Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















sexta-feira, 6 de abril de 2018

O Porto através de uma Panorâmica de c. 1870 (10)

ap1comp

fig. 1 - Autor não identificado  Panorâmica do Porto c. 1870 (originais em vidro do Museu Nacional de Soares dos Reis Porto) cópia cedida por gentileza do arquitecto Manuel Magalhães.


Um percurso - com diacrónicas derivas na zona da praça de Carlos Alberto - a partir de um texto de Alberto Pimentel sobre uma pintura de António José da Costa 1

Às vezes, o Porto parecia como que esquecer-se dele. Ele é que nunca se esqueceu do Porto. [1]

Alberto Pimentel (1849-1925) de quem no próximo dia 14 de Abril se cumprem 169 anos do seu nascimento, escreveu em 1908 um texto intitulado Outros tempos (Quadro do pintor portuense António José da Costa) [2] publicado no seu livro Fitas de Animatographo. [3]

E se a praça de Carlos Alberto e a sua envolvente não figuram na Panorâmica, elas são descritas na segunda metade do século XIX, por Alberto Pimentel que recorda o Porto quarenta anos antes, situando-o por volta de 1868, data não longe da que é atribuída à Panorâmica.

O texto inicia-se pela referência a uma deslocação ao Porto onde Alberto Pimentel teve a ocasião de visitar o atelier dos pintores António José da Costa e do seu sobrinho Júlio Costa.

Ha dois annos, vindo eu ao Porto, tive occasião de visitar o atelier dos pintores António José da Costa e Júlio Costa — tio e sobrinho — na rua de Bellos Ares, recanto campestre da linda Avenida da Boavista.

Deixemos por agora a referência que, em nota de rodapé, faz Alberto Pimentel ao pintor, (que trataremos na segunda parte), e centremo-nos no facto do escritor afirmar que:

Levára-me ali, principalmente, o desejo de examinar uma téla, que deveria ser para mim alguma coisa mais do que uma obra d'arte — talvez uma sagrada e veneranda memoria do passado, se não falhassem as informações que me haviam fornecido.

E o certo é que não falharam.


[1] Sobre Alberto Pimentel. Mário Portocarrero Casimiro (1909-1961), Tripeiros de Gema, Latina - Livraria editora, rua de Santa Catarina 2 a 10. Porto 1942. (pág. 74).

[2] Alberto Pimentel, Fitas de Animatographo. Capítulo XIX, Outros tempos (Quadro do pintor portuense António José da Costa). De passagem no Porto, março de 1908. (pág.176 a 193).

[3] Alberto Augusto de Almeida Pimentel (1849-1925), Fitas de Animatographo. Parceria António Maria Pereira, Livraria Editora, Rua Augusta, 44 a 54. Lisboa 1909.


A pintura de António José da Costa [1] é com efeito o pretexto para Pimentel afirmar que recebi d'esse quadro, apenas tocado em esboço, uma profunda impressão de ternura e saudade; revivi, deante d'elle, muitas horas felizes da infância e da juventude; contemplei insaciavelmente, n'um deleite de recordação longinqua, o Porto de outrora em seus aspectos e costumes genuinamente clássicos, pittorescamente ronceiros. [2]

O quadro de António José da Costa aparece reproduzido, mas quase ilegível, no livro de Alberto Pimentel e em uma fotografia semelhante inserta em Notas d’Arte de António de Lemos (Álvaro). [3]

Por isso adoptamos a versão apresentada por Rui Manuel da Costa Fiadeiro Duarte (de Cifantes e Leão) na comunicação Figuras Picarescas no Porto na segunda metade do século XIX, ao II Congresso “O Porto Romântico”. [4]

ap2compfig. 2 – António José da Costa (1840- 1929), reprodução do quadro Outros Tempos c.1870.

O próprio Alberto Pimentel divide o texto Outros Tempos em duas partes.

Uma primeira parte em que se debruça o local da cena do quadro e uma segunda parte em que Alberto Pimentel analisa a tela de António José da Costa evocando as personagens que nela figuram.


[1] Em nota de rodapé Alberto Pimentel traça uma pequena biografia do pintor: António José da Costa, natural do Porto, nasceu em 1840 na freguezia de Cedofeita. Filho de António José da Costa e Margarida Rosário da Costa. Matriculou-se na Academia Portuense de Bellas Artes em 1853, terminando o seu curso, que é de dez annos, em 1862. Conseguiu, portanto, vencer n'um anno dous. E no ultimo, quinto de pintura histórica, foi approvado com louvor. Na exposição internacional de 1865, no Palácio de Cristal do Porto, obteve com o bello retrato de seu pae menção honrosa, e depois em varias exposições de Lisboa e Porto tem sido honrado com medalhas de terceira e segunda classe.

Ver ainda neste blogue O Jardim que foi primeiro da cidade. http://doportoenaoso.blogspot.pt/2015/02/o-jardim-que-foi-primeiro-da-cidade-3.html

[2] Alberto Pimentel, Fitas de Animatographo. Capítulo XIX, Outros tempos (Quadro do pintor portuense António José da Costa). De passagem no Porto, março de 1908. (pág.177).

[3] António de Lemos (Alvaro), Notas d’Arte. Typographia Universal (a vapor), Travessa de Cedofeita, 54. Porto 1906. (pág.107). No cap. XIV Pintores Portuenses: Antonio José da Costa, António Lemos num texto datado de 1904 escreve sobre o quadro: No primeiro, que chamarei Outros Tempos e que tem o duplo interesse de ser um repositório de figuras conhecidas e muito populares no Porto, taes como o Dr. Pimentel, pae do escritor Alberto Pimentel, o Amorim Viana, o professor João Correia, o pintor Rezende, o Brown,etc. que na janela e na rua, assistem ao desfilar do regimento onde estamos a vêr perfeitamente o ar aguerrido e os jogos malabares d’esse grupo de porta-machados e seu tambor-mór que, descendo pela rua da Sovela abaixo viram para o seu lado direito, para a travessa de Cedofeita, n’uma cadencia de marche-marche. E na massa quasi informe que os segue há a intuição característica do grosso do regimento. (pág.108).

[4] Rui Manuel da Costa Fiadeiro Duarte (de Cifantes e Leão), Figuras Picarescas no Porto na segunda metade do século XIX. In II Congresso “O Porto Romântico” – Actas. Coord. Gonçalo de Vasconcelos e Sousa. Centro de Investigação em Ciência e Tecnologia das Artes, Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa (CITAR). Porto, Junho de 2016.


I parte

Na primeira parte Alberto Pimentel - a partir do quadro - evoca o lugar onde nasceu e o tempo da sua infância e juventude (viveu no Porto até aos 25 anos).

A rua da Sovella

Diz o autor:

O pretexto do quadro é a passagem do regimento de infantaria 18, porta-machados á frente, pela estreita rua da Sovella, depois 16 de maio, e hoje dos Mártires da Liberdade.

Vem o regimento desembocando desta rua para a das Oliveiras e espelhando os seus metaes á luz viva do sol. [1]


ap2acompfig. 3 – O regimento de infantaria 18.

Podemos observar o local que figura no quadro através da planta (não muito rigorosa) de Perry Vidal publicada em 1865.

De notar que a antiga rua da Sovella chamava-se então rua de 16 de Maio e que terá ainda sido chamada de rua de S.to Ovídio. Quando Alberto Pimentel escreve o seu texto já se chamava rua dos Mártires da Liberdade.

A casa onde nasceu Alberto Pimentel, e que figura no quadro de António José da Costa, situava-se no entroncamento da rua das Oliveiras com a Viela do Açougue (depois travessa de Cedofeita) e a rua da Conceição.

ap3compfig. 4 – A zona do quadro na planta de 1865.

Alberto Pimentel em outro texto de O Porto ha Trinta Annos recorda também a rua da Sovella e a casa onde nasceu: O que eu sei é que nasci n'aquella rua, e alli me criei e passei os annos ditosos da infância. O que também sei, com profunda magua minha, é que a casa onde nasci foi arrasada, o que priva da gloria de uma lapide commemorativa do meu nascimento. [2]

Nesta época da esquina dos séculos outros autores referem a rua da Sovela.

António Sá de Albergaria no seu romance Os Filhos do Padre Anselmo, publicado em 1904, refere-a no percurso de uma das suas personagens.

Eugenio de Mello, deixando o procurador e a familia, seguiu pela rua de Cedofeita, subiu á rua dos Bragas, desandou á rua da Sovella e, passando o Campo da Regeneração, entrou na rua da Rainha.

O relogio da Lapa fazia soar uma hora da madrugada quando o bohemio parou em frente de uma casa de um unico andar, construcção moderna, em que se notava decencia e bom gosto. [3]

E D. João de Castro no seu romance Redempção também publicado em 1904 refere um casarão na rua, próxima do quartel de Santo Ovídio.

Maria José nascera no Porto, em um casarão da rua da Sovela, habitação tristonha e sem conforto, apesar de receber ainda na sua suja fachada de três andares, a livre luz do Campo de Santo Ovídio. Seu pae, o capitão Passos, de infanteria 18, preferira aquelle local perto do quartel, por conveniências de serviço. E alli, a dois passos do Dever, passava as manhãs desafinando um velho piano com hymnos marciaes, recompostos pela sua fantasia ociosa, ou dialogando galantemente com um rancho de vizinhas alegres, filhas d’um merceeiro, que se divertiam e deliciavam com as liberdades outomniças d’aquelle velho gallo de caserna. [4]

Finalmente Luciano Cordeiro, em pequena nota biográfica sobre Silva Porto (1817-1890) refere que o explorador nasceu na rua de Santo Ovídio remetendo para uma nota de rodapé o elencar dos diversos nomes da rua entre os quais o de rua de Sovela.

Silva Porto. Nasceu no Porto, — cujo nome por amor da terra natal veio a acrescentar ao seu, —Antonio Francisco Ferreira da Silva, n’uma pequena casa da rua de Santo Ovidio, * em 24 de agosto de 1817, sendo baptisado na velha egreja matriz de São Martinho de Cedofeita, em 7 de setembro d’aquelle anno. [5]

* Tem tido differentes nomes: Santo Ovidio até 1833, depois Rua 16 de maio (em 1835), Rua da Sovela, e hoje, Rua dos Martyres da Liberdade.


[1] Alberto Pimentel, Fitas de Animatographo. Capítulo XIX, Outros tempos (Quadro do pintor portuense António José da Costa). De passagem no Porto, março de 1908. (pág.177).

[2] Alberto Pimentel, O Porto ha Trinta Annos, Porto, Livraria Universal de Magalhães & Moniz Editores, Porto 1893. (pág. 151).

[3] António José da Costa Couto Sá de Albergaria (1850-1921), Os Filhos do Padre Anselmo, Capítulo IX: Amores faceis. Livraria Chardron de Lello & Irmão, Editores. Porto 1904. (pág.76).

[4] (D. João de Vasconcellos Sousa Castro Lima e Mello de Athayde e Almada). D. João de Castro (1871-1955), Redempção, Livraria Moderna, Rua Augusta, 95, Lisboa 1904. (pág. 71).

[5] Luciano Cordeiro (1844-1900), Silva Porto, Sociedade de Geografia de Lisboa, Typographia do Commercio de Portugal Rua Ivens, 41, Lisboa 1891. (pág. 3).



Voltando ao texto de Alberto Pimentel este descreve o quadro de António José da Costa:

Pessoas conhecidas no Porto d'aquella época — que remonta a quarenta annos de distância pelo menos— detéem-se a observar esse espectáculo marcial, que tanto alvoroçava então, á falta de melhor, os transeuntes e moradores da cidade invicta e dormente. Na varanda do prédio, que separava as ruas da Sovella e do Coronel Pacheco, uma família assiste, ávida de sensações, á passagem do regimento. E o rapazio, atraído pela banda militar, enovela-se deante dos soldados ou tenta entricheirar-se com os «frades de pedra», que não sei ao certo se existiam ali n'esse tempo, mas que em todo o caso eram ainda vulgares nas ruas do Porto com o nome popular de «peões». [1]

Os “frades de pedra”

Os “frades de pedra” ou “peões” eram pilares de granito colocados junto de edifícios, muitos deles religiosos, para limitar o espaço destinado apenas aos peões, como se vê no desenho de Joaquim Cardoso Villanova, junto à Igreja do Carmo.

ap4fig. 5 - Joaquim Cardoso Villanova (1792 ou 1793-1850), Egreja do Carmo, desenho a tinta-da-china e aguada sobre papel. Estampa n.º41 do Álbum Edifícios do Porto em 1833, Biblioteca Pública Municipal do Porto 1987.

ap4afig. 6 - Pormenor da imagem anterior.


[1] Alberto Pimentel, Fitas de Animatographo. Capítulo XIX, Outros tempos (Quadro do pintor portuense António José da Costa). De passagem no Porto, março de 1908. (pág.177).


O local representado na pintura

E Alberto Pimentel refere então as alterações que se fizeram nesses quarenta anos, entre a pintura e o seu texto e evoca a casa onde nasceu.

Actualmente o logar escolhido pelo artista, para dar a impressão de uma época distante, que é o seu principal intuito, não conserva exactamente o mesmo aspecto.

Tem sido modernisado pelo camartello municipal.

Comquanto a rua dos Mártires da Liberdade seja das menos modificadas, algumas alterações tem sofrido no trecho em que o quadro de António Costa nos faz assistir á passagem do regimento.

ap2ccompfig. 7 - O prédio, que situado entre aquella rua e a do Coronel Pacheco

O prédio, que situado entre aquella rua e a do Coronel Pacheco tinha o feitio de um ferro de brunir roupa, com o bico voltado para as Oliveiras, foi há annos demolido.

Não resta d'elle senão a lembrança no espirito dos velhos. [1]

Eu diria que mais do que um ferro de brunir, o prédio evoca a proa de um navio que separa as águas. Ou nos felizes versos de Luiza Neto Jorge:

O barco é a bifurcação
que o mar inventa
[2]

ap5compfig. 8 - O ferro de brunir na planta de Telles Ferreira de 1892.

E Alberto Pimentel descreve a casa que era de seus pais, referindo a rua do Mirante, depois rua do Coronel Pacheco.

Morou ali, durante largos annos, a família de um médico portuense, que o herdara dos seus antepassados.

Casa antiga, construída n'um tempo em que se não dava importância ao alinhamento dos prédios, tinha, é certo, uma apparencia irregular e defeituosa, mas era vasta no interior, e possuíra um amplo quintal, abundante de árvores, de flores e de água. Parte d'este quintal — diziam memórias de família — fora expropriada para alargamento da velha rua do Mirante, que depois do cerco do Porto tomou o nome de rua do Coronel Pacheco, um dos bravos militares d'aquella época bellicosa. (*)

O nome — do Mirante — parece que viera de uma «casa de fresco», caramanchão diríamos hoje, que em mais remotas idades se erguia sobre o muro do quintal por aquelle lado.

(*) Nota de Alberto Pimentel: José Joaquim Pacheco, uma das victimas da infeliz sortida da Areosa em 1833.

A rua e o largo do Mirante (Coronel Pacheco)

A Rua e o Largo do Mirante (que em 1835 tomaram o nome de Coronel Pacheco) estão assinaladas por escrito na planta Redonda de 1813 e na planta de 1833 W. B Clarke.

ap6compfig. 9 - Planta Redonda de 1813

ap7compfig. 10 - Planta de W.B. Clarke de 1833

Uma planta do início do século XIX mostra em pormenor a rua e o largo, bem como a rua da Sobella (Sovella) designando o troço sul da rua que se dirige para o Campo de S.to Ovídio.

ap8fig. 11 - Luis Ignacio Barros Lima (17?-18?). Mapa do actual estado em que se acha o alinhamento da praça do Mirante, mostrando igualmente as ruas mediatas à mesma, com os seus respectivos nomes. 18??. AHMP.

A. Praça do Mirante. B. Beco que vais sahir a Rua de st.to Ovidio. C. Rua de st.to Ovidio.  D.Travessa do Pinheiro. E. Rua da Sobella. F. Rua da Conceição. G. Viella do açougue. H. Rua por onde se ade dirigir o aqueduto d’agua que vem de Salgueiros. O que aí é banhado em cor amarella, he a terra da viella que tem a receber Maria Joaquina Moura.

Alberto Pimentel, em outra publicação, afirma que por aqui se terá temporariamente instalado Camilo Castelo Branco.

Em 1854 havia na casa da quinta do Pinheiro uma pension, que parece ter sido a moradia de que o romancista mais gostou.

A quinta do Pinheiro fica na rua deste nome, a dois passos das ruas da Trindade e da Conceição, do largo da Picaria e da rua dos Mártires da Liberdade (antiga rua da Sovela). [3]


[1] Alberto Pimentel, Fitas de Animatographo. Parceria António Maria Pereira, Livraria Editora, Rua Augusta, 44 a 54. Lisboa 1909. (pág.177).

[2] Luiza Neto Jorge (1939-1989), Sítio absorvido VI de 19 Recantos e outros Poemas. Organização e apresentação de Jorge Fernandes da Silveira; organização de Mauricio Matos; biobibliografia de Gastão Cruz. Editora 7Letras. Rio de Janeiro 2008. (pág.78).

[3] Alberto Pimentel O Torturado de Seide (Camilo Castelo Branco). Livraria de Manoel dos Santos, 13, Largo do Calhariz,14. Lisboa 1921. (pág.176).


O Largo das Oliveiras hoje Largo Alberto Pimentel

E é ainda referido pelo autor de Fitas de Animatographo o Largo das Oliveiras que em 1925 passou a chamar-se muito justamente Largo de Alberto Pimentel, local onde existiu a casa onde nasceu o escritor.

O largo das Oliveiras, formando uma encruzilhada pela confluência da rua d'este nome, da rua dos Mártires da Liberdade, da rua da Conceição e da viella do Açougue (hoje travessa de Cedofeita) apenas foi modificado pela largueza que modernamente se deu à embocadura da rua dos Mártires da Liberdade.

ap9

ap9b

fig. 12 – O Largo das Oliveiras marcado com a letra A. Quadrículas 255 e 256 da Planta de Telles Ferreira de 1892.

ap10acompfig. 13 – Largo de Alberto Pimentel em 1949. Foto de Guido de Monterey in O Porto. Origem, Evolução e Transportes. 2ª Ed. Porto 1972.

ap12compfig. 14 – O Largo Alberto Pimentel em Março 2018.

Este pequeno e arborizado largo tem a norte a Fonte das Oliveiras, uma antiga fonte de 1718, situada na rua das Oliveiras e aqui reconstruída em 1879. A fonte recebe as águas através do aqueduto (ver fig. 11) da Nascente de Salgueiros [que] fornece — fonte da Bòa-Vista — fonte de Cedofeita — chafariz do Campo Pequeno — fonte da rua do Triumpho (Torre da Marca) — fonte das Oliveiras — fonte da praça de Santa Thereza fonte da relação — fonte da Fabrica do Tabaco (Ferros- Velhos). [1]

fig. 15 – A Fonte das Oliveiras em Março de 2018.

A fonte das Oliveiras está adossada a um edifício que substituiu a casa onde nasceu Alberto Pimentel e é enquadrada por dois magníficos jacarandás que quando florescem cobrem o chão de sombras e de pétalas lilás.

São eles que anunciam o verão.
Não sei doutra glória, doutro
paraíso: à sua entrada os jacarandás
estão em flor, um de cada lado. [2]

ap10compfig. 16 - O largo Alberto Pimentel com o jacarandá florido. Foto de zwigmar 2009.

Actualmente (Março de 2018) os jacarandás ainda não estão em flor.

ap11compfig. 17 – O largo Alberto Pimentel na actualidade. Março de 2018.


[1] Pinho Leal (1816-1884), Portugal Antigo e Moderno, Livraria Editora de Mattos Moreira & Companhia, Praça de D. Pedro 68, Lisboa 1873 a 1890. (VII Volume 1875, pág.422).

[2] Eugénio de Andrade, In Os Sulcos da Sede, 2001.


A praça de Carlos Alberto e os transportes

Alberto Pimentel refere-se, de seguida, à linha de viação eléctrica que, já no início do século XX, por aqui foi instalada.

Mas quem me havia de dizer a mim, quando estudante, que pela rua das Oliveiras e pela rua do Coronel Pacheco havia de passar uma das mais concorridas linhas de viação eléctrica — a linha de Paranhos?

De facto a praça de Carlos Alberto, então Campo dos Ferradores, de início era apenas uma bifurcação, um entroncamento, do caminho que saindo da muralha pela porta do Olival aí se dividia em duas das velhas estradas que seguiam para norte.

O Campo dos Ferradores e a sua envolvente em 1789.

ap141cfig. 18 – Theodoro de Souza Maldonado (1759-1799), Estampa n.º 10 de Mapas das obras publicas q. estiveraõ em acçaõ neste prezente anno de 1789 feitos por Theodoro de Souza Maldonado Formado em Mathematica e Architecto desta Cidade do Porto. AHMP.

Legenda
A Praça projectada na Torrinha
B Campo dos Ferradores
C Carmo e Terceiros. Os números 1 e 2 mostram os limites da calçada q. já está feita e continua p.a
a parte dos Ferradores
D Campo da Graça
E Igreja dos Orfaons
F Carmelitas
G Rua de S.to Ovidio
H Rua do moinho de vento
J Rua da Fabrica
L Largo do Correio Velho
M Recolhimento do Anjo
N Porta do Olival
O Escada q. de se praticou p.a servidaõ do passeio p.a o campo da Lameda
P Igreja dos Clerigos


Na representação do tecido urbano do Porto nos finais do século XVIII, estão sublinhadas a vermelho as duas estradas que partiam do Largo dos Ferradores.

ap13compfig. 19 – Representação do tecido urbano do Porto nos finais do século XVIII.

Uma, a rua da Estrada que depois se chamou de Cedofeita, na direcção de Braga, que seguia para a igreja de São Martinho situada na Carvalhosa. Daí seguia para a Ramada Alta, o Carvalhido e Monte dos Burgos, passando junto à quinta da Prelada. E daí partia a estrada na direcção de Vila do Conde e Viana do Castelo.

(Note-se os topónimos Carvalhosa e Carvalhido que remetem para a mítica árvore).

A outra, a rua das Oliveiras seguia depois pela rua da Sovella, depois chamada de 16 de Maio, de Santo Ovídio e dos Mártires da Liberdade até ao Campo de Santo Ovídio, que ainda se chamou da Regeneração e hoje Praça da República. Daí seguia pela rua da Rainha, depois de Antero de Quental até à Arca de Água seguindo para o Amial e São Mamede de Infesta donde partia a estrada para Braga.

ap14fig. 20 – Esquema das saídas para norte a partir da praça de Carlos Alberto.

Legenda: 1 – Praça de Carlos Alberto 2 – Carvalhosa 3 – Ramada Alta 4 – Carvalhido 5 – Monte dos Burgos e Estrada para Viana 6 – Largo Coronel Pacheco 7 – Campo de S.to Ovídio 8 – Lapa 9 – Arca d’Água 10 – Amial e Estrada para Viana


Esta confluência das duas estradas vocacionou este espaço para se tornar um local privilegiado de partida e chegada de transportes privados e depois públicos, e consequentemente de hospedarias.

Toma por isso inicialmente o sugestivo nome de Largo dos Ferradores.

[Esta situação da praça motivou que na década de 1930 os planos da cidade, quer de Ezequiel de Campos em 1932, quer dos italianos Piacentini e Muzio entre 1938 e 1943, tivessem elegido a praça de Carlos Alberto como o espaço gerador de uma longa avenida que abriria a cidade para norte.]

Assim o indicam os nomes de Largo dos Ferradores, bem como o de Feira das Caixas, que mais adiante Alberto Pimentel refere, e que melhor caracteriza em nota de rodapé de outro seu livro intitulado de A Praça Nova.

A antiga Feira das Caixas, depois chamada Praça dos Ferradores. Esta última denominação ainda aparece no Almanaque da cidade relativo ao ano de 1850; só durante este ano, ou pouco depois, seria substituída pela actual, de Praça de Carlos Alberto, em consequência de factos geralmente conhecidos. [1]

Por aí circularam e mesmo se instalaram os primeiros transportes privados e de aluguer e os primeiros transportes públicos.

Como indica Magalhães Basto em O Porto do Romantismo: …acima, no alto desta rua das Carmelitas, passando a Praça dos Voluntários da Rainha, temos a Mártires da Liberdade e Carlos Alberto, (denominação que recebera por essa época), terminus das car­reiras de diligências que do norte do País, pelo Carvalhido ou pelo Serio, chegavam ao Porto. Chamavam-lhe também Largo dos Ferradores ou Feira das Caixas. [2]

Do Ripert ao Americano e ao Eléctrico

Os transportes urbanos iniciam-se com os carros Ripert da "Empreza Portuense de Carros Ripert" que faziam o transporte urbano de passageiros e que tinham uma paragem terminus na praça de Carlos Alberto.

ap15fig. 21 – O Carro Ripert Cidade do Porto.

Mesmo após a dissolução da Empresa de Carros Ripert, foi um destes carros adquirido por Ignácio Bemfolga, que começou a explorar a carreira para S. Mamede de Infesta com partida da Praça Carlos Alberto. Só em Fevereiro de 1910, quando a Companhia Carris criou uma linha de carro eléctrico até S. Ma­mede, o Ripert foi abandonado e a população para festejar o acontecimento queimou o último exemplar do carro Ripert.

Seguiu-se o carro americano do Porto, e também foi da praça de Carlos Albert que partiu o primeiro americano na carreira para Cadouços como refere Pinho Leal: A 12 de agosto (1874) do mesmo anno teve logar a inauguração da pioneira linha do caminho de ferro americano, que liga a praça de Carlos Alberto (antiga Feira das Caixas ou dos Ferradores) à praça de Cadouços, na Foz. [3]

Na planta de Telles Ferreira de 1892 estão traçados os carris do Americano que então apenas circulavam pela rua de Cedofeita e em torno da Praça de Carlos Alberto.

ap16fig. 22 - A praça de Carlos Alberto na planta de 1892 notando-se os carris do Americano.


ap17compfig. 23 - No canto inferior direito um Americano circulando na praça de Carlos Alberto.


ap18compfig. 24 - Emilio Biel. Dois americanos vindos da praça de Carlos Alberto e circulando na praça dos Voluntários da Rainha.

O americano eléctrico, como então se chamava, começou a circular pela rua das Oliveiras no início do século XX, inicialmente até ao Campo Lindo e de seguida retomando o antigo percurso de saída da cidade para norte: praça dos Voluntários da Rainha-praça de Carlos Alberto-rua das Oliveiras-rua Mártires da Liberdade-Campo da Regeneração-rua da Rainha-rua do Valle Formoso – terminando no Campo Lindo.

ap19acompfig. 25 – Companhia Carris de Ferro do Porto. Planta geral da Rêde em 31 de Dezembro de 1903.

Em 19 de Fevereiro de 1910 é inaugurada a Linha 7 até S. Mamede.

Praça de D. Pedro (da Liberdade) - rua dos Clérigos - rua das Carmelitas - praça dos Voluntários da Rainha - praça de Carlos Alberto - rua das Oliveiras-rua Mártires da Liberdade - Campo da Regeneração - rua da Rainha - rua do Valle Formoso - rua do Ameal - terminando em S. Mamede de Infesta.

Em 1912 será prolongada até à Ponte de Pedra.

ap19compfig. 26 – Planta dos Americano Electricos e Linhas Férreas do Porto in Guia do Porto Illustrado, com desenhos e direcção litteraria de Carlos Magalhães, Empreza dos Guias "Touriste". Porto 1910.


ap20compfig. 27 – Manual do Viajante de Mendonça da Costa 1913.

A linha 6 que em 1909 seguia por Cedofeita até à Carvalhosa é prolongada em 1911 pela rua de Oliveira Monteiro até ao Monte dos Burgos.

A linha 6 circulava desde a praça de D. Pedro (da Liberdade) - rua dos Clérigos - rua das Carmelitas - praça dos Voluntários da Rainha - praça Carlos Alberto - rua de Cedofeita na direcção sul (rua do Rosário na direcção norte) –Carvalhosa - rua de Oliveira Monteiro - largo do Carvalhido - rua do Monte dos Burgos.

ap20aacompfig. 28 - Companhia Carris de Ferro do Porto, Planta Geral da Rêde em 31 de Dezembro 1914.


Na década de 50 do século passado, quando o eléctrico é o principal meio de transporte público urbano, consolidam-se as duas linhas (6 e 7) que partindo da praça da Liberdade passando pelo Carmo e Carlos Alberto se dirigem para norte.

ap21compfig. 29 – As linhas 6 e 7 assinaladas a vermelho na planta da Rede de transportes sobre carris na década de 50. STCP.


Em 1974 o eléctrico da Linha 7 ainda circulava na rua das Oliveiras dirigindo-se para o Carmo.

[Como não lembrar a Pica do Sete do álbum Rua da Emenda de António Zambujo e Miguel Araújo?]


ap22compfig. 30 – Carro 180 (Brill 28) na linha 7 Carmo-Amial. Foto Guy Arab (flickr).


O eléctrico da Linha 7 na praça dos Leões (Gomes Teixeira) dirigindo-se para a rua das Oliveiras na direcção do Amial.

ap23compfig. 31 – Carro 220 (Brill 28 c/ plataforma salão) na linha 7 Carmo-Amial. Foto STCP.


O eléctrico da Linha 6 na direcção da praça da Liberdade.

ap24compfig. 32 - Carro 171 (Brill 28) na linha 6 Carlos Alberto-Monte dos Burgos 1974. Foto Guy Arab (flickr).


Hoje o eléctrico é apenas (ou quase) saudade depois de uma lenta e criminosa agonia que conduziu à sua quase extinção.


[1] Alberto Pimentel, A Praça Nova, Edição da Renascença Portugueza, Rua dos Mártires da Liberdade, 178. Porto 1916. (nota de rodapé pág. 104).

[2] Artur de Magalhães Basto (1894-1960), O Porto do Romantismo, Imprensa da Universidade Coimbra 1932.

[3] Pinho Leal (1816-1884), Portugal Antigo e Moderno, Livraria Editora de Mattos Moreira & Companhia, Praça de D. Pedro 68, Lisboa 1873 a 1890. (VII Volume 1875, pág. 376).


A praça de Carlos Alberto

No seu texto Alberto Pimentel ocupa-se de seguida da zona reproduzida no quadro de António José da Costa assinalando, especificamente, a praça de Carlos Alberto.

Toda aquella região, comprehendida entre a praça de Carlos Alberto e o Campo de Santo Ovidio, era, na época reproduzida pela tela do sr. António Costa, um burgo podre, quieto e repousado, excepto quando por ali passava o regimento de infantaria 18 ou quando, nos dias de feira, guapas maiatas e concomitantes maneis vinham em grupos bucólicos para o interior da cidade.

Tinha uma intensa côr local toda essa região portuense.

E escreve Alberto de Pimentel:

A praça de Carlos Alberto — que eu conheci com o nome de Feira das Caixas e de Praça dos Ferradores — fora um centro de actividade operaria, com lojas ruidosas de caixoteiros e de ferradores, relinchos de cavallos e golpes da martello sobre taboas de pinho.


A organização da praça

O Largo dos Ferradores, onde já estão construídas as igrejas do Carmo e dos Carmelitas e o palacete Balsemão, no início do século XIX com a construção do Hospital do Carmo consolida a sua forma como se vê na planta de 1839.

ap30fig. 33 - Planta Topographica da Cidade do Porto 1839.

Legenda
n.º 10 Hospital dos Terc.ros do Carmo
n.º 20 Palácio do Visconde de Balsemão
n.º 29 Quartel da Guarda Municipal


O Hospital do Carmo

Alberto Pimentel no seu texto refere que:

Ao occidente era limitada esta praça, como hoje, pelo edifício do hospital do Carmo, que foi inaugurado no princípio do século XIX;

ap26fig. 34 - Joaquim Cardoso Villanova (1792 ou 1793-1850), Hospital do Carmo, desenho a tinta-da-china e aguada sobre papel. Estampa n.º71 do Álbum Edifícios do Porto em 1833, Biblioteca Municipal do Porto 1987.

E em 1864 Francisco Ferreira Barbosa no Elucidario do Viajante no Porto também refere o

Hospital de Nossa Senhora do Carmo. Situado na praça de Carlos Alberto: é um magestoso edificio, servido com zêlo e decencia aos irmãos e particulares. Foi a primeira abertura d’este hospital em 1801. A entrada para irmão é de 18$000 a 285800 réis. [1]


O Palacete Balsemão

Prossegue Alberto Pimentel caracterizando a praça: …e na correnteza de casas, comprehendida entre a rua de Cedofeita e a rua das Oliveiras, incluia-se a hospedaria do Peixe, onde o infeliz rei da Sardenha, Carlos Alberto, se alojou quando veio encontrar no Porto o mais amoravel acolhimento que ainda então sabia fazer-se a um rei exilado.

Foi o edifício d'esta hospedaria que António José de Sousa Basto, depois visconde da Trindade, adquiriu, á volta do Brazil, para o reconstruir em palácio.

ap27compfig. 35 - Joaquim Cardoso Villanova (1792 ou 1793-1850), Casa Balsemão depois do Visconde da Trindade, desenho a tinta-da-china e aguada sobre papel. Estampa n.º22 do Álbum Edifícios do Porto 1833, BPMP 1987.


Construído por Diogo dos Santos Mesquita em 1718. Em 1762, o filho do então proprietário - Luís Correia dos Santos - Luís Correia Pacheco deixa a casa nobre e seus terrenos à Santa Casa da Misericórdia que a vende em hasta pública a D. Maria Manuel de Azevedo e seu filho Carlos Alvo Brandão Perestrelo Godinho Pereira de Azevedo.

Quando em 1800 Maria Rosa Alvo Brandão Perestrelo de Azevedo casa com o 2.º visconde de Balsemão, Luís Máximo Alfredo Pinto de Sousa Coutinho, o edifício passa a ser conhecido como Palacete Balsemão.

O Visconde de Balsemão, após as lutas liberais retira-se do Porto, e o Palacete é arrendado, sendo parcialmente ocupado pela Hospedaria do Peixe de António Bernardo Peixe, estalagem onde inicialmente se alojou o rei Carlos Alberto.

Finalmente em 1850 torna-se propriedade de José António de Sousa Basto (1805-1890), Visconde da Trindade (presidente da Câmara do Porto entre 1852 e 1855), que recupera o Palacete e cria uma sala dedicada a Carlos Alberto. Em 1850 a praça toma o nome de Carlos Alberto.


O rei Carlos Alberto

É conhecida a história do rei Carlo Alberto di Savoia-Carignano (1831-1849) que após ter perdido a batalha de Novara abdica do trono e escolhe a cidade do Porto para se exilar.

Por isso apenas mostramos um quadro de Antonio Pucinelli que por volta de 1865 retrata a estadia de Carlos Alberto no Porto.

ap38compfig. 36 - Antonio Puccinelli (1822-1897), Carlo Alberto ad Oporto, c.1865, óleo s/tela 250 x 168 cm. Museo Civico del Risorgimento, Bologna Italia.


A pintura foi encomendada pelo Marquês Luigi Pizzardi (1815-1871), primo sindaco di Bologna libera (primeiro presidente da Câmara de Bolonha libertada), para o salão do Risorgimento do seu edifício na Via D'Azeglio em Bolonha, a Antonio Puccinelli que desde 1861 era docente na desde 1803 chamada Accademia delle Belli Arti di Bologna (Academia de Belas Artes de Bolonha) mas que tinha sido fundada em 1710 com o nome de Accademia Clementina do Papa Clemente XI.

Nesta pintura Carlos Alberto está representado no seu exílio portuense e parece cansado e prematuramente envelhecido, como sentindo a morte que se aproxima.

Está sentado, (na Casa da Macieirinha?), tendo na mão entreaberto o livro de Vincenzo Gioberti (1801-1852), Il primato morale e civile degli Italiani, onde o autor revela o seu pensamento político baseado em um projeto reformista e moderado no sentido de motivar um movimento de opinião que usasse a força do catolicismo para criar um partido católico italiano, nacional e moderno. [2]

Carlos Alberto olha o retrato do filho Vittorio Emanuele (1820-1878) por quem abdicou na esperança que ele concretizasse a unificação e a independência de Itália, o que sucederá em 1861 quando se proclamará rei de Itália.

Nessa luta os italianos escreviam nas paredes o nome de V.E.R.D.I. que significava simultaneamente Vittorio Emanuele Re DItalia e o nome do compositor Giuseppe Verdi (1813-1901).

Por isso podemos pensar que na memória de Carlos Alberto devia ainda soar o extraordinário e conhecido Coro dos escravos Hebreus da ópera Nabucco de 1842.

No quadro está pendurada uma, não identificada, planta da cidade do Porto (Città di Oporto) indicando que Carlos Alberto é retratado durante o seu exílio no Porto, a cidade onde morreu em 1949.


Em 1861 no Archivo Pittoresco é publicada uma gravura representando o Palácio do visconde da Trindade.

ap28compfig. 37 - Nogueira da Silva, Palácio do visconde da Trindade, e a praça de Carlos Alberto. «in Archivo Pittoresco», n.º 4, 1861.


Acompanhando esta gravura Vilhena Barbosa escreve em 1861:

A pequena praça de Carlos Alberto está actualmente melhorada. Guarnece-a um fileira de árvores, e forma-lhe um dos lados, o que fica fronteiro ao palácio do sr. Visconde da Trindade, o vasto e rico edifício do hospital da ordem terceira de Nossa Senhora do Carmo, edificado modernamente com boa architectura, e à custa da ordem, no logar onde existia o antigo convento dos frades carmelitas. [3]

E F.G. da Fonseca, no Guia Histórico do Viajante no Porto e Arrabaldes, acrescenta:

Ao poente está, em toda a extensão, o magestoso hospital da Ordem do Carmo, aberto pela primeira vez em 1801.

N'um dos extremos do norte está o elegante palacete do snr. Visconde da Trindade, que se recommenda pela linda prespectíva, e pelo facto historico de ter sido a primeira habitação, n'esta cidade, do rei italiano Carlos Alberto. Então ainda este edificio não pertencia ao snr. visconde, estando n'elle estabelecida uma hospedaria.

O proprietario d'esta linda habitação tem adornada com todo o esmero a sala que foi occupada pelo augusto hospede, mandando collocar n'ella uma memoria de marmore com as armas italianas e varios ornatos esculpidos em relêvo, na qual sobresahe o busto de Carlos Alberto. Por baixo tem a data - 19 d’Abril de 1849. [4]

No século XX o palacete Balsemão foi arrendado em 1906 à Companhia do Gás e em 1927 com a criação dos SMGE (Serviços Municipais de Gás e Electricidade) vem a ser ocupado por estes serviços.

Actualmente alberga a Direção Municipal de Cultura e Ciência, o Gabinete de Numismática e o Banco de Materiais da Câmara Municipal do Porto.

ap29acompfig. 38 – O palacete Balsemão na actualidade. Foto CMP.


Regressando ao texto de Alberto Pimentel este refere que data de então a primeira modificação aristocratica da praça de Carlos Alberto, em contraste com os destinos plebeus da praça, onde durante muitos annos se realisou a feira annual dos moços e das moças n'uma violenta, mas pittoresca, agglomeração de serviçaes, de patrões, de estudantes da Academia em desfructe, de limonadeiros, de vendilhões de fructa, de cães pilharengos e de burros parados.


A Feira das Caixas e a Feira dos criados de lavoura e das criadas de servir.

A Feira das Caixas é assim conhecida pelo facto de numa das tendas de marceneiros que nela havia se confeccionarem as bagageiras utilizadas pelos emigrantes que se dirigiam ao Brasil.

Mas era aqui que então se realizava a "feira dos criados de lavoura e das criadas de servir", que acontecia inicialmente na Praça da Corujeira. Em 1876 foi então transferida da praça de Carlos Alberto para a rotunda da Boavista.

F. G. da Fonseca no seu Guia Histórico do Viajante no Porto e Arrabaldes caracteriza assim a praça de Carlos Alberto:

Um pouco extensa, mas irregular, é esta praça, que ainda não ha muitos annos se denominava dos Ferradores, ou Feira das caixas. É aqui, que em todas as terças feiras do mez de abril se faz a original feira dos criados, onde os lavradores suburbanos vem ajustar os criados para o serviço domestico e da lavoura. Os ajustes são curiosos, e dão logar a galantes episódios. [5]

E em 1865 João António Peres Abreu no seu Roteiro do Viajante, também referia a Feira dos criados que então aí se realizava.

A praça de Carlos Alberto, que sempre é agradavel, torna-se o mais interessante possível em todas as terças feiras do mez de abril, dias em que se faz alli um mercado sui generis.

Ao "viajante que estiver no Porto em qualquer d'aquelles dias, recommendamos que vá áquella praça assistir á feira dos criados e criadas, e verá o ar de festa e arraial com que se compram e vendem serviços por um dado tempo. [6]

Finalmente Pinho Leal no Portugal Antigo e Moderno acrescenta sobre a Feira de creados:

Ha no Porto duas feiras de creados e creadas, em cada anno. Os que se ajustam para os trabalhos do verão, fazem a sua feira em todas as terças feiras d'abril— e os que se ajustam para o inverno, nas terças feiras de novembro.

Esta feira fez-se de tempos immemoriaes, no largo da Feira das Caixas, ou dos Ferradores — hoje praça de Carlos Alberto.

Por determinação da camara municipal, de 1876, foi designada para logar d'esta feira, a Rotunda (agora chamada Praça da Boavista.) [7]


[1] Francisco Ferreira Barbosa, Elucidario do Viajante no Porto. Imprensa da Universidade Coimbra 1864. (pág.52).

[2] Vicenzo Gioberti, Del Primato Morale e Civile degli Italiani. Prima Edizione di Losanna sulla seconda Belgia. Tomo primo. in Opere di Vicenzo Gioberti, Volume Primo. S. Bonamici e Compagnia Tipografi Editori. Losanna 1845.

[3] Ignácio de Vilhena Barbosa, «Archivo Pittoresco», 4, 1861, (pág. 393).

[4] F.G. da Fonseca, Guia Histórico do Viajante no Porto e Arrabaldes. Livraria e Typographia de F. G. da Fonseca Editor rua do Bomjardim 72. Porto 1864 (pág.166 e 167).

[5] F.G. da Fonseca, Guia Histórico do Viajante no porto e Arrabaldes. Livraria e Typographia de F. G. da Fonseca Editor rua do Bomjardim 72. Porto 1864 (pág.166 e 167).

[6] João António Peres Abreu, Roteiro do Viajante no Continente e nos Caminhos de Ferro de Portugal em 1865. Imprensa da Universidade Coimbra 1865. (pág.119).

[7] Pinho Leal (1816-1884), Portugal Antigo e Moderno, Livraria Editora de Mattos Moreira & Companhia, Praça de D. Pedro 68, Lisboa 1873 a 1890. (VII Volume 1875, pág.389).


CONTINUA

Ainda na I Parte do Texto de Alberto Pimentel

ap115

Alberto Pimentel em 1869. Foto de P. Mar. Gr. - Retrato impresso no livro "Seara em Flor. 1905.



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