Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















sexta-feira, 29 de junho de 2018

Apontamentos um pouco dispersos sobre Arquitectura e Desenho. 5



Algumas reflexões sobre desenhos e obras de Álvaro Siza e de Le Corbusier percorrendo os seus escritos.

V parte 35 a



35. Architecture: Art de Maitriser l' Indécision

Álvaro Siza, a propósito do projecto interrompido da casa Dr. Fernando Machado, escreve em 1982 um texto com o sugestivo título em francês Architecture: Art de Maitriser l' Indécision (datado de 1982) [1]

O texto de Álvaro Siza é publicado na revista Obra d’oiro na sua versão original dactilografada (mostrando como o autor escreve e corrige como projecta), em que sintética mas explicitamente, resumia o seu método de projectar ou seja a sua "arte poética".


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fig. 182 - O texto original de Álvaro Siza publicado na revista Obra d’Oiro.



Os estímulos - bengala difícil e definitiva do Arquitecto.

Álvaro Siza inicia esse seu texto afirmando que o projecto de uma casa surge de formas diferentes. Subitamente, por vezes, às vezes lenta e penosamente. Tudo depende da possibilidade e da capacidade de encontrar estímulos - bengala difícil e definitiva do Arquitecto.

O projecto de uma casa é quase igual ao projecto de outra casa: paredes, janelas, portas, telhado. [2]




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fig. 183 - Álvaro Siza esquissos da casa Fernando Machado. 1982.



O texto de Siza refere assim a génese deste processo - os estímulos - quer sejam o sítio, o pro­grama, a história ou a memória, a análise tipológica, ou qualquer modelo.

Mas estes - modelos ou tipologias - são aqui relativizados com a introdução do advérbio "quase" (...o projecto de uma casa é quase...) e Siza imediata­mente acrescenta a irrepetibilidade do projecto arquitectónico e o seu carácter único.[3]


Sobre este estimulo ou estímulos iniciais e a propósito da sua poesia, Paul Valery afirmava que les dieux, gracieusement, nous donnent pour rien tel premier vers; mais c'est à nous de façonner le second, qui doit consonner avec l'autre, et ne pas être indigne de son aîné surnaturel. [4]


[os deuses dão-nos gratuitamente um primeiro verso ; mas cabe-nos compor o segundo, que deve estar em consonância com o primeiro e não ser indigno do seu sobrenatural irmão mais velho.]


Para Le Corbusier em Ronchamp os estímulos são as paredes e as aberturas apreendidas na arquitectura do vale de M’zab no sul da Argélia, que se transformam nos alvéoles d’éclairage da fachada sul, a luz do Serapeum da villa Adriana reproduzida nas capelas e a carapaça do caranguejo que se torna fonte de inspiração para a cobertura.


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fig. 184 – Le Corbusier, Serapeum, Villa Adriana 1910.



E de uma forma mais abrangente escreve Le Corbusier sobre os diversos estímulos que fundamentam Ronchamp: On me demande quels sont mes secrets pour Ronchamp. Il n’y a rien, qu’une recherche harmonique des problèmes posés. L’évangile: une éthique, le lieu: les quatre horizons, le moyen: la coquille de crabe. [5]


Ou seja qualquer que seja o estímulo inicial, o que importa, o que interessa, já que avançar um pé não é fazer jornada [6] é o processo que eles põe em marcha, em movimento, e a capacidade do autor de domi­nar ou controlar (de "maitriser") esse processo.

E quaisquer que sejam os estímulos, esse primeiro esboço, essa nebulosa inicial, não é, contudo, um andar-às-cegas nem um esbracejar gratuito, embora não seja – ainda - um proceder seguro: daí as suas "indecisões".

Não é por isso seguir um caminho (pre­viamente) traçado mas é, precisamente (l’art de) traçar o próprio caminho.

Ou no muito conhecido e citado poema de Antonio Machado:

Caminante, son tus huellas
el camino, y nada más;
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.

Al andar se hace camino
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar…
[7]


[1] O título em francês deve-se provavelmente ao facto do verbo maitriser não ter uma correcta tradução em português. Pode significar dominar, controlar, modelar, moldar, etc.

[2] Álvaro Siza, Architecture: Art de Maitriser l' Indécision (1982) in A casa do Dr. Fernando Machado, A casa interrompida, "Obra d'0iro" nº. 8, Co­legio Oficial de Arquitectos de Galicia 1983. (pág.7 a 13).

[3] Uma vez construído, o objecto arquitectónico é simul­taneamente protótipo e objecto acabado, sendo o seu con­trole realizado, como objecto aposteriori. Naturalmente é sempre possível valorizar criticamente o seu comporta­mento e utilizar essa experiência para projectar objec­tos similares em circunstâncias análogas. Mas trata-se, de qualquer modo de abrir, de cada vez, um novo processo projectual, mesmo que utilizando os dados adquiridos com os precedentes.

[4] Paul Valery (1871-1945), Introduction de Au sujet d’Adonis (1920) in Adonis (1658 publicado 1669), par Jean de La Fontaine (1621-1695). Au Masque d’Or Devambez, 23, rue Lavoisier. Paris. 1921. (pág.XII).

[5] Le Corbusier, Jean Petit, Le livre de Ronchamp, Les Cahiers Forces Vives, Editec 1961. (pág. 6).

[6] José Saramago, Arte Poética in Os Poemas Possíveis. Editorial Caminho, SA. Uma editora do grupo Leya, Rua Cidade de Córdova, n.º 2. Lisboa 1997. (pág. 22).

Mas avançar um pé não é fazer jornada
Nem pintura será a cor que não se inscreve
Em acerto rigoroso e harmonia. (…)

Não se esquece o poema, não se adia,
Se o corpo da palavra for moldado
Em ritmo, segurança e consciência.

[7] António Machado (1875-1939), poema XXVIII de Proverbios y cantares I de Campos de Castilla (1899-1917) in Poesia Completa, Publicaciones de la Residencia de estudantes, serie IV. Vol 7. Madrid 1917. (pág.229).



36. O projecto: práctica de paciência e rigor à procura da forma justa

N'atteint l'harmonie que ce qui est infiniment précis, juste, sonnant et consonant; que ce qui ravit en fin de compte, à l'insu même de chacun, le fond de la sensibilité; que ce qui aiguise le tranchant de l'émotion. [1]

[Só atinge a harmonia o que é infinitamente preciso, justo, sonoro e consonante; aquilo que no final encanta, mesmo sem o sabermos, toca no fundo da sensibilidade; aquilo que aguça a lâmina da emoção]



Daquele esboço passa-se ao projecto - considerado aqui na sua dimensão disciplinar - combinação e sobretudo ajuste das componentes assinaladas no esboço, ou seja, fundamentação e consolidação daquela nebulosa inicial e da sua rede ou trama de significados.


Álvaro Siza assinala contudo, que se trata de um processo simultâneo: Il n'y a pas un premier stade qui serait celui dès esquisses. En même temps que je fais dès esquisses, je travaille sur la table à dessin... [2]

[Não há um primeiro tempo que seria o dos esboços. Ao mesmo tempo que faço esquissos também trabalho no estirador…]



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fig. 185 - Álvaro Siza, desenvolvimento do projecto da Igreja de Santa Maria no Marco de Canavezes.




E nesta fase, menos do que alcançar a simples unidade do projecto e da obra terminada, trata-se de lhe conferir a máxi­ma densidade possível, concretizando e evidenciando aqui­lo que no esboço eram apenas intuições ou sugestões.

Já que, desde o início do processo, ou seja desde os pri­meiros esquissos, a obra reclamava a sua "independência" e o "processo" consistia em fomentar - através de um pre­ciso controlo instrumental - o desenvolvimento daquele esboço até que se converta em algo com vida própria.


Ou como adverte Álvaro Siza em certos momentos (o projecto) ganha vida própria. Faz então um animal volúvel, de patas inquietas e de olhos inseguros.

Se é demasiado contido, deixa de respirar: morre.

Se as suas transfigurações não são compreendidas se tu­do quanto nele parece evidente e belo se fixa, torna-se monstro, ou torna-se ridículo. [3]


Lembrando Alberti que em De Re Aedificatoria já salientava que Les plus experts antiques nous ont admonesté (et ailleurs l’avons dit) qu’un édifice est comme un animal et que pour le faire au devoir, convient imiter la nature. Cela présupposé, cherchons pourquoi entre les corps produits par elle aucuns sont très beaux, d’autres moins beaux, et de tels y en a difformes. [4]

[os mais antigos especialistas advertiram-nos (e também o dissemos noutros lugares) que um edifício é como um animal e que, para o fazer como deve ser, convém imitar a natureza. Posto isto, procuremos por que é, que entre os corpos produzidos por ela, alguns são muito belos , outros menos belos e alguns que são mesmo disformes.]



Álvaro Siza afirma ainda que o projecto está para o arquitecto como o personagem de um romance para o autor: ultrapassa-o constantemente. E é preciso não o perder. Por isso o desenho o persegue. [5]

Por tudo isto o arquitecto deverá estar instruído de uma intencio­nalidade formativa ou configurativa, em correspondência ou consonância com as tendências, as tensões e a lógica de conformação da própria obra.

Mas Álvaro Siza por isso aconselha: Comme un sculpteur on doit maintenir l’'argile humide[6]


[1] Le Corbusier, L'espace indicible, 1945, in L'architecture d'aujourd'hui, numero hors-série spécial Art, Avril 1946, (pág. 9 a 17).

[2] Álvaro Siza, Architecture d’Aujourd’hui nº 211 out.80.

[3] Álvaro Siza, Architecture: Art de Maitriser l' Indécision (1982) in A casa do Dr. Fernando Machado. A casa interrompida, "Obra d'0iro" nº. 8, Co­legio Oficial de Arquitectos de Galicia 1983. (pág.7 a 13).

[4] Leonis Baptistae Alberti, De Re Aedificatoria (1481), Livre 9 Chapitre cinquième (pág.10).

[5] Álvaro Siza, Architecture: Art de Maitriser l' Indécision (1982) in A casa do Dr. Fernando Machado. A casa interrompida, "Obra d'0iro" nº. 8, Co­legio Oficial de Arquitectos de Galicia 1983. (pág.7 a 13).

[6] Álvaro Siza, Architecture d’Aujourd’hui nº 211 out.80.



37. Recherche patiente e ostinato rigore


Assim o arquitecto deverá executar uma série de operações ou actividades que conduzem ao êxito do projecto.

Ou seja, a projectação não é uma actividade de fora para dentro do processo nem apenas do seu interior para o exterior, mas um fazer-se que acontece no próprio proces­so.

E essa perseguição impõe a necessidade de uma permanente e rigorosa atenção a esse fazer-se, à confrontação com as próprias formas desenhadas e designadas, confrontação essa que exige aquela recherche patiente de Le Corbusier e aquele ostinato rigore estabelecido por Leonardo Da Vinci que lembrava que se não devia desprezar aquele olhar atento para as manchas da parede, para os carvões sobre a grelha, para as nuvens, para a correnteza da água ou outras coisas similares e aí ver composições diversas.

Ostinado rigore poeticamente reencontrado por Eugénio de Andrade. [1]



Paciência e rigor nessa busca obsessiva e constante, no completo domínio dos meios instrumentais e sobretudo, construindo com o próprio processo uma secreta e afectiva intimidade. Intimidade que habita como diz Saramago:

No coração da mina mais secreta,
No interior do fruto mais distante,
Na vibração da nota mais discreta,
No búzio mais convolto e ressoante,
Na camada mais densa da pintura,
Na veia que no corpo mais nos sonde,
Na palavra que diga mais brandura,
N
a raiz que mais desce, mais esconde,
No silêncio mais fundo desta pausa,
Em que a vida se fez perenidade,
Procuro a tua mão, decifro a causa
De querer e não crer, final, intimidade
[2]



Ou como afirma Gregotti: uma archeologia autonoma fatta della serie di strati dei tentativi precedenti, delle correzioni, degli errori in qualche modo presenti nell’assetto finale, construito per accumulazione e depurazione di sucessive scoperte che si costituiscono come dati degli assetti posteriori. [3]

[Uma arqueologia autónoma feita da série de camadas das tentativas anteriores, das correções, dos erros de alguma forma presentes no arranjo final, construído pela acumulação e depuração de sucessivas descobertas que se constituem como dados das soluções posteriores.]



O processo deve conter, assim, em cada uma das suas fases ou etapas, as linhas de desenvolvimento, as cicatrizes das profundas feridas que essa "luta" foi produzindo. E é por meio de tal luta que o projecto conquista a unidade da sua com­posição e da sua exposição.

Cada fase de um projecto, cada desenho é o remorso do anterior.

E Álvaro Siza conclui assim o seu texto: O desenho é o desejo de inteligência.


[1] Ostinato rigore lema de Leonardo da Vinci e título de um livro de poemas de Eugénio de Andrade.

[2] José Saramago (1922-2010), Intimidade in Os Poemas Possíveis. Editorial Caminho, SA, grupo Leya, Rua Cidade de Córdova, n.º 2. Lisboa 1997. (pág.151).

[3] Vittorio Gregotti, Architetture recenti di Alvaro Siza, in Constropazio, n. 9, 1972.



CONTINUA

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