Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

O Porto através de uma Panorâmica de c.1870 8


hsa1fig. 1 - Autor não identificado  Panorâmica do Porto c. 1870 (originais em vidro do Museu Nacional de Soares dos Reis Porto) cópia cedida por gentileza do arquitecto Manuel Magalhães.

Capítulo 7 – O Hospital de Santo António. A Rua do Carranca e o Hotel do Louvre.

hsa2fig. 2 – Pormenor da fig. 1 legendado.


10. Rua dos Carrancas (Rua da Liberdade, Rua de Aires Gouveia). Hotel do Louvre - 11. Hospital de Santo António (Fachada Sul) - 12. Igreja das Carmelitas - 13. Praça da Cordoaria. Praça do Peixe - Mercado do Peixe (c.1869).  - 14. Igreja da Graça  - 15. Hospício dos Expostos - 16. Academia Polytechnica  - 17. Capela das Almas (Igreja de S. José das Taipas)

I Parte - Acerca do Hospital de Santo António (n.º 11)

Não cumpre aqui elaborar uma história do Hospital de Santo António. Essa história está feita e disponível num conjunto de obras de diversos autores.

De entre elas destaca-se o livro de Hélder Pacheco Porto: Hospital de Santo António no Tempo da Cidade, uma documentada e exaustiva monografia sobre o Hospital e a sua inserção temporal na cidade.[1]

Por isso a partir da Panorâmica, iremos sobretudo referir o Hospital a partir dos anos 70 do século XIX, data provável desta fotografia, e o impacto urbano da sua construção.

Pelo desenho de Joaquim Cardoso de Villanova no início do século XIX o edifício do Hospital apresentava ainda este aspecto.


hsa5fig. 3 – Joaquim Cardoso de Villanova (1792/3-1850), Hospital da Misericórdia, imagem n.º77 do Album Edifícios do Porto em 1833, Biblioteca Pública Municipal do Porto, 1987.

Mas cerca de 1870, na Panorâmica é visível a fachada sul do Real Hospital de Santo António quase totalmente construída faltando apenas o torreão que remata o seu lado poente.

Este corpo sul do hospital assenta na rua da Restauração então arborizada e no muro que a suporta.

Também visível, a poente do recinto do Hospital, a rua do Carranca (depois rua da Liberdade e hoje rua de Aires Gouveia [2]).

hsa3fig. 4 – Pormenor da fig.1 tendo ao centro a fachada sul do Hospital de Santo António.


[1] Hélder Pacheco Porto: Hospital de Santo António no Tempo da Cidade, Santa Casa da Misericórdia do Porto e Edições Afrontamento, rua Costa Cabral 859, Porto 2010.

[2] Alberto Aires de Gouveia (1867-1941), pintor portuense.



O Hospital em 1865 no ano da Exposição Internacional do Porto


Na planta de Perry Vidal

Em 1865 na planta de Perry Vidal está cartografado o Hospital Real de S.to António (com o n.º 25).

A norte onde ainda não está construída a fachada, uma Praça no lugar do Carregal (praça do Duque de Beja) e a Praça Carlos Alberto e com o n.º26 o Hospital dos 3.os do Carmo.

Está já edificada a fachada nascente, abrindo para a Rua do Paço, onde com o n.º20 está o Cemitério do Carmo.

Para nascente a cerca do Convento do Carmo onde está assinalado com o n.º58 o Quartel da Guarda Municipal, a Rua do Carmo e a Praça dos Voluntários da Rainha.

Mais para sul a Praça da Cordoaria e L. dos Martyres da Patria, onde com o n.º13 está assinalada a Cadeia e Relação.

A fachada sul abre para a rua do Hospital onde com o n.º 15 surge o Hospício das expostas (sic).

A rua do Hospital será posteriormente englobada na Rua da Restauração (na planta Rua da Regeneração) onde com o n.º64 está assinalado o Museu Allen Municipal.

A poente a Rua do Carranca.

hsa4fig. 5 – Pormenor da Planta de Perry Vidal de 1865.

Segundo Vilhena Barbosa em 1865

Ignacio de Vilhena Barbosa escreve, em 1865, uma cronica no Archivo Pittoresco, acompanhada de uma gravura onde descreve o estado do edifício do Hospital. [1]

hsa23fig. 6 –Nogueira da Silva, Hospital Real de Santo Antonio. Gravura cópia de uma photographia da collecção do Sr. Seabra. Archivo Pittoresco n.º32, 1865.

A fachada principal

Escreve Vilhena Barbosa:

A fachada principal do edifício olha para éste, e guarnece um angulo do Campo dos Martyres da Liberdade, e a rua do Paço, até à praça do Duque de Beja, feita ultimamente.

Compôr-se-há esta fachada de cinco corpos: o do centro e os dois das extremidades ressaltantes, e os dois intermédios d’estes mais recolhidos. [2]

hsa20fig. 7 - Fachada nascente do Hospital de Santo António. Elevação exterior da ala nascente e poente. Cópia de Manuel dos Santos Barbosa, realizada em 1793.

O corpo central tem dois andares, e forma-lhe o centro um vestíbulo composto de uma arcada no pavimento baixo, e ornado de columnas no pavimento alto, faltando-lhe para estar completo o frontão e vasos, ou estatuas, que o devem coroar. Este vestíbulo resae das paredes lateraes do mesmo corpo, como se vê na gravura que juntámos. [3]

O frontão do pórtico do corpo central

O pórtico do corpo central ainda não tem o frontão triangular que apenas será colocado no início do século XX.

Sousa Reis - talvez a partir da imagem de Joaquim Cardoso Villanova - refere que no tímpano do frontão seria colocado o Emblema da Santa Casa da Misericórdia. O frontão seria encimado por uma estátua no seu ângulo superior e teria duas outras estátuas nos ângulos inferiores.

No desenho do arquitecto da Santa Casa, José Isidro da Silva Campos, em 1895 ainda se previa este frontão com figuração no tímpano e estátuas.

hsa26fig. 8 - José Isidro da Silva Campos arquitecto da Santa Casa. Hospital Geral de Santo Antonio Alçado do Corpo Central, Gravura de Hugo Noronha. 1895. In Helder Pacheco, O Hospital de Santo António no Tempo da Cidade.

Na realidade o frontão realizado no início do século XX foi construído de uma forma muito simples sem decoração.

hsa27fig. 9 – O frontão na actualidade.


[1] I. de Vilhena Barbosa (1811-1890), Archivo Pittoresco. Tomo VIII n.º32, 1865. (pág.249 e 250).

[2] I. de Vilhena Barbosa, Archivo Pittoresco. Tomo VIII n.º32, 1865. (pág.250).

[3] I. de Vilhena Barbosa, Archivo Pittoresco. Tomo VIII n.º32, 1865. (pág.250).



As esculturas da fachada principal

hsa28fig. 10 – Postal. Porto-Hospital geral de Santo AntónioA fachada nascente do Hospital ainda sem a escultura de Galeno.

A fachada principal, a nascente, está praticamente concluída e em 1871 é colocada a escultura em granito de Galeno para simetricamente acompanhar a estátua de Hipócrates.

Os dois médicos da Antiguidade eram frequentemente representados juntos como se vê na imagem do século XVII de Justi Cortnummii.

hsa6fig. 11 - Justi Cortnummii Cellensis (1624-1675), Medicinae Doctoris, Professoris Rgii & Acad. Soranae Decani, De Morbo Attonito Liber Unus ad Hippocaraticam Sanguinis in Corpore Humano periodum exctantur, & ad Accuratuorem Morberum Investigasionem Hippocrastisque Lectionem adhortantur, Cui Triplex Index necessarius & utilissanus adjectus est. Cum Grtia et Privilegio Sacr. Caes. Majest. Et Elect. Saxon. Sumptibus Georgis Heinrici Frommann, Bibliop. Lipsiae, Anno M. DC. LXXVII.

Francisco de Quevedo [1], associa os dois médicos da Antiguidade no Romance XLI Jocosa defensa de Neron, y del Señor Rey D. Pedro de Castilla.

Cruel llaman á Neron,
y cruel al Rey Don Pedro,
como si fueran los dos
Hipócrates y Galeno.
Estos dos sí que inventaron
las purgas y cocimientos,
las dietas y melecinas,
Boticarios y Barberos. 
[2]

A escultura de Hipócrates

No corpo sul estava já colocada a estátua de Hipócrates de Cos (460 a.C.-370 a.C.) já que no Hospital estava instalada a Escola Médico-Cirúrgica e é conhecido o célebre juramento de Hipócrates para os que se iniciam na prática da Medicina, sintetizado na frase: Curar algumas vezes, aliviar muitas vezes, consolar sempre, frase que aliás não pertence a Hipócrates.

Segundo Xavier Coutinho[3] trata-se de facto de Hipócrates embora Sousa Reis[4] identifique o deus grego da medicina Esculápio (Aesculapius).

E como a figura tem na cabeça um turbante poderia ainda tratar-se de Avicena ou Ibn Sīnā (c.980-1037) cujas obras se baseiam nos escritos de Hipócrates e Galeno, ou apenas uma referência ao médico muçulmano, também por vezes associado aos outros dois, como na gravura.

hsa6afig. 12 - Galeno, Avicena e Hipócrates, xilogravura de um livro de medicina em Latim de 1511.

 

hsa7fig. 13 - A estátua de Hipócrates encimando o pórtico norte sul


hsa8fig. 14 – Hipócrates, foto Teófilo Rego. AHMP


hsa9fig. 15 – A estátua de Hipócrates em Novembro de 2017.

No caso de Hipócrates mostra-se uma estátua de cerca de 150 anos antes de Cristo.

hsa10fig. 16 - Estátua de Hippocrates c. 150 a.C. mármore Kos Archaeological Museum.

A escultura de Galeno

A estátua de Galeno de Pergamo (Claudius Galenus c.129-c.217) com 3,74 metros é atribuída a um escultor Couceiro (?) mas sabe-se que foi realizada por António de Almeida Costa (1832-1915), fundador da fábrica de Cerâmica das Devesas.

Foi custeada pelo Comendador Manoel Francisco Duarte Cidade (? -1875) que levado dos impulsos da sua alma generosa, quis que coubesse a glória da conclusão de obra tão monumental, rematando a sua obra imortal com a estatua de Galeno, que ofereceu à Santa Casa e que no dia 9 de Junho fez elevar ao subido pedestal, com publico e geral contentamento, no meio de vivas demonstrações de alegria d’um imenso concurso de espectadores. [5]


hsa11fig. 17 - A estátua de Galeno encimando o pórtico sul da fachada principal.


hsa12fig. 18 – Galeno, foto Teófilo Rego (1914-1993). AHMP.

Galeno, vestindo uma túnica, está pensativo e por isso leva a mão direita ao queixo. Na mão esquerda tem um pergaminho (o juramento?).

hsa13fig. 19 – A estátua de Galeno em Novembro de 2017.

O escultor que concebeu a estátua de Galeno não pode recorrer ao modelo da escultura clássica representando Galeno. Existem de facto algumas esculturas que representam Esculápio. De Galeno apenas apresentamos uma estátua do século XV, atribuída a Tullio Lombardo que pouco tem a ver com a escultura do Hospital de Santo António.

hsa14fig. 20 - Tullio Lombardo (1460-1532), Estátua de Galeno. Mármore de Carrara.


[1] Francisco Gómez de Quevedo y Santibáñez Villegas (1580- 1645) aparece retratado na série Las Aventuras del Capitan Alatriste em exibição na RTP.

[2] Francisco de Quevedo Villegas, Jocosa defensa de Neron, y del Señor Rey D. Pedro de Castilla. In El Parnasso Español y Musas Castellanas, de Don Francisco de Quevedo Villegas, Caballero de la Orden de Santiago, Señor de la Villa de la Torre de Ivan Abad. Corregidas y emendadas, de nuevo en esta impression,por el Doctor Amuso Cultifragio, Academico ocioso de Lobaina. A costa de Santiago Martin Redondo, Mercader de Libros. Com Licencia. En Madrid por Pablo de Val, Año de M. DC. LX. (pág.395).

[3] Bernardo Xavier Coutinho, Arte: do barroco ao neo-classicismo. In Damião Peres e António Cruz (dir.), História da Cidade do Porto. Porto: Portucalense Editora, 1965. Vol. 3, (pág. 245 e 246).

[4] Henrique Duarte e Sousa Reis, Apontamentos para a verdadeira história antiga e moderna da cidade do Porto, Vol. 4, (pág. 468).

[5] Relatório dos trabalhos da Mesa Administradora da Santa Casa da Misericordia do Porto, durante o anno económico de 1870-1871, (pág. 35 e 36). A.H.S.C.M.P. Citado por Arlindo Jorge Sá de Begonha, Meteorização do Granito e Deterioração da pedra em Monumentos e Edifício da Cidade do Porto. Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, Rua Dr. Roberto Frias, Porto 2001. (pág.132).



A Estação Meteorológica da cobertura do Hospital Real de Santo António da Escola Médico-Cirúrgica.


Sucedendo à Régia Escola de Cirurgia do Porto criada em 1825, é criada em 1836 a Escola Médico-Cirúrgica do Porto, a funcionar no interior do Hospital de Santo António, onde se manterá até 1883 quando se constrói um edifício próprio junto ao quartel da Guarda na antiga do cerca convento do Carmo.

Em 1870, ano possível da Panorâmica de que nos ocupamos, é construída na cobertura do Hospital uma Estação Meteorológica, como afirma Pinho Leal: No alto da parte do edifício onde a escola funcciona (hospital real da Misericórdia) foi creado pela escola em 1870, um pequeno observatório meteorológico, sempre a cargo do lente mais moderno e demonstrador de medicina. [1]


hsa15fig. 21 – O Observatorio Meteorológico da Escola Médica do Porto.


Esta Estação foi fundamentada nas investigações das relações entre a Meteorologia e a Medicina, que tinham sido iniciadas no Porto no século anterior.

De facto, Alberto Pimentel no seu Guia do Viajante escreve que Ha na Eschola observatorio meteorológico. Com uma nota de rodapé em que refere que segundo Balbi, no Essai statistique sur le royaume de Portugal et d'Algarve (tom. 1º pag. 113) foi Jose Bento Lopes, do Porto, o primeiro medico portuguez que publicou as observações meteorologicas á arte de curar.[2]

Consultando o livro de Adrien Balbi (1782-1848) sobre o Porto, pode ler-se que Les observations de l’année 1792 ont été faites par José Bento Lopes, qui est le premier médecin portugais qui ait aplique les observations métérologiques à l’art de guérir. Il est facheux qu’il les ait faites dans l’intérieur de sa chambre, où il tenait son thermomètre pendu à la muraille devant une fenêtre et exposé à l’occident. Il observait cet instrument entre 7 et 8 heures du matin, et entre 3 et 4 du soir. Voilà, pourquoi on n’y remarque point les excès de chaud et de froid qu’on aurait dû y observer, si eles eussent été faites au grand air, comme les nôtres. Ses tables, publiées dans son Anno Medico, imprime à Porto en 1796, marquent en décembre 4 jours de gelée et de verglas. [3]

Estes autores referem-se à publicação em 1796 por José Bento Lopes (?-1800) Anno Medico que contêm as observações meteorologicas, e médicas feitas na Cidade do Porto em 1792. [4]

Também José Pinheiro de Freitas Soares (1769-?), no extenso artigo que publica, com o título Acerca das qualidades, e deveres do Medico, na Historia e Memorias da Academia Real das Sciencias de Lisboa, refere que Mui interessantes para todos os Medicos, e particularmente para os que praticão na Cidade do Porto, são as observações meteorologicas e medicas, que, no anno de 1792, alli fizera o Dr. José Bento Lopes; escrevendo hum volume, que intitulou Anno Medico.[5]

Lembre-se Júlio Dinis (1839-1871), que se formou na Escola Médico-Cirúrgica do Porto, com uma tese Da importância dos estudos meteorológicos para a medicina e especialmente de suas aplicações ao ramo operatório em que relaciona a Medicina com a Meteorologia[6].

Elogiando indirectamente a escola do Porto, Júlio Diniz publica em 1866, em folhetins no Jornal do Porto, “As Pupilas do Senhor Reitor” onde cria a popular personagem de João Semana, o médico dos pobres também ele formado pela Escola Médico Cirúrgica do Porto. A personagem central do Reitor aconselha, no romance, a personagem José das Dornas a enviar o filho Daniel, não para a consagrada escola de Coimbra, mas para a escola do Porto:

“— Para Coimbra? ... Eu sei?... Homem, a falar a verdade, semente desta em Coimbra, é para dar uns frutos por aí, além. Para o Porto, onde ele possa estar sob as vistas dos parentes que lá tens, vai muito melhor. Põe-mo a cirurgião. Eles, hoje, dizem que saem de lá como de Coimbra, e olha que é uma boa carreira. O nosso João Semana está velho e, morrendo ele, não temos por aqui mais ninguém. Mas é preciso tratar já disso. Impõe-me o rapaz daqui, para fora, se queres fazer dele alguma coisa de jeito.” [7]


[1] Pinho Leal (1816-1884), Portugal Antigo e Moderno, Livraria Editora de Mattos Moreira & Companhia, Praça de D. Pedro 68, Lisboa 1873 a 1890.V Volume Lisboa 1875. (pág. 260).

[2] Alberto Pimentel, Guia do Viajante na Cidade do Porto e seus Arrabaldes, Palacio de Crystal livraria Central de J. E. da Costa Mesquita Editor, Rua de D. Pedro 87, Porto 1877. (pág.90).

[3] Adrien Balbi, Essai statistique sur le royaume de Portugal et d'Algarve comparée aux autrex États de l’Europe, et suivi d’un coup d’oeil sur l’etat actuel des Sciences, des Lettres et des Beaux-Arts parmi les Portugais des deux hémisphères. Tome Premier. Chez Rey et Gravier, Libraires, Qua ides Augustins, n.º55. Paris 1822. (pág. 113 e 114).

[4] Anno Medico que contêm as observações meteorologicas, e médicas feitas na Cidade do Porto em 1792, por José Bento Lopes. 1 vol. de 3.° — Porto. — anno de 1796. Referida no Jornal de Coimbra Tabola Bibliographica Chronologico- Medica Portugueza do Seculo XVIII, Numero XL, Volume VIII, Parte I. Na Impressão Regia. Lisboa 1815. (pág.173)

[5] José Pinheiro de Freitas Soares, Acerca das qualidades, e deveres do Medico in Historia e Memorias da Academia Real das Sciencias de Lisboa, Tomo XI. Parte I, Na Typografia da mesma Academia, Lisboa 1831. (pág.224).

[6] Júlio Dinis (Joaquim Guilherme Gomes Coelho) apresentou em 1861 uma tese intitulada Da importância dos estudos meteorológicos para a medicina e especialmente de suas aplicações ao ramo operatório na Escola Médico-Cirúrgica do Porto.

[7] Júlio Dinis, As pupilas do senhor Reitor (Cronica da Aldeia),1866. Livraria Figueirinhas, Tip. Sequeira Ltd. Porto 1966. (pág.36).


Os corpos norte e sul da fachada principal

Ainda Vilhena Barbosa no seu texto de 1865:

Os dois corpos que se seguem aos lados do central são mais recolhidos, e constam de dois pavimentos, o térreo, que é decorado com uma arcada guarnecida de balaustrada, que, saindo à frente dos corpos do edifício que ressaltam para fora, serve de varanda ao pavimento nobre. Compõe-se este de uma galeria de grandes janellas, que abrem sobre a dita varanda, tendo por coroa, sem mais andar, uma balaustrada, e no meio d’esta um frontão ornado de vasos.

D’estes dois corpos está concluído o que fica ao sul do corpo central, e que se vê na gravura. Ao que se estende para a parte norte, e foi edificado há poucos anos, falta-lhe a arcada ou varanda. [1]

hsa23afig. 22 – Pormenor da gravura de O Archivo Pittoresco.


O corpo da extremidade do sul d’esta fachada, que é o que mais avulta na gravura, consta a seu turno de três corpos, os lateraes com dois pavimentos, e em cada duas janelas, sendo guarnecido superiormente com balaustrada e vasos; e o do centro ressaltando um pouco d’estes, e formando um magnífico vestíbulo. No pavimento térreo abrem-se três arcos; é a entrada principal do hospital. Sobre os arcos levantam-se quatro columnas de ordem dórica, com balaustres nos intervallos, junto às bases, deixando desaffrontada a parede interior, onde estão rasgadas três grandes janelas no andar nobre, e três mais pequenas em um terceiro pavimento. Dois vasos e a estátua colossal de Hypocrates, servem de remate a este sumptuoso vestíbulo. É n’esta parte do edifício que se acham estabelecidas a escola medico-cirurgica e a botica, que é excelente. [2]

hsa29fig. 23 – A Farmácia do Hospital de Santo António.

O corpo que deve corresponder a este na extremidade do norte, apenas tem feito o alicerce do envasamento.[3]


As apreciações e críticas ao projecto do Hospital de Santo António

Desde o início da sua construção que o projecto de John Carr of York (1727/1807) para o Hospital de Santo António, se fosse totalmente realizado, constituiria pela sua dimensão e pela sua arquitectura seria o maior e mais grandioso do país.

Logo em 1849, Fernando Denis (1798-1890) no seu Portugal Pittoresco ou Descripção Historica d’este Reino, já apontava que de todas as obras publicas do Porto seria a mais grandiosa, e uma das principaes do reino, se acaso estivesse completa, o hospital chamado novo e que começou a edificar-se pelos annos de 1769; apenas está feita a quinta parte, que comtudo presta asylo e socorros aos doentes pobres da cidade, e por isso se pode julgar da grandesa do plano. O edifício devia ser quadrangular, correspondendo os quatro lados aos ventos cardinaes, e toda a circumferencia externa abranger 3180 palmos: no centro devia erigir-se uma egreja com o seu zimbório, de fabrica sumptuosa. [4]

Como nas plantas anteriores do século XIX, na Planta de 1839 o Hospital Real de S.to Antonio, assinalado com o n.º 9, tem já construídas as duas frentes, mas a sul está referida a rua dos Fogueteiros, e a poente norte não estão definidos os limites do espaço da construção. Repare-se que o Rio Frio está cartografado.

hsa16fig. 24 – Pormenor da Planta Topographica da Cidade do Porto de 1839.

E embora do Hospital apenas se tenha construído uma parte, em muitos dos textos da época da Panorâmica ainda se espera a conclusão da totalidade do edifício conforme o projecto inicial de John Carr.

hsa17fig. 25 – Pormenor da planta de Perry Vidal de 1865.

É o caso dos guias elaborados para a Exposição de 1865, que pretendem mostrar o Hospital e o Porto como uma cidade em desenvolvimento e bem equipada, de que é exemplo o Guia Historico do Viajante no Porto de F.G. Fonseca que refere em uma pequena nota o Hospital, sublinhando as suas dimensões.

Junto ao Campo dos Martyres da Patria, levanta-se este bello e grandioso edifício, de que mal estará construída a quarta parte, e que deve ser o mais vasto de Portugal, quando concluído. No centro da fachada principal, e n’uma espaçosa varanda, avultam três bustos de mármore representando os principaes bemfeitores da Santa Casa da Misericórdia, que o administra.[5]

[Os benfeitores seriam D. Lopo de Almeida (1525-1583), João Teixeira Guimarães (1784-1857), e Joaquim José Campos (17? -1788) e ainda D. Antónia de Carvalho Leme e Cernache (17?-1807)]

E no Elucidario de Francisco Ferreira Barbosa lê-se:

Passamos a descrever a planta d’este hospital, quando concluido. A forma deste edificio é quadrangular. As principaes fachadas ou fronteiras ficam ao nascente e ao poente, e se dilatam pelo comprimento de 174 metros cada uma: as outras duas fachadas de norte e sul, têm cada uma 179 metros de extensão; e toda a circumferencia exterior do edificio 706 metros. No meio de toda esta extensão, formam-se um grande pateo e galeria, que pelos lados do nascente e poente tem de comprido 133 metros, e pelos do norte e sul 129 metros.


hsa18fig. 26 - Projecto do Hospital

No centro do referido pateo deve existir a egreja, que é em tudo proporcionada á magnificencia desta grande obra. A sua figura interior é circular, e a exterior quadrada. Tera de comprido cada uma das suas quatro faces exteriores 28 metros; o seu diametro interior 17 metros; a sua altura, desde a superficie da terra até o remate da cruz do zimborio, 44 metros. É ornada ésta egreja com 32 columnas de 8 metros e 80 centimetros de alto, quatro estatuas de 4 metros, três portas, vinte e quatro janelas grandes, quarenta e oito menores, alem das que ficam subterraneas á face dos alicerces.



hsa19fig. 27 – Joaquim Cardoso Villanova (1792/3-1850), Hospital da Misericórdia (Zimbório projectado) da igreja central do Hospital de Santo António. Imagem n.º 75 do Album Edifícios do Porto em 1833, Biblioteca Pública Municipal do Porto, 1987.

O número total das oficinas, e mais partes, que comprehendem toda esta grande machina, é a seguinte: andares tres; salas e salões cento e cincoenta e nove; infermarias cento e quarenta e duas; latrinas noventa e septe; portas e janellas vinte mil seiscentas e nove; estatuas vinte e oito, de quatro metros; columnas cento e septenta e seis, a maior parte de oito metros e oitenta centimetros; pyramides cem; balaustres cinco mil quinhentos e oitenta e seis; escadas principaes cincoenta e seis, de dois andares cada uma; degraus tres mil, alem dos subterraneos.

A altura deste edificio, em razão do terreno, não é egual em todas as partes; em umas não excede a quinze metros e em outras, passa de vinte. As paredes fundamentaes chegam a ter em partes onze metros de grosso: o espaço, que medeia entre o mais fundo dos alicerces, e a superficie da terra, sobe a tanta altura pela desegualdade do terreno, que chega em partes a contar vinte e dois metros, podendo facilmente accommodar debaixo da terra uma machina quasi-egual à que sustenta sôbre si. Esta immensa fábrica, de que está concluida apenas uma quarta parte, principiou a construir-se em 1769.[6]


hsa25fig. 28 – Joaquim Cardoso Villanova (1792/3-1850), projecto do Hospital da Misericórdia, imagem n.º73 do Album Edifícios do Porto em 1833, Biblioteca Pública Municipal do Porto, 1987.

E, do mesmo modo, Pinho Leal salienta a grandeza e magnificência da obra sem rival em toda a Europa.

1770 — (15 de julho) — Lança se a primeira pedra do magestosissimo hospital de Santo Antonio (Misericórdia) na parte ocidental do actual passeio da Cordoaria.

Este edifício, que excede em grandeza e magnificência todos os do seu género em Portugal, e que depois de concluído não terá certamente rival em toda a Europa, honra a cidade do Porto, que emprehendeu obra de tanto esplendor e utilidade.

Deve ter uma forma quadrangular. As suas duas principaes fachadas, uma a E. (já concluida) e outra a O., terão de comprimento 783 palmos (174 metros.) Os lados, de N. e S., terão 805 palmos e meio (179 metros) ficando com 706 metros de circumferencia.

No centro terá um vasto pateo, cercado de galerias, e no meio d'elle ha de ser a egreja, que, se fôr conforme o risco, será magnifica, e a todos os respeitos digna do resto do edificio.

E mais adiante A fachada principal (E.) está concluída.

O lado do N., que deita para o largo hoje chamado do Duque de Beja, anda em construcção, e n'elle se tem trabalhado com afinco, ha seis annos. [7]



hsa21fig. 29 - José Isidro da Silva Campos arquitecto da Santa Casa. Hospital Geral de Santo Antonio Projecto de ampliação edifício Ala Norte Alçado sobre a Praça Duque de Beja. Gravura de Hugo Noronha. 1895. In Helder Pacheco, O Hospital de Santo António no Tempo da Cidade.


[1] I. de Vilhena Barbosa, Archivo Pittoresco- Tomo VIII n.º32, 1865. (pág.250).

[2] I. de Vilhena Barbosa, Archivo Pittoresco. Tomo VIII n.º32, 1865. (pág.250).

[3] I. de Vilhena Barbosa, Archivo Pittoresco. Tomo VIII n.º32, 1865. (pág.250).

[4] Fernando Denis, Portugal Pittoresco ou Descripção Historica d’este Reino. Publicada por uma Sociedade. Typ. De L.C. da Cunha, Costa do Castello,n.º15, Lisboa 1849. (Vol. IV, pág.223).

[5] F. G. Fonseca, Guia Histórico do Viajante no Porto e Arrabaldes. Na Livraria e Typographia de F. G. da Fonseca, Editor, 72, Rua do Bomjardim, Porto 1864. (pág. 87).

[6] Francisco Ferreira Barbosa, Elucidário do Viajante no Porto, Imprensa da Universidade, Coimbra 1864. (pág. 48, 49, 50 e 51).

[7] Pinho Leal (186-1884), Portugal Antigo e Moderno, Livraria Editora de Mattos Moreira & Companhia, Praça de D. Pedro 68, Lisboa 1873 e 1890. (VII Volume 1875, pág. 313 e 314).



As críticas ao Hospital de Santo António


Não se escolhe o hospital para occupar o terreno, mas o terreno para ser occupado pelo hospital[1]


A partir da década de sessenta, se alguns ainda mantém a esperança de construir a totalidade do Hospital de Santo António, surgem já críticas à sua dimensão e higiene.

Desde o início da sua construção a localização, a dimensão do Hospital, o seu elevado custo e as condições higiénicas, são criticadas por diversos autores.

Um deles, Arthur William Costigan, pseudónimo de James Ferrier, ainda no século XVIII, em uma das cartas que escreve do Porto em 1779, aponta que …the Consul led us into a small house adjoining, that shewed us the plans , profiles and elevations of the building, which, he said, had been designed by an Architect, a old schoolfelow of his own in Englland, and had been examined by his Majesty the King of Great Britain, who, he said, was an excellent judge; that it was intended for a general Hospital, but was na under taking much too immense for such a place as this, and would better serve the purpose of a general Infirmary of London or Lisbon; that, in the little of it which was executed, they had already departed very materially from the original design, and made many alterations for the worse; that it had been begun about twelve years ago, that the fund assigned for carrying it on, did not assord above a thousand pounds sterling yearly, and that there was no great danger of its ever being finished, while Portugal remained in its present sitution, for that the whole estimate of the expence had been laid at about 300,000 pounds sterling. [2]

E James Murphy no seu Travels in Portugal, trough the provinces of Entre Douro e Minho, Beira, Estremadura and Alem-Tejo, in the years 1789 and 1790, também refere que

The General Hofpital, if completed, would be the largeft building in Oporto. The principal front was intended to confift of an hexastyle portico in the Doric order, with a pavilion on each side. Although it is upwards of twenty years since the foundation of this structure was laid, there is yet but a wing of one of the pavilions covered in; the rest is raised but a few feet above the surface, and is likely to remain in this state, a magnificente modern ruin, and a lasting monument of the folly of not proportioning the design to the public purse. The site is of all others, perhaps, the most ineligible for ceconomy, on account of the inequality of the ground, a circumstance which obliged the archited to build walls in the flanks, as massy as the famous wall which separates China from Tartary.[3]

Com a criação da Escola Médico-Cirúrgica do Porto em 1836, a funcionar no interior do Hospital de Santo António e com os avanços da exigência de condições sanitárias e de higiene nas cidades e nos hospitais, inicia-se (ou retoma-se) uma avaliação das condições do funcionamento do hospital.

(A Escola Médico-Cirúrgica só em 1883 se irá instalar no edifício próprio junto ao quartel da Guarda no antigo convento do Carmo).

Em 1872, no ano em que presumivelmente se realizou a Panorâmica que nos ocupa, D. Pedro II, Imperador do Brasil realiza uma visita a Portugal e ao Porto, tendo visitado o hospital de Sancto António, e a eschola medico-cirurgica, assistindo por essa occasião á prelecção do sr. José Fructuoso Ayres de Gouveia *, lente do quinto anno, em cuja aula se demorou algum tempo. (…)

Quando Sua Majestade entrou, o sr. Ayres de Gouveia interrompeu a sua prelecção, levantou-se e disse — que nos annaes da Escola Medico-Cirurgica do Porto, na memoria dos alumnos presentes e particularmente na delle professor, ficaria para sempre gravada a lembrança da visita do augusto monarcha do Brasil. Depois d'esta manifestação pediu o sr. Ayres de Gouveia licença para continuar a sua prelecção, o que fez fallando da historia da medicina legal e do seu exercício em Inglaterra, França, Prússia e Portugal. [4]

[*José Frutuoso Aires de Gouveia Osório (1827 -1887) formado em Filosofia e Medicina pela Universidade de Coimbra e  Edimburgo (1853), médico no Hospital de Santo António, lente da Escola Médico-Cirúrgica do Porto e redactor da Gazeta Médica e Saúde Pública. Pertenceu à direção da Sociedade do Palácio de Cristal. Em 1886 e 1887 foi Presidente da Câmara Municipal do Porto, sucedendo a José Augusto Correia de Barros (1835-1908).]

Assim, se alguns ainda mantém a esperança de construir a totalidade do Hospital de Santo António, surgem já críticas à sua dimensão, higiene e atendimento e as suas consequências na higiene pública.

Em 1847 o jornal O Progressista insere uma pequena e curiosa notícia em que diz Somos informados de que no Hospital de St.º Antonio, tem sido recuzada a entrada a meretrizes, para alli mandadas por authoridades, por motivo de infermidades que muito damno cauzão á sociedade, e principalmente ao exercito: certos estamos de que os Illm.os Mesarios da Santa Casa da Misericordia hãode deliberar o contrário na sua primeira reunião; (a humanidade assim o reclama.) [5]

De facto o Regulamento da Polícia das Toleradas publicado pelo Governo Civil em 1868, já regulamentava o acesso das toleradas ao Hospital de Santo António e as consequências que para elas daí advinham. [6]

Por isso Francisco Ferreira Barbosa, que já aqui referimos, sublinhando a grandeza da forma architectonica, critica já as suas condições e necessidades hygienicas e sanitárias.

Merece as honras de primeiro logar o hospital real de Sancto Antonio (assim chamado), não so pela sua grandeza e fórma architectonica, como pelo fim humanitario, a que se destina. Situado no largo da Cordoaria, com a sua magestosa frente para o nascente, é um edificio grandioso e monumental, em cuja contemplação o visitante se extasia. A conclusão desta obra sumptuosa oferecerá á coroa desta cidade mais um rico e curioso florão. É muito para sentir, que o Porto, pela grande extensão que tem actualmente adquirido, se resinta da localidade primitivamente escolhida para a edificação deste hospital; e muito mais é para lastimar, que não satisfaça às condições e necessidades hygienicas e sanitarias, para que de preferência se deveria ter olhado, unico fim a que elle se propõe.

Não é para estranhar, que o medico se hororrise à cabeceira do doente, e que frequentes vezes admire as diferentes e inesperadas phases d’uma molestia, attendendo á desastrada ideia, que presidiu ao arranjo interior e distribuição de infermarias.

Cabe toda a glória do augmento e reforma deste hospital ao ex.mº sr. conselheiro Antonio Roberto de Oliveira Lopes Branco *, ministro e secretario de estado honorario, juiz da relação de Lisboa e deputado da nação, que, funccionando durante cinco annos como provedor, não se poupou a sacrificios, a desgostos e trabalhos para levar a cabo os melhoramentos, que ali actualmente se admiram. Em cada nova parede deste edificio se ve um padrão de immorredoura memoria dos serviços prestados por este digno e incansavel provedor. O regulamento, que fez publicar, é um documento perenne da intelligencia e zêlo com que s. ex.ª se dedicava a ésta casa. [7]

[*Refere-se a António Roberto de Oliveira Lopes Branco (1806-1889), Provedor da Santa Casa da Misericórdia do Porto entre 1854 e 1861. Como Provedor impulsionou as obras da conclusão da fachada do Hospital e a edificação da ala norte. Duas novas enfermarias surgiram. Também mandou elaborar em 1857, os Regulamentos do Hospital de Santo António e a regulação das relações entre a SCMP e a Escola Médico-Cirúrgica do Porto. Museu da Santa Casa da Misericórdia do Porto.]

E Alberto Pimentel no seu Guia do Viajante também critica a dimensão exagerada do Hospital caso fosse concluído.

Hospital Real de Santo Antonio, vulgo da Misericordia — Este hospital foi primitivamente fundado em parte da rua dos Caldeireiros e das Flores, e era conhecido pela designação de gafaria de Roque Amador, como em outro logar dizemos, (Vide Egrejas).

Se o plano do seu actual edificio, começado em 1769, devesse concluir-se, o hospital real de Santo Antonio formaria um grande quadrado, ficando dentro a egreja, e teria 159 salas e quartos, 142 enfermarias, 56 escadas principaes, etc. Mas a hygiene moderna não aconselha a construcção d'um hospital quadrangular, cuja ventilação seria difficil e imperfeita. Assim é que as mezas administradoras se têem limitado a dar ao hospital o desenvolvimento exigido pela sua população, não pensando todavia em leval-o a caminho de conclusão. [8]

hsa22fig. 30 – Pormenor da planta de José Francisco de Paiva c. 1822 e antes de 1824, onde está salientada a vermelho a parte do do edifício projectada.

O retomar destas críticas às condições higiénicas e de atendimento dos doentes no Hospital de Santo António, iniciaram-se nos anos 60 do século XIX pela publicação do livro O Hospital da Santa Casa da Misericordia do Porto por João Mendes Osorio. [9]

Em 1868, Ramalho Ortigão em artigo publicado na Gazeta Litteraria do Porto, na rubrica Livros Obscuros em que comenta os livros então publicados, refere o livro de João Mendes Osório e resume, salienta e amplia a denúncia das condições escandalosas do Hospital de Santo António, sugerindo mesmo a construção de um novo hospital que obedeça às novas exigências higiénicas e sanitárias.

Escreve o escritor portuense:

A obra a que especialmente me vou referir, propondo-se demonstrar que o edifício em que se acha o hospital da Misericordia do Porto é um asylo intoleravel e perniciosíssimo para os enfermos que n’elle se recolhem, é livro de relevantíssima importância perante a sciencia e perante a humanidade.

A architectura romana do edifício aludido, posto que torpemente disfigurada nos apensos que modernamente se tem feito à parte primitiva do hospital, é ainda assim um notável monumento architectonico. Não são porem os riscos fantasiosos de um desenhista intrépido méritos por que se aquilate a propriedade d’esta casa para o fim a que se destina. Antes é grave erro de hygiene e de caridade christã oppôr enormes massas de granito à benéfica acção da luz, do ar e do sol, e desbaratar em vestir paredes mortas o que frei Bartholomeu dos Martyres, um dos mais zelosos despenseiros dos bens dos pobres, mandava aplicar a socorrer misérias palpitantes e vestir paredes vivas.

Erguido em terreno paludoso, empoçado nas vertentes de duas encostas, com os alicerces mergulhados em agoa, que sobe pelas paredes e se espalha, com os miasmas que arrasta comsigo, na atmosfera do edifício; exposto ainda às exalações nevoentas e aquosas do rio Douro, tão nocivas aos pulmões que as respiram; colocado finalmente ao sudoeste da cidade, entre uma cadeia, um mercado de peixe, um quartel e um hospital; com taes condições, dizemos, a construção e exposição do hospital da Santa Casa da Misericórdia são diametralmente opostas aos mais elementares princípios da geologia e da hygiene.

E o conhecido escritor portuense prossegue a sua resenha, citando o autor, que avança mesmo a construção de um novo hospital e dando outro destino ao monumental edifício existente: [10]

O livro do sr. Osorio divide-se em três partes, às quaes podem servir d’argumento as seguintes palavras do prologo:

Será justo ou desculpável que n’essas obras architectonicamente collossaes, mas hygienicamente deploráveis, e economicamente ruinosas, se continue a malbaratar o património da pobresa enferma ou o produto de legados que lhe consagra a beneficiencia das almas caridosas.

Negado o primeiro quezito naturalmente resulta como corolário a negativa do segundo, e podemos por tanto deduzir a ilação de que o hospital da Santa Casa não deve continuar a ser o que é, o que tem sido, e o que será em quanto se não transferir para um edifício construído em local apropriado e com as condições exigidas para estabelecimentos d’esta natureza.

Até ahi a primeira parte da presente publicação.

Na segunda parte exporei, continua o autor, “como entendo que se pode realizar a transferência que proponho, sem que se inutilize o edifício que, sendo inconvenientíssimo para um hospital, é comtudo susceptivel de ser muito utilmente aproveitado para outro destino.

As propostas de João Mendes Ozorio não foram, contudo, aceites pelo conservadorismo da Mesa da Santa Casa de 1866-1867 onde, segundo Ramalho Ortigão, “respira-se o ar mofento de sacristia, onde as tradições do ramerrão estão agarradas às paredes limiosas, e tão entranhadas na dureza granítica do templo como na inteiriçada renitência dos sacristães mazorros e dos faquinos esgouviados, espécie de autómatos envelhecidos na peguinhada rotina do gavetão dos paramentos para a corda do sino, e da corda do sino para a prateleira das galhetas.

O espirito enregela-se com estes ares nunca dourados pelo sol nem renovados pelo vento, e a vontade desmaia ao contacto glacial d’essa abdicação da liberdade de discernir e de julgar.

E Ramalho Ortigão conclui:

Das duas uma: ou o edifício em que se acha estabelecido o hospital da Santa Casa da Mizericordia do Porto convem, ou não convem para asylo de enfermos.

No primeiro caso prossiga a edificação dos apensos que se estão fazendo à parte que existia do edifício primitivo ou acabe-se a obra segundo a planta do seu primeiro architecto. No segundo caso prescinda-se de tudo quanto se acha construído, em construção e em projecto, procure-se novo local e levante-se uma casa nova.

A sciencia, a humanidade, a filantropia e a caridade christã não admittem outra solução para similhante dilema.

A medicina, a hygiene e a geologia condenavam perentoria e terminantemente esta aparatosa edificação hospitalar. De tal sentença não há apelação nem aggave senão para a indiferença ou para a inercia.

O livro do snr. João Mendes Ozorio, levantando esta importantíssima questão, é um livro de grande utilidade cuja apparição é dever da critica assignalar.[11]

Em 1872 em As Farpas Ramalho Ortigão retoma as críticas ao Hospital de Santo António.

Da santa casa da misericórdia do Porto são muito mais antigas que a respeito do hospital de S. José as queixas, as acusações e as invectivas.

Collocado na depressão de duas encostas, cujas vertentes se empoçam no ponto em que elle está construído, o hospital de Santo António do Porto assenta n’um pântano. Em 1868 tratando-se de estabelecer ali uma lavanderia, abriu-se um poço na cerca do edifício. O relatório oficial d’esta obra diz que a 16m,28 o poço produzia 54 pipas d’agua em vinte e quatro horas!

Os alicerces do edifício, imensa mole de granito, com abobadas e paredes de três metros de espessura, - mergulham-se em agua através de oito metros de entulho poroso e movediço. As águas subterrâneas, em virtude da pressão e da capillaridade, sobem pelas paredes junctamente com as exalações da drenagem e evaporam-se em miasmas aquosos e pútridos dentro do edifício. Tem este hospital por vizinhança íntima, os seguintes estabelecimentos: o quartel da guarda municipal, o mercado de peixe, o hospital do Carmo e as cadeias da relação. Está a cavaleiro do rio, cujos nevoeiros letaes o envolvem e penetram. De resto no coração da cidade.

Ramalho Ortigão analisa de seguida as enfermarias do hospital e as condições a que estão sujeitos os enfermos, concluindo que Isto é horrível, é pavoroso, é inacreditável![12]

Em 1883, António Augusto da Costa Simões elabora e publica um relatório com o título de O Hospital de Santo António da Misericórdia do Porto, em que documenta e amplia as críticas ao hospital e ao próprio edifício.

E’ grandioso o aspecto exterior do hospital de Santo António da misericórdia do Porto. Ostenta a sumptuosidade d’um palácio real dos mais imponentes. D’esta soberba architectura estão bem longe as frontarias, relativamente pobres, dos paços reaes da Bélgica, Hollanda, Italia e Baviera; e ainda dos paços imperiaes de Berlim e Vienna d’Austria. A antiga frontaria do Paço imperial das Tulherias em Paris, se não tivesse desapparecido com os incêndios da Communa, também hoje teria de vexar-se n’este seu confronto com a soberba frontaria do famoso palácio da misericórdia do Porto.

E’ essa a frontaria, que aqui se vê representada em estampa.

Apresento-a como documento, o mais authentico, e ao mesmo tempo o mais comprovativo, do orgulho insensato e leviana vaidade de quem planeou e executou tão dispendiosa e imprópria construcção.

A architectura monumental, que podésse conciliar-se com as condicções interiores exigidas n’um hospital, ainda poderia admittir-se, quando essa obra tivesse de representar, n’esta parte, a vontade d’um benemerito, que a mandasse levantar com dinheiro seu; mas uma construcção d’esta ordem, planeada e executada por administradores da fazenda alheia, não é muito que se qualifique d’escandalosa monstruosidade.

Era com o dinheiro dos pobres, que os mesarios levantavam para si este monumento d’orgulhosa vaidade; como se o patrimônio dos pobres fosse patrimônio dos mesarios, ou fosse patrimônio de todos os irmãos da misericórdia. (*)

(*) Nota de A.C. Simões - Vem a proposito o que escreveu Mendes Osorio, em 1868, no seu livro O hospital da santa casa da misericórdia do Porto…[o autor acrescenta a citação de Mendes Osório].

Uma tal fábrica mereceria pois a mencionada qualificação de monstruosa, ainda mesmo que as condicções interiores do edifício correspondessem às que se exige n’um hospital qualquer; mas infelizmente nem isso! Sempre se reconheceu aquella falta de boas condições n’este hospital; e em 1868 a mesma falta foi posta na mais clara evidencia com a instructiva publicação de Mendes Osorio; livro interessantissimo, que deveria estar sempre aberto nas bancas de trabalho de todos os mesarios de todas as mesas da misericórdia.

Óptimo edifício para muitas repartições públicas, e péssima casa para um hospital, como devera ser o da misericórdia do Porto. [13]


hsa24fig. 31 - Domingos Casellas Branco (?-?) e Caetano Alberto da Silva (1843-1924), Hospital da Misericórdia, no Porto, O Occidente, Anno 7, Volume VII, 1 de Novembro 1884, pág. 245. Segundo uma photographia.


[1] João Mendes Osório, O Hospital da Santa Casa da Misericórdia do Porto ou proposta apresentada em mesa no dia 2 de Janeiro de 1865 por João Mendes Osório, mesário que então era da mesma santa casa e a contra-proposta apresentada ulteriormente pelo Mordomo das Obras. Typographia de António José da Silva Teixeira. Porto 1868.

[2] Arthur William Costigan, pseudónimo de James Ferrier (1734-?), Letter XXII, in Sketches of Society and Manners in Portugal, in a series of letters from Arthur William Costigan, Esq., Late a Captain of the Irish Brigade in the service of Spain, to his brother in London. In two volumes. Printed for T. Vernor, Birchin – Lane, Cornhill, London, 1787. (pág. 397 e 398).

[3] James Murphy (1760-1814), Travels in Portugal, trough the provinces of Entre Douro e Minho, Beira, Estremadura and Alem-Tejo, in the years 1789 and 1790. Printed for A. Strahan and T. Cadell Jun. and W. Davies, London 1795. (pág. 10 e 11).

[4] José Alberto Corte Real, Manuel Antonio da Silva Rocha e Augusto Mendes Simões de Castro, Viagem dos Imperadores do Brasil em Portugal. Imprensa da Universidade, Coimbra 1872. (pág. 113).

[5] O Progressista numero 24 Sabbado 30 de Janeiro Anno 1847. (pág.48).

[6] Ver Helder Pacheco Porto: Hospital de Santo António no Tempo da Cidade, Santa Casa da Misericórdia do Porto e Edições Afrontamento, rua Costa Cabral 859, Porto 2010. (pág. 190).

[7] Francisco Ferreira Barbosa, Elucidário do Viajante no Porto, Imprensa da Universidade, Coimbra 1864. (pág. 48, 49 50 e 51).

[8] Alberto Pimentel, Guia do Viajante na Cidade do Porto e seus Arrabaldes, cap. XVIII Palacio de Crystal. Livraria Central de J. E. da Costa Mesquita Editor, Rua de D. Pedro 87, Porto 1877. (pág. 99).

[9] João Mendes Osório, O Hospital da Santa Casa da Misericórdia do Porto ou proposta apresentada em mesa no dia 2 de Janeiro de 1865 por João Mendes Osório, mesário que então era da mesma santa casa e a contra-proposta apresentada ulteriormente pelo Mordomo das Obras. Typographia de António José da Silva Teixeira. Porto 1868.

[10] Ter-se-á pensado no Tribunal que se instalou em S. João Novo, ou nos Paços do Concelho então no já considerado acanhado edifício da Praça de D. Pedro.

[11] Ramalho Ortigão (1836-1915), O Hospital da Santa Casa da Misericordia do Porto por João Mendes Osorio in Livros Obscuros in Gazeta Litteraria do Porto n.º11, 1.º Anno 1868, redactor Camillo Castello Branco, Typographia da Livraria de A. De Morais & Pinto, rua do Almada n.º 171. Porto 1868. (pág.104).

[12] Ramalho Ortigão e Eça de Queiroz, As Farpas. Chronica Mensal da Política, das Letras e dos Costumes. 2º Anno. Julho a Agosto 1872. Typographia Universal de Thomaz Quintino Antunes, Impressor da Casa Real, Rua de Cedofeita, 110. Lisboa 1872. (pág. 40 e 41).

[13] António Augusto da Costa Simões (1819-1903).O Hospital de Santo Antonio da Misericórdia do Porto, Relatório por A. A. Da Costa Simões, Decano jubilado da faculdade de Medicina, Administrador dos Hospitaes da Universidade, Delegado da Comissão Administrativa da Misericórdia do Porto, (com quatro estampas). Typographia do Jornal do Porto, 28, Rua dos Caldeireiros,30, Porto 1883. (pág. XXVII, XXVIII e XXIX).


II Parte - A envolvente do Hospital


A frente sul

Nos anos 70 do século XIX a ala sul do Hospital de Santo António está em parte construída, para o que foi necessário edificar um muro de suporte sobre a rua da Restauração.

hsa3fig. 32 – Pormenor da Panorâmica tendo ao centro a fachaa sul do Hospital de Santo António.

Em 1828 Joaquim da Costa Lima Sampaio projecta um paredaõ (…) para formar o declive que deve ter a rua que se projecta desembaraçar encostada ao lado do Sul do Real Hospital de S.to António da Cordoaria.

hsa30fig. 33 - Joaquim da Costa Lima Sampaio (17..-1837), Planta do paredaõ que se precisa para formar o declive que deve ter a rua que se projecta desembaraçar encostada ao lado do Sul do Real Hospital de S.to António da Cordoaria. Approvada pela Junta das Obras Públicas em 14 de Março de 1828. AHMP.

Em 1833 a frente sul do Hospital está já parcialmente construída apoiando-se num robusto muro de suporte.


hsa32fig. 34 - Joaquim Cardoso Villanova (1792/3-1850), Hospital da Misericórdia (Lado da Restauração). Imagem n.º76 do Album Edifícios do Porto em 1833, Biblioteca Pública Municipal do Porto, 1987.

E em 1854 com a rua da Restauração já aberta e o muro construído projecta-se o arranjo do Largo do Viriato.

hsa33fig. 35 - Plano da nova forma, e perfil que se projeta dar ao Largo do Viriato, segundo deliberação tomada pela Exma. Câmara Municipal (…) 14 de dezembro de 1854. AHMP.

A ala sul do Hospital já construída com o Torreão que remata o lado nascente nos anos 50 do século XX.

hsa34fig. 36 - Teófilo Rego (1914-1993), A frente sul do Hospital de Santo António c.1950. AHMP.

A frente sul do Hospital na actualidade.

hsa35fig. 37 – Foto de Novembro de 2017.



A frente poente


Da frente de oeste, que deveria deitar para a rua da Liberdade, nada está começado. [1]


O Hospital de Santo António, cujo projecto na sua totalidade nunca será construído, visto da Rua do Carranca (ou dos Carrancas como por vezes é nomeada).

Repare-se que quer o corpo principal quer a ala sul ainda não estão totalmente construídas.

hsa36fig. 38 - Frederick William Flower (1815-1889). O Hospital de Santo António visto da rua do Carranca.

A rua do Carranca e o Hotel do Louvre n.º10

 

hsa3afig. 39 – Pormenor da Panorâmica onde se assinalou a rua da Liberdade (rua do Carranca)

Do lado poente do HSA é visível a Rua do Carranca (nome que referia o palacete do Carranca, antes da construção do edifício onde está instalado o Museu Nacional Soares dos Reis), e que se chamará Rua da Liberdade e hoje rua de Aires Gouveia, e que liga até à então rua do Triumpho (hoje rua de D. Manuel II) e se estende para norte pela rua do Rosário.

Na planta elaborada em 1851, para o Alinhamento do Hospital de Santo António, mostrando o aqueduto que o atravessa, a Rua do Carranca é então rectificada com a demolição de quatro edifícios existentes na área do Hospital.



hsa37fig. 40 - Processo, Alinhamento do Hospital de Santo António, mostrando o aqueduto que o atravessaApprovado Porto em Camara em 11 d0 12 de 1851. AHMP.

A planta que reorientamos a norte e onde assinalamos a azul a parte que ainda se previa construir, e legendamos.

hsa37bfig. 41 – Planta anterior reorientada e legendada.

Legenda

1 Angulo sul nascente do Hospital já construído
2 Parte nascente ainda em alicerces
3 Ala norte ainda não construída
4 Ala poente que não será construída
5 Aqueduto
a rua do Carranca
b rua dos Quarteis
c rua do Rosário
d rua do Paço
e travessa do Carregal
f rua do Carregal
g rua do Carmo
h rua do Hospital
i rua dos Fogueteiros
j largo do Viriato
k rua da Restauração 


O Hotel do Louvre [2]

Em 1830 a esquina da rua do Rosário com a rua do Triumpho (então ainda rua dos Quarteis) estava ocupada pela casa de António Caetano da Silva Pedroza e por terrenos que o mesmo pretendia comprar.


hsa38fig. 42 – Luiz Ignacio de Barros Lima, Planta baixa da rua do Rosário, e rua dos Quarteis. Approvada esta planta. Porto em Junta de 11 de Março de 1830. AHMP.

Esta Planta hé para mostrar o terreno que pretende comprar o Requerente Antonio Caetano da Silva Pedroza; cujo terreno hé o que está junto as casas que se achaõ principiadas, só com soleiras ao entrar da Rua do Rosario, o q.al terreno vai banhado em cor Amarella.

A. Casas do Requerente Antonio Caetano da Silva Pedroza  B. Casas que se achaõ principiadas só com soleiras  C. Terreno que odito Pedroza, pretende comprar.

Advertencia. O que vai banhado em cor Azul, hé o cunhal do Hospital, que se colocou para baliza do seu quadrado, e servi de Regulamento nos edificantes adjacentes do Hospital, segundo o que há a este Respeito.


hsa38afig. 43 – A planta orientada a norte.


Mas em 1864 é Gaspar Joaquim Borges de Castro[3] que, em requerimento à Câmara Municipal - então presidida pelo Visconde de Lagoaça Antonio José Antunes Navarro (1803-1867) - e datado de 11 de Fevereiro de 1864, afirma que, no terreno que possui e que forma o angulo entre a Rua do Triumpho e a Rua do Rozario, deseja edificar n’esse angulo uma casa com duas frentes já sobre uma já sobre outra Rua, como indicão as plantas que apresenta.

hsa39fig. 44 – Alçado da casa no angulo entre a Rua do Triumpho e a Rua do Rozario.1864. AHMP.

E continua o requerente, ciente da dificuldade do cunhal, que o angulo formado pelas duas Ruas é muito agudo e por isso desagradável e incommodo, particularmente às carruagens e mesmo compromete a divisão interior do edifício (…)

Por isso propõe o arredondamento do cunhal e que o portal tem de ser colocado na curva, onde evite a pilastra B, e que o angulo será boleado como mostra a planta baixa conservando sobre qualquer das duas Ruas a regularidade indicada n’estas mesmas plantas.

hsa40fig. 45 –Planta da casa no angulo entre a Rua do Triumpho e a Rua do Rozario.1864. AHMP.

O requerimento é aprovado no dia seguinte 12 de Fevereiro de 1863 pela equipa chefiada por Joaquim da Costa Lima Júnior.

Contudo, aproveitando a realização da Exposição Internacional Portugueza é inaugurado no dia 1 de Setembro de 1865, no edifício de Gaspar Joaquim Borges de Castro no gaveto da rua do Triumpho com a rua do Rozario[4], o Grande Hotel de Paris, com grandes salas, ricamente decoradas (…) e excellentes quartos, meza redonda, comida a todas as horas, banhos de chuva e dos de tina. A casa tem as vistas mais pittorescas que podem dar-se e avista-se dos terrassos o seguinte: uma legua de caminho de ferro, a estação das Devezas, vista do oceano, e do Palacio de Crystal. [5]


hsa41fig. 46 - A localização do Hotel na planta de 1865.

Em 1871, talvez porque o nome de Paris é então conotado com a queda do Segundo Império e os acontecimentos da Comuna de Paris, o hotel muda de nome para Hotel do Louvre, agora propriedade de Maria Henriqueta de Mello Lemos e Alvellos (?-1904), tornando-se um dos melhores hotéis da cidade.

Alberto Pimentel refere em O Porto há trinta anos que, antes de o Hotel do Louvre ser aberto, não havia um que fosse bom, que tivesse as comodidades indispensáveis aos hóspedes menos exigentes, mas também refere que quem se hospedava num hotel não pensava senão em tratar dos seus negócios, e safar-se. Não se viajava por gosto. E se os hotéis eram maus, poucas pessoas tinham melhor em sua casa. [6]

E no seu Guia do Viajante de 1877 refere o Grande hotel do Louvre:

Grande hotel do Louvre, rua do Rosario, 5. Diaria 1:500 rs. Este hotel fica no bairro occidental, e muito perto do Palacio de Crystal Portuense. [7]

Mas em 1872 com a visita a Portugal de D. Pedro II Imperador do Brasil e a sua esposa a Imperatriz Teresa Cristina Maria e a sua instalação no Hotel do Louvre, este é então remodelado, ganhando então a fama de ser o mais luxuoso da cidade e o único capaz de receber tão ilustres visitantes.[8]

Contudo, com o rocambolesco episódio do pagamento da estadia do Imperador, e com a necessidade da proprietária para ser ressarcida do “calote” ter de se deslocar ao Brasil, o Hotel iniciou um processo de degradação.

Madame Rattazzi (Marie-Lætitia de Solms nascida Bonaparte-Wyse, 1831-1902) esteve no Porto na década de 70 do século XIX e, foi-lhe recomendado o Hotel do Louvre onde, mal recebida, acabou por aí não se hospedar.

No seu Portugal de Relance, que tanta polémica causou nos meios literários portugueses, escreve no seu estilo sarcástico que no Hotel do Louvre, o de melhor apparencia, não encontrei um único rapaz ou rapariga que fallasse uma língua conhecida. A dona da casa estava ainda recolhida e ninguém soube prestar-nos os esclarecimentos necessários…Afinal, a senhora aparecceu. Era uma boa ingleza gorda, de physionomia placida e rechonchuda, que alinhavava soffrivelmente algumas frases francezas, mas não comprehendia uma única! Impaciente e fatigada repeti a pergunta por mimica. Mas não obtive melhor resultado. A ingleza limitou-se a dizer-me uma dúzia de vezes, com o mesmo sorriso beatifico, que seu filho tinha saído. Só aquelles que atravessaram um lance igual ao meu poderão comprehender a impaciência com que eu esperava esse personagem! Fitava anciosa as altas portas, cuidadosamente fechadas, e perguntava a mim mesmo que espécie de «Sezame abre-te» poderia invocar para obter o desejado repouso. Cançada de uma longa espectativa infructifera encaminhei-me para o Hotel de Francfort (…) [9]

Em 1880 é dada notícia de um incêndio de reduzida dimensão, mas que no entanto é significativo do estado do hotel.

A notícia é de 15 de junho - Às 5 horas e um quarto da tarde. Rua do Triumpho. Propriedade do visconde das Devezas, onde está estabelecido o hotel do Louvre, de D. Maria Henriqueta de Mello Lemos e Alvellos. O incendio que causou insignificantes prejuizos declarou-se na fuligem da chaminé e foi extincto pela bomba dos voluntários.[10]

Em 1880, o Hotel do Louvre acaba mesmo por fechar as portas, na sequência de um processo que Joaquina Augusta Vieira Borges de Castro (n. 1856 e filha de Gaspar Joaquim Borges de Castro) move contra Maria Alvellos, por esta lhe estar a dever a prestação de arrendamento de 1879 e 1880 (Processo nº3018/1880).

Em 1882 Maria Henriqueta de Mello Lemos e Alvellos, a morar na Foz do Douro ainda envia um conjunto de 6 quadros de torçal aplicados sobre madeira, valiosas peças do século XVII, representando temas de história antiga e da história sagrada, como a Sagrada Família ou S. João Baptista, exibidos na categoria de Tecidos, Bordados, Rendas, etc. na Exposição Retrospectiva de Arte Ornamental Portugueza e Hespanhola, realizada sob a protecção do Rei D. Luís e presidida por D. Fernando de Saxe-Coburgo. [11]

Contudo em 1904 Maria Henriqueta de Mello Lemos e Alvellos morre na miséria.

Encerrado o Hotel do Louvre, em 1885 o edifício foi ocupado pela Casa de Saúde do Dr. António Bernardino de Almeida (?-1888).

No século XX ocuparam o edifício o Orfeão Lusitano, o Sport Comércio e Salgueiros, o Movimento Unidade Democrática (MUD), o Cineclube do Porto e a Escola de Condução A Desportiva.


[1] Ignacio de Vilhena Barbosa (1811 — 1890), Archivo Pittoresco. Tomo VIII n.º32, 1865. (pág.250).

[2] Ver Daniela Filipa Duarte Alves, Hélder Filipe Sequeira Barbosa e Jorge Ricardo Pinto, Gaspar Joaquim Borges e o gaveto da rua do Rosário in II Congresso O Porto Romântico, Actas. Coord. Gonçalo de Vasconcelos Sousa. Edição de CITAR Centro de Investigação em Ciência e Tecnologia das Artes, Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa, Porto Junho 2016.

[3] Gaspar Joaquim Borges de Castro (1799- 1871), era natural de Santa Maria da Feira, da freguesia de Milheirós de Poiares.

[4] O nome da rua deriva do proprietário dos terrenos por onde foi aberta, Domingos do Rosário Nascimento e Almeida.

[5] O Commercio do Porto, 12 de Agosto de 1865. Citado por Daniela Filipa Duarte Alves, Hélder Filipe Sequeira Barbosa e Jorge Ricardo Pinto, Gaspar Joaquim Borges e o gaveto da rua do Rosário in II Congresso O Porto Romântico, Actas. Coord. Gonçalo de Vasconcelos Sousa. Edição de CITAR Centro de Investigação em Ciência e Tecnologia das Artes, Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa, Porto Junho 2016.

[6] Alberto Pimentel (1849-1925), O Porto ha Trinta Annos, Livraria Universal de Magalhães & Moniz, Editores, Largo dos Loios, 12. Porto 1893. (pág. 222).

[7] Alberto Pimentel, Guia do Viajante na Cidade do Porto e seus Arrabaldes, cap. XVIII Palacio de Crystal livraria Central de J. E. da Costa Mesquita Editor, Rua de D. Pedro 87, Porto 1877. (pág.65)

[8] Ver neste Blogue http://doportoenaoso.blogspot.pt/2010/07/uma-visita-ao-porto-com-d-pedro-ii.html

[9] Maria Rattazzi, Portugal de Relance. Traducção Portugueza do livro Le Portugal a vol d’oiseau. Auctorisada pela auctora e ampliada com um novo prefácio em resposta á critica. Livraria Editora de Henrique Zeferino, rua dos Fanqueiros, 87. Lisboa 1882. (pág. 143-144).

[10] O Bombeiro Portuguez n.º 7, 4.º Anno, Porto 1 de Julho de 1880. Escriptorio Rua Fernandes Thomaz,128. Porto 1880.

[11] Catálogo Illustrado da Exposição Retrospectiva de Arte Ornamental Portugueza e Hespanhola celebrada em Lisboa em 1882 sob a protecção de Sua Magestade o Senhor D. Luiz e a presidência de Sua Magestade o Senhor D. Fernando, Imprensa Nacional Lisboa 1882. (pág. 78, 79, 81 e 82).



A frente norte

Na data da Panorâmica a ala norte do Hospital estava a iniciar a sua construção, já que em 1865 Vilhena de Barbosa escreve no Archivo Pittoresco: Da frontaria do lado norte, que deve correr pela praça do Duque de Beja, unicamente está principiado o alicerce no angulo junto à frente principal. [1]

E como já aqui se referiu Pinho Leal acrescenta:

O lado do N., que deita para o largo hoje chamado do Duque de Beja, anda em construcção, e n'elle se tem trabalhado com afinco, ha seis annos. [2]

Todo o terreno a norte do Hospital era inicialmente uma zona de campos travessados pelo Rio Frio, onde se desenvolvia uma planta gramínea de zonas húmidas - a Carrega – que terá dado origem ao nome de Carregal.

Na planta redonda de Balck (1813) o terreno está já delimitado pela rua do Paço, sendo que o troço a nascente está assinalado como Rua do Carregal, de onde parte a Viella do Carregal.

hsa42fig. 47 – Pormenor da Planta Redonda de 1813.

Em 1839 na planta de Costa Lima toda a rua que contorna o terreno incluindo o troço junto à fachada nascente do Hospital denomina-se Rua do Paço.

hsa43fig. 48 – Pormenor da Planta de Costa Lima de 1839.

Em 1852 a cerca do antigo convento dos Carmelitas está já loteada sendo que a sul os terrenos estão destinados à Escola Médico-cirúrgica e ao quartel da Guarda Municipal; a nascente à Ordem dos Terceiros do Carmo onde se situa o seu Hospital e a poente à Academia Politécnica para aí plantar o seu Jardim Botânico.


hsa44fig. 49 - Planta do edifício e cerca do extinto Convento dos Carmelitas da Cidade do Porto… Paço das Necessidades em vinte de Outubro de mil oitocentos e cinquenta e dois. Assinado por Rodrigo Fonseca Magalhães (1787-1858).

Legenda
1 – Guarda Municipal
2 – Escola Médico Cirurgica
3 – Academia Polytecnica
4 – Ordem Terceira do Carmo.


O Jardim Botânico

Criado por Passos Manuel em decreto publicado no Diário do Governo de 26 de Setembro de 1936, o Jardim Botânico do Porto só em 1864 será concretizado.

Alberto Pimentel descreve assim o refere:

O jardim botanico da Academia Polytechnica acha-se colocado na cêrca dos extinctos frades do Carmo, na parte voltada para oeste, em terreno que foi dado á mesma Academia pela Senhora D. Maria II, quando fez distribuição d’aquella cêrca pela Eschola Medico-Cirurgica, Guarda Municipal e Ordem Terceira do Carmo.

Em 1864 começaram regularmente as obras do jardim, depois de se fazerem os necessarios muros, divisões de terreno e alegretes, bem como uma casa propria para trabalhos praticos, guarda de sementes, bolbos, etc. Logo em seguida povoou-se o jardim com todas as plantas existentes no Porto e seus suburbios. [3]

Se por volta de 1852 a parcela do terreno da cerca do convento do Carmo está já destinada para o jardim Botânico, segundo Pinho Leal, só em 1864 principiaram as obras do jardim botânico, e da casa para os trabalhos e experiências botânicas, e para guardar sementes, ferramentas, etc. Plantaram-se ou semearam-se logo, varias plantas, que se puderam obter na cidade e nos seus arredores.

Em 1867, do jardim botânico da Ajuda (Belém) veio para aqui uma colleeção de 300 e tantas plantas, escolhidas pelo primeiro botânico do Porto, (n'esse tempo) Agostinho da Silva Vieira. [4]

Do jardim botânico, de Coimbra, tambem para aqui vieram varias plantas e sementes — e de outras terras do reino, foram igualmente para aqui mandadas várias espécies de estimação, que se poderam encontrar. Ainda em construcção (maio de 1877) uma vasta e bem collocada estufa, para as plantas exóticas. [5]

hsa45fig. 50 - António Plácido da Costa (1848-1916) Escola Botanica. Planta do antigo Jardim Botânico da Academia Politécnica desenhada pelo estudante Plácido da Costa…

Na parte mais elevada acham-se as arvores e arbustos; ao sul d’esta faxa de terreno as cuniferas; na parte inferior d’esta faxa a eschola botanica, e no extremo sul da eschola botanica uma porção de terreno ajardinado, que póde servir de modelo aos visitantes. Ha na parte superior d’este jardim um pantano, gruta e mina para conservação de plantas proprias. Projecta-se no meio do jardim um lago para plantas puramente aquaticas. O gradeamento e portões promettem belleza architectonica, mas acham-se ainda por concluir. [6]

hsa46fig. 51 – Pormenor da planta de Telles Ferreira de 1892.

José Augusto Vieira no Minho Pittoresco afirma:

O Jardim botânico do Porto, dependente da Academia polytechnica, modesto, mas satisfazendo perfeitamente às exigências do ensino, ocupa parte dos terrenos da cerca dos Carmelitas, tendo a entrada principal pela praça do Duque de Beja. [7]

hsa47fig. 52 –O Jardim Botânico do Porto no Carregal.


O edifício da Escola Médico-Cirúrgica

Em 1852 após uma visita da Família Real à Escola então no Hospital de Santo António, foi decidido encomendar ao arquitecto e lente da Academia Joaquim da Costa Lima um projecto de um edifício para a cerca do extinto convento dos Carmelitas.

Mas só por volta de 1875 é que o edifício iniciou a sua construção agora segundo um projecto do arquitecto Joaquim Vaz de Lima estando apenas concluído em 1883. Foi, mais tarde, popularmente conhecido como o chalet do brasileiro.

Alberto Pimentel refere nos anos 70 do século XIX que se está a construir o novo edifício da Eschola Medico-Cirurgica a par do jardim botanico, na cêrca dos extinctos carmelitas. Este novo edificio deixa ante-olhar o inconveniente de não ter communicação interior com o hospital da Misericordia, que lhe fica fronteiro, a fim de secretamente serem transportados das enfermarias para o theatro anatomico os cadaveres que hajam de ser estudados pelos alumnos.

Actualmente, e desde muitos annos, a Eschola Medico-Cirurgica acha-se estabelecida na parte do edificio do Hospital Real de Santo Antonio, que faz angulo para a rua da Restauração. Como facilmente se comprehende, não são muitas as salas destimadas ao ensino, e por isso muito é para desejar que tão importante estabelecimento scientifico tenha quanto antes casa propria e conveniente.[8]

hsa48fig. 53 – Postal do início do século XX. Porto-Escola Médica e Quartel da Guarda Municipal.

O edifício é concluído no início dos anos 80 e aí instalada a Escola Médico-Cirúrgica do Porto, que em 1911, com a criação da Universidade do Porto, passa a Faculdade de Medicina.

(Nos anos 30 do século XX o edifício é substituído por um novo com projecto dos arquitectos Baltazar de Castro e Rogério de Azevedo).

hsa49fig. 54 – Pormenor da Planta de Telles Ferreira de 1892. Assinalado a verde o Jardim Botânico e a vermelho o conjunto das igrejas do Carmo e dos Carmelitas.

O jardim do Carregal

Desde 1857, parte dos terrenos aráveis a norte do Hospital de Santo António, tinham sido cedidos pela Santa Casa da Misericórdia à Câmara Municipal para aí abrir um jardim público bem como um novo arruamento (actual rua do Doutor Tiago d’Almeida [9]).

A todo o recinto juntamente com a rua do Paço, puseram o nome de Praça do Duque de Beja.


hsa50fig. 55 - Planta da Praça do Duque de Beja e da sua ligação com as ruas cicumvizinhas. Porto 5 de Janeiro de 1878. Assinado F.º Eduardo Lessa, Documento/Processo, 1857/09/03 – 1886/06/08. AHMP.

Legenda
1 Jardim botânico da Academia Polytechnica
2 Terreno da Escola Medico Cirurgica
3 Quartel da Guarda Municipal
4 Hospital Real de Santo Antonio
5 Ala norte do Hospital de Santo António (ainda não construída)
6 Ala poente do Hospital de Santo António (não construída)
7 Campo do Hospital
8 Rua do Triumpho
9 Rua do Rosário
10 Rua do Paço (actual rua Clemente Meneres).
11 Travessa do Rosário
12 Praça do Duque de Beja
13 Rua do Carregal
14 Rua do Carmo
a Terreno a expropriar à S,ta Caza da Misericórdia p.ra alargamento da rua do Triumpho.
b Dito a expropriar à mesma S,taCaza p.ra alargamento da rua do Paço do lado do [Poente]
c Dito a expropriar à Escola Medico Cirurgica, para alargamento da mesma rua do lado do Nascente


Mas o Jardim do Carregal apenas foi concluído em 1897, pelo Jardineiro-Paisagista Jerónimo Monteiro da Costa (1845-1905) que, nessa altura, exercia o cargo de Director dos Jardins Municipais, embora o seu desenho figure já na planta de Telles Ferreira de 1892.


hsa51fig. 56 – Praça Duque de Beja e Jardim Botânico. Pormenor da Planta de Telles Ferreira de 1892.

Embora de dimensões muito menores do que o jardim da Cordoaria ou do Palácio de Cristal, o jardim do Carregal (hoje Carrilho Videira [10]), é o terceiro do conjunto dos jardins românticos do centro da cidade da segunda metade do século XIX.


hsa52fig. 57 – Os três jardins românticos. Pormenor da Planta de Telles Ferreira de 1892.

Como o jardim da Cordoaria, também ele se organiza em torno de um romântico lago de forma irregular, atravessado por uma ponte desenhada como ruína.

Este lago está rodeado por cedros e sequoias, entre caminhos sinuosos e produzindo profundas sombras.

hsa53fig. 58 – O lago do jardim do Carregal.AHMP

Estas características dão ao jardim uma atmosfera misteriosa, quase de um estranho bosque, evocando a floresta escura dos versos iniciais da Divina Comédia de Dante Alighieri.

Nel mezzo del cammin di nostra vita

mi ritrovai per una selva oscura



hsa54fig. 59 – Pormenor da planta de Telles Ferreira de 1892.

A praça do Duque de Beja ajardinada e o jardim botânico estão cartografadas na planta de Telles Ferreira.


hsa55fig. 60 – Quadrículas 235 e 236 da Planta de Telles Ferreira de 1892. Levantamento à escala 1:500 colorido. AHMP.

 


hsa56fig. 61 – Postal. Porto-Lago do Jardim na Praça Duque de Beja. AHMP.



hsa57fig. 62 – O Jardim do Carregal no Google Earth.



hsa58fig. 63 – O Jardim do Carregal na actualidade. CMP.



hsa59fig. 64 – O lago tendo por fundo a fachada norte do Hospital de Santo António.


[1] I. de Vilhena Barbosa Archivo Pittoresco Tomo VIII n.º32, 1865. (pág.250).

[2] Pinho Leal (186-1884), Portugal Antigo e Moderno, Livraria Editora de Mattos Moreira & Companhia, Praça de D. Pedro 68, Lisboa 1873 e 1890. (VII Volume 1875, pág. 313 e 314).

[3] Alberto Pimentel, Guia do Viajante na Cidade do Porto e seus Arrabaldes, cap. XVIII Palacio de Crystal livraria Central de J. E. da Costa Mesquita Editor, Rua de D. Pedro 87, Porto 1877. (pág.87)

[4] Agostinho da Silva Vieira (1825-18..), em 1855 tomou posse do logar de pharmaceutico do Hospital Real de Santo Antonio, e em 1860 tomou posse do logar de primeiro offlcial do Jardim Botânico da Academia Polytechnica, por decreto de 24 de abril do mesmo anno, precedendo concurso, e exercendo muito intelligentemeute este logar até 13 de janeiro de 1875, data em que pediu a sua exoneração. In Pinho Leal Volume V. (pág. 258).

[5] Pinho Leal (186-1884), Portugal Antigo e Moderno, Livraria Editora de Mattos Moreira & Companhia, Praça de D. Pedro 68, Lisboa 1873 e 1890. VII Volume 1875. (pág.445).

[6] Alberto Pimentel, Guia do Viajante na Cidade do Porto e seus Arrabaldes, cap. XVIII Palacio de Crystal livraria Central de J. E. da Costa Mesquita Editor, Rua de D. Pedro 87, Porto 1877. (pág.88)

[7] José Augusto Vieira (1856-1890), O Minho Pittoresco Tomo II, Livraria de Antonio Maria Pereira Editor, Rua Augusta 50-52, Lisboa 1887. (pág. 716).

[8] Alberto Pimentel, Guia do Viajante na Cidade do Porto e seus Arrabaldes, cap. XVIII. Palacio de Crystal livraria Central de J. E. da Costa Mesquita Editor, Rua de D. Pedro 87, Porto 1877. (pág.89 e 90).

[9] Tiago Augusto d’Almeida (1864-1936), médico e professor da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto.

[10] José Carrilho Videira (1845-1905), escritor, editor e militante republicano.


Continua e conclui com

A frente nascente e a extraordinária resistência do quarteirão do “Piolho”


quartaerea

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