Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Aproximação ao Retábulo de Issenheim de Mathis Grünewald 3

III parte – A base do Retábulo.

Escultura: Santo Antão, Santo Agostinho, São Jerónimo, e Cristo entre os Apóstolos.

Pintura: Visita de Santo Antão a São Paulo de Tebas, e Tentação de Santo Antão.

3. A base do retábulo
RETABLE ouvertfig. 1 – Esquema do retábulo aberto na totalidade.
O retábulo tem um painel central com Santo Antão ao centro e Santo Agostinho e São Jerónimo nos lados com esculturas pintadas e douradas, de Nikolaus Hagenauer (c. 1445/1460- a.1538) e realizadas cerca de 1500.
Na parte inferior uma mísula atribuída a Desiderius Beichel cujo nome figura na traseira de uma das esculturas.
Nos painéis laterais pintados por Grünewald, figura à esquerda do espectador, o encontro entre Santo Antão e São Paulo o Eremita e à direita a Tentação de Santo Antão.
gr92fig. 2 – A base do retábulo
3.1 Painel central
Ao centro a figura patriarcal de Santo Antão, o patrono dos Antoninos, em majestade sentado num trono. Na parte superior os símbolos dos quatro evangelistas.
Ao seu lado Santo Agostinho e São Jerónimo.

gr93fig. 3 – O painel central.


Santo Antão

Santo Antão (?-356), de quem Atanásio escreveu a biografia, está sentado no trono segurando na mão direita o Tau como símbolo de pastor e um livro, símbolo do ensino, na mão esquerda.

gr94 
fig. 4 – Pormenor do painel central com a escultura de Santo Antão.

As figuras aos pés de Santo Antão
Em baixo, aos seus pés, um porco e duas pequenas figuras (cópias das originais), de um burguês olhando para o Santo a quem oferece um galo e de um camponês olhando para o espectador e apontando para o Santo a quem oferta um porco.
A oferta de um galo é provavelmente uma referência a Esculápio associada com as capacidades de cura de Santo Antão. É uma tradição popular que se mantém em algumas localidades do nosso país de oferecer o melhor galo no dia de Santo Antão.

gr94afig. 5 – O porco e o camponês segurando um outro porco.

O porco é associado frequentemente a Santo Antão, como na Divina Comédia onde Dante escreve:

Di questo ingrassa il porco sant’Antonio,* 
e altri assai che sono ancor più porci,
 pagando di moneta sanza conio. [1]
 
*Nota em italiano e em francês Santo Antão é designado por Santo Antonio e Saint Antoine.


Esta associação entre o Santo e o porco parece ter resultado do consumo da carne de porco estar associada à cura e à convalescença dos seus enfermos, e ao facto de a banha de porco ser usada como unguento nos órgãos afectados pela doença de Santo Antão.
Por isso para alimentar todos os enfermos, e para a produção do unguento, os Antoninos necessitavam de se dedicar à produção dos suínos tendo uma autorização especial para permitir que andassem à solta nas suas propriedades.
Note-se que no retábulo da Natividade acima da cabeça do Menino figura, de uma maneira quase imperceptível, uma vara de porcos.
gr94bfig. 6 – A vara de porcos no painel da Natividade.


Também se mantém a tradição popular em algumas povoações de Portugal de, na época da matança do porco, oferecer ao santo produtos dessa matança.

3.2. Santo Agostinho e São Jerónimo

Santo Agostinho, de quem os Antoninos adoptaram a Regra, tem os braços cruzados sobre o peito e com a enluvada mão direita aponta significativamente para Santo Antão.
Aos pés ajoelhado Jean d’Orlier, um dos responsáveis do Hospício de Issenheim e pela confecção do retábulo.
gr96fig. 7 – Painel lateral com a escultura de S. Agostinho (160 cm.).

São Jerónimo, o tradutor da Bíblia e o autor da vida de São Paulo o Eremita, com o chapéu de cardeal, a mão direita apontando para Santo Antão e a Bíblia na mão esquerda.
Aos seus pés o leão a quem tendo tirado uma farpa da pata o seguiu desde então, segundo a iconografia da época. [2]

gr97fig. 8 – Painel lateral com a escultura de S. Jerónimo (162 cm.).



3.3. Mísula
Na mísula estão representados Cristo ao centro e os Apóstolos. Estas esculturas são uma reconstituição recente já que foram destruídos durante a Revolução Francesa.


gr98fig. 9 – A mísula.
Legenda *
1 – Cristo 2 – S. Tiago menor, S. Filipe e S. Bartolomeu 3 – S. João, S. André e S. Pedro 4 – S. Judas Tadeu, S. Simão e S. Lucas 5 – S. Mateus, S. Tiago e S. Tomé.

*Poderão não estar devidamente identificados os Apóstolos.

[1] Dante Alighieri, Divina Comédia, tradução de Vasco Graça Moura. Quetzal Editores, 2011. (Paraíso, Canto XXIX, v. 124-126).
[e disto a Santo Antão já gordo grunhe o
Porco, e mais outros porcos enxudia,
Pagando com moeda sem ter cunho.]

[2] Para a iconografia ver a iluminura de António de Holanda no Anexo ilustração 8.

Os painéis laterais
3.4. O encontro de S. Antão e de S. Paulo, o Eremita
A pintura representa o encontro entre os dois santos eremitas, Santo Antão e São Paulo, o Eremita ou de Tebas, cujas vidas foram escritas, respectivamente, por Santo Atanásio (c.296-373) Vita Antonii e por São Jerónimo (c.347-420) Vita Pauli primi eremitae. [1]

gr99fig. 10 – Painel do Encontro dos eremitas (256 x 141 cm.)

Grünewald procura representar a cena baseando-se nos textos que afirmavam que Santo Antão, então com 82 anos, imaginou-se o mais antigo eremita no deserto.
Mas Deus, durante um sonho, indicou-lhe que havia outro Santo que há mais tempo habitava no deserto.
Antão, movido pela dúvida se naquele deserto algum humano / lhe houvesse nas virtudes excedido, põe-se à procura de S. Paulo Eremita, o santo que Deus lhe indicara.
O acontecimento é relatado no Primaz do Ermo:
IV
Aquele, sempre igual, sempre sereno,
Que passeava a verde amenidade,
Homem celestial, anjo terreno,
Um composto de barro e devindade.
Que ali, no ermo tosco e vale ameno.
Tantos prodígios fez, e sem vaidade.
Do grande Antão vos falo e não prossigo,
Porque em dizer Antão, já tudo digo.

V
A este, pois, ermita soberano,
Estando em sua mente suspendido,
Lhe veio um pensamento, sem engano,
Da alta Providencia ali trazido:
Se naquele deserto algum humano
Lhe houvesse nas virtudes excedido?!
— Sim, lhe responde Deus, por raro tomem
Haver homem que exceda a tanto homem

VI
A este, pois, que no deserto ha sido
Em tempo e graças, mais avantajado,
Lhe manda Deus que busque prevenido
Porque de tal tesouro tenha achado.
Partiu logo a busca-lo, confundido,
Dos preitos divinos humilhado
Sem levar mais avio nesta ausência
Que o bordão, o desejo, a diligencia.
 [2]


Após uma caminhada cheia de peripécias, entre as quais ser atacado pelos demónios e as tentações, Santo Antão acaba por encontrar S. Paulo de Tebas e tem então a longa conversa que o painel retrata.
Por isso cronologicamente os dois painéis do Encontro e da Tentação estão trocados, se considerarmos uma leitura da esquerda para a direita.
No entanto no final veremos a razão pela qual Grünewald, inteligentemente, prefere trocar a ordem os painéis.

gr100afig. 11 – Pormenor do painel com o Encontro entre os Eremitas.

No primeiro plano, os dois santos conversam tranquilamente sentados de frente um para o outro.
Ao fundo uma paisagem algo desolada, com árvores desfolhadas e um pequeno fio de água correndo por entre uma vegetação cujo tom esverdeado se confunde com o tom do céu.

Aqui Antão e Paulo já sentados
No pardo lenho on na pedra clara:
— Se estão fieis, os tempos, se inda errados,
Se humano sacrificio tinge a ára.
Se é Deus ou são os deuses adorados,
Se soa voz escura ou doce metro,
Quem sustenta a tiara, e quem o Scétro?
[3]

 

Santo Antão

gr101fig. 12 – Pormenor da figura de Santo Antão.

Santo Antão está surpreendentemente vestido para um homem que acabou de atravessar o deserto com um manto cinzento pérola, uma túnica azul e tendo na cabeça um barrete rosa.[4]
O traje, com manto cinzento azulado e túnica azul com mangas púrpura, tornar-se-á o hábito dos Antoninos.
Santo Antão olha o espectador, a mão esquerda apoiando-se no Tau que evoca, simultaneamente, as suas raízes egípcias e as muletas dos estropiados, e a mão direita indicando o outro respeitado eremita.

gr102compfig. 13 – Pormenor das mãos de Santo Antão.

No rochedo está discretamente pousado o brasão de Guido Guersi, o prior da Abadia e Hospício de Issenheim entre 1490 e 1516, que, depois de Jean d’Orlier, terá feito executar o retábulo.

gr103dfig. 14 – Pormenor do brasão de Guido Guersi.

S. Paulo o Eremita
Em frente está S. Paulo o Eremita (229-342), também conhecido por Paulo de Tebas, que tinha 22 anos quando se retirou para o deserto, onde viveu até à idade de 113 anos, tendo morrido logo depois deste encontro com Santo Antão.
Está vestido com uma túnica, que teceu das folhas da sua palmeira, a qual na dureza parecia uma tábua e no rigor era um contínuo cilício; porque o santo a talhou de sorte que o largo das folhas ficava para fora do corpo (…) e as pontas e bicos delas para a parte de dentro, ferindo-lhe as carnes por maior mortificação… [5]



gr108compfig. 15 – Pormenor da figura de São Paulo de Tebas.

Para além do rigoroso desenho das mãos, Grünewald leva o seu realismo até ao ponto de pintar os pelos dos braços de S. Paulo.

gr104afig. 16 – Pormenor do braço de São Paulo de Tebas.

A gruta e a palmeira



gr105fig. 17 – Pormenor da palmeira na entrada da gruta do eremita.

S. Paulo o Eremita durante a sua permanência no deserto habitou uma gruta, junto da qual estava uma fonte, lembrando a Bíblia Tirareis água com alegria das fon­tes da salvação. (Is. 12.3).
Junto à gruta Grünewald pinta uma grande e exuberante palmeira, lembrando que O justo florescerá como a palmeira… (Sl.92.18.).
Aquela palmeira de cujas folhas o eremita fez a sua vestimenta e de cujos frutos se alimentou até aos 43 anos.

O corvo
Se até aos 43 anos São Paulo se alimentou dos frutos da palmeira, no resto da vida, foi miraculosamente alimentado por um corvo, que todos os dias lhe trazia metade de um pão.
Grünewald baseado na vida de Santo Antão pinta o corvo trazendo no bico um pão inteiro, já que terminada a conversa, um corvo voa em direção a eles, e deixa cair um pão inteiro. "Eis, disse Paulo, o que Deus envia para a nossa comida. Desde há muitos anos que a sua bondade em cada dia me enviou meio pão; Mas como me veio visitar, Jesus Cristo duplicou a provisão do seu servidor". [6]



gr106fig. 18 – Pormenor com o corvo que durante décadas alimentou São Paulo.

Note-se que a referência ao pão também pode indicar que os Antoninos parecem ter pressentido que a doença designada de Fogo de Santo Antão se transmitia pelo excesso de consumo de pão de centeio.
Grünewald pinta as duas personagens, num expressivo diálogo em que perante a dádiva do pão, Paulo olha para cima e mostra, num gesto imperioso da mão direita com o indicador esticado, a quem o pão se destina.
Antão, humilde, com um gesto da mão direita recusa a favor de Paulo.


No Primaz do Ermo o episódio é assim relatado:
X
Daqui a ave, corvo na entidade,
Aos Eremitas vem em vôo brando,
E deixando-lhe o pão, com brevidade
Essas puras esferas vae cortando:
Ao soberano autor desta piedade
As graças Paulo dá glorificando,
Vendo na sua meza ha tantos dias,
Prato que serviu ao grande Elias.

XI
Haverá sessenta anos, Paulo conta,
Que esta ave meio pão me traz constante,
Hoje, que hospede ha de tanta monta,
Vem dobrada a ração, porque te espante:
Da alta providencia que os remonta,
Um mapa e outro mapa alegre cante,
Pois estende piedades sem desvio
Desde a tórrida zona ao pólo frio.

XII
Ao partir do pão os dois se escusam,
Que também ha politica em o deserto,
E depois que um, e outro assim o uzam,
A porfia, por fim, vem a concerto:
Ambos pegam no pão, já não recusam,
E dele o que lhe toca, levam certo;
Com que nesta contenda, em que demoram,
Sendo vencidos, vencedores foram.
[7]



gr107fig. 19 – Pormenor do olhar e do gesto expressivo de Santo Antão.


gr108compfig. 20 – Pormenor do olhar e do expressivo gesto de São Paulo.


A corça e o veado
Entre Santo Antão e São Paulo aninha-se confiante uma corça evocando o Salmo 42 2Como suspira a corça pelas águas correntes, assim a minha alma suspira por ti, ó Deus.


gr109fig. 22 – Pormenor da corça entre os dois santos.

Por trás de Santo Antão um veado pasta tranquilamente uma dupla referência ao deserto (Is.35.1 O deserto e a terra árida vão alegrar-se, a estepe exultará e dará flores belas como narcisos) e aos enfermos entre os quais os paralíticos. (Is.6. o coxo saltará como um veado,…)


gr110fig. 23 – Pormenor do veado por trás de Santo Antão.

As plantas medicinais
No solo, junto aos Santos, florescem as plantas com que os Antoninos preparavam os unguentos que serviam para tratar a doença do fogo de Santo Antão.


gr111fig. 24 – Pormenor das plantas aos pés dos santos.


gr111bfig.25 – Pormenor de uma planta.

DCF 1.0fig.26 – Pormenor de outras plantas.

Foram referenciadas 14 dessas plantas:
Botão de oiro (Ranunculus repens)
Erva contraveneno (Vincetoxicum officinale Moech)
Erva-férrea ou prunela (Prunella vulgaris)
Genciana (Gentiana cruciata)
Grama (Triticum repens)
Junca-fusca (Cyperus fuscus)
Língua de ovelha (Plantago lanceolata)
Papoila longa (Papaver dubium)
Tanchem (Plantago major)
Trevo branco (Trifolium repens)
Trigo vermelho (Triticum spelta)
Verbena (Verbena officinalis)
Verónica (Veronica chamaedrys)
Urtiga-branca (album Lamium) *
[*Os meus limitados conhecimentos de botânica não me permitem garantir os nomes populares das plantas.]


A morte de Paulo o eremita
Após este encontro Santo Antão retira-se para ir buscar o manto que Santo Atanásio havia ofertado a São Paulo. No regresso encontra o anacoreta morto e ajudado por dois leões cava o sepulcro.

Morto Paulo, mas vivo na postura.
Lhe abrem dous leons a sepultura.
 [8]

Antão No manto de Atanazio decantado / Envolve o corpo, por mortalha dina, e o deposita na cova aberta pelos leões, enquanto a sua alma é transportada para o céu por dois anjos.
Santo Antão ficou com o traje de folhas de palmeira.

[1] O mesmo tema, embora de uma forma algo diferente, é tratado pelo Mestre dos Arcos em 1530/1550 (Anexo ilustração 9).
[2] Versos atribuídos por uns como Isabel Morujão em O tema do Eremitismo na literatura conventual feminina: S. Paulo Eremita em A Preciosa de Soror Maria do Céu: dos relatos em prosa à narrativa épica, Via spiritus 9, 2002. (pág.255-286) a Soror Maria do Ceo como autora de A Preciosa. Obras de misericórdia em primorosos e mysticos diálogos expostas: Elogios dos Santos em vários cantos poéticos e históricos expendidos por Marina Clemencia, Religiosa de S. Francisco no Convento da Ilha de S. Miguel; mandados à impressão, e offerecidos á May Santíssima do Carmo Maria Senhora Nossa, por Sylvano das Ondas, Segunda Parte, Lisboa Occidental, na Officina de Musica, 1733.
Por outros como Mario Saa, a Simão Vaz de Camões em Primaz do Ermo Paulo Eremita Canto I est. IV a VI in Mario Saa, Poemas Heroicos de Simão Vaz de Camões, Lvmen Empresa Internacional Editora Lisboa-Porto-Coimbra sede Rua do Ouro 132 a 138, Lisboa 1921. (pág. 89).
[3] Simão Vaz de Camões, Primaz do Ermo Paulo Eremita, Canto terceiro, Estrofe VI. in Mario Saa, Poemas Heroicos de Simão Vaz de Camões, Lvmen Empresa Internacional Editora Lisboa-Porto-Coimbra sede Rua do Ouro 132 a 138, Lisboa 1921. (pág. 113).
[4] Joris-Karl Huysmans (1848-1907), Les Grünewald du Musée de Colmar in Trois Églises et Trois Primitifs, Paris, Plon 1908. (pág.182). […) saint Antoine étonnamment vêtu pour un homme qui vient de traverser le désert d'un manteau gris perle, d'une robe bleue, et coiffé d'une toque rose…].
[5] Frei Henrique de Santo António (1745-1752). Chronica dos Eremitas da Serra de Ossa No Reyno de Portugal e dos que Florescerão em Mais Ermos da Christandade. Tomo I, que contém a história anachoretica e cenobitica dos primeiros cinco séculos do mundo christão, 2 tomos. Lisboa: na Officina de Francisco da Sylva. Citado por Isabel Morujão, O tema do Eremitismo na literatura conventual feminina: S. Paulo Eremita em A Preciosa de Soror Maria do Céu: dos relatos em prosa à narrativa épica, Via spiritus 9, 2002. (pág.255-286).
[6] Vies des Peres, des Martyrs, et des autres principaux Saints, Tirées des Actes originaux& des Monuments les plus authentiques; avec des Notes historiques & critiques. Ouvrage traduit librement de l’Anglois, de feu M. Alban Butler, par M. l’Abbé Godesicard, Chanoine de S. Honoré.Nouvelle Édition, Revue, corrige & augmentée. Tome I. Chez Barbou, rue & vis-à-vis la grille des Mathurins, Paris 1783. (pág. 251).
[La conversation finie, un corbeau vole vers eux, & laisse tomber un pain entier. “Voilà, dit Paul, ce que Dieu envoie pour notre nourriture. Il y a pluſieurs années que sa bonté me fournit chaque jour la moitié d'un pain; mais comme vous êtes venu me voir, Jesus-Christ a doublé la provision de son serviteur”.]
[7] Simão Vaz de Camões, Primaz do Ermo Paulo Eremita, Canto terceiro, Estrofes X, XI, XII, in Mario Saa, Poemas Heroicos de Simão Vaz de Camões, Lvmen Empresa Internacional Editora Lisboa-Porto-Coimbra sede Rua do Ouro 132 a 138, Lisboa 1921. (pág. 115).
[8] Simão Vaz de Carvalho, Primaz do Ermo, Epígrafe do Canto sétimo e último, in Mario Saa, Poemas Heroicos de Simão Vaz de Camões, Lvmen Empresa Internacional Editora Lisboa-Porto-Coimbra sede Rua do Ouro 132 a 138, Lisboa 1921. (pág. 153).


3.5. A Tentação de Santo Antão


Por fim no último painel, Grünewald pinta a Tentação de Santo Antão tema na época tratado por outros pintores como Hieronymus Bosch (1450-1516) [1] ou Pieter Brueghel o jovem (1564-1637).

gr112fig. 27 – Painel de A Tentação de Santo Antão.(265 x 139 cm.).


Santo Antão atacado pelos demónios


Grünewald parece ter pintado o episódio da Legénde dorée (Legenda Aurea), que no capítulo sobre Santo Antão refere:
E então eles apareceram a ele sob a forma de vários animais selvagens, e o destroçaram cruelmente com os dentes, as garras e os chifres; e então apareceu um maravilhoso esplendor que expulsou todos os demónios. [2]




E ainda no Salmo 118 (117):
11Rodearam-me e cercaram-me,
mas eu aniquilei-os em nome do Senhor.
12Cercaram-me como um enxame de vespas,
a sua fúria crepitava como fogo entre espinhos,
mas eu aniquilei-os em nome do Senhor.
13Empurraram-me com violência para eu cair,
mas o Senhor veio em meu auxílio.



Assim Grünewald pinta Santo Antão atacado por uma multidão, caótica e irada, de demónios os quais se agitam e atropelam em volta do Santo caído por terra, e onde, por vezes, é difícil distinguir as partes do corpo e a quem pertencem.

gr113fig. 28 – Pormenor de Santo Antão deitado por terra e atacado pelos demónios.

Gustave Flaubert no seu livro, também intitulado A Tentação de Santo Antão, descreve a cena e coloca o próprio Santo a relatar na primeira pessoa que atacado por aterradores demónios, gritando aos meus ouvidos, deitaram-me por terra. [3]  

gr114compfig. 29 – Pormenor da figura do Santo deitado por terra.


Antão tem os cabelos puxados por um demónio, a boca aberta que parece gritar uma oração, e levanta o braço esquerdo com um gesto de protecção enquanto o braço direito no chão agarra desesperadamente o rosário e o bastão.

gr115compfig. 30 – Pormenor dos cabelos do santo.

Um estranho monstro, misto de crustáceo e de réptil com forte carapaça, pescoço e cabeça de ave, morde com o poderoso bico, a mão direita do santo que se agarra ao rosário e ao bastão.


gr116compfig. 31 – Pormenor da mão direita do santo.


gr117compfig. 32 – Pormenor do monstro que morde a mão de Santo Antão.

gr118compfig. 33 – Pormenor do bico mordendo a mão do santo.

À esquerda do painel um demónio com uma cabeça de lobo cornudo agarra e puxa o manto cinzento azulado do santo, enquanto um outro com uma cabeça de peixe, o arrasta pelos cabelos e o ataca com um osso.

gr119fig. 34 – Pormenor dos monstros à esquerda do painel.

gr121compfig. 35 – Pormenor da cabeça de um dos monstros.

fgr119aig. 36 – Pormenor da cabeça do outro monstro.

Um outro com uma face de tubarão pisa-o com a pata apoiando-se com a mão esquerda no braço do santo.


gr123fig. 37 – Pormenor do monstro que pisa Santo Antão.



E um demónio com a forma de um gigantesco papagaio, com penas cinzentas e douradas, empunha um bastão pronto a desferir um golpe.

gr124fig. 38 – Pormenor do monstro papagaio.


gr125compfig. 39 – Pormenor do agressivo gesto do monstro papagaio.

Mais atrás um monstro com cara e asas de morcego e cornos de touro tenta agarrar com os dentes o manto do santo.


gr126fig. 40 – Pormenor dos monstro morcegos.

gr127fig. 41 – Pormenor da cabeça do monstro mordendo o manto de Santo Antão.

gr128compfig. 42 – Pormenor do olhos do monstro.



A parte superior do painel
Na parte superior do painel, num fundo de altas montanhas, outros demónios pegaram fogo à cabana do santo e procuram destrui-la.


gr129compfig. 43 – Pormenor da arruinada cabana de Santo Antão.

No céu o Arcanjo S. Miguel e Deus Pai, pintados como diáfanas aparições, intervêm em auxílio e salvação de Santo Antão.

gr130afig. 44 - Pormenor da figura de Deus-Pai e do Arcanjo São Miguel.


O Arcanjo São Miguel com a sua enorme e dourada lança ataca a demoníaca legião,


gr131a 
fig. 45 – Pormenor da figura de São Miguel atacando o demónio.

Como descreve Diego de Hojeda em La Cristada:
Vibra el Arcángel centellosa lanza
De estrepitosos rayos estallantes:
A los demonios trépidos alcanza,
Y en hediondas cenizas humeantes
Deshaciendo sus frentes, los alanza
A los hondos abismos llameantes; 
[4]

A figura de Deus Pai é representada num círculo dourado, como uma glória de sol.

gr132fig. 46 – Pormenor da figura de Deus-Pai.




O doente e o pedaço de papel

No primeiro plano deste painel, que não é por acaso o último do retábulo, Grünewald coloca no canto inferior esquerdo uma personagem em terrível sofrimento, coberta apenas de um pano amarelo e vermelho sobre a cabeça e os ombros, contorcendo-se de dores.
Foi atacada pela doença do Fogo de Santo Antão (ergotismo) e tem o corpo em degradação: o ventre inchado cheio de borbulhas sangrentas e manchas esverdeadas, a mão esquerda já reduzida a um coto, a direita agarrando com força um pano para poder suportar a dor, e o pé direito já deformado e desfazendo-se da perna.

gr133compfig. 47 – Pormenor da figura do doente com a doença então chamada Fogo de Santo Antão.

gr134bfig. 48 – Pormenor da mão do doente que agarra desesperadamente o pano.

Ninguém até então ousara pintar um tal sofrimento e degradação.


gr135fig. 49 – Pormenor salientando o doente e o papel escrito do outro lado do painel.


E exactamente do outro lado desta parte inferior da composição, Grünewald coloca um pedaço de papel onde se pode ler Ubi eras bone Jhesu ubi eras quare non affuisti ut sanares vulnera mea
[Quando aí estavas, meu bom Jesus, quando aí estavas, porque não vieste sanar as minhas feridas?]


Uma redução da frase completa que é Ubi eras bone Jhesu ubi eras? Quare (a principio) non affuisti (hic) ut (me adjuvares et) vulnera mea sanares?

Quando aí estavas, meu bom Jesus, quando aí estavas? Porque (no princípio) não vieste (me ajudares) e sanar as minhas feridas?


Santo Atanásio na Vida de Santo Antão escreve:
Antão, reconhecendo a ajuda que havia chegado, aliviado dos seus sofrimento, e respirando com maior facilidade, dirigiu-se nestes termos à aparição "Onde estavas, Senhor, e por que não vos mostraste desde o início?" Uma voz respondeu-lhe: Antão. Eu estava aqui, mas estava esperando para ser testemunha da tua luta já que desde sempre soubeste resistir e nunca foste derrotado, e a partir de agora serei teu protector e tornarei o teu nome famoso em todo o mundo. [5]





Há uma passagem do livro do século XIV Lo Specchio della Vera Penitenza, de Iacopo Passavanti que diz: E santo Antão, voltando a si, reconfortado, reconheceu a presença de Deus naquela luz, e gritou: Ubi eras, bone Jesu? Ubi eras? Ou onde estavas, bom Jesus? Onde estavas? [6]



E finalmente na Légende dorée, Jacques de Voragine escreve:
E Antão ficou imediatamente curado, e compreendeu, a presença de Deus estava lá, e então perguntou: "Onde estavas, Jesus Cristo? Por que não vieste de início para me ajudar e curar minhas feridas? "
E Nosso-Senhor respondeu-lhe: "Eu estava lá, mas estava esperando para ver a tua resistência; e como lutaste bem, darei-Te-ei uma enorme fama por todo o mundo.”
[7]




gr136 
fig. 50 – Pormenor do papel com a frase Ubi eras bone Jhesu ubi eras quare non affuisti ut sanares vulnera mea.

Assim Grünewald conclui as pinturas do retábulo que se prête à symboliser toutes les possibilités qui s'offrent au langage indéfini, mais surnaturel de l 'Art. [8]




Lembrando aos Antoninos o Evangelho de Mateus: Curai os enfermos, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demónios. Recebestes de graça, dai de graça. (Mt 10, 8).



Mas, sobretudo, transmitindo aos enfermos uma clara mensagem, após a completa leitura do retábulo, de aceitar e compreender que a medicina dos homens não é suficiente e a cura só é verdadeiramente possível com a ajuda divina.



É este o verdadeiro sentido e o significado do retábulo do Hospício Antonino de Issenheim.

[1] Ver Anexo ilustração 2.
[2] Jacques de Voragine (1228?-1298), La Légende Dorée traduite du latin et précédée d'une notice historique et bibliographique, par M. G. B. [Monsieur Gustave Brunet]. Librairie de Charles Gosselin, rue Jacob 30. Paris 1843. (pág. 84). [Et alors ils lui apparurent sous la forme de diverses bêtes sauvages et ils le déchireront cruellement à coups de dents, et de griffes, et de cornes; et alors il apparut une merveilleuse splendeur qui chassa tous les diables.]
[3] Gustave Flaubert (1821-1880), La Tentation de Saint Antoine, par Gustave Flaubert. Deuxième Edition, 28, Quai du Louvre, 28. Paris 1874. (pág.4). […épouvantables démons, hurlant dans mes oreilles, me renversaient par terre.]
[4] Diego de Hojeda, La Cristada, Poema Epico-Sacro. Del Padre Fray Diego deHojeda, Dominico de Lima, Compendiado por Don Juan Manuel de Berriozabal, peruano, entre los Arcades Cintio Elimeo; y dedicado al Exmo Señor Don Sebastian de Goyoneche, Obispo de Arequipa. Imprenta Moessard, Calle de Fustenberg, nº 8, Paris 1837. (pág. 236).
[5] Saint Athanase (295?-373), Vie de saint Antoine par saint Athanase. trad. littérale du texte grec par M. Charles de Rémondange. Imprimerie Émile Protat Macon 1874. (pág.20). [Antoine, reconnaissant le secours qui lui était venu, soulagé de ses peines et respirant avec plus de facilité, s'adressa en ces termes à l'apparition “Où donc étiez-vous, Seigneur, et pourquoi ne vous êtes-vous pas montré dès le commencement?”
Une voix lui répondit: Antoine. j'étais ici, mais j'attendais pour être témoin de ta lutte puisque tu as résisté et oue tu n'as pas été vaincu, je serai désormais ton protecteur et je rendrai, ton nom célèbre par toute la terre.]
[6] Iacopo Passavanti (1302-1357), Lo Specchio della Vera Penitenza. Nuovamente collazionato sopra testi manoscriti ed stampati da F.-L-, Polidori, Seconda Edizione Felice Le Monnier Firenza 1863. (Distinzione Terza, Cap. IV, pág. 58). [E santo Antonio, tornando in sé, tutto confortato, conobbe la presenzia di Dio in quella luce, e gridò: Ubi eras, bone Jesu? ubi eras? Or dov’eri tu, buon Iesù? dove eri?]
[7] Jacques de Voragine (1228?-1298), La Légende Dorée traduite du latin et précédée d'une notice historique et bibliographique, par M. G. B. [Monsieur Gustave Brunet]. Librairie de Charles Gosselin, rue Jacob 30. Paris 1843. (pág. 84). [Et Antoine fut aussitôt guéri, et il comprit, que Dieu était là, et il dit: “Où étiez-vous, Jésus-Christ? Pourquoi ne vîntes-vous au commencement pour m'aider el pour guérir mes plaies?” Et Notre-Seigneur lui dit: “J'étais là, mais j'attendais pour voir ta résistance; et comme tu as bien combattu, je le donnerai grande renommée dans tout le monde.”]


ANEXO


Algumas obras relacionadas que se podem admirar em Portugal (excepto a 1ª).

Ilustração 1

im1Ilustração 1 - Rogier Van der Weyden (1400-1464), Juízo Final 1446-52, óleo s/ madeira, 215 x 560 cm. Museu do Hôtel Dieu, Beaune.
Mais neste blogue em http://doportoenaoso.blogspot.pt/2010/06/virgem-do-chanceler-rolin-la-vierge-du.html
Ilustração 2

im2 
Ilustração 2 - Jheronymus Boschc. (1450-1516), Tentações de Santo Antão 1505/06, óleoMadeira de carvalho 131,5 x 119cm. (painel central), 131,5 x 53 (volantes); Museu Nacional de Arte Antiga.
Mais em Matriznet
http://www.matriznet.dgpc.pt/MatrizNet/Objectos/ObjectosConsultar.aspx?IdReg=247559
Ilustração 3

im3Ilustração 3 - Autor desconhecido, Fons Vitae 1515/17, óleo s/ madeira 267 x 210 cm. Museu da Misericórdia do Porto.
Mais neste blogue em http://doportoenaoso.blogspot.pt/2013/01/acerca-da-fons-vitae-da-misericordia-do.html
Ilustração 4


im4Ilustração 4 - Frei Carlos, Tríptico: Calvário - São Jerónimo e Santa Eustáquia - São João Baptista, 1520/530 óleo s/madeira, Museu Nacional de Arte Antiga.
Mais em Matriznet
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Ilustração 5

im5Ilustração 5 - António de Holanda, (atribuído), Sta. Maria Madalena. Fólio 286 verso. Livro de Horas1517/1551, iluminura em pergaminho 14, 2 x 10, 8 cm. Museu Nacional de Arte Antiga.
Mais em Matriznet http://www.matriznet.dgpc.pt/MatrizNet/Objectos/ObjectosConsultar.aspx?IdReg=265565

Ilustração 6
im6compIlustração 6 - Domingos Lopes, Descida da Cruz séc. XVII, óleo s/tela 89 x 218 cm. Museu de Aveiro.
Mais em Matriznet http://www.matriznet.dgpc.pt/MatrizNet/Objectos/ObjectosConsultar.aspx?IdReg=97235

Ilustração 7

im7Ilustração 7 - Gregório Lopes (c.1490-1550), Anunciação do Retábulo do Convento do Paraíso 1527, óleo s/ madeira de carvalho, 129 x 88 cm. Museu Nacional de Arte Antiga.
Mais em Matriznet
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Ilustração 8
im8Ilustração 8 - António de Holanda (c.1500-c.1570), S. Jerónimo 1517/51 iluminura s/pergaminho 14,2 x 10,8 cm. Livro de Horas, Fólio 294 verso. Museu Nacional de Arte Antiga.
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Ilustração 9
im9Ilustração 9 - Mestre dos Arcos, Santo Antão e São Paulo 1º Eremita, 1530/1550, óleo s/ madeira de carvalho 142 x 93 cm. Museu Nacional de Arte Antiga.
Mais em http://www.matriznet.dgpc.pt/MatrizNet/Objectos/ObjectosConsultar.aspx?IdReg=247707


Para terminar Santo Antão por Piero di Cosimo
im11
Piero di Cosimo (1462–1522), A Visitação com São Nicolau e Santo Antão abade, c. 1489/1490. Óleo s/ painel 184,2 x 188,6 cm. National Gallery, Londres.
s.antão


























































































































































































































































































































































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