Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















segunda-feira, 18 de setembro de 2017

O Porto através de uma Panorâmica de c. 1870 3





fig. 1 - Autor não identificado  Panorâmica do Porto c. 1870 (originais em vidro do Museu Nacional de Soares dos Reis Porto) cópia cedida por gentileza do arquitecto Manuel Magalhães.

Capítulo 2 – Quartel da Torre da Marca. Palácio Real (palacete dos Carrancas). Quinta dos Sete Campos (Casa do Roseiral). Rua da Restauração. Projecto para uma praça na Torre da Marca.




fig. 2 – Pormenor da Panorâmica da fig.1.
Legenda
0.     Capela de Carlos Alberto
1.       Palácio de Cristal
2.      Palacete Pinto Leite concluído c.1865 (foi o Conservatório de Musica do Porto e é actualmente propriedade particular)
3.      Circo Olympico (Museu Commercial e Industrial em 1886)

4.      Quartel da Torre da Marca (Regimento de Infantaria 6, Metralhadoras 3 C.I.C.A.P. do Regimento de Artilharia da Serra do Pilar, Reitoria da UP, Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar U.P.)
5.      Palacio Real (Casa dos Carrancas).

38. Quinta dos sete Campos (Casa do Roseiral)
39. Rua da Restauração (Rua Nova da Bandeirinha, Rua de D. Miguel I 1825-1832)
40. Museu Allen Municipal foi recolocado no sítio certo no angulo da rua da Restauração c/ a rua dos Carrancas (rua da Liberdade e depois de Aires Gouveia).

Quartel da Torre da Marca (n.º4)


(Foi sucessivamente Regimento de Infantaria 6 e 5, Metralhadoras 3 C.I.C.A.P. do Regimento de Artilharia da Serra do Pilar, Reitoria da UP, Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar U.P.)

[Talvez por ser uma instalação militar, talvez pela vizinhança incontornável do Palácio de Cristal e do Palácio Real (Museu Soares do Reis), não conheço imagens da época do quartel da Torre da Marca. Apenas fotografias actuais. Por isso socorro-me das plantas do Porto.]

O quartel da Torre da Marca situava-se na Rua dos Quarteis que ligava a rua dos Carrancas ao Largo da Boa Nova.
A rua, em 1838, pela vitória das tropas liberais muda o nome para rua do Triumpho.

Após a implantação da República, o palácio real (hoje Museu Soares dos Reis) esteve provisoriamente encerrado, vindo D. Manuel II a oferecê-lo, por disposição testamentária após a sua morte ocorrida em 1932, à Misericórdia do Porto. Esta doação motivou que a Câmara Municipal do Porto tivesse alterado o nome da rua onde se encontrava o palácio - então denominada Rua do Triunfo, para Rua de D. Manuel II, em sinal de reconhecimento pela generosidade do malogrado monarca, nome que ainda se conserva.


O Quartel surge assinalado na planta de 1839 com o n.º23 - Quartel Militar da Torre da Marca


fig. 3 – Pormenor da planta de 1839. Com o n.º 23 Quartel Miliar da Torre da Marca. Com o n.º 8 Palácio dos Carrancas.

Na época da Panorâmica nele estava instalado o Regimento de Infantaria n.º5, como já em 1864 referia o Elucidário, salientando o curioso pormenor de as tarimbas já terem sido substituídas por camas de ferro.

Collocado na rua do Triumpho, quasi defronte do Palacio Real, está o quartel do regimento n.° 6 de infanteria, de menor capacidade que o precedente, e que actualmente é residencia do 5 de infanteria. Tambem aqui se nota a substituição das tarimbas por camas de ferro. [1]

E é referido no Guia Historico do Viajante no Porto e Arredores de de F. G. Fonseca.
Na rua do triumpho, e do lado opposto ao palacio real, demora este bello quartel o qual tem entrada por um terreiro cercado de grades de ferro, e sombreado de árvores. Ali está alojado o regimento de infaneria n.º 5. [2]

Na planta de 1865 vem assinalado como Quartel da Torre da Marca.

 
fig. 4 – Pormenor da planta de 1865. Com o n.º 41 Igreja da Boa Nova. Com o n.º 56 Palacio dos Carrancas, hoje Casa Real. Com o n.º 64 Museu Allen Municipal. Com o n.º 17 Convento de Monchique.

Entre 1870 e 1884, sendo a data provável da Panorâmica de 1871/72, o Quartel da Torre da Marca foi reconstruído por João Estanislau Penaguião (1822-1872).

E em 1876 segundo Pinho Leal na rua antigamente chamada da Torre da Marca, e hoje do Triumpho, em frente do palácio dos Carrancas, que foi da sr.ª D. Carlota Rita Borges Moraes e Castro (filha de Manuel Mendes Moraes e Castro, feito barão de Nevogilde, em 10 de outubro de 1836) baroneza de Nevogilde desde 10 de novembro de 1852. Esta senhora vendeu o palácio e quinta annexa, ao sr. D. Pedro V, e ficando a seu pae, este deu a propriedade ao sr. D. Luiz I, que é seu actual possuidor.
O quartel da Torre da Marca é de acanhadas dimensões, mas hoje bem arranjádo.
Actualmente está se dando maior amplitude a este quartel, do lado do 0., faceando com a nova rua do Palacio de Chrystal.
Foi por muitos annos quartel do 1.º regimento de infantaria do Porto (n.º 6) — Depois d'este corpo hir para o Ultramar, veiu occupar o quartel o regimento de infanteria n.° 5, que alli esteve alguns annos. Por occasião da célebre revolução (de que ninguém deu fé senão o governo) e que o povo denominou a pavorosa (julho de 1870) por ocasião da tal pavorosa, repito, mandou o ministro da guerra effectuar uma troca, hindo para o quartel da Graça de Lisboa, o 5 de infanteria, e vir para o quartel da Torre da Marca, o 10 da mesma arma.
Esta troca, que se disse ser apenas por um mez, ainda dura, e os dois corpos se conservam nos quartéis que os fizeram trocar.  [3]


Já no ano anterior Pinho Leal contava a história do quartel.

Quartel da rua do Triumpho (Torre da Marca).
Este quartel, ao S. da rua do Triumpho e quasi em frente do palácio real, é bastante antigo, pois quando em 1769 a Misericórdia comprou a João Ribeiro e Rosa Angelica de S. José, o casal dito do Robalo, para edificar o seu novo hospital, como se vé da escriptura lavrada nas notas do tabelião Manuel da Cunha Valle, já se disse que as ditas terras confrontavam a poente com os quartéis. Antes de se denominar rua do Triumpho a rua onde estão, denominou-se —rua dos Quartéis.
São pois anteriores a 1769, mas não podemos marcar a data da sua fundação. [4]


O quartel na Planta Redonda de 1813.


fig. 5 – Pormenor da Planta Redonda 1813. Com o n.º XXI – O Paço dos Moraes e Castro (Palacete dos Carrancas). Com o n.º 36 R. do Carranca.

Entre 1818 e 1824 foi elaborado o Plano da Cidade do Porto por José Francisco de Paiva (1744-1824) que faleceu na sua casa da Rua dos Quartéis da Torre da Marca (hoje Rua D. Manuel II), defronte do Quartel do Regimento Numaro Sexto. [5]

Correspondendo a este carácter de “plano” está projectada a rua nova da Bandeirinha (rua da Restauração) cuja abertura se iniciará em 1825 (ver mais adiante) e a rua do Pombal (hoje rua Casais Monteiro).
O hospital de Santo António está desenhado na sua parte construída, já mais adiantado do que na planta de 1813, e está indicado o projecto na sua totalidade.
O Quartel da Torre da Marca na rua dos Quartéis (hoje D. Manuel II) tem projectada uma ampliação duplicando a sua área.
 


fig. 6 – ]osé Francisco de Paiva, Quartel da Torre da Marca.  Pormenor do Plano da Cidade do Porto (entre 1818 e 1824), 100 x 66 (96 x 62) cm. Arquivo Histórico Municipal do Porto.
Na planta de William Barnard Clarke (1807-1894), de 1833, está assinalado o Quartel Militar e o Quartel da Torre da Marca que constituem uma só instalação militar.



fig. 7 - Pormenor da planta de W. B. Clarke, 1833. Assinalado também O Paço de Moraes e Castro.


E prossegue Pinho Leal:

Poucos quartéis militares haverá no paiz em local mais bonito, mais vistoso e mais saudável. Quando ali o edificaram era aquelle sitio um ermo, emquanto que hoje está a meio da rua do Triumpho, uma das primeiras ruas do Porto, e toma, com a sua cérca, mais de metade S. d'esta rua desde a da Liberdade até á rua ainda sem nome, que a camará principiou em 1871, para ligar a rua do Triumpho com a da Restauração. [6]


fig. 8 – Fachada do Quartel da Torre da Marca. Foto Pedroreisper 2012 Wilkipedia.

Do lado dos quartéis, a parte restante da rua do Triumpho foi tomada pelo Palacio de Cristal, de que não faltaremos n'este artigo porque já pertence á freguezia de Massarellos, pois n'este ponto a linha divisória entre esta freguezia e a de Miragaya é a citada nova rua ainda sem nome. [chamar-se-á Rua do Palácio de Cristal].
O quartel tem a fachada principal voltada ao nascente e sobre um bonito largo arborisado, e outra face com cazernas voltada ao S., estando principiadas ha muito tempo, e ainda muito atrazadas as outras duas faces, sendo para lamentar o mau sestro que tem, perseguido estas obras, porque depois de acabado, ficaria este quartel em magnificas condições, e muito embellesaria a rua em que se acha.
N'este quartel está hoje o regimento de infanteria n.° 10, commandado pelo seu digno coronel M. Pinto Junior, e tendo por ajudante o alferes José Joaquim Fernandes da Silva.
Esteve aqui também muitos annos o 5 de infanteria até que foi chamado para Lisboa — por ser um dos regimentos mais bem disciplinados que ao tempo havia no nosso exercito — graças ao seu digníssimo coronel e commandante, hoje general João José Barreto da França, que até ser promovido a general soube manter com tanta firmeza a disciplina do corpo que commandava   -  sem violência e sempre estimado pelo regimento inteiro.
Esteve também aqui muitos annos antes do 5, o regimento de infanteria n.º 6, e quando elle aqui estava deu-se o facto seguinte:
Em frente do quartel, no chão que é hoje campo arborisado, viveu muitos anos em umas humildes casas uma mulher, dirigindo uma taberna e uma pequena loja de consumo, e na decrepitude, não tendo filhos nem parentes próximos, e lembrando -se de que devia a sua fortuna em grande parte ao regimento 6, nas suas disposições testamentárias legou ao dito regimento a quinta ou cérca contigua — hoje propriedade de bastante valor.
A sua intenção era crear um bónus exclusivamente para o seu querido regimento 6; mas como este d'aqui fosse removido, e mais tarde dissolvido, o ministério da guerra tomou posse da dita cérca, e por elle é arrendada, sem a minima vantagem para os regimentos que aqui estacionam! [7]

Já em 1877 Alberto Pimentel no Guia do Viajante do Porto e Arrabaldes refere as obras de ampliação do quartel.

Quartel da Torre da Marca— Este quartel é muito inferior ao de Santo Ovidio, com quanto seja um edificio regular, colocado em sitio aprazivel na rua do Triumpho, quasi em frente do Palacio do Rei.
Está-se construindo um prolongamento d'este quartel na direcção occidental. E' actualmente occupado por infanteria 10. [8]

O Quartel da Torre da Marca (Q.el de Infanteria) na planta de Telles Ferreira de 1892.

 
fig. 9 – Pormenor da planta de Telles Ferreira de 1892. Assinalado o Palácio Real.

Na versão colorida à escala 1:500 surge como Quartel de Infantaria n.º 10.

 
fig. 10 -  Quadrícula 216 da Planta de Telles Ferreira de 1892, versão colorida, esc. 1:500.


Citamos ainda o Portugal Diccionario Historico, Chorographico, Biographico, Bibliographico, Heráldico, Numismático e Artístico, de Esteves Pereira e Guilherme Rodrigues publicado em 1911, onde o Quartel da Torre da Marca está já concluído.
 Na rua do Triumpho, antiga rua da Torre da Marca, está construido o moderno quartel assim denominado. O antigo era de acanhadas dimensões. Aquartelou se ali por muitos annos o regimento de infantaria n.º 6, e depois d’este corpo ir para o Ultramar, veiu occupar o quartel o regimento de infantaria n.º 5, que esteve ali alguns annos. Por occasião da celebre revolução de julho de 1870, que 0 povo denominou a pavorosa, mandou o ministro da guerra effectuar uma troca, vindo para 0 quartel da Graça, de Lisboa, infantaria n.º 6, e indo para o da Torre da Marca o n.º 10 da mesma arma, que se aquartelava em Lisboa. Esta troca, que se disse ser apenas d’um mez, durou alguns annos. O moderno quartel é bastante espaçoso, e ali está hoje o regimento de infantaria n.º 6. O nome de Torre da Marca provém de ter ali existido n’outro tempo uma torre, que servia do marca ou de baliza aos navegantes que entravam a barra.  [9]


[1] Francisco Ferreira Barbosa, Elucidário do Viajante no Porto, Imprensa da Universidade, Coimbra 1864. (pág.75).
[2] F.G.Fonseca, Guia Histórico do Viajante no Porto e Arrabaldes. Na Livraria e Typographia de F. G. da Fonseca, Editor, 72, Rua do Bomjardim, Porto 1864. (pág. 79 e 80).
[3] Augusto Soares de Azevedo Barbosa de Pinho Leal (186-1884), Portugal Antigo e Moderno: Diccionario Geographico, Estatistico, Chorografico, Heraldico, Archeologico, Historico, Biographico e Etymologico de todas as cidades, villas e freguezias de Portugal e de grande numero de aldeias. Se estas são notaveis, por serem patria d’homens celebres, por batalhas ou noutros factos importantes que nellas tiveram logar, por serem solares de familias nobres, ou  por monumentos de qualquer natureza, alli existentes. Noticia de muitas cidades e outras povoações da Lusitania de que apenas restam vestígios ou somente a tradição. Livraria Editora de Mattos Moreira & Companhia, Praça de D. Pedro 68, Lisboa 1873 e 1890. (VII Volume 1876, pág. 435 e 436).
[4] Augusto Soares de Azevedo Barbosa de Pinho Leal (186-1884), Portugal Antigo e Moderno: Diccionario Geographico, Estatistico, Chorografico, Heraldico, Archeologico, Historico, Biographico e Etymologico…Livraria Editora de Mattos Moreira & Companhia, Praça de D. Pedro 68, Lisboa 1873 a 1890. (Volume V 1875, pág. 252).
[5] Maria Helena Mendes Pinto, José Francisco de Paiva. Ensamblador e arquitecto do Porto [1744-1824], Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa 1973. (pág.10)
[6] Augusto Soares de Azevedo Barbosa de Pinho Leal (186-1884), Portugal Antigo e Moderno: Diccionario Geographico, Estatistico, Chorografico, Heraldico, Archeologico, Historico, Biographico e Etymologico…Livraria Editora de Mattos Moreira & Companhia, Praça de D. Pedro 68, Lisboa 1873 a 1890. (V Volume 1875, pág. 252).
[7] Augusto Soares de Azevedo Barbosa de Pinho Leal (186-1884), Portugal Antigo e Moderno: Diccionario Geographico, Estatistico, Chorografico, Heraldico, Archeologico, Historico, Biographico e Etymologico…Livraria Editora de Mattos Moreira & Companhia, Praça de D. Pedro 68, Lisboa 1873 a 1890. (V Volume 1875, pág. 252).
[8] Alberto Pimentel, Guia do Viajante na Cidade do Porto e seus Arrabaldes, cap. XVIII Palacio de Crystal livraria Central de J. E. da Costa Mesquita Editor, Rua de D. Pedro 87, Porto 1877. (pág.104).
[9] Esteves Pereira e Guilherme Rodrigues, Portugal Diccionario Historico, Chorographico, Biographico, Bibliographico, Heráldico, Numismático e Artístico, abrangendo A minuciosa descripção histórica e chorographica de todas as cidades, villas e outras povoações do continente do reino, ilhas e ultramar, monumentos e edificios mais notáveis, tanto antigos como modernos; biographias dos portuguezes illustres antigos e contemporâneos, celebres por qualquer titulo, notáveis pelas suas acções ou pelos seus escriptos, pelas suas invenções ou descobertas; bibliographia antiga e moderna; indicação de todos 0s factos notáveis da historia portugueza, etc., etc. Obra Illustrada com Centenares de Photogravuras e redigida segundo os trabalhos dos mais notáveis escriptores por Esteves Pereira e Guilherme Rodrigues. João Romano Torres – Editores, casa fundada em 1885. Composição e impressão Rua Alexandre Herculano, 70 a 76. Lisboa 1911. (Volume V pág. 959).


Palácio Real, Palacete dos Carrancas n.º 5

 
fig. 11 – Com o n.º 5 o Palácio real, antigo palacete dos Carrancas.

O Palácio Real, antigo palacete dos Carrancas na fotografia de Jean Laurent em 1869.



fig. 12 – O Palácio Real, antigo palacete dos Carrancas, ao centro na fotografia. Pormenor da foto de Jean Laurent 1869.

O Palácio dos Carrancas mandado construir em 1795 era assim chamado por terem essa alcunha os seus proprietários os irmãos Manuel e Isidoro Luís, da família Mendes de Morais e Castro, que possuíam a Fábrica Tirador de Ouro e Prata, uma oficina de fabrico de galões de ouro e seda.
O risco é atribuído a Joaquim da Costa Lima Sampaio.

 Ver o Palacete dos Carrancas nas figuras 3, 5 e 7. Plantas de 1813, 1833 e 1839 respectivamente.

Em 1833 Joaquim Cardoso Villa Nova desenhou o Palácio dos Carrancas.


fig. 13 - Joaquim Cardoso Victoria Villa Nova (1793-1850), Palácio dos Carrancas. Desenho n.º 85 dos 102 desenhos a tinta-da-china e aguada sobre papel do álbum Edifícios do Porto em 1833. Biblioteca Pública Municipal do Porto 1987.

Na imagem o Palacete apresenta um corpo central saliente apoiado em três arcos e coroado por um frontão e divide-se horizontalmente em dois pisos: o 1º em “rústico” forma uma arcada em cujos vãos, excepto nos três centrais se abrem janelas do primeiro piso e do mezanino; o 2º apresenta um igual número de aberturas com varandas de ferro ponteadas de lanternins encimadas por frontões curvos e triangulares, estes rematando as três janelas centrais.

Nos guias de 1864 refere-se o Palácio Real como Este grandioso e colossal edificio está situado na rua do Triumpho, a sua entrada é admirável e de grande capacidade. O interior é bem dividido, e presentemente acha-se no maior aceio possivel. [1]

E Este vasto e grandioso palácio, vulgarmente denominado dos Carrancas, foi propriedade do negociante Manoel Mendes de Moraes e Castro, e posteriormente da snr.ª baroneza de Nevolgide a quem foi comprado por S. M. o Snr. D. Pedro V, de saudosa memória.
Até então não tinha a Familia Real paços seus em que se alojasse, quando vinha a esta cidade. D. Pedro IV, o Augusto Libertador, ahi residiu no tempo do cerco, até que o fogo das baterias inimigas postadas nas alturas da margem oposta, o obrigou a deixal-o.
Comprehende espaçosos salões, e bem guarnecidas camaras.
Está situado na rua da Liberdade. [2]

 


fig. 14 - Vista do Paço do Porto. Lith. De Lopes, Rua N. dos M.es 2.

A platibanda de balaústre é agora rematada por vasos e urnas. O tema tímpano do frontão é agora diferente.
Na fachada que era composta por cinco portões iguais em forma de arco, três no corpo central saliente e um em cada corpo lateral, um destes é agora suprimido.


Na planta de Perry Vidal de 1865, onde o Palácio Real é assinalado com o n.º 56, a rua da Liberdade conserva ainda o nome de rua dos Carrancas.


fig. 15 –Pormenor da planta de 1865. Com o n.º 56 Palacio dos Carrancas, hoje Casa Real.

Pinho Leal descreve no seu Portugal Antigo e Moderno uma breve história do edifício:
Palacio real
O palácio real, sito na rua do Triumpho, n'esta freguezia de Miragaya, foi mandado construir em 1795, por Manuel Mendes de Moraes e Castro, e Isidoro Mendes de Moraes e Castro, capitães de milícias e barões de Nevogilde.
Este palácio é denominado dos Carrancas, alcunha de seus fundadores, por viverem com sua família muitos annos na antiga rua dos Carrancas (hoje da Liberdade), e serem alli a família mais saliente, pela sua avultada fortuna, e por terem alli montada uma boa fabrica de galões de ouro, por privilegio concedido pelo governo, pois n'aquelle tempo só a fabrica real de Lisboa, preparava aquella manufactura.
O privilegio caducou com a maior parte dos privilégios portuguezes, em 1834.
Os fundadores do palácio, eram filhos de Luiz de Almeida de Moraes, cônsul napolitano, no Porto, e de sua mulher D. Brites Felizarda de Castro; e netos de D. Marianna de Alvim e Castro e de Luiz de Miranda e Castro, descendentes dos Castros de Castella.
Por morte dos fundadores, passou o palácio para seu irmão Henrique José Mendes de Moraes e Castro, 3.° barão de Nevogilde e commendador da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Villa Viçosa; e por falecimento d'este, passou para sua sobrinha, D. Carlota Rita Borges de Moraes e Castro, 4. a baronesa de Nevogilde, filha de D. Felisberta Henriqueta Borges de Moraes e Castro (irman do legatário) e de Antonio Manuel Borges da Silva, dezembargador na relação do Porto e cavalleiro da Ordem de Christo. Casou com seu primo Luiz de Almeida Moraes e Castro, que foi major do exercito, e cavalleiro das Ordens de Aviz, Conceição e Torre-Espada, fallecido em 1841, em consequência dos graves ferimentos que recebeu na guerra do cerco, em 1832 e 1833, fazendo parte do exercito liberal.
A viuva ainda vive, bem como o único filho que teve d'aquelle matrimonio—David Augusto Borges de Alvim Moraes e Castro, casado com D. Sybillina da Gloria Pinto da Fonseca Rangel e Castro, filha única de D. Maria José Guilhermina Pinto da Fonseca Rangel, brazileira, e de José Pinto Ribeiro de Carvalho, já falleeido, proprietário e negociante de grosso trato na cidade do Porto.
Do consorcio do sr. David Augusto B. de A. M. e Castro, com a sr. a D. Sybillina, existe um filho único, ultimo descendente da família Castros, e vive com seus paes e avó paterna (baronesa de Nevogilde), na sua casa da travessa da Fabrica, n.° 17 a 21.
O palácio tem na face principal, 11 portões e 11 grandes janellas, e decora esta fachada, uma varanda de granito abalaustrado, tendo ao centro um tympano, em cujo centro estiveram as armas dos seus fundadores; e a rectaguarda do palácio, sóbe a quatro andares, e tem commodos para numerosas famílias.
O andar nobre, compõe se de cinco vastos salões, quatro gabinetes, dois guardaroupas, um quarto de banho e duas salas de jantar.
Todos estes compartimentos, são matisados de magestosas alegorias e paisagens a fresco, obra de artistas mandados vir expressamente de Itália, e que no palácio reproduziram varias pinturas do Vaticano.
O salão de baile, é estucado primorosamente em relevo, com pinturas alegóricas.
Tem ao rez do chão, um grande pateo, e aos lados grandes cocheiras e cavallariças.
Tem mais na reetaguarda, um elegante jardim e uma bôa cerca, e do andar nobre se gosa um vasto e interessante panorama sobre a cidade e arrabaldes, e principalmente sobre Villa Nova de Gaya e o poético Candal, e a mesma rua sobre que dá a magestosa frente, é hoje uma das mais espaçosas e de mais movimento que ha no Porto, toda ornada de prédios modernos, tendo na extremidade Sul o Palacio de Cristal, com os seus parques e jardins, o primeiro monumento da península no seu género.
O Palacio Real, foi primorosamente construído e luxuosamente decorado e mobilado, mas soffreu bastante com as invasões francezas, não sendo saqueado, por haver n'elle fixado a sua residência o general em chefe. N'elle se hospedaram também os generaes Wellington, Ilson, Beresford, o príncipe d'Orange, etc, e em 1832, n'elle residiu o sr. D. Pedro e n'elle teve o seu quartel-general, pelas vastas proporções do edifício, e por confiar muito nos donos d'elle, a quem tratou como família sua, tendo-os sempre á sua mesa; mas como os sitiantes fizessem alvo do palácio e sobre elle chovessem constantemente balas e granadas, que muito o damnificavam, entrando inclusivamente um dia uma bala de calibre 24, pelo quarto em que dormia o imperador, despedaçando-lhe a cabeceira do leito, resolveu sua majestade deixar o palácio.
Aquella bala ainda pôde ver-se, por que a guarda o sr. David de Castro, no seu curioso Museu d'armas, muito digno de ser visitado, pois é difficil de obter uma collecção d'armas tão variada e numerosa, e o sr. David, caracter nobre e cavalheiro muito tratavel, o faculta generosamente e sem mysterios.
A sr.a baronesa de Nevogilde, mãe do sr. David de Castro, vendeu o seu palácio (por trinta contos de réis ! ?..) ao sr. D. Pedro V em 1861, e desde então ficou sendo Palacio Real. [3]

  
fig. 16 -  O Palácio Real. Foto Alvão.

  O Palácio Real na Planta de Telles Ferreira de 1892. Note-se a arborização existente nos espaços públicos e privados da cidade do Porto.


 
fig. 17 – Planta de Telles Ferreira 1892. Quadrículas 215 e 216, escala 1:500.


E Alberto Pimentel em 1877 também assinala a compra por D. Pedro V do Palacete dos Carrancas para Palácio Real.

Palacio real. — Este vasto palacio, antigamente conhecido pela designação popular de Palacio dos Carrancas, propriedade da sr.ª baronesa de Nevogilde, foi a esta senhora comprado em 1862, por trinta contos de reis, pelo sr. D. Pedro V para residência real.
No tempo do cerco esteve ahi alojado o Duque de Bragança até que os projecteis das baterias de
Gaya, convergindo para aquelle ponto, o obrigaram a mudar de domicilio.
Como dissemos, este palacio é vasto, e está convenientemente preparado para receber a familia real. [4]

O Museu Nacional Soares dos Reis

O Palácio dos Carrancas será adquirido pelo Estado em 1937, com o objectivo de nele se instalar o Museu Nacional de Soares dos Reis, com as colecções do Museu Municipal, (ver adiante). São então realizadas obras de adaptação do palácio a museu, pela Direcção dos Edifícios e Monumentos Nacionais, iniciadas em 1939. O Museu Nacional de Soares dos Reis foi inaugurado em Janeiro de 1942.


fig. 18 – Levantamente da fachada do Museu Soares do Reis. DGEMN.



[1] Francisco Ferreira Barbosa, Elucidário do Viajante no Porto, Imprensa da Universidade, Coimbra 1864. (pág.77).
[2] F. G. Fonseca, Guia Histórico do Viajante no Porto e Arrabaldes. Na Livraria e Typographia de F. G. da Fonseca, Editor, 72, Rua do Bomjardim, Porto 1864. (pág. 49 e 50).
[3] Augusto Soares de Azevedo Barbosa de Pinho Leal (186-1884), Portugal Antigo e Moderno: Diccionario Geographico, Estatistico, Chorografico, Heraldico, Archeologico, Historico, Biographico e Etymologico…Livraria Editora de Mattos Moreira & Companhia, Praça de D. Pedro 68, Lisboa 1873 e 1890. (V Volume 1875, pág.263 e 264).
[4] Alberto Pimentel, Guia do Viajante na Cidade do Porto e seus Arrabaldes, cap. XVIII Palacio de Crystal livraria Central de J. E. da Costa Mesquita Editor, Rua de D. Pedro 87, Porto 1877. (pág.138).

 



A Quinta dos Sette Campos n.º 38



 
fig. 19 – A Casa e a Quinta de Sete Campos com o n.º 38. Pormenor da fig.1.

Da Quinta de Sete Campos no morro de Vilar, vizinha do Palácio de Cristal e por ele anexada quando da construção de todo o recinto, também são escassas as referências.

A casa e a Quinta dos Sete Campos na panorâmica do Porto de Jean Laurent de 1869.


fig. 20 – Pormenor da panorâmica de Jean Laurent 1869.

Aparece contudo referenciada nas plantas que antecederam a construção do recinto do Palácio de Cristal. [Ver fig. 6 e 7. Planta de J. F. de Paiva e W. B. Clarke.]


Em 1837 a Quinta de Sete Campos surge apontada no curioso Plano Ichonographico da Praça que se projecta fazer no Campo da Torre da Marca, cujo Centro he ocupado por um Monumento dedicado ao Duque de Bragança

fig. 21 - Costa Lima, Plano Ichonographico da Praça que se projecta fazer no Campo da Torre da Marca, cujo Centro he ocupado por um Monumento dedicado ao Duque de Bragança. 1837. AHMP.


A Quinta dos Sete Campos está assinalada e bem desenhada na planta de 1839.


fig. 22 - Pormenor da Planta de Joaquim Costa Lima 1839.


Para a construção do Palácio de Cristal em 1861 foi necessária uma planta cadastral que permitisse a posse dos terrenos onde o recinto se iria implantar. Já que como refere Júlio Dinis:

A multidão continuava-se compacta da Ribeira até à Lapa, onde devia ter lugar o Te Deum, e da Lapa ao palácio dos Carrancas, da Torre da Marca, ainda então propriedade de particulares. Estava enfim D. Maria II dentro dos muros da cidade invicta. [1]


 
 fig. 23 - Alexandre Soares Pinto de Andrade, Planta topográfica do terreno do Campo do Duque de Bragança, do da Torre da Marca, Praça de Dom Pedro V, e dos prédios contíguos. 1861. AHMP.


Para uma melhor leitura a planta foi orientada e legendada. Nela figura com o n.º 1 a Quinta dos sette Campos de D. Maria Constância.



fig. 24 – A planta orientada e legendada.
Legenda acrescentada
1 Quinta dos sette Campos de D. Maria Constância
2 Campo do Duque de Bragança
3 Capella de Carlos Alberto
4 Quartel Militar
5 Rua do Triumpho
6 Campo ou Largo da Torre da Marca
7 Capela do Senhor da Boa Nova e rua da Boa Nova
8 Conde de Terena
9 Rua de Villar
10 Quintas de João Pacheco Pereira
11Quinta do Sacramento
12 Quinta do Passadiço de José Cardoso de Lucena
13 De João da Rocha e Souza
14 Rua da Restauração

A casa com os seus jardins foi integrada no recinto do Palácio de Cristal, tendo hoje o nome de Casa do Roseiral. De notar que está completa a Rua do Palácio de Cristal   


fig. 25Planta do Palacio de Crystal, reorientada no sentido norte-sul, com a Casa do Roseiral no canto inferior direito.

fig. 26 – Pormenor da planta de 1892.


fig. 27 – Vista sobre Gaia a partir do jardim da Casa do Roseiral. AHMP.





[1] Júlio Diniz Serões da Província in Obras de Júlio Diniz Volume II – Serões da Província-Poesias-Inéditos- e Esparsos-Teatro. Lello & Irmãos 144, Rua das Carmelitas Porto 1879. (pág.14).



Rua da Restauração n.º39

 

fig. 28 – Pormenor da Panorâmica da fig.1.
0.      Capela de Carlos Alberto
1.       Palácio de Cristal
2.       Palacete Pinto Leite concluído c.1865 (foi o Conservatório de Musica do Porto e é actualmente propriedade particular)
3.       Circo Olympico (Museu Commercial e Industrial em 1886)
4.       Quartel da Torre da Marca (Regimento de Infantaria 6, Metralhadoras 3 C.I.C.A.P. do Regimento de Artilharia da Serra do Pilar, Reitoria da UP, Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar U.P.)
5.       Palácio dos Carrancas (Palácio Real, Museu Nacional Soares do Reis)
6.       Telégrafo
7.       Igreja da Lapa (concluída em 1863)
8.      Quartel de S. Ovídio
9.       Casa dos Pamplonas
10.   Rua dos Carrancas Rua da Liberdade Rua de Aires Gouveia Hotel do Louvre
11.    Hospital de Santo António (Fachada Sul)
39.   Rua da Restauração (Rua Nova da Bandeirinha, Rua de D. Miguel I 1825-1832)
40.   Museu Allen Municipal
53.     Casa das Sereias

 

A Rua da Restauração foi aberta em 1816 pela Santa Casa da Misericórdia do Porto, segundo um projeto que havia sido aprovado no ano de 1815, pela Junta das Obras Públicas, para dar acesso ao Hospital de Santo António, pelo que se chamaria Rua do Hospital. Foi chamada inicialmente de Rua nova da Bandeirinha. 


fig. 29 – Pormenor do Plano da Cidade do Porto de J. F. de Paiva, com o traçado da Rua da Restauração sublinhado a vermelho.


Segundo Pinho Leal Esta rua foi aberta em 1825, e o seu primeiro nome foi Rua de D. Miguel I, dístico que esteve até 1832 gravado em letras douradas, na casa da esquina, que tem uma face voltada para a rua da Liberdade, e que é da família Allen. [a rua da Liberdade foi rua dos Carrancas e é a rua Aires Gouveia. A casa Allen será tratada mais adiante.]

Antes de se abrir esta rua, o caminho da rua da Liberdade e dos Fogueteiros para Massarellos, era pela rua da Bandeirinha, e rua de Sobre o Douro, que seguia pela extremidade N. do convento de Monchique.
Quando o imperador occupou a cidade com os seus 7:500 soldados, foi apeado aquelle dístico, e dado á rua o nome de Restauração.
Esta rua devia custar sommas enormes por ser bastante larga, extensa e bem alinhada, e em terreno accidentado e de rocha viva de granito, uma boa parte, como era na baixa da antiga Torre da Marca (hoje palácio de crystal) e no sitio onde hoje estão o palacete, cocheira e jardins do rico negociante e capitalista Antonio José Monteiro. (Adiante fallaremos também d'este palacete, que passa por ser hoje a casa mais luxuosa do Porto.)
E para nivelamento do leito da rua foi mister levantar muros de supporte de muito preço e grande altura, como sobre a rua dos Fogueteiros e ribeiro das Virtudes, onde deixaram debaixo da rua um vão tal em abobada, que anda arrendado como armazém; e sobre o convento de Monchique mede o muro de supporte tal altura que ainda no dia 4 de fevereiro de 187o, do alto d'elle se precipitou Antonio Soares da Fonseca, moço de 20 annos, e caixeiro na travessa da rua de S. João, morrendo instantaneamente. [1]


Na planta de 1826 a rua com o nome de Rua nova da Bandeirinha está aberta até ao Forno de Cal, na propriedade de Manoel José Martins (Quinta de Sete Campos), e projectado o seu prolongamento.

fig. 30 - Planta baixa da rua da Bandeirinha 1826 AHMP

Estão assinaladas
A Rua nova da Bandeirinha
A Rua velha da Bandeirinha
O Sitio de Carrancas
O Quartel do Regimento n.º6
A Torre da Marca
O Convento de Monchique

A quinta da Bandeirinha
A propriedade de Manoel José Martins correspondente em parte à quinta dos Sette Campos
O Forno de Cal.
Diversos Emprasamentos

Em 1826 é elaborada uma nova planta para o traçado da Rua Nova da Bandeirinha.


fig. 31 - Plano Topographico para dirigir a continuação que deve seguir a Rua nova da Bandeirinha, ao sítio de Maçarellos. Levantado em Março de 1826.

Estão assinaladas com numeração as propriedades cortadas por esta Rua próximas a Maçarellos, onde se destaca com o n.º 3-5 Quintal e Fábrica de louça, e outra casa com pequeno quintal de M.el Duarte Silva. [A Fábrica de Louça será a de José Rocha e Sousa?]

Estão assinalados o Largo do Senhor da Boa Nova e a Praça da Torre da Marca.
Estão assinalados o Quartel do Regimento n.º 6 e a Cerca das religiosas de Monchique.
Estão ainda assinaladas as Quintas de António Ferr.a P.to Basto, João da Rocha Soares, e a Quinta da Bandeirinha.

Durante o reinado de D. Miguel de 1828 a 1833, foi baptizada de Rua de D. Miguel.
Mas em 1832 com a entrada das tropas liberais na cidade do Porto a rua passou a chamar-se da Restauração evocando a restauração da causa da liberdade e da restauração do throno da sr.' D. Maria.

Assim numa planta de 1835 o troço já aberto figura com o nome de Rua da Restauração.




fig. 32 - Plano ortographico, e do perfil da nova Rua da Restauração, para por ella se aproximar a possibilidade de aterrar o pavimento previamente aprovado, e estabelecendo, em benefício dos particulares d’aquella Rua; o qual sendo apresentado à Ill.ma Camara em acto de Vistoria, ordenei que se modificasse o pavimento da mesma Rua subindo oito palmos do ponto da parede divisória entre João Allen, e João Allen, em Agosto de 1835.

Está assinalada
A Casa de João Allen
A Quinta de Sete Campos
O Monte da Torre da Marca
O Caes de Maçarellos

A Rua da Restauração está aberta para poente até pouco mais de Sete Campos. Está traçada Parte da Rua que está por abrir.

No Perfil está traçada a Linha de Nível, dirigida desde o Largo do Carranca Velho até Maçarellos com as respectivas cotas.
Estão assinalados o Caes, Duas vezes Paredão e uma Baliza de Pedra.



A Rua da Restauração na Planta de 1839.


fig. 33 –Pormenor da planta de 1839.

Na planta Approvada em Camara em 14 de Dezembro de 1854 para fixar o pavimento à rua da Restauração está já executada a abertura da rua até Casa N e projectada a rua até Massarelos.


fig. 34 – Planta aprovada em 1854.

E no ano seguinte é Approvada em Camara 16 de Agosto de 1855 nova planta com a indicação dos proprietários dos terrenos (Fabrica de Louça, Quinta de José da Rocha, Quinta de José da Cunha Mello) por onde a rua irá ser aberta até à sua ligação com a marginal do Douro.



fig. 35Planta Approvada em Camara 16 de Agosto de 1855. AHMP.


Provavelmente por erro (já que em nenhum outro documento aparece esta designação), na Planta de Perry Vidal de 1865, a rua aparece, embora já desenhada na sua totalidade, assinalada como R. da Regeneração. Com o n.º 4 Alfandega ou deposito de g.os Coloniaes. Com o n.º 17 Convento de Monchique. E com o n.º 64 Museu Allen Municipal.

fig. 36 – Planta de Perry Vidal 1865.


F. G. Fonseca aponta em 1864, no Guia Histórico do Viajante no Porto e Arrabaldes, as seguintes empresas na rua da Restauração:

Companhia Ceres (moagem)
Photographo João Pedro Ribeiro rua da Restauração n.º 281
Fabrica de distillação de genebra e aguardente de João Vicente Branco rua da Restauração n.º 82
Fabrica de distillação de genebra e aguardente de Manoel José Barreto rua da Restauração n.º 56
Fabrica de louça de José Rocha e Sousa rua da Restauração n.º 110


[1] Augusto Soares de Azevedo Barbosa de Pinho Leal (186-1884), Portugal Antigo e Moderno: Diccionario Geographico, Estatistico, Chorografico, Heraldico, Archeologico, Historico, Biographico e Etymologico…Livraria Editora de Mattos Moreira Companhia Praça de D. Pedro 68, Lisboa 1873 e 1890. (V Volume 1875, pág.264).





Projecto de uma Praça na Torre da Marca.

 

Embora não faça parte desta análise da fotografia panorâmica de 1871/72, detenhamo-nos um pouco sobre o desenho da Praça que se projecta fazer no Campo da Torre da Marca.

fig. 37 - Costa Lima, Plano Ichonographico da Praça que se projecta fazer no Campo da Torre da Marca, cujo Centro he ocupado por um Monumento dedicado ao Duque de Bragança. 1837. AHMP.

O Plano desenhado - para o local que mais tarde será ocupado pelo Palácio de Cristal - consiste numa praça e respectivos pormenores entre a Rua da Restauração, as quintas do Sacramento e Sete Campos, e o Largo da Boa Nova, e tem como objectivo transformar e organizar o Campo da Torre da Marca. No centro da praça seria erguido um monumento ao Duque de Bragança. 

O plano que se encontra no Arquivo Histórico Municipal do Porto, inclui a planta da praça, com alamedas e um largo ajardinado para acesso, a norte, e a escada de comunicação com a Rua da Restauração, a sul, a localização do monumento, dos obeliscos, chafarizes e belvederes; o alçado, planta e corte de um belveder; o alçado para os suportes dos lampiões; e o alçado para os obeliscos que devem sustentar condutores elétricos.
Como dois dos desenhos estão assinados apenas Costa Lima podem ser de Joaquim da Costa Lima Sampaio (17?-1837), mas é mais provável que sejam do seu sobrinho Joaquim da Costa Lima Júnior (1806-1864).


fig. 38 - Costa Lima, Plano Ichonographico da Praça que se projecta fazer no Campo da Torre da Marca, cujo Centro he ocupado por um Monumento dedicado ao Duque de Bragança. 1837. AHMP.


A praça com uma forma trapezoidal, e com alguma influência das Places Louis XV e das Places Royales francesas [1]  não é, contudo, uma praça fechada entre edifícios.
E apesar da sua beleza, a praça seria um tranquilo miradouro (no sentido literal) sem a animação que teria se fosse edificada no seu perímetro ou funcionasse como local de atravessamento.

A Praça teria acesso a norte por duas alamedas.
Uma da rua de Villar perpendicular à praça e a outra da rua do Triumpho em diagonal que parte junto do quartel da Torre da Marca.


O perímetro da praça apresenta um percurso em que da bissetriz de cada ângulo partem veredas que conduzem à placa central rectangular, com quatro chafarizes. No centro da praça o monumento ao Duque de Bragança inserido em um octógono fechado por grades, tendo em cada ângulo os pés direitos que hão-de sustentar o Lampioens.

 
fig. 39Forma que devem tomar os pés direitos que hão-de sustentar o Lampioens.
AHMP


A poente e a nascente as grades são interrompidas por dois obeliscos que devem sustentar os conductores ao lado do monumento.

fig. 40Forma em perspectiva dos obeliscos que devem sustentar os conductores ao lado do monumento.  AHMP.


A praça constitui um terraço debruçado sobre o Douro e estão projectado dois belvederes que devem ocupar os dous ângulos da praça rematando a fiada de árvores que a sul limita a praça.


 fig. 41 - Elevação, Corte e Planta baixa de hum dos belvederes que devem ocupar os dous ângulos da praça. AHMP.



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