Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















terça-feira, 5 de dezembro de 2017

O Porto através de uma Panorâmica de c.1870 7 (1)

cd1fig. 1 - Autor não identificado  Panorâmica do Porto c. 1870 (originais em vidro do Museu Nacional de Soares dos Reis Porto) cópia cedida por gentileza do arquitecto Manuel Magalhães.

Capítulo 6 - A Cordoaria (n.º13)
(Passeio da Cordoaria, Campo dos Mártires da Pátria 1835, Jardim da Cordoaria, Jardim João Chagas em 1925).
cd2fig. 2 – Com o n.º 13, por trás do Mercado do Peixe o Jardim da Cordoaria.
legenda:
10. Rua dos Carrancas Rua da Liberdade Rua de Aires Gouveia Hotel do Louvre
11. Hospital de Santo António (Fachada Sul)
12. Igreja das Carmelitas
13. Jardim da Cordoaria
14. Igreja da Graça (demolida em 1899)
15. Hospício dos Expostos
16. Academia Polytechnica (Faculdade de Ciências, Reitoria da UP)
17. Capela das Almas (Igreja de S. José das Taipas)

[Nota inicial – Os sublinhados a negrito (bold) bem como todas as traduções, são da minha autoria (excepto as devidamente assinaladas), e se são ousadas e mesmo um pouco selvagens, pretendi sempre conservar o sentido do texto ou dos versos.]

Introdução – A Cordoaria em 1870

No ano em que se presume que foi realizada a fotografia panorâmica que nos tem ocupado, o jardim da Cordoaria oficialmente Jardim do Campo dos Martyres da Pátria está practicamente já concluído. Vêem-se as copas das árvores por trás do Mercado do Peixe.
O jardim foi iniciado por volta de 1866 por iniciativa de Alfredo Allen Visconde de Villar de Allen (1828-1907), e desenhado por Emile David (1839-1873) e na sua realização foi acompanhado por José Marques Loureiro (1830-1898), jardineiro e horticultor, então proprietário do Jornal de Horticultura Practica.
Em 1870 o redactor deste jornal, José Duarte de Oliveira Júnior (1848/1927), na sua Chronica escreve: O “Jardim do Campo dos Martyres da Pátria” foi enriquecido ultimamente com alguns arbustos, arvores, etc. que lhe augmentaram o bom aspecto que já tinha e o tornaram portanto mais aprazível.


Parte I – A Cordoaria na primeira metade do século XIX

Não cumpre aqui a história anterior do Campo da Cordoaria, mas apenas a sua evolução durante o século XIX.
Durante a primeira metade do século XIX, o antigo Campo do Olival, com o nome de Praça da Cordoaria, pouco ou nada mudou, limitando-se a ser um campo de feira plantado de árvores.
cd3fig. 3 – Planta Redonda de 1813 e Planta de J. F. de Paiva a.1824
Após o Cerco do Porto, em 1835, a Praça da Cordoaria passou a chamar-se oficialmente Campo dos Mártires da Pátria em homenagem aos enforcados na Praça Nova em 1829, mas popularmente continua a chamar-se Praça da Cordoaria como aliás na planta de 1839 de Joaquim da Costa Lima.
cd4fig. 4 – Planta de W. B. Clarke de 1833 e Planta de J. Costa Lima de 1839.
Em 1845 William Henry Giles Kingston (1814-1880) descreve a praça da Cordoaria da seguinte forma e sugere já a realização de um jardim.
(…) The next praça in size is the Cordoaria, or ropewalk, so called from being exclusively appropriated to the use of rope-makers, who ply their trade across it. It was formerly surrounded by nobles trees, three only wich now remain, the others having been cut down during the siege to form palisades for the trenchs; but it has again been planted wuth young ones. In every direction appear fine buildings, but so irregular placed that their effect is lost. On one side is the prison, a handsome edifice of dark stone. Opposite is a college, incomplete, but already occupied as a school of medicine, and behind i tis the Foundling Hospital. In the corne ris the lofty tower of the Clerigos, and close to it the new market-place, in constructing wich the useful has decidedly been more consulted than the ornamental. On the other side, towards the sea, is the fish-market, on the side of the Hill, so that the roof alone is seen. Near it his the small pretty church of the Anjo; and in another corner the grand hospital, by far the finest edifice in the city, but much of it is hid from view; the ground sloping down to it, and a row of houses standing in front on a more elevated site. The other sides of the Cordoaria are filled with the houses of the rope-makers, and by a number of miserable sheds, wich are being gradually pulled down. If however the rope-makers were removed, as proposed, to a more proper position on the banques of the river, this would be a very fit place for public gardens; being in a central position, and the approaches to it easily made good. [1]


cd5fig. 5 - Feira na Cordoaria. Gravura de Joseph James Forrester, Barão de Forrester, 1835.

Firmino Pereira em O Porto d’outros tempos publicado no início do século XX recorda a praça em meados do século XIX, onde se realizava a feira de S. Miguel.

Há cincoenta anos, pouco mais ou menos, o local onde hoje o elegante e bem cuidado jardim da Cordoaria oferece a suave amenidade das suas sombras discretas aos devaneios sentimentaes das creadas de servir, era um vasto campo irregular com meia dúzia de toscas barracas de madeira onde se vendiam géneros alimentícios. (…) A pitoresca e rumorosa feira do S. Miguel (*) estendia-se pelas ruas exteriores do campo, ao longo das quaes se armavam vistosas barracas de madeira que ocupavam todo o espaço compreendido entre o Anjo e a parte ocidental do campo, para as bandas do hospital da Misericórdia. Na rua fronteira á Relação alinhavam-se as barracas de quinquilharias.
No largo do Anjo, e ao longo da rua do mesmo nome, eram os comes e bebes, as espetadas, os doces de Paranhos, as toscas barracas das nozes. Próximo à Roda funcionavam os Dallots, o Lopes, rei dos tambores, o homem das forças, os ratos sábios, os cosmoramas, a mulher gorda, as figuras de cera. No interior do campo fazia-se um largo negócio de alfaias agrícolas— escadas, cestos, encinhos, gigos, foices, enxadas, pás. As palhoças e os tamancos, os compridos lodos e as cabeçadas e jugos para os carros de bois, regateavam- se para as bandas do hospital. E mais abaixo, no Carregal (Praça do Duque de Beja), empilhavam-se as cebolas, e alastravam-se pelo chão, numa pitoresca desordem, cestos vindimes, fueiros, gadanhos, rodas, varapaus ferrados, e os largos chapéus bragueses que eram então o luxo espalhafatoso e domingueiro dos moços de lavoura. Nos baixos do edifício da Academia eram os depósitos de louça grossa alguidares, pingadeiras, travessas, vasos, pratos, tigelas. Tudo isto, em dias de feira, se alastrava pelo passeio, estorvando o trânsito. [2]

(*) Esta feira foi creada em 1682, no campo do Olival, e a de S. Lazaro, em 1720, nos terrenos onde até ha anos se realisava, pelo lado exterior do jardim, entre este e o Recolhimento das Órfãs. Nota de rodapé no texto.
Em 1850 a Câmara Municipal aprova a demolição das casas existentes junto da antiga muralha e que separavam o Largo do Olival do Campo dos Mártires da Pátria (praça da Cordoaria).
cd5afig. 6 – Planta. Approvada. Porto em Camara 5 de Setembro de 1850. AHMP.
cd5bfig. 7 - A mesma planta reorientada a norte e com a legenda realçada.
Legenda
1. Orfãos e Academia
2. Casa da Relaçaõ
3. S. José das Almas
4. Casa dos Expostos
5. Mercado do Peixe
6. Hospital de S.to António
7 a 8. Onze casas que tem de ser demolidas, e das quaes a designada com a letra X está para ser arrematada.

Estas demolições serão concretizadas em 1853 e no ano seguinte é aprovado pela Câmara Municipal um primeiro projecto de regularização e ajardinamento do Campo dos Mártires da Pátria.
O projecto consistia num conjunto de vias, algumas arborizadas, geradas a partir da Alameda do Olival, contornariam o espaço trapezoidal do Campo dos Mártires da Pátria.
Diagonais atravessariam o espaço criando uma pequena praceta central.
Entre as vias seriam criados canteiros.
cd6fig. 8 – Plano para o novo Passeio público que se prjecta fazer na Praça da Cordoaria. Approvado. Porto em Câmara, 5 de Agosto de 1854. Assinada pelo Presidente o Visconde da Trindade (José António de Sousa Basto 1805-1890) e outros. AHMP.
Para uma melhor compreensão orientou-se a planta no sentido norte-sul e legendou-se os principais edifícios.
cd6afig. 9 – A planta orientada a norte e legendada.
1 Hospital
2 Quarteirão que será demolido por volta de 1880 para a abertura do Largo da Escola Médica (desde 1979 Largo do Professor Abel Salazar). Em 1926 é inaugurada o memorial de Júlio Diniz (1839-1871), pseudónimo literário do médico e lente portuense Joaquim Guilherme Gomes Coelho, da autoria do escultor João Silva (1880-1960).
3 Quarteirão dito do Piolho que persistirá até aos nossos dias como veremos num próximo texto.
4 Quarteirão que será demolido no início do século XX com a conclusão do edifício da Academia.
5 Academia e Igreja da Graça
6 Mercado do Anjo (antigo)
7 e 8 Edifícios junto à antiga Porta do Olival
9 Cadeia da Relação
10 Casa de Thomas Sandeman
11 Capela de S. José das Almas.
12 Hospício dos Expostos
13 Mercado do Peixe (antigo)
14 Quarteirão da rua da Lage

No lado sul da Cordoaria, um comerciante de ascendência escocesa, Thomas Glas Sandeman (1789-1870), ligado à Casa Sandeman de produção e exportação do Vinho do Porto, tinha, nos anos 30 do século XIX, mandado construir um palacete junto à igreja de S. José das Almas (Taipas) no terreno que pertencia à sua mulher D. Ermelinda Júlia de Brito e Cunha (1805-1875), terreno que era adjacente à casa do seu pai António Bernardo de Brito e Cunha (1780-1829), com frente para a Rua das Taipas.
Na planta de 1825 está sublinhada a vermelho a Casa de António Bernardo de Brito e Cunha e a azul a propriedade da sua filha Ermelinda Júlia de Brito e Cunha onde será edificado o palacete do genro Thomas Glas Sandeman.
cd7fig. 10 – Planta Approvada em Junta de 4 de Fevereiro de 1825. Esta planta mostra o alinhamento que se determinou em acto de Vistoria a que se procedeo na Lameda da Cordoaria em 16 de Agosto de 1824. AHMP.
Em 1864, Francisco Ferreira Barbosa no Elucidário do Viajante no Porto, refere que o Palacete de Sandeman situado no lado da Praça da Cordoaria é d’uma elegante perspectiva. [3]

cd8fig. 11 – A Casa de Thomas Sandeman. Fotografia de Teófilo Rego (adaptada), c.1950. AHMP.
Para norte do seu palacete e perante a situação de abandono em que se encontrava o Campo dos Mártires da Pátria, Thomas Sandeman, em 1856, propoz á Camará a creação do jardim da Cordoaria, que iria valorisar o seu magnífico palacete construído junto à egreja das Almas, mas a proposta não teve seguimento.[4]
Para isso encomendou para junto da sua casa ao arquitecto escocês Edward Buckton Lamb [5] um projecto de um jardim público, um jardin spacieux, où l'art simple se préteroit avec docilité à féconder les agréables caprices de la nature. On ne le verroit point se révolter contre elle, regarder ses productions comme une matière servile, & les plier à des formes bizarres & grotesques, parafraseando o poeta Salomon Gessner. [6]

[1] William Henry Giles Kingston (1814-1880), The Cordoaria in Lusitanian sketchs of the pen and pensil. William H. G. Kingston, Esq., author of “The Circassian Chief”. The Prime Minister”. Etc. In two Volumes.Vol.I. John W. Parker, West Strand, London M.DCCC. XLV. (pág. 40). Tradução: (…) A próxima praça em tamanho é a Cordoaria, ou passeio da cordoaria, assim chamada por ser exclusivamente apropriada pelos cordoeiros, que aí fazem o seu comércio. Anteriormente estava cercada por árvores nobres, das quais apenas três permanecem, sendo que as outras foram cortadas durante o cerco para fazer paliçadas para as trincheiras; no entanto outras foram novamente plantadas. Em toda a envolvente se veem belos edifícios, mas dispostos de uma forma tão irregular que esse belo seu efeito se perde. De um lado está a prisão, um belo edifício de pedra escura. Do lado oposto é a academia, um edifício incompleto, mas já ocupado como uma escola de medicina (sic), e por trás o Hospital. Na esquina, a alta torre dos Clérigos, e perto dela, o novo mercado, na construção no qual a funcionalidade foi decididamente preferida do que a estética. Do outro lado na direção do mar, está o mercado de peixe, no topo de uma elevação, de modo que apenas se vê o telhado. Ali perto de mim está a pequena mas bonita igreja do Anjo; e na outra esquina, o grande hospital, de longe o melhor edifício da cidade, mas do qual apenas se vê uma parte quer pela inclinação do terreno, quer pelas construções na parte mais elevada. Os outros lados da Cordoaria são preenchidos com as casas dos fabricantes de cordas, e por uma série de barracões miseráveis, que estão sendo gradualmente derrubados. Se no entanto, os fabricantes de cordas forem removidos, conforme já foi proposto, para um local mais apropriado na margem do rio, este seria um lugar com todas as condições e muito adequado para um jardim público; ocupa uma posição central, e com acessos fáceis de realizar.

[2] Firmino Pereira (1855-1918) O Porto d’outros tempos, Notas Históricas-Memórias – Recordações. Livraria Chardron, Lello & Irmão, Rua das Carmelitas 144. Porto 1914. (pág. 77, 78 e 79).
[3] Francisco Ferreira Barbosa, Elucidário do Viajante no Porto, Imprensa da Universidade, Coimbra 1864. (pág. 92).
[4] Firmino Pereira (1855-1918) O Porto d’outros tempos, Notas Históricas-Memórias – Recordações. Livraria Chardron, Lello & Irmão, Rua das Carmelitas 144. Porto 1914. (Nota de rodapé pág. 89).
[5] O projecto foi posteriormente foi oferecido à Câmara Municipal do Porto, por ele ou por algum dos seus descendentes, e encontra-se, presentemente, no Arquivo Histórico Municipal.
[6] Salomon Gessner (1730-1788) Idylen 1756, versão francesa Idylles et Poemes Champêtres de M. Gessner, traduits de l’allemand par M. Huber *, traducteur de la Mort d’Abel. Chez Jean-Marie Bruset, Imprimeur-Libraire, Lyon M. DCC.LXII. *Michael Huber (1727-1804). Le souhait, (pág. 136). Tradução: (…)um espaçoso jardim, onde a arte simples se prestaria a docemente fecundar os agradáveis caprichos da natureza. Nunca se veria nele qualquer revolta contra ela ou olhar as suas produções como uma matéria servil e as conformar em formas bizarras e grotescas.


Parte II - O projecto de Edward Buckton Lamb



cd9fig. 12 - Edward Buckton Lamb (1806-1869), Public garden: Oporto 1856. Projecto do arquitecto inglês Edward Buckton Lamb. Projecto não executado. Plantas e perfis para um jardim público na Cordoaria; plantas e alçados para a entrada principal, o chafariz, e bancos de jardim cobertos. Autor: Edward Buckton Lamb. Projecto oferecido à Câmara Municipal do Porto por Tomás Sandeman. AHMP.
O escocês Edward Buckton Lamb (1805-1869) foi um arquitecto ecléctico, mas conhecido sobretudo pelos seus projectos de arquitectura neogóticos e por isso etiquetado de Rogue Gothic Revivalist.
Dedicou-se, para além da arquitectura (habitações, igrejas e hospitais), à ilustração, ao desenho de jardins, de fontes e equipamentos, de mobiliário e de elementos decorativos.
Publicou em 1830 Etchings of Gothic Ornament, e em 1846 Studies of Ancient Domestic Architecture.
Em Portugal é da sua autoria o projecto do Hospital do Funchal, projecto ganho num concurso internacional em 1855, mas, como E. B. Lamb nunca se deslocou ao Funchal, a obra foi dirigida por João Figueiroa de Freitas e Albuquerque (c. 1820-1867).
O projecto
O projecto para a regularização e ajardinamento do Campo dos Mártires da Pátria do arquitecto Edward Buckton Lamb, oferecido por Thomas Sandeman à Câmara Municipal do Porto, tem o título de Public garden: Oporto, está datado de 1856, e consta de 4 folhas, uma planta colorida (Public Plan); uma planta de trabalho legendada (Working Plan), ambas orientadas no sentido poente-nascente; de uma folha com os perfis (Working Sections) correspondentes à planta legendada; e de uma folha com o projecto de uma fonte (elevation and plan), da entrada principal do jardim (elevation and plan), do gradeamento e dos pilares (Pier and railing), do portão das entradas (Entrance Gates) e de um banco coberto (Elevation and plan of covered sent).
cd9fig. 13 - Edward Buckton Lamb, Public Garden Oporto, folha n.º1, 1856. AHMP.
cd10fig. 14 - Edward Buckton Lamb, Working Plan Oporto, folha n.º2 1856. AHMP.
cd11fig. 15 - Edward Buckton Lamb, Working Sections Oporto, folha n.º3, 1856. AHMP.
cd12fig. 16 - Edward Buckton Lamb, Public Garden Oporto, folha n.º3, 1856. AHMP.
Edward Buckton Lamb desenha para a Cordoaria um jardim à inglesa, irregular e organicamente adaptado ao local.
Ramalho Ortigão sobre o jardim à inglesa, considera e lembra as suas origens referindo que a arte dos jardins, uma das mais authenticas conquistas do gosto inglez, data apenas, como a pintura, do século XVIII. Foi por volta de 1720 que, regressando duma viagem á França e á Itália — depois de haver decorado vários palácios, de ter construído o do conde de Yarborough e o dos Horseguards, e restaurado Stowe, Haugton e Hokham, — William Kent, proseguindo a obra do ornamentista Bridgam, destituiu a esculptura verde dos decoradores italianos e de Le Notre para iniciar o typo do moderno jardim. [1]

[1] Ramalho Ortigão (1836-1915), Sir John Bull. Depoimento de uma testemunha àcerca de alguns aspectos da vida e da civilização inglesa. Segunda edição. Livraria Internacional de Ernesto Chardron. Casa editora Lugan & Genelioux Sucessores, Porto 1887. (pág. 141).


Parte III - Jacques Delille e o jardim à inglesa

Na verdade o jardim à inglesa tem origem no século XVII e surge como contraponto aos monumentais e geométricos jardins dos palácios franceses com criações racionais em que os autores pretendiam criar uma estetizada natureza.
Esta rivalidade entre o jardim à francesa (André Le Nôtre 1613-1748) e o jardim à inglesa (William Kent 1685-1748) já havia sido definida pelo abade Jacques Delille (1738-1813) no seu Les Jardins ou l’ Art d’Embellir les Paysages, um longo poema sobre a arte da jardinagem, uma ars poetica de como redesenhar ou compor a Natureza que Edward Buckton Lamb certamente conhecia pelo menos na sua tradução para a língua inglesa de Maria Henrietta Montolieu (1751-1832), com o título de The Gardens. [1]
Deux genres, dès longtemps ambitieux rivaux,
Se disputent nos voeux. L’un à nos yeux présente
D’un dessein régulier l’ordonnance imposante,
Prête aux champs des beautés qu’ils ne connoissoient pas,
D’une pompe étrangère embellit leurs appas,
Donne aux arbres des lois, aux ondes des entraves,
Et, despote orgueilleux, brille entouré d’esclaves.
Son air est moins riant et plus majestueux.
L’autre, de la nature amant respectueux,
L’orne, sans la farder, traite avec indulgence
Ses caprices charmants, sa noble négligence,
Sa marche irrégulière, et fait naître avec art
Les beautés, du désordre, et même du hasard.
Chacun d’eux a ses droits; n’excluons l’un ni l’autre:
Je ne décide point entre Kent et Le Nôtre.
[2]

Na versão de Maria Henrietta Montolieu essa rivalidade entre o jardim francês de André Le Nôtre e o jardim inglês de William Kent é mais acentuada.
Two rival styles dispute her preference:
Le Notre proud, magnificent, and fine,
Presents the rules of regular design,
Lends to the country pomp unknown before,
And with intrinsic beauties mingles more;
Gives laws to trees, gives fetters to the waves,
And like a despot shines among his slaves:
Scenes more imposing yields, but less serene,
While Kent bids Nature wear a smiling mien;
Decks not her form with artificial glare,
But with a lover’s fondness treats the fair;
Her sweet caprices, and majestic ease,
Her walk unstudied, with indulgence sees;
And skilful, knows to make her charms surprise,
Spring from disorder, and from chance arise.
Each' to our choice presents a separate claim,
But both are equal candidates for fame;
 [3] 

E, para compor um jardim, Delille estabelece uma primeira abordagem ao local, usada ainda hoje, para qualquer intervenção humana e em particular para a Arquitectura.
Avant tout connoissez votre site; et du lieu
Adorez le génie, et consultez le dieu.
[4]

Na versão inglesa
First to your site judiciously attend,
Consult its God, and to its Genius bend
.[5]
Máxima que será retomada pelos arquitectos no último quartel do século XX, apoiados em Heidegger, com a procura do genius loci na transformação do sítio em lugar.
Lembre-se os escritos de Christian Norberg-Schulz: Le but essenciel de la construction (de l’architecture) est donc celui de transformer un site en un lieu. [6]

O jardim e a Natureza

Mas para Delille sendo o jardim sobretudo a art d’embellir les paysages, como o próprio subtítulo do poema indica, deve partir da observação e da compreensão da Natureza.
Pour donner aux jardins une forme plus pure
Observez, connoissez, imitez la nature.
 [7]
Na versão inglesa,
To form your gardens with unerring taste,
Observe how Nature’s choicest works are traced
.[8]

Não para reconstruir uma Natureza ideal, racional e geométrica do jardim francês, mas para explorar as suas imperfeições e criar um ambiente e uma paisagem que pareça natural e imprevisível, cheia de surpresas e de descobertas como no jardim à inglesa.
E Delille, que não esconde a sua preferência pelo jardim à inglesa, apoia-se em John Milton.[9]
Regardez dans Milton. Quand ses puissantes mains
Préparent un asile aux premiers des humains;
Le voyez-vous tracer des routes régulières,
Contraindre dans leur cours les ondes prisonnières?
Le voyez-vous parer d’étrangers ornements.
10]
Na sua versão Henrietta Montolieu propõe esta leitura do poeta seiscentista.
Read Milton, bard inspired! who dared to man,
Describe in strain sublime the Almighty’s plan.
When erst his hand omnipotent bestowed,
On our first parents Eden’s blessed abode,
No paths monotonous were there designed,
No streams like prisoners, to one course confined,
Nor did fictitious ornaments adorn
Earth’s early spring, and beauties newly born.
 [11]
Jacques Delille considera assim o jardim como uma enorme pintura, e o jardineiro deve ser como um pintor.
Deve por isso elaborar o jardim como se fosse um quadro, procurando usar na sua composição o equilíbrio, a harmonia das cores dos elementos naturais, das dimensões, das formas e cores, quer das diversas espécies de árvores e arbustos, quer ainda de riachos, lagos, rochedos, pontes, estátuas e bancos.
Un jardin, à mes yeux, est un vaste tableau.
Soyez peintre. Les champs, leurs nuances sans nombre,
Les jets de la lumière, et les masses de l’ombre,
Les heures, les saisons, variant tour à tour
Le cercle de l’année et le cercle du jour,
Et des prés émaillés les riches broderies,
Et des riants coteaux les vertes draperies,
Les arbres, les rochers, et les eaux, et les fleurs,
Ce sont là vos pinceaux, vos toiles, vos couleurs;
La nature est à vous; et votre main féconde
Dispose, pour créer, des éléments du monde.
 [12]

Que na sua versão Maria Henrietta Montolieu traduz da seguinte forma:
A garden one vast picture should appear.
See with a painter’s eye. The fields array,
The numerous tints their varying hues display,
The gleams of light, the masses of the shade,
The changes by the hours and seasons made,
The bright enamel of the grass-clad ground,
The laughing hills with golden harvests crowned,
The rocks, the streams, each various shrub and tree,
These should your colours, canvas, pencils be;
Nature is yours, and your prolific hand.
Must, to create, her elements command.
 [13]

Assim, conhecendo o sítio, observando a Natureza, e compondo como um pintor, Delille cita directamente dois pintores do século XVII, Nicolaes Berghem, (1620-1683) e Nicolas Poussin (1594-1665).
Ainsi savoient choisir les Berghems, les Poussins.
Voyez, étudiez leurs chefs-d'oeuvre divins:
Et ce qu'à la campagne emprunta la peinture,
Que l'art reconnaissant le rende à la nature.
 [14]
Na versão inglesa:
This choice made Berghem, and Le Poussin shine;
Study and emulate their works divine.
What landscape freely to the pencil lent,
Let Art pay Nature to the full extent.
 [15]
E Delille em L’Homme des Champs, um outro poema, cita ainda Claude Lorrain (1604/05-1682),
Tel le brillant Lorrain de son pinceau touchant
Souvent dore un beau ciel des rayons du couchant.
 [16]
E Henrietta Montolieu na sua tradução de Les Jardins também refere Lorrain.
The boasted labours of a Lorrain fade;
Who, conquering Nature, taught this art refined,
And bright examples with thy laws combined.
[17]
Estes pintores farão da paisagem a personagem central das suas obras.

[1] Ilustrado por quatro gravuras de Vieira Portuense e Francesco Bartolozzi (1727-1815), com que Vieira então trabalhou. Ver neste blogue O Porto através de uma Panorâmica de c. 1870 4, http://doportoenaoso.blogspot.pt/search?updated-max=2017-10-07T18:04:00%2B01:00&max-results=7&start=1&by-date=false
[2] Jacques Delille (1738-1813), Les Jardins, Poëme par Jacques Delille. Nouvelle Édition revue, corrigé et augmentée. Chez L. G. Michaud, Libraire Rue de Cléry, n.º13 Paris. M. DCCC. XX. (pág. 53 e 54). Tradução:
Dois gêneros, ambiciosos rivais há muito tempo na diferença,
Disputam os nossos desejos. Um aos nossos olhos se apresenta
Com um imponente ordenamento e regular desenho,
Dando aos campos belezas que eles não conheciam o engenho,
De uma pompa estranha embeleza a sua ornamentação,
Dá às árvores leis, e entraves ao terreno na ondulação,
E, rodeado de escravos brilha como um déspota orgulhoso.
O seu aspecto é menos risonho e mais majestoso.
O outro é da natureza amante mui respeitoso,
Ornamenta-a sem muito a carregar, tratando-a com indulgência
Os seu encantadores caprichos, a sua nobre negligência,
O seu percurso irregular, e elabora com arte
As belezas, a desordem e até o acaso reparte.
Cada um deles tem seus direitos; não se exclua nem um nem outro:
Eu não consigo decidir entre Kent e Le Nôtre.

[3] Maria Henrietta Montolieu (1751-1832), The Gardens. Poem translated from the french of the Abée Delille by Mrs. Montolieu. The second Edition. Printed by T. Bensley, Bolt Court; and sold by Robson, New Bond Street; White Flert Street; Evans, Pall Mall; and Kerby, Stafford Street. London 1805. Canto the first (pág.27). Tradução:
Dois estilos rivais disputam a sua preferência:
Le Nôtre orgulhoso, magnífico e belo engenho,
Mostra as regras do muito regular desenho
Empresta aos campos uma pompa antes desconhecida,
E com belezas intrínsecas e ainda mais esclarecidas;
Dá leis às árvores, e do terreno a ondulação faz prisioneira,
E entre os seus escravos como um déspota brilha e reina:
Cenas mais imponentes, mas com menos serenidade aparente,
Enquanto Kent usa a natureza, como uma mulher sorridente;
Não cobrindo a sua forma com um brilho artificial,
Mas, com o gosto de um amante, trata-a de famosa;
Os seus doces caprichos e espontaneidade majestosa,
O seu percurso não estudado com indulgência ver;
E habilmente, sabe fazer os seus encantos surpreender,
A Primavera da desordem e do acaso podem nascer
Cada um dos estilos uma diferente escolha clama,
Mas ambos são igualmente candidatos a alcançar a fama;


[4] Jacques Delille (1738-1813), Les Jardins, Poëme par Jacques Delille.Nouvelle Édition revue, corrige et augmentée. Chez L. G. Michaud, Libraire Rue de Cléry, n.º13 Paris. M. DCCC. XX.Chant premier (pág. 44).Tradução:
Em primeiro lugar conhecei o sítio; e do lugar / Adorai o génio, e consultai o deus.
[5] Maria Henrietta Montolieu (1751-1832), The Gardens. Poem translated from the french of the Abée Delille by Mrs. Montolieu. The second Edition. Printed by T. Bensley, Bolt Court; and sold by Robson, New Bond Street; White Flert Street; Evans, Pall Mall; and Kerby, Stafford Street. London 1805. Canto the first (pág.18).
[6] Christian Norberg-Schulz (1926-2000) Genius Loci: Paysage, ambiance, architecture, Editions Mardaga Éditeur, Bruxelles 1981. O fim último da construção (da arquitectura) é transformar um sítio num lugar.
[7] Jacques Delille (1738-1813), Les Jardins,Poëme par Jacques Delille.Nouvelle Édition revue, corrige et augmentée. Chez L. G. Michaud, Libraire Rue de Cléry, n.º13 Paris. M. DCCC. XX. Chant premier (pág. 32). Tradução:
Para dar aos jardins a maior pureza / Observai, conhecei, imitai a natureza.
[8] Maria Henrietta Montolieu (1751-1832), The Gardens. Poem translated from the french of the Abée Delille by Mrs. Montolieu. The second Edition. Printed by T. Bensley, Bolt Court; and sold by Robson, New Bond Street; White Flert Street; Evans, Pall Mall; and Kerby, Stafford Street. London 1805. Canto the first (pág.6). Tradução.
Para conformar os seus jardins com um infalível gosto,
Observe como na Natureza o melhor trabalho é composto.

[9] John Milton (1608-1674), Paradise Lost - A Poem Twelve Books. (na 2.ª edição 1674). Published by Timothy Belington Sylvester T. Goss printer, Boston 1820.
[10] Jacques Delille (1738-1813), Les Jardins, Poëme par Jacques Delille.Nouvelle Édition revue, corrige et augmentée. Chez L. G. Michaud, Libraire Rue de Cléry, n.º13 Paris. M. DCCC. XX. Chant premier (pág. 56). Tradução:
Olhai em Milton. Quando as Suas poderosas mãos
Preparam um abrigo para os primeiros humanos;
Não o vemos traçar caminhos regulares,
Espartilhar o seu curso em ondulação prisioneira?
Não o vemos enfeitar de estranhos ornamentos
A infância da terra e a sua primavera primeira?

[11] Maria Henrietta Montolieu (1751-1832), The Gardens. Poem translated from the french of the Abée Delille by Mrs. Montolieu. The second Edition. Printed by T. Bensley, Bolt Court; and sold by Robson, New Bond Street; White Flert Street; Evans, Pall Mall; and Kerby, Stafford Street. London 1805. Canto the first (pág.30). Tradução:
Leiam Milton, o bardo inspirado! Que ousou ao homem,
Descrever o sublime plano do Todo-Poderoso.
Quando da sua mão omnipotente foi então doada,
Aos nossos primeiros pais, no Eden, abençoada morada,
Nenhuma monótona vereda foi aí projectada,
Não há córregos, de um percurso confinado, prisioneiros,
Nem a adornam ornamentos fictícios e ligeiros

A Primavera inicial da terra e as belezas então nascidas.
[12] Jacques Delille (1738-1813), Les Jardins, Poëme par Jacques Delille.Nouvelle Édition revue, corrige et augmentée. Chez L. G. Michaud, Libraire Rue de Cléry, n.º13 Paris. M. DCCC. XX. Chant premier (pág.31). tradução:
Sejais pintores. Os campos, onde em infinitos tons se descobria,
Os feixes de luz e aquela massa sombria,
As horas, as estações, que vão variando à vez
O ciclo do ano, o ciclo do dia e o ciclo do mês,
E os ricos bordados em prados esmaltados,
E ridentes verdes panos nas encostas pousados,
As árvores, as pedras e as águas, e as flores,
Estes são os vossos pincéis, as vossas telas, as vossas cores;
A natureza é vossa; e o vosso punho fecundo
Dispõe, para criar, os elementos do mundo.

[13] Maria Henrietta Montolieu (1751-1832), The Gardens. Poem translated from the french of the Abée Delille by Mrs. Montolieu. The second Edition. Printed by T. Bensley, Bolt Court; and sold by Robson, New Bond Street; White Flert Street; Evans, Pall Mall; and Kerby, Stafford Street. London 1805. Canto the first (pág.5). Tradução:
Um jardim como um quadro deve parecer.
Vê-de com o olhar de um pintor. A forma dos campos,
Com os tons variados e diversos que exibem,
Os brilhos de luz, as massas de sombra, que teem
As diferenças que cada hora e cada estação reserva,
O esmalte brilhante do chão revestido de erva,
As colinas rindo com colheitas de ouro coroadas,
As rochas, os córregos, cada arbusto e o arvoredo,
Estas são as vossas cores, as vossas telas, e paletas;
A natureza é vossa, e a sua prolífica mão a desenhar
Deve, para criar, os seus elementos comandar.

[14] Jacques Delille (1738-1813), Les Jardins, Poëme par Jacques Delille. Nouvelle Édition revue, corrigé et augmentée. Chez L. G. Michaud, Libraire Rue de Cléry, n.º13 Paris. M. DCCC. XX. Chant premier (pág. 44).Tradução:
Assim sabiam escolher os Berghem e os Poussin.
Olhai e estudai as suas obras divinas:
E o que dos campos a pintura soube apossar
Que da arte reconhecida à natureza tornar.

[15] Maria Henrietta Montolieu (1751-1832), The Gardens. Poem translated from the french of the Abée Delille by Mrs. Montolieu. The second Edition. Printed by T. Bensley, Bolt Court; and sold by Robson, New Bond Street; White Flert Street; Evans, Pall Mall; and Kerby, Stafford Street. London 1805. Canto the first (pág. 18). Tradução:
Essa escolha fez Berghem e Le Poussin brilhar;
Estudar e emular as suas obras divinas.
E o que a paisagem ao lápis soube dar,
Deixem da Arte a Natureza tudo retomar.

[16] Jacques Delille, L´Homme des Champs Poëme in Oeuvres Completes de Jacques Delille, Les notes et variantes, les imitatitions des poètes les plus estimés et de nouvelles observations littéraires par A.-V. Arnault de L’Académie Française. Tome Cinquième. Chez Edouard Leroi, Libraire. À Bruxelles, Chez Langlet et Compagnie, Libraires. Rue de la Madeleine N.º 87. Paris 1835. (Chant le premier, pág. 16). Tradução:
Tal como o brilhante Lorrain com o seu pincel docemente
Muitas vezes doura um belo céu com uma luz de poente.
[17] Maria Henrietta Montolieu (1751-1832), The Gardens. Poem translated from the french of the Abée Delille by Mrs. Montolieu. The second Edition. Printed by T. Bensley, Bolt Court; and sold by Robson, New Bond Street; White Flert Street; Evans, Pall Mall; and Kerby, Stafford Street. London 1805. Canto the second (pág.54). Tradução:
Os vangloriados trabalhos de um Lorrain desaparecem;
A quem, conquistando a Natureza, ensina esta arte refinada,
E brilhantes exemplos com as suas leis combinadas.


Os pintores citados em Les Jardins, ou L’Art d’Embellir les Paysages e em The Gardens

Dos pintores citados não foi difícil escolher obras que demonstram a relação da pintura com a Natureza e a paisagem.
Nicolaes Berghem

De Nicolaes Berghem, (1620-1683), The Great Oak (O Carvalho grande), uma pintura que mostra uma paisagem sob uma quente luminosidade luz e um céu brilhante, onde alguns pastores com seu gado descansam na sombra fresca de um antigo carvalho, peça central de toda a composição.
O quadro de Berghem mostra a sua quase obsessão pelos pormenores com que pinta sobretudo as árvores, e terá de facto influência na França e na Inglaterra do século XVIII.
cd13fig. 17 - Nicolaes Berghem, (1620-1683), The Great Oak (o grande carvalho) 1652, óleo s/tela 86,4 x 106,7 cm. Los Angeles County Museum of Art.
O antigo carvalho reinando na floresta é citado por Delille no seu poema:
Mais lorsqu'un chêne antique, ou lorsqu'un vieil érable
Patriarche des bois, lève un front vénérable,
Que toute sa tribu, se rangeant à l'entour,
S'écarte avec respect, et compose sa cour;
Ainsi l'arbre isolé plaît aux champs qu'il décore.
Avec bien plus de choix et plus de goût encore.
 [1]

Os mesmos versos na versão inglesa:
To the old patriarchs of the forest yield;
But when in venerable beauty spread,
An ancient oak, or maple lifts his head,
Let all his tribe ranged modestly around,
Compose his court, and deck the distant ground.
[2] 


Nicolas Poussin

Para além da referência já citada Dellille evoca de novo Poussin no seu longo poema:
Imitez le Poussin. Aux fêtes bocagères
Il nous peint les bergers et les jeunes bergères,
Les bras entrelacés, dansant sous des ormeaux.
Et près d'eux une tombe où sont écrits ces mots;

Et moi je fus aussi pasteur dans l'Arcadie.[3]

Na tradução para inglês de Henrietta Montolieu:
Thus could Poussin, unrivalled in his art,
To the still canvas interest’s charm impart.
He paints the shepherd youths and village maids
Dancing at festivals beneath the shades,
And near a tomb, where rudely graved remain
These words,
“I too was an Arcadian swain.” [4]

Estes versos de Delille foram sempre associados às duas versões do quadro Et in Arcadia Ergo ou Les bergers de l’Arcadie.
Detenhamo-nos apenas sobre a segunda versão, a mais conhecida, onde rodeando um túmulo três pastores e uma pastora, descobrem e contemplam nele uma inscrição Et in Arcadia ego, que Delille traduz Eu também fui pastor na Arcádia mas que pode ser lida quer como Eu que morri também habito a Arcádia ou Eu a Morte também estou na Arcádia, tornando estas pinturas de Poussin motivo de polémicas interpretações que não cabe aqui assinalar nem discutir.

cd14fig. 18 - Nicolas Poussin, Et in Arcadia Ergo ou Les bergers de l’Arcadie 1636/37, óleo s/tela 85 x 121 cm. Museu do Louvre.
De facto de Nicolas Poussin e para melhor documentar a sua procura de uma paisagem onde Homem habita no respeito da Natureza, escolhemos Le Printemps ou Le Paradis Terrestre, um quadro que pertence a um conjunto de quatro pinturas realizadas para o Duque de Richelieu, representando as Quatro Estações da Natureza, que também pode ser encarada como uma meditação sobre as quatro idades do Homem.
As telas, pintadas por Poussin no final da sua vida, são talvez as mais belas paisagens da pintura seiscentista.
A presença em reduzidas dimensões das personagens bíblicas, Eva mostrando a Adão a árvore do fruto proibido, sobre o olhar atento de Deus que paira entre as nuvens, apenas serve de pretexto a Poussin para pintar a Natureza, compondo uma esplendorosa paisagem com diversas árvores incluindo árvores de fruto, um rochedo e um lago.
cd14afig. 19 - Nicolas Poussin (1594-1665) Le Printemps ou Le Paradis terrestre 1660/64, óleo s/tela 118 x 160 cm. Musée du Louvre.

Claude Lorrain

Claude Lorrain é outro pintor do século XVII, citado por Delille no seu poema Les Jardins.
Qui, des bois par degrés nuançant la verdure,
Surpassas Le Lorrain, et vainquis la nature.
Toi qui, de ce bel art nous enseignant les lois
As donné le précepte et l'exemple à la fois.
 [1] 
E por Marie Henriette Montolieu na sua tradução da obra de Delille.
Oh thou, before whose hills adorned with shade
The boasted labours of a Lorrain fade;
Who, conquering Nature, taught this art refined,
And bright examples with thy laws combined.
 [2]

Assim de Claude Lorrain e a partir dos versos já aqui citados de outro poema de Delille,
Tel le brillant Lorrain de son pinceau touchant
Souvent dore un beau ciel des rayons du couchant.
[3]Escolhemos uma paisagem que combina beleza e serenidade, onde a luz de um pôr-do-sol ilumina um terreno acidentado, por onde corre tranquilamente um rio (o Aniene) que se estende pela tela até se perder na ilimitada planície ao fundo.
Na composição figuras humanas de pastores, um casal sentado numa rocha onde ele toca flauta e ela parece apontar-lhe a beleza da paisagem guardam cabras enquanto outros pastores atravessam uma ponte rudimentar conduzindo o gado que parte lentamente ao pôr-do-sol.
cd15fig. 20 - Claude Gellée, dit le Lorrain (1604/1605 – 1682) Paysage pastoral, 1644, óleo s/tela 98 x 137 cm. Musée des Beaux-Arts Grenoble.
Trata-se de uma vista do Tivoli junto a Roma e as arquitecturas que nela figuram são a Villa d’Este no topo da colina, as ruínas de um templo clássico (o templo de Vesta ou da Sibila), uma construção medieval com uma torre cilíndrica, e ao fundo uma ponte que conduz a uma outra pequena povoação.
Delille no seu poema Les Jardins refere expressamente o templo de Vesta:
Je reconnais de loin le temple de Vesta.
Voici la roche auguste où tonnait la Sibylle;
Sa main n'y trace plus sur la feuille mobile
Ces arrêts fugitifs, tableaux de l'avenir;
Ici, c'est le passé qui parle au souvenir.
Ses nombreux monumens enrichissent l'histoire,
Et ce temple est pour nous le temple de mémoire;
[4]

Que na tradução inglesa surge como:
Here Vesta’s temple crowns the distant scene,
And there the Sybil’s sacred rock is seen.
No more her frantic ravings gain belief,
No more she traces on the trembling leaf
The fleeting oracles of future years;
Sublimel y pictured here the past appears;
Its monuments enrich the historic Muse,
Who in this temple, Memory’s temple views.
[5]



[1] Jacques Delille (1738-1813), Les Jardins, Poëme par Jacques Delille. Nouvelle Édition revue, corrigé et augmentée. Chez L. G. Michaud, Libraire Rue de Cléry, n.º13 Paris. M. DCCC. XX. Chant le second (pág.80). Tradução:
Quem dos bosques em verdes tons de beleza,
Ultrapassaste o Lorrain e venceste a natureza,
Tu que, desta bela arte nos ensinastes as leis
O preceito e o exemplo de uma só vez dareis.

[2] Maria Henrietta Montolieu (1751-1832), The Gardens. Poem translated from the french of the Abée Delille by Mrs. Montolieu. The second Edition. Printed by T. Bensley, Bolt Court; and sold by Robson, New Bond Street; White Flert Street; Evans, Pall Mall; and Kerby, Stafford Street. London 1805. Canto the second (pág.54). Tradução:
Ah, perante estas colinas de sombras adornadas
Desaparecem de Lorrain as pinturas afamadas;
Quem, conquistando a Natureza, ensinou est’arte refinada
E exemplos brilhantes com as suas leis combinadas.

[3] Jacques Delille, L´Homme des Champs Poëme in Oeuvres Completes de Jacques Delille, Les notes et variantes, les imitatitions des poètes les plus estimés et de nouvelles observations littéraires par A.-V. Arnault de L’Académie Française. Tome Cinquième. Chez Edouard Leroi, Libraire. À Bruxelles, Chez Langlet et Compagnie, Libraires. Rue de la Madeleine N.º 87. Paris 1835. (Chant premier, pág. 16). Tradução:
Tal como o brilhante Lorrain com o seu pincel docemente
Muitas vezes doura um belo céu com uma luz de poente.

[4] Jacques Delille (1738-1813), Les Jardins, Poëme par Jacques Delille. Nouvelle Édition revue, corrigé et augmentée. Chez L. G. Michaud, Libraire Rue de Cléry, n.º13 Paris. M. DCCC. XX. Chant le premier (pág. 39). Tradução:
Reconheço ao longe o templo de Vesta.
Aqui está a rocha onde profetizava a Sibila;
Mas a sua mão não mais na folha traça
Esses juízos fugitivos, visões do futuro;
Aqui, é o passado que fala com a memória.
Os seus monumentos enriquecem a história,
E este templo é para nós o templo da memória;

[5] Maria Henrietta Montolieu (1751-1832), The Gardens. Poem translated from the french of the Abée Delille by Mrs. Montolieu. The second Edition. Printed by T. Bensley, Bolt Court; and sold by Robson, New Bond Street; White Flert Street; Evans, Pall Mall; and Kerby, Stafford Street. London 1805. Canto the first (pág.13). Tradução:
Aqui o templo de Vesta o horizonte se vê coroar,
E a sagrada pedra da Sibila se pode contemplar.
Não mais as suas profecias a crença merece,
Não mais ela na folha trémula desenha
Nem os oráculos fugazes de anos futuros oferece;
Sublime e retratado aqui só o passado aparece;
Seus monumentos enriquecem a Musa da História,
Quem este templo veja como o lugar da Memória.


CONTINUA na Parte IV - Análise do projecto de Edward Brickton Lamb
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