Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















sexta-feira, 6 de abril de 2018

O Porto através de uma Panorâmica de c. 1870 11


ap1compfig. 1 - Autor não identificado  Panorâmica do Porto c. 1870 (originais em vidro do Museu Nacional de Soares dos Reis Porto) cópia cedida por gentileza do arquitecto Manuel Magalhães.

Um percurso - com diacrónicas derivas na zona da praça de Carlos Alberto - a partir de um texto de Alberto Pimentel sobre uma pintura de António José da Costa 2

Continuação do percurso a partir do texto de Alberto Pimentel Outros tempos (Quadro do pintor portuense António José da Costa)  publicado no seu livro Fitas de Animatographo.


A Feira das Caixas e a Feira dos criados de lavoura e das criadas de servir.

A Feira das Caixas é assim conhecida pelo facto de numa das tendas de marceneiros que nela havia se confeccionarem as bagageiras utilizadas pelos emigrantes que se dirigiam ao Brasil.

Mas era aqui que então se realizava a "feira dos criados de lavoura e das criadas de servir", que acontecia inicialmente na Praça da Corujeira. Em 1876 foi então transferida da praça de Carlos Alberto para a rotunda da Boavista.

F. G. da Fonseca no seu Guia Histórico do Viajante no Porto e Arrabaldes caracteriza assim a praça de Carlos Alberto:

Um pouco extensa, mas irregular, é esta praça, que ainda não ha muitos annos se denominava dos Ferradores, ou Feira das caixas. É aqui, que em todas as terças feiras do mez de abril se faz a original feira dos criados, onde os lavradores suburbanos vem ajustar os criados para o serviço domestico e da lavoura. Os ajustes são curiosos, e dão logar a galantes episódios. [1]

E em 1865 João António Peres Abreu no seu Roteiro do Viajante, também referia a Feira dos criados que então aí se realizava.

A praça de Carlos Alberto, que sempre é agradavel, torna-se o mais interessante possível em todas as terças feiras do mez de abril, dias em que se faz alli um mercado sui generis.

Ao "viajante que estiver no Porto em qualquer d'aquelles dias, recommendamos que vá áquella praça assistir á feira dos criados e criadas, e verá o ar de festa e arraial com que se compram e vendem serviços por um dado tempo. [2]

Finalmente Pinho Leal no Portugal Antigo e Moderno acrescenta sobre a Feira de creados:

Ha no Porto duas feiras de creados e creadas, em cada anno. Os que se ajustam para os trabalhos do verão, fazem a sua feira em todas as terças feiras d'abril— e os que se ajustam para o inverno, nas terças feiras de novembro.

Esta feira fez-se de tempos immemoriaes, no largo da Feira das Caixas, ou dos Ferradores — hoje praça de Carlos Alberto.

Por determinação da camara municipal, de 1876, foi designada para logar d'esta feira, a Rotunda (agora chamada Praça da Boavista.) [3]


[1] F.G. da Fonseca, Guia Histórico do Viajante no porto e Arrabaldes. Livraria e Typographia de F. G. da Fonseca Editor rua do Bomjardim 72. Porto 1864 (pág.166 e 167).

[2] João António Peres Abreu, Roteiro do Viajante no Continente e nos Caminhos de Ferro de Portugal em 1865. Imprensa da Universidade Coimbra 1865. (pág.119).

[3] Pinho Leal (1816-1884), Portugal Antigo e Moderno, Livraria Editora de Mattos Moreira & Companhia, Praça de D. Pedro 68, Lisboa 1873 a 1890. (VII Volume 1875, pág.389).



A frente oriental da praça de Carlos Alberto

ap113acompfig. 39 – A frente oriental da praça de Carlos Alberto nos finais do século XX.

ap133afig. 40 – Planta da praça de Carlos Alberto no século XX.


As frentes da Praça de Carlos Alberto, exceptuando o palacete Balsemão, correspondem a um parcelar característico do Porto do século XIX, e que se caracteriza pela chamada parcela estreita. Nestas eram edificados prédios de dois a cinco pisos, com uma frente de reduzidas dimensões, onde na fachada se abrem duas ou três janelas e no piso térreo normalmente se instalava um estabelecimento comercial.

E se hoje este parcelar e este edificado são considerados como fazendo parte da personalidade do Porto eram, na época do “Progresso”, criticados como retrógrados.

Por isso Júlio César Machado descreve ironicamente estas edificações:

Vou ter tantas ocasiões de dizer do Porto mil coisas agradáveis e sinceras, que posso atrever-me a principiar por uma que é sincera sem ser agradável: os prédios, pela maior parte, são absurdos; absurdos lhes chamo, e é o menos que posso chamar-lhes, tão feias e irregulares são aquellas habitações esguias, de três janelas cada uma, e de quaro e cinco andares, o que dá vontade de perguntar a um inquilino:

- O senhor mora nessa tira?

Em vez de O senhor mora nessa casa? [1]


No seu texto Alberto Pimentel aponta de seguida alguns edifícios desta frente oriental começando pelo prédio do Capitão-mor da Raiva:

Até á reconstrucção do palácio do visconde da Trindade, o melhor prédio da praça, defrontando com o hospital do Carmo, era o de Francisco de Assis da Silva Amaral, geralmente conhecido por «Capitão-mor da Raiva», e casado com uma senhora da opulenta família Pinto Basto.

ap42bcompfig. 41 - Foto de Domingos Alvão onde se destacou a casa que provavelmente pertenceu a Francisco Assis da Silva Capitão-Mor da Raiva.


Este prédio conserva ainda hoje, porventura com leves alterações, o seu feitio primitivo.

Junto á casa do Assis achava-se estabelecida a estação d’onde partiam as diligencias, estrondosas e poentas, que faziam a carreira entre o Porto e Vianna do Castello.


Neste edifício - já em 1927 - Albino Gonçalves Jorge, proprietário, residente na praça de Carlos Alberto, n.os 88-89, requer construir um restaurante e café,…segundo um projecto de Manoel da Silva Moreira, mestre-de-obras.

Aí se instalou o Restaurante Carlos Alberto.

ap106fig. 42 – O Edifício onde esteve instalado o Restaurante Carlos Alberto e o edifício do Café Luso em 1980. AHMP.

No prédio vizinho estava instalado o conhecido Café Luso, onde Humberto Delgado teve ainda em 1958 a sede da sua revolucionária candidatura.

Actualmente neste edifício e no vizinho n.91, remodelados pela Porto Vivo SRU, encontra-se o Café Luso, ocupando agora os dois emparceirados rés-do-chão.

fig. 43 – Os edifícios onde se encontra instalado o recuperado Café Luso em Março 2018.



As Estafetas

A Estafeta era um serviço de transporte das malas postais entre diversas localidades. Este serviço era realizado por diversos meios de transporte desde o cavalo, a carruagem, o barco, mas sobretudo pelo serviço da mala-posta. Com o aparecimento e o desenvolvimento do caminho-de-ferro, este tornou-se o principal meio de transporte das encomendas postais.

Ainda no período anterior ao caminho-de-ferro o serviço de Estafetas do Porto para o norte do país estava localizado na praça de Carlos Alberto.

F. G. da Fonseca no seu Guia Histórico do Viajante no Porto e Arrabaldes caracteriza assim a praça:

Do norte e nascente é limitada por uma linha de bem construidas casas, nas quaes estão estabelecidas algumas hospedarias, e os estafetas para Vianna e Valença. [2]

E em 1865 João António Peres Abreu no seu Roteiro do Viajante, salientava a característica da praça como local de partida e chegada de transportes refere que aqui se localizam as Estafetas - De Vianna do Castello, Caminha, Valença do Minho. Monção e Tuy (em Hespanha): chegam á praça de Carlos Alberto, n.º 85 e 97, às segundas, quartas e sabbados, e partem nos mesmos dias. [3]

Finalmente Francisco Ferreira Barbosa no seu Elucidario do Viajante no Porto de 1864 refere as Estafetas Para Vianna, Caminha, Valença, Monsão e Tuy, precisando os nomes e a localização das companhias:

João Branco... Praça de Carlos Alberto 97

Manuel Antunes idem 87

João das Neves idem 85

Chegam nas segundas, quartas-feiras e sabbados, e partem nos mesmos dias. [4]


Na planta seguinte estão localizadas (aproximadamente já que os números das casas foram variando com abertura de portas) as Estafetas que partiam da praça de Carlos Alberto nos meados do século XIX.

ap32compfig. 44 – Localização do serviço de Estafetas na praça de Carlos Alberto.


No nº 84 também esteve instalado o Hotel Clarense.

No nº 85 esteve recentemente instalada uma confeitaria agora encerrada.

No nº86 instalou-se em 1929 a conhecida Manteigaria Vianeza (de Ferreira Leite & C.ª) segundo um projecto do eng. Joaquim Mendes Jorge, cuja ffachada foi demolida nos anos 60.

ap56compfig. 45 – Fachada de A Vianeza em 1929, in Luís Aguiar Branco Lojas do Porto, vol.1. Edições Afrontamento 2009.

ap57compfig. 46 – Publicidade dea Manteigaria Vianeza, in Luís Aguiar Branco Lojas do Porto, vol. 1. Edições Afrontamento 2009.

ap58compfig. 47 – Uma factura da Manteigaria Vianeza. Delcamp.


ap42compfig. 48 – Foto Alvão.


ap42acompfig. 49 – Ao centro o prédio onde se instalou a Manteigaria Vianeza. Pormenor da foto anterior.



fig. 50 - Os números de 84 a 86 na praça de Carlos Alberto. Março de 2018.


No n.º 87 onde actualmente está instalado o Zenith Brunch & Coktails esteve instalado nos anos 20 um restaurante de José Pereira & Gonçalo Calisto, Lda. O prédio foi alterado em 1943.

fig. 51 - O n.º 87 da praça de Carlos Alberto. Março de 2018.


O nº 97 tornou-se o prédio da esquina quando foi aberta a travessa de Sá Noronha (hoje rua do actor João Guedes).

ap43compfig. 52 –Planta onde está projectada a abertura da rua que une a praça de Carlos Alberto com o Largo do moinho de Vento. Approvada em Camara a 12 de Abril de 1855.


Em 1928 para o n.º97 é requerida a abertura de uma montra e outras beneficiações da fachada por Albino de Almeida segundo um projecto do mestre-de-obras António Domingues Faria dos Santos.

ap42compfig. 53 - Foto Alvão. O prédio da esquina da praça de Carlos Alberto com a rua do actor João Guedes.

Actualmente encontra-se aí instalada a Loja das Malhas.

fig. 54 – O prédio da esquina da praça de Carlos Alberto com a rua do actor João Guedes em Março de 2018.


[1] Júlio Cesar Machado (1835-1890), Recordações do Porto in Scenas da minha terra, Editor José Maria Correa Seabra, rua dos Calafates, 110. Lisboa 1862.(pág. 146 e 147).

[2] F.G. da Fonseca, Guia Histórico do Viajante no porto e Arrabaldes. Livraria e Typographia de F. G. da Fonseca Editor rua do Bomjardim 72. Porto 1864 (pág.166 e 167).

[3] João António Peres Abreu, Roteiro do Viajante no Continente e nos Caminhos de Ferro de Portugal em 1865. Imprensa da Universidade Coimbra 1865. (pág.119).

[4] Francisco Ferreira Barbosa, Elucidario do Viajante no Porto. Imprensa da Universidade Coimbra 1864. (pág.116).


As Hospedarias, Estalagens e Hotéis

Prossegue Alberto Pimentel descrevendo a praça de Carlos Alberto.

Mais abaixo, quasi em frente da sacristia da igreja do Carmo (Ordem Terceira), ficava a ancestral estalagem do «Leão d' Ouro», com os seus dois lanços de escada, abertos em arcos, como ainda hoje se pôde verificar.

E o próprio Alberto Pimentel em 1877, no seu Guia do Viajante no Porto e Arrabaldes Arredores situava O Hotel Leão d'Ouro, no n.º124 da praça de Carlos Alberto, precisando que tinha uma Diaria 800—1:000 rs. [1]

ap33compfig. 55 – A localização da estalagem Leão d’Ouro.


Eça de Queiroz (1845-1900) em A Capital (publicado em 1925 mas escrito em 1877), também refere a estalagem Leão d’Ouro:

Houve risadas, a porta fechou-se bruscamente. Artur foi subindo devagar. Viera-lhe uma recordação de quando era pequeno e estivera um Verão no Porto, com seu pai, na estalagem do Leão d’Ouro. Pelas tardes quentes do domingo, cheias de pó, o creado levava-o a uma horta, para os lados da Lapa: comiam tremoços ao pé d’um faval, onde sussurrava a água das regas, e iam ver os gallegos dançar debaixo do parreiral, ao som da gaita-de-folles que fazia

mui-ñe-ra! mu-i-ñe-ra! Depois a caneca de vinho verde passava em redor; sentiam-se ao lado os pah! seccos do jogo da bola; então uma gallega erguia-se, e com as tranças loiras cahidas sobre o collete escarlate, os braços abertos, punha-se a girar devagar ao churre-churre dos pandeiros! — Há quanto tempo isso fôra! [2]

E a estalagem (hotel) Leão d’Ouro figurava nos guias e publicações anteriores da época da realização no Palácio de Cristal da Exposição Internacional como no Elucidário do Viajante do Porto de 1864 de Francisco Ferreira Barbosa onde é referido o Hotel Leão d'Ouro. Na praça de Carlos Alberto, de 600 a 800 réis por dia. [3]

E José Augusto Vieira, em O Minho Pittoresco, ao referir diversos hotéis na cidade do Porto onde poisa a burguezia modesta da província, o brazileiro que regressou do novo mundo e vem terminar ociosamente os seus dias na cidade invicta, visitando uma vez, por outra, a sua aldeia natal, o commissario das casas commerciaes, o funccionario transferido, etc. Salienta contudo que entre os hotéis onde se hospedam os brazileiros endinheirados, hospedes permanentes, com guardanapo numerado, e que não comem sem ter diante do prato a garrafinha de agua de Vidago ou Pedras Salgadas se encontra o Leão d’ Ouro, á Praça de Carlos Alberto, entre os que teem o privilegio dos brazileiros de raça. [4]

Se a numeração se tiver mantido, o Hotel Leão d’Ouro situava-se no edifício que confronta a norte com o actual centro comercial e onde até há pouco tempo esteve instalada a Fundação Dr. Luís Araújo, Instituto das Artes e Ciências.

Embora não tenha já directamente a ver com o texto referimos que em 13 de Junho de 1931 em requerimento dirigido à Câmara Municipal Joaquim Nogueira, morador na R. das Carmelitas n.º166, desejando transformar a frente do prédio que possue na Praça Carlos Alberto n.º114 a 116, conforme o projecto junto, pede a V.Exc., se digne mandar passar a respectiva licença.

O projecto está assinado pelo engenheiro e arquitecto Júlio José de Brito (1896-1965).

ap34afig. 56 – A assinatura de Júlio José de Brito no projecto. AHMP.



ap34compfig. 57 – A implantação do projecto de Júlio de Brito. AHMP.



ap35fig. 58 – Projecto a que se refere o Requerimento de Joaquim Nogueira. 1931. AHMP.


O projecto com pormenores art-déco revela como nos anos 20 e 30 do século passado os arquitectos quer no desenho das fachadas quer nos interiores dos estabelecimentos comerciais utilizar os novos materiais, um novo lettering e novos pormenores, procurando assim ensaiar uma linguagem moderna ou modernizante, que iriam utilizar em obras de arquitectura de outra dimensão.

Neste prédio em 1970 estava ainda instalada a Leitaria Invicta.


ap36fig. 59 - Anúncio da Leitaria Invicta in Fitados de Letras. Queima das Fitas da Universidade do Porto. 1970.



ap37compfig. 60 – O prédio em Março 2018.


Embora posterior ao texto de Alberto Pimentel cumpre aqui referenciar, pela sua interessante e bem conservada fachada, o edifício situado na praça de Carlos Alberto próximo da entrada da rua das Oliveiras, da Companhia União de Crédito Popular fundada em 1875.

ap145afig. 61 – Localização do edifício da Companhia União de Crédito Popular.


Em 1917 a Companhia União de Crédito Popular desejando mandar modificar a fachada principal do seu prédio em reconstrução na Praça de Carlos Alberto n.º79… apresenta um projecto que foi Aprovado em Sessão de Câmara de 19 de Abril de 1914.

ap144fig. 62 – Projecto para a modificação da fachada do prédio n.º 77 a 79 da Praça de Carlos Alberto pertencente à Companhia União de Crédito Popular. 1914. AHMP.



ap132fig. 63 – O edifício na actualidade.



O edifício de esquina das praças de Carlos Alberto e dos Leões

Alberto Pimentel no seu texto prossegue a descrição da praça de Carlos Alberto agora recheada de estabelecimentos comerciais referindo que á esquina, torneando para a praça dos Voluntários da Rainha, bifurcava-se a grande mercearia dos Penas — a mais acreditada do bairro.

Na esquina das praças dos Leões (dos Voluntários da Rainha, da Universidade e de Gomes Teixeira) e de Carlos Alberto a casa brasonada setecentista, que apresenta no cunhal do edifício a pedra de armas, pertenceu à família Moreira Couto, tendo sido mandada erigir, muito possivelmente, pelo Dr. Bartolomeu Moreira do Couto, advogado da Relação do Porto e oficial do Santo Ofício, que em 1739 desposou D. Antónia Josefa Caetana de Oliveira Pinto, da Quinta do Outeiro, de Fonte de Arcada. [5].

Em 1872 Francisco Pinto Henriques requer à Câmara que no seu edifício que faz cunhal da praça de Carlos Alberto com a Praça dos Voluntários da Rainha a abertura neste lado de três portas assinaladas no alçado com a letra X. O projecto é assinado pelo conhecido engenheiro Gustavo Adolfo Alves de Souza (1818-1899).

ap44compfig. 64 –Alçado voltado à praça dos Voluntários da Rainha. Approvado, e ficam prohibidas…Porto em Camara 29 de Fevereiro de 1872. AHMP.

ap47compfig. 65 -  Localização do edifício da esquina do praça de Carlos Alberto com a praça dos Leões.


Em 1920 Cruz e Dias com estabelecimento na Praça de Carlos Alberto n.ºs 129 a 131, com angulo para a praça da Universidade nºs 1 a 7, requer a construção de uma devanture, como então se dizia, na frente voltada para a Praça de Carlos Alberto em conformidade com a indicação a carmim no projecto junto.

Em 1925 o Estabelecimento de Camisaria e Fazendas de Cruz e Dias situado na Praça de Carlos Alberto, 129 e 130 e na Praça de Gomes Teixeira 1 a 7 requer pintar a fachada.

Em 1939 é o arquitecto Manoel Marques (1890-1956) que assina um requerimento e um projecto onde Dias & C.ª, Limitada, da Praça de Gômes Teixeira, nº. 1 a 7 desta cidade desejando transformar o estabelecimento do prédio situado no angulo da referida Praça e Praça de Carlos Alberto, transformação feita de acordo com o projecto e memoria descritiva junta…

E na Memória Descritiva, o arquitecto especifica que …Na fachada voltada à Praça Carlos Alberto, pretende-se fazer duas vitrines, para o que se coloca um pilar no género dos da fachada que dá para a Praça Gômes Teixeira…


ap45compfig. 66 – A implantação do projecto de Manoel Marques de 1939. AHMP.



ap46fig. 67 – Fotografia que acompanha o projecto de 1939. AHMP.


ap48compfig. 68 – O edifício fotografado por Teófilo Rego em 1958. AHMP.

Na foto seguinte do Plano Regulador (1947-1952) de Antão Almeida Garrett (1896-1978), podemos observa os edifícios da frente nascente da praça de Carlos Alberto que virão a ser demolidos para a construção do Centro Comercial.

ap64compfig. 69 - A praça de Carlos Alberto c. 1948.

Foto do Plano Regulador de Antão de Almeida Garrett.


fig. 70 – A frente do edifício voltada para a praça de Carlos Alberto em Março 2018.


[1] Alberto Pimentel Guia do Viajante na Cidade do Porto e seus Arrabaldes, Palacio de Crystal livraria Central de J. E. da Costa Mesquita Editor, Rua de D. Pedro 87, Porto 1877. (pág. 67).

[2] Eça de Queiroz (1845-1900), A Capital (começos de uma carreira). Escrito em 1877. Terceira Edição. Livraria Chardron, de Lello & Irmão, L.da. Editores. Rua das Carmelitas, 144. Aillaud e Bertrand – Lisboa-Paris. Porto 1926. (pág.164).

[3] Francisco Ferreira Barbosa Elucidario do Viajante no Porto. Imprensa da Universidade Coimbra 1864. (pág.102).

[4] José Augusto Vieira, em O Minho Pittoresco, Livraria de António Maria Pereira Editor, rua Augusta 52, Lisboa 1887. (Tomo II, pág.707).

[5] Fonte: “sigarra.up.pt


A confeitaria Oliveira

E prossegue o autor de Fitas de Animatographo, destacando entre os estabelecimentos comerciais a Confeitaria Oliveira.

Hoje, d'este lado da praça, encontra-se ainda algum vestígio da vida archaica do Porto, mas, em compensação, o moderno commercio elegante já ahi penetrou por effeito de uma enxertia industrial que ha quarenta annos parecia difficil, se não impossível.

Basta mencionar a «Confeitaria Oliveira», onde agora é servido o chá das cinco horas á boa moda do Porto.

O chá das cinco horas na Praça de Carlos Alberto! Quem m'o havia de dizer!

Na fotografia está ao centro a Confeitaria Oliveira (de José Manoel d’ Oliveira) 105 a 107, sendo que no prédio vizinho a norte o estabelecimento  Vinhos da Companhia 102 a 104 (hoje, nesta provinciana moda dos nomes em inglês, o Moustache Coffee House).

E a sul no n.º 109 e 110, o Hotel da Boa Esperança (antigo Hotel Esperança) e a Casa Saldanha, confeitaria e mercearia.


ap66fig. 71 – A Confeitaria Oliveira no início do século XX. AHMP.


ap59compfig. 72 – A localização da Confeitaria Oliveira.


Em 12 de Dezembro de 1906 é formulado o pedido para a colocação de uma pala na entrada e de uma esplanada:

Diz Jozé Miguel d’Oliveira, que deseja colocar na frontaria do seu prédio, da Praça de Carlos Alberto n.os 105 a 107, uma marquise, conforme o desenho junto e ao mesmo tempo ocupar metade do passeio em frente do seu estabelecimento para a colocação de mezas e cadeiras, nas melhores condicções d’asseio e luxo, conforme se usa em todas as cidades do mundo,…

ap67bcompfig. 73 – Desenho da marquise e esplanada. Licença de Obra n.º 62/1907. AHMP.


O edifício da Confeitaria Oliveira na actualidade (pizzeria Mr. Pizza).

fig. 74 – O edifício da praça de Carlos Alberto em Março de 2018.


Mais Hotéis

No seu Guia do Viajante Alberto Pimentel refere os hotéis da praça de Carlos Alberto:
Os hoteis de que fallamos são os seguintes:
Boa Esperança, praça de Carlos Alberto, 116.
Hotel da viuva de Bento José Pereira, praça de Carlos Alberto, 98.
Leão d'Ouro, idem, 124. Diaria 800—1:000 rs.
Lusitania, idem, 103. 
[1]


ap50compfig. 75 – Localização dos hotéis referidos por Alberto Pimentel no Guia do Viajante.

Legenda
1 - Hotel da viuva de Bento José Pereira, praça de Carlos Alberto, 98.
2 - Hotel Lusitania, idem, 103.
3 – Hotel Boa Esperança, praça de Carlos Alberto, 116.
4 - Hotel Leão d'Ouro, idem, 124.


O Hotel da Boa Esperança - como se afirmou - estava situado no n.º116 da praça de Carlos Alberto no prédio vizinho da Confeitaria Oliveira tendo no rés-do-chão a Casa Saldanha confeitaria e mercearia, de Joaquim António Pinto.

A fotografia já aqui reproduzida.

ap66bcompfig. 76 – O Hotel da Boa Esperança e a Casa Saldanha no prédio vizinho da Confeitaria Oliveira. AHMP.


Ainda nos hotéis situados na praça de Carlos Alberto F. G. Fonseca no seu Guia aponta ainda o hotel Clarense na Praça de Carlos Alberto n.º 84 e o Hotel do Commercio idem n.º92.

ap51compfig. 77 – A localização do Hotel Clarense e do Hotel do Commercio.

Legenda: 1 – Hotel Clarense Praça de Carlos Alberto n.º 84 2 - Hotel do Commercio no n.º92.


O chá e o café

Depois Alberto Pimentel refere-se ao hábito do chá no Porto, referindo os botequins onde, preferencialmente, se tomava café.

O uso do chá generalisou-se no Porto por occasião das duas grandes epidemias do reinado de D. Pedro V. Até então era remédio para compor o estornado ou, quando muito, bebida de grande cerimónia. Mas depois que foi adoptado como ceia inoffensiva, servia-se às 9 horas da noite, o mais tardar, nas melhores casas da cidade. Às cinco horas da tarde ninguém presumiria que pudesse tomar-se chá.

ap52compfig. 78 – Columbano Bordalo Pinheiro (1857 -1929), A Chávena de Chá 1898. Óleo sobre madeira. 26 × 34 cm. MNAC, Museu do Chiado.

Café, sim, depois do jantar; mas sem doces de coco ou de amêndoa, e cada um em sua casa, excepto os mundanos que iam tomal-o à Águia d’Ouro e ao Portuense (hoje Suisso) ou a gente de menos tomo aos botequins das Hortas, do Carmo e de S. Lazaro.

Estes últimos botequins eram os dilectos dos estudantes.

Depois que o Guichard acabou, os políticos e os homens de lettras frequentavam o Águia d' Ouro e o Portuense.

ap53fig. 79 - Paul Victor Jules Signac (1863-1935). Café da Manhã 1887, óleo s/tela89 x 115 cm. Museu Kröller-Müller Otterlo Holanda.


Sobre o Guichard é o próprio Alberto Pimentel que em O Romance do Romancista. Vida de Camillo Castello Branco escreve:

O Caffé Gichard, tantas vezes citado nos romances de Camillo, era então o foco de todas as intrigas elegantes e de toda a vida litteraria do Porto. (*)

Camillo frequentava assiduamente o Gidchard.

(*) Nota de Alberto Pimentel: No romance O sangue, Custodia da Porciuncula refere-se ao Caffé Guichard, o paradeiro habitual dos janotas portuenses: “D'ali a pouco fui ouvir outra missinha aos Congregados, e quando saía para ir resar aos Clérigos vi o tal Guimarães á porta de um botiquim que está nos baixos dos frades, sim dos frades que lá estavam quando havia religião, e estava elle no meio de outros a ler um papel, e os outros a dar gargalhadas.»

O botiquim ficava nos baixos do convento dos Congregados de S. Filippe Nery, esquina da Praça Nova. [2]

E o texto é acompanhado pela conhecida gravura do Antigo Caffé Guichard.

ap54compfig. 80 - Antigo Caffé Guichard, no Porto (Na 3.ª, 4.ª e 5.ª portas, a contar da esquina do predio). Gravura in Alberto Pimentel O Romance do Romancista. Vida de Camillo Castello Branco.


ap55compfig. 81 - Café Aguia d’Ouro. Postal do Carnaval de 1905. Foto Guedes.


A praça de Carlos Alberto no início do século XX

Alberto Pimentel refere então a abertura da Travessa de Sá Noronha (hoje rua do Actor João Guedes) já aqui referida.

Outra modificação da Praça de Carlos Alberto foi a abertura da rua transversal, que a liga com a do Moinho de Vento, agora Sá Noronha. (*)

(*) Nota de A.P. Desde 1889, em memoria de ter este maestro habitado, por algum tempo, no prédio n.° 76.


Nesta fotografia podemos ver a praça de Carlos Alberto sensivelmente na época do escrito de Alberto Pimentel de 1908.

ap31compfig. 82 – A praça de Carlos Alberto vista do sul, c.1908.

Repare-se:

- Na circulação dos fiacres e outras carruagens;

- Nos trilhos do americano um dos quais surge na entrada da rua das Oliveiras;

- Na ocupação comercial do rés-do-chão do palacete Balsemão com toldo e tabuleta;

- Na arborização e no mobiliário urbano, em que se destaca o poste de iluminação com publicidade e bebedouro, o marco do correio e o quiosque.


O mobiliário urbano na praça de Carlos Alberto

ap31afig. 83 – Pormenor de postal onde se vê o mobiliário urbano 1910.


O Candeeiro, bebedouro e painel publicitário.

Existiu no eixo da praça um candeeiro e bebedouro em ferro fundido aqui colocado pela Sociedade Protectora dos Animais como se lia no painel publicitário que possuía. Para além de cumprir a função de iluminação pública na sua coluna tinha duas taças de diferentes alturas, para cavalos e para cães.

Este bebedouro está reconstruído no Parque dos SMAS na rua do Barão de Nova Cintra.


ap31cfig. 84 – Pormenor de postal do início do século XX.

ap42abfig. 85 – Pormenor de foto de Domingos Alvão.

ap31dfig. 86 -  O candeeiro/bebedouro no parque dos SMAS.


O Quiosque

A praça de Carlos Alberto chegou a ter dois Quiosques de jornais de planta quadrada.

ap120cfig. 87 -  Os dois quiosques da praça de Carlos Alberto.

Ainda existe um quiosque semelhante em Coimbra.

ap70compfig. 88 - Foto em Clube Património http://clubepatrimonio.blogs.sapo.pt/13721.html


O quiosque que actualmente se encontra na praça de Carlos Alberto é de tipo diferente e encontrava-se no Largo da Ramadinha em S. Lázaro. Foi aqui colocado em 2002/o3 durante a recuperação da praça então esventrada pela construção do parque de estacionamento.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAfig. 90 – Quiosque que se encontrava no Largo da Ramadinha.


O quiosque do Largo da Ramadinha tema de uma aguarela de António Cruz (1907-1983).

ap71compfig. 91 - António Cruz, Largo da Ramadinha 1941. Aguarela In Catálogo da Exposição António Cruz 1907-2007 no Museu Nacional Soares dos Reis de 14 de Dezenbro de 2007 a 31 de Janeiro de 2008.



[1] Alberto Pimentel, Guia do Viajante na Cidade do Porto e seus Arrabaldes, Palacio de Crystal livraria Central de J. E. da Costa Mesquita Editor, Rua de D. Pedro 87, Porto 1877. (pág.67).

[2] Alberto Pimentel, O Romance do Romancista. Vida de Camillo Castello Branco. Edição largamente ilustrada. Empreza Editora de Francisco Pastor, rua do Ouro, 210. Lisboa 1890. (pág. 153).


CONTINUA

Ainda na I Parte do Texto de Alberto Pimentel


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António (Augusto de Melo Lucena e) Quadros (1933-1994)

Quando o Sol só prenúncio traz música ao coração dos pássaros.

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