Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















sábado, 7 de outubro de 2017

O Porto através de uma Panorâmica de c.1870 5





fig. 1 - Autor não identificado  Panorâmica do Porto c. 1870 (originais em vidro do Museu Nacional de Soares dos Reis Porto) cópia cedida por gentileza do arquitecto Manuel Magalhães.

Capítulo 4 – Telégrafo. Igreja da Lapa.

fig. 2 – Pormenor da Panorâmica. A zona da Lapa e da praça da República.
6.       Telégrafo
7.       Igreja da Lapa (concluída em 1863)
8.      Quartel de S. Ovídio
9.       Casa dos Pamplonas
AF.  Casa e Quinta dos Souza e Mello (Água Férreas)*
*acrescentada à numeração inicial

O monte de Germalde ou a zona da Lapa constituíam desde os finais do século XVIII até ao momento em que a Panorâmica foi realizada o limite norte da cidade edificada.


fig. 3 - A zona de Germalde no limite norte da Planta Redonda de 1813.


Assim o confirma em 1864 Ferreira Barbosa, no seu Elucidário, ao apresentar a cidade do Porto e os seus limites.

A cidade do Porto, segunda capital do reino, sita na margem direita do rio Douro, cuja foz está distante d’ella cinco kilometros, tem a sua maior largura na direcção da linha norte-sul, quasi perpendicular ao mesmo rio, começando na egreja da Lapa, que fica ao norte, até vir acabar na praça da Ribeira, juncto do Douro e vizinha d'um dos extremos da ponte pensil: este espaço não chega a comprehender tres kilometros. [1]  


Na planta de Perry Vidal de 1865, para além da zona da Lapa (Germalde) apenas os antigos caminhos que ligavam as portas da muralha dita Fernandina com as povoações vizinhas estavam edificados ao longo das suas margens.

fig. 4 - Pormenor da Planta de Perry Vidal com o norte da cidade urbanizada e a zona da Lapa assinalada a vermelho.


A zona da Lapa e do Campo da Regeneração (hoje da República) na planta de 1865.

 
fig. 5 – A zona em 1865. Pormenor da planta de Perry Vidal

Na planta estão assinalados o Telegrapho. A igreja da Lapa e com o n.º 19 o Cemiterio da Lapa.
O Quartel de S.to Ouvidio.
Com o n.º 57 o Palacio do Visconde de Beire e a Quinta do Visconde de Beire da família de Manuel Pamplona Carneiro Rangel Veloso Barreto de Miranda e Figueirôa (1774-1849).
E ainda a Casa da Quinta das Aguas Ferreas da família de José de Souza e Mello.

Da estrutura viária urbana destaca-se o Campo da Regeneração (S.to Ovídio) onde confluem de poente a Rua da Boa Vista; de norte a Rua de S. Serio e Est. p.a Braga (depois Rua da Rainha e Rua de Antero de Quental); de nascente a R. de Gonçalo Christovão, a T. de Germalde (Erro de Perry Vidal que lhe chama T. de Geraldes). Chamou-se depois Travessa da Regeneração.
Junto à igreja da Lapa a R. do Paraiso.
E de sul a Rua do Almada e a Rua 16 de Maio (que se chamou rua de S. Ovídio e rua dos Mártires da Liberdade). Ainda na zona a R. de Cedofeita, a R. dos Bragas, a R. de Liceiras (Alferes Malheiro) e R. de Camões.

A zona em 1875 pertencia à freguesia de Cedofeita a qual, segundo Pinho Leal, antigamente era muito mais vasta do que actualmente, pois comprehendia no seu âmbito o seguinte— principiando no fim da actual rua da Rainha (antiga estrada do Sério) onde havia um marco, corria a medição pelo Monte Pedral até ao Carvalhido (actual rua da Natária) tudo da parte do N., confrontando com Paranhos. (…) E pela rua da Sovélla (hoje dos Martyres da Liberdade) até ao campo de Santo Ovídio (hoje da Regeneração) pelo lado esquerdo da rua da Lapa (antigamente Germalde) e d'ahi pela rua da Rainha, lado esquerdo (O.) [2]  
 
O Porto no último quartel do século XIX

Em consequência do sopro de um novo vento, cresce e decresce o Porto que assimilámos, enriquecendo-se de saudades. [3]

A partir dos meados do século, com a criação das associações industriais [4] e com o impulso dado pela Exposição Universal, é precisamente na data da Panorâmica que o Porto se irá desenvolver para norte, fruto do conjunto de infraestruturas que então se irão concretizar na cidade. Lembre-se que em 1852 foi publicado o decreto que adoptou o Sistema Métrico Decimal e em 1859 o decreto que institucionaliza definitivamente este sistema, medida com largo alcance na elaboração de projectos, planos e cartografia.

O próprio Fontes Pereira de Melo afirma em 1856:

Uma secção de 36 quilómetros de caminho de ferro, dentro em pouco vai abrir-se à exploração, e trabalha-se nas duas linhas das Vendas Novas, e de Cintra. Noventa e duas léguas de excelente estrada foram construidas e estão prontas em diferentes distritos do Reino, e vinte e quatro léguas se acham atualmente em construção em várias localidades. Fizeram-se dezassete pontes importantes, e trabalha-se em vinte e oito. Está-se montando um telégrafo eléctrico. Criaram-se escolas de instrução primária. Organizou-se o ensino da primeira e mais útil das artes, a agricultura, e mais de mil operários recebem hoje a instrução de que careciam nas escolas industriais que de novo se instituiram. [5]

O poeta Augusto Luso evoca o Portugal de outrora para afirmar o papel da Associação Industrial no Progresso da cidade.


É sobre o eixo da instrucção que roda
Progresso, e liberdade, e paz, e vida;
Vida dos povos, das nações, e toda
A gloria apetecida:
Cuja estrada espinhosa,
Hoje intensa affanosa
Fazer trilhar em breve a esclarecida,
A Industrial Associação, no Porto,
Que às artes dando a mão lhes dá conforto.

Mostrae que Portugal, que teve outr’ora,
Sulcando o mar, a palma gloriosa,
Hoje outra ganha com a industria agora.
Eia, gente animosa,
A fama eterna c’rôa
Já vos tece, e apregoa
Vosso esforço com voz estrepidosa!
Tudo emfim vos augura um ser florente.
Briosa Associação, briosa gente.  [6]

Em Agosto 1872 Eça de Queiroz escreve um texto À Alma de D. Pedro IV nos Elísios, em que, no seu estilo irónico, aponta essa transformação do Porto.
  
O Porto já não é aquela seca e escura cidade, rude e plebeia, de ruas estreitas e agitadas, impertinente e cheia de oposição, comendo alegremente arroz e bacalhau, dançando nos bailes improvisados, onde as mulheres iam com o pobre vestido de chita da Rua das Flores, e de onde os homens saíam, cansados da gavota, para o fogo das linhas – o Porto, ainda com feições de burgo antigo, com as suas dinastias de comerciantes honrados, os seus tamancos estóicos, impassível diante dos redutos, sensível diante dos melodramas do teatro nacional, patriota, resmungão e rezando ao Senhor de Matosinhos!
O Porto, hoje, é uma cidade larga, bem anafada, com ventre, brasileira, um pouco sonolenta, cheia de poetas líricos, e ávida de baronatos. [7]
   
Na planta de 1892 a cidade edificada estende-se a norte até à rua da Constituição e mais para norte, nos lugares até à Estrada da Circunvalação então traçada.

       
fig. 6 – A zona a norte da Lapa. Pormenor da planta de 1892.

Entre estas infraestruturas salienta-se o conjunto das Comunicações, com consequências imediatas na vida quotidiana das pessoas pelas alterações, psicológicas e sociais, da noção do Tempo.

Pinho Leal refere, em 1882, alguns aspectos das Comunicações pela intima ligação que os prende e para aproveitarmos o ensejo de registrar o que sobre tão importante assumpto hoje gosamos e vamos legar às gerações por vir.
É innegavel que n’ este ponto, bem como em outros muitos, havemos progredido consideravelmente desde o principio da segunda metade d'este século, mas ninguém pôde calcular até onde irão os vindouros com a herança que de nós recebem, pois uma civilização produz outra civilisacão, — e tanta mais assombrosa quanto maiores, elementos herdar da civilisação anterior.
Estamos certíssimos de que, em praso não muito longo, elles rirão do nosso decantado progresso, como nós hoje rimos do que nos legaram nossos avós, — mas outros nos vingarão rindo d'elles.

Rira bien qui rira le dernier...

A industria dos transportes, da locomoção e da facilidade de communicações é a industria mais importante da vida social. É para a riqueza publica o mesmo que a luz e o calor são para a vida das plantas, e é para o corpo social o mesmo que a circulação do sangue é para os animaes. Se o grau de perfeição zoológica se avalia pelo desenvolvimento e complicação do systema arteirial e venoso, a riquesa e civilisação d'um paiz também se podem avaliar pelo estado das suas communicações e dos seus meios de locomoção e transporte.
A livre circulação dos productos é a vida da industria, e os caminhos de ferro, as estradas, os canaes, os telegraphos e correios são o apparelho essencial d'essa circulação.
Sem bons meios de transporte e de communicaçòes não podem florescer as artes, nem o commercio e a agricultura; não ha certa ordem de confortos, não ha verdadeira acção governativa, nem vigoroso espirito publico.
A falta d'um bom systema de communicações é a maior desgraça de qualquer paiz, — uma perda geral para toda a sociedade.
É intima a relação entre 0 estado moral dos povos e o seu estado material. [8]



[1] Francisco Ferreira Barbosa, Elucidário do Viajante no Porto, Imprensa da Universidade, Coimbra 1864. (pág.9)

[2] Augusto Soares de Azevedo Barbosa de Pinho Leal (186-1884), Portugal Antigo e Moderno: Diccionario Geographico, Estatistico, Chorografico, Heraldico, Archeologico, Historico, Biographico e Etymologico de todas as cidades, villas e freguezias de Portugal e de grande numero de aldeias. Se estas são notaveis, por serem patria d’homens celebres, por batalhas ou noutros factos importantes que nellas tiveram logar, por serem solares de familias nobres, ou  por monumentos de qualquer natureza, alli existentes. Noticia de muitas cidades e outras povoações da Lusitania de que apenas restam vestígios ou somente a tradição. Livraria Editora de Mattos Moreira & Companhia, Praça de D. Pedro 68, Lisboa 1873 e 1890. (V Volume 1875, pág.109).

[3] Mário Cláudio, Porto Margens do Tempo, Livraria Figueirinhas, Rua do Almada 47, Porto 1994 e 2001.(pág.7).

[4] Jorge Fernandes Alves, O emergir das associações industriais no Porto (meados do século XIX, in Análise Social, vol. XXXI (136-137), 1996 (2.º-3.°). (pág. 527 a 544).

[5] Fontes Pereira de Melo (1819-1887), Relatório do ministro da Fazenda, no Diário do Governo de 1 de Março de 1856. (pág. 243).

[6] Augusto Luso da Silva (1827-1902), Ode recitada pelo author na Associação Industrial Portuense, na abertura das aulas no dia 22 de Novembro de 1852 in Saraos Poeticos Portuenses, publicados em benefício do Azilo da Mendicidade do Porto por J. A. de Freitas Júnior. 1º Sarao. Typographia de J. A. De Freitas Junior, Rua das Flores n.os 250 a 253, Porto 1854. (pág. 21).


[7] José Maria Eça de Queiroz (1845-1900), À Alma de D. Pedro IV nos Elísios, cap. XXXII de Uma Campanha Alegre de “As Farpas” Volume II, Livraria Lello & Irmão, Editores, Porto 1979. (pág.185).
[8] Pinho Leal (186-1884), Portugal Antigo e Moderno… Livraria Editora de Mattos Moreira & Companhia, Praça de D. Pedro 68, Lisboa 1873 e 1890. (X Volume 1882, pág.467 e 468).




O Telégrafo N.º 6 [1]

fig. 7 – O Monte de Germalde ou da Lapa com o Telegrapho.

Entre essas alterações o Telégrafo que, evoluindo do semafórico para o eléctrico, tornou a informação quase instantânea com as enormes consequências económicas e sociais que isso provocou, particularmente no Porto, cidade de Comércio e de comerciantes (ou mercadores como gostava de dizer o saudoso engenheiro Paulo Valada…).

O Telégrafo óptico ou semafórico

Apesar de por volta de 1870 já existir no Porto o Telégrafo eléctrico (desde 1856), na Carta do Porto de Frederico Perry Vidal, de 1844, mas adaptada em 1865 para a Exposição Universal, está representada a Estação do Telégrafo da Lapa (ou o que dela resta), assinalada como o Telegrapho.

Tratava-se ainda do telégrafo óptico (telégrafo inventado em 1790/94 por Claude Chappe (1763-1805).
Em Portugal a rede de telégrafo óptico desempenhou um papel crucial durante as Invasões Francesas e durante a Guerra Civil.

fig. 8 - Telégrafo de Chappe.

Este sistema consiste na criação de uma rede de torres espalhadas pelos campos, sendo as mensagens transmitidas por um sistema de braços articulados pelo responsável pelo posto de manobra, graças a um conjunto de cabos e roldanas.
As linhas telegráficas que inicialmente se destinavam a comunicar com os navios que entravam nos portos, implantaram-se em grande parte na Europa conforme a progressão dos exércitos franceses da Revolução e do Império.

A rede do telégrafo óptico em Portugal foi iniciada em Lisboa [2] por Francisco António Ciera (1763-1814), cartógrafo e lente da Academia de Real da Marinha e sócio da Real Academia de Ciências.
Em 1803, um pouco surpreendentemente, é nomeado para dirigir a, então construída, Linha da Barra do Tejo, sendo que o posto telegráfico da Torre de Belém era o único dessa linha que comunicava com os navios.
Francisco Antonio Ciera a partir do telégrafo Chappe inventou alguns aparelhos de telegrafia óptica como o telégrafo de ponteiro (1808), o telégrafo Português de "3 Persianas" (1809) e o telégrafo Português de 3 balões (1810).

Em 1810 por Decreto de 5 de Março é criado o Corpo Telegráfico militar e Ciera é nomeado seu director sendo encarregado de expandir a rede de Lisboa até Almeida e de Lisboa até ao Porto.
Com a morte de Francisco Ciera em 1814, sucedeu-lhe o seu colaborador João Leal Garcia (1772-18.?) e como Inspector outro dos seus colaboradores, o coronel Pedro Folque (1744-1848).
Na Guerra Civil o telégrafo tem de novo um papel determinante, mas como os Miguelistas se apossaram da rede foi então criado um sistema paralelo para serviço dos liberais.

A grande realização deste período das lutas liberais (1828-1834) foi a construção da linha Lisboa-Porto, prevista no Regulamento do Corpo Telegráfico de 1828, da autoria de Pedro Folque.

O coronel Francisco Pedro de Arbués Moreira na Carta Topographica das Linhas do Porto assinala o Telégrafo da Lapa (Teleg. da Lapa) talvez como suplente de um outro telégrafo, também assinalado, que era defendido por uma bateria (Bat.a e Teleg. Dos Congreg.os).

fig. 9 - Francisco Pedro de Arbués Moreira (1777-1843), Carta Topographica das Linhas do Porto c. 1834, litografia 29,50 x 42,80. Lyth. de A. C. Lemos, Largo do Quintella n.º3. http://purl.pt/1388


 fig. 10 - Pormenor da Carta Topographica das Linhas do Porto onde se assinala o Telégrafo da Lapa e a Bat.a e Teleg. dos Congreg.os
Na legenda
A Quartel Militar de S.to Ovidio
B Campo da Regeneração
C Praça da Trindade
P Nova Praça do Bolhão


Em 1839, Joaquim da Costa Lima traça a abertura de algumas ruas no limite norte da cidade edificada. Nessa planta também figura o Telegrapho.

fig. 11 - Joaquim da Costa Lima Júnior (1806-1864), Plano Topographico, que comprhende na sua maior extensaõ todas os terrenos que medeiaõ entre os sítios das Agoas férreas, Carvalhido, Lugar do Regado, Estrada de Braga, Sério, Rua da Rainha, e Igreja de Nossa Senhora da Lapa 1839. AHMP.

Na cartela superior pode ler-se: Plano Topographico, que comprhende na sua maior extensaõ todas os terrenos que medeiaõ entre os sítios das Agoas férreas, Carvalhido, Lugar do Regado, Estrada de Braga, Sério, Rua da Rainha, e Igreja de Nossa Senhora da Lapa; levantado para sobre elle se estabelecerem, e aprovarem as novas comunicações entre a cidade e o novo Matadouro [*], e principalmente a Estrada projectada desde o Carvalhido até ao Serio, a qual neste mesmo plano vae annunciada de dous modos segundo as linhas de pontos AB ou AD, terminando a primeira na actual embocadura da Rua de S. Deniz, e por isso mais proxima ao largo do Serio, e a Seg.a na embocadura do Caminho de Paranhos mais distante d’ aquelle ponto, mas mais económica na sua abertura.
Approvada neste executivo a linha AD. Porto e Paços do Conce.lho 10 de Agosto de 1839.

[*] O edifício que completamente renovado se situa na rua de S. Diniz em frente da rua de Serpa Pinto onde estão instalados serviços de limpeza da CMP.

Na cartela inferior pode ler-se:

AB Rua projectada que tem o seu principio no Largo do Carvalhido e termina na embocadura da rua de S. Diniz hum pouco ao Norte do Largo do Sério.

AD representa o mesmo projecto antecedente mas com nova direcção a qual ao embocar exatamente com a estrada de Paranhos; este projecto tem sobre o primeiro a vantagem da economia, por se afastar das pedreiras do Monte Pedral as quaes tornaõ no seu rompimento maior dificuldade e despesas de q as compensações a que obriga este projecto. (Rua de S. Diniz)

EP Rua projectada desde o sitio da Ramada Alta, em linha recta ao novo Matadouro, a qual deve cruzar a Rua antecedente defronte do angulo da Poente do mesmo Matadouro no ponto O e d’este continuar até à frente do mesmo. Esta comunicação he de todas a mais vantajosa, pelo muito que abrevia os transportes dado a Cidade para aquelle sitio, e pela disposição já reveladas da maior parte dos terrenos por onde tem de passar. (Rua de Serpa Pinto).

GH Communicação em linha recta desde o Matadouro ao sitio de Regado(Rua Nova do Regado).

A zona envolvente da igreja da Lapa na planta da figura anterior.


fig. 12 – A zona da Lapa em 1839. Pormenor da fig. Anterior.

Estão cartografados o Telegrapho, a igreja da Lapa, a Alameda, e a Rua da Rainha (hoje Antero de Quental); a poente a casa de Sousa Mello e a Fonte das Agoas Ferreas; e a norte do monte da Lapa a zona de Salgueiros (onde em 1873 se irá instalar a Fábrica de Salgueiros).
E ainda o Novo Aqueduto ligado à Nascente de ágoa junto à Estrada de Braga, e o Aqueduto de Salgueiros.

Já agora…

Duas imagens da Fábrica de Salgueiros.

fig. 13 – A Fábrica de Salgueiros

Nesta fotografia do século XX, rodeada por um círculo vermelho a Fábrica de Salgueiros e as ruinas do telégrafo da Lapa.


fig. 14 – Foto Beleza.

Voltando ao telégrafo da Lapa, a forma redonda da sua base, conduziu a que muitas vezes seja confundido e apelidado de moinho. Hoje foi transformado em miradouro, sendo desconhecido, contudo, o tipo de telégrafo óptico que encimava esta construção.

O pintor Arthur Loureiro, talvez recordando a sua passagem por Paris, pinta um quadro que, infelizmente, só conheço através desta fotografia de Teófilo Rego.

 fig. 15 - Arthur Loureiro Monte da Lapa, óleo 18 x 24 cm. Reprodução fotográfica de Teófilo Rego para a Exposição Como alguns Artistas viram o Porto, 1951. AHMP

Compare-se o quadro de Arthur Loureiro com as pinturas de Regnier e de Pissarro do telégrafo de Montmartre em Paris construído durante a Revolução Francesa na torre da igreja de Saint Pierre em 1796.

fig. 16 - Jacques-Auguste Regnier (1787-1860), Vue de l'église Saint Pierre de Montmartre et du télégraphe optique de Chappe c. 1820. 46 x 71,5 cm.  Col. Particular.


fig. 17 - Jacob Abraham Camille Pissarro (1830-1903), A torre do Telégrafo em Montmartre 1863 óleo s/tela 40,3 x 32,4 cm. Col. Particular.


Há ainda um desenho de Gouveia Portuense do Telégrafo da Lapa.

 fig. 18 - Gouveia Portuense desenho do Telégrafo da Lapa.


 fig. 19 - O telégrafo do monte da Lapa na actualidade.

No Porto foi, também, instalado um telégrafo de 3 persianas ou de palhetas no Farol da Senhora da Luz na Foz do Douro, para comunicar com as embarcações que se aproximavam da barra do Douro, bem visível na gravura de Joaquim Cardoso Villanova e no calótipo de Frederick William Flower.

fig. 20 - Joaquim Cardoso Villanova (1792-1850), Farol da Senhora da Luz. Estampa 65 do Álbum Edifícios do Porto em 1833, Biblioteca Pública Municipal do Porto, 1987.

 fig. 21 - Frederick William Flower (1815-1889), Farol Senhora da Luz c.1858 - Prova actual em papel salgado a partir do calótipo de 1858.

Pinho Leal lembra a inicial comunicação à distância por meio de fachos, e descreve a passagem do telégrafo óptico com os seus inconvenientes, para o telégrafo eléctrico.

Até 1852 tínhamos apenas os telégrafos de taboas, uma espécie de cancellas moveis, e as suas estações estavam collocadas em pontos elevados e distantes, ordinariamente desertos (*) com grande discommodo para os pobres telegraphistas que no inverno muitas vezes se viam bloqueados pela neve e pelas féras, expostos a morrerem de frio e de fome ou a serem devorados pelos lobos.
Além d'isso funccionavam lentamente, apenas de dia e com ceu claro. Uma ténue neblina que se interpozesse entre duas estações era o bastante para interromper o serviço e suspender a transmissão de qualquer despacho, vindo por vezes de grande distancia.
Na estação das chuvas adiantavam quasi sempre mais os correios a pé ou a cavallo, pois correios em carros (mala-posla) só depois de 1852 se viram em Portugal também.

(*) Ainda em 1851, por occasião da nossa primeira visita ao Bussaco, vimos um d'aquelles apparelhos no topo da serra, a cavaleiro da matta.

E 0s mesmos telegraphos de taboas só posteriormente à guerra da península se estabeleceram no nosso paiz.
Ainda durante a dita campanha (1807 a 1814) fizemos uso dos fachos para anunciar o afastamento ou a approximação dos francezes.
Estávamos n'este ponto tão adiantados, como os lusitanos e os outros povos anteriores à vinda
de Christo! [3]


[1] Sobre o telégrafo ver: Major-General António Luís Pedroso de Lima BICENTENÁRIO DO CORPO TELEGRÁFICO 1810-2010 Comissão da História das Transmissões - Liga dos Amigos do Arquivo Histórico Militar Edição da Comissão Portuguesa de História Militar, Lisboa 2010.

[2] Ver neste blogue http://doportoenaoso.blogspot.pt/2016/10/deambulacoes-pelo-castelo-da-rua-de_21.html


[3] Pinho Leal (186-1884), Portugal Antigo e Moderno… Livraria Editora de Mattos Moreira & Companhia, Praça de D. Pedro 68, Lisboa 1873 e 1890. (X Volume 1882, pág. 497).




A Telegrafia eléctrica

Se na primeira metade do século XIX a telegrafia semafórica, faz parte da paisagem assinalando com as suas torres os sítios e o alto de colinas, o mesmo não acontece com a telegrafia eléctrica. Esta apenas altera a paisagem com postes e fios em determinados percursos, normalmente acompanhando estradas e sobretudo as linhas do caminho-de-ferro a que estão associadas.

Foi no Porto que a 4 de abril de 1853, se realizaram as primeiras tentativas de criar uma rede de telegrafia eléctrica para ligar o Palácio da Bolsa com a sede da Associação Industrial.
 


fig. 22 – A sede da Associação Industrial Portuense na rua de Entreparedes no início do século XX. Photo Guedes. AHMP.


Para essa ligação foram construidos alguns aparelhos artesanais, baseados no sistema de Breguet [1] mas, apesar do sucesso inicial, logo surgiram dificuldades, pelo que a linha só entrou em funcionamento em 1856. [2]

 
fig. 23 – O telégrafo Breguet.


Como refere Vilhena de Barbosa, vários aparelhos de telegrafia são apresentados no Porto em 1865 na Exposição Internacional Portugueza no Palácio de Cristal.

O telegrapho é um apparelho da invenção de Morse [*], modificado e aperfeiçoado pelo sr. Maximiliano Herrmann [*], discipulo do instituto industrial, inspector das linhas telegraphicas dos caminhos de ferro do norte e leste de Portugal. [3]

[*] Samuel Finley Breese Morse (1791-1872). Maximiliano Augusto Herrmann (1832-1913).

Nos Annales Telegraphiques de 1865 foi publicado que  L'administration des lignes télégraphiques portugaises emploie un récepteur à encre de l'invention de M. Herrmann et dont voici la description. [4]


fig. 24 – Planche I. Récepteur à encre, de M. Herrmann. Annales Télegraphiques. Paris 1865.

Por volta de 1870, data provável da Panorâmica, estão já instalados na cidade diversos postos de telégrafos eléctricos, para uso privado e público.

O Guia Histórico do Viajante no Porto e Arrabaldes de Francisco Gomes da Fonseca refere o telégrafo existente na Casa Pia, junto à praça da Batalha. É do serviço do estado, recebe porém participações para particulares, mediante os preços que aponta uma tabela ali existente. [5]

E Pinho Leal também refere que a Estação central telegráfica esteve primeiro na Casa-Pia; depois mudou-se para o edifício que foi mosteiro de freiras carmelitas. Actualmente está no palácio do sr. Manoel Pedro Guedes (arrendado) no largo da Batalha, em frente do Theatro de S. João (Theatro lyrico).
A direcção das obras publicas—está também no edifício antecedente. [6]


A Estação telegráfica do Palácio da Bolsa

Para além de ser uma das primeiras estações telegráficas em Portugal, o telégrafo da Bolsa foi de uma importância crucial para a cidade do Porto, nessa segunda metade do século em que como cidade comercial e financeira, se acresce o desenvolvimento industrial e a necessidade de comunicações fáceis quer com a barra do Douro quer internacionais.

Francisco Gomes da Fonseca no seu Guia Historico do Viajante no Porto assinala que no edifício da Bolsa, está outra estação telegráfica, pertencente ao Commercio, da linha estabelecida entre a cidade e S. João da Foz. Recebe também comunicações para particulares. [7]

Esta estação telegráfica, depois de experiências realizadas no início da década de 50 do século XIX, se concretizou em 1856 com a instalação do telégrafo privativo da Associação Comercial do Porto, que ligava a sua sede com a Foz e a Cantareira, substituindo o anterior telégrafo ótico.
O facto telegráfico mais relevante do ano de 1856 foi o estabelecimento de um fio direto entre Lisboa e o Porto, complementar à linha de caminho-de-ferro do Norte, aproveitando os apoios que existiam, cifrando-se os quilómetros de linha telegráfica construída em 677, face aos 32 quilómetros do ano anterior. [8]

E Pinho Leal ao descrever o Palácio da Bolsa localiza a estação do telégrafo.
As galerias do pateo interior teem cada uma 29m,90 de comprimento, 2m,56 de largura e 7m de altura. A do lado do nascente dá sahida para o átrio da entrada da rua do Ferreira Borges, para a escada interior do lado sul e para os aposentos actualmente occupados pelo Banco União, que ficam ao norte e leste. A do lado norte, dá sahida para o átrio da entrada da rua de D. Fernando e para os aposentos ocupados pelos bancos Mercantil e União. A do lado sul, dá sahida para o telegrapho da Associação Commercial, que está no átrio da porta do edifício, voltada para o pateo da egreja de S. Francisco. [9]

E Pinho Leal continua descrevendo as galerias do pateo interior teem cada uma 29m,90 de comprimento, 2m,56 de largura e 7m de altura. A do lado do nascente dá sahida para o átrio da entrada da rua do Ferreira Borges, para a escada interior do lado sul e para os aposentos actualmente occupados pelo Banco União, que ficam ao norte e leste. A do lado norte, dá sahida para o átrio da entrada da rua de D. Fernando e para os aposentos ocupados pelos bancos Mercantil e União. A do lado sul, dá sahida para o telegrapho da Associação Commercial, que está no átrio da porta do edifício, voltada para o pateo da egreja de S. Francisco. [10]
 


fig. 25 - A galeria sul tendo ao fundo a estação do telégrafo.


A estação do Telegrapho do Palácio da Bolsa, quando este foi desactivado, foi transformada no restaurante Telegrapho, que recentemente mudou o nome para um inócuo O Comercial perdendo-se essa simples homenagem e a memória desse espaço onde funcionou o telégrafo que, ao permitir a rapidez da informação, tanto contribuiu para a economia da cidade e para a afirmação da Associação Comercial do Porto e dos seus associados.


fig. 26 – O antigo telegrafo existente no Palácio da Bolsa.

Pense-se que o telégrafo eléctrico, com o cabo submarino, com essa rápida e internacional informação, levou ao entusiasmo de um jornalista de O Jornal do Commercio que, em 1868, escrevia, antecipando a Internet:

O telégrafo eléctrico generalizar-se-á, cada cidadão terá o seu telégrafo em correspondência mútua, de maneira que em um minuto se saberá o que se passa nos pontos mais afastados e, em Lisboa, se poderá saber, de instante a instante, até à vida caseira do mais boçal esquimó; com o que os povos hão-de folgar, deleitar-se e instruir-se.
O jornal caseiro será alheio à política; para esta haverá jornais especialíssimos e os seus redactores nem serão amigos, nem distintos, quando não forem da mesma parcialidade; quando porém, comungarem na mesma pia (também em 2000 se darão destas), então serão inteligências robustas, caracteres provados… no que forem.
Mas como é de crer que no ano 2000 já exista a paz universal e a união entre todos os homens, acabará a política, os governos governarão sempre conforme… à nossa vontade, portanto, serão inúteis os jornais políticos; não haverá, pois, nem turibulários, nem oposicionistas; todos serão amigos e distintíssimos cavalheiros, unidos no pensamento comum de amarem a sua pátria. Assim seja.
[11]             




[1] Abraham Breguet (1747-1823).

[2] António José F. Leonardo, Décio R. Martins e Carlos Fiolhais, A telegrafia eléctrica nas páginas de “O Instituto", revista da Academia de Coimbra. Revista Brasileira de Ensino de Física, v. 31, n. 2, 2601. Coimbra 2009. (pág.3).

[3] I. Vilhena de Barbosa, Sobre a Exposição Internacional Portugueza no Palácio de Cristal n.º 2 do Archivo Pittoresco. Tomo IX, 1866. (pág. 9).

[4] Annales Telegraphiques 1865 Janvier-Feverier 1865,  Publiées par Composé de fonctionaires de l’Administration des Lignes Telegraphiques Tome VIII Année 1865 Paris Dunod Editeur  Précédemment Carilian-Goeury et Victor Dalmont, Librarie des Corps Impériaux des Ponts et Chaussés et des Mines, Quai des Augustes, 49. Paris 1865. (pág. 92).

[5] Francisco Gomes da Fonseca, Guia Histórico do Viajante no Porto e Arrabaldes. Na Livraria e Typographia de F. G. da Fonseca, Editor, 72, Rua do Bomjardim, Porto 1864. (pág.81).

[6] Pinho Leal (186-1884), Portugal Antigo e Moderno… Livraria Editora de Mattos Moreira & Companhia, Praça de D. Pedro 68, Lisboa 1873 e 1890. (IX Volume 1880, pág. 489)

[7] Francisco Gomes da Fonseca, Guia Histórico do Viajante no Porto e Arrabaldes. Na Livraria e Typographia de F. G. da Fonseca, Editor, 72, Rua do Bomjardim, Porto 1864. (pág.81).

[8] Pinho Leal (186-1884), Portugal Antigo e Moderno… Livraria Editora de Mattos Moreira & Companhia, Praça de D. Pedro 68, Lisboa 1873 e 1890. (VII Volume 1880, pág. 434)

[9] Pinho Leal (186-1884), Portugal Antigo e Moderno… Livraria Editora de Mattos Moreira & Companhia, Praça de D. Pedro 68, Lisboa 1873 e 1890. (VII Volume 1880, pág. 434)

[10] Pinho Leal (186-1884), Portugal Antigo e Moderno… Livraria Editora de Mattos Moreira & Companhia, Praça de D. Pedro 68, Lisboa 1873 e 1890. (VII Volume 1880, pág. 434)


[11] O Jornal do Commercio de 25 de Fevereiro de 1868. Citado no blogue XIX de Gabriel Silva https://dezanove.wordpress.com/2008/03/14/o-jornalismo-no-ano-2000/




Igreja da Lapa n.º 7


fig. 27 – A Igreja de Nossa Senhora da Lapa no perfil da cidade. Pormenor da Panorâmica (fig.1).


A Igreja de Nossa Senhora da Lapa ocupa um lugar destacado e bem visível na Panorâmica de 1871/2.
Primeiro porque, como se disse, ela assinala o limite norte da cidade edificada.
Depois porque a conclusão da sua edificação é então recente, já que a segunda torre data de 1863.
Finalmente porque a ela é voltado um especial culto, quer religioso quer político, pelo facto de albergar o coração de D. Pedro IV, com um significado especial para a cidade e os portuenses.

D. Pedro ainda é evocado em 1854 por Guerra Leal.

Ao sentir fugir-lh’ a vida
Inda foi heroe sem par!...
Ao Porto à terra querida
Quis o coração legar………
Thesouro de heroicidade,
Que o amor da liberdade
Só fizera palpitar!...

Que Guerreiro que não era
Dom Pedro o Libertador!
Quem como elle se houvera
Das batalhas no ‘stridor?!...
Foi um valente soldado,
Foi um monarca ilustrado
Foi um Rei Legislador!!... [1]


A Capela

No lugar onde a igreja foi edificada, existiu uma pequena capela, de que resta ainda a fachada junto da nova igreja.

Esta capela deve-se à devoção do padre brasileiro Angelo Ribeiro Sequeira (?-1775), que nas suas próprias palavras conta como veio para o Porto e o que aí encontrou.

Caso prodigioso.
Estando eu em Missaõ na Cidade do Porto, e vendo a muita devoçaõ daquelle povo, entrei a affervoar a de voçaõ de nossa Senhora da Lapa, e a benzer rosas, e azeites para benzer aos enfermos, e entrou nossa Senhora a fazer tantos prodigios, e a sarar tantos enfermos, que me resolvi para consolaçaõ daquelle povo taõ devoto a querer fundar hum Seminario, e Capella a nossa Senhora da Lapa, e o povo logo concorreo com maõ larga com muitas esmolas;… [2]



Reprodução de uma cópia de um desenho anónimo, por José Augusto de Almeida. AHMP.
fig. 28 – Capela de Nossa Senhora da Lapa das Confissões

Camilo Castelo Branco sublinha a história da capela de Nossa Senhora da Lapa, onde pela sua relação com a Irmandade da Lapa está, por vontade própria, sepultado no seu cemitério. [3]

O padre Angelo de Siqueira, como começasse a pregar no ultimo quarto minguante da lua tempestuosa de dezembro, conseguia o duplo prodígio de obter, no mez seguinte, uma lua inchuta e serena. Em virtude do quê, alguns sugeitos de maior parte lhe offereceram terreno em que elle edificasse uma capella à Senhora da Lapa, no logar de Santo Ouvidio, à raiz d’um monte, entre as duas estradas que vinham de Braga e Guimarães. [4]

 
fig. 29 -A Capela de Nossa Senhora da Lapa.

E Pinho Leal doze anos mais tarde retoma essa narrativa precisando a história da capela inicial.

1755 — (7 de janeiro)—O missionário apostólico, padre Angelo de Sequeira, natural do
Brasil, e muito devoto de Nossa Senhora da Lapa, lança a primeira pedra em uma Capella, dedicada áquella Senhora, no sitio do Sério, á raiz de um monte, por onde passava (e passa) a estrada de Villa-Nova-de-Famalicão, Braga, Guimarães, Caminha, etc.
O terreno lhe foi dado por um devoto da Senhora, e a capella foi feita com o produto das esmolas do povo.
O virtuoso missionário pôz tão grande diligencia n'esta construcção, que já a 20 (no curtíssimo espaço de 13 dias!) estava a ermida coberta.
Tinha 80 palmos de comprimento e 40 de largura.
Os portuenses começaram logo a ter tão grande devoção a Nossa Senhora da Lapa, que, fidalgos e fidalgas, dos principaes da cidade, mulheres de ministros, clérigos, frades, burguezes e povo, tudo concorreu, não só com esmolas e alfaias, para adorno do templosinho, mas até com o seu trabalho conduzindo os precisos materiaes.
O coronel, governador das armas, marchou com os regimentos da guarnição para o logar da obra, e todos n’ella tomaram parte, sendo elle o primeiro que lhes deu o exemplo.
Unido á egreja se construiu um confissionario publico, onde os peccadores hiam de noite fazer as suas confissões geraes, sem serem conhecidos.
Fez-se alli também uma roda, para por ella se restituir o dinheiro, ou objectos de oiro e prata, ou outras quaesquer coisas que tinham sido roubadas, sem se poderem reconhecer os restituidores.
Ainda junto ao confissionario se fez uma espécie de albergaria, para n'ellà se recolherem os penitentes que ali quizessem ficar.
Ornamentou-se a capella com grande magnificência, e logo ao vigessimo dia n'ella se disse missa, com acompanhamento de órgão próprio.
A imagem da padroeira sahiu da egreja da mosteiro de freiras de Santa Clara, do Postigo do Sol, era magnifica procissão (a 10 de março do mesmo anno) á frente de mais três andores, com S. João Marcos, S. Francisco e Santa Clara. Leal 7 pág. 310
Deu-se á padroeira o titulo de Nossa Senhora da Lapa das Confissões. [5]


fig. 30 - Aguarela da frontaria do Colégio e da primitiva capela da Irmandade da Lapa.

O Colégio da Irmandade da Lapa [6]

Junto a esta capela estava o Colégio da Irmandade.

fig. 31 - O Colégio de Nossa Senhora da Lapa.

J. Pinto Ribeiro [7]faz-lhe referência no Archivo Pittoresco,…contiguo, á egreja está o collegio para instrucção da mocidade, cujo director é obrigado a mandar ensinar gratuitamente o latim, o portuguez e o francez a 24 filhos de irmãos pobres. [8]

E Pinho Leal também lhe faz uma referência nos finais de 70.

Collegio de Nossa Senhora da Lapa—no largo da Lapa (por baixo—ao S.—da capella real da Lapa)—Ensinam-se todas as disciplinas que constituem o curso dos lyceus (e por isso se
lhe dá o nome de Lyceu da Lapa.)
Admitte alumnos internos, semi-internos e externos. [9]



[1] Manuel Alberto Guerra Leal (1819- ?),  poema datado de Porto 15 de Setembro de 1854 in Saraos Poeticos Portuenses, publicados em beneficio do Azilo da Mendicidade do Porto por J. A. de Freitas Junior. 3º Sarao. Typographia de J. A. De Freitas Junior, Rua das Flores n.os 250 a 253, Porto 1854. (pág. 37).

[2] Angelo Sequeira, Botica Preciosa, e Thesouro Precioso da Lapa. Composta, e Descuberto pelo Missionario Apostolico Angelo Sequeira Protonotario Apostolico de S. Santidade, do habito de S. Pedro, natural da Cidade de S. Paulo. Dedicada e Offerecido ao Serenissimo Rey D. Joseph I. Deste Nome. Na Offic. De Miguel Rodrigues, Impresso do EminentissimoS. Card. Patriarca. Lisboa MDCCLIV. (pág. 6 e 7).

[3] Ver Francisco Ribeiro da Silva, Jornais e Revistas do Porto no tempo de Camilo. Conferência na Biblioteca Municipal do Porto em 24 de Outubro de 1990. Publicada na Revista Bibliotheca Portucalensis, II série, nº 5, Porto, 1990. (pág. 49 a 71).

[4] C. Castello-Branco, Historia da Egreja de N. S. da Lapa, do Porto. In Gazeta Litteraria n.º5 Porto 1868. (pág. 41).

[5] Pinho Leal (186-1884), Portugal Antigo e Moderno… Livraria Editora de Mattos Moreira & Companhia, Praça de D. Pedro 68, Lisboa 1873 e 1890. (VII Volume 1880, pág. 310 e 311).

[6] Ver Francisco Ribeiro da Silva, O Seminário-Colégio da Irmandade da Lapa e as ideias pedagógicas dos inícios de oitocentos, Revista da Faculdade de Letras. História, Porto, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Porto 2000. (III Série, Vol. I pág. 53-66).

[7] Joaquim Pinto Ribeiro Júnior (1822-1882), jornalista e poeta autor de Lágrimas e Flores, 1854; Coroas Flutuantes, 1862.

[8] J. Pinto Ribeiro Junior (1822-1882), Archivo Pittoresco Tomo X 1867 (pág. 26).


[9] Pinho Leal (186-1884), Portugal Antigo e Moderno… Livraria Editora de Mattos Moreira & Companhia, Praça de D. Pedro 68, Lisboa 1873 e 1890. (VII Volume 1880, pág. 438).



A Real Igreja de Nossa Senhora da Lapa


J. Pinto Ribeiro no Archivo Pittoresco escreve a história da edificação da nova igreja de Nossa Senhora da Lapa acompanhada de uma gravura. (fig. 34).

Como a devoção augmentasse e a capella fosse pequena para a reunião dos devotos, resolveu-se então edificar com as esmolas dos fieis um grande templo (o actual), cuja primeira pedra foi lançada em 17 de julho de 1756, construindo-se tambem com o producto das mesmas dez pequenas moradas de casas em sitios não mui distantes d’alli e que ficaram sendo o único patrimonio estavel da egreja.
O risco primitivo parece ter sido dado por um architecto chamado Stovel. [*]
As obras marcharam lentamente. As grandes obras de architectura raramente são levadas a efeito pela iniciativa e pelos esforços de um só individuo.(…)

Decorridos apenas tres annos, notando a mesa as grandes irregularidades e defeitos da obra construida, resultantes da imprudencia que houvera em escutar a vontade de todos e em se ter abandonado o primeiro risco de Stovel, resolveu, em 2 de agosto de 1759, mandar fazer nova planta pelo architecto José de Figueiredo e Seixas [**] para obviar de algum modo áquelles desaires. Por esses tempos, o padre Angelo de Siqueira, o indefesso promotor dessa vasta fabrica, dando por cumprida a sua alta missão, encarregou a irmandade dos cultos quotidianos, partindo em seguida para a Bahia e d’alli para o Rio de Janeiro, onde faleceu nonagenario a 7 de setembro de 1776. (…)

[*] Stovel. João Glama Ströberle (1708-1792) foi um pintor português, de origem alemã.
[**] José Figueiredo Seixas (?-1773). Ver neste Blogue O Porto há cem anos 6 http://doportoenaoso.blogspot.pt/2010/07/o-porto-ha-cem-anos-6.html

Em 30 de abril de 1780, estando apenas concluída a capela-mór, foi a imagem da Senhora para alli trasladada, com grande solemnidade, da pequena capela construida em 1755, e da qual ainda existem vestigios nas casas annexas á nova egreja.

Por provisão de 22 de dezembro de 1764 recebeu esta irmandade a graça de ser tomada sob a real protecção do infante D. Pedro III, fazendo-a do padroado da serenissima casa do infantado e permittindo-lhe colocar as armas reaes no frontispicio da egreja, e por outra provisão datada em Lisboa aos 31 de maio de 1792 lhe foi confiada a edificação de um novo seminario para ensino da mocidade. (…)

Este vasto templo, situado ao norte da cidade, e cuja fachada é de granito lavrado, tem creditos de ser o mais magestoso do Porto. Nós encontrámos no seu interior algum tanto da simples magestade do armazem, bem como no seu exterior algum tanto da magestosa simplicidade da pedreira. (…)

fig. 32 - Joaquim Cardoso Villa Nova (1792-1850), Egreja da Lapa Estampa 47 do Álbum Edifícios do Porto em 1833, Biblioteca Pública Municipal do Porto, 1987.

E Pinto Ribeiro continua, influenciado pelo romantismo neogótico criticando as torres então construídas.

O risco para a conclusão das torres foi dado pelo sr. José Luiz Nogueira [***], e approvado pela mesa em 2 de dezembro de 1850.
Parece-nos obra de uma trivialidade chata e importuna. Tanto anno, tanto dinheiro e tanta pedra gasta em se fazer o que já mil vezes estava feito e mil vezes visto! Sem saber pelo quê, desejaramos ver esses campanarios rematados por duas audazes e esplendidas agulhas: por alguma coisa de elegante, de bello, de eloquente e de novo para nós, que neutralisasse a monotonia das nossas torres.
As agulhas, além de serem de um bello efeito, são mui proprias para remate do templo christão, porque mergulham no firmamento como um pensamento religioso, porque fazem convergir para o infinito as preces e as aspirações mais puras do espirito dos fieis.

[***] José Luiz Nogueira Júnior, arquitecto e mestre-de-obras municipais.

Não longe da egreja está a formosa alameda, guarnecida de assentos de pedra e bem sombreada de arvoredos, onde annualmente se fazem os dois concorridissimos arrayaes de S. João e Senhora da Lapa.
Está colocada em sitio elevado, e goza-se d’alli um soberbo panorama. [1]

Em 1855 foi concluída a torre poente.

 
fig. 33 - Lith. De Lopes, Rua N. dos M.es 2, Vista da Igreja de Nossa Senhora da Lapa onde está depositado o coração do Sr. D. Pedro. publicada no Elogio Historico do Senhor Rei D. Pedro IV. Recitado na Academia Real das Sciencias de Lisboa em sessão ordinaria de 13 de Julho de 1836 e acompanhado de notas e peças justificativas pelo Marquez de Resende. Typographia da Academia Lisboa 1867.


Em 1863 foi concluída a torre nascente.

 
fig. 34 - Egreja ou real capella de Nossa Senhora da Lapa, no Porto. Gravura que acompanha o texto de J. Pinto Ribeiro no Archivo Pittoresco, Tomo X 1867. (pág.25).

Francisco Ferreira Barbosa no seu Elucidário também descreve a Egreja da Lapa. Capella real, grande templo, singelo e elegante, situada num dos altos pontos da cidade, olhando para o poente. A porta principal e, duas mais ao lado, com quanto não tenham relação alguma com a grandeza do templo, são comtudo d'alguma magnificencia e trabalho: sôbre a porta principal ve-se a seguinte letra — Omnia per manus Maria. — O resto da fachada exterior contém no seu centro e sôbre a mencionada inscripção as armas com coroa e no cimo uma cruz, tendo de cada lado dois sanctos: actualmente acha-se concluida esta fachada por duas magnificas torres. [2]

E mais tarde, em 1866, foi colocado o relógio na torre noroeste.

fig. 35 -A Igreja de Nossa Senhora da Lapa



Pinho Leal refere a Igreja da Lapa, o Cemitério e a Alameda.

O magnifico templo que hoje existe, com privilegio de capella-real, não é a capella do padre Angelo; mas uma ampla e formosa egreja, cuja construcção principiou no começo d'este século, continuando ainda as obras exteriores.
Ainda que de singela architectura, é de muita elegância, e o seu interior está ornado com magnificência.
Na capella mór d'esta egreja está o coração do sr. D. Pedro, duque de Bragança, por elle legado à cidade do Porto.
Sobre a porta principal da egreja, se lê a seguinte inseripção: OMNIA PER MANUS MARIAE. [*]
Tem uma rica irmandade, e junto à egreja está o lyceu de Nossa Senhora da Lapa, com alumnos internes e externos.
Também próximo ao templo, e ao NO d'elle, está o magnifico e formoso cemitério publico da Lapa — e ao SO a alamêda do mesmo nome. [3]

[*] Todos nas mãos de Maria.



[1] J. Pinto Ribeiro Júnior (1822-1882), Archivo Pittoresco, Tomo X. 1867 (pág. 25 a 27).
[2] Francisco Ferreira Barbosa, Elucidário do Viajante no Porto, Imprensa da Universidade, Coimbra 1864. (pág. 38).
[3] Pinho Leal (186-1884), Portugal Antigo e Moderno… Livraria Editora de Mattos Moreira & Companhia, Praça de D. Pedro 68, Lisboa 1873 e 1890. (VII Volume 1880, pág. 311).
  





O Cemitério da Lapa. [1] 

O poeta Soares dos Passos

Sobre o cemitério da Lapa, remetemos para os diversos trabalhos de Francisco Queiroz, e aqui apenas algumas referências contemporâneas da Panorâmica de 1871/2.

Nessas referências da segunda metade do século XIX, entre os portuenses ilustres sepultados neste cemitério, sobressai a campa e a memória do poeta Soares dos Passos falecido em 1860 e autor dos versos que se encontram à entrada.

No Elucidário de Ferreira Barbosa pode ler-se:

Cemiterio da Lapa. Concedemos a honra de primeiro logar a este cemiterio, por encerrar ricos jazigos e sumptuosas capellas, sendo muito para sentir, que a capacidade do terreno não seja egual á do cemiterio do Prado do Repouso.
Ao lado direito da real capella da Lapa, e a um recanto, se ve uma pequena porta, que dá entrada para uma rua larga, arborisada, que termina numa porta larga e elegante de ferro fundido: em cima tem uma inscripção alegorica ao termo da vida, e que diz assim:

EIS OSSOS CARCOMIDOS, CINZAS FRIAS,
EM QUE PARAM DA VIDA OS BREVES DIAS,
MORTAL, SE QUANTO VES NÃO TE ABALA,
OUVE A TREMENDA VOZ, QUE ASSIM TE FALLA:
LEMBRA-TE, HOMEM, QUE ÉS PÓ, E QUE DESTARTE
EM PÓ, CEDO OU TARDE, HAS-DE TORNAR-TE.

Por cima desta sextilha se ve o emblema da morte, terminando em cima pelas armas da real capella da Lapa.

fig. 36 – O portal de entrada do cemitério da Lapa.


Franqueada esta porta, o visitante começa a admirar os diferentes mausoleus, em que avultam os bustos, dos que ali dormem o somno eterno, muitos d’elles varões illustres, que enobreceram a patria, que os viu nascer, citando, entre estes, José Ferreira Borges; bispo do Porto, Sancta Ignez; e coronel Pacheco, etc.: numerosos epitaphios se encontram, exprimindo em prosa ou em verso a dor e saudade pela separação dos entes queridos, que ali jazem: em muitos d’elles se lêem alguns pensamentos sublimes (…)
Quem for ao longo da rua do lado direito do cemiterio, extasia-se ao contemplar cinco capellas d’uma riqueza e magnificencia admiravel; principalmente as do ex.mo visconde de Pereira Machado, e Pinto Leite. Em frente e ao lado esquerdo ha mais vinte e cinco capellas, e no fim e defronte da porta estão as catacumbas dos mesarios e bemfeitores; duas ordens de escadas, uma no centro e outra ao fim, dão entrada para o novo cemiterio sobreposto a este, de que fizemos menção, e que ja contém alguns mausoleus. [2]

 
fig. 37 – Com o n.º 19 Cemiterio da Lapa. Pormenor da planta de 1865.

Francisco Gomes da Fonseca no Guia Historico do Viajante no Porto e Arrabaldes, também de 1864, escreve:
É o mais rico em monumentos fúnebres- Ali se vêem muitas capellas e jazigos pela maior parte construídos de custosos marmores primorosamente lavrados. As ruas que o cortam em diversas direcções estão todas guarnecidas de cyprestes e d’outras copadas arvores. N’este cemitério jazem os restos de José Ferreira Borges, do bispo que foi d’esta cidade Santa Ignez, e do nosso mimoso poeta Antonio Augusto Soares dos Passos. Pertence à Irmandade de Nossa Senhora da Lapa, e demora junto à egreja da mesma invocação. [3]

E J. Pinto Ribeiro Júnior, também ele poeta, faz uma descrição mais completa do cemitério salientando a sepultura de Soares dos Passos esse tão chorado poeta, para embalsamar a memoria do qual os corações ainda se não cançaram de distillar lagrimas, nem os jardins de produzir flores.

E pela parte posterior da egreja que está situado o cemiterio, o mais rico da cidade em mausoléos, porém inferior em dimensões, menos regular e menos imponente que o do Repouso.
Data de 24 de julho de 1833 a portaria que concede licença para a sua construcção.
Numa lapide que fica sobre o portão da entrada tem esculpidos os seguintes bellos versos:

«Eis ossos carcomidos, cinzas frias
Em que param da vida os breves dias;
Mortal, se quanto vês te não abala,
Ouve tremenda voz que assim te fala:
— Lembra-te, homem, que és pó e que dest’arte
Em pó ou cedo ou tarde has de tornar-te.—»

Distinguem-se ali pela beleza dos marmores de que são construidas, e pelo bom gosto da sua architectura, as capellas dos srs. Joaquim Pinto Leite, viúva Barbosa e visconde de Pereira Machado.
Entre as sepulturas que alli existem, apontaremos logo á entrada a do sabio jurisconsulto José Ferreira Borges, auctor do Codigo commercial portuguez, a do bispo do Porto D. Fr. Manuel de Santa Ignez, a quem o cabido negou sepultura no carneiro destinado aos bispos por D. Manuel não ter sido sagrado, e a desse tão chorado poeta, para embalsamar a memoria do qual os corações ainda se não cançaram de distillar lagrimas, nem os jardins de produzir flores.
Fallámos — o leitor já o adivinhou por certo — do saudoso cantor do Noivado do sepulchro.
A sua sepultura está situada no topo do cemitério de cima, cercada por uma grade de ferro, em cujos varões se entrelaça solícita, mas só, mas ciosa do seu amoroso enlevo, a flor symbolo do sofrimento, cuja côr diz melancolia, cujos orgãos floraes dizem supplicio, angustias, suores, a mais sympathica, a mais pensativa, a mais triste, a mais adoravel de todas as gemmas caídas do cabaz da natureza — o martyrio!
Uma pequena lapida de marmore contém este simples epitaphio:
Aqui jaz |
Antonio Augusto Soares de Passos
Nasceu a 27 de novembro de 1826
Falleceu a 8 de fevereiro de 1860.

Aqui cinzas escuras
Sem vida, sem vigor, jazem agora;
Mas esse ardor que as animou outrora
Voou nas azas d'immortal aurora
A regiões mais puras,
Não, a chamma que o peito ao peito envia
Não morre extincta no funereo gelo;
O coração é immenso: a tumba fria
E pequena de mais para contel-o. [*]                      

Em torno o cypreste, a acacia e a rosa branca, que elle amava...

«Eu amo a rosa branca das campinas,
A branca rosa que ao soprar do vento
Languida verga para o chão pendida», [**]

…contemplam extaticos e como se fôra o leito ebúrneo da sua apotheose a sepultura do sublime poeta, por cuja fronte, opulenta de poesia, nunca se desdobrou um sorriso.
Não é de certo para os seus conterraneos que apontâmos o sitio onde demora esse precoce tumulo. Os montões de rosas seccas e pequenos ramos de cypreste, que sem interrupção lhe alastram a campa desde o lugubre dia em que ella desceu sobre aquelle nobre peito, dizem bem alto que as contínuas excursões dos seus amigos e admiradores ao seu tumulo, e aos quaes se associam as mais ternas beldades portuenses, estão mui longe de tocar o seu termo.
Que dor tão tocante e pathetica! Que saudade tão delirante e inextinguivel! É um perenne tributo de lagrimas, um longo lucto de viuvez a que o coração não quer fugir!
Quanta piedade nessas homenagens, nessas saudades, nesses suspiros, nesses desafogos, nessas peregrinações, nessas flores! Elle era o poeta de todas as almas e de todos os corações; que muito se eles para alli esvoaçam de contínuo! [4]

[*] Nota RF – Do poema Amor e Eternidade. [5]
[**] Nota RF – Do poema Rosa Branca [6]

Pinho Leal refere o Cemitério da Lapa [como] o mais antigo do Porto.
Está ao N.O e na rectaguarda da egreja da Lapa, e ao principio da antiga rua do Sério (hoje da Rainha), sendo a sua entrada pelo largo da Lapa.
Está bem situado, e dividido em tres nivelamentos ou socalcos. Posto ser o mais pequeno dos tres que primeiro aqui nomeio, é, por emquanto, o mais notável de todos, pela sumptuosidade das suas capellas, e pela belleza de grande numero dos seus mausoléus.
Primeiramente, a sua entrada era por um portão de ferro, alinhada com as primeiras duas capellas, que ficavam uma a E, outra a O do portão, mas d'este até ás capellas
medeiava um muro de cantaria, com uma alta grade, de ferro.
Mais tarde, incluíram no cemitério, uma porção de terreno que lhe ficava contíguo e ao S.O.— e, desfazendo- se a primitiva entrada, se mudou esta para o local onde hoje a vemos.

E Pinho Leal repete então a descrição do novo portão com a inscrição que é a mesma que estava sobre o antigo e sobre ela os emblemas da morte, e sobre elles, as armas da irmandade da Lapa.

E refere ainda que n’este cemitério repousam os restos mortaes de algnns varões illustres, que enobreceram a pátria pelas armas, pelas lettras, ou pelas virtudes. (…) Nos mausoléus se léem muitas inscripções fúnebres, exprimindo em elegante prosa, ou em formosos versos, a dôr e a saudade pelos que alli jazem. [7]

E ainda Alberto Pimentel em 1877 lembra que proximo ao templo fica o cemiterio, melhor diriamos os cemiterios, o velho e o novo, porque em verdade são dois. Num e noutro repousam mortos illustres, entre elles o mavioso poeta portuense Antonio Augusto Soares de Passos, falecido em 1860 com trinta e quatro annos de idade.
O seu jazigo está rodeado de plantas que pendem a enflorar-lhe a lousa, onde se lê este bello epitáfio que ele proprio havia escripto no Amor e eternidade:

Aqui cinzas escuras
Sem vida, sem vigor, jazem agora;
Mas esse ardor que as animou outr’ora,
Voou nas azas d'immortal aurora
A regiões mais puras.
Não, a chamma que o peito ao peito envia
Não morre extincta no funereo gelo.
O coração é immenso: a campa fria
É pequena de mais para contel-o.  [8]
.

E Sampaio Bruno, já no século XX, retoma o texto de Pinto Ribeiro para descrever o jazigo de Soares dos Passos.

O jazigo do poeta forma exactamente o angulo do noroeste no cemitério de Nossa Senhora da Lapa. Está cercado por uma grade de ferro, em cujos varões, no dizer de J. Pinto Ribeiro, se entrelaça a flor symbolo do soffrimento, a mais sympathica, a mais triste, a mais adorável de todas as flores, a flor martírio. Tem á cabeceira uma pequena lapide onde, além do nome, se lêem os seguintes versos do Amor e Eternidade: (São os que proximamente acima ficam transcriptos: Aqui cinzas escuras etc). Em torno abrigam-n'a com os seus ramos o cypreste, a acácia e a rosa branca, que elle tanto amava. [9]

Estes autores referem a rosa branca e o cipreste, elementos marcantes da outonal e ultrarromântica poesia de Soares dos Passos, com versos carregados de um pessimismo cemiterial como os define Óscar Lopes.
Na sua poesia surge a tristeza…

Tudo é triste! Os verdes montes
Vão perdendo os seus matizes,… [10]

O tédio, o enfado e o abandono…

Que imenso vácuo n’este peito sinto!
Que arfar eterno de revolto mar!  [11]

Das festas no rumor desprende a vida,
E a taça do prazer lhe deixa o enfado [12]

Em tudo a meus olhos avulta uma imagem
De triste abandono, de mystica dôr:
Apraz-me este luto que veste a paisagem,
Apraz-me esta scena d’extincto verdor.  [13]

 O desencanto…

Que é deste mundo que eu sonhei tão bello?
Profundo abysmo de tormenta escura;
Que é pois a vida? Um fadigoso anhelo
Que levamos do berço à sepultura.  [14]

E a solidão…

E eu achei-me assentado solitario
Junto d’um grande mar triste e sombrio,
Cujas ondas d'aspecto funerario
Se agitavam, qual trémulo sudario
Sobre um cadáver macilento e frio. [15] 


Mas esta disputa entre Eros e Tanatos, entre a pulsão de Vida e a pulsão de Morte, que caracteriza a poesia de Soares dos Passos, terá a sua afirmação suprema no conhecido poema O Noivado do Sepulcro.

Há no entanto na poesia de Soares dos Passos, e por isso se compreende o seu sucesso na cidade do Porto, uma evidente crítica da condição social, da diferença entre pobres e ricos, como no poema O Mendigo, que se inicia pelos versos:

Nas torres soberbas da grande cidade
O sol desmaiado não tarda a morrer;
Recrescem as sombras: que importa? a vaidade
No manto das sombras envolve o prazer.

E termina…

E um ai derradeiro soltou d'anciedade,
Cahindo por terra nas urzes do chão;
Ao longe, no seio da grande cidade,
Brilhava das festas nocturno clarão. [16]


Mas há também em Soares dos Passos uma afirmação contra todas as servidões e uma intransigente defesa dos valores de liberdade, como no poema O Canto do Livre (lembrando por antecipação o conhecido poema de Paul Éluard):

Liberdade é o mote escrito
No céu, na terra, e no mar!

Ou no poema intitulado Liberdade. Um Eco no Cativeiro que se inicia…

Que tristeza quando penso
Nos povos em servidão!

E termina com os versos:

Povos da terra folgai!
E entre mil nuvens d'incenso,
Um hino geral e imenso,
À liberdade entoai!

Finalmente recorde-se o seu longo poema AO PORTO, uma cidade cujo povo tem ainda na memória as lutas pela liberdade na primeira metade do século XIX. O poema inicia-se…

Doce pátria que amo tanto,
Onde a luz primeira vi,
Erga-se hoje a ti meu canto,
Pois que em teu seio nasci.

Foi a tua heroicidade
Quem me inspirou, ó cidade:
– Atleta da liberdade,
Voem meus versos a ti!

E depois de narrar a luta do Porto contra os que ousaram a cidade dominar, termina…

Se aos golpes da tirania
Vires tremer Portugal,
À sua voz d'agonia
Surge outra vez colossal!
Do teu peito dá-lhe o abrigo,
Defende-o, salva-o contigo,
Ou no pó do seu jazigo
Dorme o teu sono final.

fig. 38 - Cemitério da Lapa. Pormenor da planta de 1892.

A Alameda da Lapa

Em frente da Igreja situava-se o Passeio ou Alameda da Lapa, estendendo-se até ao local onde posteriormente foi erguido o Hospital da Lapa. (ver fig. 36).

No Elucidário sublinha-se as vistas para o mar.
Lapa. Alameda, que, pelos lindos golpes de vista sôbre o mar, é muito frequentada. [17]

Francisco Gomes da Fonseca no seu Guia também assinala a vista para poente.

Passeio da Lapa – Alameda vasta, bem sombreada, e guarnecida de assentos de pedra. Demora perto da egrja do mesmo nome, em sitio elevado, e também oferece optima perspectiva, terminada a oeste pela vastidão do oceano. [18]

Pinto Ribeiro para além das vistas refere as festividades que ali se realizam.

Não longe da egreja está a formosa alameda, guarnecida de assentos de pedra e bem sombreada de arvoredos, onde annualmente se fazem os dois concorridissimos arrayaes de S. João e Senhora da Lapa.
Está colocada em sitio elevado, e goza-se d’alli um soberbo panorama. [19]

E do mesmo modo Pinho Leal refere a Alameda da Lapa.

Alameda Da Lapa — fica próxima, e ao S. O. Da egreja de Nossa Senhora da Lapa. Está abrigada do N. peias pedreiras do mesmo nome.
Tem bonitas vistas, pela elevação em que está situada.
Faz-se aqui ura grande arraial pela festividade de S. João, na egreja da Lapa, ao qual concorre, não só grande multidão de gente da cidade, como dos seus arredores. [20]


fig. 39 - Alameda da Lapa por volta de 1881.AHMP.

Finalmente Alberto Pimentel descreve a alameda já pouco frequentada a não ser pelos soldados  do quartel de Santo Ovídio que ali vão galanteando mavorticamente as creadas de servir…

Alameda da Lapa—Em frente da egreja do mesmo nome. Alameda muito suave, que tem por fundo o mar. Pouco frequentada, a não ser por soldados de infanteria 18, cujo quartel está proximo, e que por ali vão galanteando mavorticamente as creadas de servir fascinadas pelos algarismos metallicos do bonnet. [21]




[1] Ver J. Ferreira Francisco Queiroz, O ferro na arte funerária do Porto oitocentista. O Cemitério da Irmandade de Nossa Senhora da Lapa, 1833-1900. Tese de Mestrado em História da Arte orientada pelo Prof. Doutor Agostinho Araújo e apresentada à Faculdade de Letras do Porto em 1997 (3 volumes policopiados, 174+178+135 páginas).
Os Cemitérios do Porto e a arte funerária oitocentista em Portugal. Consolidação da vivência romântica na perpetuação da memória. Tese de Doutoramento em História da Arte orientada pelo Prof. Doutor Agostinho Araújo, concluída em 2002 e apresentada à Faculdade de Letras da Universidade do Porto em 2003: 2 volumes em 3 tomos policopiados (854+732+707 páginas, incluindo 1.472 ilustrações).
A encomenda de monumentos sepulcrais no período Romântico e o papel da mulher na construção da memória familiar, Revista da Faculdade de Letras Ciências e Técnicas do Património, Porto 2006-2007 (I Série vol. V-VI, pp. 509-525).
[2] Francisco Ferreira Barbosa, Elucidário do Viajante no Porto, Imprensa da Universidade, Coimbra 1864. (pág. 56 e 57).
[3] Francisco Gomes da Fonseca, Guia Histórico do Viajante no Porto e Arrabaldes. Na Livraria e Typographia de F. G. da Fonseca, Editor, 72, Rua do Bomjardim, Porto 1864. (pág.82).
[4] J. Pinto Ribeiro Junior (1822-1882), Archivo Pittoresco Tomo X 1867 (pág. 27).
[5] António Augusto Soares de Passos (1826-1860). Amor e Eternidade in Poesias. 5ª ed. Em Casa de Cruz Coutinho Editor, Caldeireiros 18,20, Porto 1870. (pág.70)
[6] António Augusto Soares de Passos (1826-1860). Rosa Branca, Porto 12 d'Abril de 1834, in Poesias. 5ª Ed. Em Casa de Cruz Coutinho Editor, Caldeireiros 18,20. Porto 1870. (pág.34). E no Bardo Jornal de Poesias Inéditas, II Parte. Francisco Gomes da Fonseca Editor, Porto 1857. (Pág. 37).
[7] Pinho Leal (186-1884), Portugal Antigo e Moderno… Livraria Editora de Mattos Moreira & Companhia, Praça de D. Pedro 68, Lisboa 1873 e 1890. (VII Volume 1880, pág. 397 e 398).
[8] Alberto Pimentel Guia do Viajante na Cidade do Porto e seus Arrabaldes, Livraria Central de J. E. da Costa Mesquita Editor, Rua de D. Pedro 87, Porto 1877. (pág.85).
[9] José Pereira de Sampaio Bruno (1857-1915), Portuenses Illustres, 2º Volume, Livraria Magalhães & Moniz – Editora. 11, Largo dos Loyos, 14. Porto 1907. (pág. 395).
[10] António Augusto Soares de Passos (1826-1860). Outomno in Poesias. 5ª Ed. Em Casa de Cruz Coutinho Editor, Caldeireiros 18,20, Porto 1870. (pág.12).
[11] António Augusto Soares de Passos (1826-1860). Anhelos in Poesias. 5ª Ed. Em Casa de Cruz Coutinho Editor, Caldeireiros 18,20, Porto 1870. (pág. 42).
[12] António Augusto Soares de Passos (1826-1860). A Vida in Poesias. 5ª Ed. Em Casa de Cruz Coutinho Editor, Caldeireiros 18,20, Porto 1870. (pág. 111).
[13] António Augusto Soares de Passos (1826-1860).Tristeza in Poesias. 5ª Ed. Em Casa de Cruz Coutinho Editor, Caldeireiros 18,20, Porto 1870. (pág. 134).
[14] António Augusto Soares de Passos (1826-1860). Desalento in Poesias. 5ª Ed. Em Casa de Cruz Coutinho Editor, Caldeireiros 18,20, Porto 1870. (pág. 148).
[15] António Augusto Soares de Passos (1826-1860).Visão do Resgate in Poesias. 5ª Ed. Em Casa de Cruz Coutinho Editor, Caldeireiros 18,20, Porto 1870. (pág.165).
[16] António Augusto Soares de Passos (1826-1860). O Mendigo in Poesias. 5ª Ed. Em Casa de Cruz Coutinho Editor, Caldeireiros 18,20, Porto 1870. (pág. 105 a 107).
[17] Francisco Ferreira Barbosa, Elucidário do Viajante no Porto, Imprensa da Universidade, Coimbra 1864. (pág.105).
[18] F.G.Fonseca, Guia Histórico do Viajante no Porto e Arrabaldes. Na Livraria e Typographia de F. G. da Fonseca, Editor, 72, Rua do Bomjardim, Porto 1864. (pág. 46).
[19] J. Pinto Ribeiro Junior (1822-1882), Archivo Pittoresco Tomo X 1867 (pág. 26).
[20] Pinho Leal (186-1884), Portugal Antigo e Moderno… Livraria Editora de Mattos Moreira & Companhia, Praça de D. Pedro 68, Lisboa 1873 e 1890. (VII Volume 1880, pág. 442).
[21] Alberto Pimentel Guia do Viajante na Cidade do Porto e seus Arrabaldes, Livraria Central de J. E. da Costa Mesquita Editor, Rua de D. Pedro 87, Porto 1877. (pág.71).


Continua
 

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