Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















quarta-feira, 5 de julho de 2017

O rio e o mar na foz do Douro 11



III Parte - Deriva pela Foz do lado do mar. Da Senhora da Luz a Matosinhos.

A expansão para norte. A “Foz nova”

Deambulações pela Frente Marítima. O período entre as duas Grandes Guerras
Conclusão 




O Salva Vidas de Henrique Moreira

Os que avançam de frente para o mar
E nele enterram como uma aguda faca
A proa negra dos seus barcos
Vivem de pouco pão e de luar.  [1]


 
fig. 55 – Henrique Moreira, O Lobo do Mar ou Salva-Vidas. Foto de Bonfim Barreiros (1894-1973).

A escultura passada a bronze e assente num simples pedestal, mostra a proa de uma embarcação isolando em todo o dramatismo um velho homem do mar, máscara de esforço e de sabedoria no rosto salgado de espuma arremessada pelos ventos. [2]
Encavalitado e agarrado à proa da embarcação, lambida pelas ondas, está prestes a lançar na direcção de um náufrago, com um gesto competente do braço direito, a bóia de salvação que segura na mão direita.
Henrique Moreira, na sua escultura procura exprimir as preocupações de ordem social e humanitária que a figuração de um homem do mar, na sua actividade quotidiana, e que por isso, porque salva vidas, ganha o estatuto de herói. Uma temática que será retomada na década seguinte pelo neo-realismo.


fig. 56 – A dramática figura do Salva-Vidas.




fig. 57 – O Salva-Vidas visto de nascente.

Para lembrar a desaparecida estação salva-vidas e, sobretudo, para homenagear esta “Gente marinheira de têmpera, que enfrentava o perigo em favor do próximo”, em finais de 1936 o Comércio do Porto noticiava a decisão da Câmara Municipal de colocar a escultura “O Lobo-do-Mar” ou o “Salva-Vidas”, nome porque ficou conhecida, da autoria de Henrique Moreira (1890 - 1979) no Jardim da Avenida Brasil.

A escultura colocada entre a Pérgula e o terraço da Esplanada, foi inaugurada em 1937. [3]

Este canteiro circular foi o local escolhido para colocar a escultura O Lobo-do-Mar ou o Salva-Vidas



fig. 58 - Vista da parterre sul da Avenida Brasil, antes de 1937.


fig. 59 – O Salva-Vidas visto de sul.



fig. 60 – O Salva-Vidas visto de norte.


[1] Sophia de Mello Breyner Andresen, Lusitânia de Coral (1950) in Obra Poética, Assírio & Alvim (pág. 406).
[2] Fernando Pessoa / Álvaro de Campos. Ode marítima 1915 in Ficções do Interlúdio in Fernando Pessoa Obra Poética Biblioteca Luso-Brasileira Companhia Aguilar Editora Rio de Janeiro 1965. (pág.322).

[3] Cf. José Guilherme Pinto de Abreu, A Escultura no Espaço Público do Porto no Século XX, Dissertação de Mestrado em História de Arte em Portugal, apresentada na Faculdade de Letras da Universidade do Porto 1996/98.Porto 1999.



A avenida Montevideu

De um lado, temos a bela perspectiva de uma extensa série de vivendas, voltadas a poente, para a vastidão azulada e glauca do Atlântico; do lado oposto, é essa mesma planura viva e balsâmica, delimitada por um alongado arco de círculo que vem desde o molhe Norte de Leixões e delicadamente tange, ao Sul, os areais longínquos de Espinho e Esmoriz.[1]


 
fig. 61 – Pormenor de fotografia Foto Beleza.


Em 1929 finalizaram-se as obras de alargamento e ajardinamento da chamada Rua do Castelo do Queijo, entre o Molhe e o Castelo, mais tarde denominada Avenida do Castelo do Queijo e por fim Avenida de Montevideu, nome que ainda perdura na actualidade.
No Castelo do Queijo e no encontro com a Avenida da Boavista cria-se uma ampla rotunda, cujo diâmetro, para além da dimensão do local, também tem a ver com o transporte sobre carris.


fig. 62 – Pormenor de fotografia Foto Beleza.
Legenda
1 – Terraço do Molhe
2 – Avenida Brasil
3 – Avenida Montevideu
4 – Local da colocação da escultura O Salva-Vidas
5 – Local da colocação da escultura O Homem do Leme
6 – Estação de Zoologia Marítima (Aquário da Foz)
7 – Alameda de metrosideros
8 – Local da colocação da Fonte
9 – Castelo do Queijo
10 – Praia do Queijo

De notar que a Avenida Montevideu é na sua frente edificada constituída por habitações que se situam no centro dos lotes, de um modo diferente da Avenida Brasil, onde as edificações constituíam e constituem uma frente (quase) contínua.

Dessas habitações da Avenida Montevideu salienta-se a projectada pelo arquitecto Miguel Ventura Terra (1866 – 1919) para José Rosas Júnior, e onde durante anos esteve instalado o restaurante D. Manuel e que se encontra agora, escandalosamente, abandonada e muito degradada.




fig. 64 – A Casa no seu desesperado estado actual (Julho de 2017).



[1] Guia de Portugal IV Entre Douro e Minho I Douro Litoral, 3ª edição Fundação Calouste Gulbenkian 1994. (pág.367).


O Homem do Leme [1]

Este que está inteiro em sua vida
Fez do mar e do céu seu ser profundo
E manteve com serena lucidez
Aberto seu olhar e posto sobre o mundo. [2]

 
fig. 65 - A escultura quando foi colocada na Foz do Douro fotografia do livro O Homem do Leme 1938.

No início da Avenida Montevideu, na parterre norte foi colocada, em 1938, a escultura O Homem do Leme, de Américo Gomes (1880-1964).

A escultura inicialmente chamada de “A estátua do Marinheiro” havia sido encomendada para a Exposição Colonial de 1934 pelo seu comissário Henrique Galvão (1895-1970).

Por essa altura, num texto para a mesma exposição, Francisco Pereira de Sousa considera que a cidade moderna, elegante, aproxima-se do mar — Carreiros, com a sua longa avenida marginal que a leva até Matozi­nhos e Leixões, tenta-a, ensinando-a a atrair melhor os estrangeiros, interessados por esta nova riviera de Portugal. [3]

Dada a qualidade da escultura, e as conotações políticas que o título de o Homem do Leme então assume, a Câmara Municipal do Porto em 1938, então presidida pelo professor António Augusto Esteves Mendes Correia (1888-1960), e prosseguindo o plano dos finais dos anos 20 de embelezamento da Orla Marítima, deliberou a sua colocação no local onde está presentemente, a Avenida de Montevideu em Nevogilde, para o que foi desenhado um pedestal, pelo arquitecto Manoel Marques (1890 -1956).

  
fig. 66 - Projecto da escultura O Homem do Leme a ser colocada na Avenida Montevideu. AHMP


O local escolhido foi o jardim a norte da Esplanada 28 de Maio.



fig. 67 – O Projecto do jardim a norte da esplanada c.1930.


fig. 68 – Postal. Porto (Foz do Douro) – Esplanada ajardinada, ladeando a Avenida Montevideu. C. 1920.



fig. 69 – O Jardim da Avenida Montevideu antes da colocação da estátua do Homem do Leme.

O canteiro octogonal em primeiro plano foi o local escolhido para a colocação de O Homem do Leme.


fig. 70 - Postal. Foz do Douro - um aspecto. Antes da colocação da estátua do Homem do Leme em 1938.

 

fig. 71 – O Homem do Leme visto do sul.


Um timoneiro, o rosto concentrado e as mãos bem agarradas na roda do leme, os braços em esforço, e as pernas bem assentes no convés, coraçudo e firme, alheio às doidas e giganteas rebentinas da tormenta, luta contra a intempérie, determinado a levar a embarcação a bom porto.
Com o sueste (chapéu de oleado usado pelos homens do mar) e com a capa de oleado, protege-se do vento que não se cansa de o flagelar, de truculentamente o fustigar; como se fossem um manto, cingiam-no, obstinadamente o envolviam as caricias pérfidas da chuva enregelada; aferravam-se em o entontecer o raio com seus fulgores e o trovão com seus bramidos.
Todavia, firme e destemido, alheio à demência exterminadora dos elementos, o homem do leme nada mais via que a justeza do rumo, nada mais escutava que a voz do seu dever, nada mais sentia que a iminência do perigo, senão a Morte em ronda tétrica, em ronda lugente às vidas confiadas na sua valerosa e férvida guarda. [4]



 
fig. 72 - Postal. Porto (Foz do Douro) – Esplanada ajardinada, ladeando a Avenida Montevideu, depois de colocada a escultura O Homemdo Leme 1938.



Hoje O Homem do Leme, rodeado de metrosideros, é uma estátua Presença ritual e tutelar / Companheira da sombra desenho do silêncio  [5]



fig. 73 – O Homem do Leme rodeado dos metrosideros. Foto CMP.

Um outro Homem do Leme 
Existe em Gloucester nos Estados Unidos uma escultura de Leonard Craske (curiosamente nascido no mesmo ano de Américo Gomes), de homenagem aos Pescadores “They that go down to the sea in ships”, colocada no South Stacy Boulevard, uma marginal algo semelhante à do Porto.


fig. 74 – O monumento aos Pescadores no South Stacy Boulevard em Gloucester. Imagem do Google Earth.

Gloucester no Massachussetts, é uma povoação de pescadores, para onde emigraram no século XIX muitos portugueses levando consigo as Festas de São Pedro.

  

fig. 75 - Leonard Craske (1880-1950), Fisherman's Memorial Statue 1923, inaugurada em 1925. Bronze.  Na inscrição They that go down to the sea in ships. 1623 – 1925. Gloucester, Massachussetts, USA.

                                                      

fig. 76 – As duas esculturas lado a lado.

A escultura colocada na avenida Montevideu deu origem a que a antiga praia da Robaleira tenha ganho o nome definitivo de praia do Homem do Leme, aliás o nome de um bar-restaurante hoje totalmente remodelado.


[2] Sophia de Mello Breyner Andresen, Pescador de Livro Sexto (1962) in Obra Poética, Assírio & Alvim (pág. 433).
[3] Francisco Pereira de Sousa, O Porto de Amanhã in O Império Português na 1ª Exposição Colonial Portuguesa Porto 1935.
[4] Carlos de Passos (1890 — 1958), A caravela santiago e o homem do leme, Novembro de 1936 in O Homem do Leme Oficinas Gráficas de O Comércio do Porto, chefe da composição Virgílio Fortes de Almeida, chefe da impressão Eduardo da Costa Andrade, gravuras de Marques de Abreu, fotografias de A. Teixeira Lopes e Virgílio Mengo Filho, cópia da música Américo Oliveira e escrínio da casa Venâncio do Nascimento. Dezembro de 1938.
[5] Sophia de Mello Breyner Andresen, A Pequena Estátua de Livro Sexto (1962) in Obra Poética, Assírio & Alvim (pág. 472).



O Aquário Augusto Nobre (Estação de Zoologia Marítima)

Numa reentrância dividindo o jardim da Avenida Montevideu, a pequena distância do Castelo [do Queijo], uns 300 metros ao S., rente aos rochedos, encontra-se, muito apagada e discreta, a Estação de Zoologia Marítima, com os seus aquários e gabinetes de estudo. [1]



fig. 77 –  Postal. Foz do Douro (estação de Zoologia Marítima). AHMP

A Estação de Zoologia Marítima, conhecida popularmente por Aquário da Foz, foi fundada em 1914 pelo professor Augusto Pereira Nobre (1865-1946), irmão do poeta António Nobre (1867-1900).
Em 1927 a Estação foi ampliada e foi então construído o Aquário aberto ao público, que se manteve aberto até 1965.

Em O Commercio do Porto de 28 de Julho de 1927 dá-se notícia da abertura ao público do Aquário da Foz:

Vai dentro de alguns dias, ser franqueada ao público a Estação Marítima de Zoologia e Aquário da Foz, anexo da Faculdade de Sciencias do Porto, o qual faz parte do Instituto de Zoologia da Universidade do Porto, criado por decreto de 30 de Março de 1921. [2]


fig. 78 – Vista geral do Aquário da Foz .Foto que acompanha a notícia de O Commercio do Porto de 28 de Julho de 1927.

Desde 1935 a Estação passou a chamar-se Estação de Zoologia Marítima Augusto Nobre e pertence actualmente à Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, que nela explora ainda esse mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim, onde Sophia, na praia inicial da sua vida, por aqui andou e fez do mar um tema recorrente dos seus versos. [3]



fig. 79 – As obras de ampliação e restauro da Estação de Zoologia Marítima. AHMP.


[1] Guia de Portugal IV Entre Douro e Minho I Douro Litoral, 3ª edição Fundação Calouste Gulbenkian 1994. (pág.367).
[2] O Commercio do Porto de 28 de Julho de 1927.
[3] Sophia de Mello Breyner Andresen, Mar sonoro de Dia do Mar (1947) in Obra Poética, Assírio & Alvim 2015. (pág.128).



 
O miradouro

Olhando o mar, sonho sem ter de quê.
Nada no mar, salvo o ser mar, se vê.
Mas de se nada ver quanto a alma sonha!
De que me servem a verdade e a fé? [1]



fig. 80 – Postal do período entre guerras com um conjunto de elegantes olhando o mar.
Terá pertencido a uma habitação em cuja propriedade foi traçado e aberto o novo perfil da Avenida Montevideu.
 

fig. 81 – O Miradouro na actualidade. (Julho de 2017).


O que aquelas elegantes veriam se fosse hoje.


fig. 82 – Foto tirada do Miradouro para sul. Julho de 2017.


[1] Fernando Pessoa Olhando o mar, sonho sem ter de quê. [20-1-1933] in Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno, Ática, Lisboa 1973. 


A Fonte [1]

A Câmara Municipal promoveu em 1929 um concurso para a execução de um motivo decorativo a construir no primeiro Parterre da Avenida das Nações Aliadas.
Quando a 6 de Junho de 1929, reuniu nos Paços do Concelho o Júri nomeado pela Camara Municipal do Porto, para apreciação das “maquettes” apresentadas para o concurso da execução de um motivo decorativo para a Avenida das Nações Aliadas, o projecto classificado em 2º lugar, da autoria de Manoel Marques, apesar da sua indiscutível qualidade, tinha dimensões e proporções, que não se adequavam ao local.

A Câmara propunha, contudo, que se procurasse um local mais amplo onde pudesse ser erguido.

O local escolhido foi o Jardim da Avenida de Montevideu (antiga rua do Castelo do Queijo) onde a Escultura-Fonte de Manoel Marques foi construída em 1931 no remate da parterre triangular próxima do Castelo do Queijo.

 

fig. 83 - Projecto de uma fonte a construir na Foz. Pôrto e Paços do Concelho, 28 de Fevereiro de 1931. Projeto para uma fonte, da autoria do arquiteto Manoel Marques, aprovado em sessão da Comissão Administrativa em 1931-02-28. AHMP.


 
fig. 84 – A Fonte quando foi erguida. Postal Porto (Foz do Douro) Fonte luminosa, junto ao Castello do Queijo.

Trata-se de uma verdadeira fonte - onde a água faz parte da escultura - num exercício de composição abstracta, baseada numa geometria a partir do círculo e do cilindro.


fig. 85 - Postal da Fonte e lago do jardim da Avenida de Montevideu na Foz do Douro. Editor: O Progresso da Foz. AHMP.

Repare-se na imagem no fundo constituído pela Avenida Montevideu, ainda quase se m edificações, vendo-se um moinho para  bombear água.

No n.º 138 do magazine Ilustração, então dirigido por António Ferro, e onde se noticia a estreia de Douro, Faina Fluvial, refere-se a inauguração da Fonte da Avenida Montevideu acompanhada de uma fotografia com a seguinte legenda: A Fonte que, há uma semana, foi inaugurada na Foz do Douro, numa praia do Pôrto. (Foto Platão Mendes).

   Fot
   fig. 86 - Foto de Ilustração n. 138, 15 de Setembro 1931.


Depois de um longo período de abandono e degradação a Fonte foi restaurada retomando hoje toda a sua beleza.


fig. 87 – A Fonte na actualidade depois de recuperada.


[1] Ver neste Blogue http://doportoenaoso.blogspot.pt/2015/05/juventude-ou-menina-nua.html




As Árvores de Fogo da avenida Montevideu

Então o mistério das coisas estremece
E o desconhecido cresce
Como uma flor vermelha. [1]



fig. 88 – Uma Árvore de Fogo da Avenida de Montevideu com as suas características flores vermelhas..

Fechando um percurso que se inicia nos Metrosideros do Jardim do Passeio Alegre, foi plantado ao longo do troço final da Avenida de Montevideu, um conjunto de Metrosideros (excelsa Soland ex Gaert), também chamados de Árvores de Fogo, de que restam vigorosos 33 imponentes exemplares.
Assim com estas árvores de fogo se conjugam na marginal da Foz os quatro elementos da Natureza: Ar, Água, Terra e Fogo.


  
fig. 89 - Os Metrosideros da Avenida Montevideu vistos do norte. Foto Julho 2017. Ao fundo o Homem do Leme.



fig. 90 – Um Metrosidero florido, na avenida Montevideu, numa foto do blogue Sarrabiscos.

Como para as árvores de fogo do Passeio Alegre cito os versos, agora o poema completo, do poeta salvadorenho Alfredo Espino:

Son tan vivos los rubores
de tus flores, raro amigo,
que yo a tus flores les digo:
"Corazones hechos flores".

Y a pensar a veces llego:
Si este árbol labios se hiciera...
¡ah, cuánto beso naciera
de tantos labios de fuego...!

Amigo: qué lindos trajes
te ha regalado el Señor;
te prefirió con su amor
vistiendo de celajes...

Qué bueno el cielo contigo,
árbol de la tierra mía...
Con el alma te bendigo,
porque me das tu poesía...

Bajo un jardín de celajes,
al verte estuve creyendo
que ya el sol se estaba hundiendo
adentro de tus ramajes.
[2]


[1] Sophia de Mello Breyner Andresen, Como uma flor vermelha in Obra Poética, Assírio & Alvim 2015. (pág.91)
[2] Alfredo Espino (Edgardo Alfredo Espino Najarro 1900-1928), Árbol de fuego de Jicaras Tristes (1936) Ministerio de Cultura, 1955. (pág.50).




A Praia do Queijo

Uma por uma as ondas sem defeito
Quebram o seu colo azul de espuma… [1]

A praia está localizada junto ao Forte de São Francisco Xavier do Queijo.
Na planta de 1892, está cartografado, junto à rua do Castelo do Queijo, o Carreiro d’Ipia, uma via paralela que passava junto ao Castelo.


fig. 91 – A Praia do Castelo do Queijo na planta de 1892. Pormenor da Planta de 1892.


fig. 92 – Pormenor da versão à escala 1:500 da zona do Castelo do Queijo. Quadrículas 3 e 4. AHMP.

Em 1937 são construídos os acessos à praia do Queijo.


fig. 93 - Guilherme Bonfim Barreiros (1894-1973), Obras de conservação do muro de suporte e construção da escadaria de acesso à Praia Norte do Castelo do Queijo, 1937.  Negativo p&b 35 x 35 cm.


fig. 94 – Guilherme Bonfim Barreiros (1894-1973), Obras de conservação do muro de suporte e construção da escadaria de acesso à Praia Norte do Castelo do Queijo, 1937.  Negativo p&b 35 x 35 cm. AHMP.


fig. 95 - Guilherme Bonfim Barreiros (1894-1973), Obras de conservação do muro de suporte e construção da escadaria de acesso à Praia Norte do Castelo do Queijo, 1937.  Negativo p&b 35 x 35 cm. AHMP.





fig. 96 – A praia do Queijo num postal dos anos 60.


[1] Sophia de Mello Breyner Andresen, de Mar Novo (1958) in Obra Poética, Assírio & Alvim 2015. (pág.376).




Breve referência ao Castelo do Queijo

Callados, abatidos, los férreos castillos
levántanse medrosos al lado de la mar...
Sin balas, ni cañones, ni guardas, ni caudillos,
cegados ya los fosos y rotos los rastrillos,
no entonan en la noche su indómito cantar.

Las luces del fogueo no alumbran las troneras;
desiertas las terrazas, en ruina el torreón,
no flotan ya en los aires purpúreas banderas,
ni cruzan por las aguas, erguidas y ligeras
las naves enemigas de osado pabellón. 
[1]


fig. 97 - Foto do Castelo do Queijo. 


Não importa aqui fazer a história da Fortaleza de São Francisco Xavier, conhecido como o Castelo do Queijo.
Remetemos por isso para Mário Barroca e o seu incontornável As Fortificações do Litoral Portuense. [2]
 
Referimos apenas que a decisão de construir a fortaleza para proteger os navios que pretendessem alcançar a foz do rio Leça, é de 1651 mas só dez anos depois o se iniciou a construção segundo o risco do engenheiro militar Michel de l’École (ou Lescolles).
Aqui interessa-nos o facto de o Castelo do Queijo no enfiamento da Avenida da Boavista e no cruzamento com a Avenida de Montevideu e o seu prolongamento até à Circunvalação, originou, nos finais dos anos 30 do século passado, o desenho e a construção de uma ampla rotunda, depois denominada praça de Gonçalves Zarco.

Uma fotografia e duas pinturas do Castelo do Queijo


fig. 98 – Frederik William Flower (1815-889), Fortaleza de S. Francisco Xavier ou Castelo do Queijo.


O compositor e pianista afro-francês Lucien Léon Lambert (1922-1937), filho do compositor Charles Lucien Lambert (1828-1896), e que veio para a cidade do Porto onde faleceu, deixou esta pintura do Castelo do Queijo visto do norte.


fig. 99 - Lucien Lambert (1858-1945), Castelo do Queijo 1907, óleo sobre cartão 29 x 47 cm. Col. Particular.

E cerca de um século mais tarde o arquitecto Vasco d’Orey Bobone desenha o Castelo do Queijo visto do norte.

 fig. 100 - Vasco d’Orey Bobone, aguarela in Espírito do Porto, Edição Global Notícias Matosinhos 2004.


[1] Víctor Zurita Soler (1886-1939), La canción de los castillos de Intimidades 1908.
[2] Mário Barroca, As Fortificações do Litoral Portuense, Edições Inapa S. A. Campo de Santa Clara Lisboa. 2001.








A Rotunda do Castelo do Queijo (praça Gonçalves Zarco)

O que importa aqui assinalar é o papel do Castelo do Queijo quando em 1930 a Câmara Municipal aprovou o projecto da Avenida de Montevideu e Rotunda do Castelo do Queijo. Projecto de melhoramentos e embelezamento d’esta Avenida entre o Aquario e o Castelo do Queijo.

 
fig. 101 - Projeto para o ajardinamento do passeio marginal da Avenida de Montevideu, da placa central da Praça de Gonçalves Zarco e do passeio fronteiro ao Castelo do Queijo, aprovado em 29 de Novembro de 1930. AHMP.

Da leitura desta planta podemos constatar:
- No centro da ampla Rotunda está especificada a colocação de um Monumento, será 36 anos depois a estátua equestre de D. João VI, ponto de referência geométrico para as diferentes vias que nela desembocam.
- Às 3 horas do projecto orientado no sentido nascente - poente, está cartografada a Avenida Montevideu.
- Às 10 horas está projectada a Avenida na direcção da Circunvalação.
- Às 11 horas está projectada uma Avenida não nomeada e que nunca foi concretizada.
- Às duas horas está projectada e nomeada a Rua Nunes da Ponte que não foi concretizada neste local.
- Estão projectados os jardins da Avenida Montevideu e do Castelo do Queijo.

Quanto ao nome desta projectada rua ele destinava-se a homenagear o médico e poeta José Nunes da Ponte (1848-1924), director do Hospital de Santo António, deputado, Governador Civil, Ministro do das Obras Públicas e do Fomento em 1915 e Presidente da Câmara (de 1904 a 1908 e de 1910 e 1911) na Primeira República. [1]

Este projecto recebeu alterações logo no ano seguinte.
Com efeito em 21 de Março de 1931 Carlos Alberto Cabral, conde de Vizela, propõe à Câmara Municipal, um arranjo assinado pelo arquitecto José Marques da Silva, que será aprovado, eliminando a projectada rua Dr. Nunes da Ponte já que retalhava a sua propriedade.


fig. 102 - Marques da Silva, projecto para o arranjo junto à Rotunda do Castelo do Queijo.


O nome de rua dr. Nunes da Ponte foi posteriormente atribuído a uma das ruas que liga a rua de Diu à rua da Agra.
[Não confundir com a rua Brigadeiro (Luís Monteiro Soares de Albergaria) Nunes da Ponte (1884 -1972), militar, deputado e governador civil do Porto, filho do Dr. José Nunes da Ponte. A rua Brigadeiro Nunes da Ponte situa-se em Lodelo do Ouro.]

Compare-se com a situação actual, que trataremos no próximo artigo.


fig. 103 – Imagem do Google Earth.


 Três imagens aéreas da praça Gonçalves Zarco de c. 1960


fig. 104 – Imagem aérea da praça Gonçalves Zarco vista de sudeste.



fig. 105 – Imagem aérea da praça de Gonçalves Zarco vista do sul. 1962. AHMP.


fig. 106 – Imagem aérea da praça de Gonçalves Zarco vista do sul. 1962. AHMP.



[1] Sobre o Dr. José Nunes da Ponte leia-se O DR. José Nunes da Ponte, médico, político e homem de bem. Um açoriano da transição de século, pelo seu bisneto António Nunes da Ponte in Insulana, Orgão do Instituto de Cultura de Ponta Delgada, LVI-2000. (pág. 75 a 96).




 A Foz do Douro nos planos para a cidade dos anos 30

Não teria sentido falar na Foz de entre as Guerras, sem abordar as propostas para a Foz do Douro dos planos para o Porto dos anos 30.

A Frente Atlântica no Prólogo de Ezequiel de Campos [1]


O Porto já tem a sua praia da Foz. [2]


fig. 107 - Pormenor da planta Traça das ruas Primárias da Cidade do Porto do Prólogo ao Plano do Porto de Ezequiel de Campos 1932.


Em 1932 Ezequiel de Campos apresenta o seu Prólogo ao Plano da Cidade do Porto que, embora se trate de um documento preliminar a um Plano, corporizou um conjunto de propostas para a cidade que condicionaram a acção municipal e o planeamento da cidade até aos nossos dias.

No que se refere à Foz do Douro, na planta que acompanha o Prólogo, Ezequiel de Campos projecta uma via (a futura Diogo Botelho e a ainda não realizada avenida Nun’Alvares ou D. Pedro IV como agora se pretende), que unia a ponte projectada (a futura ponte da Arrábida) com o porto comercial de Leixões então no início da sua construção.

 

fig. 108 - Pormenor da planta Traça das ruas Primárias da Cidade do Porto do Prólogo ao Plano do Porto de Ezequiel de Campos 1932. Sublinhadas a amarelo as vias que se relacionam com a Foz do Douro.

No lado ocidental da cidade, seguindo globalmente a ideia de Cunha Morais, mas de uma forma mais completa e adaptada à morfologia do terreno e às ruas entretanto abertas durante os anos que medeiam entre os dois “Planos”, propõe a partir da Avenida da Boavista uma rede viária para “A Interligação dos Nucleos urbanos periféricos”

 

fig. 109 - Pormenor da planta Traça das ruas Primárias da Cidade do Porto do Prólogo ao Plano do Porto de Ezequiel de Campos 1932. Sublinhado o conjunto de traçados para a zona ocidental da cidade.

Repare-se que já está cartografada a rotunda no final da Avenida da Boavista (praça Gonçalves Zarco) bem como a Esplanada 28 de Maio.

Nesse Prólogo escreve Ezequiel de Campos:

Adorna-se a beira-mar quási desde o Castelo da Foz até para o Norte do Castelo do Queijo, e acaba-se a Avenida do Marechal Gomes da Costa, isolada, díspersamente. [3]


fig. 110 – Pormenor da Foz do Douro com os traçados existentes e propostos na Planta que acompanha o Prólogo ao Plano da Cidade do Porto de 1932 de Ezequiel de Campos.

E finalmente propõe como Necessário ligar bem todas estas praias, no plano da cidade futura. [4]

Se o Prólogo de Ezequiel de Campos não teve qualquer aprovação oficial, constituiu um conjunto de referências que influenciaram a evolução da cidade nos anos seguintes.

A zona da Foz com os traçados criados ou renovados nos anos 30 sobre a planta de 1892.

 
fig. 111 – Realizações entre 1930 e 1945 sobre a planta de 1892.


 A Planta de 1933


fig. 112 - Planta de 1933. AHMP.

Na planta de 1933 estão já cartografados os remates da avenida da Boavista (praça Gonçalves Zarco), da Circunvalação (praça S. Salvador), a avenida Marechal Gomes da Costa e a praça do Império, e os remates a norte da rua de Gondarém e de Marechal Saldanha. Repare-se que estão também cartografados os Bairros de Casas Económicas projectados pelo Estado Novo.


fig. 113 – Pormenor da fig.112.

A Avenida do Marechal Gomes da Costa, então aberta, estabeleceu uma ligação entre a Avenida da Boavista e São João da Foz. Veio colmatar a lacuna que o desenvolvimento sofrido no período anterior pelas áreas da chamada Foz Nova pedia: um eixo de circulação que as ligasse rapidamente ao centro da cidade, libertando-se das servidões que os velhos traçados exíguos e tortuosos impunham. [5]


A Frente Atlântica nos planos dos italianos [6]

Nos estudos para o Plano da Cidade, dos arquitectos italianos Marcello Piacentini (1881-1960),e Giovanni Muzio (1893-1982) realizados entre 1939 e 1943, as principais preocupações da cidade não se situavam na Foz do Douro.
Só indirectamente a ligação ao porto de Leixões, e o novo atravessamento do rio Douro (ponte da Arrábida) tinham consequências nas propostas avançadas para as orlas, fluvial e marítima, da cidade. Consolida-se a ideia de uma ponte no sítio da Arrábida, e a sua ligação com a orla marítima por uma via até à Praça do Império prolongando-se até à avenida da Boavista e dali até Matosinhos.
Consolida-se ainda a ideia do Parque da Cidade.


fig. 114 -  Giovanni Muzio, Esquema das vias principais no lado ocidental da cidade. Pormenor do 1º Esquema Geral de Giovanni Muzio. AHMP.

Na troca de correspondência entre o Gabinete Técnico da Câmara Municipal e o arquitecto urbanista Giovanni Muzio o engenheiro Almeida Garrett em 8 de Maio de 1941 envia uma carta ao arquitecto italiano onde inclui, entre outros, um estudo de urbanização da zona da Foz do Douro. 



fig. 115 - Antão de Almeida Garrett e Giovanni Muzio, Estudo de Urbanização da Foz do Douro, 8 de Maio de 1941 in Carta do engenheiro Almeida Garrett dirigida a Giovanni Muzio; estudos de urbanização das zonas da Foz e Campo Alegre; estudo para ligação entre a Praça de Carlos Alberto e o Jardim do Carregal, e entre as praças de Carlos Alberto e de Dona Filipa de Lencastre. AHMP.

Destas propostas dos arquitectos italianos resultou contudo um Estudo para o Plano Regulador de 1941 concretizados em duas plantas.

Em ambos os estudos estão propostos os traçados das urbanizações da Avenida Marechal Gomes da Costa e do remate norte das ruas de Gondarém e Marechal Saldanha.
A proposta da rua Diogo de Botelho e da Avenida Nun’Álvares.
A concretização do Parque da cidade, onde Piacentini já propunha um Estádio e um Hipódromo.

Solução A
 

fig. 116 – Estudo para o Plano Regulador.



fig. 117 – Pormenor da fig. 116.


Está estruturado todo o sistema da Avenida Gomes da Costa e da ligação do Ouro com Matosinhos (avenida Nun’Álvares). A avenida da Boavista seria urbanizada a sul e a norte está definido o Parque da Cidade.

Solução B - Enviada pela CMP a Giovanni Muzio em 26 de Julho de 1941


fig. 118 – Estudo para o Plano Regulador, enviado a Giovanni Muzio em 26 de Julho de 1941.




 fig. 119 – Pormenor da fig. 118.


Na solução B o Parque da Cidade inclui uma zona desportiva. Com um estádio semelhante ao Panatenaico de Atenas bem como outros equipamentos desportivos.


fig. 120 - Pormenor da fig. 118.





[1] Ver http://doportoenaoso.blogspot.pt/2010/09/os-planos-para-o-porto-dos-almadas-aos.html
[2] Ezequiel de Campos (1874-1965), Prologo ao Plano da Cidade do Porto, Empresa industrial Gráfica do Porto, L.da  174, Rua dos Mártires da Liberdade, 178, Porto 1932.
[3] Ezequiel de Campos (1874-1965), Prologo ao Plano da Cidade do Porto, Empresa industrial Gráfica do Porto, L.da  174, Rua dos Mártires da Liberdade, 178, Porto 1932.
[4] Ezequiel de Campos (1874-1965), Prologo ao Plano da Cidade do Porto, Empresa industrial Gráfica do Porto, L.da  174, Rua dos Mártires da Liberdade, 178, Porto 1932.
[5] José Manuel Pereira de Oliveira (1928-2006), O Espaço Urbano do Porto Condições Naturais e Desenvolvimento. Instituto de Alta Cultura, Centro de Estudos Geográficos, Coimbra 1973. (pág. 333).
[6] Ver http://doportoenaoso.blogspot.pt/2010/11/os-planos-para-o-porto-dos-almadas-aos.html



CONTINUA em
A Frente Marítima do Porto de 1946 aos nossos dias







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