Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















domingo, 26 de fevereiro de 2017

O CARNAVAL em 1855

 

7674_1576688Thomas Couture (1815-1879), impresso por Jules Desfossé (1816-1889), The Supper after the Masked Ball (A Ceia depois do Baile de Máscaras), c. 1855, Xilogravura e técnica mista 176 x 245 cm. Art Institute of Chicago.

Faustino Xavier de Novaes (Porto 1820 - Rio de Janeiro 1869)

Aquella proveitosa liberdade
Aos antigos Poetas concedida
De mostrar de mil erros a verdade,
E do mais livre povo então soffrida
E do mais poderoso receada.
Porque entre nós será mal recebida?...
António Ferreira – Livro 2º, Carta 5.º


Louco Entrudo! Vae-te embora,
Que o teu prestigio acabou!
Foste grande – mas agora
O tempo tudo mudou!
Seguindo mais largo trilho
Vae, longe, ganhar brilho
Que perdeste em Portugal!
Aqui venceu-te o – Progresso
Que este povo traz oppresso
N’um perpetuo carnaval!


Foi-se o tempo em que enfeitado
Com as pennas do pavão,
Em teu dia, mascarado
Se via qualquer peão,
Que alheias roupas vestia,
E fidalgo se fingia
Iludindo os seus iguaes;
Isso, que então era engano,
Vê-se agora todo o anno …
Sem carêta… que inda é mais!...


A plebe, então, que se via
Pelas ruas a rodar
Em ricos trens, pretendia
Por nobre gente passar:
As multidões, apinhadas,
Rindo, embora, às gargalhadas,
Sabiam culto fingir:
Isso, que era então folguedo,
Hoje é sério; mas, sem medo,
Continua o povo a rir!


Coberta a cara, escondida
Sob papel com verniz,
Sotaina larga e comprida,
Cangalhas sobre o nariz;
Os mancebos à porfia,
Assoalhavam no teu dia
Os trajes de seus avós!
Hoje – sempre, e sem careta,
Manda-os a moda, indiscreta,
Assim andar entre nós!


Feio antigo penteado
Se via em tuas funções: -
Hoje – o pêllo arripiado
Usam damas nos salões!
De longa cauda os vestidos,
Que às velhas eram pedidos
Em teu dia – usam também!
E entrou tanto a moda em brio,
Que nem me lembra o feitio
Que um pé de senhora tem!


Perdia então quem, por brinco,
Duas caras vinha expor; -
Hoje o que tem quatro ou cinco
Fazem-no comendador!
Então, na rua e nas salas,
Jamais do mascara às fallas
Atenção se ia prestar!
Hoje esses, todos os dias,
Recebem mil cortezias,
Tem ouro para as pagar!


Louco entrudo Vae-te embora,
Que o teu prestigio acabou!
Foste grande – mas agora
O tempo tudo mudou!
Vae, longe, ganhar o brilho
Que perdeste em Portugal!
- Aqui venceu-te o – Progresso
Que este povo traz oppresso
N’um perpétuo carnaval!

Fevereiro 12, de 1855.

[ Qualquer semelhança com os dias de hoje é pura coincidência!!! ]

1 comentário:

  1. Maravilhoso espaço onde me encontrei. Este é o meu lugar! Digo isso por ser um versejador que compõe também décimas do cancioneiro português. Décimas essa vindas de Dom Diniz à Camões, Sá de Miranda, Bernardim e outros. E que agora está em voga na Universidade (Letras) de Coimbra que contratou Adriana Calcanhoto para lá lecionar e cantar as décimas. Grande abraço. Laerte.

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