Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















segunda-feira, 1 de maio de 2017

O rio e o mar na foz do Douro 6





II Parte - Deriva pela Foz do lado do rio (conclusão)

E levemente o Porto desmaia da sua sombra, como alguém que sorri não sabendo bem o que isso é. [1]

Da Cantareira à Senhora da Luz 3 - I Parte

Há um barco 
há um homem nas areias. 
Obscuramente aprende 
a morrer onde as águas são mais duras. 
Sei que é verão pelo hálito da loucura 
o brilho em declínio das giestas 
a caminho das dunas. 
O homem adormecido 
e a noite do poema eram de vidro. [2]

fig. 1 - Marques de Oliveira (1853-1927), São João da Foz 1881, óleo sobre madeira 13 x 20 cm col. privada.

Marques de Oliveira [3] no final do século XIX pinta o areal que se estendia entre a Cantareira e o Castelo da Foz.
A igreja de S. João Baptista rodeada do casario da Foz ocupa o centro da composição.
Sob um céu de um intenso azul, ao meio dia de um dia de Verão, - sei que é verão pelo hálito da loucura, - no areal que vibra dessa luz estival há um barco / há um homem nas areias, e junto desse barco adormecido, está deitado um jovem pescador que obscuramente aprende a morrer onde as águas são mais duras. 

E o Visconde de Villa Maior refere a praia que ao despedir-se do continente banha o Douro as praias de S. João da Foz, passando junto às muralhas do seu castello. (…) A villa de S. João da Foz, também moderna, apresenta-nos uma risonha physionomia com as suas numerosas e alegres habitações entre massas de viçoso arvoredo, estendendo-se desde as ultimas collinas até à fragosa praia, onde se quebram em alva espuma as ondas do oceano. [4] 



 fig. 2 – Pormenor de T. S. Maldonado, Planta Geográfica da Barra da Ci.de do Porto. T. S. Maldonado delin. Porto. Godinho sculp. Officina de António Alvares Ribeiro, 1789 água-forte 26,5x38,2 cm para ilustrar a edição da Descripção Topográfica e Histórica da Cidade do Porto, do Pe. Agostinho Rebelo da Costa, Porto, 1789. (pág. 188).

Com efeito entre o farol do Anjo na Cantareira e o Castelo da Foz até ao último quartel do século XIX estendia-se um descampado poeirento e soalheiro muito querido dos pescadores que, desde tempos imemoriais, o utilizavam para os consertos das suas redes. Era aí também junto ao Castelo que paravam as seges e os char-à-bancs. [5]


 fig. 3 - A Antiga Alameda. Desenho do Dr. Justino Alves, segundo uma fotografia da época. In A. De Magalhães Basto, A Foz Há 70 Anos, 2.ª edição,O Progresso da Foz 1992. (pág.51).

Ao longo dessa extensão de areia seguia uma estrada ladeada por muitas casas grandes e de apparencia regular, mas todas, com raras excepções, construídas segundo o mau gosto nacional, que assimila as casas de campo às das cidades. Duas casas apenas saem fóra d’esta regra geral: uma edificada pelos annos de 1808 no alto do monte por um negociante inglez, de apelido Nassau; outra construída modernamente no passeio Alegre, perto do castello, pelo falecido capitalista Domingos de Oliveira Maya. A primeira é uma bella casa de campo no gosto inglez, cercada pelo jardim e por um frondoso bosque. Pertence hoje ao sr. Fladgate, súbdito britannico. A segunda, com fachada principal toda de cantaria, coroada de ameias, e com janelas ogivaes, é de uma architectura pesada, e mal proporcionada. Ao presente é propriedade do sr. Bernardo Pereira Leitão. [6]



 fig. 4 - Archivo Pittoresco vol. 8 n.33 1865 (pág.261). 

No artigo do Archivo Pittoresco, Ignacio de Vilhena Barbosa refere que as duas gravuras que publicamos [fig. 4 e fig. 7] foram copiadas de duas photographias da collecção do sr. Seabra.   

A fotografia é de Francesco Rocchini.


  fig. 5 - Francisco Rocchini (?), A Foz no Porto 1849-1873 papel albuminado, p&b ; : 27,9 x 40,3 cm. Album pittoresco e artistico de Portugal.  colecção Thereza Christina Maria - Biblioteca Nacional (Brasil).

Em todas estas imagens (fig.3, 4 e 5) destaca-se a casa construída modernamente no passeio Alegre, perto do castello, pelo falecido capitalista Domingos de Oliveira Maya. [7]


fig. 6 – A Casa mandada construir por Delfim de Oliveira Maya. Foto Teófilo Rego.

A casa, (mais adiante referenciada com a letra B, nas fig.21 e 25) e onde hoje está instalado o Jardim Infantil O Ramalhete, é descrita por Vilhena Barbosa, no referido artigo, como tendo uma fachada principal toda de cantaria, coroada de ameias, e com janelas ogivaes, é de uma architectura pesada, e mal proporcionada. Ao presente é propriedade do sr. Bernardo Pereira Leitão.


fig. 7 – A Casa Oliveira Maya na actualidade.

O molhe ou paredão da margem direita

Se em 1779, José Monteiro Salazar já recomendava a construção de um paredão que unisse o farol da Cantareira aos penedos das Felgueiras e na década seguinte Reynaldo Oudinot, retomava a ideia, após muitos projectos, planos e propostas da primeira metade do século XIX, só em 1861 se iniciaram as obras de construção desse paredão na margem direita que permitiria o aterro onde se plantou o jardim do Passeio Alegre.


fig. 8 - Luiz Gomes de Carvalho (1771-1826). Pormenor da Planta da Foz do Douro até Quebrantoens para inteligência do Plano de Melhoramento da Barra do Porto”. 1825.

Em 1865, Vilhena Barbosa no artigo já citado escreve que estão já realizados dois lanços da muralha das projectadas e não concluídas obras do encanamento do rio. [8]


fig. 9 - B. Lima Leote, S. Joao da Foz, in Archivo Pittoresco,n.º 33, 1865. (pág. 261).


fig. 10 – Foto da época mostrando o paredão concluído.


[1] Agustina Bessa Luís, Aguarelas – o Porto, in Espírito do Porto, Aguarelas de Vasco d’Orey Bobone, Global Notícias 2004. (pág. 6).
[2] Eugénio de Andrade, O Caminho das Dunas, in Escrita da terra. Homenagens e Outros Epitáfios. Assírio & Alvim. 2014. (pág. 54)
[3] Marques de Oliveira (João Joaquim Marques da Silva de Oliveira,1853-1927). Ver neste blogue Apontamentos sobre a pintura em Portugal na esquina dos séculos 19 e 20 (II parte) http://doportoenaoso.blogspot.pt/2011/09/apontamentos-sobre-pintura-em-portugal_28.html
[4] Júlio Maximo d’Oliveira Pimentel (1809-1884) Visconde de Villa Maior, in O Douro Illustrado. Album do Rio Douro e Paiz Vinhateiro, [com texto em Português, Francês e Inglês], Porto, Livraria Universal de Magalhães & Moniz – Editores 12-Largo dos Loyos-14, 1876. (pág.163 e164).
[5] Artur de Magalhães Basto (1894-1960),Jornal O Comércio do Porto 12 de Junho de 1861.
[6] Ignácio de Vilhena Barbosa (1811-1890), in Archivo Pittoresco n.º 33, 1865. (pág.311).
[7] Ignácio de Vilhena Barbosa (1811-1890), in Archivo Pittoresco n.º 33, 1865. (pág.311).
[8] Ignácio de Vilhena Barbosa, in Archivo Pittoresco n.º 33, 1865. (pág.311).



O Jardim do Passeio Alegre

Este jardim (…) foi já espaço pedregoso, onde os pescadores secavam e cosiam as redes. [1]


fig. 11 - Postal. Foz do Douro. Passeio Alegre.

Na sessão camarária de quinta-feira passada foi aprovada pela Ex.a Câmara a planta da nova rua e de um jardim passeio, junto à Senhora da Luz em S. João da Foz, com a condição de que o proprietário do campo em que se deve fazer o jardim concorde na diminuição do preço de aforamento e ceda gratuitamente o terreno preciso para a abertura da nova rua. O proprietário subscreve, segundo consta, a estas condições dependendo agora unicamente da aprovação do Conselho Distrital a realização de uma obra cujas vantagens e necessidade não precisam de ser encarecidas. [2]

Em 1888 com a cedência dos terrenos à Câmara, é feita a jardinagem segundo um plano de Emílio David.

Assim plantaram-se arbustos e árvores (algumas vindas da Alemanha) e o Passeio Alegre arborisou-se, cavaram-se lagos, riscaram-se parterres. Abriram-se novos hotéis, e os antigos reformaram-se. A Foz transmudou-se desde a Cantareira até Carreiros. [3] 


fig. 12 - Emílio Biel (1838-1915), O Passeio Alegre, foz. Foto n.º10 do Álbum 20 Photos de Porto et des environs c.1885, de Emílio Biel & C.ª. BnF.




 fig. 13 – O Jardim do Passeio Alegre na planta de Telles Ferreira em 1892.


Em 1892 quando o engenheiro Nogueira Soares, encarregado das obras da Barra do Douro, as considera terminadas, transforma-se no Jardim do Passeio Alegre.

Escreve Ramalho Ortigão:
Ao fim da tarde passeia-se em globo, aos encontrões, no Passeio Alegre.
Nas tardes dos sábados sai à rua menos gente que nos outros dias. Aos domingos sai toda a gente. Às segundas-feiras não sai ninguém. Qual a razão deste fenómeno? Ninguém o sabe. A Foz sobredoura os seus encantos com a posse deste mistério absolutamente insondável. [4]



fig. 14 -  Postal Foz. Passeio Alegre. Sobre uma fotografia de Emílio Biel.

No princípio do século XX, escreve Carlos Montez de Champalimaud, caminhando para poente a partir da Cantareira:
Se, de Sobreiras á Cantareira, a linha das casas está separada do rio apenas por uma estrada estreita e marginada de árvores, d'aqui ao Castello interpõe-se um largo triangulo, conquistado ao mar, ajardinado e arruado, o único jardim público da Foz e, dos públicos, o mais aprazível em todo o Porto; é a toda a hora frequentado amorosamente pela mais distincta sociedade local e, por vezes, principalmente aos domingos, em vantajosa concorrência com o Palácio de Crystal, ou em noites abafadas do quente estio, consegue fascinar e attrahir numerosos visitantes do Porto, o que lhe dá uma animação desusada. [5]



fig. 15 – Postal de Emílio Biel. C.1900.

E no início do século XX é Joaquim Leitão que refere a animação que então o Passeio Alegre mostrava.

Aos dias de música, quintas e domingos, tem a animação de uma avenida de grande capital, e durante as tardes de estio já se vão vendo sentadas pelas sombras senhoras fazendo crochet, enquanto a criançada joga o arco ou o dá-me-lume, miniatura dos jardins franceses. [6]


fig. 16 – Postal colorido Foz. Passeio Alegre.

E o Guia do Porto Illustrado de 1910 refere o Passeio Alegre como um vasto recinto, formoso e cuidadosamente ajardinado, muito bem arruado, tendo três avenidas principaes: uma sobre o muro que antecede o molhe da barra, com um panorama admirável sobre a foz do rio, o Cabedello e sobre a vastidão do oceano; a central admiravelmente ajardinada, com interessantes repuxos e um bom coreto para musica que normalmente ali toca aos domingos, durante o período balnear; e por ultimo a que corre junto à estrada, muito bem illuminada a gaz, como todo o recinto, e possantes focos eléctricos.
É esta a preferida, nas calmosas tardes de verão, pela elite da Foz e do Porto, para seu passeio predilecto. [7]


fig. 17 – Postal Avenida do Passeio Alegre - Foz

Rebordão Navarro evoca esse Passeio Alegre de outrora.

Este jardim, (…) foi centro aglutinante de elegantes, sportmen, fidalgos de camélia ou bouquet na lapela da sobre­casaca, distintas, espartilhadas, enchapeladas damas, arrastando no saibro as pontas das sombrinhas, sobranceiros, cachimbantes cavalheiros britânicos, com as suas árvores muito jovens, os seus lagos, os buxos aparados, o aparato riviérico da casa das sentinas, o coreto por certo func ionando, as colunas de Nasoni, concedendo-lhe fausto, o chafariz rumorejando placidamente, como entre os outonais claustros do franciscano convento. (…) seria, outrossim, por noites de fragrância primaveril da madressilva misturada ao odor intenso da maresia, certos pelo calendário ardentes verões e brumosos, tísicos outonos, alegremente sulcado por boémios, cocotes, bailarinas, jornalistas, poetas, quando havia o Casino, o café Montanha, champanhe, bombons e cerveja alemã no octogonal chalezinho suíço do Sr. Giacomo Racher.


[1] António Rebordão Navarro Este Jardim in Foz do Douro a letra e o lugar, O Progresso da Foz 1993. (pág. 62).
[2] Guido Monterey, Foz do Douro, Secção Cultural do Clube Infante Sagres, 1965. Citado no SIPA.
[3] Alberto Pimentel (1849-1925) Atravez do Passado, cap. Há Vinte Annos, Guillard Aillaud e Cia, 47, Rua de Saint-André-des-Arts, Paris, Filial 28, Rua Ivens, Lisboa 1888. (pág.47).
[4] Ramalho Ortigão As Praias S. João da Foz in As Farpas I 1887 e 1890 Segunda Parte de As Farpas 1 Décimo Volume. Círculo de Leitores, Lisboa 1988. (pág. 114).
[5] Carlos Barreiros Montez de Champalimaud (1877-1937), Foz do Douro: Febre Typhoïde, Dissertação inaugural apresentada à escola Medico-cirurgica do Porto Julho de 1901 Oficinas do “Commércio do Porto” 102, Porto 1901. (pág.17).
[6] Joaquim (Antunes) Leitão (1875-1956), Guia Illustrado da Foz, Matosinhos, Leça e Lavadores Livraria Magalhães & Moniz Editora, Porto, 1907.
[7] Carlos de Magalhães - Guia do Porto Illustrado, 1910.


O Passeio Alegre na actualidade

fig. 18 – O Passeio Alegre no Google Earth.

 
Legenda acrescentada:
A - Casa Miguel Souza Guedes
B - Jardim infantil O Ramalhete
C – Casa Margarida Rosa de Pereira Machado
D – Senhor dos Passos

1 – Casa onde habitou Rebordão Navarro
2 – Casa onde habitou Eugénio de Andrade
3 – Homenagem a Eugénio de Andrade
4 – Extensão nascente do jardim
5 - Entrada do jardim
6 – Agulhas de Nasoni
7 – Lago nascente com S. João Baptista e Menina e a Foca
8 - Coreto
9 – As riviéricas sentinas
10 – Lago poente
11 – Chalé Suisso
12 – Chafariz
13 – Monumento a Raúl Brandão
14 – Antiga Escola Primária n.º 2
15 – Antigo Real Instituto dos Socorros a Náufragos. Hoje Oporto Café.
16 – Meia Laranja


A frente urbana do Passeio Alegre


 fig. 19 – A frente urbana no Google Earth.

Dois aspectos da frente do Passeio Alegre vista de nascente nos finais do século XIX e inícios do século XX.


    fig. 20 - Postal. Porto. Passeio Alegre. Foz.


fig. 21 - Postal. Porto. Passeio Alegre (Foz do Douro).


A frente do Passeio Alegre vista de poente.

fig. 22 – Postal. Porto. Passeio Alegre. Foz.


Os Passos da Foz do Douro (com a letra D na fig.18)

Senhor dos Passos indo a Via da Amargura,
De túnica aos rasgões mas toda em seda roxa,
E oculta sob a Cruz, a face escura
Pesando lassa e frouxa...[1]

Sensivelmente a meio da rua do Passeio Alegre, no acesso à Igreja de S. João da Foz, permanece um dos cinco Passos existentes na Foz do Douro. Pertenciam à Confraria do Senhor dos Passos e de Nossa Senhora da Soledade, e foram edificados entre 1752 e 1767.


fig. 23 – Frederick William Flower (1815-1889),  Capela dos Passos Passeio Alegre, in Frederick William Flower, Um pioneiro da Fotografia Portuguesa, Electa Museu do Chiado. Lisboa Capital Europeia da Cultura. 1994. 

fig. 24 - Os Passos do Passeio Alegre na actualidade.

A casa de Miguel de Souza Guedes (1829-1913) (com a letra A na fig.18 e fig.25)

Num terreno, junto aos Passos, ainda antes da abertura da rua de acesso à igreja de S. João, em 22 de Julho de 1887, Miguel de Souza Guedes submete à aprovação de V. Ex. [o Presidente da Câmara [2]] o projecto junto para a construção d’uma casa com frente para o Passeio Alegre e Travessa da Bella Vista, na Foz. [3]

fig. 25 - O edifício Sousa Guedes assinalado com a letra A na quadrícula 51 do levantamento de 1892 colorido. Assinalado com B a Casa Oliveira Maya (Jardim Infantil O Ramalhete). Assinalado com a letra C a casa Margarida Rosa de Pereira Machado.

O projecto estava assinado por Adélio Fernandes Couto.

fig. 26 – Projecto Approvado. Porto em Comissão Municipal 21 de Julho de 1887. AHMP.

No requerimento apresentado justifica-se a fenestração que marca a imagem do edifício.

Quanto aos alçados cumpre-me informar que estão no caso de ser aprovados, mas que n’elles há cinco janelas rasgadas com abertura e envidraçamento exterior do typo dos balcões hespanhóes. O emprego de tais balcões não me parece que se deva permitir na cidade por estorvarem as vistas dos prédios vizinhos, e principalmente em ruas estreitas, que assim mais privadas ficariam de sol.Especialmente se poderão permitir n’uma praia de banhos como a Foz, em sítio tão amplo como o Passeio Alegre. [4]



fig. 27 - Pormenor de foto Alegna13 na Wilkimedia.


fig. 28 - Foto na actualidade.


fig. 29 – Foto DGPC.


A Casa Margarida Rosa de Pereira Machado 1884 (com a letra C na fig.18 e fig.25)

A Casa foi projectada com dois pisos e um pequeno recuado, com portas e janelas ogivais dando-lhe um aspecto romântico e “gótico”.


fig. 30 – Alçado sul do edifício no processo de Licença de obra n.º: 207/1884. AHMP.

A casa destacada num postal do início do século XX.


fig. 31 – A Casa na frente urbana do Passeio Alegre


  fig. 32 – A casa na actualidade.


[1] (José Maria dos Reis Pereira) José Régio (1901-1969),Quinta-feira Santa in Poemas de Deus e do Diabo, Tipografia Lymen Coimbra 1925. (pág.46).
[2] José Frutuoso Aires de Gouveia Osório (1827-1887), presidente entre (1886 e Agosto de 1887), a quem sucedeu António de Oliveira Monteiro (1842-1903) presidente entre Setembro de 1887 e 1892.
[3] Requerimento para a aprovação do projecto. Licença de obra n.º: 341/1888, AHMP.
[4] Licença de obra n.º: 341/1888, AHMP.



A casa onde habitou o poeta Eugénio de Andrade (1923-2005), (com o n.º 2 na fig.18)

A casa da Fundação Eugénio de Andrade, aberta em 1995 e extinta em 2011, onde o poeta habitou os últimos anos da sua vida.


fig. 33 – A Casa onde habitou Eugénio de Andrade.

Em frente a esta casa, numa recente expansão do jardim (3 na fig.18), repousando sob uma, ali plantada, oliveira, diz o poeta que juro que vi a luz tornar-se pedra [1] foi colocada uma placa de bronze onde se lê:
Com as últimas águas partem as árvores
um sorriso é então todo o jardim.


fig. 34 – A oliveira com a placa. Pormenor de uma foto do blogue Bucólico Anónimo.


 fig. 35 – A oliveira que abriga a homenagem a Eugénio de Andrade.


Trata-se de uma escultura de José Rodrigues (1936-2016), uma homenagem ao Poeta Eugénio de Andrade da iniciativa da Associação Portuguesa de Escritores em 2005.

   fig. 36 - José Rodrigues (1936-2016), Homenagem da Associação Portuguesa de Escritores ao Poeta Eugénio de Andrade, Porto 29 de Outubro de 2005.

A casa onde habitou o escritor António Rebordão Navarro (1933-2015), (com o n.º 1 na fig.18)

Mais discreta e original sobressai no Passeio Alegre a casa onde habitou António Rebordão Navarro com memórias de capitão na sua varanda, que é como amurada de barco [2],





fig. 37 –  Postal onde se vê a Casa com a sua característica varanda.

Dessa varanda Rebordão Navarro observava diariamente o Jardim do Passeio Alegre, que assim descreveu: (…) os troncos dos sobreiros, os telhados, os barcos, os gatos vagabundos, o rio, as suas rochas, o mar quebrado em· milhares de espelhos, os ramos das palmeiras, as asas das gaivotas, dos ferreiros, o cais e a meia-laranja, o farolim, a areia do cabedelo, as agulhas de Nasoni, o chafariz barroco, o coreto, o octogonal «Chalé Suíço», os lagos, as riviéricas sentinas do Passeio Alegre [3]



fig. 38 – A casa de Rebordão Navarro na actualidade.


[1] Eugénio de Andrade Escrita da Terra, (pág. 16).
[2] Agustina Bessa Luís (1922), Apresentação in António Rebordão Navarro Este Jardim in Foz do Douro a letra e o lugar, in O Progresso da Foz 1993. (pág. 15).
[3] António Rebordão Navarro (1933-2015), Mesopotâmia in Foz do Douro a letra e o lugar, O Progresso da Foz 1993. (pág. 29).

O Jardim do Passeio Alegre. Um percurso nascente-poente com Rebordão Navarro.


Estou dentro e fora na densidade subtil
Não há aqui imagens extravagantes rumores estranhos
Tudo se desenrola na lúcida amplitude tranquila
As palavras sucedem-se como vagarosas nuvens
O dia é límpido e lê-se como um livro aberto
[1]

As agulhas de Nasoni na entrada nascente (com o n.º 6 na fig.18)

Inicialmente o jardim não teria qualquer marcação da entrada da sua alameda central.


fig. 39 – O jardim ainda sem as pirâmides da Nasoni marcando a rntrada nascente.

Por isso na sua entrada Jardim foram colocadas as colunas de Nasoni, concedendo-lhe fausto, na feliz expressão de Rebordão Navarro, pirâmides de figura triangular, de 12,6 metros de altura, provenientes da Quinta da Prelada.

"Estes esbeltos obeliscos assentes em bolas, segundo um motivo maneirista dos séculos XVI e XVII, terminando em torres de dois 'corpos' ou andares, tirados do brasão dos Noronhas. Na base dos obeliscos figura o anel de aliança dos Meneses, no meio de um pesado bloco, cujo perfil sugere o de uma fronte da Capela de Fafiães. Por cima da cornija aparecem volutas típicas de Nasoni, formando uma peanha de corte prismático, como transição às esbeltas superfícies diagonais dos obeliscos, sensivelmente ajustadas para capturar expressivos efeitos de luz e sombra". [2]


 fig. 40 - Guilherme Bomfim Barreiros (1894-1973), pirâmide do muro de vedação da Quinta da Prelada,1936. AHMP.


As pirâmides de Nasoni [3] marcando a entrada na avenida central do Jardim do Passeio Alegre.



fig. 41 – Postal n.º62. Porto-Foz do Douro-Passeio Alegre, ed. P.C. c.1950.

As agulhas de Nasoni enquadrando a igreja de São João Baptista da Foz do Douro.



fig. 42 – Postal n.º 91 da Edição Revista Latina. AHMP.



fig. 43 – As pirâmides e a avenida central.

A avenida central do jardim



fig. 44 – A Avenida central do Jardim do Passeio Alegre.

No conto Mesopotâmia Rebordão Navarro descreve assim a alameda central do jardim:

Na antiquíssima tarde em que o revia, e com que evidência a mesma lhe surgia, opaca, sorumbática, recortando caprichosamente as árvores na névoa, humedecendo os troncos e a relva, afastando as casas, estremecendo os pássaros, ecoando fatalmente nos dobres prolongados da sineta lúgubre do farolim da barra, depositando uma delgada película brilhante nas tiras vermelhas dos bancos públicos, nos seus braços espiralados de ferro preto, nimbando de poalha plúmbea o carneirinho soerguido nas patas anteriores que ornava o telhado piramidal do «Chalé Suíço», recolhendo aos seus mochos, a fazer malha a velha bexiguenta e resmungona, a fumar tristemente uma beata húmida o maneta tinhoso que tomava conta das retretes públicas num edifício pomposo e amarelo com azulejos arte-nova e um monumental mictório colectivo em forma de exótica garrafa de cerâmica compartimentada no bojo ou fonte de águas termais, fazendo mais vazio e inútil o coreto, onde só por vezes, no S. João, as bandas executavam marciais composições num estardalhaço vibrante de velhos metais amarelados, tornando quase negro o granito da romântica fonte, obscurecendo as canas de cimento do lago da fonte luminosa e dos patos sacudindo pesadamente as asas, o seu pai precisara de dinheiro e a bordara-o no jardinzinho público. [4] 

As árvores do jardim do Passeio Alegre foram crescendo ao longo do século XX, sendo que algumas ainda existem.


fig. 45 -  Postal Estrela Vermelha do início do século XX.. Porto. Foz do Douro. Avenida do Passeio Alegre.




fig. 46 – Postal do Ed. Alberto Ferreira. Foz do Douro – Avenida Central do Passeio Alegre.


O mobiliário do jardim [5]

Os candeeiros

No início o jardim era iluminado por candeeiros a gás que, posteriormente foram substituídos por candeeiros eléctricos, cuja instalação se iniciou na Foz a partir de 1925.


  fig. 47 -  Candelabros e Consolas para servir à iluminação a Gás da Cidade do Porto 1855. In Ana Cardoso de Matos (coord) Fátima Mendes e Fernando Faria, O Porto e a Electricidade. Museu da Electricidade EDP, Agosto 2003.E Candeeiro actual.


Os bancos de Jardim

Onde na antiquíssima tarde (…) a névoa depositava uma delgada película brilhante nas tiras vermelhas dos bancos públicos, nos seus braços espiralados de ferro preto… [6]



fig. 48 – Os bancos da alameda central do Jardim.

Ao longo da segunda metade do século, sente-se por toda a Europa a influência de Paris do Segundo Império, com a criação por Georges-Eugène, Barão de Haussmann (1809-1891) e por (Jean-Charles) Adolphe Alphand (1817-1891) dos boulevards arborizados e dos parques e jardins de Paris.
Alphand, colaborador e depois sucessor de Haussmann como Perfeito de Paris, abre o Service des Promenades et Plantations, e ao encomendar ao arquitecto Gabriel (Jean Antoine) Davioud (1823-1881) o desenho dos bancos para os jardins e boulevards afirmava: …qu'un banc soit un banc, et non un rocher, un fragment de colonne ou d'entablement, et ainsi du reste. Rien est plus beau que le vrai. [7]
Estes modelos de bancos de jardim, simples ou duplos, irão espalhar-se por toda a Europa, incluindo Portugal.


fig. 49 - Gabriel Davioud, Banco de Jardim. In Adolphe Alphand. Les Promenades de Paris. Vol. 2, J. Rothschild, Éditeur, 13, Rue ses S.tes Pères, Paris 1867-1873.



fig. 50 - Frederico Ressano Garcia (1847-1911). Desenho junto ao programma da arrematação do banco de ferro e madeira para a Avenida da Liberdade. Vista em perspectiva do Banco e Planta. Typo n.º2. 1885. Arquivo Municipal de Lisboa.



fig. 51 – Banco de jardim duplo, na avenida central do jardim.

Outro modelo de banco de jardim desenhado por George Davioud e também difundido por toda a Europa.


 fig. 52 - Gabriel Davioud, Banco de jardim in Adolphe Alphand. Les Promenades de Paris. Vol. 2, J. Rothschild, Éditeur, 13, Rue ses S.tes Pères, Paris 1867-1873.

No jardim do Passeio Alegre existe uma versão mais moderna e mais pobre desse banco de jardim.



fig. 53 -Banco de jardim no Passeio Alegre.



[1] António Ramos Rosa (1924-2013), No Centro do Mundo in Afecto às Palavras.
[2] Robert (Chester) Smith (1912-1975), Nicolau Nasoni - Arquitecto do Porto, Livros Horizonte. Lisboa. 1966.
[3] Nicolau Nasoni (Niccolò Nasoni,1691-1773).
[4] António Rebordão Navarro, Mesopotâmia in Foz do Douro a letra e o lugar, O Progresso da Foz 1993. (pág. 27 e 28).
[5] Ver neste blogue O Jardim que primeiro foi no Porto http://doportoenaoso.blogspot.pt/2015/02/o-jardim-que-foi-primeiro-da-cidade-3.html
[6] António Rebordão Navarro, Mesopotâmia in Foz do Douro a letra e o lugar, O Progresso da Foz 1993. (pág.
[7] Adolph Alphand (1817-1891). Tradução: …que um banco seja um banco, e não uma pedra, um fragmento de coluna ou de cornija, e assim sucessivamente. Nada mais belo que o verdadeiro.



O lago nascente (com o n.º 7 na fig.18)

No início da avenida ou alameda central, do lado nascente encontramos um lago de águas sempre renovadas, protegido a sul por majestosas araucárias à sombra das quais segundo Manuel Bandeira,

Não aprofundes o teu tédio.
Não te entregues à mágoa vã.
O próprio tempo é o bom remédio:
Bebe a delícia da manhã.

A névoa errante se enovela
Na folhagem das araucárias.
Há um suave encanto nela
Que enleia as almas solitárias...
[1]

   

fig. 54 – O lago nascente do jardim.

Ou cantadas por Pablo Neruda do inverno ao outono.

El alto invierno besa tu armadura
y te cubre de labios destruidos:
la primavera de violento aroma
rompe su sed en tu implacable estatua:
y el grave otoño espera inútilmente
derramar oro en tu estatura verde.
[2]



fig. 55 – Ao fundo as majestosas araucárias na Primavera de 2017.

Neste lago nascente mergulha uma escultura de João Baptista. Do braço direito, brota água que recolhe do lago. Há anos, sem folgas, baptiza Jesus Cristo. [3].
E no lago uma outra escultura A Menina e a Foca onde a Menina cavalga um foca que equilibra na ponta do focinho uma bola de onde jorra a água.


fig. 56 - As duas esculturas do lago nascente.

O S. João Baptista é de Alberto Pinto Amorim e a Menina e a Foca de 1953 de Dário Boaventura.
fig. 57 – À esquerda o S. João Baptista e à direita a Menina e a foca.


[1] Manuel Bandeira (Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho,1886-1968) À sombra das Araucárias de A cinza das horas (1917) in Poesia completa e prosa, editora Nova Aguillar, Rio de Janeiro 1977. (pág. 129 e 130). 
[2] Pablo Neruda (Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto,1904-1973), Araucaria in Canto general, pehuén editores, Santiago Chile 2005. (pág.283).
[3] António Rebordão Navarro, Mesopotâmia in Foz do Douro a letra e o lugar, O Progresso da Foz 1993. (pág. 28).

O vazio e inútil coreto (com o n.º 8 na fig.18)

No lado sul desta avenida central permanece vazio e inútil o coreto, onde só por vezes, no S. João, as bandas executavam marciais composições num estardalhaço vibrante de velhos metais amarelados (…) [1]



fig. 58 – O projecto do coreto. AHMP.


fig. 59 – O coreto.


As faias
…………………………………………….
A umbrosa faia , verde cobertura, -
Que mitiga de Phebo a ardente chamma,
Qual choupo, que na mente idéas cinge,
Com que ao somno provoca, e sonhos finge. [2]



 fig. 60 – Foto de Manuela Ramos no blogue Dias com Árvores.

Em frente ao coreto, do lado norte, duas magníficas faias, verde luminoso uma, e a outra, com o vermelho escuro da variedade Purpúrea.  [3]

[Não conseguindo uma foto que mostrasse as faias socorro-me desta de manueladlramos no blogue Dias com Árvores.(fig.60)]

Do lado sul do coreto três metrosideros.


fig. 61 – O lado sul do coreto


[1] António Rebordão Navarro, Mesopotâmia in Foz do Douro a letra e o lugar, O Progresso da Foz 1993. (pág. 28).
[2] Miguel Maurício Ramalho, Lisboa Reedificada Poema Epico, seu author Miguel Maurício Ramalho Lisbonense, Na regia Officina Typographica, Lisboa Anno M. DCC.LXXX.
[3] No blogue Dias com Árvores http://dias-com-arvores.blogspot.pt/2005/05/as-faias-do-jardim-do-passeio-alegre.html



O aparato riviérico da casa das sentinas do Passeio Alegre. (com o n.º 9 na fig.18)

No lado sul do jardim do Passeio Alegre estão as (…) retretes públicas num edifício pomposo e amarelo com azulejos arte-nova e um monumental mictório colectivo em forma de exótica garrafa de cerâmica compartimentada no bojo ou fonte de águas termais (…)[1]  



fig. 62 - O ante-projecto dos sanitários do Passeio Alegre c.1909. AHMP.

Construído em 1908 estas sentinas sucederam a outras de 1897 que foram então transferidas para a Praça do Marquês de Pombal.



fig. 63 – A entrada para os mictórios do Passeio Alegre.

 O monumental mictório colectivo em forma de exótica garrafa de cerâmica compartimentada no bojo ou fonte de águas termais. [2]



fig. 64 – O monumental mictório colectivo.

Todo o interior é revestido com um lambrim de azulejos Arte-Nova.



fig. 65 – Os azulejos Arte-Nova.



O lago poente (com o n.º 10 na fig.18)

Em 1906 no lago poente do jardim é inaugurada a fonte luminosa da qual Rebordão Navarro refere uma névoa obscurecendo as canas de cimento do lago da fonte luminosa…[3]



fig. 66 - A fonte luminosa 1906


[1] António Rebordão Navarro, Mesopotâmia in Foz do Douro a letra e o lugar, O Progresso da Foz 1993. (pág. 28).
[2] António Rebordão Navarro, Mesopotâmia in Foz do Douro a letra e o lugar, O Progresso da Foz 1993. (pág. 28).
[3] António Rebordão Navarro, Mesopotâmia in Foz do Douro a letra e o lugar, O Progresso da Foz 1993. (pág. 28).


O Chalé Suiço (com o n.º 11 na fig. 18)



fig. 67 – O Chalé Suisso no início do século XX.AHMP.

O Chalet onde nimbando de poalha plúmbea o carneirinho soerguido nas patas anteriores que ornava o telhado piramidal… [1]

Segundo a lenda os pastores traziam os seus rebanhos para a praia do Caneiro junto ao Castelo da Foz. Um dos carneiros perdendo-se do rebanho acabou figurando no topo do Chalé Suíço.


fig. 68 – O carneirinho soerguido nas patas anteriores.

Na verdade o carneirinho que encima o Chalé Suiço deve-se ao nome do seu primeiro proprietário António Carneiro dos Santos que em 1873 apresentou o projecto para um Chalet para venda de tabacos, bebidas e mais géneros próprios do lugar...e cuja construção se iniciou no ano seguinte. Chamava-se então Chalé do Carneiro.

Em 1906 o Chalet foi comprado por Charles Frederick Chambers e de seguida pelo suíço Jácome Rasker (Giacomo Rascher) que lhe deu o nome definitivo de Chalé Suiço. Rebordão Navarro evoca o tempo em que se bebia cerveja alemã no octogonal chalezinho suíço do Sr. Giacomo Racher.

E Joaquim Leitão refere uma publicidade ao Chalé.

Chalé Suiço de Giacomo Rascher, mesmo na Avenida Pr incipal d o Passeio Alegre, mesas ao ar livre, tabacos, champanhes, bombons, cervejas as melhores e as mais genuínas Pilsener e Bade.

Fala-se francês e alemão. Sempre novidade em quinquilherias. O centro d e atracção da criançada. Fornecedor dos arcos e barquitos da população infantil da Foz. [2]



 fig. 69 - Alçado do 1º projecto do Chalet,1873. AHMP.


  

fig. 70 - Planta do Chalet de António Carneiro dos Santos AHMP.

Ainda Rebordão Navarro recordando o Chalé:



Mais tarde, (…) esse chalé era explorado por um casal de velhos: a Sr. ª Sofia e o Sr. Guilherme que, hoje, reconstituídos na memória, adquirem os traços das ilustrações dos livros infantis ingleses. Ela com os seus cabelos muito brancos e arrumadinhos, encontrando-se em puxo quase carrapito, boca algo torcida, refilona, olhos pequenos de remoto verde e desconfiança; ele um tanto indiferente, como vindo do sono, calvo, de bigodeira clara e queimada pelo tabaco - o cachimbo? [3]



 fig. 71 - O Chalé Suisso na actualidade.


O Chafariz ou Fonte (com o n.º 12 na fig.18)

Para Rebordão Navarro a tal névoa ia tornando quase negro o granito da romântica fonte (…)  [4]


fig. 72 – Postal Foz do Douro- Chafariz do Passeio Alegre.

O Chafariz do Passeio Alegre pertenceu ao extincto Convento dos Religiosos de S. Francisco d'esta cidade e foi alli reedificado em agosto do anno de 1869, às custas da Commissão Inspectora do Estabelecimento do Salva Vidas que, no anno de 1867, fizera à Camara uma representação em que se offerecia para levantar este Chafariz, com a clausula de que a Camara o alimentasse permanentemente. Foi pedida pela Municipalidade a respectiva auctorisação ao Tribunal do Concelho do Districto para se levar a effeito este contracto, o qual foi firmado por Escriptura, a 9 de janeiro de 1868, "com as condições estipuladas de ser, o Chafariz, encanamento e mais obras necessárias, á custa do mesmo estabelecimento, e, bem assim, todos os concertos e reparos futuros, sem direito a pagar-se pelo cofre do Concelho qualquer indemnisação por isso, não obstante poder a Camará quando lhe convenha retirar aquella porção d'agua, d'este modo concedida. Este contracto foi rescindido por Escriptura de 8 de julho de 1874, a pedido do presidente da dita Commissão Inspectora, por lhe terem sido retirados os fundos para despezas extraordinárias. [5]



fig. 73 - O Chafariz do Passeio Alegre num Postal do início do século XX e numa foto do eng. Bonfim Barreiros. 1941 AHMP.

Este Chafariz cuja caligrafia das águas sobre a pedra [6] rumorejando placidamente, como entre os outonais claustros do franciscano convento  [7] é constituído por uma taça em forma de trevo de onde parte uma coluna central de considerável dimensão decorada com motivos vegetalistas e zoomórficos, rematando com um fogaréu.
Sensivelmente a meio desta coluna quatro carrancas jorram água sobre uma outra taça, que se abre como um cálice e nesta, mais carrancas jorram a água na taça inferior.
Um pedestal com três degraus suporta o chafariz, criando uma clareira no remate da extremidade poente do jardim.



fig. 74 – As carrancas do Chafariz

Junto do chafariz, como portentosos guardiões deste topo do Jardim do Passeio Alegre, encontram-se dois graciosos Metrosideros Excelsa. (Metrosideros excelsa Soland ex Gaert). Trata-se de uma espécie de árvore de grande porte, podendo atingir até 20 m de altura popularmente conhecida como árvore-de-fogo pelo vermelho vivo das suas flores.
Estes dois metrosideros com o sol poente justificam os versos do poema Árbol de fuego do poeta salvadorenho Alfredo Espino.

Son tan vivos los rubores
de tus flores, raro amigo,
que yo a tus flores les digo:
“Corazones hechos flores”…

Bajo un jardín de celajes,
al verte estuve creyendo
que ya el sol se estaba hundiendo
adentro de tus ramajes.
[8]



fig. 75 – As árvores de fogo (Metrosideros) junto ao chafariz.


[1] António Rebordão Navarro, Mesopotâmia in Foz do Douro a letra e o lugar, O Progresso da Foz 1993. (pág. 27).
[2] Joaquim (Antunes) Leitão (1875-1956), Guia Illustrado da Foz, Matosinhos, Leça e Lavadores Livraria Magalhães & Moniz Editora, Porto, 1907.
[3] António Rebordão Navarro (1933-2015), Este Jardim de Crónicas in Foz do Douro a letra e o lugar, O Progresso da Foz 1993. (pág. 63).
[4] António Rebordão Navarro (1933-2015), Mesopotâmia in Foz do Douro a letra e o lugar, O Progresso da Foz 1993. (pág. 28).
[5] J. Bahia Júnior, Contribuição para a Hygiene do Porto. Analyse Sanitaria do seu Abastecimento em Água Potável, Porto - Fevereiro de 1909 (pág. 20).
[6] António Ramos Rosa, Gravitações. Portugal: Litexa, 1983.
[7] António Rebordão Navarro (1933-2015), Este Jardim de Crónicas in Foz do Douro a letra e o lugar, O Progresso da Foz 1993. (pág. 63).
[8] Alfredo Espino (Edgardo Alfredo Espino Najarro 1900-1928), Árbol de fuego  de Jicaras Tristes (1936) Ministerio de Cultura, 1955. (pág.50).




O Monumento a Raul Brandão, inaugurado a 12 de Março de 1967 no centenário do escritor. (com o n.º 13 na fig.18)

Comemoram-se este ano os 150 anos do nascimento de Raúl Brandão (1867-1930), para quem a Foz adormecida e doirada, a Cantareira, no alto o Monte, depois o farol e sempre ao largo o mar diaphano ou colérico, foi o quadro da minha vida. [1]

Há cinquenta anos na comemoração do Centenário do escritor, natural da Foz e sobre a qual escreveu páginas inolvidáveis, foi erguido no Jardim do Passeio Alegre um Monumento da autoria do escultor Henrique Moreira (1890-1979) e do arquitecto Rogério de Azevedo (1898-1983).


fig. 76 - A inauguração do Monumento 1967. AHMP.

O monumento simboliza um livro aberto, tendo ao centro um baixo-relevo com o retrato de Raúl Brandão ladeado por duas esculturas que evocam duas das mais conhecidas obras do escritor.

À esquerda Os Pobres (1906).
Era casado o Gebo e tinha esta felicidade: uma filha. Oh uma filha! Uma filha sempre prende a existência! uma filha pequenina sempre tem nas mãozinhas uma força! [2]

À direita uma evocação de Os Pescadores (1923).
Tudo aqui é pobre e humilde, mas não grosseiro. Os homens trigueiros, secos e fortes e as mulheres bem lançadas. Mesmo as feias têm um ar de distinção. A família é sagrada. O contacto com a terra obriga o homem a olhar para o chão, o convívio com o mar obriga-o a levantar a cabeça. [3]



fig. 77 - Henrique Moreira e Rogério de Azevedo, Monumento a raúl Brandão1967. Foz do Douro.

A antiga Escola Primária (com o n.º 14 na fig.21)

quando as crianças regr essam
da escola duas a duas
e -de no passeio alegre
perpassar coisa nenhuma… [4]



fig. 78 – A Escola na actualidade.

Uma das principais preocupações da República foi a Instrução. Para isso para além da recuperação de edifícios do Estado para aí instalar escolas dos primeiros graus do ensino impunha-se a criação de novos edifícios escolares. Em 1914, decide-se a criação de dois novos edifícios. Um na praça da Alegria (desaparecido) e o outro na Foz do Douro, junto ao Jardim do Passeio Alegre. Do projecto da Escola na Praça da Alegria encarregou-se o arquitecto municipal, António Correia da Silva (1880-1963) e da Escola do Passeio Alegre o arquitecto Leandro Morais. [5]


fig. 79 – Alçado voltado a Nascente. AHMP.

O projecto original revela poder de contenção no plano formal, criando um equipamento de desenho muito simples, privilegiando a transparência e o contacto com o ar livre, valorizando a dignidade que se pretendia para estes programas revolucionários de ensino. (…) na variante do Passeio Alegre a marcação da porta é mais enfática, recorrendo a cachorros gigantes para a definição do frontão de entrada, com um desenho análogo ao que aparece nos Bombeiros da Foz e no Mercado do Bolhão. Graciosas floreiras sob as janelas, composição dos caixilhos e painéis de azulejos em faixas sob os beirais aproximavam esta solução do gosto novo, que começava a circular nos meios eruditos da arquitectura. [6]



fig. 80 – A Escola Primária do Passeio Alegre

A utilização intensa de galerias cobertas, sob a forma de alpendres, funcionando como espaços de transição entre o interior das salas de aula e os recreios exteriores, criando lugares protegidos, ao ar livre, para as actividades didácticas. Assim como a opção pela profusão de janelas nas salas de aula, aumentando a transparência nas ligações das salas com os alpendres. [7]

E Rebordão Navarro recorda quando frequentei a escola primária n. º 85, igualmente assente sobre o mar, por distar pouco do sinistro rochedo rompendo o casco do navioPorto”… [8]


fig. 81 – Foto da Escola após a sua recuperação.


O antigo Real Instituto de Socorros Náufragos. Hoje Oporto Café. (com o n.º15 na fig.18)

[Ver neste blogue O rio e o mar na foz do Douro 3 A Cantareira dos Pescadores (conclusão).]



fig. 82 – Foto antiga do Instituto de Socorros a Náufragos.



fig. 83 – O Oporto Café.

As palmeiras da Avenida D. Carlos

As centenárias e majestosas palmeiras (Phoenix canarienses) da Avenida D. Carlos que até 1875 se chamou Alameda da Foz e Avenida das Palmeiras.

Mas as palmeiras do Passeio Alegre, além de graciosas e esbeltas como a de Delos, são altas como os marinheiros de Homero e desafiam os ventos de todos os quadrantes. A imagem de virilidade, de força e resistência assim convocada cede, porém, de súbito o lugar à da fragilidade aparente de "dobrar pela cintura". [9]



fig. 84 - Postal Foz do Douro Passeio Alegre (Avenida das Palmeiras) AHMP.



 fig. 85 - Alírio Seabra, no blogue A Nossa Foz do Douro in https://aviagemdosargonautas.net/2014/01/16/uma-carta-do-porto-por-jose-magalhaes-20/

As Palmeiras em Eugénio de Andrade.
Chegaram tarde à minha vida
as palmeiras. Em Marraquexe vi uma
que Ulisses teria comparado
a Nausica, mas só
no jardim do Passeio Alegre
comecei a amá-las. São altas
como os marinheiros de Homero.
Diante do mar desafiam os ventos
vindos do norte e do sul,
do leste e do oeste,
para as dobrar pela cintura.
Invulneráveis — assim nuas. [10]



fig. 86 – Foto dos meados do século XX. AHMP.



fig. 87 – A Avenida D. Carlos na actualidade.


Para terminar o percurso no Jardim do Passeio Alegre

Uma citação de Guido de Monterey em que evoca o jardim da sua infância nos anos 40 do século XX.
Com que saudades recordamos o tempo da infância em que íamos, com o resto da família, comer arroz de frango para o jardim do Passeio Alegre! [11]

E como Guido de Monterey recorda o por-de-sol sentado num banco de jardim do Passeio Alegre.
Lentamente, o sol desvanece-se no ocaso. A lua, de face rotunda, enceta o seu passeio por entre miríades de estrelas sorridentes.
O mar, no meio de estranha quietude, começa a gemer, parecendo entoar uma oração. As suas águas têm cintilações de prata. O rio Douro enfeita-se de reflexos de luz que se lhe entrecuzam pelas entranhas.
E eu sentado no mesmo banco no jardim do Passeio Alegre, corro os olhos devagar, por toda aquela imensidão rodeada de penumbra, que me enche de nostalgia. E sinto arder de novo em mim, em estridências, aqueles versos de Soares de Passos:

Eu amo dos astros a luz palpitante
E as vagas longínquas arfando no mar.
[12]

fig. 88 - Porto (Foz do Douro) – Entrada da Barra Postal ed. JO.


[1] Raul Brandão Prefácio Janeiro de 1918, em Memórias, Iº Volume, Edição da Renascença Portuguesa, Rua dos Mártires da Liberdade 178, Porto 1919. (pág. 12).
[2] Raul Brandão Os Pobres, Empreza da Historia de Portugal, Sociedade Editora, Livraria Moderna, R. Augusta, 55. Typographia R. Ivens, 15 a 17. Lisboa 1906. (pág.11).
[3] Raul Brandão Os Pescadores, Projecto Vercial 2002. (pág.34).
[4] Vasco Graça Moura, romance do passeio alegre in Poesia 1963/1995. Apresentação de Fernando Pinto do Amaral, Quetzal Editores Lisboa 2007. (pág.462).
[5] Ver Domingos Tavares, António Correia da Silva, Arquitecto municipal, Dafne Editora Porto 2016.
[6] Domingos Tavares, António Correia da Silva, Arquitecto municipal, Dafne Editora Porto 2016.
[7] Domingos Tavares, António Correia da Silva, Arquitecto municipal, Dafne Editora Porto 2016.



[8] António Rebordão Navarro (1933-2015), Este Jardim de Crónicas in Foz do Douro a letra e o lugar, O Progresso da Foz 1993. (pág. 63).
[9] Maria Helena Rocha Pereira (1925-2017) O mundo clássico em Eugénio de Andrade, in Mathésis n.º 4, Universidade Católica Portuguesa, Viseu 1955. (pág.26).
[10] Eugénio de Andrade, Poesia. 2ª ed. Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005.
[11] Guido de Monterey (José Augusto de Sousa Ferreira da Silva1933, O Porto Origem, Evolução e Transportes, Edição do Autor Porto 1972. (pág.16).
[12] Guido de Monterey (José Augusto de Sousa Ferreira da Silva1933). O Porto à beira-mar, Foz do Douro, Edição do autor, Porto1965.


CONTINUA















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