Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















terça-feira, 24 de abril de 2018

O Porto através de uma Panorâmica de c. 1870 13

pim1
fig. 1 - Autor não identificado  Panorâmica do Porto c. 1870 (originais em vidro do Museu Nacional de Soares dos Reis Porto) cópia cedida por gentileza do arquitecto Manuel Magalhães.


Um percurso - com diacrónicas derivas na zona da praça de Carlos Alberto - a partir de um texto de Alberto Pimentel sobre uma pintura de António José da Costa (conclusão)

A II Parte do texto de Alberto Pimentel: as personagens do quadro

Na II parte do seu texto Alberto Pimentel, traça um retrato humano de cada uma das personalidades que figuram na pintura de António José da Costa. Para além das já referidas: o pai do escritor Dr. Furtado Pimentel e do Cadeirinha, Alberto Pimentel aponta no quadro Amorim Viana, os três pintores Francisco Rezende, Manoel Carneiro e João Correa, Ricardo Brown e entre as figuras populares um inválido, uma peixeira e uma vendedeira, uma mulher com a mantilha, o Desgraças, o Macron, o galego, o garoto e a assadeira de castanhas.
O quadro de António José da Costa é assim um retrato de um local onde Pimentel descortina conhecidas e populares figuras do Porto há cerca de 150 anos.
[Nota – O texto de Alberto Pimentel é apresentado em caracteres maiores, e será apresentado em anexo na sua totalidade. Os sublinhados a negrito são da minha autoria.]
pim2 

fig. 2 - António José da Costa (1840- 1929), reprodução do quadro Outros Tempos c.1870. Legendada as personagens nela representadas.
Legenda
01 A Rua do Mirante (rua do Coronel Pacheco)
02 A Rua da Sovella (rua dos Mártires da Liberdade)
03 Casa onde nasceu Alberto Pimentel
04 O pai de Alberto Pimentel. Dr. Fortunato Augusto Pimentel (1808-1889)
05 O Regimento dos porta-machados. R. n.º18
06 Ricardo Clamouse Brown
07 O Cadeirinha
08 Um frade de pedra
09 O gamin de Paris
10 O inválido
11 Pedro Amorim Vianna
12 A Peixeira
13 A Mulher da mantilha com criança
14 Francisco José Rezende
15 Manoel José Carneiro
16 João António Correia
17 O Desgraças
18 O cão do Desgraças
19O Macron
20 A Vendedeira
21 O Galego
22 A assadeira de castanhas



Pedro d’Amorim Vianna (1822-1901)

A primeira personalidade que Alberto Pimentel refere no seu texto é Pedro d’Amorim Vianna (1822-1901) o Newton, representado no extremo direito da pintura com o n.º 11. [1]


À direita, o primeiro retrato é de Pedro d'Amorim Vianna, (*) cujo gesto habitual parece copiado por um kodak.

(*) Nota de Alberto Pimentel - Auctor da Defesa do racionalismo, que tanto deu que falar em 1866; e traductor das Memorias de Madame Lafarge (1874), versão recebida com severa critica por Camillo.

Segura o monóculo, observando, com o chapéu alto e branco enterrado sobre os hombros. Veste a velha sobrecasaca, desmazeladamente e gordurada de nódoas, que foi a unica de que usou no Porto. Não lhe falta a grossa bengala de canna da Índia, que regia seus passos leves mas serenos.
Amorim Vianna era um excêntrico, um noctívago, em conflicto permanente com todas as convenções sociaes. O cognome de «Newton» deram-lh’o em Coimbra, segundo se dizia, os seus professores e condiscípulos quando elle resolveu, na madeira de uma porta, certo problema transcendente posto a premio por não sei que universidade estrangeira. Mathematico, tinha recebido n'esse famoso baptismo escolar a consagração solemne, que o tornou conhecido e lendário para o resto da sua vida. Até o povo lhe chamava inconscientemente o «Newton», suppondo talvez que fosse uma alcunha vulgar.
Apenas se divulgaram os seus triumphos académicos e excentricidades anecdoticas, que perfeitamente condiziam com os longos silêncios, retraimento seismatico e desleixo no vestir, pelos quaes se collocava, numa independente aberração, fora dos hábitos normaes da vida social. Raros homens de lettras, que alguma vez o conversaram, diziam-n'o profundo em conhecimentos litterarios.
O erudito José Gomes Monteiro [2] havia-me contado que Amorim Vianna o encantara discorrendo sobre Goethe.
Da sua naturalidade e filiação pouco eu tinha ouvido falar. Por isso foi grande a minha surpresa quando, não o sabendo jubilado, o vi em Setúbal passeando, com um livro aberto, no terraço de uma casa que faz ilharga á Praça de Bocage. Affirmei-me n'elle por algum tempo. Não podia duvidar: era o Newton portuguez, posto que já minado pela doença, e mais limpo no fato.Vim então a saber que Pedro d'Amorim Vianna habitava ali em casa de seu irmão, despachante da alfandega, cujas filhas se haviam encarregado de o submetter carinhosamente a um regimen de maior higiene e asseio. Pela manhã, Amorim Vianna lia e passeava no terraço da casa. Á noite divagava na praia, ainda meditativo, comquanto menos inaccessivel á convivência do que no Porto. Apresentado por uma de suas sobrinhas, com elle conversei algumas tardes. Ouvi-o discorrer interessantemente sobre litteratura, em especial a allemã, e até sobre politica portugueza. Amorim Vianna tinha já falhas de memoria, e isso incommodava-o apopleticamente. Eu desviava logo o assumpto. Mas, no dia seguinte, era elle que de motu próprio vinha dizer-me na sua vozinha de pipia:
— Hontem esqueceu-me um nome, que pude verificar em casa. E' este.
Annos depois soube que Amorim Vianna residia em Lisboa, e não tornei a ter noticias delle senão quando os jornaes se referiram ao seu fallecimento no quartel do Carmo em casa de um oficial com quem estava aparentado. A capital quasi não deu attenção á morte d'este illustre mathematico, aliás tão celebre em duas cidades do norte: Coimbra e Porto.


pim3

fig. 3 - José de Brito (1855-1946), Retrato de Pedro de Amorim Viana professor da Academia Polytechnica 1850/53 óleo s/ tela Reitoria da Universidade do Porto.

Firmino Pereira (1885-1919) em O Porto d’Outros Tempos também refere Amorim Viana: Encolhido na sua sobrecasaca sebenta, Amorim Viana, o Newton, como os rapazes lhe chamavam, beberricava copinhos de cana branca, em golos lentos. [3]

E mais adiante como frequentador do Café do Carmo: Abotoado na sua sobrecasaca coçada e cheia de nódoas, o ensebado chapéu enterrado até às orelhas, o cigarro ao canto da boca, o Amorim Viana entrava sempre pelo lado do Carmo, em direção ao botequim, situado ao fundo da avenida, onde abancava diante da garrafa de cana branca. [4]
pim4

fig. 4 – Sebastião (Sampaio de Sousa) Sanhudo (1851-1901), Pedro de Amorim Viana in Ilustração n.º257, 11º ano, Setembro de 1936 (pág.13).


[1] Ver Rui Manuel da Costa Fiadeiro Duarte (de Cifantes e Leão), Figuras Picarescas no Porto na segunda metade do século XIX, in II Congresso O Porto Romântico-Actas, coord. Gonçalo de Vasconcelos e Sousa, Centro de Investigação em Ciência e Tecnologia das Artes, Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa. Porto 2016. (pág. 431).
[2] Alberto Pimentel refere-se a José Gomes Monteiro (1807-1879) de quem faz uma breve e elogiosa biografia no IV capítulo de Vinte Annos de Vida Literária, Livraria de António Maria Pereira. Lisboa 1889. Gomes Monteiro foi o autor de edições críticas das obras de Camões e de Gil Vicente e de estudos sobre a literatura alemã.
[3] Firmino Pereira (1885-1919) O Porto d’outros tempos:notas históricas, memórias, recordações. Livraria Chardron, de Lelo & Irmão. Rua das Carmelitas, 144. Porto 1913. (pág.25).
[4] Firmino Pereira O Porto d’outros tempos: notas históricas, memórias, recordações. Livraria Chardron, de Lelo & Irmão. Rua das Carmelitas, 144. Porto 1913. (pág.91).


Os pintores

De seguida Alberto Pimentel refere-se a um grupo de três pintores que estão representados na parte direita do quadro com os n.os14, 15 e 16.

pim2 

fig. 5 - António José da Costa (1840- 1929), reprodução do quadro Outros Tempos c.1870. Legendada as personagens nela representadas.


Vamos agora ao grupo dos pintores.

Os três pintores pertencem a uma geração de pintores portuenses, embora com grande prestígio local, pouco ultrapassaram os limites da cidade e do norte. Pertencendo à última geração do romantismo foram no entanto notáveis professores da Academia determinantes na formação da geração dos arquitectos e dos pintores do realismo e do naturalismo.


Francisco José Rezende

 

O primeiro dos pintores referidos por Alberto Pimentel é Francisco José Rezende (1825-1893) que surge no quadro de António José da Costa com o n.º 14.
Alberto Pimentel traça um retrato da personalidade de Francisco José Rezende que conheceu bem.

Francisco José Rezende era um temperamento sanguíneo e arrebatado, cuja vocação artística parecia arder em si mesma devorando as suas próprias qualidades.
Precipitava-se como Phaetonte n'um carro de fogo.
Por isso a posteridade mal pode apreciar hoje o que elle tinha de artista pelo desequilíbrio das suas telas na composição, no desenho e no colorido.
Homem robusto e impulsivo, envelheceu queimando-se. Vinha a pé de Santo Thirso, onde residia n'uma quinta, dar aula ao Porto na Academia de Bellas Artes, e no mesmo dia, com o mesmo vigor, regressava a Santo Thirso n'nm passo firme de peoneiro trenado.
Bom como amigo — e eu o posso dizer, sempre grato á sua memória — era um adversário temível.
Rezende, no quadro do sr. António Costa deixa apreciar a forte corporatura que o avigorava. Por detraz da mulher de mantilha vê-se o seu busto erecto e varonil. O chapéu baixo, de aba larga, era o complemento obrigatório do seu trajo habitual de globetrotter.



pim32comp


fig. 6 - Sebastião (Sampaio de Sousa) Sanhudo (1851-1901), caricatura de Rezende in Almanach do Sorvete para 1884. (Mourato 2007).



Alberto Pimentel em Santo Thyrso de Riba d’Ave, uma monografia desta povoação nortenha, já havia referido estes traços da personalidade do pintor e o local onde tinha habitado.
Ao nascente da villa, no logar de Santocinhos, freguezia de Rebordões, concelho de Santo Thyrso, residiu durante muitos anos o pintor Francisco José Rezende, professor da Academia Portuense de Bellas Artes, com sua filha mademoiselle Claire Wilson de Rezende. [Nota - a pintora Clara de Resende 1855- 1933]. [1]
E também lembra que Enthusiasta e robusto, Rezende atirava-se ao trabalho com um vigor infatigável, com uma coragem inexcedível.
Mais uma nota característica da sua robustez: Rezende vinha muitas vezes a pé, da sua quinta de Santocinhos ao Porto, e chegava fresco como se não tivesse andado seis léguas. [2]


Notas sobre Francisco José Rezende


Francisco José Rezende (1825-1893) cursou a Academia Portuense de Belas Artes tornando-se em 1851 professor substituto de Pintura Histórica.
Tornou-se o mais conhecido dos pintores referidos neste texto de Alberto Pimentel, já que para além da pintura e da escultura e da docência na Academia, Rezende escrevia regularmente nos jornais pertinentes artigos sobre Arte, sobre as grandes exposições internacionais e nacionais, sobre os pintores e escultores seus contemporâneos, e mesmo sobre a nascente arte da fotografia como por exemplo sobre Carlos Relvas (1838-1894).
Sobre Francisco José Rezende existe uma razoável bibliografia de onde se destaca de António Mourato com a sua meticulosamente documentada Dissertação de mestrado intitulada Cor e Melancolia (Uma biografia do pintor Francisco José Resende) [3] de que resultou a monografia Francisco José de Resende [1825-1893] Figura do Porto Romântico [4]
Por isso apenas nos limitaremos a reproduzir alguns textos contemporâneos do pintor e alguns dos quadros da sua autoria.
Neste autorretrato Francisco Rezende terá cerca de 30 anos.

pim5


fig. 7 - Francisco José Rezende, Auto-retrato.1856. Exposto na 4ª Exposição Trienal da Academia Real de Belas-Artes de 1856. Museu Nacional Soares dos Reis.


Em O Panorama, um autor anónimo escreve um artigo intitulado Os Futuros Pintores do Porto onde começando por considerar que É preciso confessar que as tendencias do genio artístico dos portuguezes nunca penderam excessivamente para a pintura, destaca então dois outro artistas que foram mais felizes, porque obtiveram protecção mais alta e mais ampla. Na sua visita ao Porto el-rei o senhor D. Fernando poude apreciar o talento do jovem Francisco José de Resende, e com o amor da arte e a benevolência que o caracterizam estendeu-lhe a mão valedora. Concedeu-lhe uma pensão suficiente para seguir os seus estudos na capital da França. N’uma perigosa doença, que o acometeu em Paris, nos seus desejos de voltar à pátria, e nos de regressar de novo a França para prosseguir a encetada carreira o artista achou sempre prompta a vontade e benevolo animo do principe para ocorrer a todos os gastos.
Se o paiz tiver no sr. Resende, como é de esperar, um grande pintor deve agradecel-o ao regente. Em Portugal, o sr. Resende era considerado como inferior aos srs. Corrêas, mas mostrava uma decisiva vocação para a pintura e maiores tendencias para a originalidade. [5]

Terá, por isso, pintado o retrato do seu protector D. Fernando II (Ferdinand August Franz Anton von Sachsen-Coburg und Gotha 1816-1885).
Exposto com o n.º 53 – Retrato de Sua Magestade El-Rei o Senhor D. Fernando – busto ao natural, na 6ª Exposição Trienal da Academia Portuense das Belas Artes. [6]




pim6

fig. 8 - Francisco José Rezende, Rei D. Fernando II, 1859, óleo s/tela 71 x 56,5 cm. Museu Nacional Soares dos Reis.


Em 1853 mostrando que o pintor já era conhecido no meio portuense António Pinheiro Caldas dedica-lhe um poema chamando-lhe insigne pintor e revelando a fogosidade do seu temperamento.
NO ÁLBUM DE RETRATOS Do Insigne Pintor Francisco José Rezende
N'esse fogo que te escalda
Como o génio se revela!
Solta os voos, irmão, ergue-te ousado!
Seja a gloria a tua estrella!


Nos teus pincéis, na paleta,
Tens as fontes da riqueza...
Mais ainda; — tens nome, fama e cultos,
Tens as pompas da grandeza.


Raphael, Rubens e Vasco,
— Esses génios immortaes,
Dos tempos atravez brilhando ofuscam
Fúlgidas c'rôas reaes!


Sim: — que a realeza do génio
Tem por sólio a immensidade,
O espaço por docel, por c'rôa os astros,
E por timbre a liberdade.


Irmão! Irmão! não te curves!
A altivez no génio é bella.
Sagra à Pátria, e à Arte os teus alentos,
Seja a gloria a tua estrella.

Porto — 24 de Janeiro de 1853. [7]


E Camilo Castelo Branco em 1865 também lhe dedica um poema chamando-lhe do mesmo modo de pintor insigne. 


No álbum do sr. Rezende, pintor insigne
….une mère chrétienne
A preparée votre âme en vous ouvrant la sienne.
Boileau


Sahes da pátria, ilustre génio,
Mas da pobre pátria pobre vais!
Nada tens, tudo perdeste…
Mãe, irman…qu’importa o mais?


Quando o coração trasborda
D’amargos dons da poesia,
É mister um mundo grande
Onde iludir a agonia.


Volta, um dia à pobre pátria,
Paga-lhe um feudo também,
Vem depôr o teu deadema
Na campa de tua mãe.
[8]

pim31comp


fig. 9 - Francisco José Rezende fotografia 11,5 x 9 cm. Colecção Vitorino Ribeiro. CMP. 1867. (Mourato 2007).


Rezende com 42 anos apresenta na Exposition Universelle de Paris de 1867 o quadro Camões salvando os Lusíadas da fúria das ondas hoje no Museu de Arte Contemporânea do Chiado.


pim7


fig. 10 - Francisco José Rezende, Camões salvando Os Lusíadas 1867, óleo s/tela 160 x 115 cm. Museu do Chiado – Museu Nacional de Arte Contemporânea.


O quadro foi no ano seguinte exposto em Lisboa na Exposição da Sociedade Promotora de Bellas Artes.
Rezende queixa-se em O Commercio do Porto da colocação do quadro na exposição da Promotora de Bellas-Artes de 1868. [9]
Mandando pedir para Lisboa o obsequio de collocar os meus quadros juntos, em boas condições de luz, e em altura correspondente às suas dimensões, fui encontral-os do seguinte modo: - «Luiz de Camões salvando os Luziadas», que tive a honra de dedicar e offerecer a S. M. el-rei o senhor D. Fernando, a um canto, no angulo direito do salão, onde recebe luz em diminuto grau, quando este quadro, pelas cores com que fora necessário pintal-o, carecia de um lugar mais apropriado.


De visita à Exposição o quadro foi então violenta e severamente criticado por Luciano Cordeiro (1844-1900).

Entrei e fiquei assombrado.
Na minha frente escarnecia das ilusões que ali me levavam, o Camões de Rezende…

E mais adiante no capítulo XVII intitulado Rezende (Francisco José) escreve Luciano Cordeiro.

Rezende é uma charada.
Se para conceito me derem o seu quadro: A procissão das Almas, injusta e vergonhosamente deprimido pelo conselho dos competentes, não hesitarei apesar d’um ou outro defeito do quadro em achar como decifração um artista notável, um verdadeiro artista como poucos o são n’esta terra.
Se me derem o Camões salvando os Lusíadas, encontrarei n’elle um artista medíocre.
Que grande distancia! Percorrendo-a porém cuidadosa e imparcialmente, a conclusão crítica será um mezzo termine: Rezende é um verdadeiro artista, mas não é nem um artista exímio nem um artista medíocre. Professor de pintura histórica, a pintura histórica – tomada n’um sentido restrito que não é porventura o exacto, – póde dizer-lhe, como se diz no Bajezet:
“Tu ne saurais jamais prononcer que tu m’aimes.”
O “Camões salvando os Lusíadas” é um pastiche mentiroso e feio.

E Luciano Cordeiro prossegue na página seguinte descrevendo e criticando o quadro:
Imaginem um homem corpulento, um naufrago, - diz o pintor, - sem expressão adequada, segurando-se com uma mão à borda d’ um rochedo mal desenhado e mal colorido, e com o pé comodamente colocado n’um madeiro que sahe ad doc das supostas água revoltas ao sopro da tempestade. O homem está voltado de frente para o publico e tem na mão direita convenientemente atirada para o que deve ser o céo, como é do estylo, um rolo que pode imaginar-se ser de pergaminho.
Adivinha-se que está alli o poema, e fica-se sabendo, – lendo o catálogo, - que aquelle homem é Camões. Ainda d’esta vez o pobre poeta não tem que agradecer aos artistas da sua terra.
Depois do Camões do Loreto…
A espuma das ondas que por convenção quebram somente a um canto do quadro, é um empaste de tinta d’um absurdo inexcedível. A mancha em geral é má e o desenho é parcialmente bom. O colorido é falso como a composição. [10]


pim7a

fig. 11 – Pormenor de Francisco José Rezende, Camões salvando Os Lusíadas 1867, óleo s/tela 160 x 115 cm. Museu do Chiado – Museu Nacional de Arte Contemporânea.


Foi o próprio Camões que nos Lusíadas referiu o episódio que deu origem à lenda.
Este receberá, plácido e brando,
No seu regaço o cantos que molhado
Vem do naufrágio triste e miserando,
Dos procelosos baixos escapado,
Das fomes, dos perigos grandes, quando
Será o injusto mando executado
Naquele cuja lira sonorosa
Será mais afamada que ditosa.
[11]


E, no período romântico, Almeida Garrett acrescenta:

Incessante, indefeso hei trabalhado
Para levar ao cabo a empresa ardida
De livro tal; - empresa mais que muito
Desmesurada a meu sujeito humilde.
Náufrago já do Mecon às ribeiras,
Onde tudo perdi, d’um braço a vida,
Nadando, às ondas confiei revoltas,
Para no outro o levar. – Este depósito
Em vossas mãos confio. Se mais novas
Não houverdes de mim…, quem sabe? Acaso
Útil poderá ser à minha pátria.
[12]
Alguns anos mais tarde, no Supplemento do n.º59 de 10 de Junho de 1880 do jornal O Occidente dedicado ao tricentenário de Camões é publicada uma gravura reproduzindo um quadro do pintor e ilustrador belga Ernest (Isidore Hubert) Slingeneyer (1820-1894) com o mesmo tema do quadro de Resende.

pim8


fig. 12 - Manuel Maria de Macedo (1839-1915). Caetano Alberto da Silva (1843-1924). Camões salvando os Lusídadas do naufrágio. Desenho de Manuel Macedo, gravura de Alberto (Segundo uma photographia). Reprodução de Ernest (Isidore Hubert) Slingeneyer (1820-1894) óleo sobre tela 313 x 244 cm. in Supplemento do jornal O Occidenteo n.59 de 10 de Junho de 1880.


A gravura é comentada por Guilherme d’Azevedo (1839-1882) que afirma a gravura que hoje acompanha este número commemorativo é reproducção d’um magnífico e recente quadro do eximio pintor belga Slingeneyer, da academia das Bellas-Artes de Bruxellas.
Slingeneyer, o auctor de tantos trabalhos notáveis, que tantas distinções lhe teem merecido na Europa culta, tomando para assumpto da sua tela este episódio tocante da vida de Camões, concorre para a glorificação do poeta prestando a homenagem do seu talento ao cantor dos “ Lusíadas”, que n’este momento obtém a apotheose d’uma civilização inteira.


Segundo a Biographie Nationale da Académie Royale des Sciences, des Lettres et des Beaux-Arts de Belgique Slingeneyer foi membro desta Academia desde 1870, de qual se tornou director em 1884.
E nesta publicação encontramos uma referência de Lucien (Pierre Auguste Constant) Solvay (1851-1950) sobre Slingeneyer afirmando que em 1874, Slingeneyer avait envoyé au Salon de Bruxelles un tableau, la Mort du Camoëns (il affectionnait les Morts, comme on voit), qui fut l'objet de critiques si acerbes et si irrévérencieuses que l'auteur, à partir de ce jour, se tint éloigné presque entièrement des expositions. [13]
É de supor que o quadro de Slingeneyer intitulado A Morte de Camões seria provavelmente o quadro reproduzido na gravura de O Occidente, e cujo título seria um erro do pintor belga que, segundo Solvay, affectionnait les Morts. Com efeito, Slingeneyer era conhecido por ter retratado várias personalidades mortas ou moribundas.

Da vasta obra de Francisco José Rezende destaca-se ainda a Camponesa de Ílhavo de 1867, uma temática de quadros de figuras populares muito difundida na época e que o pintor também cultivou no seguimento do seu mestre Auguste Roquemont (1804-1852).


pim9comp


fig. 13 - Francisco José Rezende, Camponesa de Ílhavo 1867. Óleo sobre tela 66 × 47 cm. Museu do Chiado MNAC.


António Sarmento na revista Branco e Negro a propósito deste interesse pelas figuras e pelos costumes populares escreve:
O seu trajo é gracioso, encantador: saia de castorina negra, collete amarello, verde ou azul, aos ramos, deixando ver parte da graciosa camisa de estopa, muito branca; um grande lenço de côr bizarra traçado sobre o seio proeminente e, por cima, - é ahi que está o luxo de todas ellas! – grandes corações d’ouro filigranados, medalhas com flores em relevo, trancelins d’ouro de vários tamanhos, mais ou menos grossos, cahindo do pescoço em gargantilha e as tradicionais arrecadas, algumas d’um diâmetro espantoso, carregando-lhes as orelhas, e na cabeça sobre o lenço de seda , graciosamente levantado na nuca, um pequeno chapéu de feltro preto, redondo, d’abas levantadas e debruadas a fita de velludo larga, muito rentes ao casco e adornadas a toda a volta: uns pom-pons da mesma cor, outros de plumas de cores diversas. [14]




pim9acomp 

fig. 14 – Pormenor de Camponesa de Ílhavo, mostrando os adornos de ouro.


Quando em 1872 o Imperador do Brasil visitou a cidade do Porto [15] ao visitar a Academia procurou conhecer os pintores Francisco Rezende e João Correia e as suas obras, pelo prestígio que tinham entretanto adquirido na cidade:
Depois de reparar no mau estado em que se acha o edifício, cuja reparação compete à camara municipal da cidade, subiu às aulas da Academia, e ahi notou os quadros dos srs. Francisco José Resende e João António Corrêa, que elogiou, perguntando pelo primeiro, o qual se não achava presente. Mais tarde foi o sr. Resende recebido no hotel do Louvre, aonde foi offerecer-lhe dois quadros, um de costumes, outro com o retrato del-rei o sr. D. Luiz.”… [16]
No jornal O Primeiro de Janeiro de 3 de Março de 1872 refere-se esta visita: Hontem, pelas 7 horas da manhã foi o snr. Resende collocalos na sala de espera do hotel do Louvre, e quando procedia áquella operação, entraram na sala o snr. D. Pedro II com os snrs. Marquez de Ficalho, Andrade Corvo e seu secretario António Sampaio, os quais não só muito elogiaram os quadros como também dirigiram affectuosissimas palavras ao notável artista. Suas magestades querem que aquellas pinturas vão já na sua companhia para o Rio de Janeiro. [17]


E já de 1887 é o quadro Pescadores numa Praia, onde o pintor ensaia enquadrar a pintura de costumes numa paisagem tratada de uma forma realista que o artista envia para a XIV Exposição da Sociedade Promotora das Bellas-Artes.

Perante a crítica (ou a ausência dela) Rezende indignado no seu diário escreve:
"Quadro dos Pescadores de Matozinhos regressando na sua lancha á foz do rio Leça" Altura - 0,m, 96 Largura lm, 47. Concluí-o n'este dia.
Tive dias em que trabalhei 10 horas.
Foi exposto no salão do Palácio d'Industria; a concurrencia (no dom.° de paschoa) foi enorme: todo o publico ficou enthusiasmado, mas a canalha, a mercantil imprensa do Porto, uma não fallou, a outra como Atualidade (Carrelhas) e Com.io do Porto (Carqueja-Bento) só lhe acharam algumas coisas boas!... nem viram a anatomia, nem os escorços nem o vigor, nem o colorido local, nem a perspectiva aeria! Dando-lhes charutos e dinheiro levantam ao ar qualquer besta... [18]


O quadro


Rezende coloca seis pescadores atarefando-se na mareação de um barco que se aproxima da praia, tendo por fundo a praia de Matosinhos.

pim10


fig. 15 – Francisco José Rezende, Pescadores numa Praia 1887. Óleo sobre tela 95 x 145 cm. Palácio Nacional de Queluz.


Para além do dinamismo no tratamento plástico das figuras (veja-se a figura do pescador que segura a vara), o quadro tem, para nós, o interesse de constituir um documento precioso ao retratar a praia do Espinheiro, assim chamada pelo nome do rochedo dos Leixões que em frente se situava.
Nela vemos um moinho e a Capela do Senhor da Areia, também conhecida por Senhor do Espinheiro e Senhor do Padrão construído em 1758, e onde reza a lenda terá dado à costa a imagem de Bom Jesus de Bouças antigo nome do lugar de Matosinhos.

À capelinha se refere António Nobre:
Ó capellinha do Senhor d’Areia,
Ond' o senhor appareceu a uma velhinha…


Um poema que termina precisamente com um apelo aos pintores:


Qu’é dos pintores do meu país extranho?
Onde estão eles que não vêm pintar! 
[19]



Ao fundo do lado esquerdo do rapaz que, ajoelhado no barco, mostra os peixes às mulheres na praia, vê-se ainda o monte de Nossa Senhora da Luz com o seu Farol. Do lado direito do rapaz avista-se o Castelo do Queijo.
No mar diversas embarcações algumas com as velas içadas e ao longe um vapor que parece encaminhar-se para a barra do Douro.




pim10a 

fig. 16 – Pormenor de Francisco José Rezende, Pescadores numa Praia 1887. Óleo sobre tela 95 x 145 cm. Palácio Nacional de Queluz.

pim10b


fig. 17 - Pormenor de Francisco José Rezende, Pescadores numa Praia 1887. Óleo sobre tela 95 x 145 cm. Palácio Nacional de Queluz.


Se bem que elogiosamente recebido pela crítica local no último de uma série de artigos publicados de Julho a Setembro de 1887 em O Occidente, sobre a XIV Exposição da Sociedade Promotora de Bellas-Artes e assinados Xylographo [20], elogiando os pintores da nova escola realista e/ou naturalista, critica ferozmente o quadro “Pescadores de Matosinhos” de Francisco José de Rezende.
Escreve Xylographo:

Estas duvidas assaltam-nos a mente sempre que temos diante de nós uma contradição inexplicável, como a que se dá agora entre o sr. Rezende, professor jubilado da Academia Portuense de Bellas-Artes, e os quadros que apresenta n’esta exposição. O sr. Rezende é um artista portuense muito bem reputado, e essa boa reputação tem-a ganho pelas suas obras, entre as quaes se destacam effectivamente alguns quadros de mérito.
Entretanto os três quadros que expõem, muito principalmente “Os pescadores de Mattosinhos” e o “O rapazinho do moleiro” não podem comprometer mais o seu auctor. O sr. Rezende não copiou aquelles pescadores do natural, authenticos, de carne e osso. Não copiou.
Tem as formas e a côr dos bonecos da fábrica das Devesas, bonecos muito aceitáveis como produtos ceramicos, mas que não se podem vêr reproduzidos na tela, a não ser adornando algum étager de gabinete, como accessorio de quadro. [21]


Uma outra pintura de Francisco José Rezende, datada do mesmo ano, mostra o mesmo local com uma mais rigorosa precisão, talvez para apreender o sítio onde irá elaborar a sua composição.
Nela se vê a foz do rio Leça com algumas edificações, a capela do Senhor da Areia, o Castelo do Queijo e o Farol de N.ª Sr.ª da Luz. Ao fundo adivinha-se a barra do Douro.


pim11


fig. 18 - Francisco José Rezende, Paisagem de Matosinhos 1887. Óleo s/chapa 32 x 43 cm. MuMa, Museu da Quinta de Santiago. Matosinhos.


Para finalizar dois autorretratos de Rezende com 65 anos.
 pim12


fig. 19 - Francisco José Rezende, Auto retrato 1890, óleo s/ painel. 49,2 x 42,7 cm. Câmara Municipal do Porto.

pim33comp


fig. 20 – Francisco José Rexende, Auto retrato 1890, óleo s/cartão 48 x 29 cm. Colecção Vitorino Ribeiro. CMP. (Mourato 2007).

[1] Alberto Pimentel, Santo Thyrso de Riba d’Ave (Texto original de 1902 editado pelo Club Thyrsense) in Santo Thyrso de Riba d’Ave. Coordenação Álvaro de Brito Moreira. Notas e Comentários Álvaro de Brito Moreira e Francisco Carvalho Correia. Edição da Câmara Municipal de Santo Tirso. Santo Tirso 2011. (pág.142).
[2] Alberto Pimentel, Santo Thyrso de Riba d’Ave (Texto original de 1902 editado pelo Club Thyrsense) in Santo Thyrso de Riba d’Ave. Coordenação Álvaro de Brito Moreira. Notas e Comentários Álvaro de Brito Moreira e Francisco Carvalho Correia. Edição da Câmara Municipal de Santo Tirso. Santo Tirso 2011. (pág.151).
[3] António Manuel Vilarinho Mourato, Cor e Melancolia, Dissertação para candidatura ao grau de Mestre em História da Arte em Portugal. Faculdade de Letras da Universidade do Porto 2000.
[4] António Mourato, Francisco José de Resende [1825-1893] Figura do Porto Romântico. Edições Afrontamento. CEPESE. Porto 2007.
[5] O Panorama n.º 39 de 30 de Setembro de 1854. (pág. 307 e 308).
[6] Catalogo das Obras apresentadas na 6ª Exposição Triennal da Academia Portuense das Bellas Artes, no anno de 1857. Coordenado pelo Substituto d’Architectura Civil da mesma Academia. Typographia de Gandra & Filhos. Porto 1877.
[7] António Pinheiro Caldas (1824-1877), Poesias por Antonio Pinheiro Caldas, natural da cidade do Porto. Segunda edição correcta e augmentada. Typographia de Sebastião José Pereira, rua do Almada 641. Porto 1864. (pág. 143 e 144).
[8] Camillo Castello Branco Duas Epocas da Vida segunda edição melhorada incluindo o folheto intitulado Hossana Tomo I Preceitos do Coração. Livraria de António Maria Pereira, Rua Augusta 50 a 52, Lisboa 1865. (pág. 70).
[9] Francisco José Rezende, Revista á exposição Promotora de Bellas-Artes em Portugal in O Commercio do Porto de 25 de Novembro de 1868. Em António Manuel Vilarinho Mourato, Cor e Melancolia, Dissertação para candidatura ao grau de Mestre em História da Arte em Portugal. Faculdade de Letras da Universidade do Porto 2000. (Volume III pág. 353).
[10] Luciano Cordeiro (1844-1900), Segundo livro de Critica. Arte e Litteratura Portugueza d’Hoje (Livros, Quadros e Palcos) por Luciano Cordeiro. Typographia Lusitana-Editores, rua das Flores 84. Porto 1871.(pág. 103 e 104).
[11] Luís de Camões, Lusíadas canto X, estrofe CXXVIII, in Obras de Luís de Camões, Lello & Irmão – Editores, rua das Carmelitas 144. Porto 1970. (pág. 1394).
[12] Almeida Garrett (1799-1854), Camões Poema. CantoIV. À Livraria Nacional e Estrangeira, Rue Mignon, n.º2, faub. St. Germain. Paris 1825. (pág.72).
[13] Biographie Nationale publiée par L’Académie Royale des Sciences, des Lettres et des Beaux-Arts de Belgique. Tome vingt-deuxième: Schott-Smyters. Établissements Emile Bruylant, Société anonyme d’éditions Juridiques et Scientifiques, rue de la Régence, 67. Bruxelles 1914-1940. (pág. 685-686, Coluna 686).
[14] António Augusto de Matos Sarmento de Beja (1844-1903) Arredores do Porto (Typos e Paizagens) in Branco e Negro n.º90 19 de Dezembro de 1897.
[15] Ver neste blogue http://doportoenaoso.blogspot.pt/2010/07/uma-visita-ao-porto-com-d-pedro-ii.html
[16] José Alberto Corte Real, Bacharel formado em Direito, Manuel Antonio da Silva Rocha, Bacharel formado em Theologia, Augusto Mendes Simões de Castro, Bacharel formado em Direito, Viagem dos Imperadores do Brasil em Portugal. Imprensa da Universidade. Coimbra 1872. (pág.103).
[17] Citado por Joaquim Jaime B. Ferreira Alves, A visita ao Porto dos Imperadores do Brasil (1872). Construções efémeras, ornamentações e artistas. Centro de Estudos da População, Economia e Sociedade, Fundação António José de Almeida e Universidade do Porto.
[18] Em António Manuel Vilarinho Mourato, Cor e Melancolia, Dissertação para candidatura ao grau de Mestre em História da Arte em Portugal. Faculdade de Letras da Universidade do Porto 2000. (Volume II pág. 118).
[19] António Nobre (1867-1900), Luzitania no Bairro-Latino, Paris 1890-1891 in Só. Leon Vanier, Éditeur, Quai Saint-Michel,19. Paris 1892. (pág.80).
[20] Pensamos que sob este pseudó­nimo se esconde a figura de Caetano Alberto (1843-?), xilógrafo de profissão e um dos fundadores da revista ilustrada O Occidente. Sandra Leandro Teoria e Crítica de Arte em Portugal no final do século XIX in Seminários de Estudos de Arte: Estados da Forma I, Edições Eu é que sei Centro de História da Arte e Investigação Artística. Universidade de Évora. Palácio do Vimioso, Largo do Marquês de Marialva, 8. Évora 2007.
[21] Xylographo, XIV Exposição da Sociedade Promotora de Bellas-Artes in O Occidente de 21 de Setembro de 1887.



Manuel José Carneiro (1804-1865)


pim2


fig. 21 - António José da Costa (1840- 1929), reprodução do quadro Outros Tempos c.1870. Legendada as personagens nela representadas.


O segundo pintor que figura na pintura Outros Tempos (com o n.º15) é Manuel José Carneiro (1804-1865) sobre o qual escreve Alberto Pimentel:


Quasi a par de Rezende destaca-se a figura de Manuel José Carneiro, também professor da Academia de Bellas Artes. (*)

(*) Nota de AP - Nasceu em 1804 e falleceu era 1865. Regeu as cadeiras de desenho e architectura. Teixeira de Vasconcellos escreveu o Elogio Histórico d'este professor e conjuntamente o de Cunha Lima (1866).


De estatura regular, seco mas rijo, usando óculos de ouro e barba crescida, vestia fatos pretos e muito leves. Não foi era artista notável, mas era um professor dedicado — tão dedicado que se prestava a servir de modelo aos estudantes, como o provam dois quadros do museu de S. Lazaro.
Também n'este museu ha alguns retratos seus a «crayon» e a óleo.
M. J. Carneiro possuia nobres qualidades de caracter.
Foi sempre desvelado protector da viuva e filhas de um seu irmão. Moravam juntos na rua de Traz. O prédio tinha janellas para a calçada dos Clérigos. De uma d'essas janellas vi eu, sendo pequeno, el-rei D. Pedro V assistir, n'uma tribuna armada nas escadas da igreja, aos grandiosos festejos que, com tanto enthusiasmo, se realisaram, por occasião de uma das suas visitas ao Porto, n'aquella calçada, Praça Nova e rua de Santo António.
Esta zona central da cidade, tão graciosamente acidentada pelos seus declives e pelo valle intermédio, prestou-se a feéricos effeitos de illuminação.
Por sua parte o mallogrado rei accedeu aos desejos dos bons portuenses, prestando-se a que a multidão immensa pudesse passar por deante d'elle, desfilando, e contemplar a sua figura docemente melancólica, insinuantemente humilde e sonhadora.
Ah! como tudo isso já vai longe para mim e para os outros — até para os novos. . .



Manuel José Carneiro foi retratado por João António Correia (o outro dos pintores referidos no quadro).
O professor proprietário da cadeira de Arquitectura Civil e Naval desde 1843, por isso não tem grande obra pictórica, está representado em pose académica, sentado com o braço esquerdo apoiado no encosto da cadeira e a mão direita segurando um pano de cor vermelha que equilibra cromaticamente a composição.
No chão uma pasta de tom azul com desenhos, que se supõe serem projectos de arquitectura, e por trás sobre um plinto também coberto com uma toalha avermelhada, o busto do seu amigo e colega da Academia, o arquitecto Joaquim da Costa Lima Júnior (1806-1864). [1]


pim13


fig. 22 - João António Correia(1822 - 1896), Retrato de Manuel José Carneiro 1860, óleo S/tela 77 x 55 cm. Museu Nacional Soares dos Reis.


Este quadro foi exposto na 7.ª Exposição Triennal da Academia Portuense das Bellas-Artes em 1860, como refere o catálogo. [2]
Do Snr. João Antonio Corréa, Professor proprietário de Pintura histórica, morador no largo do Corpo da Guarda n.º32.
57 – Retrato do Substituto de Architectura Civil, Manoel José Carneiro, corpo inteiro, quadro a óleo de 0,775 por 0,555, destinado para a Academia para satisfazer ao Artigo 11.º dos Estatutos. [3]
E esteve também exposto na grande Exposição Internacional do Porto, no palácio de Cristal, em 1865.


Sobre o quadro escreve Francisco José Rezende em O Commercio do Porto:

Eis-nos diante do retrato de Manoel José Carneiro: é tal a sua fidelidade, a naturalidade da acção e expressão habitual, que ainda nos parece estar vendo o sympathico collega diante do nosso cavalete fallando sobre a historia das bellas-artes com aquella clareza e conhecimentos de que era dotado. — Abstraindo do merecimento da obra do snr. Correia, como retrato fiel de um homem franco, leal e honrado, de um verdadeiro portuguez e exemplarissimo collega, passemos a analisal-o debaixo do ponto de vista scientifico. — Observam-se-lhe três óptimas qualidades, que são: desenho consciencioso, claro-escuro e colorido. Ao contemplar esta pintura, a vista do espectador vai, como obrigada, procurar o ponto principal do quadro, que é a phisionomia do individuo, demorando-se a estudar seriamente a belleza da côr de carne, a franqueza e graça de toque, a transicção feliz das meias tintas, a passagem difficilima das carnes para os cabellos e d'estes para o fundo, onde sobresahe optimamente a cabeça veneranda do finado e illustre professor de architectura civil. O desenho de toda a figura nada tem que mereça reprehensão, e sabemos que elle foi copiado pelo natural com extremo cuidado. A mão que está poisada sobre o lenço vermelho, e se apoia sobre o caixote, pode ser considerada como uma das melhores partes do quadro; quizeramos dizer outro tanto da mão esquerda que se encosta na cadeira; mas não o devemos fazer. Parece-me um pouco grande em relação ao plano em que está. No que diz respeito aos accessorios devemos confessar que se acham dispostos com simplicidade artística, simplicidade que poucos sabem comprehender. Se o tom das roupas fosse aquelle de que tanto uzara o immortal Antonio Van-Dyck, harmonisar-se-hia mais com o colorido quente do rosto e mãos; todavia esta obra do snr. João Correia é a que lhe faz mais honra e que considero como uma das melhores da exposição portugueza: queira o leitor procural-a entre as nossas humildes producções, e verá se o enganei. F. J. Rezende. Porto 7 de novembro de 1865. [4]

 

Manoel José Carneiro destacou-se sobretudo como docente de Arquitectura, apresentando regularmente projectos nas Trienais da Academia. Foi professor dos conhecidos arquitectos portuenses José Geraldo da Silva Sardinha (1845-1906) e Tomás Soller (1848-1883).

[1] Ver http://doportoenaoso.blogspot.pt/2010/07/planta-topografica-da-cidade-do-porto.html
[2] Catálogo das Obras apresentadas na 7.ª Exposição Triennal da Academia Portuense das Bellas-Artes, no anno de 1860, coordenado Pelo Substituto d’ Architectura Civil da mesma Academia. Na Typographi de C. Gandra. Porto 1860. (pág. 11).
[3] Estatutos para a Academia Portuense das Belas Artes. Art. 11.º Uns e outros são igualmente obrigados a apresentar à Academia, de três em três anos, uma produção da sua própria invenção na arte que professam. Palácio das Necessidades, em 22 de Novembro de 1836. — Manuel da Silva Passos.
[4] Francisco José Rezende, Bellas-Artes. Portugal II. O Commercio do Porto de 12 de Novembro de 1865. Em António Manuel Vilarinho Mourato, Cor e Melancolia, Dissertação para candidatura ao grau de Mestre em História da Arte em Portugal. Faculdade de Letras da Universidade do Porto 2000. (Volume III pág.234 e 235).

Notas sobre João António Correia (1822-1896)


E, por fim, Alberto Pimentel refere o pintor João António Correia (1822-1896) no quadro com o n.º16. [1]
pim2


fig. 23 - António José da Costa (1840- 1929), reprodução do quadro Outros Tempos c.1870. Legendada as personagens nela representadas.
  

João António Correia completa, no quadro do sr. António Costa, o grupo dos pintores.
Correia foi um notabilissimo professor de pintura.
Trouxe de Pariz os últimos ideaes e processos da sua arte n'aquelle tempo. Accentuou uma profunda evolução, que os estudantes receberam com surpresa e fervor.
Chamou principalmente a attenção dos discípulos para a alta importância do desenho na pintura. Modificou a technica, fez escola e patenteou nobremente a sua abnegação artística, deixando, sem despeito nem rivalidade, que os pintores educados por elle abraçassem a nova evolução produzida pelos trabalhos de Marques de Oliveira e Silva Porto.
João Correia marca uma notável «étape» na historia do ensino da pintura no Porto; Marques de Oliveira e Silva Porto personificam a segunda «étape». São três nomes que os artistas portuenses devem abençoar.
João Correia, no quadro do sr. António Costa, é um retrato cuja similhança se pôde contraprovar por outro que d'este professor existe no museu de S. Lazaro.
Ressalta-lhe da cabeça a basta cabelleira que durante largos annos adoptaram os artistas e poetas do ciclo romântico. Guilherme Braga foi talvez o ultimo poeta portuense d'esse tempo que manteve a tradição da cabelleira ondulante, hoje substituída, na exteriorização de classe, pelo monóculo fixo.

[Sobre o pintor portuense António Carvalho da Silva Porto (1850 – 1893) ver neste blogue http://doportoenaoso.blogspot.pt/2011/09/apontamentos-sobre-pintura-em-portugal.html
Sobre o pintor João Joaquim Marques da Silva de Oliveira (1853-1927) ver neste blogue http://doportoenaoso.blogspot.pt/2011/09/apontamentos-sobre-pintura-em-portugal_28.html]
[Alberto Pimentel refere-se ao portuense Guilherme da Silva Braga (1845-1874) um poeta, tradutor de Victor Hugo e de Chateaubriand colaborador de diversas publicações.
Guilherme Braga publicou em 1895 O Bispo. Nova heresia em verso, com um preâmbulo de Sampaio Bruno (José Pereira de Sampaio Bruno 1857-1915) intitulado Antes de Ler, com uma notável síntese do reinado de D. Pedro V, e onde este se refere a um episódio em que Então, sacudindo a sua merovingia cabelleira romantica, um bello adolescente, Guilherme Braga, um bohemio, um doido, como lhe chamava a mercearia contemporanea, ergueu, elle só, um formidavel grito, de dôr, de colera, de protesto: Os falsos apostolos, por nôme.
A reacção alarmou-se; o impio foi excommungado, em sua mocidade, intrepida como a d'aquell'outro ephebo sublime de quem é a unica apotheose um derradeiro, simples, musical, maravilhoso verso do velho Hugo:
La gloire au front te baise, oh toi si jeune encore! [2] ]


pim14



fig. 24 - João António Correia, Auto-retrato c. 1840. Óleo s/tela 41,5 x 29,8 cm. Museu Nacional Soares dos Reis.


A peste de Asdod

João António Correia, conhecido pela exímia qualidade dos seus desenhos, expõe em 1874 na 11ª Exposição Trienal da Academia Portuense de Bellas Artes um desenho de um pormenor de um quadro de Nicolas Poussin intitulado La Peste d’Asdod, talvez pensando na epidemia que grassou na Europa entre os anos 50 e os anos 70 vinda do oriente. Correia como que adivinhava o terrível surto de peste bubónica que surgiu no Porto em 1899…


pim15


fig. 25 - João Correia (1822-1897), cópia de pintura s/d. Desenho grafite s/papel 44,5 x 31 cm. Museu da FBAUP.


pim16a


fig. 26 - Pormenor de Nicolas Poussin (1594-1665) la peste d’Asdod, 1630/31 óleo s/tela 148 x 198 cm. Museu do Louvre.


O quadro de Nicolas Poussin (1594-1665) é inspirado na passagem bíblica do Livro I de Samuel A Arca na terra dos filisteus1Os filisteus apoderaram-se, pois, da Arca de Deus e levaram-na de Ében-Ézer para Asdod. 2Toma­ram a Arca de Deus, levaram-na para o tem­plo de Dagon e colocaram-na junto do ídolo. 3No dia seguinte, levan­tando-se de manhã cedo, os habitantes de Asdod viram a estátua de Dagon caí­da por terra, diante da Arca do Se­nhor. Levantaram Dagon e repuse­ram-no no seu lugar. 4No outro dia, le­vantando-se também de manhã cedo, encontraram Dagon caído de rosto por terra, diante da Arca do Senhor. A cabeça do ídolo e as mãos estavam cortadas, sobre o limiar da porta. Só o tronco de Dagon tinha ficado no seu lugar. 5Por isso é que os sacerdotes de Dagon e todos os que entram no seu templo, em As­dod, evitam ainda hoje colocar o pé sobre o limiar da porta. 6Depois disto, a mão do Senhor pesou sobre os habi­tantes de Asdod, enchendo-os de ter­ror, ferindo-os com tumores pestífe­ros em Asdod e seu território. 7Vendo isto, os habitantes de Asdod exclama­ram: «A Arca do Deus de Israel não ficará connosco, porque a sua mão pesa so­bre nós e sobre Dagon, nosso deus.


E Poussin pinta então a imagem da peste documentando-se em Tucídides (c.460-400 a.C.) que descreve a peste que grassou em Atenas (430-426 a.C.) na sua História da Guerra do Peloponeso.


pim16


fig. 27 - Nicolas Poussin (1594-1665) la peste d’Asdod, 1630/31 óleo s/tela 148 x 198 cm. Museu do Louvre.
[Nota - Existe uma cópia intitulada Os Filisteus atacados pela peste na cidade de Azot sensivelmente com as mesmas dimensões no Museu Nacional de Arte Antiga.]


Ce qui contribua surtout à aggraver les maux du moment fut l'affluence de ceux qui vinrent de la campagne à la ville. Ces derniers eurent particulièrement à souffrir sans maisons, sans autre abri, au plus fort de la chaleur, que des cabanes privées d'air, ils périssait en foule en l'absence de tout ordre, les morts restaient entassés les uns sur les autres. On voyait des malheureux se rouler dans les rues, autor de toutes les fontaines, à demi morts et dévorés par la soif. Les temples mêmes étaient remplis dès cadavres de ceux qui étaient venus s'y abriter et mourir. Car tel fut l'excès du mal et de l'abattement, que, ne sachant plus que devenir, on perdit tout respect pour les choses divines et humaines. Les lois suivies jusque- là pour les funérailles furent mises en oubli; chacun ensevelissait ses morts comme il pouvait. Beaucoup même, manquant du nécessaire pour les sépultures, parce qu'ils avaient déjà perdu un grand nombre
des leurs, eurent recours sans pudeur à d'indignes moyens les uns allaient déposer leurs morts sur un bûcher étranger, et, devançant ceux qui l'avaient élevé, y mettaient le feu; d'autres, pendant qu'on brûlait un cadavre, jetaient par-dessus le corps qu'ils portaient ets'en allaient. [3]

[Em adição à calamidade que já os castigava, os atenienses ainda enfrentavam outra, devida à acomodação na cidade da gente vinda do campo; isto afetou especialmente os recém-vindos. Com efeito, não havendo casas disponíveis para todos e tendo eles, portanto, de viver em tendas que o verão tornava sufocantes, a peste os dizimava indiscriminadamente. Os corpos dos moribundos se amontoavam e pessoas semimortas rolavam nas ruas e perto de todas as fontes em sua ânsia por água. Os templos nos quais se haviam alojado estavam repletos dos cadáveres daqueles que morriam dentro deles, pois a desgraça que os atingia era tão avassaladora que as pessoas, não sabendo o que as esperava, tornavam-se indiferentes a todas as leis, quer sagradas, quer profanas. Os costumes até então observados em relação aos funerais passaram a ser ignorados na confusão reinante, e cada um enterrava os seus mortos como podia. Muitos recorreram a modos escabrosos de sepultamento, porque já haviam morrido tantos membros de suas famílias que já não dispunham de material funerário adequado. Valendose das piras dos outros, algumas pessoas, antecipando-se às que as haviam preparado, jogavam nelas seus próprios mortos e lhes ateavam fogo; outros lançavam os cadáveres que carregavam em alguma já acesa e iam embora.] [4]


A lebre


João António Correia, na temática das naturezas-mortas, pinta em 1858 um quadro intitulado Lebre pendurada, exibida na Exposição Triennal da Academia Portuense de Bellas-Artes de 1863 com o n.º44 – Uma lebre tamanho natural.


pim35


fig. 28 - João António Correia (1822-1896), Lebre pendurada 1858. Óleo sobre tela Museu Nacional de Soares dos Reis.


Sobre este quadro escreve o seu colega da Academia Francisco José Rezende em O Nacional de 22 de Dezembro de 1863.
O outro quadro de naturesa morta representa uma «lebre» pendurada pelas pernas, cujas linhas parallelas, não são de bom effeito; é empastado com mais liberdade que o do «pato», porém prejudica a pintura aquelle excessivo branco do ventre. [5]
Finalmente pela sábia utilização das cores, um dos quadros mais conhecidos de João António Correia é O Negro.
Este é representado com a cabeça coberta por um fez de uma brilhante cor vermelha de onde pende uma cauda azul, que contrasta com o manto amarelado que cobre o seu ombro direito.
Uma luminosidade que vem da esquerda do espectador ilumina o seu rosto brilhante, onde sobressai o orgulhoso olhar dos seus olhos bem abertos.


pim17


fig. 29 - João António Correia, O Negro 1869, óleo s/tela 73,7 x 58,6 cm. Museu Nacional Soares dos Reis.


João António Correia foi professor, entre outros de Silva Porto, Marques de Oliveira, Sousa Pinto e Henrique Pousão.

[1] Ver: Artur Duarte Ornelas de Vasconcelos, Mestre João António Correia (1822-1896): entre a construção académica e a expressão romântica. Dissertação para a obtenção do grau de Mestre em História da Arte Portuguesa Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Porto 2009.
[2] Guilherme Braga (1845-1874), O Bispo. Nova “Heresia”, em Verso. Segunda edição com o retrato e uma poesia inedita do auctor, e um preambulo por J. Pereira Sampaio (Bruno). Livraria Camões de Fernandes Possas, Rua das Flores 136 a 138. Porto M DCCC XCV. (pág. XXV).
[3] Thucydide, ­Histoire de la guerre du Péloponnèse. Traduction nouvelle par CH. Zevort Recteur de l'Académie de Bordeaux. Quatrème Édition. G. Charpentier, Libraire-Éditeur, 13, Rue de Genelle-Saint-Germain. Paris 1883. (Liv. II,n. 52, pag.185).
[4] Tucídedes (c. 460 - c. 400 a.C), História da Guerra do Peloponeso.Tradução do Grego: Mário da Gama Kury. Editora Universidade de Brasília, Edições Imprensa Oficial de São Paulo, Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais. Brasília 1982. (Livro II, n.º52, pág. 118).
[5] Francisco José Rezende, Folhetim. Bellas-Artes. Exm.º Snr. Marquez de Sousa Holstein, in O Nacional Porto 22 de Dez. 1863. Em António Mourato Dissertação… (Volume II pág. 197).


José das Desgraças (1793/94 -1850)


Alberto Pimentel refere de seguida uma conhecida figura do Porto José Maria da Graça Strech, o José das Desgraças (1793/94 -1850). No quadro com o n.º17. e o seu cão com o n.º18.


pim2


fig. 30 - António José da Costa (1840- 1929), reprodução do quadro Outros Tempos c.1870. Legendada as personagens nela representadas.



Vizinho ao grupo dos pintores avulta o perfil do «José das Desgraças», José Maria da Graça Strech, que o povo reputava maníaco, e foi, na realidade, uma creatura atormentada pela amargura do destino.




Alberto Pimentel já havia referido o José das Desgraças como o protagonista do seu romance O Anel Mysterioso: scenas da Guerra Peninsular publicado pela primeira vez em 1873, pelos editores da Biblioteca Universal.

O romance cuja acção se situa no Porto quando a cidade sofre a segunda Invasão Francesa, descreve a desventura de José Maria da Graça Strech, militar que se torna um mendigo conhecido pelo Desgraça, que vagueia pelas ruas do Porto ostentando, contudo, um valioso anel de ouro que se recusa a vender.

No Prologo da 3ª Edição Alberto Pimentel refere citando Camilo:
Quando eu escrevia este romance, muitas pessoas d'aquella cidade se lembravam ainda de ter visto frequentes vezes o Desgraça.
Uma d'essas pessoas era Camillo Castello Branco, que, seis annos depois da publicação do Anel mysterioso, dizia a pag. 296 do livro Sentimentalismo e historia: «A um canto (do botequim da Aguia d'ouro) estava um velho de semblante livido, muito desgraçado, com um chapeu enorme de sêda d'um azulado decrepito, com um grande cigarro no canto da bocca. Ao lado, sobre um mocho, via-se uma guitarra com manchas gordurosas de suor que punham brilhos, e aos pés um cão d'agua com o felpo encarvoado, cheio de torçidas, encaroçado, dormia, e acordava de salto, apanhando com muita furia, no ar, as moscas que lhe picavam as orelhas. Era o José das Desgraças, o legendario mendigo, que morreu de saudades do seu cão, aggravadas pela fome». [1]


No final do romance de Alberto Pimentel é então explicado o valor de estimação do anel de Graça Strech.

Passados mezes via-se nas ruas do Porto um estranho homem; andava arrimado a um bordão, porque coxeava. Alguem, por caridade, o vestira: trazia sobrecasaca abotoada e chapeu alto amolgado. Realçava sobre esta pobreza a medalha de prata da guerra peninsular em competencia com um annel de ouro que brilhava na mão esquerda. Como o vissem apanhar do chão pontas de cigarros, e manipular um longo rolo de tabaco, perguntavam-lhe por que não vendia o annel. [2]


E mais adiante com a morte do Desgraças o valor afectivo do anel é sublinhado quando é levado pelo morto para a sepultura, explicando e construindo a identidade psicológica da personagem. [3]
Graça Strech falleceu no hospital dos Entrevados de Cima de Villa a 20 de maio de 1850. Antes de expirar, entregou ao seu protector, que lhe assistiu aos ultimos momentos, a medalha da guerra peninsular, com que fôra condecorado, e que o sr. Leorne ainda hoje possue. O annel mysterioso, por expressa recommendação do moribundo, desceu com o cadaver á sepultura. [4]

[1] Alberto Pimentel, Prólogo da 3ª Edição de O Anel Mysterioso, scenas da Guerra Peninsular. Romance original de Alberto Pimentel. 3ª Edição, ilustrada, revista pelo auctor. Empreza da História de Portugal, Sociedade Editora. Livraria Moderna, Rua Augusta, 95. Typographia 45, Rua Ivens, 47. Lisboa 1904.
[2] Alberto Pimentel, O Anel Mysterioso, scenas da Guerra Peninsular. Romance original de Alberto Pimentel. 3ª Edição, ilustrada, revista pelo auctor. Empreza da História de Portugal, Sociedade Editora. Livraria Moderna, Rua Augusta, 95. Typographia 45, Rua Ivens, 47. Lisboa 1904. (pág.196).
[3] De certo modo tendo um significado semelhante ao que mais tarde desempenhará Rosebud o trenó da personagem de Citizen Kane de Orson Welles o seu clássico filme de 1941.
[4] Alberto Pimentel, O Anel Mysterioso, scenas da Guerra Peninsular. Romance original de Alberto Pimentel. 3ª Edição, ilustrada, revista pelo auctor. Empreza da História de Portugal, Sociedade Editora. Livraria Moderna, Rua Augusta, 95. Typographia 45, Rua Ivens, 47. Lisboa 1904. (pág. 197 e 198).

O Macron

Na pintura de António José da Costa Alberto Pimentel refere ainda um pobre idiota, o Macron. (com o n.º 19).

pim2


fig. 31 - António José da Costa (1840- 1929), reprodução do quadro Outros Tempos c.1870. Legendada as personagens nela representadas.



Junto ao angulo do muro, entre-avista-se a fisionomia de outra individualidade muito popular então nas ruas do Porto, o Macron, pobre idiota, á custa do qual o rapazio se divertia açulandoo com ruidosas montarias.
pim18



fig. 32 - Sebastião Sanhudo – Almanach de caricaturas Pae Paulino, Porto, 1º ano, 1878. Typ.Occidental. Edição: Livraria Civilização.Litografia Portugueza a Vapor de Mendonça & Sanhudo, Porto 1877. (pág. 31).


Segundo Rui Manuel da Costa Fiadeiro Duarte (de Cifantes e Leão), o Macron ou Macrão era personagem muito conhecida do Porto era destituída de bom raciocínio e tinha a candura típica desses seres. Era capaz, por dez réis, de deixar que lhe puxassem as orelhas (sem no entanto o ferirem), ou por um cálice de genebra ou meio café, que lhe oferecessem, apresentar-se no trajo de Adão, antes do peccado original em qualquer lugar, ou ainda, como se não bastasse, pela oferta de um cigarro postar-se de joelhos e braços abertos em cima de uma mesa de café durante um par de horas. O seu poiso foi, durante algum tempo, o Café da Graça. [1]

[1] Rui Manuel da Costa Fiadeiro Duarte (de Cifantes e Leão), Figuras Picarescas no Porto na segunda metade do século XIX, in II Congresso O Porto Romântico-Actas, coord. Gonçalo de Vasconcelos e Sousa, Centro de Investigação em Ciência e Tecnologia das Artes, Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa. Porto 2016. (pág. 452).


Richard Clamouse Brown (1822-1870)
 
Alberto Pimentel refere ainda Richard Brown com o n.º 6 no quadro.


pim2


fig. 33 - António José da Costa (1840- 1929), reprodução do quadro Outros Tempos c.1870. Legendada as personagens nela representadas.


A' esquerda a unica pessoa a que pôde ligar-se um nome de família é Ricardo Brown, a primeira mão de rédea entre os sportmen e o primeiro figurino dos janotas portuenses d'esse tempo.
Foi elle que introduziu no Porto o uso do veston de velludo, dos colletes, das gravatas e das luvas de côr flammante; bem como dos ligeiros vehiculos de passeio, a charrette por exemplo, que elle sabia guiar com elegante pericia. Foi também elle uma das primeiras pessoas que estabeleceram residência permanente na Foz. A sua casa, perto da Cantareira, tinha um só pavimento ao rés-do-chão, e no interior realçavam-n'a o conforto e o requinte de um vieux garçon em evidencia.
Morreu repentinamente depois de ter passado a noite no Club Portuense, e no testamento deixou galantes lembranças de amizade a todos os seus íntimos.
Era surdo e cultivava a musica. Mas a sua principal funcção na sociedade portuense foi a de revolucionar a toilette masculina e animar o sport por effeito da educação ingleza que tinha recebido.



Ricardo Clamouse Brown está retratado por Auguste Roquemont (1804-1852) mostrando-o de uma forma que corresponde inteiramente ao modo como o descreviam os seus contemporâneos.

pim19


fig. 34 - Augusto Roquemont, Retrato de Ricardo Clamouse Brown 1851. Óleo s/papel colado em tela 35,5 x 25,5cm. Museu Nacional Soares dos Reis.


De casaca, camisa e colete branco com o braço direito apoiado na cadeira segurando na mão uma cartola e as luvas de pelica. Está sentado, de perna cruzada, o braço esquerdo apoiado no cotovelo sobre uma mesa, a mão direita junto na cara numa atitude pensativa e um pouco blasé de um verdadeiro snob.
À sua direita uma coluna que serve de moldura ao quadro e na parede do fundo uma gravura que parece ser da cidade do Porto. Na mesa à sua esquerda está um livro, um mapa seguro por uma miniatura de uma embarcação e no chão um baú com a tampa aberta guardando rolos de papel.

Alberto Pimentel já havia descrito Ricardo Brown no seu Guia do Viajante na Cidade do Porto e seus Arrabaldes publicado em 1877:

Um homem houve no Porto que por longo tempo se manteve invencivel na sua originalidade de verdadeiro leão. Chamou-se Ricardo Browne e era elle que batia os melhores poneys nas ruas do Porto, segurando as redeas com o artistico descuido de quem suspende o fitilho que prende uma pomba; era elle que possuia o segredo de atravessar com fina hombridade o gentio pasmado do seu collete encarnado ou do seu frak de veludo; era elle o homem destinado para domesticar os comecilhos benoitisudos cegando-os com a camelia que apresilhava na boutonniére; era elle, finalmente, que se tinha creado um retalho de Paris n'este burguezissimo Porto, vivendo á beira-mar, n'uma casinha cheia de flores e crystaes, onde recebia os seus amigos e que, deslembrado do aneurysma que o havia de matar, vivia mais tempo na sua caleça ou no seu briska do que nas suas poltronas ou no seu leito.
A principio fallaram d'elle com azedume, riam se, chasqueavam, chamavam-lhe ironicamente o sr. De Clamouse, porque era este um appellido seu, e Ricardo Browne passava sorrindo do alto dos seus bonitos trens sem ouvir e sem vêr. [1]


E Camilo Castelo Branco também o refere em Bohemia do Espírito a propósito da vinda ao Porto da marquise de Paiva:
…Ricardo Browne era tão poderosamente iniciador que até, pelo facto de ser muito surdo, contagiou de surdez fictícia muitos rapazes em condições as mais sanitariamente physiologicas das suas grandes orelhas. Estes rapazes, assim cavalleiros, figurinos lovelacianos, esgrimidores, mais ou menos surdos, chamavam-se simplesmente janotas, ou em nomenclatura mais culta — dandys. Não se conhecia ainda em Portugal o peregrino vocabulário de sport, de turf, de sportman, de highlife e de sporting, de gommeux. Ignoravam-se estas inglezias e francezismos da actualidade mascavada de idiomas com que um qualquer modesto noticiarista da travessa de Cata-que-farás, 4.°andar, lado esquerdo, parece que nos está conversando n'um salão de Regent-Street, a marinhar com às pernas pela espalda de um “fauteuil” cramezim, as suas emoções pessoalíssimas de Hyde-Park e Jockey-Club. [2]
Camilo mostra conhecer o ilustrador Bertall que definiu o francesismo gommeux. Segundo ele diz-se de Celui donc est bien en vue, qui brille, qui est envié pour sa toilette, sa position, son genre et son chic, est un gommeux. [3]
pim30


fig. 35 – Bertall, Le gommeux. In La Comédie de Notre Temps. 1874.




[1] Alberto Pimentel, Guia do Viajante na Cidade do Porto e seus Arrabaldes. Livraria Central de J. E. da Costa Mesquita – Editor, Rua de D. Pedro, 87. Porto 1877. (pág.10).
[2] Camillo Castello Branco Bohemia do Espírito, Porto Livraria Civilização 4, Rua de Santo Ildefonso, 6. Porto 1886. (pág.10).
[3] Charles Constant Albert Nicolas d'Arnoux de Limoges Saint-Saëns dito Bertall (1820-1882). La Comédie de Notre Temps. La civilité-les habitudes-les moeurs-les costumes-les manières et les manies de notre époque. Études au Crayon et la Plume. E.Plon et Cie, Imprimeurs-Éditeurs, Rue Garancière, 10. Paris 1874. (pág.115).


As figuras populares


Prossegue Alberto Pimentel referindo um conjunto de figuras populares então habituais no Porto dos meados do século XIX.
Entre as figuras populares que o sr. António Costa recrutou para o seu quadro, contam-se, além da mulher de mantilha e do cadeirinha, de que já falei, o soldado invalido que fizera a campanha da liberdade, e se arrastava sobre os calhaus da rua mendigando; a vendilhona ambulante de giga á cabeça, a assadeira de castanhas, a varina, o gallego de sacco ao hombro, o petulante garoto portuense que em toda a Europa não encontra parallelo senão talvez no gamin de Pariz.

pim2




fig. 36 - António José da Costa (1840- 1929), reprodução do quadro Outros Tempos c.1870. Legendada as personagens nela representadas.



O soldado invalido com o n.º10.
Manuel de Macedo publica, por volta de 1865, um álbum em que desenha estas e outras figuras populares.
Nesse álbum uma figura de um inválido.
pim21


fig. 37- Manuel de Macedo (1839-1915), Inválido in Álbum de Costumes Portugueses- 20 desenhos 25,5 x 34 cm. Biblioteca Nacional.


A assadeira de castanhas no quadro com o n.º22.
pim25



fig. 38 - Manuel de Macedo (1839-1915), Inválido in Álbum de Costumes Portugueses- 20 desenhos 25,5 x 34 cm. Biblioteca Nacional.



Ao fundo a vendilhona ambulante com o n.º20 e junto aos pintores a varina com o n.º12.
pim20


fig. 39 - Manuel de Macedo (1839-1915), Vendedeira c.1865 in Álbum de Costumes Portugueses- 20 desenhos 25,5 x 34 cm. Biblioteca Nacional.


O galego na pintura de António José da Costa com o n.º 21


A vós outros tambem não tolhe o medo,
Ó sordidos Gallegos, duro bando,…
[1]



Eram chamados de galegos os jovens emigrantes que nas ruas da cidade de Lisboa e do Porto se dispunham a fretes e recados a troco de pequenos pagamentos. Muitos deles tornaram-se também aguadeiros.

pim27


fig. 40 - Alfredo Roque Gameiro (1864-1935), Gallegos (trajo antigo), reprodução de aguarela in Branco e Negro. Semanário Illustrado. N.º95, 30 de Janeiro de 1898. (pág.275).


No seu polémico e tão criticado - entre outros por Camilo Castelo Branco - Portugal de Relance (Le Portugal à vol d’oiseau), Marie Rattazzi escreve sobre esta figura e acrescenta como galego se tornou mesmo um insulto.
Em todas as esquinas das ruas de Lisboa deparamse-nos moços de fretes e recados e aguadeiros, oriundos da Galliza. Os seus trabalhos aqui correspondem aos dos auvcrnianos e saboianos em Paris.
São montanhezes robustos, pacientes, corajosos, que não se recusam a nenhum trabalho penoso a troco de algumas moedas de cobre, augmentando assim o seu pequeno thesouro, que vão mandando para o torrão natal com o fim de comprarem algumas geiras de terra. Gozam da fama de honestos, merecidamente adquirida; muitos teem o encargo de cobrarem som mas importantes para os patrões, e é um facto extraordinário queixar-se alguém da probidade do gallego.
Laboriosos e honrados estão, ainda assim, sob a completa dependência dos portuguezes. Basta a sua qualidade de hespanhoes para serem asperamente tratados pelas pessoas que os empregam. «E um gallego!» dizem. Isto é: um ente grosseiro, desprezível, que não merece consideração nem delicadeza de espécie alguma.
Um portuguez compra uma ninharia qualquer, um objecto pequeníssimo; não querendo dar-se ao trabalho de o levar, chama um gallego, entrega-lhe o embrulho, que pesa s vezes três grammas, e é seguido pelo moço até ao seu domicilio. Assim pratica elle um acto de soberania e de supremacia, e tudo isto a troco de 30 ou 40 réis! Só quem está em muito más circumstancias é que não goza tao modesto prazer.
Não ha para um portuguez injuria mais grosseira do que comparal-o a um gallego. É o nec plus-ultra da conjugação insultante. Permitta Deos que os meus leitores não cheguem nunca a semelhante extremidade! Aliás teriamos sangue derramado… [2]





O garoto portuense com o n.º9.
 

A referência ao petulante garoto portuense e ao gamin de Paris remete para Gavroche a personagem do célebre romance Os Miseráveis, de Victor Hugo. Gavroche é o rapaz que participa na revolução de 1832 e que morre heroicamente ajudando os revoltosos. Depois disso gavroche passou a ser a designação universal para os rapazes da rua.


pim22b


fig. 41 - Gustave Brion (1824-1877) Gavroche in Victor Hugo (1802-1885) Les Misérables (1862). Edition Illustré, 200 Dessins par Brion. J. Hetzel et A. Lacroix, 18, Rue Jacob. Paris c. 1864.


pim22a



fig. 42 - Émile-Antoine Bayard (1837-1891), Gavroche. In Les Miserables de Victor Hugo Illustrated Edition in five volumes, Thomas Y. Crowell & Co. N.º 13 Astor Place New York 1897.


O cantor Renaud (Renaud Sechan n.1952) tem uma canção intitulada Ecoutez-moi les gavroches cujo refrão é:
Allez, écoutez moi, les gavroches
Vous les enfants de ma ville
Non, Paris n'est pas si moche
Ne pensez plus à l'an deux mille .
[3]


E Alberto Pimentel faz ainda referência ao desaparecimento em 1908, quando escreve o texto, do soldado da guerra civil e da mantilha.
A maior parte d'estas personagens subsiste ainda, porque ellas representam industrias perpetuadas na tradição do paiz.
Mas o soldado da guerra civil, que as balas inimigas inutilisaram pela deformidade e pela invalidez, já desapareceu do numero dos vivos, e foi arrastando comsigo para os confins da Historia a misera lembrança da ingratidão da pátria.

A mantilha



Não quero fatigar o leitor fazendo-lhe a necrologia da antiga mantilha de lapim, esse commodo e recatado traje, que deu outrora á dama portuense um aspecto senhorilmente grave e discreto. (*)
Era um vestígio do bioco mourisco, ainda hoje não de todo extincto em algumas terras do sul e nos Açores.
Mas, em confronto com os audaciosos turbantes emplumados, que as portuguezas usam actualmente, confesso com franqueza que tenho saudades da mantilha — como se ella houvesse sido o pudor da mulher na belleza e na modéstia.

(*) Nota de Alberto Pimentel - A mantilha portuense foi um assumpto litterario. Ao desterro das mantilhas, folheto que lhes era adverso, respondeu Mesquita e Mello com outro opúsculo, A defeza das mantilhas (1821).

Nesta nota Alberto Pimentel refere-se ao poeta António Joaquim de Mesquita e Mello (1792-1884) e ao seu opúsculo A defeza das mantilhas resposta a O desterro das mantilhas: ou a necessidade de desterrar hum traje, que esconde a formosura e a gentileza das mulheres bonitas, que em 1820 aparece já publicitado no Correio do Porto n.º 73 de Quarta-Feira 20 de Dezembro de 1820: Na Casa da Gazeta vende-se por 60 reis o Desterro das Mantilhas, ou Exhortacão em que o Poeta Gallego cem razões bem arrazoadas mostra a necessidade de desterrar hum traje , que esconde a formosura, e a gentileza das Mulheres bonitas.



Sobre a mantilha e sobre o trajar da mulher portuense  também Alberto Pimentel já se havia debruçado no seu Guia do Viajante:
A mantilha — não a ligeira e formosa mantilha hespanhola — era uma longa capa de lapim ou durante que se arqueava em côca sobre a cabeça, e foi por muito tempo o trage feminino mais caracteristico do Porto. [4]

E nas páginas seguintes ao descrever o traje das portuenses do campo lembra uma gravura de Manuel Gimenez intitulada a Labradora de los arrabaldes de Oporto



pim23



fig. 43 - Manuel Gimenez (1848-1904), Alfredo Perea Y Rojas (1839-1895), Labradora de los arrabaldes de Oporto, c.1875, cromolitografia 20,5 x 21,1 cm. BND.


As mulheres do campo, que vestem no Porto muito mais graciosamente que as damas portuenses, resentem-se todavia do contacto com uma cidade sobremaneira rica e utilitaria. As camponezas dos arrabaldes vestem saia curta, que se arredonda em numerosos refegos até às ancas. Uzam de colletes curtos, ficando inteiramente livres as alvas e fartas mangas da camisa, quasi sempre arregaçadas até ao cotovello. Sobre o peito cruzam um lenço que releva com a turgidez do seio. Na cabeça, ou lenço ou chapeu copado de massanetas de seda. Solêtas nos pés. [5]






Acompanhado por um desenho intitulado Mantilha do Porto Alberto Pimentel volta a escrever e a referir a mantilha em 1898 no semanário Branco e Negro num texto Galeria de Trajos Nacionaes. Os Biocos.
pim28



fig. 44 – Mantilha do Porto in Branco e Negro, Semanário Illustrado, n.º93 de 9 de Janeiro de 1898.


No norte de Portugal, no Porto especialmente, a mantilha, mixto de baetilha e de capa, manto de seda, lapim ou durante rebuçando a cabeça n’uma côca de papelão, arqueada sobre os hombros, subsistiu até depois de 1860. [6]



E Alberto Pimentel cita, de seguida e parcialmente, Camilo Castelo Branco em Cavar em Ruínas de que damos o texto completo sobre as mantilhas:

Como trajariam as damas portuenses em 1817?
Diz o poeta:
………………………..
Enfronhadas á força, á força gebas
Desairosas bonecas!


Arrojai-me no Doiro co' esses trajos,
Portuenses donzellas! — Quem podéra
Pleitear comvosco em formosura e graças,
Se quaes sois vos mostrásseis?


Formas que Vénus para si tomara
D'essa mortalha de invenção fradesca
Quem as libertará? Bioco negro
De donde mal vislumbra
Raro lampejo de celeste face
Oh! quem o rasgará?...
[7]
Deviam de ser as mantilhas. Lá se foram, senão todas, decerto as que embiocavam celestes faces. Alguma reformada mestra de meninas, ou tia de janota da rua dos Mercadores, ainda vae á missa d'alva ou Lausperenne com sua mantilha de sarja.
Ai! eu ainda conheci mulheres formosas de mantilha.
A graça com que ellas as apanhavam e refegavam na cintura! Como as nalgas se relevavam redondas debaixo do lapim! E o bamboar dos cabellos anelados sob o docel negro e arqueado da coca! E não vae longe isto. Ainda são bellas muitas das mulheres que eu via mostrarem o pé encruzado de fitas por debaixo da orla da lustrosa mantilha. Quando ellas tornarem, saiba o século XXI que fui eu quem, n'esta anarchia de modas francezas, commemorou com saudade a magestosa veste com que nossas avós se fizeram queridas de seus maridos e d'outros. [8]


E Alberto Pimentel sobre a mantilha concluiu: Também eu, na minha infância, ainda conheci a mantilha portuense, já meio vencida pelo chapéu, mas ainda resistente como um trajo que, por grave e composto, era tido, pelas senhoras de edade, como o mais próprio para os actos religiosos: a missa e a confissão.


Diz uma cantiga do tempo:
Minha avó é velha,
Inda quer casar!
Pegue na mantilha,
Va-se confessar.



Sem embargo, também as meninas solteiras uzavam de mantilha:


Eu hei de tomar amores
Há de ser c’um fabricante,
Que me dê saia de seda
E mantilha de durante.
[9]

[1] Luís de Camões, Lusiadas. In Obras de Luís de Camões. Lello & Irmão – Editores 144, Rua das Carmelitas. Porto 1970. (Canto IV est.10 pag. 1215).
[2] (Marie-Lætitia Bonaparte-Wyse) Marie Rattazzi (1831-1902), Portugal de Relance, traducção portugueza (autorizada pela auctora) Volume I Livraria Zeferino-Editora Rua dos Fanqueiros 87, Lisboa 1881. (pág. 36 e 37).
[3] Renaud Sechan (1952) Francois Bernheim Ecoutez-moi les Gravoches. Warner Chappell Music France.
[4] Alberto Pimentel, Guia do Viajante na Cidade do Porto e seus Arrabaldes. Livraria Central de J. E. da Costa Mesquita – Editor, Rua de D. Pedro, 87. Porto 1877. (pág.12).
[5] Alberto Pimentel, Guia do Viajante na Cidade do Porto e seus Arrabaldes. Livraria Central de J. E. da Costa Mesquita – Editor, Rua de D. Pedro, 87. Porto 1877. (pág.13).
[6] Alberto Pimentel, Galeria de Trajos Nacionaes. Os Biocos. In Branco e Negro, Semanário Illustrado, n.º93 de 9 de Janeiro de 1898. (pág.237 e 238).
[7] Camilo cita parcialmente um poema de Almeida Garrett que figura na sua obra: Camillo Castello Branco, Cancioneiro Alegre de Poetas Portuguezes e Brazileiros. Segunda Edição, seguida dos Críticos dos Cancioneiros. Livraria Internacional de Ernesto Chardron, Casa editora Lugan & Genelioux, Successores. Porto 1887. (pág. 300).
[8] Camillo Castello Branco, Cavar em Ruínas. 2.ªEdição. Livrarias de Campos Junior – Editor, Rua Augusta 78 a 80. Lisboa 1866. (pág.51 e 52).
[9] Alberto Pimentel, Galeria de Trajos Nacionaes. Os Biocos. In Branco e Negro, Semanário Illustrado, n.º93 de 9 de Janeiro de 1898. (pág.237 e 238).


Por fim, justificando o título do texto e do quadro, Alberto Pimentel termina assim a sua crónica: 


Outros tempos foram esses, e outros tempos é o titulo que o sr. António Costa adoptou para a sua tela. Era natural que já hoje, ou quando muito d'aqui a uma dezena de annos, o quadro que tentei descrever não pudesse ser facilmente interpretado por quem tivesse occasião de observal-o.
Reuni n'estas paginas um feixe de commentarios e recordações. Quanto ao pintor, que merece ser apreciado pelos vindouros, puz os olhos no futuro. Pelo que respeita a mim próprio, puz os olhos no passado, e abençoei a occasião que me fez recuar pelo enternecimento da saudade a uma época longínqua em que me foi dado colher da árvore da vida a doirada flor da ilusão.

De passagem no Porto, março de 1908.

FIM

Anexo - o texto completo de Alberto Pimentel


XIX
Outros tempos
(Quadro do pintor portuense António José da Costa) (1)

Ha dois annos, vindo eu ao Porto, tive occasião de visitar o atelier dos pintores António José da Costa e Júlio Costa — tio e sobrinho — na rua de Bellos Ares, recanto campestre da linda Avenida da Boavista.

(1) António José da Costa, natural do Porto, nasceu em 1840 na freguezia de Cedofeita. Filho de António José da Costa e Margarida Rosário da Costa. Matriculou-se na Academia Portuense de Bellas Artes em 1853, terminando o seu curso, que é de dez annos, em 1862. Conseguiu, portanto, vencer n'um anno dous. E no ultimo, quinto de pintura histórica, foi approvado com louvor.Na exposição internacional de 1865, no Palácio de Cristal do Porto, obteve com o bello retrato de seu pae menção honrosa, e depois em varias exposições de Lisboa e Porto tem sido honrado com medalhas de t erceira e segunda classe.

176

Levára-me ali, principalmente, o desejo de examinar uma téla, que deveria ser para mim alguma coisa mais do que uma obra d'arte — talvez uma sagrada e veneranda memoria do passado, se não falhassem as informações que me haviam fornecido. E o certo é que não falharam. Eu recebi d'esse quadro, apenas tocado em esboço, uma profunda impressão de ternura e saudade; revivi, deante d'elle, muitas horas felizes da infância e da juventude; contemplei insaciavelmente, n'um deleite de recordação longinqua, o Porto de outrora em seus aspectos e costumes genuinamente clássicos, pittorescamente ronceiros.
Este anno soube que o mesmo quadro estava exposto com outros n'um dos salões do Atheneu Commercial. Puz logo a maior diligencia em tornar a vel-o antes d'elle entrar definitivamente na posse da pessoa que o adquiriu: o sr. dr. Severiano da Silva. E por três ou quatro vezes, no espaço de uma semana, depois de sorrir affectuosamente ás deliciosas flores pintadas por António Costa, tão sinceras na sua expressão de frescura natural ; depois de repassar com interesse os retratos, tão flagrantes de verdade, a pastoral amorosa ou a casa minhota, de Júlio Costa, tão bem estudadas no desenho, no colorido e na pormenorisação, era sempre n'aquelle quadro de costumes portuenses que os meus olhos paravam, não para o examinar com intenções de critica artística, mas para me embeber n'elle plenamente pela emoção n'um longo e agridoce retrospecto de tempos idos.
O pretexto do quadro é a passagem do regimento de infantaria 18, porta-machados á frente, pela estreita

177

rua da Sovella, depois 16 de maio, e hoje dos Mártires da Liberdade.
Vem o regimento desembocando desta rua para a das Oliveiras e espelhando os seus metaes á luz viva do sol. Pessoas conhecidas no Porto d'aquella época — que remonta a quarenta annos de distancia pelo menos— detéem-se a observar esse espectáculo marcial, que tanto alvoroçava então, á falta de melhor, os transeuntes e moradores da cidade invicta e dormente. Na varanda do prédio, que separava as ruas da Sovella e do Coronel Pacheco, uma família assiste, ávida de sensações, á passagem do regimento. E o rapazio, atraído pela banda militar, enovela-se deante dos soldados ou tenta entricheirar-se com os «frades de pedra», que não sei ao certo se existiam ali n'esse tempo, mas que em todo o caso eram ainda vulgares nas ruas do Porto com o nome popular de «peões».
Actualmente o logar escolhido pelo artista, para dar a impressão de uma época distante, que é o seu principal intuito, não conserva exactamente o mesmo aspecto. Tem sido modernisado pelo camartello municipal. Comquanto a rua dos Mártires da Liberdade seja das menos modificadas, algumas alterações tem sofrido no trecho em que o quadro de António Costa nos faz assistir á passagem do regimento. O prédio, que situado entre aquella rua e a do Coronel Pacheco tinha o feitio de um ferro de brunir roupa, com o bico voltado para as Oliveiras, foi há annos demolido. Não resta d'elle senão a lembrança no espirito dos velhos.

178

Morou ali, durante largos annos, a família de um medico portuense, que o herdara dos seus antepassados.
Casa antiga, construída n'um tempo em que se não dava importância ao alinhamento dos prédios, tinha, é certo, uma apparencia irregular e defeituosa, mas era vasta no interior, e possuíra um amplo quintal, abundante de arvores, de flores e de agua. Parte d'este quintal — diziam memorias de família —fora expropriada para alargamento da velha rua do Mirante, que depois do cerco do Porto tomou o nome de rua do Coronel Pacheco, um dos cravos militares d'aquella época bellicosa. (1)
O nome — do Mirante — parece que viera de uma «casa de fresco», caramanchão diríamos hoje, que em mais remotas idades se erguia sobre o muro do quintal por aquelle lado. O largo das Oliveiras, formando uma encruzilhada pela confluência da rua d'este nome, da rua dos Mártires da Liberdade, da rua da Conceição e da viella do Açougue (hoje travessa de Cedofeita) apenas foi modificado pela largueza que modernamente se deu à embocadura da rua dos Mártires da Liberdade.
Mas quem me havia de dizer a mim, quando estudante, que pela rua das Oliveiras e pela rua do Coronel Pacheco havia de passar uma das mais concorridas linhas de viação eléctrica — a linha de Paranhos? Toda aquella região, comprehendida entre a praça

(1) José Joaquim Pacheco, uma das victimas da infeliz sortida da Areosa em 1833.

179

de Carlos Alberto e o Campo de Santo Ovidio, era, na época reproduzida pela tela do sr. António Costa, um burgo podre, quieto e repousado, excepto quando por ali passava o regimento de infantaria 18 ou quando, nos dias de feira, guapas maiatas e concomitantes maneis vinham em grupos bucólicos para o interior da cidade.
Tinha uma intensa côr local toda essa região portuense.
A praça de Carlos Alberto — que eu conheci com o nome de Feira das Caixas e de Praça dos Ferradores — fora um centro de actividade operaria, com lojas ruidosas de caixoteiros e de ferradores, relinchos de cavallos e golpes da martello sobre taboas de pinho. Ao occidente era limitada esta praça, como hoje, pelo edifício do hospital do Carmo, que foi inaugurado no principio do século XIX; e na correnteza de casas, comprehendida entre a rua de Cedofeita e a rua das Oliveiras, incluia-se a hospedaria do Peixe, onde o infeliz rei da Sardenha, Carlos Alberto, se alojou quando veio encontrar no Porto o mais amoravel acolhimento que ainda então sabia fazer-se a um rei exilado. Foi o edifício d'esta hospedaria que António José de Sousa Basto, depois visconde da Trindade, adquiriu, á volta do Brazil, para o reconstruir em palácio. Data de então a primeira modificação aristocratica da praça de Carlos Alberto, em contraste com os destinos plebeus da praça, onde durante muitos annos se realisou a feira annual dos moços e das moças n'uma violenta, mas pittoresca, agglomeração de serviçaes, de patrões, de estudantes da Academia em desfructe,

180

de limonadeiros, de vendilhões de fructa, de cães pilharengos e de burros parados.
Até á reconstrucção do palácio do visconde da Trindade, o melhor prédio da praça, defrontando com o hospital do Carmo, era o de Francisco de Assis da Silva Amaral, geralmente conhecido por «Capitão-mór da Raiva», e casado com uma senhora da opulenta família Pinto Basto. Este prédio conserva ainda hoje, porventura com leves alterações, o seu feitio primitivo. Junto á casa do Assis achava-se estabelecida a estação d’onde partiam as diligencias, estrondosas e poentas, que faziam a carreira entre o Porto e Vianna do Castello.
Mais abaixo, quasi em frente da sacristia da igreja do Carmo (Ordem Terceira), ficava a ancestral estalagem do «Leão d' Ouro», com os seus dois lanços de escada, abertos em arcos, como ainda hoje se pôde verificar. E á esquina, torneando para a praça dos Voluntários da Rainha, bifurcava-se a grande mercearia dos Penas — a mais acreditada do bairro. Hoje, d'este lado da praça, encontra-se ainda algum vestígio da vida archaica do Porto, mas, em compensação, o moderno commercio elegante já ahi penetrou por effeito de uma enxertia industrial que ha quarenta annos parecia difficil, se não impossível. Basta mencionar a «Confeitaria Oliveira», onde agora é servido o chá das cinco horas á boa roda do Porto.
O chá das cinco horas na Praça de Carlos Alberto! Quem m'o havia de dizer! O uso do chá generalisou-se no Porto por occasião das duas grandes epidemias do reinado de D. Pedro V. Até então era remédio para

181

compor o estornado ou, quando muito, bebida de grande cerimonia. Mas depois que foi adoptado como ceia inoffensiva, servia-se às 9 horas da noite, o mais tardar, nas melhores casas da cidade. Às cinco horas da tarde ninguém presumiria que pudesse tomar-se chá. Café, sim, depois do jantar; mas sem doces de coco ou de amêndoa, e cada um em sua casa, excepto os mundanos que iam tomal-o à Águia d’Ouro e ao Portuense (hoje Suisso) ou a gente de menos tomo aos botequins das Hortas, do Carmo e de S. Lazaro.
Estes últimos botequins eram os dilectos dos estudantes. Depois que o Guichard acabou, os políticos e os homens de leitras frequentavam o Águia d' Ouro e o Portuense.
Outra modificação da Praça de Carlos Alberto foi a abertura da rua transversal, que a liga com a do Moinho de Vento, agora Sá Noronha. (1)
Mas a maior de todas as suas modernisações, que nem sequer poderia lembrar como hipothese aos velhos portuenses, foi a construcção de um theatro no antigo jardim do visconde da Trindade. O' bellas almas puritanas de nossos pães e avós, crêde-o, se o podeis saber no outro mundo, e ainda que vos custe a crèl-o : funcciona um theatro authentico na rua das Oliveiras, onde tudo outrora era silencio e quietação depois de haver tocado na Sé o sino dos mariolas, chave sonora com que se fechavam morigeradamente as patuscadas nocturnas.

(1) Desde 1889, em memoria de ter este maestro habitado, por algum tempo, no prédio n.° 76.

182

Viera ha mais de meio século ao Porto um «teatro mechanico», e installou-se n'um barracão armado no meio da Praça de Carlos Alberto. Foram velo as tresentas pessoas que tiveram a coragem de sacrificar o rheumatismo á distracção. Outras tresentas pessoas fizeram-se representar pelos filhos e pelos criados. Os actores nem comiam nem bebiam, porque eram authomatos. Mas, ainda asssim, o empresário resolveu mudar de paiz, para não fallir. O Porto já não tinha mais gente theatravel.
Pois agora, além do theatro permanente da rua das Oliveiras, funccionam três animatógraphos nos arredores da Praça de Carlos Alberto: o «Salão Pathé», na rua de D. Carlos, o «Salão Chiado» na Galeria de Pariz e o «Salão High Life» na Cordoaria. Eu estou certamente a falar grego às bellas almas immoveis de nossos paes e avós. Ellas não sabem que a rua de D. Carlos communica a rua da Conceição com a Praça de Santa Thereza, e que os Ferros Velhos, de ferrugenta memoria, foram varridos em nome da civilisação para dar logar a uma galeria que se não sabe bem porque é de Pariz e, sobretudo, porque não é galeria. Talvez o futuro possa justificar um dia a pompa, aliás um pouco pretenciosa, do onomástico.
A transformação hodierna da Praça de Carlos Alberto completa-se não só pelos estabelecimentos de luxo, installados nos baixos do hospital do Carmo, mas também pelo ajardinamento da Praça, onde as flores municipaes desdobram agora um duplo tapete de côr e aroma sobre a memoria prosaica dos antigos ferradores e caixoteiros.

183

O largo do Coronel Pacheco, povoado de bons prédios, também se alindou de canteiros floridos, os quaes vantajosamente substituem as legiões de garotos, que antigamente jogavam ali a pedrada com o maior denodo guerreiro em absoluta impunidade. Tal é o aspecto actual do bairro, que o quadro de António Costa nos obriga a repor no antigo estado para que o possamos entender.
Do scenario de ha quarenta annos pouco resta no logar em que o pintor nos faz assistir á passagem do regimento, que vem marchando garbosamente peia rua da Sovella abaixo e obliquando militarmente para entrar na rua das Oliveiras. Este é, como disse, o pretexto do quadro, porque a intenção do artista foi marcar uma época, pondo em acção figuras e costumes que a sua memoria saudosa de bairrista lhe suggeriu fielmente.
Um dos pormenores mais característicos d'este interessante esboço — para mim duplamente interessante — é a resurreição pictural dos porta-machados que constituíam, com o tambor-mór, a vanguarda, belamente mavortica, dos regimentos portuguezes. Homens altos, musculosos e barbaçudos, elles foram destinados a abrir caminho, rompendo as multidões pelo terror e as trincheiras pelo machado; e pelo seu brilho decorativo levavam os corações das criadas de servir, que os admiravam das janellas, presos ternamente aos longos cabellos de suas barbas fluctuantes.
Eram a bem dizer um cataclismo culinário, porque no dia em que elles passassem, debaixo de forma, por uma rua da cidade, o jantar não prestava em nenhuma casa d'essa rua.

184

Sentia-se na falta ou no excesso de sal, na incúria da mão de tempero a funda perturbação que os porta-machados haviam produzido nos corações da cozinha. Creio que foi algum ministro da guerra gastrónomo que fez substituir esses imponentes soldadões de longa barba pelos modernos corpos de sapadores, sem aparato de equipamento, nem grandeza hercúlea. (1)
Posto isto, vamos à restante figuração do quadro de António Costa.
Por agora apenas quero dizer que o homem de óculos escuros, mãos apoiadas sobre a varanda de ferro, que assiste á passagem do regimento, no prédio que separava as ruas dos Martires da Liberdade e do Coronel Pacheco, era meu pae, antigo medico portuense. O artista reproduziu-o com inteira exactidão, tanto na expressão phisionomica, como no corte do fato, e na altitude observadora. E' um retrato perfeito, que eu muito agradeço ao sr. António Costa. E também são retratos, igualmente fieis, muitas das outras figuras do quadro: á direita, no plano da rua, Pedro de Amorim Vianna, por antonomásia o «Newton»; Francisco José Rezende, Manuel José Carneiro, João Correia, professores da Academia de Bellas Artes, e uma celebridade das ruas, o “José das Desgraças”, protagonista do romance Annel misterioso; á esquerda, presenceando o desfile do alto da sua “charrette”, o glorioso avô dos «sportmen» por-

(1) A verdade é que os porta-machados foram extinctos pelo artigo 248 do decreto de 30 de outubro de 1884, que reformou o nosso exercito.

185

tuenses, Ricardo de Glamouse Brown. Além d'estes retratos, que valorisam historicamente o quadro, foram pelo sr. António Cosia agrupados, no conjunto da figuração, diversos representantes anónimos de classes populares, algumas das quaes já o tempo supprimiu, como a velha de mantilha, que procura acalmar o neto espavorido com a presença dos porta-machados, e o “cadeirinha” de capote listrado e chapéu alto, já hoje precioso exemplar archeologico de uma classe morta ou pelo menos agonisante.
No seguinte capitulo individuaremos, mais especificadamente, todas as personagens do quadro do sr. António Costa, com rigorosa propriedade intitulado “Outros tempos”, porque n'elle revive toda uma época afastada, cujas pessoas e aspectos eu me habituei a venerar religiosamente.
Ha trinta e cinco annos que levei para outra cidade o meu domicilio e a minha família, mas o Porto nunca deixou de ser para mim uma terra sagrada — a terra em que viveram e morreram meus paes, e em que eu próprio nasci…no tempo em que o Porto era como o sr. António Costa o pintou.

II

À direita, o primeiro retrato é de Pedro d'Amorim Vianna, (1) cujo gesto habitual parece copiado por um

(1) Auctor da Defesa do racionalismo, que tanto deu que falar em 1866; e traductor das Memorias de Madame Lafarge (1874), versão recebida com severa critica por Camillo.


186

kodak. Segura o monóculo, observando, com o chapéu alto e branco enterrado sobre os hombros. Veste a velha sobrecasaca, desmazeladamente e gordurada de nódoas, que foi a unica de que usou no Porto. Não lhe falta a grossa bengala de canna da Índia, que regia seus passos leves mas serenos.
Amorim Vianna era um excêntrico, um noctívago, em conflicto permanente com todas as convenções sociaes. O cognome de «Newton» deram-lh’o em Coimbra, segundo se dizia, os seus professores e condiscípulos quando elle resolveu, na madeira de uma porta, certo problema transcendente posto a premio por não sei que universidade estrangeira. Mathematico, tinha recebido n'esse famoso baptismo escolar a consagração solemne, que o tornou conhecido e lendário para o resto da sua vida. Até o povo lhe chamava inconscientemente o «Newton», suppondo talvez que fosse uma alcunha vulgar.
Apenas se divulgaram os seus triumphos académicos e excentricidades anecdoticas, que perfeitamente condiziam com os longos silêncios, retraimento seismatico e desleixo no vestir, pelos quaes se collocava, numa independente aberração, fora dos hábitos normaes da vida social. Raros homens de lettras, que alguma vez o conversaram, diziam-n'o profundo em conhecimentos litterarios. O erudito José Gomes Monteiro havia-me contado que Amorim Vianna o encantara discorrendo sobre Goethe. Da sua naturalidade e filiação pouco eu tinha ouvido falar. Por isso foi grande a minha surpresa quando,

187

não o sabendo jubilado, o vi em Setubal passeando, com um livro aberto, no terraço de uma casa que faz ilharga á Praça de Bocage.
Affirmei-me n'elle por algum tempo. Não podia duvidar: era o Newton portuguez, posto que já minado pela doença, e mais limpo no fato. Vim então a saber que Pedro d'Amorim Vianna habitava ali em casa de seu irmão, despachante da alfandega, cujas filhas se haviam encarregado de o submetter carinhosamente a um regimen de maior higiene e asseio. Pela manhã, Amorim Vianna lia e passeava no terraço da casa. A' noite divagava na praia, ainda medidativo, comquanto menos inaccessivel á convivência do que no Porto. Apresentado por uma de suas sobrinhas, com elle conversei algumas tardes. Ouvi-o discorrer interessantemente sobre litteratura, em especial a allemã, e até sobre politica portugueza. Amorim Vianna tinha já falhas de memoria, e isso incommodava-o apopleticamente. Eu desviava logo o assumpto. Mas, no dia seguinte, era elle que de motu próprio vinha dizer-me na sua vozinha de pipia:
— Hontem esqueceu-me um nome, que pude verificar em casa. E' este.
Annos depois soube que Amorim Vianna residia em Lisboa, e não tornei a ter noticias delle senão quando os jornaes se referiram ao seu fallecimento no quartel do Carmo em casa de um oficial com quem estava aparentado.
A capital quasi não deu attenção á morte d'este

188

illustre mathematico, aliás tão celebre em duas cidades do norte: Coimbra e Porto.
Vamos agora ao grupo dos pintores.
Francisco José Rezende era um temperamento sanguíneo e arrebatado, cuja vocação artística parecia arder em si mesma devorando as suas próprias qualidades. Precipitava-se como Phaetonte n'um carro de fogo. Por isso a posteridade mal pode apreciar hoje o que elle tinha de artista pelo desequilíbrio das suas telas na composição, no desenho e no colorido. Homem robusto e impulsivo, envelheceu queimando-se. Vinha a pé de Santo Thirso, onde residia n'uma quinta, dar aula ao Porto na Academia de Bellas Artes, e no mesmo dia, com o mesmo vigor, regressava a Santo Thirso n'nm passo firme de peoneiro trenado.
Bom como amigo — e eu o posso dizer, sempre grato á sua memoria — era um adversário temível.
Rezende, no quadro do sr. António Gosta, deixa apreciar a forte corporatura que o avigorava. Por detraz da mulher de mantilha vê-se o seu busto erecto e varonil. O chapéu baixo, de aba larga, era o complemento obrigatório do seu trajo habitual de globetrotter.
Quasi a par de Rezende destaca-se a figura de Manuel José Carneiro, também professor da Academia de Bellas Artes. (1)
De estatura regular, seco mas rijo, usando óculos

(1) Nasceu em 1804 e falleceu era 1865. Regeu as cadeiras de desenho e architectura. Teixeira de Vasconcellos escreveu o Elogio Histórico d'este professor e conjuntamente o de Cunha Lima (1866).

189

de ouro e barba crescida, vestia fatos pretos e muito leves. Não foi era artista notável, mas era um professor dedicado — tão dedicado que se prestava a servir de modelo aos estudantes, como o provam dois quadros do museu de S. Lazaro. Também n'este museu ha alguns retratos seus a «crayon» e a óleo.
M. J. Carneiro possuia nobres qualidades de caracter. Foi sempre desvelado protector da viuva e filhas de um seu irmão. Moravam juntos na rua de Traz. O prédio tinha janellas para a calçada dos Clérigos. De uma d'essas janellas vi eu, sendo pequeno, el-rei D. Pedro V assistir, n'uma tribuna armada nas escadas da igreja, aos grandiosos festejos que, com tanto enthusiasmo, se realisaram, por occasião de uma das suas visitas ao Porto, n'aquella calçada, Praça Nova e rua de Santo António.
Esta zona central da cidade, tão graciosamente acidentada pelos seus declives e pelo valle intermédio, prestou-se a feéricos effeitos de illuminação.
Por sua parte o mallogrado rei accedeu aos desejos dos bons portuenses, prestando-se a que a multidão immensa pudesse passar por deante d'elle, desfilando, e contemplar a sua figura docemente melancólica, insinuantemente humilde e sonhadora.
Ah! como tudo isso já vai longe para mim e para os outros — até para os novos. . .

João António Correia completa, no quadro do sr. António Costa, o grupo dos pintores. Correia foi um notabilissimo professor de pintura. Trouxe de Pariz os últimos ideaes e processos da sua arte n'aquelle tempo. Accentuou uma profunda evolu

190

ção, que os estudantes receberam com surpresa e fervor.
Chamou principalmente a attenção dos discípulos para a alta importância do desenho na pintura. Modificou a technica, fez escola e patenteou nobremente a sua abnegação artística, deixando, sem despeito nem rivalidade, que os pintores educados por elle abraçassem a nova evolução produzida pelos trabalhos de Marques de Oliveira e Silva Porto. João Correia marca uma notável «étape» na historia do ensino da pintura no Porto; Marques de Oliveira e Silva Porto personificam a segunda «étape». São três nomes que os artistas portuenses devem abençoar.
João Correia, no quadro do sr. António Costa, é um retrato cuja similhança se pôde contraprovar por outro que d'este professor existe no museu de S. Lazaro. Resalta-lhe da cabeça a basta cabelleira que durante largos annos adoptaram os artistas e poetas do ciclo romântico. Guilherme Braga foi talvez o ultimo poeta portuense d'esse tempo que manteve a tradição da cabelleira ondulante, hoje substituída, na exteriorização de classe, pelo monóculo fixo.
Vizinho ao grupo dos pintores avulta o perfil do «José das Desgraças», José Maria da Graça Strech, que o povo reputava maníaco, e foi, na realidade, uma creatura atormentada pela amargura do destino.
Junto ao angulo do muro, entre-avista-se a fisionomia de outra individualidade muito popular então nas ruas do Porto, o Macron, pobre idiota, á custa do qual o rapazio se divertia açulandoo com ruidosas montarias.
A' esquerda a unica pessoa a que pôde ligar-se um nome de família é Ricardo Brown, a primeira mão de

191

rédea entre os sportmen e o primeiro figurino dos janotas portuenses d'esse tempo.
Foi elle que introduziu no Porto o uso do veston de yelludo, dos colletes, das gravatas e das luvas de côr flammante; bem como dos ligeiros vehiculos de passeio, a charrette por exemplo, que elle sabia guiar com elegante pericia. Foi também elle uma das primeiras pessoas que estabeleceram residência permanente na Foz. A sua casa, perto da Cantareira, tinha um só pavimento ao rés-do-chão, e no interior realçavam-n'a o conforto e o requinte de um vieux garçon em evidencia.
Morreu repentinamente depois de ter passado a noite no Club Portuense, e no testamento deixou galantes lembranças de amizade a todos os seus íntimos. Era surdo e cultivava a musica. Mas a sua principal funcção na sociedade portuense foi a de revoluciouar a toilette masculina e animar o sport por effeito da educação ingleza que tinha recebido.
Entre as figuras populares que o sr. António Costa recrutou para o seu quadro, contam-se, além da mulher de mantilha e do cadeirinha, de que já falei, o soldado invalido que fizera a campanha da liberdade, e se arrastava sobre os calhaus da rua mendigando; a vendilhona ambulante de giga á cabeça, a assadeira de castanhas, a varina, o gallego de sacco ao hombro, o petulante garoto portuense que em toda a Europa não encontra parallelo senão talvez no gamin de Pariz.
A maior parte d'estas personagens plebeas subsiste ainda, porque ellas representam industrias perpetuadas na tradição do paiz.

192

Mas o soldado da guerra civil, que as balas inimigas inutilisaram pela deformidade e pela invalidez, já desapareceu do numero dos vivos, e foi arrastando comsigo para os confins da Historia a misera lembrança da ingratidão da pátria.
Não quero fatigar o leitor fazendo-lhe a necrologia da antiga mantilha de lapim, esse commodo e recatado traje, que deu outrora á dama portuense um aspecto senhorilmente grave e discreto. (1)
Era um vestígio do bioco mourisco, ainda hoje não de todo extincto em algumas terras do sul e nos Açores. Mas, em confronto com os audaciosos turbantes emplumados, que as portuguezas usam actualmente, confesso com franqueza que tenho saudades da mantilha — como se ella houvesse sido o pudor da mulher na belleza e na modéstia.
Outros tempos foram esses, e outros tempos é o titulo que o sr. António Gosta adoptou para a sua tela.
Era natural que já hoje, ou quando muito d'aqui a uma dezena de annos, o quadro que tentei descrever não pudesse ser facilmente interpretado por quem tivesse occasião de observal-o.
Reuni n'estas paginas um feixe de commentarios e recordações. Quanto ao pintor, que merece ser apreciado pelos vindouros, puz os olhos no futuro. Pelo que respeita a mim próprio, puz os olhos no passado,

(1) A mantilha portuense foi um assumpto litterario. Ao desterro das mantilhas, folheto que lhes era adverso, respondeu Mesquita e Mello com outro opúsculo, A defeza das mantilhas (1821)

193

e abençoei a occasião que me fez recuar pelo enternecimento da saudade a uma época longínqua em que me foi dado colher da arvore da vida a doirada flor da illusão.

De passagem no Porto, março de 1908.
































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































































Sem comentários:

Enviar um comentário