Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















terça-feira, 5 de dezembro de 2017

O Porto através de uma Panorâmica de c.1870 7 (2)


Parte IV - Análise do projecto de Edward Brickton Lamb

cd16fig. 21 - Planta colorida na orientação norte-sul.
A cerca e as entradas
O jardim seria ao gosto da época cercado por um a grade, criando um espaço interior e um espaço exterior permitindo contudo a sua ligação visual.
Esta cerca possuiria três hierarquizadas entradas que davam acesso ao recinto.
A entrada principal (principal entrance) seria situada a sudoeste junto da igreja de S. José das Almas e, obviamente, junto da casa de Thomas Sandeman (n.º1).
Uma outra entrada situada junto ao Largo do Olival (n.º2). Ambas abrem para a cidade histórica.
Tem ainda um portão a nascente junto à alameda do Olival abrindo para a Academia e para o Mercado do Anjo (n.º3).

cd17fig. 22 - A planta legendada na orientação norte-sul.
1 - Entrada principal
2 - Entrada Olival
3 - Entrada portão
4 - Pracetas circular com fonte
5 - Alameda nascente
6 - Alameda sul
7 - Lago
8 - Ilha
9 - Ponte
10 - Acesso ao lago da entrada principal
11 - Escadaria de acesso ao lago
12 - Belvedere junto ao lago
13 - Túnel
V - Veredas
A Grade (Pier and railing) e os Portões (Entrance Gates)
Lamb apresenta o desenho da grade que circundava todo o recinto e do portão a nascente junto à alameda do Olival abrindo para a Academia e para o Mercado do Anjo.
cd18fig. 23 – Desenho da grade e dos seus suportes (Pier and railing) e do portão da entrada (Entrance Gates).
A entrada principal (Principal Entrance)

Para marcar a entrada principal (nº1) Edward Buckton Lamb desenha um edifício de planta quadrada encimado por uma cúpula que assenta em quatro pilares e onde se acede por um elaborado portão em ferro.
cd19fig. 24 - Alçado e planta da Entrada principal (Principal entrance)
Esta entrada dá acesso a uma clareira circular centralizada por uma fonte que se repete a norte e a nascente (n.º4).
cd20fig. 25 - Plantas da Entrada principal e da praceta adjacente com a fonte central.
A Alameda sul-norte (Terrace Promenade)

A partir da entrada principal o espaço do jardim organizava-se do lado nascente por uma larga e arborizada Alameda sul-norte (Terrace Promenade), que sendo eliminadas as construções existentes permitiria uma vista sobre o Douro, sobre Gaia e mesmo sobre o mar (n.º5).
cd21fig. 26 – A Alameda poente destacada na planta colorida.
Na extremidade norte desta Alameda uma outra praceta circular semelhante à da entrada com bancos (seats) e também com uma fonte central (Fountain) (n.º4).
Bancos (Covered Seats) e Fontes (Fountains)
cd22fig. 27 – O desenho dos bancos cobertos.
cd23fig. 28 – Fonte (n.º 4) Elevation e Plan of Fountain.
Como curiosidade mostra-se um número de The Gardener’s Magazine, que em 1833 publica uma gravura de uma fonte desenhada por Edward Buckton Lamb, com o seguinte comentário:

Fig. 69. is the composition of a talented young architect, Edward Buckton Lamb, Esq.; it may be formed of cast iron, like that of Mr. Rowley, and the wall of the lower basin may be of granite or marble. The Mona marble, from its hardness and unfitness for more delicate purposes, is particularly suitable. [1]
cd24fig. 29 - Estampa 69 de The Gardener’s Magazine de 1833.
A Alameda poente-nascente
A partir da entrada principal parte uma outra Alameda (n.º 6) no sentido poente-nascente ligando as duas portas, rematada por uma outra praceta circular também com uma fonte no centro. Sensivelmente a meio desta alameda uma praceta elíptica com bancos e onde seriam colocadas duas estátuas a poente e a nascente.
cd25fig. 30 - A Alameda sul destacada na planta colorida.
A colocação deste mobiliário de jardim, de esculturas e de outros equipamentos deve, de acordo com Delille, ser feita com gosto, não muito imprevisivel mas também não muito anunciada.
Qu’enfin les ornemens avec goût soient placés,
Jamais trop imprévus, jamais trop annoncés.
 [2]

Segundo a Montolieu nem muito separados nem muito juntos, criando surpresas:
Delight the scent, or gratify the taste;
Now flourish separately, now unite,
Or open unexpectedly to sight.
 [3]

Destas entradas e alamedas rectilíneas partiriam veredas cheias de surpresas e de descobertas, que como propõe Delille:
Des sentiers sinueux les routes indécises,
Le désordre enchanteur, les piquantes surprises,
Des aspects où les yeux hésitoient à choisir,
Varioient, suspendoient, prolongeoient leur plaisir
. [4]

Na versão inglesa:
The rivulets meandered unrestrained;
In full luxuriance vegetation reigned;
Variety perplexed their wavering view,
Prolonged their pleasures, and afforded new
. [5]
Ou ainda no poema de Delille são as veredas que guiando os nossos passos, embelezam os lugares.
Les sentiers, de nos pas guides ingénieux,
Doivent, en les montrant, nous embellir ces lieux.
[6]
Traduzido por Maria Henrrietta Montolieu como:
Paths should, like skilful guides, our steps direct,
Disclose the scenes, and heighten their effect.
[7]

O Lago, a Ilha e a Gruta.

No centro do jardim criando um ambiente romântico seria construído um lago (n.º 7) tendo no seu centro uma ilha, ou melhor duas ilhas (n.º8) unidas por uma ponte (n.º9).
cd26fig. 31 – O lago com as ilhas no centro do jardim.
Também Delille menciona as ilhas como o mais rico dos elementos da água.
Ou qu’un frais bâtiment, des chaleurs respecté,
Se présente de loin dans les flots répété,
Ou bien, faites éclore une île de verdure.
Les îles sont des eaux la plus riche parure.
[8]
E na versão inglesa a ilha com a sua vegetação surge das águas como uma esmeralda:
Which, unmolested by the summer heats,
The brilliant mirror of the lake repeats;
Or let a verdant island interfere,
And like an emerald enchased appear;
[9]
cd27fig. 32 – As ilhas na planta colorida.

cd28fig. 33 – As ilhas na planta legendada.
As ilhas são formada por enormes rochedos que Delille evoca:
Ô rochers! ouvrez-moi vos sources souterraines:
Et vous, fleuves, ruisseaux, beaux lacs, claires fontaines,
Venez, portez partout la vie et la fraîcheur.
 [10]
Na versão inglesa da Montolieu:
Ye rocks, who owe your ornaments to me,
Now set your subterranean sources free;
And ye streams, rivers, lakes, and fountains, thence
New life, new freshness, new delights dispense.
 [11]

Ligando as duas ilhas uma ponte (n.º 9). O acesso às ilhas é feito ainda por túnel (n.º13) criando essas românticas grutas e subterrâneos.
cd29fig. 34 – As ilhas no centro do lago (8) ligadas por uma ponte (9).
Junto do lago a nascente um Belvedere a que se acede por uma pequena escadaria a partir de um terraço com canteiros (n.º12).
A arborização e plantação
Finalmente para conformar o jardim, toda esta estrutura seria plantada e arborizada evocando o Paraíso Perdido de John Milton.
Out of the fertile ground he caused to grow
All trees of noblest kind for sight, smell, taste.
[12]
A plantação do jardim deve segundo Delille:
Sur l’émail velouté d’une fraîche verdure,
Mille arbres, de ces lieux ondoyante parure,
Charme de l’odorat, du goût et des regards,
Élégamment groupés, négligemment épars,
Se fuyoient, s’approchoient, quelquefois à leur vue
Ouvroient dans le lointain une scène imprévue;
Ou, tombant jusqu’à terre, et recourbant leurs bras,
Venoient d’un doux obstacle embarrasser leurs pas;
Ou pendoient sur leur tête en festons de verdure,
Et de fleurs, en passant, semoient leur chevelure.
Dirai-je ces forêts d’arbustes, d’arbrisseaux,
Entrelaçant en voûte, en alcôve, en berceaux
Leurs bras voluptueux, et leurs tiges fleuries?
[13]
E que Maria Henrietta Montolieu reescreve como:
O’er the soft velvet verdure of the field
A thousand trees their waving umbrage yield,
Here lightly grouped, there negligently placed,
Delight the scent, or gratify the taste;
Now flourish separately, now unite,
Or open unexpectedly to sight
Extensive prospects, in perspective seen
Beneath an arch of overshadowing green;
Or bending to the ground wild branches stray,
And sweetly troublesome perplex the way;
Or loosely pendent o’er the beauteous pair,
Strew with fresh blossoms their ambrosial hair. [14]

[1] The Gardener’s Magazine, conducted by J. C. Loudon, F. L. S. &c., Author of the Encyclopaedias of Gardening, of Agriculture, ando f Cottage, Farm and Villa Architecture and Editor of the Encyclopaedia of Plants. Printed for Longman, Rees, Orme, Brown, Green, and Longman, Paternoster Row, London 1833. (Vol. IX, pág. 216). Tradução: Fig. 69. É a composição de um talentoso jovem arquiteto, Edward Buckton Lamb, Esq.; Pode ser fabricada em ferro fundido, como a do Sr. Rowley, e a bacia inferior pode ser de granito ou mármore. O mármore Mona, pela sua dureza e capacidade para formas mais delicadas, é particularmente adequado.
[2] Jacques Delille (1738-1813), Les Jardins, Poëme par Jacques Delille.Nouvelle Édition revue, corrige et augmentée. Chez L. G. Michaud, Libraire Rue de Cléry, n.º13 Paris. M. DCCC. XX. Chant premier (pág.48). Tradução:
Que enfim os ornamentos com gosto sejam colocados
Nem muito imprevistos, mas nem muito anunciados.

[3] Maria Henrietta Montolieu (1751-1832), The Gardens. Poem translated from the french of the Abée Delille by Mrs. Montolieu. The second Edition. Printed by T. Bensley, Bolt Court; and sold by Robson, New Bond Street; White Flert Street; Evans, Pall Mall; and Kerby, Stafford Street. London 1805. Canto the first (pág.31). Tradução:
Ornamentos deliciosos ou com bom gosto;
Ora se irmanam ou separadamente florescem,
Ou abrem para uma inesperada paisagem.

[4] Jacques Delille (1738-1813), Les Jardins, Poëme par Jacques Delille.Nouvelle Édition revue, corrige et augmentée. Chez L. G. Michaud, Libraire Rue de Cléry, n.º13 Paris. M. DCCC. XX. Chant premier (pág.57). Tradução:
Os caminhos indecisos, as sinuosas veredas
A encantadora desordem, as picantes surpresas,
Os aspectos onde o olhar hesita escolher,
Variam, suspendem, prolongam o prazer.

[5] Maria Henrietta Montolieu (1751-1832), The Gardens. Poem translated from the french of the Abée Delille by Mrs. Montolieu. The second Edition. Printed by T. Bensley, Bolt Court; and sold by Robson, New Bond Street; White Flert Street; Evans, Pall Mall; and Kerby, Stafford Street. London 1805. Canto the first (pág.31). Tradução:
Pelo meio da vegetação luxuriante;
Na perplexidade de uma visão vacilante,
As veredas serpenteam sem restrições;
Prolongando e oferecendo novas emoções.

[6] Jacques Delille (1738-1813), Les Jardins, Poëme par Jacques Delille.Nouvelle Édition revue, corrige et augmentée. Chez L. G. Michaud, Libraire Rue de Cléry, n.º13 Paris. M. DCCC. XX. Chant quatrième (pág.132). Tradução:
As veredas, dos nossos passos guias engenhosos,
Devem, ao mostrar, os lugares tornar formosos.
[7] Maria Henrietta Montolieu (1751-1832), The Gardens. Poem translated from the french of the Abée Delille by Mrs. Montolieu. The second Edition. Printed by T. Bensley, Bolt Court; and sold by Robson, New Bond Street; White Flert Street; Evans, Pall Mall; and Kerby, Stafford Street. London 1805. Canto the fourth (pág. 110). Tradução:
As veredas devem, conduzir e os nossos passos guiar,
Mostrando os recantos, e os seus efeitos aumentar.

[8] Jacques Delille (1738-1813), Les Jardins, Poëme par Jacques Delille.Nouvelle Édition revue, corrige et augmentée. Chez L. G. Michaud, Libraire Rue de Cléry, n.º13 Paris. M. DCCC. XX. Chant troisième (pág.122). Tradução:
Que uma fresca edificação, do calor respeitando,
Se apresente ao longe nas águas ondulando,
Ou então fazei eclodir uma ilha de verdura.
As ilhas são das águas a mais bela arquitectura.

[9] Maria Henrietta Montolieu (1751-1832), The Gardens. Poem translated from the french of the Abée Delille by Mrs. Montolieu. The second Edition. Printed by T. Bensley, Bolt Court; and sold by Robson, New Bond Street; White Flert Street; Evans, Pall Mall; and Kerby, Stafford Street. London 1805. Canto the third (pág.98). Tradução:
Os que, sem ser atingidos pelo calor do verão,
O espelho brilhante do lago repetirão;
Ou deixem uma verdejante ilha permitir,
E, como uma aparente esmeralda, surgir;

[10] Jacques Delille (1738-1813), Les Jardins, Poëme par Jacques Delille.Nouvelle Édition revue, corrige et augmentée. Chez L. G. Michaud, Libraire Rue de Cléry, n.º13 Paris. M. DCCC. XX. Chant troisième (pág.112). Tradução:
Oh rochedos! Abri as vossas nascentes profundas:
E vós, rios, ribeiros, lagos, fontes claras e fecundas,
Vinde, e trazei a toda a parte, a vida e a frescura.

[11] Maria Henrietta Montolieu (1751-1832), The Gardens. Poem translated from the french of the Abée Delille by Mrs. Montolieu. The second Edition. Printed by T. Bensley, Bolt Court; and sold by Robson, New Bond Street; White Flert Street; Evans, Pall Mall; and Kerby, Stafford Street. London 1805. Canto the third (pág.101). Tradução:
Oh! Rochedos mostrem-me os vossos adornos
Libertai agora as vossas fontes profundas;
E vocês, rios, ribeiros, lagos e fontes,
Deem-nos vida nova, nova frescura, deliciosos horizontes.

[12] John Milton (1608-1674), Paradise Lost - A Poem Twelve Books. (na 2.ª edição 1674). Published by Timothy Belington Sylvester T. Goss printer, Boston 1820. (Book IV, v.216, pág.84). Tradução de António José de Lima Leitão (1787-1856), edição digital Brasil 2006.
Muito excedendo o que era dado ao solo: / Coloca ali as árvores mais aptas / Para encantar a vista, o olfato, o gosto.
[13] Jacques Delille (1738-1813), Les Jardins, Poëme par Jacques Delille.Nouvelle Édition revue, corrige et augmentée. Chez L. G. Michaud, Libraire Rue de Cléry, n.º13 Paris. M. DCCC. XX. Chant premier (pág.57). Tradução:
No esmalte aveludado de uma fresca verdura
Mil árvores, desses lugares de ondulante frescura,
Dos aromas, dos sabores e dos olhares encantados,
Elegantemente agrupados, descuidadamente espalhados,
Fugindo, aproximando-se, às vezes à vista
Mostrando ao longe uma cena imprevista;
Ou, caindo no chão e curvando os braços,
Vinham com um leve obstáculo tolher os seus passos;
E onde festões de verdura as cabeças coroando
E as flores, pelos caminhos, como cabelos semeando.
Diria desta florestas de plantas, e de arbustos,
Entrelaçando em abóbadas, em alcovas, ou em ninhos
Seus voluptuosos braços e seus floridos raminhos?

[14] Maria Henrietta Montolieu (1751-1832), The Gardens. Poem translated from the french of the Abée Delille by Mrs. Montolieu. The second Edition. Printed by T. Bensley, Bolt Court; and sold by Robson, New Bond Street; White Flert Street; Evans, Pall Mall; and Kerby, Stafford Street. London 1805. Canto the first (pág.31). tradução:
A mais suave verdura de veludo do campo
Mil árvores arvoram ondulam na sombria escuridão,
Aqui ligeiramente agrupados, ali por negligência colocados,
Encantado aroma ou gratificante sabor;
Ora florescendo separadamente, ora ali se unindo,
Ou inesperadamente abrindo para o olhar
Perspectiva abrangente, ou profunda visão
Sob um sombrio arco de verde vegetação;
Ou dobrados para o chão, selvagens galhos se inclinam,
Que incomodam os perplexos mas doces caminhos;
Ou pendendo livremente sobre o belíssimo par,
Espalhando com flores frescas os seus cabelos dourados.


CONTINUA na 

Parte V - O Jardim da Cordoaria de Émile David


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