Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















segunda-feira, 25 de junho de 2018

Apontamentos um pouco dispersos sobre Arquitectura e Desenho. 1

Algumas reflexões sobre desenhos e obras de Álvaro Siza e de Le Corbusier percorrendo os seus escritos .

I parte 1 a 11.




1 . Le Corbusier (1887 -1965)

No princípio era Corbu. [1] Álvaro Siza


sv1fig. 1 – Le Corbusier, Esquisso da Ville Savoy 1929.


sv2fig. 2 – Le Corbusier, Esquisso para a Carta de Atenas.



Lembra Álvaro Siza: In effetti, negli Anni Cinquanta, quando ho cominciato a studiare, ce n’era uno solo: Le Corbusier. Questa era la situazione in Portogallo, dove per ragioni diverse l’informazione era limitata e condizionata. [2]

[Na verdade, nos anos cinquenta, quando comecei a estudar, havia apenas um: Le Corbusier. Esta era a situação em Portugal, onde por diferentes motivos as informações eram limitadas e condicionadas.]


2. outras influências


E Álvaro Siza descreve como no pós-guerra para além de Le Corbusier se multiplicaram as influências.

Dopo la guerra mondiale c’è stata invece una timida apertura, con un aumento nella produzione e diffusione di libri e riviste. Quindi in poco tempo le influenze si sono moltiplicate. Ma in assoluto sì, direi Le Corbusier. [3]

[Depois da guerra mundial, houve uma tímida abertura, com um aumento na produção e difusão de livros e revistas. Então, em pouco tempo, as influências multiplicaram-se. Mas absolutamente sim, eu diria Le Corbusier.]

Essas influências que se multiplicaram foram essencialmente uma nova atenção dada às arquitecturas de Wright e Mies nos Estados Unidos e sobretudo Aalto na Europa.

Já que os tempos estavam a mudar e o que chegava de fora.

As novas publicações davam conta do que se fazia e onde e como e quem. Reconstruia-se a Europa. [4]

Álvaro Siza refere que naquele momento, havia no Porto e Lisboa um grupo de jovens arquitetos com grande entusiasmo e uma grande curiosidade por entrar em contato com o contexto internacional. Recordo que as revistas de arquitetura se centravam, então, no debate entre a recuperação de uma arquitetura local, nacional e a incorporação de tendências internacionais, de uma arquitetura mais abstrata e funcionalmente determinada. [5]

[Nota – preferiu-se usar fotos a preto e branco dentro do possível da época já que era o modo como então se ia conhecendo a arquitectura através das (poucas) publicações a que se tinha acesso. As realizações em Portugal ou mais recentes mostram-se já a cores]

Frank Lloyd Wright (1867-1959)

E tornavam-se então conhecidas as obras de F.L. Wright (1867-1959) através dos livros de Bruno Zevi e da revista Architettura que então dirigia.

No Porto lembro-me de uma conferência de Robert Chester Smith (1912 - 1975) na Escola de Belas Artes em que mostrou belíssimas fotografias das obras do arquitecto americano.



sv3fig. 3 - Frank Lloyd Wright, Robbie House Chicago 1908-1910.


sv4fig. 4 - Frank Lloyd Wright, Fallingwater Bear Run,1935-1937.


Sobre F. L. Wright diz Siza: Interessa-me o conceito de orgânico em arquitectura no sentido que Frank Lloyd Wright propõe: relacionamento entre todos os elementos da construção, de tal modo que o todo e as partes geram e influenciam mutuamente. Sincretismo e não pressupostos formais. [6]

Alvar Aalto (1898-1976)

E Alvar Aalto começa a ser conhecido através da L’Architecture d’Aujourd’hui como afirma Álvaro Siza lembrando um conselho do Mestre Carlos Ramos: …a primeira crítica que me fez o Mestre Carlos Ramos, que andava pelos estiradores a ver o trabalho, foi: “Você vê-se que não tem nenhuma informação sobre arquitectura. Tem que comprar umas revistas e adquirir informação”. E, de facto, fui, sempre com o meu pai, comprar quatro “Architecture Aujourd’hui”, que era a única revista que chegava. Apanhei por sorte dois números monográficos. Um sobre o Gropius, director da Bauhaus, que conhecia porque o Carlos Ramos era bauhausiano. Mas o outro não: era o Alvar Aalto. Entusiasmou-me muitíssimo. Era uma coisa fresca, nova em relação aos modelos anteriores, óptimos também, cuja figura dominante era o Corbusier. [7]

E em outro texto: Alguém me aconselhou a procurar a informação alargada que não tinha numa revista chamada Architecture d’Aujourd’hui. Comprei seis números ao acaso, entre os quais o de Maio de 1950. [8]


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fig. 5 - “aalto”. n.º 29 de L’Architecture d’Aujourd’hui, Mai 1950.



sv6fig. 6 – Alvar Aalto (1898-1976), Biblioteca de Viipuri 1927/35.



sv7fig. 7 - Alvar Aalto (1898-1976), Baker House, MIT 1948



E no mesmo texto lembra Álvaro Siza: Não posso esquecer esse primeiro contacto com a obra de Alvar Aalto, tal como estava publicada e analisada, a fascinação e emoção com que vi pela primeira vez as fotografias de Viipuri e do dormitório de estudantes do M.I.T., as curvas dos objectos de madeira, aço, vidro, couro, cobre – as curvas dos lagos da Finlândia. Ou aquela fábrica de geometria implacável, nascendo de um maciço rochoso – natureza e betão como Material de Arquitectura. [9]

Nos finais dos anos 50 é projectada e construída a Maison Louis Carré perto de Paris uma obra de Aalto que, pela relativa proximidade, a colocava ao alcance da visita dos (arquitectos) portugueses.



sv8fig. 8 - Alvar Aalto (1898-1976), Casa Louis Carré 1957-1960.


Em 1977 Álvaro Siza refere-se de novo a Aalto contextualizando a sua arquitectura e a importância que teve na sua geração.

Les meilleures œuvres d’Aalto ont été réalisées après la guerre, dans une période où un grand mouvement collectif tentait de relever la Finlande de ses ruines, et d’affirmer son identité. Les œuvres d’Aalto de cette période, par la capacité qu’il avait de comprendre et d’être impliqué dans ce mouvement, reflètent toute la complexité tout l’effort d’un pays. Pour moi, c’est le grand moment d’Aalto.

[As melhores obras de Aalto foram feitas depois da guerra, numa época em que um grande movimento coletivo tentava tirar a Finlândia das suas ruínas e afirmar sua identidade. As obras de Aalto desse período, pela capacidade que tinha de compreender e se envolver nesse movimento, reflectem toda a complexidade e todo o esforço de um país. Para mim, este é o grande momento de Aalto.]

Je pense qu’il n’est pas possible d’inventer une complexité, c’est trop abstrait. Dans le cas d’Aalto, c’est la conjonction entre une complexité réelle, un effort collectif de reconstruction et un architecte qui a beaucoup de références, dans un pays un peu éloigné du point de vue culturel des grands centres artistiques comme Paris. Il a su faire un recueil de tout çà et s’en servir comme d’un outil dans un contexte qui permet d’en faire une application qui va dans le sens des intérêts collectifs. C’est un moment rare pour un architecte. [10]

[Eu acho que não é possível inventar uma complexidade, é muito abstracto. No caso de Aalto, é a conjunção entre uma complexidade real, um esforço coletivo de reconstrução e um arquiteto que tem muitas referências, num país um pouco distante do ponto de vista cultural dos grandes centros artísticos como Paris. Ele soube fazer uma recolha de tudo isso e dela se servir como um instrumento em um contexto que permitia onde era possível aplica-lo no sentido dos interesses coletivos. É um momento raro para um arquitecto.]

E mais tarde Siza refere a influência de Aalto nos arquitectos da sua geração.

On ne peut pas dire cela d’Aalto, qui lui a influencé  d’une manière explosive plutôt les architectes dans les années 50. [11]

[Não podemos dizer o mesmo de Aalto, já que ele influenciou de uma maneira explosiva sobretudo os arquitectos nos anos 50.]


[1] Álvaro Siza, Óscar Niemeyer – por ocasião do 100º Aniversário in 01- Textos Álvaro Siza. Civilização Editora, rua Alberto Aires Gouveia, 27. Porto 2009. (pág.371).

[2] Giulia Mura, La sacralitá dell’architettura. Conversazione com Álvaro Siza. In Álvaro Siza al Maxxi, Roma 5 settembre 2015.

[3] Giulia Mura, La sacralitá dell’architettura. Conversazione com Álvaro Siza. In Álvaro Siza al Maxxi, Roma 5 settembre 2015.

[4] Álvaro Siza, Óscar Niemeyer – por ocasião do 100º Aniversário in 01- Textos Álvaro Siza. Civilização Editora, rua Alberto Aires Gouveia, 27. Porto 2009. (pág.371).

[5] Álvaro Siza, El Croquis 68/69+95, Madrid 2000 (pág. 20).

[6] Álvaro Siza, in 01- Textos Álvaro Siza. Civilização Editora, rua Alberto Aires Gouveia, 27. Porto 2009. (pág.85).

[7] Álvaro Siza, Entrevista a Anabela Mota Ribeiro. Revista Pública, Abril de 2009.

[8] Álvaro Siza, Alvar Aalto: algumas referências à sua influência em Portugal in 01- Textos Álvaro Siza. Civilização Editora, rua Alberto Aires Gouveia, 27. Porto 2009. (pág.211).

[9] Álvaro Siza, Alvar Aalto: algumas referências à sua influência em Portugal in 01- Textos Álvaro Siza. Civilização Editora, rua Alberto Aires Gouveia, 27. Porto 2009. (pág.211).

[10] Álvaro Siza 1977 in Entretien avec Álvaro Siza in Architecture Mouvement Continuité AMC, n.º44 1978.

[11] Álvaro Siza. Entrevista em Dezembro de 1991 por Laurent Beaudouin para l’Architecture d’Aujourd’hui n° 278 de 1 de Dezembro de 1991.


2. Bibliotecas

E sobre a influência de Alvar Aalto salienta Álvaro Siza o seu método de projectação: A Arquitectura de Alvar Aalto – um homem que não se permitia falar demasiado de método - destaca-se contudo, e de forma exemplar, enquanto proposta metodológica. Através da obra realizada e de alguns escritos, que continuarão sem dúvida a ter profunda influência na prática e na aprendizagem da arquitectura.

Aalto propõe a projectação não como processo linear, da análise à síntese, mas como processo contínuo, aberto, complexo e englobante.

Demonstra que o desenho nasce do diálogo permanente entre o que preexiste e o desejo colectivo de transformação. [1]

O ambiente, a “atmosfera” e a simetria da sala de leitura da Biblioteca de Viipuri será de certo modo reconstruída mais tarde por Álvaro Siza nas diferentes bibliotecas que projectará.



sv9fig. 9 – Alvar Aalto (1898-1976), Biblioteca de Viipuri 1927/35.



sv10fig. 10 - Alvar Aalto (1898-1976), Biblioteca de Viipuri 1927/35.


Em 1995 sobre as bibliotecas, Álvaro Siza, depois de citar diversas bibliotecas que desapareceram entre elas a de Viipuri (destruída durante a guerra e depois reconstruída), refere que Gosto das bibliotecas antigas.

Gosto da ordem das estantes, das etiquetas em latão e dos candeeiros individuais em bronze e seda, anónimos, intimistas, das escadas de navio e das estreitas galerias de ferro, onde a procura de um livro é uma viagem – não isenta de perigos.

E Siza assinala que a biblioteca moderna perdeu essa atmosfera “quase de sótão” e também o valor simbólico, glorificado em cúpulas, em cilindros, em tectos altíssimos e modulados.

Perdeu essa poalha de luz doirada – materializada por algum pó no ar – vinda de janelas a uma altura inesperada, sempre insuficientes para iluminar com eficácia, solicitando o apoio dos pequenos candeeiros verdes. Perdeu igualmente a possibilidade de tornar a ser como era – nas suas várias versões – e sem dúvida e definitivamente distanciou-se dos caminhos da nostalgia.

Tudo se foi tornando prático, ergonómico, higiénico, codificado no Neufert, luminosos por igual, alinhado – estantes como vagões de um comboio abandonado, estofos de cadeira laváveis e confortáveis.

Mas começou a faltar “qualquer coisa”…

O projecto da Biblioteca de Aveiro reflecte – e não poderia resolver – a procura de tal “qualquer coisa”, latente no sempre renovado encantamento de ler, de ver, de escutar – dentro dos olhos, na intuição do dourado. [2]


sv11fig. 11 – Álvaro Siza, Biblioteca da Universidade de Aveiro. 1988/95.

Na Biblioteca do Campus Universitário de Aveiro, edifício projectado em 1990 está presente o respiro da natureza – e do construído por ela prometido e permitido: a geometria das salinas na sua arquitectura da implantação às aberturas horizontais, do volume à luz que a invade. [3]

Esse ambiente procurado por Álvaro Siza com alguma relação com a imagem da sala de leitura de Viipuri já havia sido projectado por Siza na belíssima sala da Biblioteca da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto.


sv12fig. 12 - Álvaro Siza, Biblioteca da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto. 1992.

Álvaro Siza projectará ainda outras bibliotecas como a Municipal de Viana do Castelo.

sv13fig. 13 – Álvaro Siza, Biblioteca Municipal de Viana do Castelo. 2008.


[1] Álvaro Siza in 01- Textos Álvaro Siza. Civilização Editora, rua Alberto Aires Gouveia, 27. Porto 2009. (pág.212).

[2] Álvaro Siza, Bibliotecas in 01- Textos Álvaro Siza. Civilização Editora, rua Alberto Aires Gouveia, 27. Porto 2009. (pág.159 e 160).

[3] Álvaro Siza, Doutoramento Honoris Causa pela Universidade de Aveiro, 2011.


3. O Inquérito à Arquitectura Popular (1955-1961)

Mas por essa altura também já havia - ou estava havendo - o Inquérito à Arquitectura Popular Portuguesa, e sobre ele salienta Álvaro Siza: Iniciavam então as Escolas do Porto e de Lisboa o estudo sistemático da Arquitectura Popular em Portugal, publicado em 1961. Mais do que um simples registo de arquitectura tradicional, o Inquérito feito desmonta o conceito reacionário de “Arquitectura Nacional” revelando a arquitectura portuguesa na sua relação com o Homem e com o Meio, com a História e a Geografia. [1]


sv14fig. 14 - Capela de Santa Maria Madalena. Lindoso. Zona 1 Minho, Douro, Beira Litoral. Inquérito à Arquitectura Popular em Portugal. 1961.


sv15fig. 15 - Moinho de linho Perafita, Penafiel. Zona 1 Minho, Douro, Beira Litoral, Inquérito à Arquitectura Popular em Portugal. 1961.

[Ver neste blogue Nos 50 anos da publicação de "Arquitectura Popular em Portugal" http://doportoenaoso.blogspot.com/2011/03/nos-50-anos-da-publicacao-de-popular-em.html]

E anos mais tarde, contudo, Álvaro Siza relativiza a importância do Inquérito excluindo o aproveitamento formal e valorizando a integração no meio e a resposta social.

Ce patrimoine de la tradition portugaise est utilisable par rapport à des problèmes concrets. Ce qui est valable, ce qui est utile, il faut s’en servir. Ce qui n’est que romantisme n’est pas intéressant. Il y a eu au Portugal à la fin des années 50 un effort de connaissance de l’architecture traditionnelle dans ses rapports avec le pays tel qu’il est. Le livre qui est paru après cela a été très influent dans l’évolution de l’architecture au Portugal et a été un peu récupéré pour faire des projets pour le tourisme… Pour nous ce qui était important c’était la connaissance du pays, des diverses cultures et des rapports entre la vie des gens et l’habitat. C’est une information, une connaissance très utile, très importante, mais pas plus. Ce n’est pas un modèle formel. Je n’accepte pas l’influence de l’architecture traditionnelle comme modèle formel, mais comme une expérience très longue d’adaptation au milieu, reflétant également les transformations de ce rapport. Comme ça, cela m’intéresse. Comprendre les rapports entre forme de vie et architecture est très utile, non pas pour imaginer des propositions d’organisation d’espaces, mais pour comprendre les problèmes concrets d’une société. [2]

[Este património da tradição portuguesa é utilizável em relação a problemas concretos. O que é válido, o que é útil, deve ser usado. O que é apenas romantismo não é interessante. No final da década de 1950, houve um esforço em Portugal para compreender a arquitectura tradicional nas suas relações com o país tal como é. O livro que saiu depois disso foi muito influente na evolução da arquitectura em Portugal e foi um pouco recuperado para fazer projectos para o turismo…Para nós o que foi importante foi conhecer o país, as diversas culturas e as relações entre a vida das pessoas e o habitat. É uma informação, um conhecimento muito útil, muito importante, mas não mais. Não é um modelo formal. Não aceito a influência da arquitetura tradicional como modelo formal, mas como uma longa experiência de adaptação ao meio ambiente, reflectindo também as transformações dessa relação. Se for assim, estou interessado. Entender a relação entre forma de vida e arquitetura é muito útil, não imaginar propostas de organização de espaços, mas compreender os problemas concretos de uma sociedade.]


[1] Álvaro Siza in 01- Textos Álvaro Siza. Civilização Editora, rua Alberto Aires Gouveia, 27. Porto 2009. (pág. 212).

[2] Álvaro Siza, Entretien avec Álvaro Siza in Architecture Mouvement Continuité AMC, n.º44 1978.



4. Fernando Távora (1923-2005)

Mas, sobretudo, havia Fernando Távora e a sua docência na Escola de Belas Artes do Porto, para onde trazia a sua participação nos CIAM, a sua dinamização e participação no Inquérito, o relato e os desenhos das suas viagens, os seus escritos, a sua cultura (e o seu humor) e as suas admiráveis e influentes obras.


sv16fig. 16 - Fernando Távora, Mercado de Santa Maria da Feira 1953-1959.


Sobre as obras de Fernando Távora dos anos 50, diz Álvaro Siza: A Casa de Ofir “aparece” em 1956. Não é mais do que outra chaminé entre as luminosas, essenciais construcções do litoral minhoto; provoca, nessa naturalidade, um autêntico sobressalto renovador; pouca gente é sensível, na época, ao facto que utiliza uma estrutura espacial moderna e nórdica.



sv17fig. 17 – Fernando Távora, Casa em Ofir Esposende. 1957-1958.


Àquela aproximação do vernáculo litoral “em estado de graça” segue-se o projecto do Pavilhão de ténis da quinta da Conceição, destruição e recomposição de elementos e tipos de Arquitectura Tradicional, no interior de uma convergência de distantes vocações de Forma.


sv18fig. 18 - Fernando Távora, Pavilhão de Ténis da Quinta da Conceição Matosinhos. 1956-1960.


E prossegue Álvaro Siza: A coerente e acabada linguagem “portuense” da Escola do Cedro (1958) que parece institucionalizar os caminhos da Casa de Ofir, é acompanhada pela singular arquitectura do Mercado de Vila da Feira (1954) onde a análise e a intuição do uso do espaço se traduzem numa aguda sensibilidade ao que se transforma – ou se vai transformar – e a uma continuidade que escapa à descrição, assim se construindo a forma. [1]


sv19fig. 19 - Fernando Távora, Escola Primária do Cedro, Vila Nova de Gaia. 1957-1961.

Sobre a Escola do Cedro é o próprio Fernando Távora que escreve em 1963: Como uma árvore, este edifício tem as suas raízes, dá sombra e protecção àqueles que a ele se acolhem, tem os seus momentos de beleza e, assim como nasceu, um dia morrerá depois de viver a sua vida. Não se trata, em verdade, de uma intocável e eterna virgem mas de uma pequena e simples obre feita por homens para homens. [2]


E sobre Fernando Távora refere ainda Álvaro Siza: Fernando Távora a été mon professeur, mais il a été plus que ça: un compagnon de travail, même à l’école. Ce n’est pas courant. Aujourd’hui, c’est la même chose, les problèmes qui intéressent les étudiants sont les mêmes que ceux qui l’intéressent. C’est un architecte très important pour l’évolution de l’architecture au Portugal, on le trouve toujours au centre des préoccupations actuelles. (…) Il faudrait étudier l’œuvre de Távora qui est peu connue, sauf par ses collaborateurs et ses élèves. Je pense le faire un jour pour faire une exception et écrire quelque chose. [3]

[Fernando Távora foi meu professor, mas ele foi mais do que isso: um colega de trabalho, mesmo na escola. Não é comum. Hoje, continua na mesma, os problemas que interessam aos estudantes são os mesmos que lhe interessam. É um arquitecto muito importante para a evolução da arquitectura em Portugal, está sempre no centro das preocupações actuais. (...) Seria necessário estudar a obra de Távora que é pouco conhecida, exceto pelos seus colaboradores e os seus alunos. Penso fazê-lo um dia fazendo uma exceção e escrever alguma coisa.]

E Álvaro Siza afirma que: Não é possível, em curto texto, considerar a riqueza e a complexidade da obra de Fernando Távora, uma obra que invade – discretamente? – o quotidiano da cultura portuguesa. [4]

E no texto A propósito de Távora, escrito em 2009, afirma Álvaro Siza: Existe uma Arquitectura que se impõe de imediato e a quase todos, agradando ou não.

Pode ser de grande ou de pequena dimensão. Relaciona-se com o que a envolve – construções ou natureza – ou não. Um razoável fotógrafo capta o que parece ser. Pode ter qualidade ou pode ser gratuita. Quando a apreciámos profundamente, numa ou outra visita ou numa outra época, já não nos diz nada, ou pouco. Ou diz outras coisas, se não é gratuita – então alcança o silêncio da beleza.

A Arquitectura que não corrói nasce da capacidade de emoção. E essa, sem dúvida, é uma capacidade universal. [5]


[1] Álvaro Siza, Fernando Távora in Arquitectura, Pintura, Escultura, Desenho. Catálogo da Exposição Património da Escola Superior de Belas Artes do Porto e da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto. Edição da Universidade do Porto. Janeiro de 1987. (pág. 184 a 187).

[2] Fernando Távora, Escola Primária do Cedro, Vila Nova de Gaia 1957-1961.in AA.VV. Fernando Távora. Editado por Luiz Trigueiros, Editorial Blau Lda..Lisboa 1993. (pág.90).

[3] Álvaro Siza 1977 Entretien avec Álvaro Siza in Architecture Mouvement Continuité AMC, n.º44 1978.

[4] Álvaro Siza in 01- Textos Álvaro Siza. Civilização Editora, rua Alberto Aires Gouveia, 27. Porto 2009. (pág.36).

[5] Álvaro Siza, A propósito de Távora in 01- Textos Álvaro Siza. Civilização Editora, rua Alberto Aires Gouveia, 27. Porto 2009. (pág. 112 e 113).


5. Le Corbusier e Ronchamp

Mas é entre 1950 e 1955, que Le Corbusier (1887 -1965) projecta e constrói a capela de Notre Dame du Haut em Ronchamp provocando uma considerável polémica nos círculos disciplinares e a perplexidade dos seus críticos e defensores (Pevsner, Rogers, Argan) e dos arquitectos que mais ortodoxamente o seguiam.

A capela que irá ter um impacto nos métodos de projectar e na arquitectura que então se fazia em Portugal pode considerar-se simbolicamente como o edifício que marca a viragem da arquitectura na segunda metade da década de 50.


sv20fig. 20 – Le Corbusier, Chapelle Notre-Dame-du-Haut. Colline de Bourlémont, Ronchamp, France. 1950-1955.


E a capela de Notre Dame du Haut em Ronchamp foi sem dúvida, quando concluída, um momento único no panorama da arquitectura.


sv21fig. 21 - Le Corbusier, Chapelle de Notre-Dame-du-Haut. Colline de Bourlémont, Ronchamp, France. 1950-1955.


Le Corbusier, que então se ocupava na edificação da Unidade de Habitação de Marselha era atentamente seguido pelas suas obras, muitas vezes apenas apreendidas pelos seus aspectos formais e/ou pelos seus textos e dizeres mais publicitários ou publicitados, como a machine a habiter ou a unité d’habitation.

Era então visto como o mentor da arquitectura “moderna”, funcionalista e racional, que em Portugal entusiasmava os que se opunham à arquitectura académica e historicista do regime.

Vejam-se os projectos da ODAM, as Codas então apresentadas e as teses e intervenções dos arquitectos do Porto no Congresso de 48.

A capela de Ronchamp surgia assim como conformando uma nova concepção do espaço arquitectónico e como a procura de uma diferente articulação entre o edifício e o ambiente natural, o sítio.


sv22fig. 22 - Le Corbusier, Chapelle de Notre-Dame-du-Haut. Colline de Bourlémont, Ronchamp, France. 1950-1955.


O edifício da capela realiza-se num corpo escultórico, plástico, duro e compacto, carregado de uma força expressiva gerada por uma geometria orgânica com o abandono do "ângulo recto" e que se acentua na utilização dos materiais, no contraste entre os muros rugosos rebocados a branco e os elementos de betão descofrado, que os aproxima do reboco branco e o granito das arquitecturas do norte do país, divulgadas pelo Inquérito, e que tanto influenciaram nestes anos os arquitectos portugueses.



sv23fig. 23 - Le Corbusier, Chapelle de Notre-Dame-du-Haut. Colline de Bourlémont, Ronchamp, France. 1950-1955.


Aqui a machine à habiter é substituída pelo indicible espace à émouvoir.



sv24fig. 24 - Le Corbusier, Chapelle de Notre-Dame-du-Haut. Colline de Bourlémont, Ronchamp, France. 1950-1955.


E Álvaro Siza sublinha essa capacidade de emocionar: A criação arquitectónica nasce de uma emoção, a emoção provocada por um momento e um lugar. O projecto e a construção exigem dos autores que se libertem dessa emoção, num progressivo distanciamento – transmitindo-a inteira e oculta. A partir daí, a emoção pertence ao(s) outro(s). [1]

E em Ronchamp - para alcançar essa capacidade de emocionar - Le Corbusier afirma que La Clef c’est la lumière.

La Clef c’est la lumière et la lumière éclaire les formes. Et ces formes ont une puissance émotive par le jeu des proportions par le jeu des rapports innatendus, stupéfiants.

Mais aussi par le jeu intellectuel de la raison d’être: leur authentique naissance, leur capacite de durée, strucuture astuce, hardiesse, voire témérité, jeu des êtres qui sont des êtres essenciels les constitutifs de l’architecture. [2]

[A Chave é a luz e a luz ilumina as formas. E essas formas têm um poder emocional através do jogo de proporções pelo jogo das relações inesperadas e surpreendentes.

Mas também pelo jogo intelectual da razão de ser: o seu autêntico nascimento, a sua capacidade de duração, astuciosa estrutura, ousadia, mesmo temeridade, jogo dos elementos que são os elementos essenciais constitutivos da arquitetura.]


Álvaro Siza nas suas primeiras habitações em Matosinhos, procurando já essa “chave que é a luz”, ainda “cita” de uma maneira quase e apenas formal a capela de Ronchamp.


sv25fig. 25 – Le Corbusier. Fachada sul da capela de Ronchamp.



sv26fig. 26 – Álvaro Siza. Fachada poente de habitação em Matosinhos.1954-1957.



Sobre estas primeiras casas que projectou, Álvaro Siza descreve aquilo que sente um jovem arquitecto na sua primeira obra construída, aquele encantamento de construir, que lembra o Eupalinos de Paul Valery: je ne sais, quelle intention profonde de construire qui inquiète sourdement ma pensée. [3]

Escreve Álvaro Siza: Estão patentes: vigor, carinho e também inexperiência.

Essas primeiras casas reflectem o encantamento de construir, de confrontar a aprendizagem académica com as dificuldades de realização, o saber dos artesãos, a surpresa de entrar no que foi desenho. [4]

Mas será no estabelecimento de uma poética do projectar que o conjunto de todos estes apports, incluindo os escritos e as obras de Le Corbusier, se irá concretizar.


[1] Álvaro Siza Prefácio in 01- Textos Álvaro Siza. Civilização Editora, rua Alberto Aires Gouveia, 27. Porto 2009. (pág.109).

[2] Le Corbusier, Ronchamp, Les carnets de la recherche patiente 2. Girsberger, Zurich 1957. (pág. 27).

[3] Paul Valéry (1871-1945), Eupalinos ou l'Architecte, Editions Gallimard, Paris 1995. (pág. 71).

[4] Álvaro Siza. Entrevista a José Salgado in Álvaro Siza em Matosinhos. Matosinhos, O Lugar e a Imagem, Câmara Municipal de Matosinhos. 1984. (pág. 128).



6. Uma diferente maneira de pensar arquitectura

Assim a capela de Ronchamp, traz uma nova atenção à poética, aos métodos de projectar de Le Corbusier, e vem ao encontro de uma nova concepção do espaço arquitectónico e da sua apropriação.

Um espaço poético que agora se quer corporalmente vivido, experimentado e sentido.

O próprio Le Corbusier em um texto escrito em 1945, já havia formulado o conceito de espace indecible:

Prendre possession de l'espace est le geste premier des vivants, des hommes et des bêtes, des plantes et des nuages, manifestation fondamentale d'équilibre et de durée. La preuve première d'existence, c'est d'occuper l'espace. [1]

[Apropriar-se do espaço é o primeiro gesto dos vivos, homens e animais, plantas e nuvens, manifestação fundamental de equilíbrio e duração. A primeira prova da existência é ocupar o espaço.]

E Le Corbusier que de seguida a Ronchamp projecta o convento de Sainte Marie de La Tourette onde - sem trair os seus 5 pontos - procura agora uma outra valorização plástica da sua arquitectura.

Lorsqu'une oeuvre est à son maximum d'intensité, de proportion, de qualité d'exécution, de perfection, il se produit un phénomène d'espace indicible: les lieux se mettent à rayonner, physiquement ils rayonnent.
Ils dèterminent ce que j'appelle “l'espace indicible”, c'est-à-dire un choc qui ne dépend pas des dimensions mais de la qualité de perfection.
C'est du domaine de l'ineffable.
[2]

[Quando uma obra está na sua intensidade máxima, proporção, qualidade de execução, e perfeição, dá-se um fenómeno de espaço indisível: os lugares começam a irradiar, fisicamente irradiam.
Eles determinam o que chamo de "espaço indisível", isto é, um choque que não depende de dimensões, mas sim da qualidade da perfeição.

Pertence ao reino do inefável.]


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fig. 27 - Le Corbusier, église du couvent de Sainte Marie de La Tourette Éveux, 1956/60.


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fig. 28 – Le Corbusier, église du couvent de Sainte Marie de La Tourette Éveux, 1956/60.


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fig. 29 - Le Corbusier, église du couvent de Sainte Marie de La Tourette Éveux, 1956/60.


O espaço da igreja do convento com a sua verticalidade terá de certo modo influenciado Fernando Távora na elaboração da igreja do Convento das Irmãs Franciscanas de Calais em Gondomar.


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fig. 30 – Fernando Távora, Igreja do Convento das Irmãs Franciscanas de Calais em Gondomar. 1961/71.


Assim na segunda metade do século passado, pensar arquitectu­ra aqui pelo Porto era, na procura de uma síntese de todas estas maneiras de projectar, e no estudo desse conjunto de obras, procurar concretizar essa nova concepção do espaço arquitectónico, esse espaço indizível ou inefável.

E Le Corbusier a partir de Ronchamp define um autêntico método de projectar em três tempos:

La Chapelle? Un vase de silence, de doceur.

Un désir: oui! Par le langage de l’architecture atteindre aux sentiments ici évoqués.

Oui, de l’architecture seule. Car l’architecture est la synthèse des arts majeurs.

L’architecture est forme, volumes, couleur, acoustique, musique.


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fig. 31 – Le Corbusier, Chapelle de Notre-Dame-du-Haut. Colline de Bourlémont, Ronchamp, France. 1950-1955.

E prossegue Le Corbusier:

Trois temps à cette aventure:

1º S’intégrer dans le site;

2º Naissance “spontanée” (après incubation) de la totalité de l’ouvrage, en une fois, d’un coup;

3º la lente exécution des dessins, du dessein, des plans et de la construction même;

Et

4º l’ouvrage achevé, la vie est impliquée dans l’oeuvre, totalmente engagé dans une synthèse des sentiments et des moyens matériels de réalisation. [3]

[A capela? Um vaso de silêncio, de doçura.
Um desejo: sim! Pela linguagem da arquitetura alcançarmos os sentimentos aqui evocados.
Sim, só da arquitetura. Porque a arquitetura é a síntese das artes maiores.
A arquitetura é forma, volumes, cor, acústica, música.

Três tempos nesta aventura:

1º Integrar-se no sítio;

2º Nascimento "espontâneo" (após incubação) da totalidade da visão da obra, de repente e de uma só vez;

3º A lenta execução dos desenhos, do desígnio, dos planos e da própria construção;

e

4º A obra concluída, a vida ser nela envolvida, totalmente comprometida em uma síntese de sentimentos e dos meios materiais da sua realização.]


Em 1983, Álvaro Siza escreve um texto Oito pontos de que retirámos o primeiro que é uma constante no seu modo de projectar:

Oito pontos

1) Começo um projecto quando visito um sítio (programa e condicionalismos vagos, como quase sempre acontece).

Outras vezes começo antes, a partir da ideia que tenho de um sitio (descrição, uma fotografia, alguma coisa que li, uma indiscrição).

Não quer dizer que muito fique de um primeiro esquisso. Mas tudo começa.

Um sítio vale pelo que é, e pelo que pode ou deseja ser - coisas talvez opostas, mas nunca sem relação.

Muito do que antes desenhei (muito do que outros desenharam) flutua no interior do primeiro esquisso. Sem ordem. Tanto que pouco aparece do sítio que tudo invoca.

Nenhum sítio é deserto. Posso sempre ser um dos habitantes.

A ordem é a aproximacão dos opostos.[4]


[1] Le Corbusier, L’espace indicible, in L’Architecture d’Aujourd’hui, numéro hors-série spécial « Art », Avril 1946, (pág. 9 a 17). O texto aparece com algumas modificações em Modulor 1, Modulor 2 e Un couvent de Le Corbusier.

[2] Le Corbusier, conversation enregistrée à la Tourette, in L’Architecture d’Aujourd’hui, n° spécial Architecture religieuse, Juin-Juillet 1961. (pág. 3).

[3] Le Corbusier, Jean Petit, Le livre de Ronchamp, Les Cahiers Forces Vives, Editec 1961. (pág.17).

[4] Álvaro Siza, Oito pontos de Quaderns d’Arquitectura i Urbanisme n.º 159 Out.Dez. 1983. In Álvaro Siza, – Textos Álvaro Siza, edição de texto por Carlos Campos Morais, Civilização Editora, rua Alberto Aires de Gouveia, 27. Porto 2009. (pág. 27).



7. Conhecer o sítio

O projecto de arquitectura radica assim numa poética, onde em primeiro lugar assume um papel determinante - não único mas sempre presente e actuante – a observação, apreensão e desenho do contexto, do sítio ou do lugar, por vezes (ou muitas vezes) confundidos.

O abade Jacques Dellile, no início do século XIX, já aconselhava num longo poema sobre a arte de traçar jardins que em primeiro lugar se devia conhecer o sítio.

Avant tout connoissez votre site; et du lieu
Adorez le génie, et consultez le dieu.
[1]

[Em primeiro lugar conhecei o sítio; e do lugar / Adorai o génio, e consultai o seu deus.]


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fig. 32 - Agostino Tassi (1578-1644), Jovem apontando o sítio da fonte de Acqua Acetosa em Roma, c.1625. Desenho a pena e tinta 15 x 20 cm. Col. particular. Web Gallery of Art.


nullus enim locus sine genio

Ou seja ir ao sítio e procurar o genius locus, já que como escrevia Sérvio (Maurus Servius Honoratus c.360-?) não existe lugar nenhum que não tenha o seu génio (nullus enim locus sine genio). [2]

[Nota - Edgar Allan Poe coloca esta frase no início do seu conto A Ilha da Fada, The Island of the Fay. [3] ]

E precisamente no início da década de 50, Jorge Luís Borges, sem referir o genius locus, observa: ciertos lugares, quieren decirnos algo, o algo dijeron que no hubiéramos debido perder, o están por decir algo; esta inminencia de una revelación, que no se produce, es, quizá, el hecho estético. [4]

[certos lugares, querem dizer-nos algo, ou disseram algo que não devíamos perder, ou estão para dizer algo; esta iminência de uma revelação, que não se produz, é talvez o facto estético.]

E mais tarde Norberg-Schulz, apoiado nas obras de Martin Heidegger do pós-guerra, sintetiza.

Faire de l’architecture signifie visualiser le genius loci: le travail de l’architecte réside dans la création de lieux signifiants qui aide l’homme à habiter. [5]

[Fazer arquitectura significa em primeiro lugar, visualizar o genius loci: o trabalho do arquitecto consiste na criação de lugares significantes que permitam ao homem aí habitar.]

Ou seja para iniciar um projecto, qualquer projecto, deve-se iniciar o processo da concepção arquitectónica por uma indispensável abordagem ao local.

Como diz Le Corbusier: La clef, c’est regarder … regarder – observer – voir – imaginer – inventer – créer. [6]

[A chave é olhar ... olhar – observar – ver – imaginar – inventar - criar.]


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fig. 33 – Le Corbusier, La Clef, c’est: regarder…


Se Siza afirmava no primeiro dos Oito pontos que começo um projecto quando visito um sítio, para Le Corbusier o primeiro dos seus Trois temps era s’intégrer dans le site. [7]

E Le Corbusier procurava pelo desenho conhecer o local, afirmando que il faut toujours dire ce que l’on voit, surtout il faut toujours, ce qui est plus difficile, voir ce que l’on voit. [8]

[É sempre necessário dizer o que vemos, e é sempre preciso, o que é mais difícil, ver o que vemos.]

Mas para abrir esses olhos que não vêem é necessário juntar outros olhares e por isso, Álvaro Siza acrescenta.

A informação é o primeiro passo para o abrir dos olhos que olham mas não vêem – des yeux qui ne voient pas, dizia Le Corbusier. Nenhum esforço isolado ou colectivo dos agentes especializados da transformação do ambiente é eficaz, caso esse esforço não corresponda a uma exigência colectiva, feita de exigências individuais e decorrente de um conhecimento generalizado. [9]



[1] Jacques Delille (1738-1813), Les Jardins, Poëme par Jacques Delille. Nouvelle Édition revue, corrigée et augmentée. Chez L. G. Michaud, Libraire Rue de Cléry, n.º13 Paris. M. DCCC. XX. Chant premier (pág. 44).

[2] Servius Marius Honoratus,Vergilii Aeneidos Commentarius (Comentário à Eneida de Virgílio), Livro 5. 85.1.

[3] Edgar Allan Poe (1809-1849), The Island of the Fay (1850) in The Works of Edgar Allan Poe. With an Introduction and a Memoir by Richard Henry Stoddard. Volume II. A. C. Armstrong & Son, 714 Broadway, New-York 1884. (pág.537).

[4] Jorge Luís Borges (1899-1986), La Muralla y los Libros (Buenos Aires 1950) de Otras Inquisiciones (1952) in Obras Completas 1923-1972. Emecé S.A. Editores Buenos Aires 1994. (pág. 635).

[5] Christian Norberg-Schulz (1926-200), Genius Loci: paysage, ambiance, architecture. Pierre Mardaga Éditeur, Bruxelles 1981, (pág. 5).

[6] Le Corbusier. Cap Martin 15-8-1963. In Casabella n.º 531/532 Janvier/Fevrier 1987.

[7] Le Corbusier, Jean Petit, Le livre de Ronchamp, Les Cahiers Forces Vives, Editec 1961. (pág.17).

[8] Le Corbusier, Jean Petit, Le livre de Ronchamp, Les Cahiers Forces Vives, Editec 1961. (pág. 2).

[9] Álvaro Siza Construir ideias in 01- Textos Álvaro Siza. Civilização Editora, rua Alberto Aires Gouveia, 27. Porto 2009. (pág.174).



8. Os traços secretos do lugar

Torna-se indispensável ir ao sítio e aí pelo desenho procurar os traços secretos do lugar [1] e encontrar, nos seus elementos e na sua luz, a razão certa da forma da obra de arquitectura.

Ou seja a observação do sítio e da sua realidade - como fundadora do projecto - nunca é neutra, já que está possuída de uma intencionalidade subjectiva, por um desejo e um desenho de invenção e intervenção do arquitecto.

Por isso Le Corbusier nos seus desenhos, junto aos croquis de arquitectura, podem aparecer desenhadas figuras humanas e animais, como as vacas sagradas de Chandigard ou quaisquer outros elementos que também caracterizam um lugar.


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fig. 34 - Le Corbusier, sketch of bulls and peasant houses near Chandigarh, dated March 1951. Album Simla, Punjab, India, Chandigarh Capitol Project, blue ink on album paper, 18.5 x 13.8 cm (71/4 x 51/2 in). Fondation Le Corbusier, Paris.



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fig. 35 - Le Corbusier, esquisso com mulher, vacas e animais no Capitólio de Chandigard. Fundação Le Corbusier.


Para Álvaro Siza procurar o genius locus é, nas suas conhecidas palavras, saber que a ideia está no "sítio", mais do que na cabeça de cada um; para quem souber ver, e por isso pode e deve surgir ao primeiro olhar; outros olhares dele e de outros se irão sobrepondo, e o que nasce simples e linear se vai tornando complexo e próximo do real - verda­deiramente simples. [2]


E por isso Álvaro Siza em alguns dos seus desenhos coloca, pessoas ou anjos entre outras figuras. Em Veneza desenha alguns gatos (es) preguiçando-se ao sol, gatos da rua eriçados de verdade / lambendo os restos que há no fundo do desgosto. [3]


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fig. 36 - Álvaro Siza, gatos de Veneza 1994, caderno 373, in Bernardo Pinto de Almeida, O que a luz ao cair deixa nas coisas, Álvaro Siza – desenhos. Árvore Cooperativa de Actividades Artísticas , CRL. BPI. s/d, Porto. (pág. 25).


[1] Vittorio Gregotti, Sulle tracce dell’architetture. In Pierre Alain Croset (Ed.), Luigi Snozzi. Progetti e architetture. Milão: Electa. 1984.

[2] Álvaro Siza, Notas sobre o trabalho em Évora in Quaderns d’Arquitectura i Urbanisme. N.º159. Out.Nov.Dez. 1983. (pág.2).

[3] José Carlos Ary dos Santos (1937-1984), As Palavras das Cantigas, Ed. Avante, Lisboa 1989.



9. Voando sobre o lugar

E o anjo ou o génio do lugar e/ou da arquitectura surge por vezes, pairando sobre o desenho do sítio transformando-o em lugar, o génio que para Rimbaud é fécondité de l'esprit et immensité de l'univers [1].

[fecundidade do espírto e imensidade do universo. Sobre o Génio da arquitectura ver neste blogue http://doportoenaoso.blogspot.com/2015/08/o-genio-da-arquitectura-descobre-os.html]

Das muitas figuras de anjos ou génios escolhemos este esquisso de Jacques Louis David porque é o que melhor introduz a dinâmica da figura voadora.



sv37fig. 37 - Jacques Louis David (1748-1825) Ange volant portant une couronne; dieu-rivière allongé. s/d. carvão 16,3 x 14 cm. The Metropolitan Museum of Art. New-York.


Dante na Divina Comédia refere:

L’angel che venne in terra col decreto
de la molt’ anni lagrimata pace,
ch’aperse il cielo del suo lungo divietto,
dinanzi a noi pareve sì verace…
[2]

[O anjo que veio a terra co decreto
de muitos anos tão chorada paz,
que abriu o céu de há tantos sob um veto,
perante nós surgia tão veraz…]

E Le Corbusier na capa de Poésie sur Alger desenha uma mão que segura um anjo/génio, com a cidade no horizonte, afirmando que La poésie est sur Alger, prête à entrer, à s’incarner dans des faits urbanistiques et architecturaux. [3]

[A poesia paira sobre Argel, pronta a entrar, e se encarnar nos acontecimentos urbanísticos e arquitectónicos.]



sv38fig. 38- Le Corbusier, capa do livro Poesie sur Alger (1942), publicado pelas Éditions Falaize, Paris 1950.


Álvaro Siza sobre um anjo que desenhou sobrevoando o Bairro da Malagueira dá uma explicação mais racional dizendo que é apenas porque creo que empiezo a idear el proyecto desde todo los ángulos distintos para tener una escala en todo las direcciones y dimensiones. Tengo que adoptar una visión desde el cielo, desde lo alto, para tener una imagen completa de lo que estoy proyectando siempre. [4]



sv39fig. 39 - Álvaro Siza, esquisso com um Anjo sobrevoando o bairro da Malagueira, Évora. A partir de 1977.


Além de Anjos outras figuras pairam sobre as cidades.

Podemos recuar ao tempo do papa Sisto V, para observar que na planta de Roma de 1593 da autoria de Antonio Tempesta (1555-1630), paira sobre a cidade eterna desenhada em perspectiva, uma figura alada representando aqui a Fortuna (Glória ou Fama) soando as suas conhecidas trompetas.



sv40fig. 40 – Antonio Tempesta, pormenor de Mappa di Roma, 1593.


Também Marc Chagall representa uma povoação sobre a qual esvoaça abraçado um casal.



sv41fig. 41 - Marc Chagall (1887-1985), Sobre a cidade 1918. Óleo s/tela 45 x 56 cm. Tretyakov Gallery, Moscovo.


António Pedro em 1939 pinta também uma figura pairando sobre a cidade segurando numa mão uma açucena e com a outra apontando para a cidade nocturna.

José Augusto França, seu companheiro nas lides surrealistas, descreve assim o quadro: Uma aventesma de grandes vestes vermelhas paira sobre a cidade nocturna, onde um par amoroso está solitário e perdido, e oferece-lhe, como que em salvação, uma delicada flor que segura numa mão, enquanto com a outra lhe aponta um dedo severo e fatídico, no negrume da cena. [5]



sv42fig. 42 – António Pedro (1909-1966), O Avejão Lírico 1939. Óleo s/tela 99 x 79 cm. Col. particular.


E Álvaro Siza também coloca uma figura masculina sobrevoando o Bairro da Malagueira.



sv43fig. 43 – Álvaro Siza, esquisso com uma figura masculina sobrevoando o bairro da Malagueira, Évora. A partir de 1977.


O Bairro da Malagueira


Da pedra à cal, do sal à espuma,
amo a pobreza e a brancura.
  [6]

 

A Malagueira, não por acaso é um dos três projectos que Álvaro Siza refere como guardando boas recordações. [7]

O projecto iniciado em 1977 por Alvaro Siza, no seguimento do acumular da experiência de projectação dos conjuntos de habitação do processo SAAL, pode considerar-se como o exemplo da arquitectura produzida pelo processo revolucionário do 25 de Abril.

De facto o Bairro da Malagueira é uma ambiciosa operação integrada no Plano de Expansão de Évora, abrangendo u ma área d e 27 ha. e prevendo a construcção de 1200 fogos, para cooperativas, para associações de moradores, para o então Fundo de Fomento da Habitação, e ainda para a iniciativa privada.

Apesar dos entraves e incompreensões iniciais, Siza realiza uma intervenção exprimindo a forma como intervêm no sítio, onde pela participação activa dos moradores, pelo diálogo que estabelece com a histórica cidade de Évora, pela sua escala na relação com o "sítio", pela variedade de espaços urbanos que cria, pelas tipologias e as soluções encontradas para os fogos, etc.; a tornam provavelmente, a mais avançada e a mais notável obra de arquitectura do nosso país, e à época uma das mais importantes realizações no panorama mundial.

Por isso ela terá contribuído decisivamente para a atenção mundial que hoje toda a obra de Álvaro Siza desperta.

A relação que se estabelece com a cidade histórica é no esquisso e nas palavras de Álvaro Siza: Vê-se o belíssimo perfil de Évora, cidade de granito e de mármore (como raramente sucede): dali emergem a catedral, uma igreja românica e um teatro neo-clássico. [8]


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fig. 44 - Álvaro Siza, Sketch showing the-new settlement with the skyline of Évora in the distance. The Architectural Review. 4 February, 2015.

O lençol branco

Cubramos, ó silenciosa, com um lençol de linho fino o perfil hirto da nossa Imperfeição. [9]

Alguns anos mais tarde Siza recorda a sua intervenção na Malagueira com o exemplo do lençol branco:

Il lenzuolo bianco, di tessitura continua, semplice e pura, posato sulla superficie ondulata del terreno, comincia a rilevare gli accidenti nascosti. Si riempie di rughe. Si agita. Si rompe. Torna ad essere trasparente. Su tutta l’estensione del terreno e, fuori di esso, il disegno scivola, si avvicina, assorbe, si moltiplica, si riproduce, si deforma. O che lo stesso disegno si depura a poco a poco fino a raggiungere l’asciuttezza di un abbozzo in attesa di rifinture che non desidera, e trova precedenti di forma, senza per questo amare nessun tipo di revival. [10]

[O lençol branco, de um tecido contínuo, simples e puro, pousado na superfície ondulada do terreno, começa a revelar os acidentes escondidos. Ele enche-se de rugas. Agita-se. Rasga-se, e tende a tornar-se transparente. Sobre toda a extensão do terreno, e na sua periferia, o desenho escorrega, aproxima-se, absorve, multiplica-se, reproduz-se e deforma-se. E o mesmo desenho depura-se pouco a pouco até atingir a secura de um esquisso que espera as definições que não deseja, e encontra as formas preexistentes, sem por isso amar qualquer tipo de revival.]

Esse mesmo lençol branco que, com outra finalidade, Álvaro Siza estende - em amplo gesto junto ao Tejo – protegendo e marcando a entrada do Pavilhão de Portugal da Expo 98.



sv45fig. 45 – Álvaro Siza, esquisso do Pavilhão de Portugal 1996.



sv46fig. 46 - Álvaro Siza, Pavilhão de Portugal. Expo98.


[1] (Jean-Nicolas) Arthur Rimbaud (1854 -1891) Génie in Illuminations 1875, in Œuvres de Jean-Arthur Rimbaud, Soviété du Mercure de France XV, Rue de l’Échaudé-Saint-Germain, XV, Paris M DCCC XCVIII. (pág.203 e 204).

[2] Dante Alighieri, Divina Comédia.Tradução de Vasco Graça Moura. Quetzal Editores, Lisboa 2011. ( Purgatório Canto X v.34-37). (pag.388 e 339).

[3] Le Corbusier, Poesie sur Alger (1942), Éditions Falaize, Paris 1950.

[4] Álvaro Siza. Entrevista a Francisco Granero Martin, Conversando com Álvaro Siza: El dibujo como liberación del espíritu. EGA Expression Gráfica Arquitectónica n.º 20, Año 17. Universitat Politècnica de València. 2012. (pág.56 a 65).

[5] José Augusto França, António Pedro pintor, P: Portuguese Cultural Studies 5 Spring 2013. (pág. 7).

[6] Eugénio de Andrade (1923-2005), As Nascentes da Ternura in Ostinato Rigore (1964), Ed. Assirio & Alvim, Porto 2013. (pág.39).

[7] Álvaro Siza, Três obras de boa recordação in 01- Textos Álvaro Siza. Civilização Editora, rua Alberto Aires Gouveia, 27. Porto 2009. (pág.199).

[8] Álvaro Siza Vieira, Imaginar a Evidência, Edições 70, Lisboa 2009. (pág.113).

[9] Fernando Pessoa, Floresta do Alheamento in Obra Poética, Companhia Aguilar Editora, Rio de Janeiro 1965. (pág.439).

[10] Alvaro Siza, Il piano della Malagueira, in Casabella n.º 498-499, jan.-fev. 1984.



10. Da práctica ou do exercício do desenho

Nulla dies sine linea

[Nenhum dia sem traçar uma linha]

Caius Plinius Secundus dito Plínio o Velho (23–79 dC) evoca o pintor Apeles de Kos o qual não passava um dia sem traçar uma linha ou seja sem desenhar.

Apelli fuit alioqui perpetua consuetudo num quamtam occupatum diem agendi, ut non lineam ducendo exerceret artem, quod ab eo in proverbium venit. [1]

[Aliás, era um hábito sistemático de Apelle, por mais ocupado que estivesse, não deixar passar um dia sem praticar sua arte traçando uma linha, o que deu origem a um provérbio.]

Um desenho do artista florentino Maso Finiguerra (1426-1464) dos meados do século XV, mostra um jovem concentrado no seu desenho tendo a seguinte legenda: Vo essere uno buono disegnatore e deventare uno buono architettore.

[Vou ser um bom desenhador e tornar-me um bom arquitecto.]



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fig. 47 - Maso Finiguerra, O Aprendiz de arquitecto?. c.1450, pena e tinta e aguada s/papel 19, 4 x 12,5 cm. Gabinetto Disegni e Stampe degli Uffizi, Florença.



Para Le Corbusier o exercício quotidiano do Desenho é:

Dessiner, c’est d’abord regarder avec ses yeux, observer, découvrir.

Dessiner, c’est apprendre à voir, à voir naître, croître, s’épanouir, mourir les choses et les gens. Il faut dessiner pour pousser à l’intérieur ce qui à été vu et demeurera alors inscrit pour la vie dans notre mémoire.

Dessiner, c’est aussi inventer et créer. Le phénomène inventif ne surviendra qu’après l‘observation…

Le dessin est un langage, une science, un moyen d‘expression, un moyen de transmission de pensée…

Le dessin permet de transmettre intégralement la pensée sans concours d’explications écrites ou verbales. Il aide la pensée à se cristalliser, à se prendre corps, à se développer. Pour l’artiste, le dessin est la seule possibilité de se livrer sans contrainte aux recherches du goût, aux expressions de la beauté et de l’émotion. Le dessin est pour un artiste le moyen par lequel il cherche, il scrute, note et classe, le moyen de servir de ce qu’il désire observer, comprendre, puis traduire et exprimer…

Le dessin, lui, est le témoin. Témoin impartial et moteur des oeuvres du créateur. Témoin aussi d’une terrible bataille: celle de la peinture…

Chaque journée da ma vie à été vouée en partie au dessin. Je n’ai jamais cessé de dessiner et de peindre, cherchant où je pouvais les trouver, les secrets da la forme. Il ne faut pas chercher ailleurs la clef de mes travaux et de mes recherches. [2]



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fig. 48 –Le Corbusier, le Palais des Soviets et Pise in Œuvre complète 1929-1934, Paris, Artemis, 1964. (pág.132).



E para Álvaro Siza, segundo Dominique Machabert: Le croquis est chez Siza une manière d’être. Il ne lui sert pas à représenter le projet, il lui sert de regard; c’est le dessin qui contemple l’espace pour montrer à son auteur ce qu’il doit être. [3]

[O esquisso em Siza é uma maneira de ser. Não serve apenas para representar o projecto, serve-lhe de olhar; é o desenho que contempla o espaço para mostrar ao seu autor o que ele deverá ser.]



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fig. 49 – Álvaro Siza, esquisso para o edifício do Largo da Lada, Ribeira Porto 1976. Edifício não realizado por Álvaro Siza.


E sobre o desenho e o acto de desenhar o próprio Álvaro Siza refere:

Outros instrumentos poderá utilizar o arquitecto; mas nenhum substituirá o desenho sem algum prejuízo, nem ele o que a outros cabe.

A procura do espaço organizado, o calculado cerco do que existe e do que é desejo, passam pelas intuições que o desenho subitamente introduz nas mais lógicas e participadas construções; alimentando-as e delas se alimentando.

Todos os gesto – também o gesto de desenhar – estão carregados de história, de inconsciente memória, de incalculável, anónima sabedoria.

É preciso não descurar o exercício, para que os gestos não se crispem, e com eles o resto. [4]


Em 2011 Álvaro Siza em entrevista com Francisco Granero Martin fala sobre a importância do desenho:

El dibujo, en mi vida como arquitecto, me da el acceso al trabajo. Aunque mi vida esté confeccionada por otros intereses prioritarios, mi formación, también, tiene que ver directamente con el dibujo. Yo empecé con la idea de ser escultor y la arquitectura no me interesaba por las circunstancias de aquel momento de la Escuela.

Después fui a la Escuela por la tensión que se creaba en mi familia a la cual no le gustaba mucho la idea que yo tuviera “una vida de artista” y, por tanto, de niño, me habitué a dibujar y encontre en ello una parte de placer (*).

Para el arquitecto dibujar es un ejercicio importantísimo como manera de aprender a ver. Pero no sólo para el arquitecto sino para el pintor, para el fotógrafo y, en definitiva, para todos que quieran aprender a ver.

El dibujo ayuda a penetrar en la vida de las cosas, aprender a verlas, aprender a saber ver. [5]

(*) Siza era hijo de ingeniero y obtuvo su título en la Escuela Superior de Bellas Artes de Oporto.


E na mesma entrevista acrescenta Álvaro Siza: Yo no veo al dibujo como una cuestión de magia, pero ciertamente puede parecerla por cómo las imágenes se van concretizando y cómo surgen de unos trazos rápidos y, aparentemente, inconexos.

El dibujo acompaña en la profundización del conocimiento y en la resolución de los problemas de todo proyecto: emocionales, de integración, de entorno, etc. etc.

Por tanto, el dibujo como magia, pero más como acompañamiento del pensamento para resolver los problemas de proyecto y, también, como motor para encontrar las fórmulas de resolución para establecer las pautas y estudiarlas.

El dibujo para idear, como libertad, comunicación internacional, instinto eventualmente e intento del processo de hacer. [6]


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fig. 50 - Álvaro Siza, Versailles, desenho caderno 265.12/88, in Bernardo Pinto de Almeida, O que a luz ao cair deixa nas coisas, Álvaro Siza – desenhos. Árvore Cooperativa de Actividades Artísticas , CRL. BPI. s/d, Porto. (pág. 23).


[1] Gaius Plinius Secundus dito Plínio o Velho (23–79 dC), História Natural, XXXV, 84.

[2] Le Corbusier, L’Atelier de la recherche patiente. Vincent Fréal & C.ia, Paris 1960. (pág. 27).

[3] Dominique Machabert, Siza: une question de mesure. Dessiner pas a pas. Éditions Le Moniteur 2008.

[4] Álvaro Siza, A Importância de desenhar 1987 in 01- Textos Álvaro Siza. Civilização Editora, rua Alberto Aires Gouveia, 27. Porto 2009. (pág.37 e 38).

[5] Francisco Granero Martin, Conversando com Álvaro Siza: El dibujo como liberación del espíritu. EGA Expression Gráfica Arquitectónica n.º 20, Año 17. Universitat Politècnica de València. 2012. (pág.56 a 65).

[6] Francisco Granero Martin, Conversando com Álvaro Siza: El dibujo como liberación del espíritu. EGA Expression Gráfica Arquitectónica n.º 20, Año 17. Universitat Politècnica de València. 2012. (pág.56 a 65).




11. O desenho e as Belas Artes


Segundo Francisco de Holanda (1517-1585) Michelangelo afirmava que o disegno, che con un altro nome chiamano schizzo, consiste e sussiste ciò che è la fonte ed il corpo della pittura e della scultura e dell’architettura e di tutti gli altri generi di pittura, e la radice di tutte le scienze. [1]

Na tradução de Joaquim de Vasconcellos o desenho, a que por outro nome chamam debuxo, nelle consiste e elle é a fonte e o corpo da pintura e da esculptura e da arquitetura e de todo outro genero de pintar e a raiz de todas as sciencias. [2]

E Francisco de Holanda acrescentava:

E chi impara per diventare scultore, o pittore, non si curi di perdere tempo a scolpire, o dipingere, o accostare colori molto lisci e molto profilati: ma ponga tutta la sua attenzione soltanto nel saper disegnare. [3]

E aquele que aprende para scultor, ou para pintor, nao cure de perder tempo em esculpir, nem pintar, nem empor as colores muito lisas e mui perfiladas: mas solamente ponha todo o seu studo em saber desenhar. [4]

E se esta não basta direi como Donatello (o qual, com licença do senhor Micael, foi um dos primeiros modernos que na scultura mereceo fama e nome em Italia) não dezia outra cousa a seus decipollos, quando os ensinava, senão que debuxassem, dizendo n’uma só palavra de doutrina: “Discipollos, vos quero entregar toda a arte da scultura, quando vos digo: debuxai”. [5]


Para Le Corbusier Architecture, sculpture, peinture, la marche du temps et des événements les conduit indubitablement, maintenant, vers une synthèse. [6]

[Arquitectura, escultura, pintura, o fluir do tempo e o passar dos acontecimentos conduz agora indubitavelmente para uma síntese]

E que il n’y a pas de sculpteurs seuls, de peintres seuls, d’ architectes seuls. L’ evenement plastique s’a accomplit dans une forme au service de la poesie. [7]

[não há só escultores, só pintores e só arquitectos. O acontecimento plástico realiza-se numa forma única ao serviço da poesia.]



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fig. 51 – Le Corbusier, Chevaux rouges et cavalières bleues, au bas femme bleue couchée, 1936. Crayon graphite, encre noire, pastel et eau sur papier 20,8 x 30,8 cm. Fondation Le Corbusier. Paris.



Para Álvaro Siza, para além do desenho cujo objectivo é o projecto, há também um outro desenho que aparentemente corresponde a uma outra finalidade: A maior parte dos meus desenhos obedece a um fim preciso: encontrar a Forma que responda à Função e da função se liberte – e do esforço – abrindo-se a imprevisível destino.

Simultâneamente ou não, “ao lado”, surge outro desenho.

Desenho de prazer, de ausência, de repouso, cruza-se com o outro.

Um ou outro podem surgir na mesma folha de papel, aparentemente estranhos, voluntária ou involuntariamente relacionados. [8]



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fig. 52 – Álvaro Siza in in Bernardo Pinto de Almeida, O que a luz ao cair deixa nas coisas, Álvaro Siza – desenhos. Árvore Cooperativa de Actividades Artísticas , CRL. BPI. s/d, Porto. (pág. 23).



E Álvaro Siza refere que: Alvar Aalto contava que por vezes, quando o projecto não avançava, fazia desenhos ou pinturas ao acaso, sem ligação directa com o projecto. Assim retomava o percurso. [9]

E de facto Aalto afirma que quando enfrentava um problema difícil, e lhe acontecia uma raiva das três da manhã, para o superar procedo entonces – algunas veces de manera totalmente instintiva – asi: después de que el espiritu de mi trabajo y sus innumerables imperativos se han grabado en mi subconsciente, olvido por un tiempo el labirinto de los problemas.

Paso a un modo de trabajo que no es muy ajeno al del arte abstracto. Guiado unicamente por mi instinto, dibujo, no ya sínteses arquitectónicas, sino composiciones francamente infantiles, dejando así poco a poco, a partir de una base abstracta,desarrollarse una idea nuestra, una espécie de espiritu general, gracias a la qual, los numerosos problemas parciales y contradictorios podrán ser armonizados. [10]


E ainda Álvaro Siza:

Pode um retrato minucioso ou um risco ao acaso iluminar no instante a paciente pesquisa, percorrendo os corredores da memória, sem que haja apelo ou consciência disso.

Desenho é projecto, desejo, libertação, registo e forma de comunicar, dúvida e descoberta, reflexo e criação, gesto contido e utopia.

Desenho é inconsciente, pesquisa e é ciência, revelação do que não se revela ao autor, nem ele revela, do que se explica noutro tempo.

Liberto, o outro desenho conduz ao desenho consciente. [11]



sv53afig. 53 - Álvaro Siza, 1997 in Bernardo Pinto de Almeida, O que a luz ao cair deixa nas coisas, Álvaro Siza – desenhos. Árvore Cooperativa de Actividades Artísticas , CRL. BPI. s/d, Porto. (pág. 23).



Por isso e sobre o que a luz ao cair deixa nas coisas [12] sobre estes outros desenhos de Álvaro Siza ouso dizer o que Paul Éluard dizia de Picasso:

Tu dessines avec amour ce qui attendait d’exister
Tu dessines dans le vide
Comme on ne dessine pas.
[13]

Ou ainda como Eugénio de Andrade escrevia sobre Ângelo de Sousa (1938-2011) cuja pintura sabia falar da alegria de uma maneira assim tão imediata e limpa, tão segura e discreta, ao mesmo tempo, e tão serena. É uma alegria tecida de luz, ou melhor, é como se luz e alegria fossem dois nomes do mesmo único amor. [14]



Por cá, na (extinta) Escola de Belas Artes dirigida por mestre Carlos Ramos, procurava-se através do desenho a conjugação das três artes (nome de uma disciplina conjunta no último ano dos três cursos).

Já o Curso de Arquitectura, no difícil percurso entre São Lázaro e o Campo Alegre, se muito se perdeu do convívio entre arquitectos, pintores e escultores, salvou-se felizmente o Desenho que permaneceu (apesar do computador…) como exercício essencial e primeiro para a elaboração de qualquer forma de expressão artística.

E a propósito do ensino da Arquitectura diz Álvaro Siza:

A Arquitectura é Arte ou não é Arquitectura. Não é a mãe das artes porque a elas não dá origem, sendo como elas autónomas e avessa à dispersão. [15]


Ao acaso no site da Faculdade de Arquitectura um conjunto de esquissos de estudantes.


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fig. 54 - Teresa Guedes in https://www.facebook.com/pg/FAUPorto/photos/


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fig. 55 - Cristina Araújo in https://www.facebook.com/pg/FAUPorto/photos/


[1] F. de Hollanda, Dialoghi romani, III, (pág. 138).

[2] Joaquim de Vascocellos (1849-1936), Terceiro Diálogo de Quatro Diálogos da pintura Antiga, Francisco de Hollanda, Miguel Angelo, Vittoria Colonna, Lattanzio Tolomei. Interlocutores em Roma. Renascença Portuguesa. Porto M DCCC XCVI. (pág. 44).

[3] F. de Hollanda, Della pittura antica, XVI, (Lisboa 1548). (pág. 38).

[4] Francisco de Holanda, Da pintura antiga in Joaquim de Vascocellos (1849-1936), Tratado de Francisco de Hollanda. Contem a) Livro Primeiro – parte Tehorica b) Livro Segundo Dialogos em Roma. Primeira edição completa d’esta célebre obra comentada por Joaquim de Vasconcellos. Edição da Renascença Portuguesa Porto 1918. (pag.102).

[5] Francisco de Holanda, Da pintura antiga in Joaquim de Vasconcellos (1849-1936), Tratado de Francisco de Hollanda. Contem a)Livro Primeiro – parte Tehorica b)Livro Segundo Dialogos em Roma. Primeira edição completa d’esta célebre obra comentada por Joaquim de Vasconcellos. Edição da Renascença Portuguesa Porto 1918. (pag.206).

[6] Le Corbusier, L’espace indicible, in L’Architecture d’Aujourd’hui, numéro hors-série spécial Art, Avril 1946, (pág. 9 a 17).

[7] Maurice Besset, Qui était Le Corbusier? Editions Albert Skira, Genève, 1968. E citado por Giuseppe Mazzriol em Le Corbusier pittore e scultore, catálogo de exposição, Arnoldo Mondadori, Milano 1986. (pág.16).

[8] Álvaro Siza, Desenhos-Exposição Japão (2001) in 01- Textos Álvaro Siza. Civilização Editora, rua Alberto Aires Gouveia, 27. Porto 2009. (pág.273).

[9] Álvaro Siza, Exposição em Nápoles (2001), in 01- Textos Álvaro Siza. Civilização Editora, rua Alberto Aires Gouveia, 27. Porto 2009. (pág.252).

[10] Alvar Aalto, Escritos 1921-1966.Taller 5 Departamento de Proyectos Arquitectonicos Escuela de Arquitectura de Sevilla 1993. (pág.64).

[11] Álvaro Siza, Desenhos – Exposição Japão in 01- Textos Álvaro Siza. Civilização Editora, rua Alberto Aires Gouveia, 27. Porto 2009. (pág.273).

[12] Bernardo Pinto de Almeida, O que a luz ao cair deixa nas coisas, Álvaro Siza – desenhos. Árvore Cooperativa de Actividades Artísticas , CRL. BPI. s/d, Porto.

[13] Paul Éluard (1895-1952), À Pablo Picasso in Cahiers d’Art n°3-10, 1938. Editions Cahiers D'Art 14 rue du Dragon, Paris 1938.

[14] Eugénio de Andrade. Post-Scriptum sobre a Alegria (25.X.64) Catálogo da Exposição de Angelo de Sousa 12 de dezembro de 1964 Cooperativa Árvore Porto 1964.

[15] Álvaro Siza, Sobre Pedagogia (1995), in in 01- Textos Álvaro Siza. Civilização Editora, rua Alberto Aires Gouveia, 27. Porto 2009. (pág.169).



CONTINUA

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