Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















terça-feira, 4 de julho de 2017

O rio e o mar na foz do Douro 10



III Parte - Deriva pela Foz do lado do mar. Da Senhora da Luz a Matosinhos.

A expansão para norte. A “Foz nova”

[Ao longo destes textos tenho utilizado a denominação Foz do Douro, de um modo abrangente, referindo a zona da cidade do Porto que se estende desde a Cantareira até Matosinhos. Não ignoro contudo que tal concepção abrange as freguesias de S. João da Foz e de Nevolgilde, hoje em dia reunidas numa única divisão administrativa. Mas mais importante do que a administração são os lugares com as suas idiossincrasias que ao longo dos tempos se consolidaram.]

Deambulações pela Frente Marítima. O período entre as duas Grandes Guerras

Desde o Castelo [do Queijo], até à Foz abre-se, em face do mar, em ampla e admirável esplanada, A Avenida de Montevideu e a seguir a Avenida do Brasil. De manhã e em certos dias, à hora do crepúsculo, este passeio torna-se inesquecível.
A largueza oceânica, a intensidade iodada da atmosfera, tão lavada e tão pura, a perspectiva singular dos grandes molhes próximos de Leixões, o friso azulado do litoral, que se esfuma nos longes de Miramar e Espinho, dão uma impressão de suspenso no tempo, de indefinidas sugestões de perenidade, que explica, em boa parte, a natureza tácita de tantos poetas e pensadores emotivos que por aqui passaram familiarmente o seu olhar. [1]

fig. 1 - …o friso azulado do litoral, que se esfuma nos longes de Miramar e Espinho…

Em 1924 foi publicado o primeiro volume do Guia de Portugal, dirigido por Raúl Proença (1884-1941), que refere as estâncias balneares portuguesas e o seu papel no desenvolvimento do turismo interno e externo.

 A moda, a época ordinária das férias, a sazão em que os hotéis das estâncias de turismo se abrem à frequência dos forasteiros, a maior duração dos dias, que permite as excursões prolongadas, o gosto que há em abandonar as grandes cidades quando o calor se torna mais calcinante e mais duro - todas estas circunstâncias impõem em geral o Verão como a época própria das vilegiaturas.
E todavia, quem procura fora das cidades, não a continuação do seu bulício, mas uma vida simples e tranquila, vivida na contemplação deleitável das ondas espumantes, das paisagens de sonho, das selvas rumorejantes e religiosas, buscará decerto outra estação mais consentânea com esses desejos de vida livre e natural, de paz da alma e comunicação mais íntima com as coisas belas da Natureza. [2]


[1] Guia de Portugal IV Entre Douro e Minho I Douro Litoral Coordenador Sant' Anna Dionísio (1964), 3ª edição Fundação Calouste Gulbenkian 1994. (pág.365 e 366).
[2] Raul Proença Guia de Portugal, I Volume, Lisboa e Arredores, Esclarecimentos práticos, Texto integral que reproduz fielmente a 1ª edição publicada pela Biblioteca Nacional de Lisboa em 1924. Fundação Calouste Gulbemkian Lisboa 2014. (pág.115).



No Porto e no seguimento do Golpe de Estado de 1926, pelo decreto n.º 11:840 de 5 de Julho de 1926 é dissolvida a Câmara Municipal, então presidida pelo médico e professor universitário Alberto Pereira Pinto de Aguiar (1868-1948), por não estar integrada no pensamento que fez eclodir e triunfar o movimento nacional, e não poder convir à actual situação política e nomeada uma comissão administrativa presidida pelo coronel Raul de Andrade Peres (1877-1961), um dos militares do movimento do 28 de Maio.

Ciente da responsabilidade de dirigir a Câmara Municipal e de dar um impulso moderno à segunda cidade do país e que mostrasse a clara diferença com o regime anterior, o Presidente constituiu uma comissão de militares procurando, contudo, os que já então se destacavam por também exercerem uma actividade profissional: médico, engenheiro ou arquitecto.

Assim, dessa Comissão Administrativa faziam parte, o médico tenente-coronel Augusto Sousa Rosa (1871-1939) que em 1930 seria o novo Presidente, o major de engenharia e inspector de fortificações e obras militares Pedro Carlos Alexandre Pezerat (1888-1946), que trabalhará em 1931 nas obras de melhoramento do Hospital Militar; o engenheiro civil e capitão Antão Almeida Garrett (1896-1978), que nos finais dos anos trinta colaborará com os arquitectos italianos, e depois da 2ª Guerra irá elaborar o Plano Regulador da Cidade de Porto, e ainda o arquitecto e tenente Aucíndio Ferreira dos Santos (?-?), que terá vasta obra na cidade do Porto e em Vila Nova de Gaia. [1]

Na cidade, então voltada para a execução das obras que constituíam o programa da República, e onde se destacavam quer a edificação da Avenida dos Aliados e ruas adjacentes, quer os edifícios escolares, a zona da Foz do Douro, embora em crescimento como estância balnear, estava sujeita apenas a iniciativas pontuais e desgarradas.

Assim, atendendo ao desenvolvimento do turismo a Ditadura Militar cria legislação que pretende impulsionar esta actividade, considerando-a como de primordial importância para a economia nacional. [2]

No decreto publicado em 1929 pode ler-se:

“A situação privilegiada do nosso País e as excepcionais condições que reúne para constituir um centro de atracção de turistas impõem medidas imediatas sobre turismo em Portugal. (…) Natural é portanto que Portugal, já como ponto obrigatório de passagem, já como País mundialmente conhecido pelas suas belezas naturais e pela amenidade do seu clima, tenha de receber e albergar dentro do seu território numerosos estrangeiros.
Devem por isso tomar-se desde já as medidas que o momento aconselha, constituindo e dando atribuições a um organismo superior, que coordene e centralize todos os assuntos no campo do turismo oficial. [3]

Por isso, tendo por horizonte a ideia da construção do porto comercial de Leixões, urgia rematar a poente a Avenida da Boavista e a Circunvalação, completar a urbanização da zona a sul da avenida da Boavista e a urbanização que tem por eixo central a futura avenida Marechal Gomes da Costa.


Nesta planta datada de 1930, estão projectadas essas iniciativas: o remate da Avenida da Boavista (praça Gonçalves Zarco), o remate (praça do Império) da avenida Marechal e o conjunto viário da urbanização da zona sul da avenida da Boavista.


fig. 2 - Pormenor da Planta da zona compreendida entre a Rotunda da Boavista e o Porto de Leixões, com indicação do traçado de novos arruamentos em Nevogilde e São João da Foz, 1930, escala 1:10.000. AHMP.


[1] Segundo o decreto 11:840, faziam ainda parte os militares tenente-coronel de artilharia e engenheiro civil Anacleto Domingos dos Santos (1887-1945) António Joaquim de Almeida Valente (1873-1949), major de infantaria; Carlos Alberto Ferreira Henriques (1884-1946) capitão de infantaria.
[2] Ver Susana Luísa Mexia Lobo, Arquitectura e Turismo: planos e projectos. As Cenografias do Lazer na Costa Portuguesa, da 1ª República à Democracia. Dissertação de Doutoramento, Universidade de Coimbra, Agosto 2012.
[3] Decreto N.º 16:999, Diário do Govêrno, I Série, N.º 139, 21 Junho 1929. (pág. 1509).




Mas a obra da Ditadura Militar que marcou a orla atlântica foi, sem dúvida, o projecto para toda a frente marítima com o arranjo e ajardinamento do lado sul da Avenida Brasil, destinado a colocar a Foz au goût du jour, tanto mais que se iniciava a concorrência com as estâncias balneares vizinhas, quer a norte, de Leça à Póvoa do Varzim, quer a sul com as praias de Gaia até Espinho. 
As estâncias balneares da Póvoa de Varzim e de Espinho vão contudo beneficiar da construção de Casinos que arrastam a edificação de Hotéis e de equipamentos desportivos nomeadamente as piscinas. 

Estas estâncias balneares são sobretudo demandadas pelos que nas praias procuram o bulício e a alegria dos casinos, dos piqueniques, dos concertos, das regatas… [1]


Na fachada atlântica do Porto é projectado por António Enes Baganha, o conjunto da Esplanada que foi construído por volta de 1930 e inaugurado em 1931, no seguimento do Projeto de Melhoramentos e Embelezamento da Avenida do Brasil de 1928 elaborado pelo arquitecto Manoel Marques (1890-1956).

fig. 3 – A frente marítima da Senhora da Luz a Matosinhos. Cliché-foto Beleza.

O projecto da Esplanada é uma intervenção ao longo de toda a marginal que, de um modo orgânico, se adapta à morfologia do terreno, criando uma extensa promenade (ou digue-promenade) como lhe chamam os franceses ou ainda lungomare como lhe chamam os italianos, um passeio próprio para apoiar as praias mas servindo sobretudo a deambulações e encontros à beira mar, em lindo pôr do Sol de estivo dia! [2]

Cria-se assim um local de passeio público, complementar ao Passeio Alegre, próprio para a deambulação e o encontro, para ver e ser visto, um espaço de sociabilização na época balnear, uma tipologia que a partir da Europa se difundirá por todo o mundo.
Lembre-se as promenades de Nice, de Cannes e de Menton e o epíteto de Riviera dos portuenses, atribuído por Alberto Pimentel, à avenida de Carreiros na Foz do Douro.

fig. 4 – Postal. Porto (S. João da Foz do Douro) Avenida Brasil.


[1] Raul Proença Guia de Portugal, I Volume Lisboa e Arredores, Praias, Texto integral que reproduz fielmente a 1ª edição publicada pela Biblioteca Nacional de Lisboa em 1924. Fundação Calouste Gulbemkian Lisboa 2014. (pág.129).
[2] José Maria da Costa e Silva, O Passeio Canto IV Estrofe X segunda edição correcta e consideravelmente augmentada pelo autor, Imprensa de Cândido António da Silva Carvalho, Travessa do Monturo do Collegio, n.º 13, Lisboa 1844. (pág.175).



Mas é Marcel Proust (1871-1922), instalado no Grand Hotel aux Roches noires  [1], quem melhor descreve, no início do século XX, a promenade (hoje com o seu nome) da sua inventada Balbec, na realidade a povoação de Cabourg na Normandia, da seguinte forma:

C'était l'heure où dames et messieurs venaient tous les jours faire leur tour de digue, exposés aux feux impitoyables du face-à-main que fixait sur eux, comme s'ils eussent été porteurs de quelque tare qu'elle tenait à inspecter dans ses moindres détails, la femme du premier président, fièrement assise devant le kiosque de musique, au milieu de cette rangée de chaises redoutée où eux-mêmes tout à l'heure, d'acteurs devenus critiques, viendraient s'installer pour juger à leur tour ceux qui défileraient devant eux. Tous ces gens qui longeaient la digue en tanguant aussi fort que si elle avait été le pont d'un bateau (car ils ne savaient pas lever une jambe sans du même coup remuer le bras, tourner les yeux, remettre d'aplomb leurs épaules, compenser par un mouvement balancé du côté opposé le mouvement qu'ils venaient de faire de l'autre côté, et congestionner leur face) et qui, faisant semblant de ne pas voir pour faire croire qu'ils ne se souciaient pas d'elles, mais regardant à la dérobée pour ne pas risquer de les heurter, les personnes qui marchaient à leurs côtés ou venaient en sens inverse, butaient au contraire contre elles, s'accrochaient à elles, parce qu'ils avaient été réciproquement de leur part l'objet de la même attention secrète, cachée sous le même dédain apparent; l'amour – par conséquent la crainte – de la foule étant un des plus puissants mobiles chez tous les hommes, soit qu'ils cherchent à plaire aux autres ou à les étonner, soit à leur montrer qu'ils les méprisent. [2]

[Era a hora em que as senhoras e os cavalheiros vinham todos os dias fazer o seu passeio na esplanada, expostos aos impiedosos olhares que neles se fixavam, como se eles tivessem uma qualquer tara que tinha de ser inspecionada ao pormenor, pela esposa do primeiro presidente, orgulhosamente sentada em frente ao coreto, no meio desta floresta de cadeiras, onde eles próprios ainda à pouco tempo se tinham instalado, para de actores se tornarem críticos, para julgar por sua vez, aqueles que diante deles desfilavam. Todas aquelas pessoas que ao longo da esplanada balançando-se como no convés de um navio (porque eles não podiam erguer uma perna, sem, ao mesmo tempo mover o braço, revirar os olhos, corrigir os seus ombros, compensar por um movimento do outro lado corpo, e congestionar sua face) e que, fingindo não ver para fazer crer que não se preocupavam com eles, mas espiando pelo canto do olho para não correr o risco de dar um qualquer encontrão, nas pessoas que andando ao lado deles ou caminhavam em sentido inverso, que contra eles tropeçavam, agarrando-se a eles, porque deles tinham sido sujeitos à mesma secreta atenção escondida sob o mesmo aparente desdém; o amor – e por isso o medo - da multidão sendo um dos mais potente móbil em todos os homens, quer eles procurem agradar aos outros ou surpreendê-los quer procurem mostrar-lhes o seu desprezo.] [3]

fig. 5 - Postal da primeira década do século XX. Cabourg – La Digue (1887) et le Grand Hotel (1907).

Nesta pintura de René Xavier Prinet, de 1925, podemos observar a promenade, sob a mitológica luz da beira-mar. [4]
Uma manhã ensoleirada, onde um pai caminha com a sua filha e uma outra figura masculina de costas para a praia, admira os passeantes. Duas figuras femininas com crianças contemplam o mar. Uma jovem apoia a cabeça no seu namorado sentado na balaustrada. Repare-se ainda na criança com o arco que se esconde na saia da mãe com medo do cão que se encosta ao candeeiro.


fig. 6 - René Xavier Prinet (1861-1946) Le digue de Cabourg, 1925 Musée d’Art et Histoire de Beaufort


[1] O Hotel foi construído em 1907 pelo arquitecto Lucien Viraut (1859-1940), e Marcel Proust aí se instalou nas épocas balneares de 1907 a 1914.
[2] Marcel Proust, À l’ombre des jeunes filles en fleur in À la recherche du temps perdu (1919), Bibliothèque de la Pléiade, Gallimard, Paris 1954.
[3] Tradução livre do autor.
[4] Sophia de Mello Breyner Andresen, Beira-Mar de O Búzio de Cós (1977) in Obra Poética, Assírio & Alvim 2015. (pág.882).



Esta pintura que retrata o ambiente de uma manhã em Cabourg poderia muito bem ser na Esplanada da Foz, onde ao longo de um muro, que simultaneamente contém as águas do mar e separa as praias do passeio marginal, foi construída uma extensa balaustrada, com acessos a um percurso ao longo das praias, que se estende da Senhora da Luz até à zona do Molhe.

fig. 7 – Postal.Porto - Foz do Douro – Vista sôbre o Molhe.

fig. 8 - A Balaustrada ao longo da Avenida Brasil e os acessos às praias.



fig. 9 - A Balaustrada ao longo da Avenida Brasil e os acessos às praias.

Mas a Esplanada propriamente dita, é um amplo terraço, local de reunião e de convívio, sob o qual se construíram equipamentos de apoio às praias, criado na zona do Molhe, no ângulo formado pelas Avenidas Brasil e Montevideu.

A norte e a sul deste terraço duas amplas zonas ajardinadas, onde foram colocados bancos e candeeiros, bem como esculturas e, no topo norte em parterre triangular, junto ao castelo do Queijo, uma fonte.
Todo o conjunto apresenta uma arquitectura de transição entre o fin de siècle e a Art-Déco, excepto essa Fonte da autoria de Manoel Marques, um dos arquitectos que melhor soube utilizar os elementos da arquitectura Art-Déco. (ver adiante a Fonte da Avenida Montevideu).

  fig. 10 - Postal Porto- II-Praia da Foz do Douro. Ed.P.C. Foto Beleza.

Ao longo do percurso são criadas zonas de miradouro sobre as praias, ajardinadas e iluminadas, de que se destaca no jardim a sul, uma pérgula, que se tornará o ex-libris da orla marítima da cidade.

fig. 11 – Um dos miradouros na avenida Brasil.


fig. 12 – Desenho dos candeeiros a colocar ao longo da balaustrada. AHMP.




A Esplanada 28 de Maio (hoje Esplanada do Molhe).


fig. 13 – Planta do Molhe, da Esplanada e da Pérgula.

Junto ao Molhe a Esplanada, que até recentemente se chamou de 28 de Maio, e que foi projectada por António Enes Baganha (1880-1934).
Organiza-se num amplo terraço, com acessos por rampa e por escada às praias a norte e a sul do Molhe de Carreiros, dando ainda acesso a um outro percurso pedonal junto e ao nível da praia.
O projecto foi aprovado em 15 de Junho de 1928 pelo Presidente da Comissão Administrativa da Câmara Raul Andrade Peres.


fig. 14 – Planta do Projecto da Esplanada 28 de Maio. AHMP


fig. 15 – Alçados do Projecto da Esplanada 28 de Maio. AHMP

O terraço superior


fig. 16 – Porto – (Foz do Douro). O “terrasse” junto à praia do Molhe.


fig. 17 – Porto – Foz do Douro – Esplanada de Carreiros.


fig. 18 – Porto (Foz do Douro) – Avenida Brazil.

Não cumpre aqui analisar as edificações que constituem a frente urbana da orla marítima da cidade. [1]
Repare-se contudo na primeira casa à esquerda da imagem, a chamada Casa do Relógio do Sol, uma casa neo-manuelina projectada em 1907 pelo arquitecto José Teixeira Lopes (1872-1919), para o capitão de artilharia Arthur Jorge Guimarães. [2]
Embora muito e escandalosamente degradada, devido a uma atribulada história recente, é das poucas casas originais que permanecem na Avenida Brasil.



fig. 19 – A Casa do Relógio do Sol na Avenida de Carreiros – Porto. Cliché e similigravura de Marques de Abreu. *

*José Antunes Marques de Abreu (1879-1958).


fig. 20 – A Casa numa fotografia do início do século XX.

O piso inferior

No piso inferior desse amplo terraço são construídos alguns apoios à praia, com um espaço destinado a bar, instalações para os banheiros e sanitários públicos.

 
fig. 21 – O acesso por rampa à zona inferior da esplanada.



fig. 22 – O espaço destinado a bar. Postal Foz – Esplanada.



fig. 23 – O acesso por uma ampla escadaria à praia e ao Molhe. Postal Foz do Douro – Esplanada.


O piso inferior prolonga-se em terraço estendendo-se por um percurso ao longo da praia.


fig. 24 – O prolongamento da esplanada inferior para sul. Postal. Praia do Molhe (Pérgola e bars).


[1] Aguardo a publicação pelo arquitecto Luís Aguiar Branco de um estudo sobre a evolução (ou involução?) de toda a frente atlântica da Foz do Douro, que foi já, em resumo, apresentado em sessões no restaurante Belo Horizonte e no Castelo de S. João Baptista.
[2] Arthur Jorge Guimarães foi mais tarde, em 1918, Presidente da Câmara Municipal no breve período da República de Sidónio Pais.





A praia do Molhe

A praia do Molhe, depois de construída a esplanada, tornou-se a praia mais procurada da Foz.

 

fig. 25 – A praia do Molhe em 1930. AHMP.



fig. 26 –  Postal. A movimentada praia do Molhe.



fig. 27 – Postal. Praia do Molhe à hora do banho.



fig. 28 – A Praia, a Esplanada e o Molhe em dia de grande afluência.



Banhistas de entre as Guerras

A arquitectura da Esplanada não reflecte, ainda de um modo evidente, o gosto Art-Déco, difundido nos anos 20 e 30 a partir da Exposition des Arts Décoratifs realizada em Paris em 1925. [1]

Assim esta aguarela, de Manuel Rodrigues, datada de 1936, capa de um programa de festas e tendo por tema a Foz do Douro.
Mostra três jovens, junto ao mar, jogando a bola.
De reparar nos “modernos” fatos de banho e toucas que envergam, a que não é alheia uma certa emancipação feminina, fruto da Primeira Guerra Mundial e ao papel aí desempenhado pelas mulheres.

fig. 29 -  Manuel Rodrigues (1888-1967), Foz do Douro 1936. Capa de programa de Festa de Caridade no Salão Ibérico, 29.8.36. Foz do Douro 1936, aguarela 21,9 x 15 cm. Museu José Malhoa.

De facto os artistas tentam, nos anos 20, criar composições simplificadas e modernas, explorando o tema das banhistas (e o dos saltimbancos e dos acrobatas…) tirando partido dos fatos justos ao corpo, criando esguias e sinuosas silhuetas com o corpo feliz de ser tão seu e tão denso em plena liberdade. [2]

Picasso já havia pintado em 1918 um quadro intitulado Les Baigneuses (As Banhistas) na praia de Biarritz, num ambiente composto por um barco, um farol e rochedos, onde coloca três esguias banhistas com esses novos fatos de banho, que lhes permitem uma outra liberdade de movimentos que Paul Éluard, num longo poema dedicado a Picasso, refere que Les jambes des baigneuses dénudent vague et plage… [3]



 
fig. 30 - Pablo Picasso Les Baigneuses Biarritz 1918, óleo s/ tela 27 x 22 cm. Musée Picasso Paris.


Na figura da banhista com fato de banho às riscas, que Picasso pinta numa estranha pose, vista simultaneamente de costas e de frente, podemos sentir ainda a presença do Cubismo, em contraste com o biomorfismo dos rochedos e as cores brilhantes que criam uma atmosfera algo surrealista.

fig. 31 – Pormenor de Les Baigneuses.



[1] Onde Le Corbusier apresenta o seu Pavilhão de L’Esprit Nouveau.
[2] Sophia de Mello Breyner Andresen Mulheres à beira-mar de Coral in Obra Poética, Assírio & Alvim 2015. (pág.229).
[3] Paul Éluard (1895-1952), À Pablo Picasso in Cahiers d’Art n°3-10, 1938 Editions Cahiers D'Art 14 rue du Dragon, Paris 1938.









Mas a pintura da Foz do Douro convoca, de imediato, o conhecido quadro de Almada Negreiros, datado de 1925 e executado para a Brasileira do Chiado, representando duas banhistas em “maillot”, sentadas na areia e, entre elas, um barco. [1]


fig. 32 – José Almada Negreiros (1893-1970), Banhistas 1925, óleo sobre tela 166 x 131 cm. Fundação Calouste Gulbenkian.

Numa composição triangular de cores térreas, as duas esguias figuras das banhistas sentadas na praia, formam um triângulo com o barco, colocado ao centro.


fig. 33 - Triângulo compositivo da pintura de José Almada Negreiros (1893-1970), Banhistas 1925, óleo sobre tela 166 x 131 cm. Fundação Calouste Gulbenkian.

Também Dordio Gomes, um dos 5 Independentes de 1923, pinta duas figuras de banhistas junto ao rio Douro, que no primeiro plano e de costas, estão junto a um cais onde estão ancorados barcos tendo por fundo um casario.
A paleta do pintor, com a sua vinda para o Porto, vai-se libertando das térreas cores alentejanas para assumir a luminosidade própria da cidade e do Douro.
Os mastros das embarcações e a chaminé do vapor formam uma subtil inclinação que, com as duas figuras, dinamizam toda a composição.



fig. 34 - (Simão César) Dórdio Gomes (1890-1976), Dois Banhistas à Beira do Douro 1928, óleo sobre tela 103 x 123 cm. Colecção particular.

E nas, então difundidas, revistas ou magazines da época, muitos artistas procuram nas suas ilustrações utilizar essas silhuetas em atitudes descontraídas próprias de épocas balneares e cujos fatos de banho moldando o corpo feminino, melhor se parecem adequar a essa estética Art-Deco.  
Neta capa da revista Ilustração, Jorge Barradas desenha uma descontraída banhista sobre uma prancha numa atitude que lembra o Homem de Vitruviano.



fig. 35 - Jorge Barradas (1894-1971), capa da revista Ilustração n.º 41 de 01 de Setembro de 1927.


E é Emmérico Nunes quem melhor ilustra esta moda de fatos de banho, femininos e masculinos, de entre guerras.



fig. 36 - Emmérico Hartwich Jacinto Nunes (1888-1968), Desenho de 1929, para o Meggendorfer-Blätter, revista satírica publicada desde 1888 em Munique e que entre 1919 e 1936 toma o nome de Fliegende Blätter.

E como, a propósito de Marcel Proust, foi referida a praia de Cabourg, uma pintura desta época de Pierre Ucciani.

 
fig. 37 - Pierre Ucciani, (1851-1939) bain de soleil à Cabourg 1920, óleo sobre madeira Col. Particular.




[1] José Augusto França, Almada O Português se Mestre, Editorial Estúdio Cor. S A RL. Rua João Pereira da Rosa, 20-A Lisboa 1974. (pág. 80).




A Pérgula (ou Pérgola)

A varanda nua
é seca e branca
com sede de mar [1]


Mas é a Pérgula, como um convés de navio, curtida de sol e sal  [2], que se destaca em todo este projecto, tornando-se rapidamente e até aos nossos dias o símbolo da fachada atlântica da Foz do Douro.

  
fig. 38 – A Pérgula vista da praia do Molhe. AHMP.

A pérgula é um elemento que arquitectónico de formas variadas e executado em diferentes materiais, e utilizado para criar um espaço de sombra. A sua origem é muito antiga mas é sobretudo na Renascença que surge o uso de rústicas pérgulas na pintura.

Surge no fresco de Andrea Mantegna na igreja dos Eremitas em Pádua e Giovanni Boccati pinta uma Nossa Senhora da Pérgula.

 
fig. 39 - Andrea Mantegna (1431-1506) Martirio e trasporto del corpo decapitato di san Cristoforo 1454/57, Fresco  3.? x 664 cm. Chiesa degli Eremitani Padova.


Giovanni Bocatti pinta a Virgem sentada ao centro num trono tendo o Menino nos joelhos sob uma pérgula florida de rosas.
À sua direita estão São Gregório e Santo Agostinho (com as vestes de Bispo tendo na mão a pena e na outra um livro).
À sua esquerda estão Santo Ambrósio e São Jerónimo.
À sua frente de joelhos São Domingos e São Francisco. Junto a eles figuras mais pequenas de frades Dominicanos.
Rodeando Nossa Senhora um coro de anjos em que os dois junto do trono tocam lira e alaúde.

fig. 40 - Giovanni di Pier Matteo dito Boccati (1420 - 1480) Madonna del Pergolato 1447, têmpera sobre painel 186,5 x 248 cm. Galleria Nazionale dell'Umbria, Perugia.

Giovanni Bocatti utiliza uma perspectiva central em que o ponto de fuga está colocado de modo a criar uma composição destinada a glorificar a Virgem e o Menino.


fig. 41 – Eixos da composição da Madonna del Pergolato.


Com efeito é a partir dos jardins italianos que as pérgulas se tornaram elementos quase indispensáveis em qualquer jardim e em qualquer parte do mundo, muitas vezes desempenhando ainda a função de miradouros.



fig. 42 – A Pérgula de um Jardim à italiana.

A Pérgula da Foz do Douro

Mas o que diferencia a pérgula da Foz é, para além da sua dimensão, ser um equipamento de acesso e uso público, integrado nesse longo passeio ajardinado à beira mar e, por isso, símbolo da Foz e motivo privilegiado dos fotógrafos.


fig. 43 – Domingos Alvão (1872-1946), Foto Alvão.



 fig. 44 – Foto Beleza- A Foto Beleza foi fundada por António Beleza em 1907.




fig. 45 -  Foto Teófilo Rego (1914-1993).

No cinema

E no cinema onde Armando Miranda (1904-1971) quando realiza, em 1947, o filme Capas Negras coloca a personagem Maria de Lisboa (Amália Rodrigues) cantando e percorrendo a Pérgula da Foz do Douro.




fig. 46 - Fotograma do filme Capas Negras de 1947.


No teatro

Em 1947 estava em cena a opereta em 2 actos e 12 quadros Passarinho da Ribeira, segundo um original de Miguel Orrico, com versos de Rebelo d'Almeida, música de Jaime Mendes e Carlos Dias. A opereta foi representada no Teatro Variedades de Lisboa e no Teatro Sá da Bandeira do Porto.

Penso que um dos cenários desta representação terá sido baseado nesta maquete em que figura a Pérgula da Foz com uma embarcação e um Farol, alusivos ao enredo da opereta.


fig. 47 - Autor desconhecido. Maquete de cenário "Despedida" final do 1º acto, lapis de cor, aguarela e guache 35 x 50 cm. Da opereta "O Passarinho da Ribeira" Não se sabe o local e a data em que foi levada à cena. Museu Nacional do Teatro

Em 1955 o autor Miguel Orrico deslocou-se a Madrid para no teatro Calderon, montar a opereta O Passarinho da Ribeira, agora intitulada La Feria del Barrio, com novo cenário em que figura de novo uma fantasiosa Pérgula, junto ao Farol e vendo-se, ao longe, o Navio que sai de um porto. A balaustrada é, contudo, representada de uma forma bastante realista.

   

fig. 48 - Raul Campos, Maquete de cenário da opereta "O Passarinho da Ribeira", 1955.  Aguarela Papel s/ cartão 31 x 40 cm. Museu Nacional do Teatro.
Sabemos que esta maquete é do cenógrafo Raul Pinto de Campos (1908-1975), que trabalhou entre outros no Teatro de S. Carlos e no cinema, não apenas em Portugal mas em diversos outros países. É de presumir que o primeiro cenário, também seja de Raul de Campos.


Uma Pérgula semelhante nos antípodas


Curiosamente, no outro lado do Mundo, em Napier na Nova Zelândia, e sensivelmente da mesma época existe uma Pérgula com algumas semelhanças com a Pérgula da Foz.

A cidade de Napier junto da Hawkes Bay sofreu um terrível terramoto em 1931 e foi reconstruída pelo arquitecto (James Augustus) Louis Hay (1881-1948).
Num parque então construído, a Marine Parade, ergueu-se uma Pérgula, arredondada e aberta para o mar.


fig. 49 - A Pérgula de Napier cidade da Nova Zelândia.


fig. 50 - A Pérgula de Napier cidade da Nova Zelândia.

Uma pintura de uma pérgula apoiada numa balaustrada e com vista para um porto de mar onde se ergue um farol.

As pérgulas em alguns edifícios do Porto

No Porto, nas décadas de 30 e 40, surgem em alguns edifícios de escritórios, habitação ou equipamentos de saúde, particularmente nos pisos superiores ou nos terraços como afirmação de modernidade, substituindo ou escondendo as coberturas em telhado.
No edifício de 1933 da empresa Moreira da Silva & Filhos, na rua do Triunfo (D. Manuel II), da autoria de Antão de Almeida Garrett, onde no 2º piso destinado a habitação a varanda é rematada por uma pérgula.


fig. 51 – Antão de Almeida Garrett (1896-1978). Projecto do edifício Moreira da Silva na rua do Triunfo 1933. AHMP


O terraço de uma casa na rua de Santa Catarina do arquitecto Januário Godinho, também ostenta uma pérgula.


fig. 52 - Januário Godinho (1910-1990), Casa Alves Barbosa na rua de Santa Catarina 1940. Foto de José Manuel Rodrigues de (In) formar a modernidade. Arquitecturas portuenses, 1923-1943: morfologias, movimentos, metamorfoses. Faup 2001.

Desta época é ainda a Pérgula existente nos jardins projectado por Jacques Gréber (1882-1962) para a Casa de Serralves do arquitecto Charles Siclis (1889−1944) e do atelier do arquitecto José Marques da Silva (1869-1947).


fig. 53 – A Pérgula da Casa de Serralves.

Também a Maternidade Júlio Diniz, um projecto de 1927 do arquitecto suíço Georges Épitaux (1873-1957) e promovida pelo Prof. Dr. Alfredo Magalhães (1870-1957) que foi seu director e Presidente da Câmara do Porto entre 1933 e 1936.


   fig. 54 – A Pérgula no jardim da Maternidade. Foto Alvão.



[1] António Ramos Rosa (1924-2013), A mulher a casa in Voz Inicial 1961 in Antologia Poética Publicações D. Quixote 2001.
[2] Expressão do crítico de arte brasileiro Frederico de Morais (1936) sobre a pintura de Giuseppe Gianinni Pancetti (1902-1958).


CONTINUA


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