor da fig. 196.

Junto a umas ruínas de arquitectura clássica de que se vê a base de uma coluna, a Virgem, com o seu tradicional manto azul, está de pé segurando o Menino, com um pano que lhe cobre a cintura. Ele, aureolado, está apoiado numa almofada e sentado sobre uma manta que cobre as palhas da manjedoura. São José está também de pé, discretamente encostado ao edifício, ainda iluminado pelo Menino.

rm29a 1fig. 200 - Pormenor da fig. 196.

Um soldado olha o Menino com devoção como a protege-lo. Outro olha para a multidão procurando qualquer ameaça.  Por trás uma figura de turbante espreita a cena.

rm29q

fig. 201 - Pormenor da fig. 196.

Os Reis Magos, ricamente vestidos e adornados com preciosas jóias, estão acompanhados por um enorme séquito.

rm29pfig. 202 - Pormenor da fig. 196.

Gaspar, o rei de meia-idade, envergando uma rica capa de tons vermelhos e dourados, ajoelha-se e nesta pintura é quem entrega uma taça com moedas de ouro, uma das quais Jesus segura.

rm29afig. 203 - Pormenor da fig. 196.

Como na Adoração dos Magos com um rei índio, de Vasco Fernandes e Francisco Henriques, evoca-se a tradição do Pseudo-Mateus (XVI,1-2) Então descobriram os seus tesouros e ofereceram a Maria e a José riquíssimos presentes. Ao Menino cada um ofereceu uma moeda de ouro. Depois um ofereceu ouro, outro incenso e outro mirra.

rm29efig. 204 - Pormenor da fig. 196.

Os outros Reis Magos estão de pé, e duas crianças seguram os seus presentes.

Melchior, o mais velho, envergando uma rica túnica escarlate, recebe das mãos de uma criança a caixa de ouro com a mirra que irá oferecer ao Menino.

fig. 205 - Pormenor da fig. 196.

Baltazar a seu lado, com uma capa azul, tendo na cabeça um turbante com um enorme penacho, segura com a mão direita um pesado cordão de ouro, e tem a seu lado uma criança negra que sopra para a taça onde arde o incenso.

rm29a 3fig. 206 - Pormenor da fig. 196.

À direita do quadro, no primeiro plano, destacam-se as figuras de dois homens, que com um esforço desesperado transportam pesadas cargas, mostrando a sua condição de escravos.

rm29hfig. 207 - Pormenor da fig. 196.

Na parte direita do quadro, Rubens, nas alterações que realizou em 1628, junto ao seu ajudante que pintou envergando uma túnica azul e segurando o seu cavalo, autorretratou-se montando um cavalo branco.

Está de costas, mas rodando a cabeça para a figura do Menino. Veste um traje roxo, tendo à cintura uma espada e no pescoço um colar de ouro, mostrando a sua condição de nobre que lhe foi atribuída em 1624 por Filipe IV (1605-1665) rei de Espanha entre 1621 e 1665, e rei de Portugal até 1640.

rm29yfig. 208 - Pormenor da fig. 196.

Na parte superior do lado direito do quadro, sob o olhar fixo dos camelos, uma amálgama onde um escravo cai de costas para a cena sendo agarrado por outro, um cavaleiro com um ar de aflição e um homem com uma tocha.

rm29dfig. 209 - Pormenor da fig. 196.


[1] Ver o comentário de Gabriele Finaldi, director adjunto do Museu do Prado, a propósito do restauro do quadro entre 200 e 2002.

[2] Lope de Vega (1562-1635) soneto Que no es hombre el que no hace bien a nadie in Rimas Humanas y Divinas del licenciado Tomé de Burguillos 1634. Edicion de Juan Manuel Rozas y Jesus Cañas Murillo, Alicante : Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes, 2010 (pág. 259).

O soneto completo:

Dos cosas despertaron mis antojos,
extranjeras, no al alma, a los sentidos:
Marino, gran pintor de los oídos,
y Rubens, gran poeta de los ojos.


Marino, fénix ya de sus despojos,
yace en Italia resistiendo olvidos;
Rubens, los héroes del pincel vencidos,
da gloria a Flandes y a la envidia enojos.


Mas ni de aquél la pluma, o la destreza
déste con el pincel pintar pudieran
un hombre que, pudiendo, a nadie ayuda.


Porque es tan desigual naturaleza,
que cuando a retratalle se atrevieran
ser hombre o fiera, les pusiera en duda.

[3] Félix Lope de Vega y Carpio (1562-1635), La llegada de los Reyes Magos

Reyes que venís por ellas,
no busquéis estrellas ya,
porque donde el sol está
no tienen luz las estrellas.
Reyes que venís de Oriente
al Oriente del sol solo,
que más hermoso que Apolo,
sale del alba excelente.
Mirando sus luces bellas,
no sigáis la vuestra ya,
porque donde el sol está
no tienen luz las estrellas.
No busquéis la estrella ahora,
que su luz ha oscurecido
este sol recién nacido,
en esta Virgen Aurora.
Ya no hallaréis luz en ellas,
el niño os alumbra ya,
porque donde el sol está
no tienen luz las estrellas.
Aunque eclipsarse pretende,
no reparéis en su llanto,
porque nunca llueve tanto
como cuando el sol se enciende.
Aquellas lágrimas bellas,
la estrella oscurece ya,
porque donde el sol está
no tienen luz las estrellas.

Frans Francken II, o jovem (1581-1642) [1]

Frans Francken, o jovem, pintou diversas Adorações dos Magos. Esta que se encontra no Museu Nacional Soares dos Reis no Porto, sendo uma pintura a óleo sobre cobre está, por isso, muito escurecida.

rm59fig. 210- Frans Francken II, (1581-1642) Adoração dos Reis Magos Século XVII Óleo sobre cobre 35,2 x 27 cm. Museu Nacional de Soares dos Reis.

Assim utilizaremos simultaneamente uma cópia semelhante da mesma pintura, pertencente a uma colecção particular, que está emoldurada com cenas da Bíblia executadas por Ambrosius Francken II irmão do autor.

rm60fig. 211 - Frans Franken II, Adoração dos Magos c.1615, óleo sobre madeira, colecção particular, Holanda.

A Adoração dos Magos sem a moldura.

rm60aa 

fig. 212 - Pormenor da fig.211.

A composição tem rigorosamente ao centro a figura da Virgem com o Menino, encimadas pela Estrela.

rm60zfig. 213 – Linha compositiva central.

Ao centro a Virgem nas suas vestes tradicionais, com uma auréola dourada, segura o Menino também com uma auréola dourada. Por trás São José segurando um chapéu de cor dourada.

Melchior está de joelhos e mãos postas, tem, pendurada na cintura, uma espada que como a penas se vê a parte superior aparece como uma cruz. Tem nos ombros uma estola dourada que com as auréolas de Maria e de Jesus e o chapéu de José, centralizam o olhar e iluminam a cena. No chão a caixa das moedas de ouro.

rm60hfig. 214 – A parte central do quadro nas duas versões.

Os outros dois Reis Magos figuram um em cada lado da composição.

À direita São José, Melchior e Baltazar e dois acompanhantes, e um templo em ruínas de que resta uma coluna coríntia, e que serve de estábulo, embora não figurem quaisquer animais.

Baltazar, o Rei negro, ricamente trajado com uma longa capa dourada, cordões de ouro no pescoço e na cintura. Tem na cabeça, uma coroa em ouro e na mão direita o incensório de prata trabalhada.

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fig. 215 – A parte direita do quadro, nas duas versões.

À esquerda destaca-se a figura de Gaspar com o séquito real e ao fundo uma paisagem com um grupo de soldados montando dois elefantes.

Gaspar com uma veste dourada e uma gola de arminho, tem na cabeça um turbante, indicador da sua origem, e trás na mão um recipiente dourado com a mirra.

rm60gfig. 216 – A parte esquerda nas duas versões.

O fundo da composição é ocupado pelo céu enevoado e uma paisagem, com os exércitos em primeiro plano com os elefantes. Uma árvore separa esta paisagem do estábulo.

rm60kfig. 217 – A Paisagem do fundo nas duas versões.

Frans Francken, o jovem (1581-1642)

Um outro quadro provavelmente uma cópia de um Frans Francken, recentemente restaurado, que apresenta Baltazar com um estranho chapéu.

rm62fig. 218 - (D’après) Frans Francken o jovem ,A Adoração dos Magos, óleo sobre cobre 38 x 31,5 cm. Musée de la Ville de Poitiers et de la Société des Antiquaires de l'Ouest.

Nesta Adoração figuram apenas as seis personagens essenciais, colocadas junto a um edifício em ruína, que abre para uma paisagem.

A Virgem aureolada e com o seu traje tradicional, tem no seu regaço o Menino vestido, aureolado e de mãos juntas. São José aparece por trás.

Melchior com um manto dourado, está de joelhos e mãos postas adorando Jesus. Ao seu lado, por terra, o seu turbante e o ceptro. Neste caso, é ele que transporta o incenso que arde na caixa de ouro que tem junto aos pés da Virgem.

Gaspar vestido de vermelho, coroado tem na mão esquerda a taça com as moedas de ouro.

E Baltazar, o rei negro, com alguns pormenores mal desenhados, exibe um magnífico manto branco com gola e bordados dourados, tem na mão esquerda o recipiente com a mirra. O que torna a imagem singular é o vistoso chapéu de penas e pérolas que o Rei Negro exibe.

O artista não hesitou em pintar o original do seu quadro no centro de uma das suas obras a Sebastiaan Leerse na sua galeria.

rm62dfig. 219 - Frans Francken II, Sebastiaan Leerse in his Gallery. óleo sobre painel, 77 x 114 cm. Koninklijk Museum voor Schone Kunsten, Antwerp.


[1] Filho de Frans Francken I, o velho (1542-1616) e pai de Frans Francken III (1607-1667), todos pintores.

 

Luca Giordano (1634-1705)

Embora considerado como um esboço para as pinturas da Collegiata di San Michele ad Episcopio di Sarno, que se pensa ter sido realizada por um dos seus discípulos Andrea Miglionico (1662-1711), esta composição de Luca Giordano traz uma novidade.

Aos pés do Menino, assumindo portanto o principal protagonismo, está Baltazar o Rei Mago negro.

rm54afig. 220 - Luca Giordano (1634-1705) L' Adorazione dei Magi século XVII. Collegiata di San Michele ad Episcopio di Sarno.

De novo a composição é estruturada a partir de uma diagonal.

rm54rfig. 221 – Linha diagonal compositiva.

Uma linha vertical acentuada por uma coluna, separa a cena da Adoração das personagens secundárias.

rm54bfig. 222 – Linha vertical compositiva.

A luz que ilumina a composição vem da esquerda e do alto.

A Virgem está sentada num estrado com degraus, a cabeça inclinada e segura o Menino que tem na mão direita uma moeda.

São José por trás inclina-se apoiado numa bengala.

O Rei Negro está ajoelhado, preparando-se para beijar os pés de Jesus. A seu lado, pousados no estrado o incensório e o turbante.

Por trás está Gaspar, de pé e com a coroa na cabeça, esperando com o seu presente de mirra.

A figura que se perfila do lado direito, será Melchior depois de prestada a sua devoção.

rm54efig. 223 – Pormenor da fig. 220.

Por cima destas principais personagens, umas ruínas de que se vê ainda uma arco e à direita o estábulo com uma coluna coríntia.

rm54qfig. 224 - Pormenor da fig. 220.

No enfiamento da coluna está o pajem de Melchior com a bandeja das moedas de ouro, e no primeiro plano, o que se presume ser o pajem de Baltazar, ambos ajoelhados e de costas.

Atrás destas figuras duas crianças uma brincando com um cão, e à esquerda uma personagem deitada por terra junto a um cavalo que se empina, e mais personagens ao fundo sobre um arco em ruínas.

Ainda do outo lado da coluna, duas figuras uma de branco parecendo uma estátua e um pastor junto a dois dos camelos brancos em que viajaram

…I Magi
sopra cammelli bianchi
seguivan la cometa…
felici e un poco stanchi. [1]

[…Os Magos
Montando camelos brancos
Seguiam o cometa…
Felizes e um pouco cansados.]

 

rm54gfig. 225 - Pormenor da fig. 220.

Sobrevoando a cena, por entre as nuvens iluminadas pelo pôr-do-sol, dois anjos,

Cantano intorno gli angeli:
“All’umile Giudeo
s’inchinano i potenti:
Gloria in excelsis Deo!” [2]

Um deles incensando a cena e o outro de braços abertos anunciando o acontecimento.

rm54hfig. 226 - Pormenor da fig. 220.


[1] Anónimo italiano.

I Re Magi

Era una notte azzurra / con tante stelle in cielo; /sopra le dune sparse / palme dal lungo stelo. //
Dolce silenzio. I Magi /sopra cammelli bianchi / seguivan la cometa…/felici e un poco stanchi.//
Venivan da lontano, /da regni d’oltremare, /scrutavan l’orizzonte /desiosi d’arrivare. //Ecco Betlemme alfine; /ecco, nella capanna, /un tenero Bambino / in braccio alla sua Mamma. //I vecchi Re si prostrano /e ognuno di loro /offre un suo dono splendido: /incenso, mirra e oro. // Cantano intorno gli angeli: /“All’umile Giudeo /s’inchinano i potenti: / Gloria in excelsis Deo!”

[2] Idem.

 

 

Nicolas Poussin (1594- 1665)

Nicolas Poussin, contemporâneo René Descartes (1596-1650), introduz na sua pintura uma racionalidade semelhante ao filósofo no seu discurso. Ambos são percursores do classicismo francês.

A pintura de Poussin era muito reflectida executando diversos desenhos preparatórios. No caso da Adoração dos Magos, este estudo mostra que foi sobretudo a parte direita da composição que se alterou. Os três cavalos dos reis com os seus tratadores que estão junto das figuras principais, na versão final serão afastados para uma colina, para não perturbarem a cena principal.

rm64fig. 227 – Nicolas Poussin. L'adoration des mages,desenho à pena, lavis e tinta castanha 173 x 332cm. musée Condé Chantilly.

Na versão final, o séquito dos reis é remetido para uma colina ao fundo, permitindo um enquadramento paisagístico da composição.

rm28fig. 228 . Nicolas Poussin (1594- 1665) Adoração dos Magos 1633, óleo sobre tela 160 x 182 cm. Gemäldegalerie Alte Meister Dresden, Alemanha.

As personagens de configuração camponesa, mãos fortes, pé solidamente implantado no chão, trigueiras como o barro, [1] estão colocadas sob uma ordem bem determinada, organizadas segundo linhas compositivas horizontais dirigidas para Jesus. Duas subtis diagonais, geradas pelos braços das personagens à direita, dinamizam o primeiro plano da composição.

rm28zfig. 229 - Linhas estruturantes da composição.

À esquerda a Sagrada Família. Em frente os três Reis Magos. Depois três pajens. E finalmente um soldado e dois pastores.

À esquerda a Sagrada Família, forma uma vertical acentuada pela coluna do templo.

A Virgem está sentada num degrau do arruinado templo, e tem ao colo o Menino. Um São José ainda novo, está por trás, apoiando-se numa bengala.

rm28rfig. 230 - Pormenor da fig.228.

Os Reis Magos estão em frente. Melchior ajoelhado e Gaspar com um joelho em terra, enquanto Baltazar inclinado na sua homenagem.

Todos se vestem como pastores, sem qualquer ostentação, e apenas a coroa e o recipiente em ouro, no chão junto a Melchior e a coroa e o presente de Gaspar, pousados numa enorme pedra do templo, indicam que se trata de reis.

Buscaban un dios nuevo, y dicen que le hallaron.
Yo apenas vi a los hombres; jamás he visto
dioses.
[2]

rm28mfig. 231 - Pormenor da fig.228.

Do lado direito da composição, Poussin coloca dois grupos.

O grupo dos pajens, em que o pajem de Gaspar, que com a coroa e o presente pousados na pedra, mostra uma expressão de espanto perante aquela criança a que os reis veneram; o jovem negro e de branco como Baltazar e que segura a sua coroa; e o outro, o de Melchior, já ajoelhado, a mão direita levantada e a esquerda apoiada no joelho.

De seguida o grupo de três outras figuras, em movimento, um soldado com o seu escudo e a lança ao alto; um negro com a mão no peito apoiado numa longa vara; e uma figura de verde numa atitude de querer aproximar-se do Menino.

rm28tfig. 232- Pormenores da fig.228.

Na parte superior da pintura à esquerda as ruínas do templo.

rm28cfig. 233 - Pormenor da fig.228.

Na parte superior direita, os três cavalos dos Reis Magos, com os respectivos tratadores, e os camelos que transportaram o necessário para a longa viagem.

Estão à sombra de umas árvores e de uma construção, abrigando-se do calor que o terreno pedregoso, a rara vegetação e o tom avermelhado, denotam.

rm28dfig. 234 - Pormenor da fig.228.


[1] René Huyghe (1906-1997), Diálogo com o Visível, tradução de Jacinto Baptista Livraria Bertrand 1955. (pág.298).

[2] Luis Cernuda (1902-1963), La Adoracion de Los Magos in Las nubes 1937-1938, Coleccion Rama d’Oro Buenos Aires M CM XLIII (pág.28 a 34).

SOBRE EL TIEMPO PASADO

Mira cómo la luz amarilla de la tarde
Se tiende con abrazo largo sobre la tierra
De la ladera, dorando el gris de los olivos
Otoñales, ya henchidos por los frutos maduros;

Mira allá las marismas de niebla luminosa.
Aquí, año tras año, nuestra vida transcurre,
Llevando los rebaños de día por el llano,
Junto al herboso cauce del agua enfebrecida;

De noche hacia el abrigo del redil y la choza.
Nunca vienen los hombres por estas soledades,
Y apenas si una vez les vemos en el zoco
Del mercado vecino, cuando abre la semana.

Esta paz es bien dulce. Callada va la alondra
Al gozar de sus alas entre los aires claros.
Mas la paz, que a las cosas en ocio santifica,
Aviva para el hombre cosecha de recuerdos.

Tiempo atrás, siendo joven, divisé una mañana
Cruzar por la llanura un extraño cortejo:
Jinetes en camellos, cubiertos de ropajes
Cenicientos, que daban un destello de oro.

Venían de los montes, pasados los desiertos,
De los reinos que lindan con el mar y las nieves,
Por eso era su marcha cansada sobre el polvo
Y en sus ojos dormía una pregunta triste.

Eran reyes que el ocio y poder enloquecieron,
En la noche, siguiendo el rumbo de una estrella,
Heraldo de otro reino más rico que los suyos.

Pero vieron la estrella pararse en este llano,

Sobre la choza vieja, albergue de pastores.

Entonces fué refugio dulce entre los caminos
De una mujer y un hombre sin hogar ni dineros:

Un hijo blanco y débil les dió la madrugada.

El grito de las bestias acampando en el lleno
Resonó con las voces en extraños idiomas,
Y al entrar en la choza descubrieron los reyes
La miseria del hombre, de que antes no sabían.

Luego, como quien huye, el regreso emprendieron.
También los caminantes pasaron a otras tierras
Con su niño en los brazos. Nada supe de ellos.
Soles y lunas hubo. Joven fuí. Viejo soy.

Gentes en el mercado hablaron de los reyes:
Uno muerto á regreso, de su tierra distante;
Otro, perdido el trono, esclavo fué, o mendigo;
Otro a solas viviendo, presa de la tristeza.

Buscaban un dios nuevo, y dicen que le hallaron.
Yo apenas vi a los hombres; jamás he visto
dioses.
¿Cómo ha de ver los dioses un pastor ignorante?
Mira el sol desangrado que se pone a lo lejos.

 

 

Seculo XVIII

No século XVIII os temas religiosos tornam-se menos frequentes e a Adoração dos Magos é, normalmente, reduzida às principais personagens. 

Gaspare Diziani (1689-1767)

A Adoração dos Magos de Diziani, do início do século XVIII, representa a transição do tardo-barroco para o neoclássico.

rm30fig. 235 - Gaspare Diziani (1689-1767), A Adoração dos Magos 1718 óleo sobre tela Museu de Belas Artes de Budapeste, Hungria.

Uma diagonal que liga as principais personagens da cena, a Virgem e o Rei Mago em adoração, estrutura a composição segundo os princípios do Barroco.

rm30zfig. 236 – A Diagonal compositiva.

Uma linha vertical divide rigorosamente a pintura em duas partes.

À direita a Virgem com o Menino e São José nas ruinas de um templo clássico, de que se vê parte de uma coluna e um capitel no chão.

À esquerda os três Reis Magos, na posição habitual, com Melchior ajoelhado perante Jesus, Gaspar a ajoelhar-se e Baltazar em pé. Por trás deste um sldado com uma bandeira representa o séquito real.

rm30yfig. 237 – A Vertical que divide a composição em duas partes.

A Virgem, está sentada num degrau do templo, segurando o Menino que escorrega sobre o seu joelho esquerdo. Por trás, apoiando-se num muro, está São José que olha na direção de Melchior.

rm30bfig. 238 - Pormenor da fig. 235.

Por terra, aos pés da Virgem, a caixa contendo as moedas de ouro, o turbante coroado do Rei Mago e um capitel compósito.

rm30cfig. 239 - Pormenor da fig. 235.

Na metade esquerda da pintura, os três Reis Magos: Melchior ajoelhado na adoração, Gaspar com a coroa na cabeça e segurando a taça de mirra e Baltazar, o rei negro, de pé, ricamente vestido de turbante na cabeça. ,

rm30afig. 240 - Pormenor da fig. 235.

Baltazar segura com ambas as mãos o incensório, tendo por trás o soldado de elmo e armadura, com a bandeira.

rm30efig. 241 - Pormenor da fig. 235.

Charles Andre van Loo (1705-1765)

A Adoração de Charles van Loo, configura-se de um modo semelhante, onde apenas a posição das figuras está invertida.

4X5 origfig. 242 - Charles Andre van Loo, Adoração dos Magos c. 1760, óleo sobre tela 129,54 × 105,41 cm. Los Angeles County Museum of Art.

Uma diagonal que une as principais personagens dinamiza a composição.

rm63bfig. 243 – A Diagonal compositiva.

A pintura é dividida por uma linha, rigorosamente ao meio, que separa a Sagrada Família dos Reis Magos e do seu séquito.

A linha mediana passa pelos olhos da Virgem.

rm63cfig. 244 – As linhas medianas vertical e horizontal.

Do lado esquerdo a Virgem sentada numa sela, abre um pano branco mostrando o Menino deitado sobre uma manta que cobre a manjedoura. Por trás São José segurando o burro, que com a sela, são uma alusão à Fuga para o Egipto. A vaca encontra-se quase escondida por trás do burro.

4X5 origfig. 245 – Pormenor da fig. 242.

Do lado direito da pintura os três Reis Magos com Melchior ajoelhado, segurando a coroa como se a quisesse oferecer a Jesus e a caixa das moedas aberta sobre o degrau onde se encontra a Virgem.

Gaspar, com a coroa na cabeça, e Baltazar, de turbante, curvam-se para o Menino oferecendo a mirra e o incenso.

Atrás deles uma jovem olha para um soldado a cavalo, que de costas voltadas para a cena, fala com um tratador do camelo que transporta uma carga. Várias bandeiras representam o numeroso séquito que acompanhou os Reis.

4X5 origfig. 246 - Pormenor da fig. 242.

A parte superior da composição tem do lado esquerdo o templo arruinado, de que restam duas colunas partidas. Uma ergue-se já com fendas e vegetação, e a outra serve de suporte à estrutura de madeira que cobre o estábulo.

Como na pintura medieval, regressam no céu os quatro anjos. Um grupo de três e um mais isolado. Entre eles a Estrela que guiou os Reis e cuja luz se dirige para o Menino.

4X5 origfig. 247 - Pormenor da fig. 242.

 

 

Giovanni Battista Tiepolo (1696 —1770)

The Adoration of the Magifig. 248 - Giovanni Battista Tiepolo, Adoração dos Magos c. 1750, óleo sobre tela 60,3 x 47,6 cm. Metropolitan Museum of Art, NY.

Esta obra de Tiepolo é considerada um esboço de uma pintura realizada para ornamentar o altar da abadia de Schwarzach e que actualmente, se encontra na Pinacoteca de Munique.

Há contudo algumas diferenças, como a supressão do Arco de Triunfo que aparecia ao fundo da composição, e na posição de São José por trás da Virgem, que abrindo os braços num gesto de surpresa, o seu manto escuro faz realçar a figura iluminada de Maria e de Jesus.

rm61pfig. 249 - Giovanni Battista Tiepolo A Adoração dos Magos 1753, óleo sobre tela 425 x 211 cm. Alte Pinakothek Munique.

Na obra que consideramos ainda se podem encontrar linhas de composição como a diagonal e a mediana que dirigem o olhar do espectador para o rosto da Virgem.

rm61fig. 250 – As linhas compositivas.

A luz forte que incide na cena e vem por detrás e pela direita do espectador.

À direita temos a Sagrada Família, com José protegendo Maria, tendo na mão esquerda um chapéu de camponês. A Virgem tem a seus pés um pedaço do entablamento do templo pagão, e um jovem transporta a palha que irá alimentar a vaca que está aninhada no canto inferior esquerdo.

The Adoration of the Magifig. 251 – Pormenor da fig. 248.

Melchior está ajoelhado, a cabeça inclinada com ternura beija os pés do Menino que sorri. A coroa real está negligentemente pousada no chão. Um jovem pajem, vestido de amarelo e também ajoelhado, tem nas mãos o cofre do ouro.

The Adoration of the Magifig. 252 - Pormenor da fig. 248.

Os outros Reis, Gaspar e Baltazar permanecem de pé.

Gaspar envolto num amplo capote dourado, a cabeça escondida, parece reflectir sobre o acontecimento. Tem a seu lado dois pajens um dos quais transporta o seu presente.

Baltazar, de costas para o espectador, turbante na cabeça que deixa entrever o seu rosto de pele escura, a mão direita na cintura, prende a dobra do seu rico manto de peles. Nos pés chinelos dourados. Atrás dele o seu pajem de joelhos transporta o incensório que será o seu presente. Há uma outra figura de turbante que poderia, também, ser Baltazar. Mas a sua supressão na tela definitiva afasta essa hipótese.

The Adoration of the Magifig. 253 - Pormenor da fig. 248.

Por trás da Virgem o templo pagão que serve de estábulo, em que o que resta de uma coluna onde um pastor se agarra, suporta a improvisada cobertura de madeira.

E num céu matinal, onde voam três pássaros, de novo o grupo de quatro anjos, três juntos e um mais isolado, pairam sobre a cena, que tem ao fundo um Arco de Triunfo de mármore branco, com colunas coríntias e friso trabalhado.

The Adoration of the Magifig. 254 - Pormenor da fig. 248.

 

Século XIX

Para terminar não podia deixar de referir a Adoração dos Magos, de Domingos Sequeira. [1]

Domingos Sequeira (1768-1837)

The supreme question about a work of art is out of how deep a life does it spring. [2]

No quadro de Domingos Sequeira está bem expresso que, são outros os tempos, e acontecimentos internacionais e nacionais, que Sequeira viveu, transformaram a sua visão do mundo.

rm31fig. 255 - Domingos António Sequeira (1768-1837), A Adoração dos Magos, 1828. Óleo sobre tela 100 x 140 cm. Museu Nacional de Arte Antiga.

Uma diáfana e luminosa névoa, cai iluminando a cena, sugerindo a imanência divina.

Esta luminosidade faz ressaltar a textura, a cor e o brilho da composição, valorizando a sua componente plástica.

Uma multidão dispõe-se em círculo rodeando a Sagrada Família e os Reis que se ajoelham e deitam aos pés de Jesus.

Em tempos liberais, já não são os súbditos dos monarcas mas uma centena de cidadãos, homens, mulheres e crianças, reunidos em assembleia que, em semicírculo, testemunham a adoração dos reis perante Jesus.

Repare-se como as figuras se prolongam no primeiro plano, de costas, ajoelhados ou deitados, completam o semicírculo.

rm31efig. 256 – A multidão em assembleia rodeando as figuras principais.

No centro Maria está de pé, nos braços embala o Menino, que parece espantado com a luz celestial que o invade.

Um José ainda novo olha os outros dois Reis em adoração.

rm31gfig. 257 – As personagens principais ao centro e iluminadas pela luz que cai do alto.

Melchior, com um manto branco adornado de colares em ouro, a cabeça descoberta, ajoelha perante Jesus. Com as duas mãos oferece uma taça onde estão as moedas de ouro que traz para oferecer ao recém-nascido.

Nas suas costas está, também ajoelhado, o jovem pajem que segura o seu turbante.

rm31cfig. 258 – Pormenor da fig. 255.

Gaspar está deitado por terra, coberto pelo seu riquíssimo manto de brocado dourado, as mãos estendidas em devoção.

Um pajem, transporta o seu presente, uma jarra em porcelana nacarada com adornos de ouro.

Baltazar a seu lado de joelhos, também ricamente vestido com uma capa vermelha e com um turbante azul coberto de ouro e pedras preciosas, ergue uma taça de forma oval, de vidro coalhado, e com um fecho de ouro.

Por trás estão os seus dois pajens negros, vestidos de azul e com turbantes.

rm31bfig. 259 - Pormenor da fig. 255.

No lado esquerdo da pintura, no primeiro plano, um grupo (de sábios?) onde uma figura de túnica azulada e de turbante contempla o céu e a origem da luz que vem certamente da Estrela.

Ao fundo à esquerda, alguns cavaleiros, seguidos pelo que parece ser um carro junto ao qual se encontram dois camelos.

rm31hfig. 260 - Pormenor da fig. 255.

Na direita junto ao que resta de uma coluna de um templo, um outro grupo, menos numeroso, figurando várias origens e idades.

rm31kfig. 261 - Pormenor da fig. 255.


[1] Recentemente adquirido, pelos portugueses, para o Museu Nacional de Arte Antiga. Por isso ver Alexandra Gomes Markl, A luz é a verdadeira protagonista da Adoração dos Magos https://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/adoracao-dos-magos-1711904

[2] James Joyce (1882-1941), Ulysses. Published for the Egoist Press, London by John Rodker, Paris 1922. (pág.177).

Tradução: O que acima de tudo importa numa obra de arte é, como emerge das profundezas de uma vida.

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