Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

O rio e o mar da foz do Douro

 
Derivas pelas margens da Foz do Douro

Nota de abertura : Este texto não é sobre a história da Foz do Douro. Vários autores sobre a Foz do Douro já, exemplarmente, se foram disso encarregando. Também neste blogue uma ou outra vez se fez referência à Foz do Douro. Agora, trata-se apenas de uma, longa e descomprometida, deriva pelas marginais do rio e do mar, lembrando, evocando ou apontando, aqui e ali, este ou aquele aspecto, socorrendo-me de citações de textos, de fotos ou postais, e sempre que possível de pinturas cujo tema é a Foz do Douro.

I Parte - Deriva pela foz do Douro evocando a cultura clássica, nos seus três tempos: antiguidade, renascimento e neoclássico.
Cap. I - Diomedes, o Porto e a Foz do Douro.

O mytho é o nada que é tudo. [1]

Partamos pois, não da história mas do mito, deixando-nos arrastar, poeticamente, por aqueles que nos dizem ter sido a partir do mar e pela foz do Douro, que Portus e Cale foram fundadas.

Lembremos, por isso,

O Grego , que vencendo o mar, e ventos,
Lançou, da nobre Cale os fundamentos.
[2]

O grego é Diomedes, o herói da Guerra de Troia e companheiro de Ulisses, que navegando para ocidente e depois de passar as Colunas de Hércules, rumando ao norte, chega à foz do Douro.

A lenda está baseada nas referências que Estrabão (c.64 a.C. – 21 ou 25 d.C.) faz à presença grega no noroeste da Península Ibérica.


Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade,
E a fecundál-a decorre
. [3]

Segundo esta lenda, Diomedes, passada a difícil barra e subindo o rio, encontra um lugar tão aprazível, que aí funda uma cidade.

f1fig. 1 - Jean Pillement (1728-1808), A Foz do rio Douro, séc. XVIII, pastel 51,5 x 66 cm. Museu Nacional de Arte Antiga.

Este, que aqui aportou,
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos bastou.
Por não ter vindo foi vindo
E nos criou.
 [4]


[1] Fernando Pessoa (1888-1935), Mensagem II. Os Castellos Primeiro Ulysses  in Fernando Pessoa, Obra poética, Organização, introdução e notas de maria Aliete Galhoz, Companhia Aguilar Editora, Rio de Janeiro 1965. (pág.72). Embora o poema como o nome indica se refira a Ulisses ele serve inteiramente a Diomedes o seu companheiro que mitologicamente fundou o Porto.

[2] João Peixoto de Miranda, Cale ou A Fundação da Cidade do Porto, (1838). Poema de João Peixoto de Miranda, Typographia de D. António Moldes, Largo da Batalha n.º41, Porto 1850. (Canto I, Estrofe 2, pág. 15).

[3] Fernando Pessoa (1888-1935), Mensagem II. Os Castellos Primeiro, Ulysses in Fernando Pessoa, Obra poética, Organização, introdução e notas de maria Aliete Galhoz, Companhia Aguilar Editora, Rio de Janeiro 1965. (pág.72).

[4] Fernando Pessoa (1888-1935), Mensagem II. Os Castellos Primeiro, Ulysses in Fernando Pessoa, Obra poética, Organização, introdução e notas de Maria Aliete Galhoz, Companhia Aguilar Editora, Rio de Janeiro 1965. (pág.72).

 

Cap. II - Diomedes

Diomedes, do potente grito de guerra, é filho de Tideu e de Deipile. Segundo Homero e Virgílio herda o trono de Argos da sua mãe a filha de Adrasto, o rei na época da guerra de Tróia.

É um companheiro de Ulisses que acompanha nas várias peripécias do ciclo troiano.

Após a Guerra de Tróia, Ulisses e Diomedes, teriam partido em viagem através do Mediterrâneo.

Concede-me os desejos com que domas
Humanos e immortaes: aos fins do globo
Visitar Oceano pae dos deuzes…
[1]

f2fig. 2 - Herbert James Draper (1863-1920) A cólera do deus do mar, s/d. Óleo s/ tela 60,96 x 101,6 cm. Colecção particular.

Diomedes em Homero

Diomedes é um dos heróis da Ilíada de Homero, onde surge no primeiro no Livro II (Diomedes bellicoso o maximo era), e a quem é dedicado a quase a totalidade do Canto V. Aparece, depois, ao longo de toda a narrativa.

Combatente vigoroso, protegido de Atenas, atacou Ares (Marte) e feriu Afrodite (Vénus) numa mão, quando esta protegia Eneias com a sua capa, gerando assim a eterna cólera da deusa.

f3fig. 3 – (D'après) Thomas Stothard (1755-1834), . Aphrodite enlevant Enée du combat. London 1806. Bibliothèque national de France.

Segundo Homero, na Ilíada:

E a dos risos, amante: «Não foi nume,
Foi Diomedes suberbo, quando a Eneas,
Por quem mais estremeço, ao perigoso
Combate eu subtrahia. A Grega audacia,
Não somente a mortais, ataca os deuses.»
 [2]

Ingres pinta Diomedes, sentado junto a Eneias, que ferido está estendido no chão. Afrodite prepara-se para regressar ao Olimpo no seu carro celeste.

f4fig. 4 - Jean Auguste Dominique Ingres (1780-1867), Vénus blessée par Diomède c. 1800, óleo s/madeira, 26,5 x 33 Kunstmuseum Basel Suisse.

Joseph Marie Vien, também pinta o episódio com Vénus (Afrodite) ferida por Diomedes, sendo amparada por Iris e Marte, que a ajudam a subir para o carro que a transporta para o Olimpo.

f5fig. 5 - Joseph Marie Vien (1716-1809),Vénus blessée par Diomède 1775, óleo s/tela 159 x 204 cm. The Columbus Museum of Art. USA.

Diomedes fere ainda Ares (Marte) obrigando-o a abandonar o campo de batalha.

Dice, e Sthenelo empurra, que do carro
Saltou mais lesto, e irosa com Diomedes
Monta a par: de uma deusa e heroe tamanho
Do eixo a faia carregado geme.
De bridas e chicote, ella os cornipedes
Deita a Marte, que sujo da carnagem
Ao gran Periphas, dos Etolios honra,
Filho do magno Ochesio, despojava.
De Plutão põe Minerva o capacete,
Para encobrir-se ao nume furibundo.
Vendo a Tydides, o homecida o corpo
Deixa disforme, exanime e estirado,
E endireita ao galhardo cavalleiro.
Já fronte a fronte, suspirando Marte
Por desalmal-o, sobre o jugo e as redeas
Atesa braço e esgrime; a langa ahenea
Da Olhi-cerulea a dextra arreda e frustra
O heroe despede a sua, que ao vazio
Dirige Pallas, onde o cinto morde:
Rasga-se a branda pelle, e o bronzeo nume
Urra, ao sacar-se ao ponta, qual de nove
Ou dez mil combatentes o alarido
Em prelio acceso; aterra Argeus e Troas
Do formidando Marte o grito horrendo.
 [3]

f6fig. 6 – John Flaxmann (1755-1826), Diomedes e Atenas atacam Ares, Iliade Livro V in The Iliad of Homer engraved by Thomas Piroli from The Compositions of John Flaxman Scvulptor, Rome 1793. London 1795.

No Canto X, Diomedes surge de novo acompanhando Ulisses no roubo dos cavalos, quaes nunca vi grandissimos e bellos, de Reso (rei da Trácia e aliado dos Troianos). De noite os dois atacam de surpresa, matam Dolon o denunciante, matam Reso, que dorme na sua tenda, e roubam os cavalos.

O heroe vai-se ao trezeno, ao triste Rheso,
Que expira ao despertar de um pesadelo,
Onde Minerva toda a noite a imagem
Lhe poz d’aquella morte a cabeceira
. [4]

f7fig. 7 - Corrado Giaquinto (1703-1765), Ulisses e Diomedes na tenda de Resos, óleo s/tela 128 x 98 cm. Pinacoteca di Bari.

De seguida vão oferecer as magníficas montadas a Nestor que lhes pergunta:

Interroga Nestor: Esses cavallos,
Nobre Ulisses, da Grecia adorno e brilho,
Donde os houvestes? Penetrando o campo.
Ou de um deus recebendo-os no caminho?
Radeiam como o Sol.
 [5]

f9fig. 8 - John Flaxmann (1755-1826), Diomedes e Ulisses apresentam os cavalos de Resos a Nestor, in The Iliad of Homer engraved by Thomas Piroli from The Compositions of John Flaxman Scvulptor, Rome 1793. London 1795.

Diomedes surge também na Odisseia, associado ao episódio do Cavalo de Tróia. O episódio é narrado por Ulisses quando recorda a sua participação na Guerra de Tróia.

E foi assim, de fato, que depois iria cumprir-se:
o destino era a ruína quando a urbe encobrisse
grande cavalo de madeira onde, sentados, todos os melhores
argivos estivessem, levando matança e perdição aos troianos.
Cantava como os filhos dos aqueus saquearam a urbe,
despejados do cavalo, após da oca tocaia sair.
 [6]

f8fig. 9 - Giovanni Domenico Tiepolo (1696-1770), Os troianos levando o Cavalo para o interior de Tróia, 1773. Óleo sobre tela 39 x 77 cm. National Gallery London.

Diomedes em Virgílio

Nunc, quales Diomedis equi; nunc quantus Achilles.

Virgílio na Eneida, no final do Canto I, coloca Diomedes, no palácio de Dido, a rainha de Cartago, que apaixonada por Eneias, o questiona sobre a Guerra de Tróia.

Pelo seu lado também, a infortunada Dido prolongava a noite,
Falando de tudo, bebendo o amor em longos tragos;
Colocava mil questões sobre Príamo, sobre Heitor;
Que armas exibia o filho da Aurora quando chegou?
Como eram os cavalos de Diomedes, ou o grande Aquiles?
“Mas então caro hóspede, conta-nos tudo desde o início,
As armadilhas dos Daneus, e as desgraças dos teus,
E as tuas próprias viagens; já que há sete verões
Tu viajas, levado para toda a parte por terras e mares”.
[7]

No Canto II, embora não directamente referido, Diomedes é um dos protagonistas, com Ulisses, do episódio do Cavalo de Tróia e do roubo do Palladium.

No Canto VIII, Os habitantes da Itália, pretendem combater Eneias, o troiano, que se aproxima com uma armada. Sabendo da rivalidade, durante a guerra de Troia, entre Diomedes e Eneias, enviam uma embaixada, comandada por Venulus, a Diomedes que se encontra retirado no seu palácio na cidade que fundara, para tentar convence-lo, a eles se juntar contra o invasor.

Enviam também Venulus à cidade do grande Diomedes
Pedindo auxílio e informando que os Troianos se instalam:
No Latium; e que Eneias chegou com uma armada…
[8]

Mas em resposta, Diomedes, no Canto XI, recusa-se a combater, lembrando as consequências da Guerra de Tróia e o episódio em que fere a mão de Vénus. É então um rei pacífico e dedicado apenas ao bem estar do seu povo.

É certo que eu devia esperar por todos esses desastres,
A partir do momento em que, louco, quis levantar a espada
Contra as divindades, e ultrajei Vénus, ferindo-a numa mão.
Não, na verdade, não me empurreis para tais combates.
[9]

E Diomedes termina o seu discurso, elogiando a nobreza de carácter (areté) de Eneias, o seu antigo inimigo, e propondo a paz.

A vitória dos Gregos adiada pelos braços de Heitor e Eneias
Foi retardada até ao décimo ano. Ambos se distinguiram
Pela sua coragem e pelos seus feitos prestigiosos; mas Eneias sobressaiu
Pela piedade. Uni as vossas mãos por um acordo: está ao vosso alcance;
Mas evitai que as vossas armas se encontrem com as suas.
[10]

Voltando ao Canto X, na luta entre Eneias e Lucarco também é referido Diomedes, quando Ligerio, o irmão de Lucarco, diz a Eneias: Non Diomedis equos, nec currus cernis Achillis. (Não, tu não vês nem os cavalos de Diomedes nem o carro de Aquiles).

Diomedes em Ovídio

Diomedes surge também nas Metamorfoses de Ovídio, onde Vénus (Afrodite), para se vingar, transforma os companheiros de Diomedes em aves.

……………………..…….. Em vaõ Eneas
De Evandro naõ buscou a Caza amiga;
Venulo he que de balde foy á grande
Cidade por Diomedes construida.
 [11]

E Ovídio prossegue:

Porque Venus Lembrada da ferida
Tomou de mim vingança. Taes trabalhos
Soffri nos mares em crueis tormentas,
Taes perigos na terra em duras guerras,
Que chamey muitas vezes venturozos
Aquelles, que a borrasca submergira
Nas ondas Capharèas, dezejando
Ser delles Companheiro. Enfraquecidos
Com tantos temporaes, com tantas Lides
Os socios me pediraõ, que ja termo
Pozesse a taõ asperrimas fadigas.
Entaõ Alcmôn, homem de genio irozo,
E irritado inda mais com tantos males,
Ouzou assim dizer: Oh companheiros,
Porque perdeis o espirito alentado,
Desfallecendo agora? E que vos resta
Mais a soffrer? Venus quaes outras penas
Tem que mandarvos, inda q’ella queira?
Os votos que fazeis, esses sò proprios
Saõ, quando um mal se teme mais acerbo,
Que o que ja se soffreo: porem se fados
Se tem exprimentado os mais tirannos,
Naõ resta que temer: dannos extremos
Recear naõ deixaõ novas desventuras.
Pouco importa, que Venus isto me ouça;
Embora odio declare a todo aquelle,
Que acompanha Diomedes: dos seus odios
Cazo algum naõ fazemos; desprezamos
O seu grande poder; a elle oppomos
Hum Filho de Tydeo. A taes delirios
Mais se irritou a Deoza, e novas iras
Accendeo contra nós: A alguns, mas poucos,
O discurso agradou; nós os amigos,
(Que era a parte mayor) o reprendemos:
Eis que ao querer Alcmôn darnos reposta,
De improvizo a garganta se lhe estreita,
E someselhe a voz: em pennas Logo
Se mudaõ seus cabellos, e cobrindo
Iguaes o corpo todo, só nos braços
Se extendem mais compridas; apparecem
Os pez todos em dedos retorcidos,
E o rosto contrahido em bico agudo.
A tempo que mudança taõ pasmoza
Rhetenôr, Idas, Nictêo, Lyco, Abante
Admiravaõ, sentiraõ no seu Corpo
Igual transformaçaõ; e hum bando Logo
Formando ora mais alto, ora mais baixo,
Emtorno dos baixeis davaõ mil gyros.

f10fig. 10 - Nicolas Ponce (1746-1831), Estampa 133, Les Compagnons de Diomède changés en Oiseaux 1769, Fable VII, Metamorphoses, Livre XIV, in Les Metamorphoses d’Ovide, en Latin et François, de la Traductio de M. l’Abée Banier, de l’Académie Royale des Inscriptions & Belles-Lettres; avec des explications historiques. Tome quatrième. Chez Pissot, Libraire, Quai de Conty, Paris M DCC LXXI. (pág.203).

Se me perguntas, que aves estas eraõ,
Digo, que se naõ eraõ proprios Cysnes,
Semelhantes a’o menos pareciaõ.
Depois de hum cazo tal, que me privara
De tantos companheiros, pude apenas
De muy poucos seguido achar abrigo
Nos Estados de Dauno, que seu Genro
Fazendome, me deo a posse delles.
[12]

f11fig. 11 - Johan Ulrich Krauss (1655–1719). Edition 1690. Die Gefährten des Diomedes werden von Venus in grosse Vögel verwandelt. Met. XIV.

Diomedes em Dante

Também Dante Alighieri cita na Divina Comédia, no Canto XXVI do Inferno, Diomedes com Ulisses, colocados no oitavo fosso onde estão Conselheiros de fraude os envoltos em chamas.

Ao contrário de Ulisses, Diomedes é de certo modo poupado por Dante, já que o mesmo faz Virgílio na sua obra.

f12fig. 12 - Autor desconhecido. Dante, Virgílio, Ulisses e Diomedes, 1500. Biblioteca Nacional Marciana, Veneza.

No verso 52, Dante pergunta ao seu guia Virgílio quem são os que se encontram envoltos numa chama com duas labaredas. No verso 55, o poeta latino responde que são Ulisses e Diomedes e que aqui se encontram.

…Diz “Lá dentro se martira
a Ulisses e Diomedes, que à estreme
vingança juntos vão tal como à ira;
e dentro em sua chama cada um geme
o embuste do cavalo que foi porta
de onde saiu de Roma o nobre seme.
 [13]

[Rispuose a me: La dentro si martira
Ulisse e Dïomede, e così insieme
A la vendetta vanno come a l’ira;


E dentro de lor fiamma si geme
L’aguato del caval che fé laporta
Onde uscì de’ romani il gentil seme.]

Ulisses e Diomedes estão colocados no oitavo fosso do Inferno, envoltos em chamas, por três razões:

1 - Pelo ardil do Cavalo de Tróia, narrado na Odisseia. Para Dante o único aspecto positivo é ter originado a fuga de Eneias, um fundador de Roma;

João Peixoto de Miranda em Cale ou A Fundação da Cidade do Porto descreve assim o episódio do Cavalo de Tróia:

Então Ulisses por sagaz maneira
Astuto inventa máquina dolosa:
Era hum grande cavallo de madeira,
De bojo enorme, e fronte pavorosa.
Na praia construído, a lisonjeira,
E horrida, presença, á curiosa
Vista, de quem o via, apresentava,
Parecendo, q’o mundo amiaçava.
Aquelles (sendo eu hum) q’escolhe a sorte,
Dentro do largo bojo se alojarão,
Capitães de valor, de peito forte,
Que d’armas homicidas o pejarão.
Ocultamos assim o final corte,
E de Tróia o estrago, q’abraçarão
Os illudidos miseros troianos:
Q’a guerra he arte de fataes enganos.
  [14]

f13fig. 13 - Giovanni Domenico Tiepolo (1727–1804) A construção do Cavalo de Tróia c. 1760 óleo sobre tela, 38.8 x 66.7 cm, The National Gallery, Londres.

E prossegue com os troianos a meterem o cavalo dentro da cidade:

Com máquinas possantes, que trouxerão,
Tirão logo o cavallo altivo, e forte,
Que dentro da cidade assim metterão,
Mettendo o próprio estrago, e própria morte.
Dentro com grande gosto o receberão,
Com ledo gesto, e festival transporte,
Sem saberem, q’em dor o gosto leve
Lhes passava a trocar hum tempo breve.
[15]

2 - Pelo modo como Diomedes e Ulisses descobrem Aquiles disfarçado de mulher (Pirra a ruiva), e o desafiam a participar na Guerra de Tróia, escondendo-lhe que o oráculo Calcas previra que aí viria a morrer.

O episódio inspira-se em Estácio (Publius Papinius Statius c. 45-c. 96) na sua Aquileia. Estácio que Dante coloca no Purgatório no Canto XXI.

Na Aquileia, Diomedes e Ulisses, para desmascarar Aquiles, oferecem um conjunto de presentes femininos às filhas de Licomedes.

Diomède exposoit les superbes présens,
De l'hospitalité sûrs et sacrés garans.
Choisissez, disoit-il. Le bon roi Lycomède
Applaudit d'un sourire aux voeux de Diomède
. [16]

[Diomedes expõe os soberbos presentes,
Garantia segura e sagrada de hospitalidade.
Escolhei, diz ele. O bom rei Licomedes
Aplaude com um sorriso aos votos de Diomedes.]

Contudo no meio desses presentes, como se fosse para oferecer ao rei Licomedes, está um escudo e uma lança (uma espada?), à vista da qual Aquiles não resiste e denuncia-se.

Mais si-tôt que de près Achille considère
Ce bouclier terrible où l'or étincelant
Retrace des combats le spectacle sanglant;
Si-tôt qu'il voit briller la formidable lance,
Il ne respire plus que Troye et que vengeance.
[17]

[Mas logo que de perto Aquiles observa
Esse escudo terrível de um ouro que brilha
Recorda dos combates o espectáculo sangrento;
E no momento em que vê brilhar a magnífica lança,
Só respira por Tróia e pela sua vingança.]

f15fig. 14 - Peter Paul Rubens Aquiles descoberto por Ulisses e Diomedes c.1617, óleo sobre tela 2,485 x 2,695 m. Museu do Prado Madrid.

f16fig. 15 - Jan van Orley (1665-1735) e Augustin Coppens (1668-1740) Ulisses descobre Aquiles entre as filhas do rei Licomedes,1726-1761 Tapeçaria de liço em lã e seda Bruxelas, Oficina dos Van der Borght (ou Borcht) Palácio Nacional da Ajuda.

3 - E, ainda pelo roubo da estátua de Palas, o Palladium que tornava Tróia inexpugnável, narrado por Dionísio de Halicarnasso (século I a.C.) em Das Antiguidades Romanas.

And while the lower town was being captured, Aeneas, possessing himself of the citadel, took out of the sanctuary the images of the Great Gods and the Palladium which still remained (for Odysseus and Diomed, they say, when they came into Ilium by night, had stolen the other away), and carrying them with him out of the city, brought them into Italy. [18]

[E enquanto a cidade baixa estava sendo capturada, Enéias, apossando-se da cidadela, tirou do santuário as imagens dos Grandes Deuses e do Palladium que ainda aí permaneciam (para Odisseu e Diomedes, diziam eles, mas quando regressaram a Ilium [Tróia] à noite eles tinham-nas já roubado), e levando-as com ele para fora da cidade, trouxe-as para a Itália.]

f17fig. 16 - Gaspare Landi (1756-1831) Ulisses e Diomedes roubam o Palladio 1783. Óleo s/tela 97 x 146 cm. Galleria Nazionale di Parma.

E na Eneida de Virgílio (Livro 2, 165).

Toda a esperança dos Daneus, a sua confiança
Na guerra empreendida repousava, sempre, na
Ajuda de Palas. E contudo desde o dia em que
O ímpio filho de Tideu e Ulisses esse criminoso,
Empreendeu roubar do templo sagrado o Paládio fatídico,
Quando eles tiveram, depois do massacre dos guardas da
Cidadela, nas mãos a esfígie sagrada e ousaram, as mãos
Banhadas em sangue, tocar as bandeletes virginais da deusa,
Desde esse dia, a esperança dos Daneus fraquejou, esgotando e depois
As suas forças se quebraram, os favores da deusa desviaram-se.
[19]

Em Cale ou a Fundação da Cidade do Porto de João Peixoto de Miranda, o episódio é narrado por Diomedes:

Eu logo e mais Ulisses concertamos
De roubar o Paládio milagroso:
Cáe a noite, e com tanto penetramos
Nesse templo de Palas majestoso.
Sem sermos pressentidos, retiramos
Com o sacro despojo poderoso:
A sua falta os Dárdanos consterna,
Pois que a unica esprança lhes prosterna.
 [20]

Regressando a Dante, e ao Canto XXVI do Inferno, no verso 100, na voz de Ulisses, é referida a viagem a que se lançam Ulisses e os seus companheiros, descritos como velhos e tardos (v. 106 Chegamos, eu e os outros, velhos tardos), que alcançam as colunas de Hércules (o Estreito de Gibraltar), limite geográfico imposto pelo filho de Zeus aos homens, mas que eles, ousadamente, ultrapassam.

…mas cometi-me ao alto mar aberto
Cum lenho só e a só pouca companha
Da qual nunca em viagem fui deserto


Vi os dois litorais até Espanha
Até Marrocos, e à ilha dos Sardos,
E as outras que em redor o mar lá banha.
  [21]

[…ma misi me per l'alto mare aperto
sol con un legno e con quella compagna
picciola da la qual non fui diserto.

L'un lito e l'altro vidi infin la Spagna,
fin nel Morrocco, e l'isola d'i Sardi,
e l'altre che quel mare intorno bagna.]

f18fig. 17 - Ulysse, attaché au mât de son navire à voiles et à rames, écoute le chant des Sirènes Mosaïque de Dougga, v. 260 d. C. Musée du Bardo, Tunis (Tunisie).

E Dante prossegue pondo na boca de Ulisses o discurso que convence os companheiros a seguir para ocidente siga-se o sol (v. 117) e virada a popa a amanhecer marinho (v.124), para além das Colunas de Hércules:

“Ó irmãos “ disse, “que por tanta milha
De perigos viestes a ocidente,
A tão breve vigília que nos brilha


Nos sentidos, e que é remanescente,
Não negueis experiência e sem detença
Siga-se o sol, no mundo sem ter gente!
 [22]

["O frati", dissi, "che per cento milia
perigli siete giunti a l'occidente,
a questa tanto picciola vigilia

d'i nostri sensi ch'è del rimanente
non vogliate negar l'esperïenza,
di retro al sol, del mondo sanza gente
].

 

Diomedes em Shakespeare

Shakespeare escreve em 1601 uma peça de teatro em cinco actos, intitulada Troilus and Cressida. Nela figura Diomedes envolvido numa, complexa, trama amorosa com Cressida e Tróilo, durante a Guerra de Tróia. Na peça Diomedes, quando seduz Cressida é insultado por Tróilo utilizando uma violenta e brejeira linguagem.

f19fig. 18 - Angelica Kauffmann (1741-1807), Térsites (à esquerda, com a tocha) observa Ulisses contendo Troilo, enquanto Diomedes seduz Créssida. 178 in Troilo de Créssida, edição ilustrada da Boydell Shakespeare Gallery 1795.

THERSITES

Now they are clapper-clawing one another; I'll go
look on.
That dissembling abominable varlets Diomed,
has got that same scurvy doting foolish young knave's
sleeve of Troy there in his helm: I would fain see
them meet; that that same young Trojan ass, that
loves the whore there, might send that Greekish
whore-masterly villain, with the sleeve, back to the
dissembling luxurious drab, of a sleeveless errand. [23]

[Tersites: Agora estão massacrando um ao outro; não a quero perder.
/ Aquele abdominável cara de cu, aquele lacaio do Diomedes que / Decorou o elmo com o daquele outro nojento, / Enfatuado, tolo enfabulador de Tróia. / Quanto daria para os / Ver bater-se: ou se aquele jovem asno Troiano, que ama aquela / Prostituta, aquele putanheiro grego com o bracelete da / Prostituta, ansiosa, falsa e sem o bracelete.]

Diomedes em Camões

Camões, em Os Lusíadas, refere apenas um outro Diomedes, o rei da Trácia, que aos estrangeiros que ao seu país chegavam, os dava a comer aos seus cavalos (de nome Podargos, Lampom, Xantos e Deínos). Este outro Diomedes foi morto por Hércules que o fez sofrer o mesmo suplício.

Não tens aqui senão aparelhado
O hospício que o cru Diomedes dava,
Fazendo ser manjar acostumado
De cavalos a gente que hospedava;
As aras de Busíris infamado,
Onde os hóspedes tristes imolava,
Terás certas aqui, se muito esperas:
Fuge das gentes pérfidas e feras!
[24]

f20fig. 19 - Gustave Moreau (1826-1898), Diomède dévoré par se chevaux, 1865. Óleo sobre tela, 140 x 95,5 cm. Museu de Belas-Artes de Rouen. França.


[1] Homero, Ilíada, in Ilíada de Homero em verso portuguez por Manoel Odorico Mendes da Cidade de S. Luiz do Maranhão. Editor e Revisor Henrique Alves de Carvalho, também natural do Maranhão. Typographia Guttenberg, Praça da Constituição n.º 47, Rio de Janeiro 1874. (Canto XIV, pág.180).

[2] Iliade de Homero em verso portuguez por Manoel Odorico Mendes da Cidade de S. Luiz do Maranhão. Editor e Revisor Henrique Alves de Carvalho, também natural do Maranhão. Typographia Guttenberg, Praça da Constituição n.º 47, Rio de Janeiro 1874. (Canto V, pag.66).

[3] Ilíada de Homero em verso portuguez por Manoel Odorico Mendes da Cidade de S. Luiz do Maranhão. Editor e Revisor Henrique Alves de Carvalho, também natural do Maranhão. Typographia Guttenberg, Praça da Constituição n.º 47, Rio de Janeiro 1874. (Livro V pág.73).

[4] Ilíada de Homero em verso portuguez por Manoel Odorico Mendes da Cidade de S. Luiz do Maranhão. Editor e Revisor Henrique Alves de Carvalho, também natural do Maranhão. Typographia Guttenberg, Praça da Constituição n.º 47, Rio de Janeiro 1874. (Livro X, pág. 132).

[5] Ilíada de Homero em verso portuguez por Manoel Odorico Mendes da Cidade de S. Luiz do Maranhão. Editor e Revisor Henrique Alves de Carvalho, também natural do Maranhão. Typographia Guttenberg, Praça da Constituição n.º 47, Rio de Janeiro 1874. (Livro X, pág. 132).

[6] Homero, Odisseia, Tradução de Christian Werner. Apresentação de Richard P. Martin. Cosac Naify, rua General Jardim, 770, 2° andar São Paulo 2014. (Versos 508 a 513, pág. 213).

 

[7] Virgílio (Publius Vergilius Maro 70 a.C.-19 a.C.), L’Eneide, (Canto I, versos 748 a 756). Traduzido do francês de Virgile - L'Énéide louvaniste, Une nouvelle traduction commentée par Anne-Marie Boxus et Jacques Poucet, Bibliotheca Selecta http://bcs.fltr.ucl.ac.be/Virg/VirgIntro.html

[8] Virgílio (Publius Vergilius Maro 70 a.C.-19 a.C.), L’Eneide, (Canto VIII, versos 5 a 7). Traduzido do francês de Virgile - L'Énéide louvaniste, Une nouvelle traduction commentée par Anne-Marie Boxus et Jacques Poucet, Bibliotheca Selecta http://bcs.fltr.ucl.ac.be/Virg/VirgIntro.html

[9] Virgílio (Publius Vergilius Maro 70 a.C.-19 a.C.), L’Eneide, (Canto XI, versos 275 a 278). Traduzido do francês de Virgile - L'Énéide louvaniste, Une nouvelle traduction commentée par Anne-Marie Boxus et Jacques Poucet, Bibliotheca Selecta http://bcs.fltr.ucl.ac.be/Virg/VirgIntro.html

[10] Virgílio (Publius Vergilius Maro 70 a.C.-19 a.C.), L’Eneide, (Canto XI, versos 288 a 293). Traduzido do francês de Virgile - L'Énéide louvaniste, Une nouvelle traduction commentée par Anne-Marie Boxus et Jacques Poucet, Bibliotheca Selecta http://bcs.fltr.ucl.ac.be/Virg/VirgIntro.html

[11] Publio Ovidio Nasam (43 a.C.-17 ou 18 d.C.), Metamorfoses. Tradução de Francisco José Freire (Cândido Lusitano) in Aristóteles Angheben Predebon, Edição do Manuscrito e Estudo das Metamorfoses de Ovídio traduzidas por Francisco José Freire. Universidade de São Paulo 2006. (Livro XIV Fáb. 10ª, verso 665 a 668, pág. 676).

[12] Publio Ovidio Nasam (43 a.C.-17 ou 18 d.C.), Metamorfoses. Tradução de Francisco José Freire (Cândido Lusitano) in Aristóteles Angheben Predebon, Edição do Manuscrito e Estudo das Metamorfoses de Ovídio traduzidas por Francisco José Freire. Universidade de São Paulo 2006. (Livro XIV Fáb. 10ª, versos 697 a 752, pág. 678 a 680).

[13] Dante Alighieri, A Divina Comédia, tradução de Vasco Graça Moura. Quetzal Editores, Rua Prof. Jorge da Silva Horta, 1, Lisboa 2011. (Inferno. Canto XXVI, versos 55 a 60, pág. 237).

[14] João Peixoto de Miranda, Cale ou A Fundação da Cidade do Porto, (1838). Poema de João Peixoto de Miranda, Typographia de D. António Moldes, Largo da Batalha n.º41, Porto 1850. (Canto 6º, Estrofes 60 e 61, pág. 227).

[15] João Peixoto de Miranda, Cale ou A Fundação da Cidade do Porto, (1838). Poema de João Peixoto de Miranda, Typographia de D. António Moldes, Largo da Batalha n.º41, Porto 1850. (Canto 6º, Estrofe 70, pág. 230).

[16] L' Achilléide, Imitation en vers du poème d’Estace, par le Citoyen Cournand, Professeur de Littérature française au Collége de France, et membre du Jury d'Instruction publique du Département de la Seine , pour les Ecoles primaires. Chez Buisson, Libraire, rue Hautefeuille; Bernard, Libraire, quai des Augustins; Louis, Libraire, rue Severin; Et au Collége de France, place Cambrai. A Paris, An VIII. (Livre Seconde, pág. 45).

[17] L' Achilléide, Imitation en vers du poème d’Estace, par le Citoyen Cournand, Professeur de Littérature française au Collége de France, et membre du Jury d'Instruction publique du Département de la Seine, pour les Ecoles primaires. Chez Buisson, Libraire, rue Hautefeuille; Bernard, Libraire, quai des Augustins; Louis, Libraire, rue Severin; Et au Collége de France, place Cambrai. A Paris, An VIII. (Livre Seconde, pág.45).

[18] Dionísio de Halicarnasso, The Roman Antiquities of Dionysius of Halicarnassus, with an english translation by Earnest Gary, PhD. On the basis of the version of Edward Spelman in seven volumes. Cambridge, Massachusetts, Hevard University Press. William Heinemann, Ltd. London MCMLX. (Livro I, LXIX, n.º2, pág. 227).

[19] Virgílio (Publius Vergilius Maro 70 a.C.-19 a.C.), L’Eneide, (Canto II, versos 262 a 269). Traduzido do francês de Virgile - L'Énéide louvaniste, Une nouvelle traduction commentée par Anne-Marie Boxus et Jacques Poucet, Bibliotheca Selecta http://bcs.fltr.ucl.ac.be/Virg/VirgIntro.html

[20] João Peixoto de Miranda, Cale ou A Fundação da Cidade do Porto, (1838). Poema de João Peixoto de Miranda, Typographia de D. António Moldes, Largo da Batalha n.º41, Porto 1850. (Canto 6º, Estrofes 58 e 61, pág. 226).

[21] Dante Aligghieri, A Divina Comédia, tradução de Vasco Graça Moura. Quetzal Editores, Rua Prof. Jorge da Silva Horta, 1, Lisboa 2011. (Inferno. Canto XXVI, versos 100 a 105, pág. 239 a 241).

[22] Dante Aligghieri, A Divina Comédia, tradução de Vasco Graça Moura. Quetzal Editores, Rua Prof. Jorge da Silva Horta, 1, Lisboa 2011. (Inferno. Canto XXVI, versos 112 a 117, pág. 241).

[23] Shakespeare, Troilus and Cressida Act.V. Scene IV, 2-9. (tradução livre).

[24] Luís de Camões, Os Lusíadas, (Canto II, estrofe LXII). in Obras de Luís de Camões. Edição completa com as mais notáveis variantes. Lello & Irmão, Editores, Rua das Carmelitas, Porto 1970. (pág. 1163).

 

Cap. III – Diomedes e a fundação da cidade do Porto

Segundo a lenda, Diomedes, passada a difícil barra e subindo o rio, encontra um lugar tão aprazível, que aí funda uma cidade.

Esta lenda de que Diomedes teria fundado a cidade de Gaia e do Porto, está baseada nas referências que Estrabão (c.64 a.C. – 21 ou 25 d.C.) faz à presença grega no noroeste da Península Ibérica.

Et c'est ainsi qu'à côté des erreurs d'Enée, d'Anténor et des Hénètes, l'histoire a enregistré celles de Diomède, de Ménélas, de Ménesthée et de maint autre héros grec. Or, instruit par la voix de l'histoire de toutes ces expéditions guerrières aux côtes méridionales de l'Ibérie, instruit aussi de la richesse de cette contrée et des biens de toute sorte qu'elle possède et que les Phéniciens avaient fait connaître, Homère a eu l'idée d'y placer la demeure des Ames pieuses et ce champ Elyséen, où, suivant la prédiction de Protée, Ménélas devait habiter un jour: «Quant à vous, Ménélas, les immortels vous conduiront vers le champ Elyséen, aux bornes mêmes de la terre: c'est là que siège le bond Rhadamanthe, là aussi que les humains goûtent la vie la plus facile à l'abri de la neige, des frimas et de la pluie et qu'au sein de l'Océan s'élève sans cesse le souffle harmonieux et rafraîchissant du zéphyr. La pureté de l'air et la douce influence du zéphyr sont bien en effet des caractères propres à cette partie de l'Ibérie, qui, tournée toute du côté de l'occident, possède un climat vraiment tempéré. [1]

E mais adiante, Estrabão escreve, que os Lusitanos tem um modo de vida semelhante ao dos gregos.

On ajoute que, parmi les peuples riverains du Durios, il en est qui vivent à la façon des Lacédémoniens, se frottant d'huile et se servant d'étrilles et d'étuves chauffées à l'aide de pierres rougies au feu, puis se baignant dans l'eau froide et ne faisant jamais qu'un seul repas, très proprement apprêté, il est vrai, mais d'une extrême frugalité. [2]

Mas não é por acaso a criação desta lenda. Ela insere-se na afirmação da cidade do Porto face a hegemonia da capital e consagra-se nos séculos XVI e XVII, quando a cidade do Porto adquire particular protagonismo na época d Expansão e dos Descobrimentos.

Assim se, segundo a lenda, Ulisses fundou Lisboa, o seu companheiro Diomedes fundaria o Porto.

Do mesmo modo que as relíquias de São Vicente foram recolhidas em Lisboa tornando-o seu padroeiro, as de São Pantaleão que chegaram ao Porto, tornaram o santo, até 1955, o padroeiro da cidade.

E para a consolidação da lenda contribuíram, desde o século XVI, um conjunto de autores ilustrados pela leitura dos textos da antiguidade.

Em primeiro lugar citemos André de Resende (1500-1573) que na sua obra As Antiguidades da Lusitânia (De antiquitatibus Lusitaniae), publicada postumamente em 1593, refere a presença grega na Galiza e a de Diomedes que teria fundado a cidade de Tui (Tude). E cita Estrabão para falar dos que habitavam junto ao Douro.

(…) veio ainda Diomedes, trazido por aquele que fundou a cidade de Tui, a que Sílio chamou a etólica no livro terceiro: “e a etólica Tude”. Estrabão, falando dos Lusitanos que habitavam junto ao Douro e sem dúvida para que estes povos mostrem espontaneamente a origem grega, contou que se entretinham à maneira espartana e que costumavam celebrar hecatombes, competições gímnicas, jogos com armas e cavalos, pugilato, corridas pedestres e, além disso, casando segundo um ritual à maneira grega. [3]

Segue-se Frei Bernardo de Brito (1569-1617), que na sua Monarchia Lvsytana, apoiando-se em André de Resende escreve:

Poucos dias depois desta fundação de Lisboa, foy memorável a vinda del Rey Diomedes a Espanha, lançado com os mais com a força das tempestades, depois de ter em Italia füdada hüa povoação, chamada Agyripa, & feitas outras cousas memoráveis, que difusamente conta o Tarcanhota. [4]

(…) A primeira parte em que a ventura lhe deixou tomar terra, foy entre Douro & Minho, naõ muy apartado donde agora vemos a insigne Cidade de Braga, cabeça & primaz de todos os bispados de Espanha, onde se contentou tanto da terra, & frescura dela, que determinou deixar ali a gente, que consigo levava, & à imitação de Ulysses eternizar seu nome em algüa povoação insigne. (…) & nosso Andre de Rezende em suas antiguidades Lusitanas, fala desta fundação como de cousa certíssima dizendo, que estes companheiros de Diomedes habitrão a terra, q cae da outra parte do Rio Douro, conservando-se por muytos anos em seu modo de viver Grego, & em todas as mais cousas, de modo, que por anfhomasia, vierão as outra nações de Lusitania a chamar aquelles Grayos, que tanto significa como Gregos, depois corrompendo-se o vocábulo, lhe chamarão Gravios, ou Gronios, como lhe chama Pomponio Mella, & nisto cahio muy bem o Poeta Sylo, em seu terceiro livro dizendo, que por corrupção do nome Grayos, lhe chamarão Gravios. Dos quaes (se me he licito nomeyo de tãtas opiniões escrever a que tenho) cuido eu que ficou inda o nome naquela povoação, fronteira da insigne Cidade do Porto, chamada Gaya, cõ muy pouca corrupção do vocábulo antigo, onde se mostrão hoje as ruinas de hüa Fortaleza já gastada do tempo. [5]

Mas procurando afirmar, nacional e internacionalmente, a cidade do Porto, o padre Agostinho Rebello da Costa contribui para esta lenda em que Diomedes rei de Etholia hum dos Principes, e Capitaens do cerco de Troya imitando a Ulysses, navegára pelo Mediterraneo, atá sahir pelas Columnas de Hercules ao Occeano Occidental, e tomando porto na foz do Rio Douro, desembarcara da parte setentrional, aonde se demorara largo tempo attraido da amenidade, e frescura do Paiz;[6]

E mais adiante, comparando com Lisboa, refere que no anno de 1453, entrou pela foz do rio Douro hum Navio com o corpo de outro Martyr, o Glorioso S. Pantaleaõ, que foi Médico, e padeceo Martyrio na Cidade de Nicomédia, governando em Roma os Imperadores Diocleciano, e Maximiniano. Este corpo o conduziraõ huns Gregos de Constantinopla, e o depozitaraõ na Igreja de S. Pedro de Miragaya. [7].

Já no século XIX, quando a lenda é já contestada pelos progressos da historiografia, João Peixoto de Miranda, no seu poema Cale ou a Fundação da Cidade do Porto procura, em verso, consagrar esta lenda.

Logo no Canto I apresenta Diomedes navegando rumo ao ocidente:

Diomedes, Rei d’Etólia, ao vento dando
Dos seus baixeis as vellas, q' infunava
Hum prospero galerno, fresco, e brando
Pelas ondas do Egeo já navegava.
Vai os charos penates demandando:
Este desejo só o dominava,
Quando la na celeste Empírea Corte
Se move huma contenda irada, e forte.
[8]

E, mais adiante, Diomedes cruzando as Colunas de Hércules, d’Abila e Calpe o temeroso passo, (o Estreito de Gibraltar), rumando a norte chega à Foz do Douro.

E la, depois q’intérrito cruzares
D’Abila e Calpe o temeroso passo,
Que para unir dois desunidos mares
Rompera n'outro tempo hercúleo braço,
Ao norte inclina, e quando á foz chegares
D'hum rio, nunca em rolar ouro escasso,
Por ella sobe, e la tua vontade
Em sitio, que lh’apraza, alce a cidade.

Do seu archivo, ha muito, destinado
Tem o Fado no intimo profundo
Alçar huma cidade, que dê brado,
E goze d’alta fama pelo mundo.
Que de Porto de Cale o nome dado
Por ti lhe seja nome, que, jucundo,
Hade o reino abraçar, vindo a chamar-se
Portugal, e com elle assignalar-se.
  [9]

Ignacio Vilhena de Barbosa, céptico em relação à lenda, escreve nos meados do século XIX que Outros tentam persuadir, que seu fundador foi Diomedes, rei de Etholia, e companheiro d'Ulyses na guerra de Troya, o qual lhe chamou cidade de Graya. [10]

E o próprio Sampaio Bruno, faz ainda eco desta lenda muito seguida e abonada pelo auctor da Monarchia Lusitana, [que] consiste em que Diomedes, rei de Etolia, um dos príncipes e capitães do cerco de Troya, imitando a Ulisses, navegara pelo Mediterrâneo, até sahir, pelas columnas de Hercules, ao Oceano occidental; e, tomando porto na foz do rio Douro, desembarcara da parte septentrional onde se demorara largo tempo, attrahido da amenidade e frescura do paiz… [11]


[1] Estrabão (c.64 a.C. – 21 ou 25 d.C.), Géographie de Stabon. Traduction Nouvelle par Amédée Tardieu. Deuxième Edition. Tome Premier. Librairie Hachette et C.ie, 79, Boulevard Saint-Germain, 79, Paris 1886. (Livro III, Cap. II, n.º 13, pág. 245 e 246).

[2] Estrabão (c.64 a.C. – 21 ou 25 d.C.), Géographie de Stabon. Traduction Nouvelle par Amédée Tardieu. Deuxième Edition. Tome Premier. Librairie Hachette et C.ie, 79, Boulevard Saint-Germain, 79, Paris 1886. (Livro III, Cap. III, n.º6, pág. 253).

[3] Andre de Resende, As Antiguidades da Lusitânia em Quatro Livros. Começados em tempos por Lucio Andre de Resende. Revistos e acabados por Diogo Mendes de Vasconcelos. Imprimiu Martim de Burgos, tipógrafo da Universidade em Évora no ano de 1593. Introdução, tradução e comentário R. M. Rosado Fernandes. Estabelecimento do texto latino Sebastião Tavares de Pinho. In Portvgaliae Monvmenta Neolatina, Vol. III A P E N E L, Associação Portuguesa de Estudos Neolatinos. Imprensa da Universidade de Coimbra, Março 2009.

[4] Fabio Tarcanhota Mathias Pereyra da Sylva

[5] Frei Bernardo de Brito (1569-1617), Monarchia Lvsytana composta por Frey Bernardo de Brito. Chronista Geral e Religioso da Ordem de S. Bernardo, Professo no Real Mosteyro de Alcobaça. Lisboa 1690 (Parte Primeira, 1596/1683. Pág. 90).

[6] Agostinho Rebello da Costa, Descripçaõ Topografica, e Historica da Cidade do Porto. Na Officina de Antonio Alvarez Ribeiro. Porto. Anno de MDCCLXXXIX. (pág. 3).

[7] Agostinho Rebello da Costa Agostinho Rebello da Costa, Descripçaõ Topografica, e Historica da Cidade do Porto. Na Officina de Antonio Alvarez Ribeiro. Porto. Anno de MDCCLXXXIX. (pág. 16).

[8] João Peixoto de Miranda, Cale ou A Fundação da Cidade do Porto, Poema de João Peixoto de Miranda, Typographia de D. António Moldes, Largo da Batalha n.º41, Porto 1850. (Canto I, estrofe 21, pág. 22).

[9] João Peixoto de Miranda, Cale ou A Fundação da Cidade do Porto, Poema de João Peixoto de Miranda, Typographia de D. António Moldes, Largo da Batalha n.º41, Porto 1850. (Canto 8.º, Estrofes 61 e 62, pág. 303).

[10] Ignacio Vilhena de Barbosa (1811-1890), As Cidades e Villas da Monarhia Portugueza, que teem brasão d’armas, por I. de Vilhena Barbosa. Typographia do Panorama Travessa da Victoria, 73. Lisboa 1860. (Volume II, pág.156).

[11] Sampaio Bruno, Portuenses ilustres. Vol. I. Livraria Magalhães & Moniz, Editora 11, Largo dos Loyos, 14 Porto 1907. (pág. 320).

 

Cap. IV - A barra do Douro e a evocação de Sirte, Cila e Caribdes

Mas, a lenda de Diomedes a fundar a cidade do Porto, acentua como certo, que o Porto nasceu do mar e pelo rio, pelo encontro do Atlântico com o Douro. Ou seja a Foz do Douro.

Qual Morpheo ta desenha hade elevar-se
Essa cidade hum dia, e soberana
Até à foz do Douro dilatar-se,
Causando assombro a Amphitrite insana.
Numerosa hade nella procrear-se
Da tua gente a descendência ufana,
Que verão nessa imensa quantidade
Mais hum mundo pequeno, que cidade.  
[1]

f21fig. 20 - Pedro Teixeira Albernaz (c. 1595-1662), O Porto. Pormenor de La descripción de España y de las costas y puertos de sus reinos 1634. Madrid 1662.

A Barra e a evocação de Sirte, Cila e Caríbdis [2]

Quid Syrtes, aut Scylla mihi,
quid vasta Charybdis Profuit?
 [3]

[Que me haõ Syrtes, në Scylla aproveitado? / E que a cruel Charybydes?] [4]

E se do mar vieram os que fizeram a cidade, tiveram de navegar entre os rochedos e as areias, quais Sirte e Cila e as vastas profundezas de Caribdis, que sempre caracterizaram a difícil barra do Douro.

Sirte

Alli n'arêa, que amontoa o vento,
Encalhei o batel, e a rede pobre
Ficou apodrecer no salso argento.
[5]

O verso de Virgílio (Quid Syrtes…) refere-se às areias de Sirte, dois golfos situados dentro de uma larga reentrância da costa Líbia. O golfo ocidental era chamado de Sirte Menor. Um pouco para oriente encontrava-se a Sirte Maior. Na antiguidade as embarcações encalhavam nos seus traiçoeiros bancos de areia, que mudavam constantemente com as marés.

Ce qui rend la navigation de la Grande, comme de la Petite Syrte, particulièrement difficile, c'est le peu de profondeur d'eau qui s'y trouve en maint endroit, de sorte qu'on risque, lors du flux ou du reflux, d'être jeté sur des bancs de sable et d'y demeurer échoué, auquel cas il est bien rare que le bâtiment en réchappe. Les marins le savent et ils ont soin à cause de cela, lorsqu'ils passent devant cette côte, de se tenir toujours assez loin de terre dans la crainte d'être surpris par les vents et entraînés dans l'intérieur des golfes. [6]

[O que torna a navegação da Grande, como da Pequena Sirte particularmente difícil, é a pouca profundidade das águas em muitos dos seus sítios, de modo que se corre o risco, durante as marés, de ser arrastado para os bancos de areia e aí encalhar, caso em que se torna raro que o navio escape. Os marinheiros conhecem-nas e com isso se preocupam, quando passam junto a esta costa, por navegar suficientemente afastados de terra com medo de serem surpreendidos pelos ventos e arrastados para o interior dos golfos.]

E na Bíblia quando Paulo é preso e levado para Roma, o navio em que viaja é apanhado por um vento tempestuoso de nordeste. A tripulação, por isso, temia que o navio encalhasse nas areias movediças ou nos bancos de areia de Sirte. (Act. 27, 17-20).

17Depois de içada empregaram-se os recursos de emergência: amarraram o barco com cabos e, com receio de encalharem no golfo de Sirte, soltaram a âncora flutuante e, assim, se deixaram ir. 18No dia seguinte, como eram violentamente açoitados pela tempestade, começaram a alijar a carga 19 e, ao terceiro dia, lançaram, com as próprias mãos, os aparelhos do barco. 20Durante vários dias, nem o Sol nem as estrelas foram visíveis, e a tempestade continuava a açoitar-nos furiosamente. Desde então, foi-se desvanecendo toda a esperança de salvação.

Mas é sobretudo com Apolónio de Rodes, que na Expedição dos Argonautas, torna Sirte como o golfo de onde nunca saem os barcos que aí são forçados a entrar.

f44fig. 21 - Ercole de' Roberti (1455/56-1496 ) The Argonauts leaving Colchis c.1480, tempera e óleo sobre painel 35 x 26,5 cm. Museo Thyssen-Bornemisza, Madrid.

Là, après avoir été le jouet des flots pendant neuf jours et neuf nuits, ils furent jetés bien avant dans la Syrte, golfe d'où ne sortent jamais les vaisseaux qui ont été forces d'y entrer.

De tous côtés s'étend un vaste marais dont les eaux, remplies de mousse, et couvertes d'écume, sont entourées de sables immenses, d'où n'approchent jamais ni les animaux terrestres, ni les oiseaux. Le flux qui s'y fait sentir avec violence, emporta tout-à-coup le navire au fond du golfe, en lui faisant perdre seulement une légère portion de sa carène. [7]

[Ali, depois de serem o joguete das ondas durante nove dias e nove noites, foram arrastados para o Golfo de Sirte, golfo de onde os barcos que entram não saem mais. Por todo o lado estende-se um vasto pântano, cujas águas cheias de espuma, estão rodeadas de imensos areais, de que nunca se aproximam nem os animais terrestres nem as aves. A corrente que se fez sentir com violência, arrastou o navio bem para o interior, fazendo-o perder uma ligeira parte da carenagem.]

Nos finais do século XVI Abraham Ortelius desenha um Mapa descrevendo a viagem dos Argonautas que Navegavam sem o mapa que faziam… [8]

f23fig. 22 - Abraham Ortelius (1527-1598):  Argonavtica. Illustrissimo Principi Carolo Comiti Arenbergio, Baroni Septimontii, Domino Miravartii, Equiti Aurei Velleris, etc. Abrah. Ortelivs Dedicab.L.M. 1598 in Theatrvm orbis terrarvm 1603.

f23afig. 23 - Syrtes Pormenor da figura anterior.

E João Peixoto de Miranda refere as inhóspitas Syrtes arenosas nas Libicas plagas naufragosas.

Deixão traz si na rota, sem perigo,
As inhóspitas Syrtes arenosas,
Com q’o mar, só dos nautas inimigo,
Borda as Libicas plagas naufragosas.
Já chegão ao estreito, aonde o antigo
Hercules pôz as metas pavorosas,
Alem das quaes os nautas não ousavão
Os mares devassar, que receavão.
 [9]

Cila e Caribdis

Cila (ou Scila) é um monstro com seis cabeças de cão, cada uma com um longo pescoço e três filas de dentes. Da gruta onde se esconde surgem estas cabeças que atacam os pobres navegantes. Caribdis é um redemoinho, violento e profundo, que absorve e cospe as águas do estreito três vezes ao dia.

f22fig. 24 – Scylla et Charibdis. Na Legenda: A – Scylla B – Caverna que ventis collidentibus magnos edunt Ejulatus C – Charybdis.

Cila (ou Scila ou Scylla) é um monstro com seis cabeças de cão, cada uma com um longo pescoço e três filas de dentes. Da gruta onde se esconde surgem estas cabeças que atacam os pobres navegantes. Caribdis é um redemoinho, violento e profundo, que absorve e cospe as águas do estreito três vezes ao dia.

Na verdade estas personagens mitológicas referem o Estreito de Messina, difícil passagem para os navegantes.

f23bfig. 25 - Scylla e Charybdis. Pormenor de Abraham Ortelius (1527-1598):  Argonavtica. 1598.

Segundo Ovídio, Cila era uma ninfa por quem Glauco se apaixonou recusando o amor de Circe. Esta, para se vingar, espalhou umas mágicas ervas na água onde Cila se banhava, que de imediato se transforma num monstro.

f24fig. 26 - Bartolomeus Spranger (1546-1611) Glaucus et Scylla, 1580/82, óleo s/tela110 x 81 cm. Kunsthistorisches Museum Viena.

Ovídio nas Metamorfoses descreve Glauco, convertido em deus marinho, vendo Cila por quem se apaixona.

Eis que vê Glauco, dos undozos Reinos
Recente habitador, e em Deos marinho
Pouco havia em Anthèdone mudado.
As vagas vem cortando, e ao ver a Virgem
Amor o faz parar, e inspira vozes,
Comque a faça taobem deter os passos;
Porem em vaõ, porq’ella veloz foge,
E busca hum monte proximo da praya,
Despido de arvoredo, e que inclinava
O cume em gruta sobranceiro às ondas.
Na cova pàra, e vendose segura,
Poemse a observar, se hum Monstro, ou se hum Deus era.
[10]

O episódio é também pintado por Turner no seu estilo peculiar.

f25fig. 27 - Joseph Mallord William Turner (1775–1851) Glaucus and Scylla 1841. Óleo sobre painel 78,3 x 77,5 cm. Kimbell Art Museum. Texas, USA.

E Ovidio prossegue com Cila transformada em fera marinha.

………………………..Circe, aquem outra
Nenhũa igualla em coraçaõ propenso
Ás chammas sensuaes (ou seja nella
Natureza, ou vingança da irritada
Venus contra seu Pay) responde a Glauco:
Em vez de amares hũa, que despreza
O talamo nupcial de hum Deos Espozo,
Naõ seria melhor, que te empregasses
Em quem naõ fosse esquiva a teus extremos?
……………………………………………………………………………
Eu que sou taobem Deoza, e do Sol filha,
Glauco da Maga a idea percebendo,
Antes (disse) daraõ as vastas ondas
Frondozos arvoredos, e alga os montes,
Doque eu mude de amor, vivendo Scylla.
Enfureceose Circe, e naõ podendo,
Nem querendo dannar ao Deos q’amava,
Tornouse contra a Bella preferida.
Entrou Logo a extrahir de encantadoras
Ervas os mortaes succos, misturados
Com mil segredos, que Hecate ministra.
 [11]

O episódio de Cila transformando-se em monstro é também pintado por Rubens.

f26fig. 28 - Peter Paul Rubens (1577-1640) Scylla and Glaucus c.1636, óleo sobre painel 26,5 x 32,7 cm. Musée Bonat. Bayonne França.

E Ovídio mais adiante:

Vem Scylla ignara, e na corrente o corpo
Mette ate à cintura. Eisque nos Lados
Dando Ladridos, sente Logo huns Monstros:
Naõ suppondo ao principio, q’elles eraõ
Partes do corpo seu, tenta expulsallos
Assustada co’as bocas dos Rafeiros;
Mas tanto os atrahe mais, quanto lhes foge.
Leva as maõs aos joelhos, pez, e coxas,
E de Cerberos acha em tudo dentes,
Armados sempre de escumoza raiva,
E formando metade dos seus membros,
Ao Lado, e ventre sem Largar fillados.
[12]

f27fig. 29 - Les Metamorphoses d’Ovide en Latin et François, divisées en XV Livres. Traduction de Mr. Pierre du Ryer Parisien, de l’Académie Françoise. M DC LXXVII.

O poeta inglês Samuel Garth, médico de Georges I, tradutor de Ovídio, escreveu um poema sobre Cila.

"Upon the beech a winding bay there lies,
Sheltered from seas, and shaded from the skies;
This station Scylla chose; a soft retreat
From chilling winds and raging cancer's heat.
The vengeful sorceress visits this recess,
Her charm infuses, and infects the place.
Soon as the nymph wades in, her nether parts
Turn into dogs, then at herself she starts.
A ghastly horror in her eyes appears
But yet she knows not what it is she fears,
In vain she offers from herself to run,
And drag's about her what she strives to shun.
"Oppressed with grief the pitying god appears,
And swells the rising surges with his tears;
From the detested sorceress he flies,
Her art reviles, and her address denies,
Whilst happless Scylla, changed to rocks, decrees
Destruction to those barks that beat the seas."
[13]

[Numa apressada e pouco cuidada tradução:

“Sobre a faia de uma baía sinuosa lá se encontra,
Protegida dos mares, e sombreada dos céus;
Este lugar que Scylla escolheu; um retiro suave
Dos ventos gelados e do furioso cancro do calor.
A feiticeira vingativa visita este recesso,
O seu charme infunde, e infecta o lugar.
Logo que a ninfa entra, suas partes inferiores
a transformar-se em cães nela então começa.
Um terrivel horror nos seus olhos aparece
Mas ela ainda não sabe o que é que ela teme,
Em vão ela tenta de si mesma correr,
Mas arrasta com ela o que se esforça para fugir.
"Oprimida pela dor, aparece-lhe o deus piedoso,
E enche as ondas que crescem com suas lágrimas;
Da feiticeira detestada ele voa,
Sua arte insulta, e a sua morada nega,
Enquanto Scylla feliz, se muda para os rochedos, decretando
A destruição para aqueles barcos que cruzam os mares."]

Cila e Caribdis

Do outro lado do estreito está Caribdis, filha do Mar (Poseidon) e da terra Gaia.

Cila e Caribdis formam assim o terrível Estreito que os navegantes tanto temem.

Homero na Odisseia já descrevera essas dificuldades:

É aí que mora Cila de latido assombroso.
Sua voz ao ladrar de um filhote de cão
equivale, mas ela mesma é portento vil; ninguém
se jubilaria ao vê-la, nem mesmo um deus.
Ela tem doze pés, todos sem panturrilha,
e seis são os pescoços bem longos, e, em cada um,
uma aterrorizante cabeça com dentes em três fileiras,
cerrados e múltiplos, cheios de negra morte.
Até a metade na cava gruta está embrenhada,
e mantém as cabeças fora da furna assombrosa;
lá mesmo pesca, em volta do penedo, buscando
delfins, focas e, se acaso pega, maior
portento, dos que, milhares, cria Anfitrite alto-gemido.
Nunca se ouviram nautas, incólumes, proclamar
ter escapado com a nau; leva, em cada cabeça,
um herói, após arrancá-lo da nau proa-cobalto.
 [14]

E Homero nos versos seguintes descreve Caribdis, que sorve negra água.

O outro penedo verás que é mais raso, Odisseu,
os dois próximos entre si, à distância de uma flecha.
Nele há uma grande figueira, abundante em folhas;
abaixo dela, a divina Caríbdis sorve negra água.
Três vezes esguicha ao dia, três vezes sorve,
assombrosa: que lá não te encontres durante o sorvo;
do mal não te protegeria nem mesmo o treme-solo.
Rápido, do penedo de Cila bem achegando
a nau, passa ao largo, pois é muito melhor
lastimar da nau seis companheiros que todos juntos
.  [15]

f28fig. 30 - Alessandro Allori (1535-1607), Fresque du cycle d'Ulysse c. 1575. Banca Toscana. Florença.

Nos Argonautas de Apolónio de Rodes, Cila e Caribdis são assim descritas:

Echappes aux enchantemens des Sirènes, les Argonautes approchoient en tremblant du détroit, où des dangers plus affreux encore les attendoient.

D'un côté s'élevait le rocher de Scylla; de l'autre Charybde poussoit du fond de ses gouffres d'affreux mugissemens. [16]

[Escapando dos encantos das Sereias, os Argonautas aproximaram-se tremendo do estreito, onde perigos mais aterradores os esperavam.

De um lado erguia-se o rochedo de Cila; do outro Caribde rugia das suas profundezas terríveis mugidos.]

E Ovídio nas Metamorfoses também refere a difícil passagem, juntando Cila com Caribdis.

Que hũa Carybdes ha, infesta ás Quilhas,
As quaes ora submerge, ora vomita?
Que hũa Scylla voraz de Caens rodeada
Ladra sanhuda nas Sicanias ondas? 
[17]

E mais adiante

Nas arêas Zanclèas em nocturno
Silencio descançou. Ambos seus Lados
Monstros infestaõ: Scylla está ao dextro,
Ao sinistro Carybdes
; esta traga
Baixeis incautos, que depois vomita;
Aquella cinge seu medonho ventre
De caens sempre sanhudos
. [18]

E também Horácio refere Cila e Caribdis associando-os agora a Diomedes.

Canta, ò Musa, o Varaõ, que conquistada
Troya, vio longas terras, e diversos
Costumes observou de muitos povos.
Este Épico naõ quiz, que precedesse
A chamma ao fumo, mas o fumo à chamma;
Para poder depois raros portentos
Referir, como Antiphates, e Scylla,
A Carybdes voraz, e Polifemo.
A cantar naõ começa de Diomedes
A vinda desde a morte de Meleagro. [19]

Luís de Camões vai buscar Cila e Caribdis e ainda Sirte, a Virgílio a quem chama lira Mantuana, que faz que soe Eneias, e a Romana glória voe.

Que, se o facundo Ulisses escapou
De ser na Ogígia Ilha eterno escravo,
E se Antenor os seios penetrou
Ilíricos e a fonte de Timavo,
E se o piadoso Eneias navegou
De Cila e de Caríbdis o mar bravo,
Os vossos, mores cousas atentando,
Novos mundos ao mundo irão mostrando.
 [20]

E mais adiante no Canto VI,

Se tenho novos modos perigosos
Doutra Cila e Caríbdis já passados
,
Outras Sirtes e baixos arenosos…
[21]

E em meados do século XIX, o irmão mais velho de Almeida Garrett, refere Scyla e Carybides:

Puzemos de sentinella,
Porque fugir não tentassem,
Scyla e Carybides, Lamia
Que ao fugir as devorassem.
 [22]

Cila e Caribdis e a Barra do Douro

O padre Manoel Pereira de Novais na sua Anacrisis Historial, referindo-se a Dom Miguel da Silva, (Sílvio e Miguel Nestor) [23]

Outrora fui eu Porto, mas falsamente fvi assim chamado:
Na realidade ev era Sirte, Cila, Caribde.
Mas Silvio fez (-me) Porto e concedeu-me que assim possa
Ser chamado e (por isso) demande-me todo o navegante
Tornarás fácil a passagem pelas (suas) agitadas águas
Tu baluarte que por concessão de Silvio, te ergues resplandecente para o Céu.
E na sua frente, está de pé, entre rochedos e terríveis perigos,
Para que desdenhes da fúria e dos baixios do mar.
Aplaude e faz votos pelos anos de Miguel Nestor,
Porque ele te protegeu a vida.
 [24]

O, já citado, João Peixoto de Miranda, sem as referir, descreve a dificuldade da entrada da barra do Douro.

Alçado sobre o mar, foi occupando
Longa parte da fóz, e arremettendo
Com os braços as náos, que vem chegando
As afronta, a passagem defendendo.
Párão as náos, e então elle, escumando
De raiva, assim fallou n'hum tom horrendo,
Com que os mares tremerão d'assustados,
E os evosos rochedos carcavados.
Que mao fado vos traz, loucos humanos,
A esta infausta barra assim perdidos!
Ah! sabei, que me cumpre fazer damnos
Aos que tenta-la ousarem atrevidos.
A vedar-lhe passagem , longos annos
Ha, q’ obrigado estou, e, pois sabidos
Sào estes meus encargos, até agora
Nenhum baixel a vio de dentro, ou fora. 
[25]

Cila seria então Felgueiras, o maior dos rochedos, junto à margem norte do Douro, ou o Ferro, o rochedo sobre que se levantava a cruz de ferro, descritos por Agostinho Rebello da Costa a acompanhar a gravura de T. de Souza Maldonado, e Caribde os redemoinhos que se formam à entrada da barra.

Quanto a Sirte seria o Cabedelo:

Se não sabeis quem sou, dizer-vos devo,
Que sou aquelle monstro, que se chama
Cabedelo
, e q'envolto ao longe levo
Com meu nome o terror, que só me afama,
Tenho o Douro por pái e se me atrevo
A fazer no Oceano extensa cama,
He porque minha mãi, Neréa Ninfa,
Morada goza na salgada linfa.
[26]

 


[1] João Peixoto de Miranda, Cale ou A Fundação da Cidade do Porto, Poema de João Peixoto de Miranda, Typographia de D. António Moldes, Largo da Batalha n.º41, Porto 1850. (Estrofe 155, pág.374).

[2] Ver: Marta Maria Arriscado de Oliveira Porto, São Miguel o Anjo: uma torre, farol e capela. Memória para uma intervenção na obra. Trabalho realizado no âmbito do Processo IPPAR n.º123/P/05 Capela ou Farol de S. Miguel-o-Anjo, Porto Estudo histórico e formal. Porto Novembro de 2005.

[3] Virgílio (Publius Vergilius Maro 70 a.C.-19 a.C.), L’Eneide, Livre VII (pag. 305).

[4] João Franco Barreto (1600 – c. 1674), Eneida Portugueza Parte II que contem os últimos seis livros de Virgilio. Seu Author Joaõ Franco Barreto. Na Officina de Antonio Vicente da Silva, Lisboa Anno de 1763. (Livro VII Estrofe 71 pág.21).

[5] Theotonio Joze Xavier da Cunha Soneto in Poesias de Theotonio Joze Xavier da Cunha Na Offic. de Antonio Alvarez Ribeiro, Porto Anno de 1706. (pág. 42).

[6] Estrabão (c.64 a.C. – 21 ou 25 d.C.), Géographie de Stabon. Traduction Nouvelle par Amédée Tardieu. Deuxième Edition. Tome Premier. Librairie Hachette et C.ie, 79, Boulevard Saint-Germain, 79, Paris 1886. (Liv. XVII, Cap. III, 20).

[7] Appolonius de Rhodes (295?-230 a.C.). L'Expédition des Argonautes, ou la Conquête de la Toison d'or, poème en quatre chants, par Apollonius de Rhodes, traduit pour la première fois du grec en françois, par J. J. A. Caussin,Professeur au Collège de France. A Paris, Chez Moutardier, Libraira, qua ides Augustins. Deroy, Libraire, rue du Cimitière S.-André-des-Arts, n.º 15. J. Ch. Laveaux, Imprimeur, à Conflans-Charenton, rue des Bordeaux, n.º12. L’An V de la République Française. (1796-1797). (pág. 363 e 364).

[8] Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004 ), As Ilhas VI 1979, in Obra Poética. Assírio & Alvimpoto Editora 2015. (pág.728).

[9] João Peixoto de Miranda, Cale ou A Fundação da Cidade do Porto, Poema de João Peixoto de Miranda, Typographia de D. António Moldes, Largo da Batalha n.º41, Porto 1850. (Canto 8.º, Estrofe 37, pág. 341).

[10] Publio Ovidio Nasam (43 a.C.-17 ou 18 d.C.), Metamorfoses. Tradução de Francisco José Freire (Cândido Lusitano) in Aristóteles Angheben Predebon, Edição do Manuscrito e Estudo das Metamorfoses de Ovídio traduzidas por Francisco José Freire. Universidade de São Paulo 2006. (Livro XIV, Fábula XIII, versos 29 a 41, pág. 650 e 651).

[11] Publio Ovidio Nasam (43 a.C.-17 ou 18 d.C.), Metamorfoses. Tradução de Francisco José Freire (Cândido Lusitano) in Aristóteles Angheben Predebon, Edição do Manuscrito e Estudo das Metamorfoses de Ovídio traduzidas por Francisco José Freire. Universidade de São Paulo 2006. (Livro XIV, Fábula XIV, versos 48 a 50v., pág. 656 e 657).

[12] Publio Ovidio Nasam (43 a.C.-17 ou 18 d.C.), Metamorfoses. Tradução de Francisco José Freire (Cândido Lusitano) in Aristóteles Angheben Predebon, Edição do Manuscrito e Estudo das Metamorfoses de Ovídio traduzidas por Francisco José Freire. Universidade de São Paulo 2006. (Livro XIV, Fábula XIV, versos 46 a 58., pág. 656 e 657).

[13] Sir Samuel Garth (1661-1719) The Works of Sir Samiel Garth. Printed for Thomas Ewing Dublin M DCC LXIX. (pág.160).

[14] Homero, Odisseia, Tradução de Christian Werner. Apresentação de Richard P. Martin. Cosac Naify, rua General Jardim, 770, 2° andar São Paulo 2014. (Canto XII, Versos 89 a 104, pág. 275).

[15] Homero, Odisseia, Tradução de Christian Werner. Apresentação de Richard P. Martin. Cosac Naify, rua General Jardim, 770, 2° andar São Paulo 2014. (Canto XII, Versos 104 a 113, pág.276).

[16] Appolonius de Rhodes (295?-230 a.C.). L'Expédition des Argonautes, ou la Conquête de la Toison d'or, poème en quatre chants, par Apollonius de Rhodes, traduit pour la première fois du grec en françois, par J. J. A. Caussin,Professeur au Collège de France. A Paris, Chez Moutardier, Libraira, qua ides Augustins. Deroy, Libraire, rue du Cimitière S.-André-des-Arts, n.º 15. J. Ch. Laveaux, Imprimeur, à Conflans-Charenton, rue des Bordeaux, n.º12. L’An V de la République Française. (1796-1797). (pág. 243).

[17] Publio Ovidio Nasam (43 a.C.-17 ou 18 d.C.), Metamorfoses. Tradução de Francisco José Freire (Cândido Lusitano) in Aristóteles Angheben Predebon, Edição do Manuscrito e Estudo das Metamorfoses de Ovídio traduzidas por Francisco José Freire. Universidade de São Paulo 2006.

(Livro IV, pág. 386).

[18] Publio Ovidio Nasam (43 a.C.-17 ou 18 d.C.), Metamorfoses. Tradução de Francisco José Freire (Cândido Lusitano) in Aristóteles Angheben Predebon, Edição do Manuscrito e Estudo das Metamorfoses de Ovídio traduzidas por Francisco José Freire. Universidade de São Paulo 2006. (Livro IV, fabula 8ª, pág.643).

[19] Arte Poética de Q. Horacio Flacco, traduzida e ilustrada em portuguez por Candido Lusitano. Na Officina Patriacal de Francisco Luiz Ameno, Lisboa M.DCC.LVIII. (XV, pág. 68 e 69). Candido Lusitano é Francisco José Freire (1719-1773).

[Dic mihi, Musa, virum, captai post tempora Troiae,
Qui mores hominum multorum vídit, & urbeis.
Non fumum ex fulgore, sed ex fumo dare lucem
Cogitat, ut speciosa dehinc miracula promat,
Antiphaten, Scyllamque, & cum Cyclope Charybdin
Nec reditum Diomedis ab interitu Meleagri…]

[20] Luís de Camões Lusíadas, in Obras de Luís de Camões. Lello & Irmão, 144, Rua das Carmelitas, Porto 1970. (Canto II, estrofe XLV, pág. 1159).

[21] Luís de Camões Lusíadas, in Obras de Luís de Camões. Lello & Irmão, 144, Rua das Carmelitas, Porto 1970. (Canto VI Estrofe LXXXII, pág. 1286).

[22] Alexandre José da Silva de Almeida Garrett (1797 - 1847), As Viagens a Leixões ou A Troca das Nereidas; Poema Heroi-Comico, oferecido às senhoras portuguezas, especialmente às Ill.mas e Ex.mas Senhoras Cirne por ***** Na Typographia de Sebastião José Pereira, Praça de Sancta Thereza, n.º 28, Porto 1855. (pág.62).

[23] Dom Miguel da Silva [23] o bispo de Viseu que se preocupou com a barra do Douro, edificando o Farol do Anjo, a igreja de S. João Baptista, e um templete que identificava o mais perigoso dos rochedos,

[24] Padre Manuel Pereira de Novais Anacrasis Historial II Porto 1913, A. De Magalhães Basto Apontamentos para um dicionário de artistas e artífices que trabalharam no Porto do século XV ao século XVIII. Citado em Marta Maria Arriscado de Oliveira Porto, São Miguel o Anjo: uma torre, farol e capela. Memória para uma intervenção na obra. Trabalho realizado no âmbito do Processo IPPAR n.º123/P/05 Capela ou Farol de S. Miguel-o-Anjo, Porto Estudo histórico e formal. Porto Novembro de 2005.

[25] João Peixoto de Miranda, Cale ou A Fundação da Cidade do Porto, Poema de João Peixoto de Miranda, Typographia de D. António Moldes, Largo da Batalha n.º41, Porto 1850. (Canto 9º, Estrofe 45 e 46, pág. 344).

[26] João Peixoto de Miranda, Cale ou A Fundação da Cidade do Porto, Poema de João Peixoto de Miranda, Typographia de D. António Moldes, Largo da Batalha n.º41, Porto 1850. (Canto 9.º, Estrofe 49, pág. 345).

 

Cap. V - Breve apontamento sobre as dificuldades da Barra do Douro

A partir dos finais do século XV, com a Expansão, aumenta consideravelmente o movimento na barra do Douro, que se manterá até ao início do século XX, quando se inicia a construção do porto de Leixões. Mesmo assim, no início do nosso século ainda se constroem novos paredões.

E é o renascentista Dom Miguel da Silva (1480-1556) quando em 1525 regressa de Roma, que primeiro e verdadeiramente se ocupa da Barra do Douro. (Das suas intervenções nos ocuparemos na II Parte deste texto). [1]

Dom Miguel da Silva está representado no quadro de Vasco Fernandes Cristo em Casa de Marta, que por ele terá sido encomendado. É a figura de Lázaro à direita de Cristo.

f45fig. 31 – Vasco Fernandes (1501-1540), Cristo em Casa de Marta, c. 1535, óleo s/ madeira 198,1 x 204,8 cm. Museu Grão Vasco, Viseu.

Mas no século XVIII ainda são descritas por Manoel de Pimentel na sua Arte de Navegar de 1762, as dificuldades da barra do Douro:

Na barra do Porto naõ se entra senaõ com hum quarto de agoa cheya send o pataxo, e sendo navio grande com tres quartos de agoa cheya, e isto no veraõ, porque no inverno he muito perigosa, e difficultosa a entrada. Da banda do Norte da entrada desta barra está o Castello chamado S. Joaõ da Foz, e fóra d’elle ha muitas pedras que sahem ao mar o comprimento de duas amarras ao Sudoeste, as mais dellas saõ descubertas, a huma que he mais alta que as outras chamaõ a Filgueira, e della para o Sul quarta do Sueste vay correndo hum rochedo o comprimento de meya amarra, e mais para o Sul está huma pedra chamada a Lagem do Norte, a qual está debaixo da agoa, e nunca descobre, e mais ao Sul o comprimento de 10, ou 12 braças está outra lagem a que chamaõ a Lagem do Sul.

Entre estas duas lagens he a carreira por onde se entra e sahe. Da parte do Sul do rio saõ terras baixas de areya a que chamaõ Cabedelo, e por fóra do Cabedelo ha outras areyas que vaõ avançando para o Norte.

Querendo entrar nesta barra, estando ella direita, e sem banco fóra das lagens, vem-se do Noroeste para o Sueste com vento Norte, ou Noroeste, ou outro vento do mar affastado da Filgueira o comprimento de hum a amarra, e se enfia a Ermida de S. Catherina (que está em hum monte acima da ribeira do ouro da parte do Norte do rio) com a Ermida de S. Miguel que está na borda da agoa na ponte das pedras de S. João da Foz, e assim se governa até estar perto da Cruz, ou pilar, que he huma rocha onde ha huma torrinha redonda, costeando-a o mais de perto que puder ser, deixando·a a bombordo, e outra pedra que está em meyo canal ficará a estibordo a travez do navio, e passada ella se vay por meyo canal até a Cidade, e se àmarra ao caes, ou no meyo do rio. A Cidade fica pouco mais de meya legoa da barra, mas pelas muitas pedras que tem este rio he impossível entrar nele sem pratico.Tambem he perigoso chegar diante desta barra com mao tempo, e não convem vir a ella senão com bonança, porque com ruim tempo he o mar muy grosso. Por entre o Cabedello, e as lagens ha canal para pataxos e se entra vindo do Sul para o Norte; a este canal chamaõ a barra do Sul. [2]

E em 1762, João Bautista de Castro também assinala que Faz nesta barra sua foz o rio Douro, e fica distante da Cidade meya légua. Há na barra duas lages, huma da parte Norte, e outra do Sul, por entre as quaes he a carreira ordinária de entrar, e sahir, mas háde ser com três quartos de agua cheya, sendo navio grande, e entrando de Veraõ; porque de Inverno sempre he perigosa pela mayor quantidade de arêas, que se ajuntaõ. Perto da entrada da barra para aparte do Norte está o Castello de S. Joaõ da Foz em quadro prolongado; consta de quatro baluartes pequenos. Hum dos seus lados estreitos, que olha ao Poente, cahe sobre o mar, e no outro lado oposto está a porta cuberta com hum pequeno revelim. [3]

Mas sobretudo é o padre Agostinho Rebello da Costa que na sua Descripção Topografica e Historica da Cidade do Porto de 1789, faz uma detalhada descrição da barra que dá entrada, e sahida ao riqissimo Commercio desta Cidade, e das suas dificuldades.

E de seguida Rebello da Costa faz essa descrição acompanhada de uma gravura de T. S. Maldonado.

f29fig. 32 – T. S. Maldonado, Planta Geográfica da Barra da Ci.de do Porto. T. S. Maldonado delin. Porto. Godinho sculp. Officina de António Alvares Ribeiro, 1789 água-forte 26,5x38,2 cm para ilustrar a edição da Descripção Topográfica e Histórica da Cidade do Porto, do Pe. Agostinho Rebelo da Costa, Porto, 1789. (pág. 188).

Numero 1, mostra o lugar de S. João da Foz immediato à Cidade, e aonde finaliza o Rio Douro. A Barra formada pela sua corrente principia de fronte do CASTELO num.2, e vai continuando com a largura de 20 braças medidas desde a lage DAVRA num.3, até a de AGUIÀO num.4, entre as quaes faz o seu ponto principal. Estas lages estão sempre cobertas d'agoa. Ao poente desta última, e na distancia de 8 braças, há outra chamada do PICÃO num.5: ao norte d'ambas levanta-se fora d'agoa em todas as marés hum alcantilado rochedo, chamado FELGUEIRAS num.6 com a sua ponta ao sul, perigosissima aos Na­vios, e assim mesmo he a dita lage DAVRA.
«Pelo sul desta, forma-se outro canal chamado SUL DA LAGE num.7, por onde entrão as embarcaçoens, quando não tem arêas. Ao sueste desta segunda Barra, há outro rochedo, chamado FOGAMANADAS num.8, e imediatos a este, achão-se outros chamados os FI­LHOS DA PERLONGA num.9, que vão ter ao CABEDELLO num.10.
«Entre estas pedras, e os rochedos, que estão pegados ao CASTELLO num.2, he que está o canal da entrada principal da Barra.
«Segue-se outro rochedo chamado TOURO num.11, pelo sul do qual he a carreira dos Navios. Ao norte deste, há outro chamado SUPENA num.12, que nunca se cobre d'agoa. Segue-se outro chamado SAMAGAYO num.13, que está sempre encoberto. Ao norte deste estão outros chamados PICOENS num.14, que só apparecem na baixa mar.
«Continuando a mesma carreira, acha-se a pedra d'OLINDA num.15, que sempre está coberta d'agoa. Por entre esta, e o CABEDELLO, he que continua a carreira dos Navios.
«Ao norte desta pedra d’OLINDA, acha-se outra chamada a GAMELLA num.16, que apparece nas vazantes. Ao Lessueste da GAMELLA, existe a pedra JOMBOI num.17, e ao Leste fica o PILAR DA CRUZ num.18, que apparece sempre fora d'agoa. Pelo sul deste PILAR, he a carreira ordinária dos Navios, e ao sul desta carreira fica no meio do Rio a pedra do FERRO num.19, sempre oculta, e encoberta.
«Há outro canal ao sul desta pedra chamado SUL DO FERRO num.20, que também serve de carreira aos Navios; porém os mais pequenos, servem-se muitas vezes, do pequeno canal, que fica entre as pedras do MUGE num.21, e a BURNACEIRA num.22. Ao leste da pedra da CRUZ achão-se outras chamadas os ARRIBADOUROS num.23, que somente apparecem na baixa mar; e logo acima na carreira ordinária estão as LOBEIRAS DE SOBREIRAS num.24, que sempre estão encobertas. Defronte do lugar do Ouro há as LOBEI­RAS DA INSUA num.25, e ao sul, he que continua a carreira de todas as embarcaçoens. O CABEDELLO, como já disse, he toda a extenção d'arêa num.10, que algumas vezes chega a aproximar-se por força da cor­rente à PEDRA D'OLINDA num.15, e então he, que a Barra fica rnuito mais perigosa, sendo o dito CABE­DELLO também perigoso, ainda quando se não apro­xima áqueíla pedra.
[4]

Na mesma época Manoel Marques de Aguilar elabora uma perspectiva da barra, onde mostra com o desenho de três fragatas o difícil percurso dos navios na entrada da barra.

As três fragatas, guiadas por pilotos em escaleres, percorrem o percurso da entrada da barra. Repare-se que a terceira fragata está junto do rochedo Felgueiras, a segunda junto ao rochedo Touro, e a primeira junto ao rochedo Ferro.

f30fig. 33 – Manoel Marques de Aguilar (1767-1816), Perspectiva da entrada da Barra da Cidade do Porto e Fortaleza que a defende. Dedicada ao Ulmo. e Exmo. Senhor José de Seabra e Silva, Secretário d'Estado de Sua Magestade Fidelíssima da Repartição dos Negócios do Reyno. 1790, gravura a água-forte 0,44x0,28 AHMP.

As três fragatas (ou a mesma em três posições diferentes!), guiadas por pilotos em escaleres, percorrem o percurso da entrada da barra. Repare-se que a terceira fragata está junto do rochedo Felgueiras, a segunda junto ao rochedo Touro, e a primeira junto ao rochedo Ferro.

f30afig. 34 - Pormenor da gravura anterior.

As fragatas que entram no Douro lembram o poema de Alfred de Vigny:

Qu'elle était belle, ma Frégate,
Lorsqu'elle voguait dans le vent!
Elle avait, au soleil levant,
Toutes les couleurs de l'agate;
Ses voiles luisaient le matin
Comme des ballons de satin;
Sa quille mince, longue et plate,
Portait deux bandes d'écarlate
Sur vingt-quatre canons cachés;
Ses mâts, en arrière penchés,
Paraissaient à demi couchés.
Dix fois plus vive qu'un pirate,
En cent jours du Havre à Surate
Elle nous emporta souvent.
- Qu'elle était belle, ma Frégate,
Lorsqu'elle voguait dans le vent!
 [5]

Contudo, denunciada a necessidade de obras na barra, cujas dificuldades eram lesivas do comércio da cidade e apesar dos projectos de Reynaldo Oudinot, pouco ou nada se realizou para alterar as condições da Barra do Douro.

Assim, nos inícios do século XIX escrevia o Reverendo Kinsey:

A perigosa travessia através da barra do Douro, e as suas areias movediças, são bem conhecidos. O cuidado e habilidade necessários para navegar num navio com segurança pelo Douro, até mesmo durante o verão, podem dar uma ideia do que os perigos desta barra e quão perigosa deve ser a sua travessia durante os meses de inverno, quando o litoral está exposto à fúria desenfreada dos ventos de oeste, e a toda a força das ondas do Atlântico. [6]

f32fig. 35 - William Morgan Kinsey (1788-1851), View of the Douro towards Porto, in Portugal Illustrated 1829.

E, as obras da barra voltam a ser consideradas, com o papel desempenhado durante o Cerco do Porto, como mais tarde assinala Júlio Maximo d’Oliveira Pimentel, Visconde de Villa Maior: A costa em grande extensão vê-se eriçada de ásperos e denegridos rochedos de granito que muito dificultam o desembarque nas praias. Todavia, nos últimos tempos do cerco do Porto, na primavera de 1833, quando já se haviam exaurido os mantimentos e munições da cidade e do exército libertador, foi n’estas praias que se fez de noite e debaixo do fogo das baterias miguelistas, o desembarque dos viveres, dos petrechos e munições de guerra, cujo auxílio tornou possível a heroica defeza d’uma tão extensa linha, como aquella que circumdava a cidade e a ligava à foz.

Favorecia estes perigosos desembarques a forte bateria que se havia estabelecido n’aquelle outeiro, que domina a praia e onde se vê o templo e pharol de Nossa Senhora da Luz. [7]

f33fig. 36 - James Holland (1799-1870) THE BAR OF THE DOURO. Painted by J. Holland. Engraved by J. C. Armytage. London. Published. Oct. 28, 1838, by Robert Jennings & C.o, 62, Cheapside. The Tourist in Portugal by W. H. Harrison, illutrated from paintings by James Holland. Robert Jennings, 62 Cheapside, London MDCCC XXIX.

E que José Martins Rua no seu Poema heroico da Liberdade Portugueza, descrevera o papel que tiveram os liberais na luta contra a bateria Miguelista instalada a sul:

A bateria, que na Foz do Douro
De continuo os marujos massacrava,
Em breve se tornou o matadouro
Dos que impedião do alimento a entrada:
Por um fogo continuo, e duradouro
Liberaes conseguirão na enseada,
O desembarcar amplos mantimentos,
Provisoens estas para largos tempos.
 [8]

f34fig. 37 – San Joaõ da Foz & The Entrance of the Douro. From a Miguelite Battery on the South. John W. Parker, West Strand, London.

Nos meados do século XIX, romanticamente descreve Maria Clamouse Browne:

Avulta mais entre as sombras
Um rochedo alcantilado;
A sues pés vai manso o Douro
Depor-lhe um beijo humilhado;
E depois, como pungido,
Corre ao mar arrebatado.
Só quando o Douro transborda,
Na tormentosa estação,
Surdos gemidos murmura
Em seu férvido cachão…
E lá surge, do mysterio,
Sobre o rochedo, a Visão!
[9]

f48fig. 38 - OPORTO. La Foce dei DOURO. Veduta presa dália Carnera dei RE. E. Gonin dis. dal vero e Lit. Torino. Lit. F.lli Doyen e C.ia. 1851.

Ignacio Vilhena de Barbosa sobre a Barra escreve nos anos 60 do século XIX:

A sua barra, apertada pelo Cabedello, que se estende do sul para o norte, é de difficil entrada pelos muitos cachopos, e bancos de aréa, que a obstruem, deixando entre si um estreito canal em zig-zags; o que tem sido causa de muitos naufragios. Porém nestes ultimos annos teem-se empregado muitos esforços, com avultadas despezas para a extracção das pedras, e encanamento do rio, com o que já tem melhorado a barra, continuando ainda os trabalhos. A barra é defendida pelo castello de S. João da Foz, edifícado sobre rochas no lado do norte. No tempo dos Filippes de Hespanha construiu-se ahi um pequeno forte, junto a uma egreja e convento de benedictinos. [10]

Mas apesar desses muitos esforços, com avultadas despezas para a extracção das pedras, e encanamento do rio, com o que já tem melhorado a barra, é D. Pedro V que quer que no programa do governo para o anno seguinte (1857) entre um outro ponto: “É a maneira de animar o comércio marítimo do Porto». Está convencido que tudo quanto se gasta com as obras da barra é perdido. O Douro “é um arroio no verão e uma no inverno, e em quanto não se extirparem completamente os rochedos que obstruem a foz do rio, existirá sempre a grande barra de areia».

Que resta fazer? Pergunta o Rei e ele mesmo se encarrega da resposta:

“Sem dúvida alguma construir um porto artificial sobre a costa e posteriormente ligá-lo ao Porto por meio de um canal, o que êle não aconselharia, ou então de uma via férrea. Esta ideia é do coronel Folque e minha há muito tempo, mas foi necessário que viesse John Rennie * perfilhá-la e fazê-la valer como sua, para que se começasse a crer nela.” [11]

* Sir John Rennie (1794-1874), engenheiro autor da London Bridge, cujo desenho, havia sido esboçado pelo seu pai, com o mesmo nome. Esteve em Portugal em 1855 para projectar linhas férreas e portos embora nenhum dos seus projectos tenha sido executado.

f47fig. 39 – View of the Bar of Oporto

E John Latouche ao descrever a cidade do Porto refere que Its commercial importance would be still greater but for the dangerous bar at the mouth of the Douro, over which vessels of more than five or six hundred tons cannot pass. The channel across the bar varies almost monthly, as the sands, brought down by the river, shift with changing winds and varying currents; and the bar is, or is ordered to be — for there is a difference — sounded and examined daily. [12]

[A sua importância comercial seria ainda maior, se não fosse a perigosa barra da foz do Douro, onde navios de mais de cinco ou seiscentas toneladas não podem passar. O canal ao longo da barra varia quase mensalmente, quer pelas areias trazidas pelo rio, quer pela variação dos ventos e das correntes; e a barra é, ou devia ser – para notar diferenças – sondada e examinada diariamente.]

Camilo Castelo Branco escreve o que poderia ser uma legenda da figura n.º 40.

Antes do arraiar da aurora, uma escuna inglesa balouçava-se defronte do castello da Foz, á bocca da barra. Assim que amanheceu, as velas trapejavam com prospero vento. [13]

f38fig. 40 O Castello de S. João da Foz, Coelho, O Archivo Popular vol.3, 1839 (pág.177).

E Lady Jackson na mesma época descreve a terrível Barra do Douro:

Defronte da Foz avulta um alto monte de escuro pinhal, a cuja abra se alastram massas sobrepostas de granito fragmentadas. Depois, estirando-se através do ancoradouro, ha um longo banco d'areia chamado Cabedello, que, juntamente com uns penedos submersos e outros cujos cabeços irrompem á tona d'agua, e com as traiçoeiras areias movediças, formam a terrível Barra do Porto.

A bocca da Barra é tam estreita e perigosa que as saídas e entradas dos navios olham-se com ancioso interesse por seu salvamento. [14]

f40fig. 41 – Postal sobre uma foto de Emílio Biel.

Terminamos como no início referindo o Mito agora com um excerto do poema Mito de Cesare Pavese:

Verrà il giorno che il giovane dio sarà un uomo,
senza pena, col morto sorriso dell’uomo
che ha compreso. Anche il sole trascorre remoto
arrossando le spiagge. Verrà il giorno che il dio
non saprà più dov’erano le spiagge d’un tempo.
[15]

[Virá o dia em que o jovem deus será um homem,
sem pena, com o morto sorriso do homem
que entendeu. Até o sol desliza remoto
avermelhando as praias. Virá o dia em que o deus
não saberá mais onde eram as praias d’outro tempo.
]



[1] Sobre Dom Miguel da Silva indispensável ver Mário Jorge Barroca, As Fortificações do Litoral Portuense, Edições Inapa S.A. 2001.

[2] Manoel de Pimentel (1650-1719), A Arte de Navegar em que se ensinão as regras praticas, e os modos de cartear, e de graduar a Balestilha por via de numeros e muitos problemas uteis á navegação, e Roteiro das Viagens e Costas Marítimas de Guiné, Angola, Brazil, Indias, e Ilhas Occidentais, e Orientaes, Novamente emendado, e accrescentadas muitas derrotas. Dedicada a ElRei D. João o V Por Manoel Pimentel Fidalgo da Casa de S. Magestade, e Cosmografo Mor do Reino. Lisboa, Na Officina de Miguel Manescal da Costa. Anno M. DCC.LXII. (pág. 524).

[3] João Bautista de Castro, Mappa de Portugal Antigo, e Moderno. Pelo Padre Joaõ Bautista de Castro, Beneficiado na santa Basílica Patriacal de Lisboa. Tomo Primeiro Parte I e II. Nesta segunda edição. Revisto e Augmentado pelo seu mesmo Author: e contém huma exacta descripçaõ Geografica do Reino de Portugal com o que toca à sua Historia Secular, e Política.Na Officina Patriarcal de Francisco Luiz Ameno, Lisboa M.DCC.LXII. (n.º 6 pág.31).

[4] Pe. Agostinho Rebelo da Costa, Descripção Topografica, e Historica da Cidade do Porto, Na Officina de Antonio Alvarez Ribeiro, Porto Anno de M DCC LXXXIX. (Cap. VI, pág. 193 a 195).

[5] Alfred de Vigny (1797-1863), La Frégate La Sérieuse ou La Plainte du Capitaine in Poèmes antiques et modernes 1826 Oeuvres de Alfred de Vigny, Meline, Cans et Compagnie, Librairie, Imprimerie, Fonderie, Bruxelles 1837. (pág.346).

[6] Rev. William Morgan Kinsey (1788-1851) Portugal Illustrated, second edition, published for the author, by Teuttel and Würtz, Treuttel Jun. printed by A. J. Valpy, London 1829 (Letter VII Porto 1827, pág. 171).

[7] Júlio Maximo d’Oliveira Pimentel (1809-1884) Visconde de Villa Maior, in O Douro Illustrado. Album do Rio Douro e Paiz Vinhateiro, [com texto em Português, Francês e Inglês], Porto, Livraria Universal de Magalhães & Moniz – Editores 12-Largo dos Loyos-14, 1876. (pág.164).

[8] José Martins Rua, Pedreida Poema heroico da Liberdade Portugueza por José Martins Rua, Typographia Commercial Portuense, Rua de Bello-Monte, n.º 55, Porto 1843. (estrofe 21, pág. 149).

[9] Maria Felicidade de Clamouse Browne (1797 - 1861), Chorar e Morrer in Virações da Madrugada, s/ edit. Porto 1854. (pag.80).

[10] Ignacio Vilhena de Barbosa (1811-1890), As Cidades e Villas da Monarhia Portugueza, que teem brasão d’armas, por I. de Vilhena Barbosa. Typographia do Panorama Travessa da Victoria, 73. Lisboa 1860. (Volume II, pág.189).

[11] Júlio de Vilhena, D. Pedro V e o seu reinado. Imprensa da Universidade Coimbra 1921. (Volume I pág. 137).

[12] John Latouche, Travels in Portugal with illustrations The Right Hon. T. Sotheron Estcourt, second edition, Ward, Lock, and Tyler, Warwick House, Paternoster Row, London 1875. (pág.145).

[13] Camilo Castelo Branco, Noites de insomnia. Offerecidas a quem não pôde dormir por Camillo Castello Branco. Publicação mensal n.º 1 Janeiro, Livraria Internacional de Ernesto Chardron e Eugénio Chardron 96, Largo dos Clérigos, 98 Porto, e Largo de S. Francisco, 5 Braga, 1874. (pág. 80).

[14] Catharina Carlota Lady Jackson (1824-1891), cap. Do Porto à Foz in A Formoza lusitania, versão do inglês, prefaciada e anotada por Camillo Castello Branco, Livraria Portuense Editora, 121, Rua do Almada, 123, Porto 1877. (pág.303).

[15] Cesare Pavese (1908-1950), Mito (ottobre 1935) in Lavorare stanca 1946. Einaudi Editore, Torino 1998, (pág. 99).

 

CONTINUA na II Parte – Da Cantareira até à Foz

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2 comentários:

  1. Excelente trabalho.
    Parabéns e obrigado pela partilha.

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  2. Venho apenas dizer que o seu blogue é uma maravilha! Boa tarde!

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