Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















quarta-feira, 30 de agosto de 2017

O Porto através de uma Panorâmica de c.1870 2



 

fig. 1 - Autor não identificado  Panorâmica do Porto c. 1870 (originais em vidro do Museu Nacional de Soares dos Reis Porto) cópia cedida por gentileza do arquitecto Manuel Magalhães.

Depois de fixada a data para a fotografia e do local de onde o fotógrafo a terá realizado, cumpre agora a cada ponto da legenda acrescentar textos e imagens (quanto possível da época) que melhor os possam identificar.


fig. 2 – Panorâmica legendada.
Legenda:
0.      Capela de Carlos Alberto
1.       Palácio de Cristal
2.       Palacete Pinto Leite concluído c.1865 (foi o Conservatório de Musica do Porto e é actualmente propriedade particular)
3.       Circo Olympico (Museu Commercial e Industrial em 1886)
4.       Quartel da Torre da Marca (Regimento de Infantaria 6, Metralhadoras 3 C.I.C.A.P. do Regimento de Artilharia da Serra do Pilar, Reitoria da UP, Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar U.P.)
5.       Palácio dos Carrancas (Palácio Real, Museu Nacional Soares do Reis)
6.       Telégrafo
7.       Igreja da Lapa (concluída em 1863)
8.      Quartel de S. Ovídio
9.       Casa dos Pamplonas
10.   Rua dos Carrancas Rua da Liberdade Rua de Aires Gouveia Hotel do Louvre
11.    Hospital de Santo António (Fachada Sul)
12.    Igreja das Carmelitas
13.    Praça do Peixe - Mercado do Peixe (c.1869). Entre a Praça da Cordoaria a nascente e a Rua dos Fogueteiros a poente.
14.    Igreja da Graça (demolida em 1899)
15.    Hospício dos Expostos
16.    Academia Polytechnica (Faculdade de Ciências, Reitoria da UP)
17.    Capela das Almas (Igreja de S. José das Taipas)
18.   Torre dos Clérigos e Edifício na antiga Porta do Olival
19.    Convento de S. Bento da Vitória e Cadeia da Relação
20.   Cubelo da Muralha junto ao convento de Santa Clara
21.    Igreja da Vitória
22.   Igreja do Bonfim (ao longe com uma só torre)
23.   Igreja de S. Ildefonso
24.   Antigo Teatro de S. João (destruído por um incêndio em 1908) e Casa Pia (Governo Civil)
25.   Convento de Ave-Maria de S. Bento (demolido para dar lugar à estação de S. Bento)
26.   Sé Catedral
27.   Casa do Cabido
28.   Paço Episcopal
29.   Zona de S. Lázaro
30.   Muralha
31.    Passeio das Fontainhas
32.   Ruínas do Seminário
33.   Quinta da China
34.   Monte Castro
35.   Gaia Mosteiro da Serra do Pilar
36.   Gaia Aqueduto
37.   Gaia morros do Choupelo e das Devezas
38.   Quinta dos sete Campos (Casa do Roseiral)
39.   Rua da Restauração (Rua Nova da Bandeirinha, Rua de D. Miguel I 1825-1832)
40.   Museu Allen Municipal corrigir
41.    Casa Albuquerque, Rua dos Fogueteiros (Cooperativa Árvore)
42.   Passeio das Virtudes
43.    Casa do comerciante portuense José Alexandre Ferreira Brandão. (Clube dos Ingleses em 1925).
44.   Muralha
45.   Convento e igreja de S. Lourenço (Grilos)
46.     Convento de Santa Clara
47.     Gaia
48.    Gaia Calçada de Villa Nova (Estrada Real, rua General Torres)
49.     Gaia
50.    Gaia Quinta da Belavista
51.     Convento de Monchique
52.     Convento de Monchique (Bairro Inez)
53.     Casa das Sereias
54.     Quinta, Jardim e Fonte das Virtudes
55.     Igreja e Convento de S. João Novo
56.     Ruinas do Convento de S. Domingos (Caixa Filial do Banco de Portugal)
57.     Banco (Instituto do Vinho do Porto)
58.    Hospital de S. Francisco
59.     Palácio da Bolsa
60.    Igreja de S. Francisco, Igreja da Ordem Terceira e Casa do Despacho
61.     Capela da Confraria de St. Elói, demolida em 1872.
62.     Igreja de S. Nicolau e entrada na rua dos Ingleses (rua do Infante D. Henrique)
63.     Ponte D. Maria II (ponte pênsil)
64.     Gaia
65.     Cais Novo
66.     Miragaia
67.     Alfândega Nova em construção
68.    Igreja de S. Pedro de Miragaia
69.     Praia e Frente urbana de Miragaia
70.    Abertura da rua da Alfândega Nova - Porta Nobre (demolida em 1872) e baluarte Manuelino
71.     Abertura da rua da Alfândega Nova – Cais e Postigo de Banhos (aqui se localizou o Hospital dos Ingleses
72.     Abertura da rua da Alfândega Nova – entrada da rua da Fonte Taurina – rua do Cimo de Muro
73.     Gaia Cais (Largo de D. Luís e Avenida Diogo Leite) Nossa Senhora da Piedade da Areia
74.     Gaia
75.     Gaia Armazéns de Vinho do Porto (Ferreira e Ramos Pinto)
76.     Gaia Estaleiro naval
77.     Gaia Edifício ainda hoje existente, no morro do Castelo de Gaia junto do local onde foi tirada a fotografia.


Capítulo 1. A Capela de Carlos Alberto. O Palácio de Cristal. O Palacete Pinto Leite. O Circo Olympico.

   
fig. 3– Pormenor da Panorâmica
Legenda
0 Capela de Carlos Alberto
1 Palácio de Cristal
2 Palacete Pinto Leite
3 Circo Olympico


A Capela de Carlos Alberto (n.º 0)


Junto ao Palácio, isolada e constituindo ainda uma referência visual, aparece parcialmente representada a Capella de Carlos Alberto. Situada no largo da Torre da Marca, e proxima do Palacio de Crystal, se acha ésta capella mandada fazer pela princeza de Montlear, irman do ex-rei da Sardenha, Carlos Alberto: é notavel por uma primorosa estatua de S. Carlos Borromeu, e por que recorda o falecimento do referido rei nesta cidade. [1]

Nesta fotografia de 1862, mostrando o início da construção da Alfândega Nova vemos na parte superior à esquerda a Capela de Carlos Alberto e à direita a casa da Quinta de Sete Campos.
 

fig. 4 – Foto do início da construção da Alfândega Nova 1862. AHMP.



[1] Francisco Ferreira Barbosa, Elucidário do Viajante no Porto, Imprensa da Universidade, Coimbra 1864. (pág.48).



No Archivo Pittoresco de 1864 foi publicada uma gravura intitulada Torre da Marca e Massarelos, acompanhada por um texto de Vilhena Barbosa.

Na coroa do monte que ainda ha pouco tempo era o largo da torre da Marca, bastantemente espaçoso, e com mui variadas e formosíssimas vistas em dilatados horizontes, mas a par dessas vantagens arido e desegual, avultam agora a capella de Carlos Alberto, e o palacio de cristal com os seus parques e jardins.
O padrã0 que commemora a passagem do martyr da liberdade da Italia por esta terra que elle escolheu para asylo e sepultura, ergue-se mesmo à borda da escarpa da montanha. [1]

 fig. 5 – João Barbosa de Lima (1839-1967) e João Pedroso Gomes da Silva (1823-1890), Torre da Marca e Massarelos. Gravura onde sobre o monte da Torre da Marca, se vê a capela de Carlos Alberto e o Palácio de Cristal, em fase de construção. Trata-se da reprodução de uma gravura, a partir de fotografia de Antero de Seabra, publicada no semanário ilustrado Archivo Pittoresco, n.º42 Tomo VII de1864. (pág.329).

E Vilhena Barbosa prossegue referindo o palácio de cristal em construção e a fotografia que deu origem à gravura.

O monumento erigido em honra do trabalho levanta-se no meio da planura, e lá se descobre, ainda atrazado na construcção, porque n'esse estado o retratou a photographia, tirada pelo sr. Seabra *  ele que é copia a gravura que publicamos.
Ao presente acha-se proximo da sua conclusão. Os jardins e parque, já muito adiantados na plantação, devem ficar promptos na primavera de 1865. [2]

*Antero Frederico Ferreira de Seabra da Mota e Silva (1821-1883).


[1] I. de Vilhena Barbosa Archivo Pittoresco, n.º42 Tomo VII de 1864. (pág.330).
[2] I. de Vilhena Barbosa, Archivo Pittoresco, n.º42 Tomo VII de 1864. (pág.330).



Carlos Alberto
Carlos Alberto de Savoia-Carignano (1798-1849) foi rei da Sardenha entre 1831 e 1849. Neste ano, depois de ter sido derrotado pelo exército austríaco em Novara, e falhada a sua tentativa de unificação da Itália, exilou-se no Porto, onde veio a falecer.
Em 1854, a sua meia-irmã, a princesa Princesa Frederica Augusta de Montlear (1814-1885), de cuja vida e morte se conhecem várias versões contraditórias, visitou o Porto e mandou erigir uma capela em sua memória nos jardins do Palácio de Cristal. A obra, riscada pelo arquitecto Joaquim da Costa Lima (1806-1864) na Avenida das Tílias, ficou concluída em 1861.
A Princesa terá mesmo desenhado uma primeira versão da fachada da Capela num estilo romântico e neogótico, sendo depois desenhada definitivamente em estilo neoclássico.
   


fig. 6 – Projectos para a fachada da Capela dedicada a Carlos Alberto. Em cima desenho atribuído à Princesa Augusta de Montlear. Em baixo o projecto aprovado em 13 de Maio de 1854.

N'esse proprio ponto, onde collocámos o espectador, erigiu a piedade fraternal um monumento de religiosa saudade á memoria do rei da Sardenha, Carlos Alberto.
A fundadora foi a princeza Augusta de Montlear, irmã d'aquelle desditoso monarcha. A escolha do logar foi devida, mais que á belleza e desafogo da situação, á sua proximidade da quinta e casa onde residiu e falleceu Carlos Alberto. O monumento é pois uma elegante capella, cuja frontaria está voltada para o occidente, ostentando-se aos viajantes que demandam a barra do Porto, ainda em distancia de algumas legoas da foz do Douro.
Tres vezes veiu a princeza ao Porto para designar o sitio da fundação, para lançar a primeira pedra nos alicerces, e dar impulso e remate às obras. O risco da capella foi feito em Turim.
Exteriormente dispensa - nos de descripção a gravura que publicamos, que é verdadeira, e está bem intelligivel. Bastará dizer, que o templo é todo construído de pedra, extrahida das pedreiras das imediações da cidade, que é uma especie de granito. [1]

fig. 7 – Francisco Augusto Nogueira da Silva (1830-1868) e Caetano Alberto da Silva (1843-1924), Capella de Carlos Alberto in Archivo Pittoresco n.º51 de 1861.

A capella levantada à memoria do rei Carlos Alberto prolonga a illusão. Um templosinho, formoso de simplicidade, ao fundo da longa avenida ladeada de tilias, em moldurado n’um bosque espesso, mais faz pensar que por alli passou a velha fé que povoava de silencios a solidão do que o progresso que povoa de rumores o deserto.[2]

fig. 8 – A Avenida das Tílias e a Capela de Carlos Alberto. Foto Guedes. AHMP.


No interior da capela a estátua de S. Carlo Borromeo (1538-1584), do escultor Alexandre Joseph Oliva (1823-1890), então com grande prestígio pelos seus bustos e estátuas em Paris.
Esperemos a hora do pôr do sol, sigámos pela avenida, paremos um pouco defronte da capella do desditoso rei da Sardenha, Carlos Alberto, edificada no local onde foi a Torre da Marca, pela dedicação de sua irmã, Augusta de Montlear, ao gosto e desenhos italianos. Contemplemos, se estiver aberta, a bella e correcta imagem de mármore, que retrata S. Carlos Borromeu, e teve a mesma procedência e, se não o estiver, toda aquella formosa e leve construção de bom granito;… [3]
     


fig. 9 - Alexandre Joseph Oliva (1823-1890), Estátua de mármore de São Carlos Borromeu, esculpida em Paris. Em cima postal do interior da Capela. Em baixo a escultura numa fotografia de Américo Teixeira Lopes. 1948. AHMP.

E dedicada esta capella a S. Carlos Borromeu, cuja imagem esculpida em excellente marmore avulta no altar-mór, que é o unico que ha no templo. E uma estatua colossal de nobre porte e primorosa esculptura, vinda de Italia em setembro do anno passado.
Tem o rosto summamente expressivo, a posição do corpo cheia de nobreza , e as vestes cardinalícias caindo com graça e naturalidade. Pareceu-nos todavia demasiado grande em relação á capacidade da capella.[4] 



[1] Ignacio Vilhena Barbosa Archivo Pittoresco n.º51 de 1861. (pág. 401 e 402).
[2] Alberto Pimentel, Guia do Viajante na Cidade do Porto e seus Arrabaldes, cap. XVIII Palacio de Crystal livraria Central de J. E. da Costa Mesquita Editor, Rua de D. Pedro 87, Porto 1877. (pág.109).
[3] David Correia Sanches de Frias (1845-1922), Notas a Lapis Passeios e Digressões Peninsulares, Livraria de Antonio Maria Pereira, Editor, Rua Augusta 50-52, Lisboa 1886. (pág.147).
[4] Ignacio Vilhena Barbosa, Archivo Pittoresco n.º51 de 1861. (pág.401 e 402).





Palácio de Cristal (n.º1)

…Viamos a ridente collina de Villar coberta de verdura e coroada pelo Palacio de cristal;…[1]

O Palácio de Cristal, então de construção recente, salienta-se obviamente na Panorâmica dominando o morro de Vilar.

fig. 10 – Pormenor da Panorâmica.

Como na fotografia anterior de Jean Laurent de 1869.

fig. 11 – Pormenor da fotografia de Jean Laurent de 1869.

De facto nos anos 70 do século XIX ele assume-se como um dos edifícios emblemáticos do Porto, sobre o qual são produzidas inúmeras imagens e muito se escreve antes e depois da Exposição Internacional de 1865.

Projectado por Thomas Dillen Jones e W. Shields (tendo ainda trabalhado nas suas obras de construção o eng. Gustavo Gonçalves de Sousa), o Palácio de Cristal, era propriedade da Associação Industrial Portuense, criada em 1852.
Na fachada principal inscrevia-se a legenda PROGREDIOR, de acordo com as ambições dos seus fundadores.
Construído em ferro e vidro, com influências do Chrystal Palace de Londres de John Praxton, tinha três naves e três pisos: cave, rez do chão e um piso.
Estava integrado num amplo jardim da autoria de Émile David (1839-1873), onde estavam colocadas duas fontes, um lago, um chalet, um circo, e diversos equipamentos de jardim.
Em 1868 cria-se o teatro Gil Vicente.


fig. 12 - Francis Webb Wentworth-Sheilds (1820-1906), O Palácio de Cristal,1863. Aguarela e guache sobre papel 65,9 x 98,7 cm. Museu Nacional de Soares dos Reis.


[1] Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão - “À Excellentíssima camara municipal da muito nobre, sempre leal e invicta cidade do Porto ou quem suas vezes fizer” in As Farpas, Chronica Mensal da Política, das Letras e dos Costumes, III série, Tomo I Janeiro 1878, Typographia Universal de Thomaz Quintino Antunes, Impressor da Casa Real, Rua dos Calafates, 110, Lisboa 1878. (pág. 67).

 Antes da Exposição Internacional

Camilo Castelo Branco, que nunca gostou do Palácio de Cristal, foi um dos poucos que, contra o coro dos que o defendiam como símbolo do Progresso, durante a sua construção escrevia quando estava preso na cadeia da Relação:
Um palácio de cristal no Porto já não é uma utopia de cristalinas imaginações. O dinheiro é a alavanca de Arquimedes. «Dai-me um ponto de apoio e eu deslocarei o mundo,» dizia o filosofo. Dai-me dinheiro, e eu cristalizarei a cidade eterna. E que o Porto está riquíssimo. Os capitais não sabem já onde hão de frutificar cinco por cento. E os capitalistas começam a descrer de Christo e da sua palavra, porque este dissera: “dar-vos-ei cento por um” e as cousas correm de modo que de aqui a pouco será muito feliz quem tirar um por cento. O que eu não sei é se Jesus fez esta promessa a uns cavalheiros que ele encontrou uma vez dentro do templo. [1] 

De resto são inúmeros os que exaltam o edifício e a Exposição como símbolo do progresso e do dinamismo da cidade do Porto.

Antes da abertura da Exposição, F. G. Fonseca, no seu Guia Histórico do Viajante no Porto e Arrabaldes de 1864, escreve:

Fica o palacio, com os jardins e parque em uma posição elevadíssima acima da superfície do mar, que se destaca magestoso ao poente. Do lado sul precipita-se quasi a prumo o escarpado terreno até à rua da Restauração, que communica a cidade alta com o bairro de Massarellos e estrada da Foz. [2]

E este Guia destinado aos que visitarem a Exposição Internacional do Porto abre com uma gravura em madeira, com desenho de Francisco Augusto Nogueira da Silva (1830-1868) e Caetano Alberto da Silva (1843-1924), Palácio de cristal na Cidade do Porto, reproduzida de o Archivo Pittoresco de 1864.

fig. 13 - Nogueira da Silva & Alberto, Palacio de cristal na cidade do Porto. Porto – Lith. Comm.al  rua Formosa 76.

Na gravura, onde ainda não aparece o tratamento do jardim da entrada, repare-se nos trajes das personagens na moda Segundo Império francês com as damas usando as amplas saias de crinolina e os cavalheiros de chapéu alto, contrastando com os trajes dos serviçais.


fig. 14 – Pormenor da gravura Palacio de cristal na cidade do Porto.


fig. 15 - Pormenor da gravura Palacio de cristal na cidade do Porto.

E Francisco Ferreira Barbosa, no seu Elucidário do Viajante no Porto, refere que a edificação e existência do Palácio de Crystal marca no século dezenove uma era de gloria para o Porto, e uma página dourada no livro da vida d'aquelles, que tanto se empenharam em levar á execução tão grandioso pensamento; é este um dos monumentos, que ennobrece os portuenses, porque em cada pedra, que o sustenta, existe um documento de zelo e dedicação, não só para os que tomaram a seu cargo a construcção d'este edifício, como também para os que de bom grado concorreram com as suas forças monetárias para a realização d'esta ideia grandiosa. [3]

Na planta de 1865, o Palácio surge desenhado de uma forma esquemática, bem como os jardins. A rua que limita o recinto do Palácio a nascente também está apenas esboçada de uma forma esquemática.

  
fig. 16 – O Palacio de Cristal na planta de 1865.



[1] Camilo Castelo Branco (1825-1890), em A Revolução de Setembro, n.º 5740 de 27 de Junho de 1861. Reproduzido em Alberto Telles (1840-1890), Camilo Castelo Branco na Cadeia da Relação do Porto: revelações colhidas por fora dos seus livros, Livraria Ferreira Lisboa 1917.
[2] F.G.Fonseca, Guia Histórico do Viajante no Porto e Arrabaldes. Na Livraria e Typographia de F. G. da Fonseca, Editor, 72, Rua do Bomjardim, Porto 1864. (pág.148).
[3] Francisco Ferreira Barbosa, Elucidário do Viajante no Porto, Imprensa da Universidade, Coimbra 1864. (pág.77).






Durante a Exposição (Setembro de 1865 – Janeiro de 1866)

Uma outra gravura mostra o Palácio de Cristal durante a Exposição Internacional já concluído e enbandeirado, mostrando na fachada a inscrição Progredior.
O jardim da entrada, onde apenas se passeiam damas e cavalheiros da burguesia, está já tratado segundo um desenho que foi commettido ao sr. Emílio David, allemão, architecto païzagista  [1]

  
fig. 17 – João Barbosa de Lima (1839-1867),Palacio de Crystal Portuense  Exposição Internacional Portugueza de 1865. Lisboa Typografia Franco-Portugueza Imprimé par Lallemand, frères.

Durante a Exposição Internacional, o jornal A Revolução de Setembro de 1865, insere um anúncio desta imagem de João Barbosa de Lima (1839-1867) e João Pedroso Gomes da Silva (1823-1890).

Diz o anúncio:Palacio de Cristal. Aguarella typographica, impressão a tres cores, desenho de B. Lima, gravura de Pedroso e impressão de Lallemant frères. Vende-se no Porto e em Lisboa nas principaes livrarias pelo preço de 1000 réis.

 
fig. 18 – O anuncio da gravura no A Revolução de Setembro.



fig. 19 - O Palácio visto de sul in O Porto e os seus Fotógrafos – coord. Teresa Siza Porto 2001.


Um texto datado de 30 de Abril de 1865 e assinado Peregrino no semanário Esperança salienta com orgulho o filho do progresso.

Ria-se alguém de lhe chamarem Palacio de Chrystal, sendo esta a matéria, que menos entra na sua composição. Eu não quero tirar a rasão aos que se riem. Chamem-lhe o que quiserem. Eu só direi, por ultimo, que elle é filho do progresso, e nasceu em pleno seculo XIX. [2]

E Alberto Pimentel, também no semanário Esperança, associa o Palácio de Cristal ao Caminho de ferro que então chegava ao Porto, mais propriamente às Devezas em Gaia.

É verdade!.. O caminho de ferro e o Palacio de Crystal são as mais admiráveis inovações com que o Porto se tem enobrecido ultimamente.

E prossegue lamentando a pouca elegância da construção, reconhecendo, contudo, a sua incompetência na matéria.

O espectador volta as costas e dá de rosto com o Palacio de Crystal na margem fronteira do rio. É o templo das artes e do progresso. É o phantheon dos artistas. Todavia, acho-o eu uma construção de pouca elegância. Noto-lhe aquelle aspecto pesado das construcções britannicas o que não admira por ser um engenheiro inglez que traçára o desenho. Eu queria-lhe uma cúpula, um ornamento architectonico qualquer que ornasse a frontaria e lhe desse um ar mais imponente. Esta minha opinião não vale nada porque sou incompetente na analyse. [3]


[1] Francisco Ferreira Barbosa, Elucidário do Viajante no Porto, Imprensa da Universidade, Coimbra 1864. (pág.77).
[2] Peregrino O Palacio de Crystal in A Esperança Semanario de Recreio Litterario. Dedicado às Damas e Collaborado por diferentes escriptoras e escriptores, já bem conhecidos na republica das letras. 1º Anno 1865. Proprietário Antonio Pereira da Silva. Typographia de José Pereira da Silva & F.º, 63, Praça de Santa Theresa, 63. Porto 1865. (pag. 97).
[3] Alberto Pimentel, A Esperança Semanario de Recreio Litterario. Dedicado às Damas e Collaborado por diferentes escriptoras e escriptores, já bem conhecidos na republica das letras. 1º Anno 1865. Proprietário Antonio Pereira da Silva. Typographia de José Pereira da Silva & F.º, 63, Praça de Santa Theresa, 63. Porto 1865. (pag. 132).



O Palácio de Cristal após a realização da Exposição Internacional

E em 1866 João Clímaco mostra, nostálgico, um Palácio agora uma gaiola vasia sem a animação da Exposição ora terminada.

Até agora perguntava-se a toda a gente –
-Já foi à Exposição?
-Já.
-Gosta do quadro do Goblin?
-Muito.
-Das pocellanas de Sevres?
-Muitíssimo.
E iam assim revistando em synopsis os objectos mais notaveis da exposição, o que já era divertimento para algum tempo, e o que equivalia a vêr-se mais uma vez a exposição…sem lá ir.
Isto, ainda asiim, era um entretenimento passageiro. Mas o que era a vida, a animação, o supremo divertimento, era entrar-se no Palacio de Crystal, por uma hora, por um momento que fosse!
Ali; n’aquelle grande boulevard d’aquella Pariz pequena, passavam as preciosas dando-se ares de sylphos, de gnomos, de visões phantasticas! Os leões ryravam no salão desde manhã até o sol posto! Cada um corria para seu lado esquecendo o desapontamento d’um sorriso infructifero com as glorias d’uma nova conquista, despresando uma mulher e seguindo outra, fallando a uma, e olhando para a que estava ao pé.
Depois se um homem encontrava a qualquer fashionable, e lhe perguntava o que fazia ali dentro tantas horas, elle respondia, como os janotas de Paris, com um sorriso nos labios:
- Je suis les femmes.
E sumia-se, ao longe, entre uma nuvem de mulheres!
Isso era tempo! Agora o Palacio não passa d’uma gaiola vasia, d’onde desertaram as graciosas alveolas, como um bando d’andorinhas quando se aproxima o inverno!..Agora…nem há que contar!  [1]


fig. 20 – Rafael Idézio Pimenta (1850-1931)e Francisco Pastor (1850-1922), Aspecto dos jardins do Palácio de Cristal em 1878, vendo-se ao fundo a Torre de Pedro Sem. O Universo Illustrado. 2º volume Abril 1878.

E após a realização da Exposição Internacional, o Palácio de Cristal volta a ser causticamente criticado por Camilo Castelo Branco.

Em primeiro lugar no romance A Bruxa de Monte Cordova de 1867, onde refere o lugar da Torre da Marca onde se construiu o Palácio de Cristal.

Angelica Florinda hospedara-se dois dias em casa do amigo de Thomaz d’Aquino, em quanto alugava e alfaiava uma casinha das abarracadas, que se desfizeram no cimento do Circo-bazar-theatro-restaurante-gymnastico-pyrotechnico, chamado em linguagem enxacoca “Palacio de cristal”.  [2]

E no ano seguinte na Gazeta Litteraria do Porto, onde escreve:

Não hãode assim pensar os creadores de bazares industriosos e industriaes. Alguns dirão: D. João, o guerreiro victorioso fez a Batalha; D. Manoel, o senhor das frotas que escumavam o domado occeano, fez Sancta Maria de Belem; D. João V, o devoto irracional, fez Mafra; nós, seculo XIX, que não batalhamos, nem navegamos, nem oramos, fazemos progresso. A gente o que anda a fazer é progresso. Já se lhe fabricou uma casa digna, onde elle mora, o Progresso; um palácio grande onde o Pluto moderno se estende à perna solta, e dá de renda 15 contos annuaes aos proprietários. Os seculos XV, XVI e XVIII faziam casas de mármore onde só cantavam frades; o XIX faz cazarões de cristal onde canta quem quer. A “Suripanda” não vos regala mais que os threnos dos poetas hebreos?
E, rodados trez seculos, que dirão os antiquários apontando para a praça onde hoje campea o torreado palácio do Progresso? Prefigura-se-me que os vejo e ouço:
- Aqui, há tresentos anos, existiu um salão, onde bailavam mascaras; e um restaurante onde se comiam ostras; e uma rampa onde cantavam bufos, e se ostentavam os primores dramáticos de Ignez de Castro e Pedro Sem, dois brilhantes da coroa da Thalia portuense. E, como diversão aos graves espíritos d’aquelle tempo, também o Progresso deu aos seus amigos representações de tramoias chamadas Magicas. Chamava-se isto o Palacio de Cristal.
Mas que faz isso ou que tem que ver as Antiguidades de Braga com as modernices chôchas do Progresso?
É um disparate realmente!
Burundangas de escrevinhador que mistura alhos com bugalhos. [3]


fig. 21 – Postal. Varanda do Restaurante, onde se comiam ostras…

Mas, pelo contrário, Alberto Pimentel no seu Guia do Viajante na Cidade do Porto e seus Arrabaldes, publicado em 1877, ainda valoriza o Palácio de Cristal, apesar de lamentar ser pouco frequentado durante a semana.

Palácio de Crystal - Pela sua deliciosa posição, pela grande amenidade dos seus bosques e jardins, e ainda para muitas pessoas pelos seus theatros, bilhares e demais diversões, o Palácio de Crystal, sendo durante a semana muito pouco frequentado, - ó assombro! - é todavia o encanto e admiração de todas as pessoas de mais fino gosto que visitam o Porto.
O domingo é o dia habitualmente destinado ao Palácio de Crystal, porque n'esse dia é costume haver musica de tarde e queimarem-se fogos de artificio á noite. Mas, por Deus, que n'esse dia o Palácio de Crystal, petulante de garridice domingueira, involto em turbilhões de gente e pó, é simplesmente um passeio como qualquer outro, sem as suas grutas remançosas, sem as suas sombras cheias de silencio e mysterio, sem a tranquilla doçura das suas arvores e das suas ruas. Verdade é que, se grande numero de pessoas começasse a frequental-o á semana, o Palácio de Crystal perderia essa deleitosa serenidade que para nós é o seu maior encanto, e atravessaria uma ininterrompida serie de domingos, quer dizer, de dias em que a concorrência é tamanha, que chega a molestar-se.
Ha males que vem por bens.
Continue a população portuense a procurar o Palacio de Crystal ao domingo para ouvir musica e ver queimar fogos d'artificio, e deixe-o em paz durante a semana, como sempre tem feito, para que o visitem as pessoas mais namoradas da paizagem que dos effeitos acústicos e pyrotechnicos. [4]


fig. 22 – Foto de Emílio Biel. Entrada do Palácio de Cristal.

E Alberto Pimentel, mais adiante no seu Guia, protesta contra a colocação das taboletas:


Ah! srs. Directores do Palácio de Crystal Portuense temos que conversar a respeito d'estas malfadadas taboletas, mais da sua collocação. Que a primeira das citadas taboletas, como diria o sr. Jayme José Ribeiro de Carvalho, estivesse pelo lado de fora da porta de entrada, comprehendia-se, porque n'esse caso as damas que, ignorantes da vossa determinação, conduzissem consigo as suas cadelinhas de Itália, os seus cachorrinhos de pello branco, depois de lerem o dístico, que diz textualmente assim:
NÃO É PERMITIDO CALCAR OS ALEGRETES DE FLORES OU PLANTAS
OS CÃES SÓ PODERÃO TER ENTRADA NOS JARDINS SENDO CONDUZIDOS COM UMA CADÊA OU CORDÃO iriam á primeira loja de capellista comprar o cordão exigido ou ao primeiro estabelecimento de latoeiro comprar a cadêa reclamada por essa terrível alternativa em que vós, na mesma epocha em que se généralisa a protecção aos animaes, collocaes os cães abastados que podem concorrer aos divertimentos públicos.
Mas affixada dentro da porta de entrada, a vossa primeira taboleta, ó srs. Directores, demonstra simplesmente que vós quereis armar um laço às pessoas que conduzem cães sem cadêa ou cordão, porque depois dos vossos empregados os haverem deixado entrar, a vossa taboleta, ex.mos srs., exige a essas desprevenidas pessoas que vão prender os seus cães - com uma cadêa ou cordão. [5]

fig. 23 – Foto de Aurélio Paz dos Reis - Avenida das Tílias fotografia estereoscópica s/d APR 2644, AFP/CPF/MC In o Porto e os seus Fotógrafos, coord. Siza Teresa, Porto 2001.


E no ano seguinte Alberto Pimentel critica a discriminação entre senhoras e homens que se passeiam pela Avenida das Tílias e que se manterá até ao século XX como se pode observar na fotografia de Aurélio Paz dos Reis:

Aos domingos, no Porto, na grande avenida do Palácio de Crystal, as senhoras constituem grupos separados; e os homens, a não serem os maridos ciumentos e os solteirões rheumaticos, passeiam kilometricamente, permitta-se-me o adverbio, d'um lado para o outro, cumprimentando-as sem lhes fallar. Ora em Lisboa, na grande rua do Passeio, é raro o grupo de senhoras em que não conversem dous ou trez homens, e em que não haja uma certa animação gárrula.
Seja, porém, dito em honra da verdade, se as senhoras do Porto são menos conversáveis que as de Lisboa, são muito melhores donas de casa, e em geral muito mais delicadas mães. [6]

 

fig. 24 - Pormenor da foto anterior.

Por outro lado José Augusto Vieira em O Minho Pittoresco, já nos anos 80, destaca a singularidade do edifício e as vistas do Porto que nele se podem observar:

Uma vez em visita aos monumentos do Porto tem um lugar de honra o Palácio de Crystal, não só por ser no seu género o único edifício que existe no paiz, como por demonstrar orgulhosamente a enérgica iniciativa dos cidadãos portuenses. Além d'estas duas qualidades, o Palácio tem para o touriste uma attracção especial; ahi, como em nenhuma outra parte, desenha-se nitidamente o mais sympathico perfil do Porto, este perfil que é sempre bom mostrar aos que nos visitam, para que lá fora vão dizer bem da nossa individualidade. [7]



fig. 25 – A fachada sul do Palacio de Cristal com o lago.

E o poeta e escritor Visconde de Sanches Frias numa sua passagem pelo Porto, defende os que procuram manter a animação do Palácio, improvisando festas, estabelecendo bazares, organizando concertos, promovendo vários certamens artísticos e agrícolas, fomentando toda a espécie de incentivo para o conservar e melhorar. [8] 

E Sanches Frias prossegue, num estilo ultra romântico próprio da época, descrevendo essa paisagem:
A sua grande avenida, a matta, as grutas e os jardins, suspensos, como por encanto, sobre um monte de granito, cortado a prumo, a olharem para o Douro, onde se reflectem os extensos e formosos panoramas da outra banda, povoações rusticas, arvoredos sem conta, oiteiros coroados de verdura, o Candal, Gaya, a histórica e memorável serra do Pilar… [9]

E no final do seu texto, percorrida avenida das Tílias, concluiu evocando romanticamente o sonho e o ideal, o luar e a morte:

Sentemo-nos, e estendamos a vista para a frente.
Accendem-se as luzes na cidade; e por cima das aguas, da casaria e dos montes, espalha-se, em ondulações tepidas, a luz palpitante de um formoso luar.
Oh! Quadro magico de um effeito indescriptivel! Quem poderá contemplar-te uma vez que não sinta abalados todos os recessos da alma, e não traga comsigo uma recordação indelevel das tuas tintas divinas? O’ espiritos sonhadores, corações ideaes, se alli àquella hora, não sentirdes as suaves emanações de milhares de philtros, que vos embriaguem, é que tendes vasias as arterias do sentimento, e estaes prestes a cair na sepultura, que vos cava a morte moral! [10]



fig. 26 – O Palácio na planta de 1892.



fig. 27 - Planta do Palácio de Cristal c.1891.


E já nos anos 90 escreve Alberto Pimentel moralizando:

A meu vêr o Palácio de Crystal do Porto concorreu, com a impudicicia dos seus bailes de mascaras, para destragar os austeros costumes portuenses, porque os filhos familias (sic), uma vez cahidos n'aquelle abysmo de prazer, tomaram gosto á pandega... e ao dinheiro dos pais. [11]


fig. 28 – A entrada principal do Palácio de Cristal no início do século XX.


[1] João Climaco, A Esperança Semanario de Recreio Litterario. Dedicado às Damas e Collaborado por diferentes escriptoras e escriptores, já bem conhecidos na republica das letras. Volume II 1866. Proprietário Antonio Pereira da Silva. Typographia de José Pereira da Silva & F.º, 63, Praça de Santa Theresa, 63. Porto 1866. (pag. 69).
[2] Camilo Castelo Branco (1825-1890), A Bruxa de Monte Cordova (1867), Terceira Edição, Antonio Maria Pereira, Livraria Editora, rua Augusta 50,52 e 54, Lisboa 1904. (Cap. XII Adeus! pág.92).
[3] C. Castello-Branco, Gazeta Litteraria do Porto n.º12, 1868 (pág.111).
[4] Alberto Pimentel, Guia do Viajante na Cidade do Porto e seus Arrabaldes, cap. XVIII Palacio de Crystal livraria Central de J. E. da Costa Mesquita Editor, Rua de D. Pedro 87, Porto 1877. (pág.107 e 108).
[5] Alberto Pimentel, Guia do Viajante na Cidade do Porto e seus Arrabaldes, Porto, Livraria Central de J. E. da Costa Mesquita - Editor, 1877, (págs. 112-113).
[6] Alberto Pimentel, O Porto por Fora e por Dentro. Livraria Internacional de Ernesto Chardron e Eugénio Chardron, Porto 1878. (pág. 121).
[7] José Augusto Vieira (1856-1890), O Minho Pittoresco Tomo II, Livraria de Antonio Maria Pereira Editor, Rua Augusta 50-52, Lisboa 1887. (pág.698).
[8] David Correia Sanches de Frias (1845-1922), Notas a Lapis Passeios e Digressões Peninsulares, Livraria de Antonio Maria Pereira, Editor, Rua Augusta 50-52, Lisboa 1886. (pág.147).
[9] David Correia Sanches de Frias (1845-1922), Notas a Lapis Passeios e Digressões Peninsulares, Livraria de Antonio Maria Pereira, Editor, Rua Augusta 50-52, Lisboa 1886. (pág.147).
[10] David Correia Sanches de Frias (1845-1922), Notas a Lapis Passeios e Digressões Peninsulares, Livraria de Antonio Maria Pereira, Editor, Rua Augusta 50-52, Lisboa 1886. (pág.148).
[11] Alberto Pimentel (1849-1925), O Porto ha Trinta Annos, Livraria Universal de Magalhães & Moniz, Editores, Largo dos Loios 12 Porto 1893. (pág. 79).



O Palacete Pinto Leite (n.º 2)

(Conservatório de Música do Porto entre 1975 e 20)


fig. 29 – Com o n.º2 o Palacete Pinto Leite. Pormenor da Panorâmica da fig.1.



fig. 30 – Localização do Palacete Pinto Leite a partir do ponto de onde foi fotografada a Panorâmica da fig.1.

Em 1863/64 conclui-se o Palacete no Campo Pequeno (hoje Largo da Maternidade) mandado construir por Joaquim Pinto Leite (1805-1880) ao ao mestre pedreiro Francisco Geraldo da Silva Sardinha – também conhecido por Francisco Geraldo da Silva, pai do conhecido arquitecto José Geraldo da Silva Sardinha (1845-1906). [1]


     
fig. 31 – O Palacete Pinto Leite.

O Palacete logo é referenciado como uma das casas importantes da cidade e por isso assinalado nas publicações destinadas aos viajantes que ao Porto se deslocam para visitar a Exposição Internacional em 1865.

Na cartela da planta de Perry Vidal é já referido entre outros palacios particulares, - dos Carrancas – hoje pertencentes à Casa Real; - da Feitoria Inglesa; do Visconde de Beire, e o de Joaquim Pinto Leite, de bellissima architectura e recentemente concluido com manificencia.[2]

E nos diversos guias então publicados, o palacete é assinalado como uma das casas privadas a destacar na cidade.

Assim no Elucidário de Francisco Ferreira Barbosa de 1864 ela é assinalada como
Palacete de Pinto Leite. No Campo Pequeno está edificado este colossal palacete, surprehendente pelo gôsto architectonico, e pelo seu interior, cujas salas apresentam ricos adornos. [3]

E no Guia Histórico do Viajante no Porto de F. G. Fonseca também de 1864, refere-se entre os Palacetes o de Pinto Leite no Campo Pequeno Construído ao gosto inglez. [4]

No ano seguinte João Antonio Peres Abreu, no Roteiro do Viajante no Continente e nos Caminhos de Ferro de Portugal faz uma breve referência quando referencia que há porém diversos palacetes de construção moderna, que muito aformozeam a cidade, tornando-se mais notáveis os de Antonio Bernardo Ferreira, no Largo da Trindade; do conde do Bulhão, na rua Formosa; do visconde de Pereira Machado, na rua da Alegria; e de Joaquim Pinto Leite, no Campo pequeno. [5]

E Alberto Pimentel no seu Guia do Viajante no Porto e Arrabaldes, este publicado em 1877, refere o
Palacete de Pinto Leite, no Campo Pequeno, agradavel vivenda no meio do jardim, separado da rua por um gradeamento de ferro. [6]  

O Palacete Pinto Leite na planta de Perry Vidal de 1865. Francisco Queiroz considera que o palacete Pinto Leite está mal cartografado sendo confundido com uma casa vizinha e anterior que indica como pertencendo à família Gubian. [7]


 fig. 32 – O Palacete Pinto Leite na planta de 1865.


E na planta de Telles Ferreira de 1892.

 
fig. 33 -  O Palacete Pinto Leite na planta de Telles Ferreira de 1892. Escala 1: 5000.

fig. 34 - O Palacete Pinto Leite na quadrícula 214 da planta de 1892.Escala 1:500.


[1] Sobre o Palacete Pinto Leite cf. J. Francisco Ferreira Queiroz, A Casa do Campo Pequeno, da família Pinto Leite. Enquadramento e abordagem preliminar a uma habitação notável do Porto Romântico. In Revista da Faculdade de Letras, Departamento de Ciências e Técnicas do Património da Universidade do Porto, 1ª Série, volume III, Porto 2004. (pág. 183 a 215).
[2] Cartela da planta de Perry Vidal 1865.
[3] Francisco Ferreira Barbosa, Elucidário do Viajante no Porto, Imprensa da Universidade, Coimbra 1864. (pág.92 e 93).
[4] F.G.Fonseca, Guia Histórico do Viajante no Porto e Arrabaldes. Na Livraria e Typographia de F. G. da Fonseca, Editor, 72, Rua do Bomjardim, Porto 1864. (pág.174).
[5] João Antonio Peres Abreu, Roteiro do Viajante no Continente e nos Caminhos de Ferro de Portugal em 1865, Imprensa da Universidade Coimbra 1865. (pág.119).
[6] Alberto Pimentel Guia do Viajante na Cidade do Porto e seus Arrabaldes, livraria Central de J. E. da Costa Mesquita Editor, Rua de D. Pedro 87, Porto 1877. (pág.141).
[7] J. Francisco Ferreira Queiroz, A Casa do Campo Pequeno, da família Pinto Leite. Enquadramento e abordagem preliminar a uma habitação notável do Porto Romântico. In Revista da Faculdade de Letras, Departamento de Ciências e Técnicas do Património da Universidade do Porto, 1ª Série, volume III, Porto 2004. (pág. 183 a 215).




O Circo Olympico (n.º3)


fig. 35 – O Circo Olympico com o n.º3. Pormenor da Panorâmica da fig.1.


Na panorâmica está assinalado com o n.º3 o Circo Olympico.
De reparar que ele se liga com o Palácio de Cristal através de uma ponte sobre a rua em construção ainda sem nome mas que em 1871 se chamará rua do Palácio de Cristal


Foi utlizado durante a Exposição Internacional como complemento do Palácio de Cristal.
Ignácio de Vilhena Barbosa, descreve o edifício em artigo publicado no Archivo Pittoresco em 1866.

CIRCO
Este esbelto edifício, construido inteiramente de ferro em Inglaterra, levanta-se do lado de leste e a pouca distancia do palacio de cristal. Tem doze faces, e n'ellas quatro corpos como vestibulos, que resaltam um pouco para fóra, correspondendo aos quatro pontos cardeaes, tendo cada um d'esses vestibulos tres portas de entrada. Recebe a luz e ventilação pela cúpula.
Como ao tempo da exposição ainda não se tivessem começado os camarotes, palanques e mais obra de madeira, o circo apresentava a vista de um grande e bello salão, lindamente pintado de côres alegres, e alumiado por abundante luz.
A gravura que acompanha este artigo, a qual foi copiada de uma photographia, mostra a perspectiva que se desfructava da porta de entrada principal do mesmo circo, que era a que communicava com a galeria, por onde se passava a coberto do rigor do tempo para os dois grandes armazéns annexos ao palácio de cristal. [1]

 
fig. 36 – Imagem que acompanha o texto de Vilhena Barbos no Archivo Pittoresco de 1866.

 
fig. 37 – O Circo assinalado na planta de 1865.


O Museu Industrial e Comercial do Porto (1883-1899)

No Circo Olympico foi instalado nos anos oitenta do século XIX o Museu Industrial e Commercial do Porto. [2]

Criado oficialmente em 31 de Dezembro de 1883 como complemento das Escolas Industriais criadas oficialmente uns dias depois em 3 de Janeiro 1884, só em 1886 é inaugurado o Museu no Circo Olympico junto ao Palácio de Cristal.
 

fig. 38 – Postal. Porto – Museu Commercial e Industrial do Porto.

Em 1887 data da publicação do Minho Pittoresco 0 seu autor José Augusto Vieira assinala …o Museu industrial e commercial, occupando o edifício do antigo circo, hoje separado dos jardins por uma rua intermédia que se abriu, mas ligado ainda a elles por uma ponte de madeira, que transpõe a nova rua. O que haveria aqui a notar de curioso, de methodicamcntc disposto, de novidades que surprehendem c encantam, occuparia um volume. À mingua de espaço e competência para escrevel-o, diremos só ao touriste:— Corre-lhe a obrigação de visitar o Museu, se quer conhecer uma das mais bellas feições do Porto, e se quer prestar a homenagem do seu respeito e do seu applauso ao patriotismo da Sociedade de Instrucção, a cuja iniciativa se deve este padrão glorioso. [3]

 
fig. 39 – Postal. Porto – Palácio – Museu Industrial.

 O Museu está já cartografado na planta de 1892.








fig. 40 – Museu Commercial e Industrial. Planta de Telles Ferreira 1892. Escala 1:5ooo.

fig. 41 - Museu Commercial e Industrial. Planta de Telles Ferreira 1892. Quadricula 216. Escala 1:500.



[1] I. de Vilhena Barboza, Archivo Pittoresco n.º40 Tomo IX 1866. (pág 313).
[2] Sobre o Museu Industrial e Comercial do Porto ver Carlos Loureiro, O Museu Industrial e Comercial do Porto (1883-1899), Colecções de Ciências Físicas e Tecnológicas em Museus Universitários: Homenagem a Fernando Bragança Gil, Universidade do Porto. Faculdade de Letras. Porto 2005. (pág. 185 a 201).  
[3] José Augusto Vieira (1856-1890), O Minho Pittoresco Tomo II, Livraria de Antonio Maria Pereira Editor, Rua Augusta 50-52, Lisboa 1887. (pág.699).



CONTINUA
Enquanto preparo a continuação desta análise da Panorâmica uma pintura do Porto, visto de Gaia a montante do Douro, de autor desconhecido sensivelmente da mesma data 1872.














1 comentário:

  1. Caro Ricardo Figueiredo,

    Devo confessar que muito aprendi consigo sobre o Circo Olímpico.

    Ao lado do Palácio de Cristal surgem em outras imagens da época uns barracões em madeira que não faço ideia para o que serviram. Presumo que tenham sido complementares à exposição de 1865, saberá me dizer?

    Um abraço,
    Nuno Cruz

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