terça-feira, 29 de setembro de 2026

poema

 

gesto longínquo pelo ar…


Oskar Schlemmer (1888–1943), “Duas figuras oscilantes em movimento contrário" (Zwei Schwingende in Gegenbewegung) 1931. caneta e tinta preta sobre papel de escrita liso e ligeiramente amarelado, 28,5 x 22 cm. Staatsgalerie Stuttgart.


“O que muda na mudança, 

se tudo em volta é uma dança

no trajeto da esperança,

junto ao que nunca se alcança?”

Carlos Drummond de Andrade [1]

 

A ruína sem passado sem presente

sequioso tempo em que o consumo

fenece no esquecimento sem desejo

tudo o que torna sonho apenas fumo

 

Memória traída esquecida amargura

insólito segredo com sabor cansado

inutilidade repetida gestos sombrios

peco caminho capcioso tão fatigado

 

Ritmo saturado encolhido pelo vento

quebras ao acaso coro de ramagens

espinhoso verde sem entendimento

 

Águas mortas a borbulhar no espaço

gesto longínquo pelo ar desenhando

na densidade medida em breve traço

 



[1] Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), Mudança in Corpo (1984). Companha das letras, Lisboa 2015. (pág. 27).

Sem comentários:

Enviar um comentário