Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















sexta-feira, 20 de julho de 2018

Apontamentos um pouco dispersos sobre Arquitectura e Desenho 6


Algumas reflexões sobre os desenhos e as obras a partir dos escritos de Álvaro Siza e Le Corbusier.

38. Alguns dos instrumentos do projecto

Diz Álvaro Siza sobre a concepção de uma obra e o desenvolvimento do seu projecto:

Quand je développe un projet, je dois avoir la possibilité de faire tous les parcours intérieurs du projet en imagination.

Le dessin, la maquette, l’esquisse ne suffisent pas.

Ce sont des instruments tièdes.

L’important est de fermer les yeux et de se sentir se promener dans le bâtiment en suivant des sensations différentes.

On parle souvent des esquisses à propos de mon œuvre, mais au fond, je pense que c’est une espèce de faiblesse.

Si seulement je pouvais ne faire aucun dessin, imaginer simplement le bâtiment et le transmettre dans un ordinateur.

Il faut contrôler l’espace dans les trois ou quatre dimensions.

Il faut faire des maquettes, des esquisses des points de rencontre, ou si l’on est assez fort, on peut le faire seulement dans son esprit. [1]

[Quando desenvolvo um projeto, tenho que ter a oportunidade de percorrer todo o interior do projeto na imaginação.
O desenho, o modelo, o esboço não são suficientes.
Estes são tépidos instrumentos.
O importante é fechar os olhos e sentir-se percorrer o edifício seguindo as diferentes sensações.
Fala-se muitas vezes de esquissos a propósito da minha obra, mas no fundo, acho que é uma espécie de fraqueza.
Se eu pudesse não fazer nenhum desenho, e imaginar a construção e o transmitir para um computador…
É necessário controlar o espaço nas suas três ou quatro dimensões.É preciso fazer maquetes, esboços dos pontos de encontro ou, se formos suficientemente fortes, podemos fazê-lo apenas mentalmente.]


[1] Álvaro Siza. Propos recueillis à Paris par Laurent Beaudouin et Luis Mendes en Janvier 1994.



39. Maquetas

Leon Battista Alberti afirmava:

[...] Si facciano altresi dei modelli in scala dell’opera, sulla base dei quali e consigliabile riesaminare ogni parte dell’edificio da costruirsi, due, tre, quattro, sette, dieci volte, riprendendo l’esame a volta a volta dopo intervalli di tempo, finche nell’intera opera, dalla zona piu bassa alla piu alta tegola, non rimanga particolare riposto o scoperto, grande o piccolo, che non sia da noi lungamente e intensamente soppesato e stabilito, e non sia deciso con uguali caratteristiche, in quale posizione e in che ordine sia decoroso o utile disporlo. [1]

[(…) Se por outro lado, fizermos maquetas à escala da obra, com base nas quais é aconselhável reexaminar cada parte do edifício a ser construído, duas, três, quatro, sete, dez vezes, retomando sucessivament o exame com intervalos de tempo, afim que em todo o trabalho, de baixo a cima, não reste nenhum pormenor grande ou pequeno que seja esquecido, e que não seja longa e intensamente pensado e considerado por nós, e não seja decidido com as mesmas características, segundo a posição e a ordem em que é decoroso ou útil colocá-lo.]

Neste percurso entre os esquissos iniciais e o projecto final assume particular importância, para além do desenho, a realização de maquetas. É, de certo modo, um trabalho artesanal de oleiro ou de escultor.

Afirma Álvaro Siza:

O desenho é um instrumento de trabalho e de comunicação. Permite, com velocidade, comparar. Mas não resolve tudo, tem limites e pode tornar-se vício, se não for acompanhado por outros meios que, não o substituindo, o complementam.

O esquisso tem de ser acompanhado pelo desenho rigoroso e pelas maquetas. Os instrumentos tradicionalmente utilizados na representação do projecto não foram abandonados. O computador é mais um; permite sem erros verificar com rapidez, por exemplo, as proporções de um projecto.

Continua contudo o prazer de esquissar, ao som da música como em férias. [2]


Le Corbusier utilizava maquetas para elaborar os seus projectos.


sv266fig. 186 - Maqueta em gesso 36 x 61 x 56 cm. 1951-1955. Chapelle Notre-Dame-du-Haut. Colline de Bourlémont, Ronchamp, France.


sv266a

fig. 187 - Maqueta em gesso 36 x 61 x 56 cm. 1951-1955. Chapelle Notre-Dame-du-Haut, Colline de Bourlémont, Ronchamp, France.


Siza em 2008 refere o papel da maqueta na sua dupla função.

Por um lado como a criação de um diálogo com o cliente, sobretudo se é um cliente colectivo. Por outro como instrumento complementar do desenho na procura da forma definitiva do projecto.

A maqueta permite representar de forma compreensível para todos, o essencial da proposta contida nos complexos e para muita gente herméticos desenhos de arquitectura (plantas, alçados e cortes).

Permite assim tornar efectivo e consciente o diálogo entre quem necessita de apoio profissional e de quem o presta, eventualmente o encontro de entusiasmos em torno de um projecto – condição indispensável à qualidade da arquitectura. [3]



sv267

fig. 188 - Álvaro Siza, maqueta da igreja de Santa Maria no Marco de Canavezes.


Constitui igualmente instrumento de estudo e de optimização, complemento de outros meios também insubstituíveis. Uma parte do que se faz, referido a maquetas, pode e deve acontecer passo a passo e no interior do estúdio do Arquitecto: modelo expeditos em material de fácil manipulação, apropriado à rápida modificação, à destruição e correcção. Testes de verificação global ou parcial. [4]



sv206b

fig. 189 – Álvaro Siza, maqueta da casa Avelino Duarte 1980-1984.


[1] L. B. Alberti, De re aedificatoria, libro IX, Cap. VIII Firenze. (pág. 1443).

[2] Álvaro Siza, Exposição em Nápoles, in 01- Textos Álvaro Siza. Civilização Editora, rua Alberto Aires Gouveia, 27. Porto 2009. (pág. 251 e 252).

[3] Álvaro Siza, Modelos, maquetas e o trabalho de 25 anos de dois Barata Feyo 29.01.2008 in 01- Textos Álvaro Siza. Civilização Editora, rua Alberto Aires Gouveia, 27. Porto 2009. (pág.399).

[4] Álvaro Siza, Modelos, maquetas e o trabalho de 25 anos de dois Barata Feyo 29.01.2008 in 01- Textos Álvaro Siza. Civilização Editora, rua Alberto Aires Gouveia, 27. Porto 2009. (pág.399).




40. A propósito da casa em Ovar

Se a Casa Fernando Machado - já aqui referida - não foi realizada, outra casa projectada por Álvaro Siza, por estes anos, foi construída em Ovar: a Casa Avelino Duarte (1981/85).


sv255a

fig. 190 – Álvaro Siza, Casa Avelino Duarte em Ovar Julho de 2018.




Sobre esta casa e à sua inserção no sítio diz Álvaro Siza:

Na altura em que a casa foi construída, não havia outras na zona. Estavam todas dispersas e, por isso, não havia referências, como acontece num centro-histórico, por exemplo. Tive de procurar outras referências, neste caso, nórdicas. É uma casa que foi construída para estar isolada e que assim continuasse quando surgissem vizinhos.

E em outra entrevista Álvaro Siza repete:

Par exemple, lorsque j’ai fait la maison à Ovar, le site était assez pauvre, alors j’ai utilisé une forme de départ utilisant des références qui ont été mentionnées par la critique. [1]

[Por exemplo quando eu projectei a casa em Ovar, o sítio era bastante pobre, e então comecei utilizando outras referências que foram mencionadas pela crítica.]



sv206c

fig. 191 – A Avenida da Régua em Ovar nos anos 50. CMO.




sv255

fig. 192 – Avenida da Régua nascente-poente em Ovar Julho de 2018.



fig. 193 - Avenida da Régua poente-nascente em Ovar Julho de 2018.




De entre as poucas construções então existentes na avenida, a única habitação “moderna”, situava-se não muito distante para poente, e tinha sido projectada por volta de 1970 pelo arquitecto Domingos Tavares então colaborador do atelier de Jorge Guimarães Gigante (1919-1994).

Um bem pensado e elaborado projecto de uma casa unifamiliar de um só piso, em tijolo aparente, material utilizado na região de Aveiro, e lembrando remotamente alguns projectos iniciais de Mies van der Rohe.


sv257

fig. 194 – Domingos Tavares, Casa na avenida da Régua, Ovar. C.1970. Foto Julho de 2018.



sv258

fig. 195 - Domingos Tavares, Casa na avenida da Régua, Ovar. C.1970. Foto Julho de 2018.




As referências de Álvaro Siza para a Casa Avelino Duarte, consistem numa concepção espacial em que - numa assumida homenagem a Adolf Loos - a casa se concretiza num volume compacto de onde se extraiu uma parte come un blocco di marmo asportato da una cava.

Álvaro Siza contrariando os que o acusam (ou acusavam) de contextualista escreve lembrando a agência bancária que projectou para Vila do Conde (1977), um poético texto Outro pequeno projecto que serve na perfeição para a casa Avelino Duarte (1980/84) de Ovar.


Gostaria de construir no deserto do Sahara.
Provavelmente, ao abrir fundações, alguma coisa iria aparecer,
adiando a prova da Grande Liberdade:
cacos, uma moeda de oiro, o turbante de um nómada,
desenhos indecifráveis gravados em rocha.
Nesta Terra não há desertos. E se houvesse?
Provavelmente estaria condenado a construir um barco carregado
De Memórias, próximas ou distantes até à inconsciência: invenções.
E se o barco poisasse no fundo do mar estaria rodeado de ânforas,
esqueletos, âncoras irreconhecíveis sob a ferrugem.
Experimentaria o desgosto de ser chamado, ainda no Sahara, ou no fundo do mar, contextualista.
Também esta casa caiu em Vila do Conde como um barco – entre detritos:
para não incomodar ganhou o nome de Tolan.
Gostaria de construir em terreno aberto, nos Pampas, ou em Macau,
sobre os aterros: onde não se fale ainda de Centro ou de periferia;
ou já ou nunca.
Mas há uma só gaveta para cada um, nestes móveis prudentes
de gavetas rigorosamente dimensionadas, onde mal cabe um paralelepípedo
em cimento.
Então e às vezes forma e medida obrigam a quebrar arestas,
como se fosse a invenção de um “coup de poing”,
e logo a polir superfícies, afiá-las para escavar espaço.
Todas estas operações de paciência são arriscadas.
Quase sempre condenam o objecto à montra de um museu;
ou a perderse num canto, confundido com o paralelepípedo de cimento que é;
ou a ser reutilizado, outra pedra encontrada, na construção de um muro;
ou ainda (reencontrado) à montra de um museu, entre ânforas, sarcófagos esvaziados,
uma âncora irreconhecível, sob a ferrugem.

Porto, 25 de Abril de 1986  [2]



A casota do cão

E se não importa em todo este texto examinar os projectos e as obras de Álvaro Siza, a propósito da Casa Avelino Duarte não posso deixar de referir uma espantosa e pedagógica conferência (onde aliás estive presente) que Álvaro Siza fez no auditório da Escola de Belas Artes.

Álvaro Siza conta o episódio, mostrando e demonstrando que na projectação de um edifício qualquer espaço ou pormenor merece toda a atenção. Não há espaços nem pormenores de primeira que mereçam toda a dedicação do arquitecto e espaços de segunda que não devam ser desenhados com esse obstinado rigor.

Conta Álvaro Siza:

Quando expus pela primeira vez no Porto pediram-me para apresentar e explicar um projecto. Escolhi a casa de um cão, no jardim de uma habitação que acabara de construir.

Projectei-a como habitualmente: procurei pessoas que percebessem de cães (não sou especialista de coisa nenhuma - ninguém sabe de tudo).

Perguntei quais as dimensões convenientes para aquele cão, quais os requisitos para qualquer um e muitas outras coisas. Comentei a dificuldade acrescida: não há grande possibilidade de dialogar com um cão, pelo menos para mim.

Expliquei como e porquê aquela pequena casa poderia influenciar o desenho do lote: um volume mais em relação com outros, participando na definição dos vazios que estruturam um jardim.

E confessa Álvaro Siza:

Não me pareceu que as personalidades da primeira fila - Presidente da Câmara, Governador Civil, Bispo, Professores, Universitários, estivessem particularmente satisfeitas. Os olhos, tão próximos, exprimiam alguma perplexidade. Pensariam tratar-se de uma provocação. Teriam razões para isso, não posso excluir em definitivo que o fosse.

Mas não tenho dúvidas de que, como qualquer humano, um cão merece respeito, estudos de comportamento, de história, de necessidades e desejos. [3]


[1] Álvaro Siza, Propos recueillis à Paris par Laurent Beaudouin et Luis Mendes en Janvier 1994.

[2] Álvaro Siza, Outro Pequeno Projecto in Des mots de rien du tout/ Palavras sem importância. Textes réunis et traduits par Dominique Machabert. Edição bilingue. Publications de l’Université de Saint-Étienne, 35 rue du 11 Novembre. Saint-Étienne 2002. (pág. 102).

[3] Álvaro Siza, Uma Conferência no Porto in 02 Textos, Carlos Campos Morais, Parceria A. M. Pereira rua do Padre Américo 23 G, Esc.2 Lisboa 2018. (pág.23).


41. Geometria

Há geometria no poisar do pé. [1]



sv268

fig. 196 – Álvaro Siza, esquisso para Berlim.


Esta afirmação de Álvaro Siza e o desenho que escolhi onde surge um pé, surpreendem assim descontextualizados.

Para se entender a afirmação do arquitecto é necessário perceber que ele se refere à relação da Arquitectura com a música e a dança, com o fluir das formas e dos espaços – do geral ao detalhe ou o contrário, em alternância.

O texto completo:

Ouço uma sinfonia – ou um concerto de piano, ou a relação entre tema improvisado no jazz.

Uma nota segue-se a outra, de forma insubstituível – como que previa e sucessivamente anunciada.

Surgem por vezes inesperadas rupturas, de que num instante encontramos o sentido – ou retomar do percurso.

Assim acontece com a Arquitectura, com o fluir das formas e dos espaços – do geral ao detalhe ou o contrário, em alternância.

Assim acontece na sucessão de gestos de um bailarino.

Há geometria no poisar do pé. [2]



O escritor Gonçalo M.Tavares afirma que com os pés faz-se uma casa no chão; é verdade que poderíamos pensar que só as mãos permitiriam fazer uma construção vertical, que se elevasse do solo, mas não – os pés fazem um desenho. A janela, a porta. E tudo fica logo ali, anunciado. [3]

E num poema sobre a Dança esclarece que ela é o traçado da geometria no espaço, a partir do chão, exactamente como a Arquitectura.


A história da dança não é, não pode ser,

o Percurso dos Movimentos traçado no chão.

É, tem de ser, o Percurso dos Movimentos Traçado no ar.  [4]



E estas afirmações sobre a Dança e o Espaço remetem para o pintor Oskar Schlemmer, o professor de dança e teatro na Bahaus, que estudou a relação do actor ou do bailarino com o espaço que o envolve e que cria.

“Que partamos do espaço, da sua lei, do seu segredo, deixando-nos enfeitiçar por ele.

Com isto, novamente, está dito muito e não é dito nada, até o momento em que estes conceitos sejam sentidos e preenchidos.

Que nós partamos da situação do corpo, do ser, do estar em pé, do caminhar e somente no fim do saltar e do dançar.

Por que o dar um passo representa um importante acontecimento e nada menos do que isto, levantar uma mão, mexer um dedo.

Que nós tenhamos tanto respeito quanto consideração diante de cada acção do corpo humano, uma vez que no palco se manifesta este mundo especial da vida, do aparecer, esta segunda realidade, na qual tudo está circulando pelo brilho do mágico. [5]



sv242

fig. 197 - Oskar Schlemmer (1888-1943), Figure in space with plane geometry and spacial delineations, 1921, taken from Oskar Schlemmer, et al., The Theatre of the Bauhaus, Middleton- Wesleyan University Press, 1961.



E a geometria abre a linha para deixar passar a Imaginação. [6]



sv242a

fig. 198 - Oskar Schlemmer (1888-1943), Stick dance, 1928 in Oskar Schlemmer, Photo Archive C. Raman Schlemmer, 2016.



Jorge Luis Borges escreveu um poema dedicado a Descartes onde surgem os versos que qualquer arquitecto poderia subscrever:

He soñado la geometría.
He soñado el punto, la línea, el plano y el volumen.
[7]

De facto os arquitectos usaram e usam a(s) geometria(s) de muitas maneiras, para traçar os seus projectos.

Le Corbusier desenvolve inicialmente os seus projectos a partir de traçados reguladores e de módulos: Un module mesure et unifie; un tracé régulateur construit et satisfait. [8]

[Um módulo mede e unifica; um traçado regulador constrói e satisfaz.]


Em Vers une Architecture, Le Corbusier desenvolve a necessidade para o arquitecto do uso de traçados reguladores:

Puis, pour l'architecte encore les “Tracés Régulateurs”, montrant ainsi l'un des moyens par lesquels l'architecture atteint à cette mathématique sensible qui nous donne la perception bienfaisante de l'ordre. Nous avons voulu exposer là des faits qui valent mieux que des dissertations sur l'âme des pierres. Nous sommes restés dans la physique de l'oeuvre, dans la connaissance. [9]

[Então, para o arquiteto, os "Traçados Reguladores”, mostrando assim um dos meios pelos quais a arquitetura atinge essa matemática sensível que nos dá a benéfica percepção da ordem. Quisemos expor factos que valem mais do que dissertações sobre a alma das pedras. Ficamos na física da obra, no conhecimento.]

E sobre os Traçados Reguladores diz ainda Le Corbusier:

LES TRACÉS RÉGULATEURS
De la naissance fatale de l'architecture.
L'obligation de l'ordre. Le tracé régulateur est une assurance contre l'arbitraire. Il procure la satisfaction de l'esprit.
Le tracé régulateur est un moyen; il n'est pas une recette. Son choix et ses modalités d'expression font partie intégrante de la création architecturale
.
[10]

[OS TRAÇADOS REGULADORES

Do nascimento fatal da arquitetura.
A obrigação da ordem. O traçado regulador é uma segurança contra a arbitrariedade. Ele procura a satisfação do espírito.
O traçado regulador é um meio; não é uma receita. A sua escolha e os seus meios de expressão fazem parte integrante da criação arquitectónica.]



sv264a

fig. 199 - Le Corbusier, página 64 de Vers une Architecture, alçado da Maison La Roche 1923/25.



E posteriormente irá estabelecer uma geometria própria a partir do Modulor (de Module + Or) relacionando as proporções do corpo humano com a música:

Ce n’est pas la musique qui est une partie des mathématiques, mais au contraire, les sciences qui sont une partie de la musique, car elles sont fondées sur les proportions et la résonance du corps sonore engendre toutes les proportions. [11]

[Não é música que faz parte da matemática, mas, pelo contrário,as ciências que fazem parte da música, porque se baseiam em proporções e a ressonância do corpo sonoro engendra todas as proporções.]



sv243

fig. 200 – Le Corbusier, o Modulor. Fondation Le Corbusier.




Álvaro Siza sobre esta relação da arquitectura com a música também refere o modulor:

Outra coisa com que relaciono bastante a arquitectura é com a música de jazz. E o “modulor”, ao que parece, servia muito a LC para controlar a transgressão. [12]


E para Álvaro Siza esses traçados reguladores são um apoio ao controlo das propoções: peut-être un appui face au concept de proportion vis-à-vis duquel on a toujours une incertitude, même si nous pensons en dominer parfaitement les règles comme celles du nombre d’or.

L’appel des formes naturelles a toujours rempli le monde des images, mais cela peut être aussi un élément de discipline.

J’ai une certaine difficulté à faire une division bien séparée entre ce qui est abstrait et ce qui est organique. [13]

[…talvez um apoio ao conceito de proporção perante o qual sempre temos uma incerteza, mesmo que pensemos que dominamos perfeitamente as regras como as da proporção áurea.
O apelo das formas naturais sempre preencheu o mundo das imagens, mas isso também pode ser um factor de disciplina.
Eu tenho uma certa dificuldade em dividir e separar o que é abstracto e o que é orgânico.]



A geometria surge na Casa António Carlos Siza, projectada entre 1976 e 1978, como instrumento para a estruturação e organização visual dos espaços e para controlar o seu desenho.


sv199

fig. 201 – Esquisso do exterior da Casa António Carlos Siza 1976/78.



sv188

fig. 202 – Esquissos da Casa António Carlos Siza 1976/78.



sv272

fig. 203 – Esquissos da planta da Casa António Carlos Siza 1976/78.



sv198

fig. 204 – planta do piso térreo da Casa António Carlos Siza 1976/78.




E Álvaro Siza no projecto do Banco de Oliveira de Azeméis explora estes traçados reguladores, de forma a inserir o edifício na envolvente urbana prolongando-se na organização dos seus espaços interiores.



sv274

fig. 205 – Planta da agência bancária de Oliveira de Azeméis.



sv197

fig. 206 – Planta da agência bancária de Oliveira de Azeméis.


sv273

fig. 207 – A agência bancária de Oliveira de Azeméis.


[1] Álvaro Siza, Há geometria no poisar do pé. (4 de Maio de 2015) in Álvaro Siza,Textos 02 Carlos Campos Morais Parceria António Maria Pereira rua do Padre Américo 23 G.Esc.2. Lisboa 2018. (pág.151).

[2] Álvaro Siza, Há geometria no poisar do pé. 4 de Maio de 2016 in Textos 02 Carlos Campos Morais Parceria António Maria Pereira rua do Padre Américo 23 G.Esc.2. Lisboa 2018 (pág.151).

[3] Gonçalo M. Tavares, Atlas do Corpo e da Imaginação, Editorial Caminho, Grupo Leya, Amadora 2013. (pág. 046).

[4] Gonçalo M. Tavares in o Livro da Dança, Assírio & Alvim, 2001.

[5] Oskar Schlemmer (1888-1943), Diário, Maio 1929 apud Institut fur Auslandsbeziehungen. Stuttgart: Bauhaus, 1974. (pág. 85).

[6] Gonçalo M. Tavares, O Futuro Sai da Fenda e da Ferida in Investigações. Novalis ed. Difel 2002.

[7] Jorge Luis Borges, Descartes in Selected Poems, Edited by Alexander Coleman Penguin Books 1999, (pág. 422).

[8] Le Corbusier, in Vers une Architecture Nouvelle édition revue et augmentée, Les Éditions G. Crès et Cie. 21, Rue Hautefeuille, 2. Paris 1924. (pág. 55).

[9] Le Corbusier in Vers une Architecture Nouvelle édition revue et augmentée, Les Éditions G. Crès et Cie. 21, Rue Hautefeuille, 2. Paris 1924. (pág.8).

[10] Le Corbusier, in Vers une Architecture. Nouvelle édition revue et augmentée, Les Éditions G. Crès et Cie. 21, Rue Hautefeuille, 2. Paris 1924. (pág VIII).

[11] Le Corbusier, Le Modulor: essai sur une mesure harmonique à l'échelle humaine applicable universellement à l'architecture et à la mécanique, Édition de l'Architecture d'Aujourd'hui, 1950.

[12] Álvaro Siza, Conversas no obradoiro, Manel Somoza, Editoria Verlibros, Ourense 2007. (pág.72).

[13] Álvaro Siza, Entrevista Dezembro de 1991 por Laurent Beaudouin para L’Architecture d’Aujourd’hui N° 278. Décembre 1991.




42. Arquitecto e Engenheiro, estrutura e construção


Le Corbusier afirmava já em Vers une Architecture a necessidade de complementar o fazer do Engenheiro com o do Arquitecto:

Esthétique de l'Ingénieur, Architecture, deux choses solidaires, consécutives, l'une en plein épanouissement, l'autre en pénible régression.
L'ingénieur, inspiré par la loi d'Économie et conduit par le calcul, nous met en accord avec les lois de l'univers.
L'architecte, par l'ordonnance des formes, réalise un ordre qui est une pure création de son esprit; par les formes, il affecte intensivement nos sens, provoquant des émotions plastiques; par les rapports qu'il crée, il éveille en nous des résonances profondes, il nous donne la mesure d'un ordre qu'on sent en accord avec celui du monde, ce que nous ressentons comme la beauté.
[1]

[Estética do Engenheiro, Arquitectura, duas coisas solidárias, consecutivas, uma em pleno desenvolvimento, a outra em dolorosa regressão.
O engenheiro, inspirado pela lei da Economia e guiado pelo cálculo, coloca-nos de acordo com as leis do universo.
O arquitecto, pela organização das formas, realiza uma ordem que é uma pura criação do espírito; pelas formas, afecta intensamente os nossos sentidos, provocando emoções plásticas; pelas relações que ele cria, ele desperta em nós ressonâncias profundas, dá-nos a medida de uma ordem que sentimos de acordo com a do mundo, o que nós sentimos como a beleza.]

E lança três Advertências aos Senhores Arquitectos: o Volume, a Superfície e o Plano.

LE VOLUME
Nos yeux sont faits pour voir les formes sous la lumière.Les formes primaires sont les belles formes parce qu'elles se lisent clairement. Les architectes d'aujourd'hui ne réalisent plus les formes simples.
Opérant par le calcul, les ingénieurs pratiquent les formes géométriques, satisfaisant nos yeux par la géométrie et notre esprit par la mathématique; leurs œuvres s'approchent du grand art.

[Os nossos olhos são feitos para ver as formas sob a luz. As formas primárias são as mais belas formas porque são lidas claramente. Os arquitetos de hoje não mais realizam formas simples.
Operando pelo cálculo, os engenheiros praticam formas geométricas, satisfazendo os nossos olhos pela geometria e nossa mente pela matemática; as suas obras aproximam-se da grande arte.]


LA SURFACE
Un volume est enveloppé par une surface, une surface qui est divisée suivant les directrices et les génératrices du volume, accusant l'individualité de ce volume.
Les architectes ont, aujourd'hui, peur de la géométrie des surfaces,
Les grands problèmes de la construction moderne seront réalisés sur la géométrie.
Assujettis aux strictes obligations d'un programme impératif, les ingénieurs emploient les génératrices et les accusatrices des formes. Ils créent des faits plastiques limpides et impressionnants.

[Um volume é envolvido por uma superfície, uma superfície que é dividida de acordo com as directrizes e as geradoras do volume, mostrando a individualidade desse volume.
Os arquitetos receiam hoje a geometria das superfícies,
Os principais problemas da construção moderna serão realizados na geometria.
Sujeito às estritas obrigações de um programa imperativo, os engenheiros usam os elementos geradores e as definições das formas. Eles criam factos plásticos límpidos e impressionantes.]



LE PLAN
Le plan est le générateur.
Sans plan, il y a désordre, arbitraire.
Le plan porte en lui l'essence de la sensation.
Les grands problèmes de demain, dictés par des nécessités collectives, posent à nouveau la question du plan.
La vie moderne demande, attend un plan nouveau, pour la maison et pour la ville.
[2]

[O plano (a planta) é o gerador.
Sem um plano (uma planta), há desordem, arbitrário.
O plano (a planta) carrega em si a essência da sensação.
Os grandes problemas do amanhã, ditados pelas necessidades coletivas, levantam novamente a questão do plano (da planta).
A vida moderna exige, espera um novo plano (uma nova planta), para a casa e para a cidade.]

E Le Corbusier posteriormente em l’espace indicible, aperfeiçoa a sua concepção do trabalho do engenheiro afirmando:

Aujourd'hui où l'architecte remet à l'ingénieur une part de son travail et de sa responsabilité, l'accession à la profession ne devrait être consentie qu'aux individus dûment dotés du sentiment de l'espace, faculté que la méthode synthétique de diagnostic de l'individualité se charge de déceler. [3]

[Hoje, quando o arquiteto remete para o engenheiro uma parte do seu trabalho e da sua responsabilidade, o acesso à profissão apenas deveria ser concedido a indivíduos devidamente dotados do sentimento de espaço, faculdade essa que o método sintético de diagnóstico da individualidade se encarrega de detectar.]



Álvaro Siza ao projectar o Reservatório de Água no campus universitário de Aveiro, salienta que foi concebido como uma escultura, e refere a sua colaboração exemplar com o engenheiro e a importância da geometria.



sv207

fig. 208 - Álvaro Siza, Reservatório de Água na Universidade de Aveiro (1988-1989).


Álvaro Siza  concebe o depósito como uma escultura, como um objecto na paisagem.

Le thème d’un château d’eau n’est pas celui d’une structure qu’on expérimente de l’intérieur, c’est un objet dans le paysage. [4]

[O tema de um depósito de água não é de uma estrutura que se experimente do interior, é um objecto na paisagem.]

E Álvaro Siza prossegue falando da colaboração com o engenheiro:

Je me souviens, par exemple, des conversations que l’on a eues sur Aveiro, où je posais une hypothèse et il disait: ça non. Il m’expliquait pourquoi et comment combattre, résister au vent. Ainsi, petit à petit, on a construit cette image, avec des apports des deux côtés. On peut dire qu’il y a eu rencontre, dialogue, entre deux recherches parallèles. C’est beau de travailler comme cela avec un ingénieur car c’est comme si nous devenions une seule personne. [5]

[Lembro-me, por exemplo, das conversas que tivemos em Aveiro, onde apresentei uma hipótese e ele respondia: isso não. Explicou-me porquê e como combater, resistir ao vento. Assim, pouco a pouco, construímos essa imagem, com contribuições de ambos os lados. Podemos dizer que houve encontro, diálogo, entre duas pesquisas paralelas. É bom trabalhar assim com um engenheiro porque é como se nos tronássemos uma só pessoa.]



sv207a

fig. 209 – Álvaro Siza, Cortes do Reservatório de Água na Universidade de Aveiro (1988-1989).



E Álvaro Siza refere ainda a geometria:

Il m’arrive de voir dans le château d’eau d’Aveiro comme une grande bête dans le paysage, avec une tête et un énorme cou de girafe.

Pourtant, je travaille toujours à partir de la géométrie, c’est la discipline des formes abstraites géométriques qui rend possible la construction.

Cela ne veut pas dire qu’à l’intérieur de cette géométrie, il n’y ait pas des renseignements qui peuvent venir directement du monde de la nature.

Il y a toujours opposition et complémentarité entre ce qui est naturel et ce qui est construit.   [6]

[Acontece que vejo a torre de água de Aveiro como uma grande fera na paisagem, com uma cabeça e um enorme pescoço de girafa.

No entanto, trabalho sempre a partir da geometria, é a disciplina de formas abstractas geométricas que torna possível a construção.

Isso não significa que dentro dessa geometria não haja informações que possam vir directamente do mundo da natureza.

Há sempre oposição e complementaridade entre o que é natural e o que é construído.]



sv207b

fig. 210 – Álvaro Siza, Reservatório de Água na Universidade de Aveiro (1988-1989).


[1] Le Corbusier, in Vers une Architecture Nouvelle édition revue et augmentée, Les Éditions G. Crès et Cie. 21, Rue Hautefeuille, 2. Paris 1924. (pág. VIII).

[2] Le Corbusier, in Vers une Architecture Nouvelle édition revue et augmentée, Les Éditions G. Crès et Cie. 21, Rue Hautefeuille, 2. Paris 1924. (pág.8).

[3] Le Corbusier, L’espace Indicible in L’Architecture d’Aujourd’hui, numéro hors-série spécial Art , Avril 1946, (pág. 9 a 17).

[4] Álvaro Siza, Entrevista Dezembro de 1991 por Laurent Beaudouin para L’Architecture d’Aujourd’hui N° 278. Décembre 1991.

[5] Álvaro Siza, Entrevista Dezembro de 1991 por Laurent Beaudouin para L’Architecture d’Aujourd’hui N° 278. Décembre 1991.

[6] Álvaro Siza, Entrevista Dezembro de 1991 por Laurent Beaudouin para l’Architecture d’Aujourd’hui n° 278. (pág.66).



43. Breves reflexões sobre os materiais e os pormenores

Álvaro Siza confessa a dificuldade inicial de escolher os materiais.

Mal sei que materiais escolher. As ideias vêm-me imateriais, linhas sobre um papel branco e quando quero fixá-las tenho dúvidas, escapam, esperam distantes. [1]

E, a propósito do Bairro da Malagueira reflecte sobre o uso dos materiais locais ou importados de outras regiões.

J’ai trouvé que c’était très important de pouvoir mettre un matériau non local dans Malagueira, cela signifiait une augmentation d’urbanité, d’ouverture.

L’utilisation de matériaux locaux n’est pas pour moi un principe, si un jour, je peux utiliser du porphyre, je serai très content évidemment. Je crois que ce qui m’intéresse dans la construction d’une ville, c’est sa capacité de transformation, quelque chose qui ressemble au développement d’un homme qui a, dès sa naissance, certaines caractéristiques et une autonomie suffisante, une structure de base, pouvant accueillir ou résister aux changements de la vie.

Cela ne signifie pas une perte d’identité.

Ce qu’on a construit à Malagueira, c’est comme le point zéro d’une ville ou plus exactement, non pas le zéro mais ce qui suit immédiatement le zéro.

Alors, quand est arrivé le granit du nord, ce qui m’intéressait tellement, c’est que cette partie de ville avait déjà la force, la structure pour importer le granit et utiliser une main d’œuvre d’une autre région. [2]

[Achei muito importante poder colocar um material não local na Malagueira, isso significou um acréscimo de urbanidade, de abertura.
O uso de materiais locais não é para mim um princípio, se um dia eu puder usar pórfiro, ficarei muito feliz, claro. Acredito que o que me interessa na construção de uma cidade é sua capacidade de transformação, algo que se assemelha ao desenvolvimento de um homem que tem, desde o nascimento, certas características e autonomia suficiente, uma estrutura básica, capaz de acomodar ou resistir às mudanças da vida.
Isso não significa perda de identidade.
O que construímos na Malagueira é como o ponto zero de uma cidade, ou mais exatamente, não zero, mas o que imediatamente segue o zero.
Então, quando o granito do norte chegou, o que mais me interessou foi que esta parte da cidade já tinha a força, a estrutura para importar o granito e usar uma mão-de-obra de outra região.]




E Álvaro Siza confessa ainda a dificuldade da pormenorização de uma obra e como por vezes é no estaleiro que esses pormenores de definem.



sv276

fig. 211 – Álvaro Siza, esquissos do Bairro da Malagueira Évora 1977.




Os pormenores difíceis cansam-me. Definitivamente cansam-se, enquanto tentam cansar-nos, na ânsia de escapar. A obra surge e atira-nos à cara o rosto do cansaço. Emudecem, ou emergem gritando, desafiando a acalmia dos desejos. (…)

Quando nos é permitido, em domingos desertos, percorremos a obra, como quem percorre o que lhe é alheio, vadio inconsciente de procura até ao encontro.

A construção é quase igual a uma ruína.



sv277

fig. 212 – A Casa de Chá da Boa Nova em construção, c. 1958. CMM.



Desenhamos. Redesenhamos. Povoamos o vazio de imagens possíveis – uma, duas, trezentas. Caem corpos de imagens virtuais.

É então que os pormenores difíceis se cansam, e um a um se entregam, deixando de ser um.

A ruina – a construção – sara.

A paz regressa à Terra. A menos que … [3]



sv277a

fig. 213 - A Casa de Chá da Boa Nova em construção, c. 1958. CMM.




Em outra entrevista Álvaro Siza responde sobre ao apelo que por vezes surge de alterar este ou aquele espaço ou pormenor durante a edificação.

J’ai eu la possibilité et l’exigence de faire de nombreuses visites de chantiers, au moins une journée chaque semaine.

J’avais aussi des entreprises et un maître d’ouvrage décidés à obtenir le maximum du bâtiment.

Rien ne peut remplacer l’expérience pas à pas du développement des espaces.

Ces découvertes permettent d’envisager, non pas des changements, mais surtout des approfondissements des rapports entre les espaces.

Mais je souffre constamment aujourd’hui parce que cela devient de plus en plus impossible.

Les détails préétablis ne peuvent remplacer la richesse d’ouverture de l’expérience graduelle d’un bâtiment, mais pour cela, il faut avoir un contrôle rigoureux préalable, il faut que les détails soient étudiés, il faut que le planning soit bien aménagé, après, cela ouvre des possibilités d’aller beaucoup plus loin.

Sans ce contrôle préalable, il y a des difficultés à introduire des découvertes nouvelles.

Dans la structure actuelle, c’est de plus en plus difficile et cela explique que nos œuvres sont d’une certaine pauvreté si l’on songe aux œuvres du passé.

Ici, j’ai eu cette possibilité, j’ai changé des détails, j’ai ouvert des fenêtres ou j’en ai agrandi la hauteur, j’ai abaissé le toit, j’ai pu faire des essais grandeur sur place. Si cela n’existe pas, il y a une dimension de l’architecture qui est perdue. [4]

[Eu tive a oportunidade e sempre exigi fazer muitas visitas ao estaleiro, pelo menos um dia por semana.
Eu também tive empresas e um mestre-de-obras decididos a tirar o máximo do edifício.
Nada pode substituir a experiência passo a passo do desenvolvimento do espaço.
Essas descobertas permitem visualizar, não mudanças, mas principalmente aprofundar as relações entre os espaços.
Mas sofro constantemente porque hoje se torna cada vez mais impossível.
Os detalhes pré-estabelecidos não podem substituir a riqueza de abertura da experiência progressiva da construção de um edifício, mas para isso, é necessário ter um controle rigoroso prévio, é necessário que os pormenores sejam estudados, é necessário que o planeamento seja bem organizado, e depois disso, abre-se a possibilidade de ir muito mais longe.
Sem esse controlo prévio, torna-se difícil a introdução de novas descobertas.
Na estrutura atual é cada vez mais difícil e isso explica que nossos trabalhos mostrem certa pobreza quando se pensa nas obras do passado.
Aqui, eu tive essa possibilidade, eu mudei os pormenores, abri janelas ou aumentei a altura, baixei o telhado, pude fazer testes à escala natural no local. Se isso não existir, há uma dimensão da arquitetura que se perde.]



sv190

fig. 214 - A Casa de Chá da Boa Nova em construção, c. 1958. CMM.


[1] Álvaro Siza, Materiais, in 01- Textos Álvaro Siza. Civilização Editora, rua Alberto Aires Gouveia, 27. Porto 2009. (pág.47).

[2] Álvaro Siza, Propos recueillis en Décembre 1991 à Porto par Laurent BEAUDOUIN pour l’Architecture d’Aujourd’hui N° 278.

[3] Álvaro Siza, Desenho de pormenor (detalhe, do frances detail) in 01- Textos Álvaro Siza. Civilização Editora, rua Alberto Aires Gouveia, 27. Porto 2009. (pág.219).

[4] Álvaro Siza, Propos recueillis à Paris par Laurent Beaudouin et Luis Mendes en Janvier 1994.




44. Mobiliário



Frank Lloyd Wright concebia a sua arquitectura “orgânica” como uma unidade entre a estrutura, o interior, o mobiliário e o ornamento desenhados de uma forma integrada. Projectava todas as características do edifício como um todo expressando uma única ideia que se manifestava no exterior, na estrutura, no interior, nos pormenores e em todos os objetos.

E Frank Lloyd Wright lembrava: Organique signifie que la partie est au tout comme le tout est à la partie. [1]

[Orgânico significa que a parte está para o todo como o todo está para a parte.]


E Wright também afirma que any building should be complete, including all within itself. Instead of many things one thing…  It is the first principle of any growth that the thing grown be no mere aggregation… And integration means that no part of anything is of any great value except as it be an integrated part of the harmonious whole. [2]

[Qualquer edifício deve ser completo, incluindo tudo dentro de si. Em vez de muitas coisas, uma coisa ... É o primeiro princípio de qualquer crescimento que a coisa cultivada não é mera agregação ... E integração significa que nenhuma parte de qualquer coisa é de grande valor, excepto por ser uma parte integrada de um todo harmonioso.]


Na Robie House, todo o mobiliário é desenhado por forma a cumprir a sua função mas sempre numa totalidade e numa relação com toda a arquitectura da casa, envolvendo os sentidos do utente ou do visitante pela cor e textura dos materiais.



sv214c

fig. 215 – F. L. Wright, interior da Robbie House.



E na Casa Mossberg surgem os bancos corridos integrados na pormenorização da sala.


fig. 216 – F. L. Wright, interior da Casa Herman T. Mossberg, South Bend, Indiana, 1948.



Fernando Távora, também desenvolve esta ideia, ao escrever que em toda a boa arquitectura existe uma lógica dominante, uma profunda razão em todas as suas partes, uma íntima e constante força que unifica e prende entre si todas as formas, fazendo de cada edifício um corpo vivo, um organismo com alma e linguagens próprias. [3]



Álvaro Siza quando refere Frank Lloyd Wright aponta exactamente esse aspecto da sua arquitectura:

Interessa-me o conceito de orgânico em arquitectura no sentido que Frank Lloyd Wright propõe: relacionamento entre todos os elementos da construção, de tal modo que o todo e as partes geram e influenciam mutuamente. Sincretismo e não pressupostos formais. [4]


E Bernardo Pinto de Almeida ao escrever sobre os desenhos de Álvaro Siza também aponta que não sendo soma de detalhes mas corpo orgânico, cada aspecto deve inscrever em si o sinal do todo, como o todo deve ter uma respiração comum que afecte todos os aspectos. [5]



Sobre o mobiliário Álvaro Siza começa por apontar o que inicialmente desenhou sempre pensado para os espaços que projectou.

O design tem limites pouco definíveis, sendo parte de um processo, sem soluções de continuidade, que inclui igualmente plano e projecto. O desenho do mobiliário, por exemplo, não pode abstrair-se da concepção do espaço a que pertence, enquanto ao mesmo tempo a obtenção de uma correcta relação entre as escalas diversas depende também das possibilidades de uso de cada uma das partes. Existe portanto uma relação, e em conjunto uma clarificação recíprocas, definidas por dois extremos. [6]



E ao desenhar os interiores e o mobiliário da Casa de Chá da Boa Nova, Álvaro Siza lembra que

Os primeiros móveis que desenhei nasceram da experimentação de protótipos, no ambiente a que eram destinados. A aproximação do desenho era portanto bastante prudente e igualmente segura. [7]


Assim estes móveis foram pensados e desenhados especificamente para esse edifício. Como em Wright todo o mobiliário se relaciona quer pela forma quer pelos materiais utilizados com todo o edifício.

O banco corrido da sala de chá faz parte integrante da pormenorização da sala, constituindo um todo contínuo com o lambrim, o rodapé, as ombreiras da porta e as caixilharias.



sv205

fig. 217 – Álvaro Siza, interior da Casa de Chá da Boa Nova.



sv196

fig. 218 – Álvaro Siza, esquissos do mobiliário da Casa de Chá.


Os dois candeeiros com o suporte em madeira e com os quebra-luz em folha de madeira de Azifélia, são ainda actualmete fabricados apenas com pequenas correcções.



sv208b

fig. 219 – Álvaro Siza, Candeeiro Boa Nova I, e projecto inicial.




sv209d

fig. 220 – Álvaro Siza, Candeeiro Boa Nova II. A Base é feita em madeira de Azifélia e o Quebra-Luz em folha de madeira de Azifélia.Dimensões: 24 x 15 cm.



O mobiliário é completado pelos bancos, mesas e poltronas.



sv205a

fig. 221 – Álvaro Siza, interior da Casa de Chá da Boa Nova.




sv219d

fig. 222 – Álvaro Siza, poltrona Boa Nova.


Mas Álvaro Siza cedo compreendeu que não era possível manter o distanciamento pelo "design" ou seja que o desenho de objectos ou elementos de construção não pudessem adquirir uma autonomia e serem produzidos e fabricados industrialmente.

Assim constata que com a solicitação de produção em série, tornou-se muito claro que esta relação directa e exclusive com o espaço é débil, sendo demasiado redutora. É necessário num certo ponto do processo libertar o projecto de uma dependência completa. O desenho de um móvel começa assim a alcançar uma maior autonomia e adquire uma certa singularidade. A qualidade do resultado depende desta procura, ao mesmo tempo de autonomia e de capacidade de se relacionar. Em tal processo, a ajuda mais importante é dada pela percepção da essência de cada móvel: essencialmente o que é? [8]

E Álvaro Siza reflecte por isso Sobre a dificuldade de Desenhar um móvel.

(…)

2) O desenho de um móvel não pode ser senão definitivo. Não há referências fixas de escala, de ambiente, de necessidade. Existe o corpo, que se transforma tão lentamente que pode usar cadeira egípcia. Despidos os objetos, existe a história de meia dúzia de formas. A imaginação voa entre essas formas, a baixa altura, se descontarmos aprendizes impacientes.

3) É preciso saturar o desenho de íntima segurança, serenidade, alguma coisa do incompleto que é, alguma instabilidade para que algo receba do que o rodeia - assim se transformando. Para que não se desfaça e nada desfaça, subitamente inundando o espaço, logo tornando ao anonimato.

4) O objeto perfeito será um espelho sem moldura nem lapidado - o fragmento de um espelho – poisado no chão ou encostado a um muro. Nele um míope observa formas, sombras em movimento, reflexos de reflexos. Assim se alimenta o desenho. [9]


E Álvaro Siza para além da revisão deste mobiliário da Boa Nova, agora produzido de uma forma autónoma, elaborou um conjunto de peças de mobiliário (candeeiros, cadeiras e sofás, aparadores, vidros e ceramicas, etc.) e de pormenores de construção (puxadores, fechos de portas e janelas, etc.), alguns dos quais se tornaram “clássicos” do design ou do mobiliário moderno.


[1] Frank Lloyd Wright (1867-1959), L’avenir de l’architecture (1953). Editions du Linteau, Paris, 2003. (pág.359).

[2] Frank Lloyd Wright, An Autobiography, 1932. Barnes & Noble, NY 1998.

[3] Fernando Távora (1923-2005), O Problema da Casa Portuguesa 1945.

[4] Álvaro Siza, Frank Lloyd Wright in 01- Textos Álvaro Siza. Civilização Editora, rua Alberto Aires Gouveia, 27. Porto 2009. (pág. 85).

[5] Álvaro Siza, Essencialmente, in 01- Textos Álvaro Siza. Civilização Editora, rua Alberto Aires Gouveia, 27. Porto 2009. (pág.237).

[6] Álvaro Siza, Essencialmente in 01- Textos Álvaro Siza. Civilização Editora, rua Alberto Aires Gouveia, 27. Porto 2009. (pág.237).

[7] Álvaro Siza, 01- Textos Álvaro Siza. Civilização Editora, rua Alberto Aires Gouveia, 27. Porto 2009. (pág.237).

[8] Álvaro Siza, Essencialmente in 01- Textos Álvaro Siza. Civilização Editora, rua Alberto Aires Gouveia, 27. Porto 2009. (pág.237).

[9] Álvaro Siza, Sobre a Dificuldade de Desenhar um Móvel (1984), in 01- Textos Álvaro Siza. Civilização Editora, rua Alberto Aires Gouveia, 27. Porto 2009. (pág.95).


CONTINUA

arquitecto

Sem comentários:

Enviar um comentário