Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















segunda-feira, 25 de junho de 2018

Apontamentos um pouco dispersos sobre Arquitectura e Desenho. 2


Algumas reflexões sobre desenhos e obras de Álvaro Siza e de Le Corbusier percorrendo os seus escritos .

I I parte 12 a 23.


12. Os cadernos e os desenhos de viagem

E para a prática ou exercício do Desenho, retoma-se ou continua-se a antiquíssima tradição dos cadernos de viajem, procurando a essência, o ambiente, a poesia e a beleza do espaço e das gentes que os habitam.
Viaja-se desenhando para outras paisagens, outras cidades, outros lugares, novos horizontes, e guarda-se nesses desenhos e nessas anotações escritas, o que aprendemos [e que] reaparece, dissolvido nos riscos que depois traçamos, como escreve Álvaro Siza.

E Álvaro Siza lembra como em Le Corbusier desperta - ao projectar Ronchamp - a influência do conhecimento e do contacto com a arquitectura árabe.
Quando Le Corbusier desenha Ronchamp despertam talvez no seu subconsciente imagens de alguma viagem ao Norte de África: volumes de construções tradicionais, as suas torres de ventilação (o malkaf, captador de ar).
Constrói algo de muito diferente, uma igreja iluminada do alto por chaminés – canais de captação de luz.
O que vamos apreendendo reaparece em diferentes contextos e usos, mesmo sem disso nos apercebermos.
Acontece a invenção. [1]


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fig. 56 – Le Corbusier, corte da capela de Ronchamp.

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fig. 57 - Le Corbusier, corte, planta e perspectiva das torres de iluminação e ventilação da capela de Ronchamp. Ronchamp. Les carnets de la recherche patiente, (pág. 101).


De facto Le Corbusier fez nos anos 30, duas visitas à Argélia, e após visitar Ghardaïa e o vale do M'zab com a sua vernacular arquitectura escreve, ainda longe da elaboração de Ronchamp mas pensando já na promenade architecturale:
L'architecture arabe nous donne un enseignement précieux. Elle s'apprécie à la marche, avec le pied: c'est en marchant, en se déplaçant que l'on voit se développer les ordonnances de l'architecture. C'est un principe contraire à l'architecture baroque qui est conçue sur le papier autour d'un point fixe théorique. Je prefere l'enseignement de l'architecture arabe. [2]
[A arquitetura árabe transmite-nos um ensinamento precioso. Ela é apreciada caminhando, a pé: é caminhando, deslocando-se que vemos desenvolver-se a organização da arquitetura. Baseia-se em um princípio contrário à arquitetura barroca, concebida no papel em torno de um ponto fixo teórico. Prefiro o ensinamento da arquitectura árabe.]

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fig. 58 - Charles-Édouard Jeaneret, Croquis do M'zab 1937. Fundação Le Corbusier.

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fig. 59 - Mausoléu do cheik Sidi Aïssa. Cemitério de Melika, Vale de M’zab. Argélia. Património Mundial 1982.

[1] Álvaro Siza, Chapel of Notre Dame du Ronchamp em Stravaigers, Wonderers, in a Fading Light, Slipper Publications 2015. (pág. 132 e 133). In Texto 02 01- Textos Álvaro Siza. Org. e Prefácio de Carlos Campos Morais. Parceria de A. M. Pereira, rua do Padre Américo, 23 G. Esc-2. Lisboa 2018. (pág. 157).
[2] Le Corbusier, Oeuvre complète, 1929-1934, Zurich, Willy Boesiger, 1934, (pág. 24).


13. Navegavam sem o mapa que faziam… [1]
Com as viagens da Expansão, quando as paisagens se alargavam a oriente e a ocidente, os marinheiros saudavam com alvoroço as coisas / Novas; [2]
Para além de figuras mitológicas e monstros imaginários, eles iam desenhando realisticamente as costas, as enseadas, as povoações habitadas por gentes diferentes, e as terras onde surgiam estranhos animais e desconhecidas plantas.

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fig. 60 - Albrecht Dürer (1471-1528). Studi di piante e animali si alternano a quelli di dettagli del corpo umano e scorci di paesaggio, in una continua ricerca di perfezione delle forme.


Também por razões militares as esquadras tinham sempre quem desenhasse a bordo, muitas vezes os próprios comandantes, e esquissavam as povoações a conquistar anotando os principais pontos estratégicos.
A importância destes desenhos é assinalada por Francisco de Holanda (1517-1585):
Assi que a grã pintura não sómente a tenho eu por proveitosa, mas é na guerra grandemente necessária: pera as machinas e instrumentos bellicos,(…)
(…) Além d’isto serve o debuxar na guerra grandissimamente para mostrar em desenho o sitio dos lugares apartados e feição das montanhas e dos portos assi os das serras, como os das bahias e portos dos mares, para a feição das cidades e fortalezas altas e baixas, as muralhas e as portas e o lugar d’ellas, para mostrar os caminhos e os rios e as praias e as alagoas e paues que se hão de fugir ou passar; para o curso e espaços dos desertos e areias dos maos caminhos e das selvas e mattos: tudo isto d’outra maneira mal entendido, e no debuxo e desenho foi V. mui claro e intelegibel, o que tudo são cousas grandes nas empresas da guerra, e que grandemente fazem e ajudam estes desenhos do pintor aos propositos e desenhos do capitão. [3]

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fig. 61 - Hieronimo Maurando, la città di Lipari vista dal mare, 1544 in Itenerario da Antibes a Costantinopoli, manoscrito da Biblioteca Inguibertine em Carpentras, ed. 1777. Avinhão. (pág. 198).


Um outro bom exemplo é o desenho de uma gravura do século XVII, do período do domínio espanhol, quando os holandeses procuravam apossar-se do Brasil, e que servia para descrever e informar todo o lugar a conquistar.
Assim a conquista de Pernambuco foi comemorada na Holanda com a publicação de uma série de folhetos descrevendo as operações militares e incluindo gravuras, com mapas, plantas e vistas das duas povoações e das esquadras, durante as operações de guerra.
A gravura foi publicada no ano de 1630, enaltecendo os feitos do General Hendrick C. Lonck.
No centro, logo abaixo do título da publicação, vem o título, "OLINDA DE PHERNAMBUCO“ com a observação "Aldus na't Leven op de Rede afgeteyckent anno 1630“ (assim desenhada ao vivo, no porto, no ano de 1630).

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fig. 62 - Claes Jansz Visscher, De Stadt Olinda de Pharnambuco, Verovert by Den. E. Generael Hendrick C. Lonk, Anno 1630. Maritiem Museum 'Prins Hendrik', Rotterdam.

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fig. 63 – Pormenor da gravura anterior.

No meio do istmo, que separa Recife de Olinda, aparece bem desenhado o Forte de São Jorge.
No primeiro plano, vê-se o Forte do Mar, na entrada do porto.
O Recife com os seus edifícios mais significativos aparece desenhado mais à esquerda.
Na extremidade a ilha de António Vaz (Povo na imagem).
Na imagem completa estão ainda representados, para complementar a imagem do ponto de vista geográfico e da principal actividade económica: 1) um mapa da costa do Brasil, 2) um engenho de açúcar, 3) uma vista da região ocupada, mostrando o território com uma planta de Olinda, o istmo e o Recife.
Também a preocupação militar está expressa na extremidade direita onde estão representadas as tropas holandesas marchando em direcção a Olinda.
No primeiro plano a esquadra holandesa e ao fundo a esquadra portuguesa (assinalada como espanhola já que a gravura data de 1630), esta desenhada de uma forma que procura minimizar o seu valor. [4]

[1] Sophia de Mello Breiner Andersen, de Navegações 1983 in Obra Poética, Assírio & Alvim. Porto 2015. (pág. 728).
[2] Sophia de Mello Breiner Andersen, Descobrimento de Ilhas in Obra Poética, Assírio & Alvim. Porto 2015. (pág. 782).
[3] Joaquim de Vascocellos (1849-1936), Terceiro Diálogo de Quatro Diálogos da pintura Antiga, Francisco de Hollanda, Miguel Angelo, Vittoria Colonna, Lattanzio Tolomei. Interlocutores em Roma. Renascença Portuguesa. Porto M DCCC XCVI. (pág.34).
[4] Ver:Nestor Goulart Reis, Imagens de vilas e cidades do Brasil Colonial, Edusp, São Paulo 2001. (pág.80).


14.  A “descoberta” e o desenho da Antiguidade Clássica

Alberti (1404-1472) no seu Della Pittura escrevia: La prima cosa nel dipignere una superficie, io vi disegno un quadrangolo di angoli retti grande quanto a me piace, il quale mi serve per un' aperta finestra dalla quale si abbia a veder l’istoria. [1]
[A primeira coisa no pintar uma superfície, eu desenho um rectângulo tão grande quanto me aprouver, e que me serve como uma janela aberta pela qual eu posso ver a história.]

Assim a partir do Renascimento, com o despertar de um novo interesse pela Arte clássica, muitos artistas vão desenhar as ruínas dos edifícios antigos.
Andrea Palladio (1508-1580) percorrendo e desenhando em Roma, procura ir ainda mais longe: Ne mi son contintato di questo solo che ancho ho voluto vedere, et con le mie proprie mani misurare minutamente il tutto. [2]

[Não me limitei a isso mas quiz ver, e com minhas próprias mãos medir tudo minuciosamente.]

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fig. 64 - Andrea Palladio, Arco di Costantino a Roma, Prospetto e pianta, punta d’avorio, tracce di matita nera, penna e inchiostro bruno su carta, 42,5 x 28,6 cm. Palazzo Chiericati. Vicenza.

No período romantico Joseph Mallord William Turner desenha este mesmo Arco num esboço preparatório de uma das suas pinturas.

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fig. 65 - Joseph Mallord William Turner (1775–1851), The Arch of Constantine and the Colosseum, Rome 1819. Grafite e aguarela s/papel 23,3 x 36,8 cm. The Tate Gallery Londres.

Estes desenhos de Arcos de triunfo em Roma trazem à memória o poema de Cecília Meireles:
As faces estão irreconhecíveis:
e deviam ser belas.
A lembrança das vitórias atenuou-se:
— e, no entanto, eram célebres.
Do imperador que passou, não há vestígios:
— e foi tão poderoso.
Mas o vento que dançava nas pregas do vestido
— e um vento leve! —
continua a dançar ali.
Vede!
E era o vento.
O vento sonhado, apenas.
Ali está preso o vento que sempre foge.
A pedra, que não se move, ondula.
Dança. Para sempre.
E a mão do artista, há muitos séculos,
é também vento. 
[3]


Já Giovanni Antonio Canal dito Canalleto procura no sussurro de surpresa [já que] um pouco assim são as ruas de Veneza. [4]
E num desenho mais realista e “arquitectónico”, usando a câmara óptica, elabora esquissos a partir dos quais realiza os seus luminosos quadros de paisagens de Veneza.

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fig. 66 - Canaletto (Giovanni Antonio Canal 1697 - 1768), Campo S. Basso, 1740. Pena e tinta castanha sobre papel 43.2 × 29.2 cm. The J. Paul Getty Museum.

[1] Leon Batista Alberti (1404-1472), Della Pittura e della Statua di Leon Battista Alberti. Dalla Società Tipografica de Classici Italiani contrada di S. Margherita, N.º 1118 Milano Anno 1804. (pág.29).
[2] Andrea Palladio, Alli Lettori in L’antichità di Roma, di M. Andrea Palladio. Racolta brevemente dagli Auttori Antichi, è Moderni. Novamente posta in Luce. Apresso Vincenzo Lucrino in Roma 1554. (pág. 12).
[3] Cecília Meireles (1901-1964), Arco in Poemas italianos (com a versão italiana de Edoardo Bizzarri). Instituto Cultural Italo-Brasileiro, São Paulo 1968.
[4] Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004), Veneza de Ilhas (1989), in Obra Poética. 3ª Edição, Assírio e Alvim, Porto 2015. (pág. 771).



15.  O Grand Tour

A partir do século XVII os artistas realizavam o Grand Tour, a grande viajem, escrevendo e desenhando sobretudo em Itália e posteriormente na Grécia e na Turquia, atraídos pelos lugares e pelas ruínas das arquitecturas da antiguidade.
O Grand Tour, fazia parte da formação dos artistas e escritores, qualquer que fosse a arte ou as artes em que escolhiam exprimir-se, e iam anotando, pela escrita e/ou pelo desenho, monumentos, povoações e paisagens. [1]

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fig. 67 - Stefano della Bella,Veduta del tempio della Concordia, c.1656. Penna e matita nera, acquerellature grigie su carta bianca, 25,3 x 28,3 cm. Firenze, Gabinetto dei Disegni e delle Stampe degli Uffizi.

E o Grand Tour servia ainda para o artista se descobrir a si próprio através do que ia vendo, (d) escrevendo e desenhando.
Canalletto, antes de pintar as suas paisagens de Veneza, também se inicia por uma estadia em Roma a partir de 1719, onde desenha e pinta algumas vistas de ruinas da antiguidade romana, que lhe servirão para compor alguns dos seus Caprichos, nome então dado aos quadros onde se inventavam e acumulavam fantasiosas arquitecturas.
Canaletto em Capriccio con architetture classiche e rinascimentali dominando a sua composição pinta um edifício imaginário, um misto do Panteão e da Villa Rotonda de Palladio.

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fig. 68 - Giovanni Antonio Canal detto Canaletto (1697 - 1768), Capriccio con architetture classiche e rinascimentali c.1750, óleo s/tela. Col. BNL Paribas.

E Canaletto retrata-se a si próprio sentado sob uma arcada tendo a seu lado um cachorro e concentrado na execução de um desenho.

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fig. 69 – Pormenor do Capriccio con architetture classiche e rinascimentali.

Também Hubert Robert produz centenas de desenhos na sua longa viagem por Itália de 1754 a 1765, que lhe serviram mais tarde para compor as suas pinturas com ruínas clássicas que lhe valeram ser chamado de le Robert des ruines.

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fig. 70 - Hubert Robert (1733-1808), Desenhando um Vaso Borghese 1775. Carvão vermelho s/papel 365 x 290 cm. Musée des Beaux-Arts Valenciennes.

E do mesmo autor uma sanguínea: Jeune homme lisant, appuyé sur un chapiteau corinthien, onde é retratado um estudante que se concentra na leitura de uma qualquer informação útil para o seu Grand Tour, apoiado numa ruina de um capitel coríntio.
…num templo em ruínas:
aí o tempo tanto
gastou degraus, colunas,
e fez do musgo acanto
que podemos sentar-nos
sobre a pedra votiva…
 [2]

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fig. 71 - Hubert Robert (1733-1808), Jeune homme lisant, appuyé sur un chapiteau corinthien, c.1762-65. Sanguine sur papier, 20,8 x 30,3 cm, Musée des Beaux-Arts Quimper.



[1] Para as quais contribui a redescoberta da arquitectura da Antiguidade Clássica. Ver neste blogue http://doportoenaoso.blogspot.pt/2016/04/o-genio-da-arquitectura-descobre-os.html
[2] Vasco Graça Moura, Nó cego, o Regresso XIX, in Poesia reunida 2 vol. Quetzal Editores, Lisboa 2012.


16. Goethe e a Viagem a Itália



Quem também empreende um Grand Tour  - tendo estado na Itália entre 1786 e 1788 -  foi Goethe que se confessa Feliz me sinto agora, inspirado em solo clássico. / Com voz mais alta e sedutora me falam passado e presente. [1]


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fig. 72 - Johann Heinrich Wilhelm Tischbein (1751-1828), Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832) na paisagem romana Roma 1787. Óleo s/tela 164 × 206 cm. Städel Museum Franqueforte.


E Goethe explica que na sua Voyage en Italie: Je n'ai pas entrepris ce voyage pour me faire illusion, mais pour apprendre à connaître ce que je vois. [2]

[Eu não empreendi esta viajem para me iludir, mas para aprender a conhecer o que vejo.]

E em outra passagem das memórias da sua viajem escreve:
Dans ce voyage, j'apprends à voyager. Est-ce que j'apprends à vivre? Je l'ignore. Les hommes qui paraissent le savoir sont trop différents de moi dans leur conduite pour que je puisse prétendre à ce talent. [3]
[Nesta viajem aprendo a viajar. Será que aprendo a viver? Não sei. Aqueles que pensam que o sabem são muito diferentes de mim na sua conduta, para que eu pretenda ter esse talento.]




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fig. 73 - Johann Frederich Bury (1763-1823), Goethe entre amigos em Roma c. 1786/88. Pena e tinta s/papel 16,3 x 21 cm. Goethe-Museum Düsseldorf.

E Goethe num conhecido poema acerca de Itália, exprime o deslumbramento dos homens do Norte por tudo o que na nossa natureza representa um dom amável do céu. [4]
Conheces o país onde floresce o limoeiro?
Por entre a rama escura ardem laranjas de ouro,
Do céu azul sopra um arzinho ligeiro,
Eis se ergue a murta calma, olha o altivo louro!
Conheces?
[5]


Já no século XIX, torna-se quase obrigatória a viagem à Itália para o aprofundamento da aprendizagem das artes.

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fig. 74 - Bartolommeo Pinelli (1781-1835), o Artista acompanhado do seu cão, sentado numa pedra desenhando. Frontispício do álbum de 25 vistas de Roma. Gravura 14,7 x 11 cm. Desenhada e gravada por Pinelli of Rome.Published by W.B.Cooke, 9, Soho Square. London 1827.


Victor Hugo, que além de poeta e escritor também desenhava, sobre os desenhos de viagem escrevia: Les yeux voient, l'esprit creuse, commente et traduit. Une place publique est un livre. On épelle les édifices, et l'on y trouve l'histoire; on déchiffre les passants, et l'on y trouve la vie. [6]

[Os olhos vêem, o espírito procura, comenta e traduz. Uma praça pública é um livro. Soletramos os edifícios, e encontramos a história; deciframos os transeuntes, e encontramos a vida.]

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fig. 75 - Victor Hugo, Vue d'une ville. 1863. Plume, lavis et aquarelle.






[1] Goethe, Erótica Romana, Goethe. Tradução de Manuel Malzbender, Cavalo de Ferro Editores, Lisboa 2005.
[2] Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832), Voyage en Italie (1786/1788) in Mémoires de Goethe traduits pour la première fois, par la Baronne de Carlowitz, seconde partie. Votages, Campagne de France et Annales. Charpentier, Libraire-Éditeur, 39, Rue de l’Université Paris 1855. (pág.23).
[3] Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832), Naples 26 Mars 1787 in Voyages en Suisse et en Italie par Goethe, traduction nouvelle par Jacques Porchat. Librairie Hachette et C.ie, 79 Boulevard Saint-Germain, Paris 1878. (pág.270).
[4] Orlando Ribeiro (1911-1997), Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico. Coimbra Editora Limitada, Coimbra 1945. (pág.43).
[5] Goethe Mignon Lied (Canção de Mignon).Tradução de Paulo Quintela.
[6] Victor Hugo (1802-1885), Les Bateleurs Berne 1839 in (En Voyage) Alpes et Pyrenées. J. Hetzel & Cie18, Rue Jacob. Soc. Fr. D’Éditions D’Art, L. – Henry May Rue Saint-Benoît, 9 et 11.Paris 1880. (pág. 37).



17.  A Acrópole de Atenas - o lugar quase obrigatório dos arquitectos em viagem

Console-toi: la Grèce est libre.
Entre les bourreaux, les mourants,
L’Europe a remis l’équilibre;
Console-toi: plus de tyrans!
[1]




No século XIX quando a Grécia se liberta do domínio otomano, a partir de 1821, e atrai a visita de escritores e artistas, é sobretudo a Acrópole de Atenas e as ruínas das suas edificações - onde se destaca a pesada palidez sagrada do Pártenon - o lugar que mais os impressiona pelo seu simbolismo, pela sua beleza, harmonia e simplicidade.
A Acrópole tinha sido bastante danificada em 1687 quando foi bombardeada pelos venezianos.

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fig. 76 - Francesco Fanelli (c. 1590- 161653), Veduta del Cast. d'Acropolis dalla parte di Tramontana in Atene attica: descritta da suoi principii fino all'acquisto fatto dall'armi venete nel 1687: colla relazione de suoi rè, prencipi, arconti, e tiranni ...: divisa in quattro parti: con varietà di medaglie, ritratti, e dissegni, Venezia 1707. (entre as pág.308 e 309).


Chateaubriand descreve assim a Acrópole no início do século XIX:
Le sommet de l'Acropole offre un terrain uni, semé de petits morceaux de marbre, et qui est visiblement l'aire d'un palais ou d'un temple.
Si l'on tient pour le palais, ce sera le palais de Didon; si l'on préfère le temple, il faudra reconnaitre celui d'Esculape. Là, deux femmes se précipitèrent dans les flammes, l'une pour ne pas survivre à son déshonneur, l'autre, à sa patrie. [2]

[O cimo da Acrópole oferece um terreno uniforme, semeado com pequenos pedaços de mármore, e que é obviamente a área de um palácio ou templo.
Se o tomarmos pelo palácio, será o palácio do Dido; se se preferir o templo, reconhecer-se-á o de Esculápio. Foi aí que duas mulheres se lançaram para as chamas, uma para não sobreviver à sua desonra, a outra pela sua pátria.]

William Wilkins (1778-1839), o arquitecto autor do edifício da National Gallery de Londres, publica em 1816, Atheniensia, or Remarks on the Topography and Buildings of Athens, um caderno de viagem com um conjunto de rigorosos desenhos de Atenas.

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fig. 77 - William Wilkins (1778-1839), The Erechtheum in Atheniensia, or Remarks of the Topography and Buildings of Athens. 1816.


E diversos são os artistas que, ao longo do século XIX,  escrevem e retratam romanticamente a Acrópole de Atenas.

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fig. 78 - Carl Frommel (1789-1863), Acropolis Athen 1830 in Ansichten aus Griechenland gestochen unter der Leitung von C. Frommel. Vues de la Grèce. Gravées sous la direction de C. Frommel, Karlsruhe, Scotzniovsky 1830.



O pintor Alfred de Curzon (1820-1895) executa um conjunto de quadros com o título genérico de Acropole onde descreve e dá a conhecer o estado da colina alta de Atenas.

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fig. 79 - Alfred de Curzon (1820-1895), Les ruines de l'acropole d'Athènes 73, 6 x 110,2 cm. Collection Musées de la Ville de Poitiers et de la Société des Antiquaires de l'Ouest.


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fig. 80 - Alfred de Curzon (1820-95), Les Bords de l'Illysus et les ruines du Temple de Jupiter, près d'Athènes apresentado no Salon de 1861.


E já na segunda metade do século outros artistas confirmam este interesse pela Acrópole e pela cultura da antiguidade grega.

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fig. 81 - Alfred William Hunt (1830–1896), The Acropolis (c 1870), watercolour on paper, 24 x 37 cm, The Crowther-Oblak Collection of Victorian Art, National University of Ireland, Galway.


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fig. 82 - John Singer Sargent (1856-1925) Sketch of the Acropolis 1869. Graphite and brown ink on off-white wove paper 15,2 x 24,2 cm. The Harvard Art Museum.

E na Acrópole destaca-se:
Alta e solene mais alta do que a luz
a pesada palidez sagrada do Pártenon
reina sobre o dia.
[3]



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 Frederic Edwin Church (1826-1900), Parthenon 1871, óleo s/tela 113 x 184,5 cm. The Metropolitan Museum of Art New York.

Também Fernando Pessoa, encarnando o seu heterónimo Ricardo Reis, refere O sol que havia sobre o Partenon e a Acrópole salientando a sua luminosidade:
A palidez do dia é levemente dourada.
O sol de inverno faz luzir como orvalho as curvas
Dos troncos de ramos secos,
Da pátria de Plutão.


Desterrado da pátria antiquíssima da minha
Crença, consolado só por pensar nos deuses,
Aqueço-me trémulo
A outro sol do que este.


O sol que havia sobre o Partenon e a Acrópole
O que alumiava os passos lentos e graves
De Aristóteles falando.
Mas Epicuro melhor


Me fala, com sua cariciosa voz terrestre
Tendo para os deuses uma atitude também de deus,
Sereno e vendo a vida
À distância a que está.
 [4]

18. A Acrópole no século XX

Le Corbusier na Acrópole
Em 1910 Le Corbusier, então ainda Charles-Édouard Jeanneret, seguindo esta tradição do Grand Tour, viaja pelo império Austro-Húngaro, pela Turquia, Grécia e Itália.

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fig. 83 - August Klipstein (1885-1951), Foto de Charles-Edouard Jeanneret em Atenas, 1911.


J'entrepris un grand voyage qui allait être décisif, à travers les campagnes et les villes des pays réputés encore intacts; de Prague, je descendis le Danube, je vis les Balkans serbes, puis la Roumanie, puis les Balkans de Bulgarie, Andrinople, la mer de Marmara, Stamboul (et Byzance), Brousse d'Asie. Et puis l'Athos. Et puis la Grèce. Puis le sud de l'Italie avec Pompéi. Rome.
J'ai vu les grands monuments éternels, gloire de l'esprit humain. J'ai surtout cédé à cette invincible attirance méditerranéenne. Et il était temps après les dix années (copieusement rendues publiques par les revues) de l'art décoratif et de l'architecture allemands.
Turquie d'Andrinople, Byzance de Sainte-Sophie ou de Salonique, Perse de Brousse. Le Parthénon, Pompéi, puis le Colisée. L'architecture me fut révélée. L'architecture est le jeu magnifique des formes sous la lumière. L'architecture est un système cohérent de l'esprit. L'architecture n'a rien à voir avec le décor. L'architecture est dans les grandes œuvres, difficiles et pompeuses léguées par le temps, mais elle est aussi dans la moindre masure, dans un mur de clôture, dans toute chose sublime ou modeste qui contient une géométrie suffisante pour qu'un rapport mathématique s'y installe. [5]
[Pouco antes de morrer (1965), Le Corbusier ocupa-se da publicação das anotações, textos e desenhos desta viajem, sob o título de Le Voyage d’Orient.] [6]


[Eu empreendi uma grande viagem que se tornaria decisiva, através do campo e das cidades dos países que se encontravam ainda intactos; De Praga, desci o Danúbio, vi os Balcãs sérvios, depois a Roménia, depois os Balcãs da Bulgária, Adrianópolis, o Mar de Marmara, Istambul (e Bizâncio), o Brousse da Ásia. E de seguida o Athos. E depois a Grécia. E finalmente o sul da Itália com Pompeia. Roma.
Eu vi os grandes monumentos eternos, a glória do espírito humano. Eu cedi sobretudo a essa invencível atracção do Mediterrâneo. Já era tempo depois de dez anos (copiosamente divulgados pelas revistas) da arte e arquitetura decorativas alemãs.
Turquia de Adrianópolis, Bizâncio de Santa Sofia ou Salónica, Pérsia de Brousse. O Parthenon, Pompeia, depois o Coliseu. A arquitetura foi revelada para mim. Arquitetura é o jogo magnífico das formas sob a luz.
A Arquitetura é um sistema coerente da mente. A Arquitetura não tem nada a ver com a decoração. A Arquitetura está nas grandes obras, complexas e pomposas legadas pelo tempo, mas também está na pequena choupana, em um muro de cerca, em toda coisa sublime ou modesta que contém uma geometria suficiente para que aí se instale uma relação matemática.]
Le Corbusier apesar de se acompanhar de fotógrafo e ele mesmo utilizar a máquina fotográfica, sublinha a importância do Desenho sempre que se viaja.
Quand on voyage et qu’on est praticien des choses visuelles, architecture, peinture ou sculpture, on regarde avec ses yeux et on dessine afin de pousser à l’intérieur, dans sa propre histoire, les choses vues. [7]


[Quando se viaja e se é experimentado nas artes visuais, arquitectura, pintura ou escultura, observa-se com os olhos e desenha-se para absorver no interior, na sua própria história, o que se viu.]
Le Corbusier visitou a Acrópole de Atenas - onde os seus desenhos de 1911 reflectem uma interpretação pessoal do lugar e das suas arquitecturas - que irá utilizar nos seus projectos e em particular no projecto de Ronchamp.

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fig. 84 - Charles-Édouard Jeanneret, L'Acropole 1911, Carnet du Voyage d'Orient n°3, FLC (Fondation Le Corbusier). (pág.103).


O Partenon e a Acrópole estarão sempre presentes em Le Corbusier. No seu célebre Vers une Architecture entre várias referências anota:
Le désordre apparent du plan ne peut tromper que le profane. L’équilibre n’est pas mesquin. Il est determiné par le paysage fameux qui s’étend du Pirée au Mont Pintélique. Le plan est conçu pour une vision lointaine: les axes suivent la vallée et les fausses équerres sont des habiletés du grand metteur en scène. L’Acropole sur sont rocher et ses murs de souténement est vue de loin, d’un bloc. Ses édifices se massent dans l’incidence de leurs plans multiples. [8]


[A aparente desordem do plano só pode enganar o leigo. O equilíbrio não é mesquinho. É determinado pela famosa paisagem que se estende do Pireu ao Monte Pintelico. O plano está concebido para ser apreciado de longe: os eixos seguem o vale e os falsos quadrados são habilidades do grande projectista. A Acrópole sobre o seu rochedo e os seus muros de suporte é vista de longe, como um bloco. Os seus edifícios estão concentrados na incidência dos seus múltiplos planos.]

E insere um desenho da Acrópole no capítulo significativamente intitulado Pure création de l’esprit.


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fig. 85 - Charles-Édouard Jeanneret Le Corbusier, L’Acropole d’Athenes (le site) in Vers une Architecture 1924, (pág. 182).

E em 1946 quando publica L’Espace Indicible Le Corbusier refere de novo o Partenon e a Acrópole:
Action de l'œuvre (architecture, statue ou peinture) sur l'alentour: des ondes, des cris ou clameurs (le Parthénon sur l'Acropole d'Athènes), des traits jaillissant comme par un rayonnement, comme actionnés par un explosif: le site proche ou lointain en est secoué, affecté, dominé ou caressé. [9]



[Acção da obra (arquitectura, estátua ou pintura) sobre a envolvente: ondas, gritos ou clamor (o Partenon na Acrópole de Atenas), traços jorrando como que por uma radiação, como se activado por um explosivo: todo o locail próximo ou distante é abalado, afectado, dominado ou acariciado.]

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fig. 86 - Charles-Édouard Jeanneret Le Corbusier A Acrópole Atenas Setembro 1911, lápis s/papel, in Voyage d’orient, Carnet 3 (pág.123).

Outros arquitectos na Acrópole


E já na segunda metade do século XX também outros arquitectos encontraram na Acrópole ensinamentos de arquitectura. Entre eles Arne Jacobsen ou Louis Kahn. [10]


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fig. 87 - Arne Jacobsen (1902-1971), Acropolis 1962.

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fig. 88 - Louis Kahn (1901-1974), Acropolis 1951.


Entre nós é Fernando Távora que, quando cumpre o seu Grand Tour em 1960, também desenha a Acrópole nos seus conhecidos cadernos intitulados posteriormente de Diário de Bordo.
Esse caderno de viagem tornou-se decisivo quer para a sua arquitectura quer mesmo para os destinos da arquitectura portuguesa.

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fig. 89 - Fernando Távora, Acrópole 1960.

Deste Diário de Bordo diz Álvaro Siza:

O Diário de “bordo” não reflecte apenas o prazer e os sacrifícios, também presentes. Transparece sempre a consciência de viagem em serviço, particularmente no que interessa ao momento da Escola de Belas Artes.
E cita Távora: Os dias 9, 10 e 11 de Junho são praticamente dedicados à Acrópole: “estive no Teséion. É claro que o Teséion foi uma esplêndida experiência para a construção posterior do Parténon. Cada vez me convenço mais de que só fazendo a mesma coisa várias vezes, numa vida ou ao longo de gerações, é possível refinar e chegar a soluções com eternidade. Do Teséion para o Parténon há todo um caminho de progresso como acontece com as Lake Shore 1.ª e 2.ª fase do Mies.” [11]

[1] Victor Hugo (1802-1885), Navarin II in Les Orientales. Cinquième edition. Charles Gosselin, Libraire de S. A. R. Monseigneur le Duc de Bordeaux, Rue S. Germain des Prés n.º9. Hector Bossange Quai Voltaire, nº11. Paris 1829. (pág.83).
[2] François‑René de Chateaubriand (1768-1848), Note sur la Grèce [1811], in Itinéraire de Paris à Jérusalem et de Jérusalem à Paris, Bernardin‑Béchet, Paris 1867. (pág. 365).
[3] Sophia de Mello Breiner Andersen, A Koré de Ilhas in Obra Poética, Assírio & Alvim. Porto 2015. (pág. 794).
[4] Fernando Pessoa, Odes de Ricardo Reis, Poema 319 in Obra Poética, Companhia Aguilar Editora, Rio de Janeiro 1965. (pág.258).
[5] Le Corbusier, Confession, in L’Art Décoratif d’Aujourd’hui, Editions Cres, Collection de "L'Esprit Nouveau", Paris, 1925.
[6] Le Corbusier, Le Voyage d’Orient. Parenthèses, Marseille 1987.
[7] Le Corbusier, L’ Atelier de la recherche patiente, éditions Vincent Fréal, Paris. (pág.37).
[8] Le Corbusier, Legenda da planta da Acrópole in Vers une Architecture Nouvelle édition revue et augmentée, Les Éditions G. Crès et Cie. 21, Rue Hautefeuille, 2. Paris 1924. (pág. 39).
[9] Le Corbusier, L’espace indicible, in L’Architecture d’Aujourd’hui, numéro hors-série spécial Art, Avril 1946, (pág. 9 a 17).
[10] Aurelio Vallespin Muniesa, Arne Jacobsen y Louis Kahn: dos formas de pensar atraves sus dibujos de la Acropolis de Atenas desde el teatro Dionisios, EGA Expresión Gráfica Arquitectónica n.º 21. Universitat Politècnica de València 2013.
[11] Álvaro Siza, Fernando Távora o Estímulo dos Contrastes, in Fernando Távora, Diário de Bordo (pág.12.)



19.  A  perdida magia das ruínas de Delfos?

Já Aalto e Siza - não por acaso - preferem desenhar Delfos que apesar das ruínas está carregado ainda de mistério e onde possivelmente ainda habita o génio do lugar.
Como diz Manuel Alegre:
O deus que está em Delfos continua sem oráculo
A Europa anoitece e só quem espera
Verá o inesperado…
 
[1]

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fig. 90 - Alvar Aalto, Delfos


E Álvaro Siza evoca …as oliveiras de Delfos, correndo em direcção ao mar; aquela fenda na montanha. [2]


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fig. 91 – Álvaro Siza Delfos


E Sophia descreve o porquê de Delfos e a situação das ruínas.

Desde a sombra do bosque desde a orla do mar
Caminhei para Delphos
Porque acreditei que o mundo era sagrado
E tinha um centro
Que duas águias definem no bronze de um voo imóvel e pesado
Porém quando cheguei o palácio jazia disperso e destruído
As águias tinham-se ocultado no lugar da sombra mais antiga
A língua torceu-se na boca da Sibila
A água que primeiro eu escutei já não se ouvia .
[3]



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fig. 92 - Álvaro Siza Delfos

[1] Manuel Alegre Babilónia, Edições « O Jornal », 1983 . (pág.143 e 144).
[2] Álvaro Siza in 01- Textos Álvaro Siza. Civilização Editora, rua Alberto Aires Gouveia, 27. Porto 2009. (pág.138).
[3] Sophia de Mello Breiner Andersen, Delphos Maio de 1970 de Dual in Obra Poética, Assírio & Alvim. Porto 2015. (pág. 592).


20.  Os desenhos de viagem de Álvaro Siza


Para Álvaro Siza nenhum desenho me dá tanto prazer como estes: desenhos de viagem. [1]



E Álvaro Siza refere que de uma forma ou de outra, todas as cidades são a minha cidade. [2]


Assim Bernardo Pinto de Almeida num texto a que dá o título de O Tamanho do Mundo salienta acerca dos desenhos de cidades que Álvaro Siza fez por todo o mundo:
Os muitos desenhos que Siza foi fazendo ao longo da sua vida  são o testemunho disto, desta passagem constante, aparentemente incansável, pelo mundo. E, consequentemente, desse maravilhamento que o deteve na contemplação dele, como se tomado de uma urgência de o comunicar e de o restituir aos outros tal qual o foi compreendendo. Os desenhos de Siza acusam urgência, nervosismo, testemunho de vida, e são, ao mesmo tempo, diarísticos, como se servissem o propósito de lembrar: eu estive aqui. Ou então: neste momento este lugar tocou no meu olhar. [3]




Por isso dos muitos desenhos de diversas cidades de Álvaro Siza escolhemos uma referência a Barcelona na Catalunha e a Roma e Veneza em Itália.


Barcelona

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fig. 93 - Álvaro Siza, Gaudi Barcelona 1952.

Descrevendo uma viagem a Barcelona, perante a obra de Gaudi escreve Siza:
Tive o primeiro pressentimento de que talvez a arquitectura me interessasse mais do que qualquer outra coisa; de que estava ao meu alcance; bastava pôr a dançar janelas, portas, rodapés, ferragens, lambrins em cerâmica ou pedra, caleiras, goteiras. [4]

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fig. 94 – Álvaro Siza, La Pedrera, Barcelona 1948. in Alvaro Siza e Carlos Castanheira. As cidades de Álvaro Siza, Livraria Figueirinhas Porto 2001.



Os desenhos de Roma



Álvaro Siza elaborou uma série de desenhos em visitas a Roma, desenhos esses que foram motivo de uma exposição com o título de Álvaro Siza in Italia 1976-2016, na Accademia Nazionale di San Luca, em 2016.


Confessa Álvaro Siza:

Haverá melhor do que o sentar numa esplanada, em Roma, ao fim da tarde, experimentando o anonimato e uma bebida de cor esquisita – monumentos e monumentos por ver e a preguiça avançando docemente?
De súbito o lápis ou a bic começam a fixar imagens, rostos em primeiro plano, perfis esbatidos ou luminosos pormenores, as mãos que os desenham. [5]



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fig. 95 – Álvaro Siza desenhando numa esplanada de Roma.


E em um outro texto afirma:


As coisas em ruínas dão forma às novas estruturas, transfiguram-se, modificam-nas. Como a cauda de um cometa desprendem-se das catedrais. O mundo inteiro e a memória inteira do mundo continuamente desenham a cidade. [6]


Lembrando os desenhos e as pinturas de Hubert Robert.

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fig. 96 - Hubert Robert (1733 – 1808), Vista do Forum com o Templo de Castor e Polux e o Arco de Tito.Sanguínea 36,4 x 28,7 cm.


E Álvaro Siza mostra como estes traços ficam retidos na memória para surgirem aqui e além em novos desenhos.

Aprendemos desmedidamente; o que aprendemos reaparece, dissolvido nos riscos que depois traçamos. [7]

Em muitos desses desenhos Álvaro Siza desenha-se desenhando.
De súbito o lápis ou a bic começam a fixar imagens, rostos em primeiro plano, perfis esbatidos ou luminosos pormenores, as mãos que os desenham. [8]



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fig. 97 - Álvaro Siza, praça de Espanha vista da escadaria 19 Set.1980. Roma.

A Praça de Espanha onde Goethe se hospedou e onde escreveu: Esta belíssima escadaria que todos conhecem – a escadaria da praça de Espanha em Roma assim chamada por aí se encontrar a embaixada espanhola que se situa no lado sul da praça.

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fig. 98 - Alessandro Specchi (1668-1729), Francesco De Sanctis (1679-1731), Scalinata di Piazza di Spagna o della Trinità dei Monti 1723/26.

E Cesare Pavese, pouco antes de se suicidar, escreveu em 1950 um longo poema Passerò per piazza da Spagna que se inicia com:

Sarà un cielo chiaro.
S’apriranno le strade
sul colle di pini e di pietra.
Il tumulto delle strade
non muterà quell’aria ferma.
I fiori, spruzzati
di colori alle fontane,
occhieggeranno come donne
divertite. Le scale
le terrazze le rondini
canteranno nel sole. 
[9]

[Será um límpido céu.
as ruas abrir-se-ão
na colina de pinheiros e de pedra.
O tumulto das ruas
não mudará o ar parado.
As flores aspergidas
de cores nas fontes
olhar-se-ão como divertidas
mulheres. As escadas
os terraços as andorinhas
ao sol irão cantar.]

Álvaro Siza desenha ainda o interior do Panteão enquanto a seu lado alguém lê provavelmente as Memórias de Adriano de Marguerite Yourcenar.
J’avais voulu que ce sanctuaire de tous les Dieux reproduisît la forme du globe terrestre et de la sphère stellaire, du globe où se renferment toutes les semences du feu éternel, de la sphère creuse qui contient tout. [10]

[Eu tinha querido que esse santuário de todos os Deuses reproduzisse a forma do globo terrestre e da esfera celeste, onde estão encerradas todas as sementes do fogo eterno, da esfera oca que tudo contém.]


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fig. 99 - Álvaro Siza, Panteão Roma.


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fig. 100 - Giovanni Paolo Panini (1691-1765), Interior do Panteão Roma 1774.




E dois desenhos da Praça de S. Pedro no Vaticano.
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fig. 101 – Álvaro Siza, Vaticano .

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fig. 102 – Álvaro Siza, Vaticano 1980 Caderno 66. in Álvaro Siza e Carlos Castanheira. As cidades de Álvaro Siza, Livraria Figueirinhas Porto 2001.

[1] Álvaro Siza, Desenhos de Viagem 1988 in 01- Textos Álvaro Siza. Civilização Editora, rua Alberto Aires Gouveia, 27. Porto 2009. (pág.49).
[2] Álvaro Siza, Casabella n.º 630-631 Gennaio/Febbraio. 1996. in 01- Textos Álvaro Siza. Civilização Editora, rua Alberto Aires Gouveia, 27. Porto 2009. (pág.175).
[3] Bernardo Pinto de Almeida, O Tamanho do Mundo in Bernardo Pinto de Almeida, O que a luz ao cair deixa nas coisas, Álvaro Siza – desenhos. Árvore Cooperativa de Actividades Artísticas, CRL. BPI. s/d, Porto. (pág. 103).
[4] Álvaro Siza, in 01- Textos Álvaro Siza. Civilização Editora, rua Alberto Aires Gouveia, 27. Porto 2009. (pág.32).
[5] Álvaro Siza, Desenhos de Viagem 1988 in 01- Textos Álvaro Siza. Civilização Editora, rua Alberto Aires Gouveia, 27. Porto 2009. (pág.49).
[6] Álvaro Siza, Malagueira in 01- Textos Álvaro Siza. Civilização Editora, rua Alberto Aires Gouveia, 27. Porto 2009. (pág.78).
[7] Álvaro Siza, Desenhos de Viagem 1988 in 01- Textos Álvaro Siza. Civilização Editora, rua Alberto Aires Gouveia, 27. Porto 2009. (pág.49).
[8] Álvaro Siza, Desenhos de Viagem 1988 in 01- Textos Álvaro Siza. Civilização Editora, rua Alberto Aires Gouveia, 27. Porto 2009. (pág.49).
[9] Cesare Pavese (1908-1950), Passerò per piazza da Spagna, 28 marzo 1950. E’ o poema número 6 de dez escritos entre Março e Abril de 1950. In Verrà la morte e avrà i tuoi occhi in Poesie, Giulio Einaudi, Torino 1951
[10] Marguerite Yourcenar (1903-1987), Les Mémoires d'Hadrien suivi de Carnets de notes de Mémoires d’Hadrien, 1951 cap. XVII Gallimard, Paris 1977. (pag.38).



21. Siza em Veneza


Por muito que a visitemos, Veneza desperta sempre um encantamento súbito e incontornável, como se fosse a primeira vez. Uma sensação de haver viajado no tempo e não somente no espaço. [1]


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fig. 103 – piazza S.Marco 1994 Caderno373. in Alvaro Siza e Carlos Castanheira. As cidades de Álvaro Siza, Livraria Figueirinhas Porto 2001.



E se em Roma Álvaro Siza desenhava  numa desconhecida esplanada, em Veneza desenha ao som da orquestra do famoso Caffe Florian.

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fig. 104 - Álvaro Siza, Caffe Florian, praça de S. Marcos Veneza.



Conta e canta Sophia que:

Na cidade de Veneza
Que é sobre a água construída
E de noite e dia se mira
Sobre a água reflectida.
Suas ruas são canais
Onde sempre gondoleiros
Vão guiando barcas negras
Em Veneza tudo é belo
Tudo rebrilha e cintila
Há quatro cavalos gregos
Sobre o frontão de S. Marcos…
[2]


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fig. 105 - Álvaro Siza, praça de S. Marcos, Veneza.

Compare-se com o desenho de Francesco Guardi preparatório do quadro que se encontra na Fundação Calouste Gulbenkian em Lisboa.

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fig. 106 - Francesco Guardi (1712-1793), Piazza San Marco, tinta s/papel 52,5 x 35 cm. The Phillips Collection Washington.


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fig. 107 – Álvaro Siza, praça de S. Marcos, Veneza.in Álvaro Siza e Carlos Castanheira. As cidades de Álvaro Siza, Livraria Figueirinhas Porto 2001.

Compare-se aqui com o desenho de Canaletto preparatório de um quadro da Royal Gallery de Londres.

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fig. 108 - Giovanni Antonio Canal detto Canaletto (1697 - 1768), Piazzetta com vista para San Giorgio Maggiore, 1724. Ao fundo a igreja de San Giorgio Maggiore como se apresentava antes de 1726-28. Pena e tinta castanha, e carvão.

[1] Álvaro Siza, Evocação de Aldo Rossi, (2007) in 01- Textos Álvaro Siza. Civilização Editora, rua Alberto Aires Gouveia, 27. Porto 2009. (pág.389).
[2] Sophia de Mello Breyner Andresen, Veneza de O Búzio de Cós (1997), in Obra Poética. 3ª Edição, Assírio e Alvim, Porto 2015. (pág. 884 e885).



22.  La mano, che obbedisce all'intelletto
[A mão que obedece ao intelecto]


Les mains sont l'homme, ainsi que les ailes l'oiseau [1]
[As mãos são o homem, como as asas são a ave]


Em muitos dos desenhos de Álvaro Siza surgem em primeiro plano as mãos do arquitecto como se o estivéssemos a observar por sobre o seu ombro e apreciando o seu desenho e as suas mãos que vês nas coisas transformadas. [2]


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fig. 109 - Álvaro Siza. O Arquitecto que desenha.


No século XVI Benedetto Varchi (1503-1565), em Due Lezzioni afirmava a relação entre a mente e a mão:
quella mano, che obbedisce all'intelletto. La quale à sprimere, & mettere in opera quello che haveva coceputo, & s'era imaginato l'intelletto. [3]



[…essa mão, que obedece ao intelecto. A qual para exprimir & realizar o que havia concebido & tinha imaginado no intelecto.]


E cita os versos de um soneto de Michelangelo:
Non ha l’ottimo Artista alcun concetto,
ch’un marmo solo in sé non circoscriva
col suo soverchio, e solo a quello arriva
la man che ubbidisce all’intelletto.
[4]


 

[Não tem o excelente artista nenhum conceito,
que um mármore sozinho não circunscreva
com seu escavar, e só isso chega
a mão que obedece ao intelecto.]


E prossegue Benedetto Varchi revelando as razões para que isso não aconteça e citando a Divina Comédia de Dante.
In due modi, & per due cagioni non obbedisce la mano all'intelletto, o perche non è esercitata, & non ha la pratica, & quello e difetto del maestro, o perche è impedita da qualche accidente come disse Dante.
Ma la natura la da sempre scema
Similemente operando a l’artista
Ch’a l'habito dell'arte, ha man che trema
.[5]




[De duas maneiras, & por duas razões não obedece a mão ao intelecto, ou porque não é exercitada, & não tem prática, & isso é culpa do mestre, ou porque é impedida por um qualquer acidente como disse Dante.Mas a natura em míngua sempre a estrema,
E faz em semelhança com o artista
Que tenha hábito de arte e mão que trema.] [6]


Também Leon Battista Alberti afirma que é pelo exercício que o artista transfere para a mão o que imaginou na sua mente.
Resta ora che si ammaestri il Pittore, del modo che egli avrà a tenere nello imitar con la mano, le cose che egli si sarà immaginato prima nella mente. [7]



[Resta então ao pintor, exercitar a maneira como irá imitar com a mão, as coisas que antes imaginou na sua mente.]


 E sobre a capacidade de desenhar mãos (e pés) escreve Francisco de Holanda:
Mas o meu parecer é que quem souber bem desenhar e sómente fazer um pé, ou uma mão, ou um pescoço, pintará todas as cousas criadas no mundo; e pintor haverá que pinta quantas cousas ha no mundo tão imperfeitamente e tão sem nome que seria melhor não faze-lo. [8]

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fig. 110 - Hans Holbein (1497 ou 1498- 1543), Two Studies of the Left Hand of Erasmus of Rotterdam; Study of the Right Hand Writing. Ponta de prata, lápis negro e carvão vermelho sobre papel cinza. 20,6 × 15,3 cm, Museu do Louvre Paris.



Ainda relacionado com este tema da mão e da mente, Verlaine no poema intitula Mains escreve:
Car les mains ont leur caractère,
C’est tout un monde en mouvement

Où le pouce et l’auriculaire
Donnent les pôles de l’aimant.


Les météores de la tête
Comme les tempêtes du cœur,
Tout s’y répète et s’y reflète
Par un don logique et vainqueur.


……..
Ah! si ce sont des mains de rêve,
Tant mieux, – ou tant pis, – ou tant mieux.
[9]
[Porque as mãos têm seu caráter
É um mundo inteiro em movimento
Onde o polegar e o dedo mindinho
são como os pólos de um iman.
Tanto os meteoros da cabeça
Como as tempestades do coração
Tudo aí se repete e reflecte
Por um dom lógico e vencedor.
…….
Ah! Se são mãos de sonho,
Tanto melhor, - ou tanto faz, - ou tanto melhor.]


Para além dos desenhos onde aparecem as suas mãos, Álvaro Siza desenha a sua mão direita desenhando ou vai desenhando no papel a sua mão esquerda que está sendo desenhada no papel.

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fig. 111 – Álvaro Siza, desenho de mãos.


O desenho lembra um pouco o célebre desenho de Escher em que as mãos se desenha uma à outra.

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fig. 112 - Maurits Cornelis Escher (1898-1972) Drawing hands 1948.Litografia 33,2 x 28,2 cm. National Gallery of Art, Washington, USA.



Mas como as mãos são visages sans yeux et sans voix, mais qui voient et qui parlent. [10]



[rostos sem olhos e sem voz, mas que vêem e que falam.]


E por vezes essa mãos gritam e apelam, assim Álvaro Siza desenha-as com punhos cerrados de vontade de paz e não de guerra, de reconstruir e transformar e não de destruir e arruinar.

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fig. 113 - Álvaro Siza, imaginando a Síria Reconstruída. 2017.


Álvaro Siza neste expressivo desenho parece ilustrar os conhecidos versos de Manuel Alegre:
Com mãos se faz a paz se faz a guerra.
Com mãos tudo se faz e se desfaz.
Com mãos se faz o poema - e são de terra.
Com mãos se faz a guerra - e são a paz.

Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra.
Não são de pedras estas casas, mas
de mãos. E estão no fruto e na palavra
as mãos que são o canto e são as armas.

E cravam-se no tempo como farpas
as mãos que vês nas coisas transformadas.

Folhas que vão no vento: verdes harpas.
De mãos é cada flor, cada cidade.
Ninguém pode vencer estas espadas:
nas tuas mãos começa a liberdade.
[11]



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fig. 114 - Álvaro Siza, esquisso 1993.

Dominique Machabert sublinha que Álvaro Siza dessine ses mains comme si elles étaient celles d’un autre, comme s’il était étranger à son propre corps; spectateur étonné devant cette main capable de croquis d’une beauté stupéfiante pendant que l’autre lui-même regarde la télé. Ce que crayonne ce couple singulier est à chaque fois un questionnement sur l’existence; le dessin n’est pas là pour simuler un espace, il le fait exister, il recherche une présence. [12]



[…desenha as mãos como se fossem as mãos de um outro, como se fosse um estranho ao seu próprio corpo; espectador atónito perante esta mão capaz de um esquisso de uma espantosa beleza enquanto o outro está vendo televisão. O que este singular esboço de casal é, de cada vez, um questionar da existência; o desenho não está ali para simular um espaço, fá-lo existir, procura uma presença.]

Esta inclusão das suas mãos em muitos dos seus desenhos é esclarecida por Álvaro Siza numa entrevista afirmando que ela surgió una primera vez, no lo sé cuando, mientras dibujaba un paisaje de una ciudad. Puse mis manos espontaneamente en el dibujo, pero no fue un acto voluntario y consciente.
Surgió sin saber por qué. Más tarde, llamó la atención a Távora que los dibujos de Palladio poseen una cierta similitud en cuanto a dibujar las manos; pero esas manos aparecen de una manera distinta, porque yo las dibujo para afrontar ciertos aspectos del dibujo, para centrar la atención en él, únicamente eso. [13]

Não conheço estes desenhos de Palladio a que se refere Fernando Távora, mas incluir quem desenha no acto de desenhar surge muitas vezes desde a renascença.
Repare-se que na conhecida gravura de Florença de Lucanonio degli Uberti, este coloca-se no canto inferior direito executando o desenho como se nós o observássemos na sua actividade.


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fig. 115 - Lucanonio degli Uberti (c.1500-1557) – Grande vista de Florença 1500-1510. Xilogravura, 57,8 x 131,6 cm.


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fig. 116 – Pormenor da fig. anterior.

E Roland Fréart também permite que se observe as mãos de Calímaco desenhando (projectando) o capitel Coríntio.

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fig. 117 - Roland Fréart, sieur de Chambray (1606-1674), Callimaque inventant le chapiteau Corinthien 1650. [14]


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fig. 118 – Álvaro Siza, Desenho de mãos que retratam.

[1] Germain Nouveau (1851 – 1920) Les mains de Poésies d’Humilis et vers inédits. Albert Messein Éditeur 19, Quai Saint-Michel, 19, Paris 1924. (pág.46).
[2] Manuel Alegre, o canto e as armas, ed. europa-américa, 1979.
[3] Benedetto Varchi (1503-1565), Due Lezzioni di M. Benedetto Varchi, nella prima delle quali si dichiara un Sonetto di M. Michelagno. o Buonarroti. Nella seconda si disputa quale sia più nobile arte la Scultura, o la Pittura, con una lettera d'esso Michelagnolo, & più altri Eccellentis s. Pittori, et Scultori, sòpra la Quistione sopradetta. Appresso Lorenzo Torrentino, Impressor Ducale. Firenza M.D.XL.IX. (pág.21).
[4] Benedetto Varchi (1503-1565), Due Lezzioni di M. Benedetto Varchi, nella prima delle quali si dichiara un Sonetto di M. Michelagno. o Buonarroti. Nella seconda si disputa quale sia più nobile arte la Scultura, o la Pittura, con una lettera d'esso Michelagnolo, & più altri Eccellentis s. Pittori, et Scultori, sòpra la Quistione sopradetta. Appresso Lorenzo Torrentino, Impressor Ducale. Firenza M.D.XL.IX. (pág.13 e 14).
[5] Benedetto Varchi (1503-1565), Due Lezzioni di M. Benedetto Varchi, nella prima delle quali si dichiara un Sonetto di M. Michelagno. o Buonarroti. Nella seconda si disputa quale sia più nobile arte la Scultura, o la Pittura, con una lettera d'esso Michelagnolo, & più altri Eccellentis s. Pittori, et Scultori, sòpra la Quistione sopradetta. Appresso Lorenzo Torrentino, Impressor Ducale. Firenza M.D.XL.IX. (pág.29).
[6] Dante Alighieri, Divina Comédia.Tradução de Vasco Graça Moura. Quetzal Editores, Lisboa 2011. (Paraíso Canto XIII v.75-78). (pág.707 e 708).
[7] Leon Battista Alberti (1404-1472), Della Pittura e della Statua di Leon Battista Alberti. Dalla Società Tipografica de Classici Italiani contrada di S. Margherita, N.º 1118 Milano Anno 1804. (pág.35).
[8] Joaquim de Vascocellos (1849-1936), Quatro Diálogos da pintura Antiga, Francisco de Hollanda, Miguel Angelo, Vittoria Colonna, Lattanzio Tolomei. Interlocutores em Roma. Renascença Portuguesa. Porto M DCCC XCVI. (pág.45)
[9] Paul Verlaine (1844-1896), Mains de Parallement (1888) in Œuvres complètes, Tome Deuxième Quatrième Édition. Librairie Léon Vanier, Éditeur A. Messein, Succr. 19, Quai Saint-Michel,19, Paris 1908. (pág.278).
[10] Henri Focillon (1881-1943), L’Éloge de la Main 1934, in Vie des formes, suivi de Éloge de la main. Presses Universitaires de France, 1943. 7e édition, Paris 1981. (Livro I poema pág.101).
[11] Manuel Alegre, O Canto e as Armas, Publicações Dom Quixote, Lisboa 1967.
[12] Laurent Beausouin, Dominique Machabert, Álvaro Siza, Une Question de mesure in Le Moniteur, ed. Le Moniteur Paris 2008.

[13] Francisco Granero Martin, Conversando com Álvaro Siza: El dibujo como liberación del espíritu. EGA Expression Gráfica Arquitectónica n.º 20, Año 17. Universitat Politècnica de València. 2012. (pág.56 a 65).

[14] Roland Fréart sieur de Chambray (1606-1676), Parallèle de l’architecture antique avec la moderne. Avec un recueil des dix principaux autheurs qui ont écrit des cinq Ordes; Sçavoir, Palladio et Scamozzi, Serlio et Vignola, D. Barbaro et Cataneo, L. B. Alberti et Viola, Bullant et Lorme., comparez entre eux.De l’Imprimerie d’Edme Martin, rue S. Jacques, au Soleil d’or. Paris M. DC. L. (pág.63).


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