Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















quarta-feira, 27 de julho de 2011

Apontamentos sobre terras, fortalezas e cidades em Os Lusíadas de Luís de Camões (3)

Nota – Continuaremos a referir as cidades, conforme são nomeadas ao longo de Os Lusíadas, e não por uma qualquer sequência geográfica ou cronológica. Por exemplo, trataremos agora de  Ormuz, citada no Canto II, e só trataremos de Mascate e outras cidades do Golfo Pérsico, quando forem referidas  no Canto X.

Canto II

No Canto II, Vénus intervém e ajudada pelas Nereidas, afasta as naus de Vasco da Gama de Mombaça e indica-lhe o caminho até Melinde onde encontram de facto um bom acolhimento. Enquanto a armada se dirige para Melinde, Júpiter para  consolar Vénus que lhe havia pedido protecção para os portugueses, profetiza futuras glórias aos Lusitanos.

Canto II – estrofe XLVI

Fortalezas, cidades e altos muros
Por eles vereis, filha, edificados;
Os Turcos belacíssimos e duros
Deles sempre vereis desbaratados;
Os Reis da Índia, livres e seguros,
Vereis ao Rei potente sojugados,
E por eles, de tudo enfim senhores,
Serão dadas na terra leis milhores.

11. Ormuz (Irão) 

A preocupação com a ocupação de Ormuz, prende-se com a já referida estratégia de domínio das rotas marítimas do Índico com a ocupação de todas as suas “portas”. No caso de Ormuz com o controle do Estreito do mesmo nome e o acesso ao golfo Pérsico. (Do mesmo modo que Adem, cidade estrategicamente situada à entrada do Mar Vermelho e Malaca à entrada das rotas da China).

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Ormuz é já conhecida dos portugueses, através das viagens por terra, e do próprio livro de Marco Polo.

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Marco Polo com elefantes e camelos chegando a Ormuz no Golfo Pérsico c.1410/12, Miniatura do livro “As Viagens de Marco Polo” no Livre des Merveilles Bibliothèque Nationale de France

Ormuz aparece já cartografada nos mapas do século XVI.

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Lopo Homem ? / Pedro e Jorge Reinel ? Carta do Mar Índico de 1519, carta n.º 6 do Atlas Miller BnF

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Pormenor do Golfo Pérsico e do Mar Vermelho

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Pormenor da entrada do Golfo Pérsico e o que deveria ser a cidade de Ormuz.

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Pormenor com a cidade de Adem-Regio na Arabia Felix e a cidade de Ormanus, que sendo Ormuz está mal localizada.

 

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Anónimo Livro de Marinharia de João de Lisboa c. 1560l311a

Pormenor do Golfo Pérsico com a indicação de Ormuz

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Sebastião Lopes ? Carta do Oceano Índico c.1565, atlas portolano Newberry Library Chicago USA

Mas a conquista de Ormuz não se revelou fácil para os portugueses e isso mesmo revela Camões no Canto II estrofe XLXIX, onde fala do Reino de Ormuz duas vezes subjugado.

E vereis o Mar Roxo, tão famoso,
Tornar-se-lhe amarelo, de enfiado;
Vereis de
Ormuz o Reino poderoso
Duas vezes tomado e sojugado.
Ali vereis o Mouro furioso
De suas mesmas setas traspassado;
Que quem vai contra os vossos, claro veja
Que, se resiste, contra si peleja.

De facto Ormuz foi assaltada a primeira vez por Afonso de Albuquerque em 1507 que quase conseguiu concluir a construção do Forte então apelidado de Nossa Senhora da Vitória, se não fosse a deserção de três capitães portugueses (Motim dos Capitães). Foi forçado a desistir em Janeiro de 1508 e só em 1515, consegue conquistar definitivamente a cidade, concluir a fortaleza, agora nomeada de Nossa Senhora da Conceição, e estabelecer o domínio português.

Camões no Canto X, quando Vénus também relata as proezas dos portugueses e  dos vice-reis da Índia, volta a referir as cidades do Oriente, e de novo Ormuz, e a sua conquista por Afonso de Albuquerque aos párseos (persas).

Canto X estrofe XL

Esta luz é do fogo e das luzentes
Armas com que Albuquerque irá amansando
De Ormuz os Párseos, por seu mal valentes,
Que refusam o jugo honroso e brando.
Ali verão as setas estridentes
Reciprocar-se, a ponta no ar virando
Contra quem as tirou; que Deus peleja
Por quem estende a fé da Madre Igreja.

F.L. de Castanheda relata a conquista de Ormuz,, no Livro II, capítulos LXI a LXIII, da Historia dos descobrimentos & conquista da India pelos Portugueses.

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Camões refere ainda Ormuz, no Canto X, estrofe LIII,  na sua submissão a D. Duarte de Meneses e Vasco da Gama. A referência a Vasco da Gama, resulta de ter sucedido a Duarte de Meneses, já com os títulos de conde da Vidigueira, almirante do mar Índico e vice-rei, na sua terceira viagem à Índia em 1524.

Canto X, estrofe LIII

Virá despois Meneses, cujo ferro
Mais na África, que cá, terá provado;
Castigará de
Ormuz soberba o erro,
Com lhe fazer tributo dar dobrado.
Também tu, Gama, em pago do desterro
Em que estás e serás inda tornado,
Cos títulos de Conde e d' honras nobres
Virás mandar a terra que descobres.

Fernão Lopes de Castanheda (Livro VI. cap. XXII) refere o tributo que Ormuz pagava ao Rei de Portugal.

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“& que pagaria a el rey de Portugal  mais corenta mil xerafins que fazião sessenta mil cõ os q pagava dãtes, /de que pagaria logo ametade: & pagaria a valia de fazẽda q se tomara a el rey de Portugal na feytoria: e alẽ disso daria duzẽtos mil xerafins / pera o q ho governador quisesse”.

António Tenreiro no seu Itinerário (1560) também descreve a questão do tributo e sobretudo a cidade de Ormuz:

Capítulo I Da cidade de Ormuz, no Reino da Pérsia

Antes que o reino de Ormuz fosse ganhado por el Rei D. Manuel, que Deus haja, pagavam os reis de Ormuz párias ao Xeque Ismael ou Sufi, como agora lhe chamam; depois não lhas pagaram mais. E querendo el Rei D. Manuel saber o que rendia a alfândega de Ormuz, pôs nela oficiais portugueses em tempo que Diogo Lopes de Sequeira governava a Índia. Pelo que el Rei de Ormuz se alevantou logo contra os portugueses, mandando oferecer ao Sufi as párias que dantes tinha no reino de Ormuz com outras tantas e que o ajudasse contra os portugueses. Do que o Sufi foi contente: e mandou gente em sua ajuda. Mas quando chegou a terra firme, já el Rei de Ormuz era morto e feito outro rei, que estava concertado com os portugueses. Vendo os capitães do Sufi que iam em ajuda d’el Rei que a sua ida era debalde, tolhiam as cáfilas que iam para Ormuz. Pelo que el Rei de Ormuz perdia as suas rendas e escusava-se ao governador D. Duarte de Meneses, que então governava a Índia, que não podia pagar a el Rei de Portugal as párias que era obrigado a pagar. Para desapresar Ormuz dessa opressão e da gente do Sufi mandou o governador uma embaixada por um homem de muito merecimento, chamado Baltasar Pessoa, o qual partiu da cidade de Ormuz, de que farei menção. Esta cidade de Ormuz está em uma ilha assim chamada, situada na boca do sino Pérsico três léguas de terra firme; terá de roda três ou quatro léguas: há nela uma pequena serra, que de uma parte tem uma pedreira de sal e que se chama o Sal Índico, e da outra é de viveiros de enxofre. O sal é de dentro muito alvo e de fora ruivo. Uma légua da cidade estão estão três poços de água muito boa e não tem outra salvo de cisternas, ou salobras, nem têm arvoredos, nem campos verdes. E conquanto assim é estéril por estar naquela paragem e ter o melhor porto que pode ser, fundaram nela os mouros uma cidade a que puseram o nome Ormuz, em uma ponta da ilha e os portos ficam em baías: um do Levante e o outro do Poente, em que podem tirar a monte naus de quatrocentos tonéis.

António Tenreiro - Viajante (séculos XV e XVI). Provavelmente natural de Coimbra, era cavaleiro professo na Ordem de Cristo. Foi um dos primeiros portugueses a seguir para a Índia, onde se notabilizou. Incumbido de seguir por terra com uma mensagem para D. João III, deixou Ormuz a 20 de Setembro de 1528 e chegou a Lisboa em 20 de Maio de 1529. Da viagem, ficou o seu Itinerário da Índia para Portugal por Terra, impresso pela primeira vez em 1560, mas que voltaria a ser publicado ainda nesse século. O seu relato impressionou D. João III, que lhe terá concedido uma tença anual. Segundo o historiador Diogo de Couto, terá sido gravemente ferido a golpes de cutelo quando, pouco depois de regressar, abandonava os paços reais a altas horas da noite. (in “História de Portugal – Dicionário de Personalidades” (coordenação de José Hermano Saraiva), edição QuidNovi, 2004)

Diogo Lopes Sequeira (1465-1530), Governador da Índia entre 1518 e 1522.

D. Duarte de Menezes (ant. 1488-dep. 1539) foi Vizo-Rei da Índia entre 1584 e 1588.

Ainda no Canto X, na estrofe C e CI, Camões refere o estreito e o reino de Ormuz

estrofe C

Olha as Arábias três, que tanta terra
Tomam, todas da gente vaga e baça,
Donde vêm os cavalos pera a guerra,
Ligeiros e feroces, de alta raça;
Olha a costa que corre, até que cerra
Outro
Estreito de Pérsia, e faz a traça
O Cabo que co nome se apelida
Da cidade Fartaque, ali sabida.

estrofe CI

Olha Dófar, insigne porque manda
O mais cheiroso incenso pera as aras;
Mas atenta: já cá destoutra banda
De Roçalgate, e praias sempre avaras,
Começa o
reino Ormuz, que todo se anda
Pelas ribeiras que inda serão claras
Quando as galés do Turco e fera armada
Virem de Castelbranco nua a espada.


João de Barros na Década I, Livro IX, Cap. I, descreve o estreito e o reino de Ormuz:

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(…) té o cabo Rofalgate, que está em vinte e dous graos e meio, e será de costa cento e vinte leguas, toda he terra esteril, e deserta. Neste cabo começa o Reyno de Ormuz, e delle té o outro cabo Monçadan haverá oitenta e sete leguas de costa, em que jazem estes lugares do mesmo Reyno, Calayate, Curiante, Mascate, Soar, Calaja, Orsaçam, Dobá, e Lima, que fica oito leguas antes de chegar ao cabo Monçadan, que Ptolomeu chama Asaboro, situado per elle em vinte e tres graos e meio, e per nós em em vinte e seis, no qual acaba a primeira nossa divisão. E a toda a terra que se comprehende entre estes dous termos, os Arabios lhe chamam Hyaman, e nós Arabia Feliz, a mais fértil, e povoada parte de toda Arabia.

Nesta última estrofe, Camões refere  Pedro de Castelo Branco que foi para a Índia em Novembro de 1533.

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Braun and Hogenberg, Ormuz 1572, Civitates Orbis Terrarum,The Hebrew University of Jerusalem

E ainda João de Barros nas Décadas da Ásia II, Livro II cap. 2

"A cidade de Ormuz está situada em hua pequena ilha chamada Gerum que jaz quasi na garganta de estreito do mar Parseo tam perto da costa da terra de Persia que avera de hua a outra tres leguoas e dez da outra Arabia e terà em roda pouco mais de tres leguoas: toda muy esterele e a mayor parte hua mineira de sale enxolfre sem naturalmente ter hum ramo ou herva verde.

A cidade em sy é muy magnifica em edificios, grossa em tracto por ser hua escala onde concorrem todalas mercadorias orientaes e occidentaes a ella, e as que vem da Persea, Armenia e Tartaria que lhe jazem ao norte: de maneira que nam tendo a ilha em sy cousa propria, per carreto tem todalas estimadas do mundo /...../ a cidade é tam viçosa e abastada, que dizem os moradores della que o mundo é hum anel e Ormuz hua pedra preciosa engastada nelle"

A Fortaleza

Rafael Moreira, em A época manuelina, refere deste modo a fortaleza de Ormuz:

A única fortificação da época manuelina que parece conservar-se hoje no Oriente é a de Ormuz, onde aliás vários períodos construtivos envolvem o núcleo de origem, ini­ciado por Afonso de Albuquerque logo após a conquista da ilha (1507), mas só adiantado com a sua estadia de sete meses (1515), em que lhe mudou o nome para Nossa Senhora da Conceição. Segundo o arqueó­logo e historiador da arquitectura Wolfram Kleiss, consistia num pentágono irregular de cerca de 70 m por 90 m (de que metade permanece de pé), com torres rectangulares e ultra-semicirculares nos ângulos, sendo toda a face nascente, sobre o mar, ocupada pelo palácio dos capitães, com a sua torre de menagem, o primeiro elemento a ser construído. Foi-nos possível averiguar que, numa segunda fase, em 1525-1528, o «mestre das obras na cidade de Ormuz» reparava o fosso e um cubelo, talvez acrescentando então à entrada do paço as duas originalíssimas torres hexagonais acasamatadas junto a uma escada de caracol, e em 1533 Cristóvão Fernan­des fazia a cisterna abobadada no pátio do castelo, duas estru­turas ainda muito bem conservadas; em 1540 o capitão Martim Afonso de Melo erguia o «baluarte novo» e o «baluarte redondo», destinados a artilharia grossa; e em 1558-1560 Inofre de Carvalho transformava o conjunto num impressio­nante recinto de 260 m por 176 m fortificado à italiana. Trata-se, pois, de um testemunho extraordinariamente va­lioso de evolução formal e de riqueza das formas de transição no Oriente português, mas que é único. (Rafael Moreira – A época manuelina in Portugal no Mundo – História das Fortificações Portuguesas no Mundo, direcção de Rafael Moreira, Publicações Alfa 1989)

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Planta de Ormuz. A fortaleza portuguesa da ilba de Ormuz (Irão), à entrada do golfo Pérsico, é um raro caso de conservação de fases construtivas sobrepostas documentando a evolução da arquitectura militar quinhentista no Oriente, desde o núcleo inicial de Afonso de Albuquerque, de 1507-1515 (a vermelho), até às últimas reformas antes da sua conquista pelo xá Abas da Pérsia em 1622. Destaque-se, pelas suas dimensões e modernidade, a intervenção (a negro) do arquitecto obidense Inofre de Carvalho em 1558-1560, inspirado em modelos italianos (levantamento do arquitecto W. Kleiss, 1978). in Rafael Moreira – A época manuelina in Portugal no Mundo – História das Fortificações Portuguesas no Mundo, direcção de Rafael Moreira, Publicações Alfa 1989

Gaspar Correia descreve todo o ritual da fundação e construção da fortaleza, no seu livro Lendas da Índia, Maio de 1515:

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Tendo todas estas pertenças juntas, e grande quantidade de tudo, e o primeyro do alicerce “aberto aos “ tres dias de mayo, dia de Santa Cruz, o Governador tomou a enxada nas mãos, e dom Garcia, e os capitães, que acabando o padre de cantar huma oração da evocação de Santa Cruz, o primeyro foy o Governador que começou a cavar, e os outros capitães com elle, que cavarão hum pouqo, e então entrarão os trabalhadores que abrirão todo o lanço. E querendo assentar pedra, que foy aos seis dias do mês, depois de os padres rezarem orações, e deitarem benções e agoa benta, o Governador deitou hum panno sobre os hombros, em que lhe puserão huma pedra que levou abaixo ao alicerce, e com suas mãos assentou onde os mestres lhe dixerão, debaixo da qual elle meteo com sua mão cinqo portugueses d’ouro; e logo dom Garcia e os outros capitães, cada hum troxerão pedras às costas, que assentarão onde lhe mandavão (…)

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E a primeyra obra que se alevantou forão dous cubellos na travessa da praya, antre os quaes fiqou a porta assy na praya, com seu alçapão, e em cyma torre de gorita pera defensão da porta; e hum destes cubellos fiqou fundado dentro no mar, em que de baixa mar a grã pressa se abrio o alicerce; e foy oitavado e largo, sobradado. Onde logo se armou altar, e “foy” feita igreja da evocação de Nossa Senhora da Conceição, que assy o mandara ElRey dom Manuel, e para ysso mandara hum sino que tomou da Conceição de Lisboa, que tinha derrador os doze apostolos dourados, que este foy o primeyro sino que se pôs na Conceição de Lisboa.(…)

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No cabo d’este muro pera ponta se fez outro cubello forte, e atravessando a ponta se fez huma torre quadrada, debaixo da qual fiqou um postigo pera serviço da ponta, de que logo fizerão adro pera a gente que morria, que enterrado na area em só dous dias se comia hum corpo, que era cousa d’espanto(…)

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Como a forteleza foy çarrada toda em roda altura de dous homens, mandou o Governador trabalhar na torre de menagem, que fiqou logo junto da porta da fortaleza, e foy alevantada em outro sobrado muy alto, que ficava o terrado de cyma das casas d’ElRey; e em cyma mandou fazer huma casinha pera a polvora, e em cyma se fez campanario, em que se pôs o sino que já dixe(…)

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E porque o Governador sempre andava na obra, a gente trabalhava com muyta vontade; onde mandava trazer almoços e merendas, com muyto pão de trigo muyto bom, que os mouros fazião como bolos, e uvas, e figos, mangas, e tamaras maduras, e ysto em avondança pera todos os que trabalhvão. Ao que ElRey tambem fazia grande ajuda com muytos grandes cestos de fruitas, que o Governador com seu olho repartia por todos.

Gaspar Correia insere na sua obra uma vista de Ormuz em que destaca a fortaleza, a cidade com os minaretes e as montanhas por detrás.

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Gaspar Correia (c. 1495 - c. 1561) Fortaleza de Ormuz in "Lendas da Índia", c. 1550

As diversas representações da Fortaleza de Ormuz, apresentam-na com uma planta sensivelmente quadrada, com uma torre de menagem, como eram as primeiras fortificações portuguesas no ultramar.

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António Bocarro e Pedro Barreto de Resende, Demonstração da Fortaleza de Ormuz 1635 Livro do Estado Da India Oriental, British Library London

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Detalhe de mapa português do estreito de Ormuz, mostrando a ilha e a fortaleza de Ormuz.

A ilha de Ormuz, é representada com uma forma sensivelmente triangular tendo no vértice a fortaleza e na base a cidade onde se destaca um enorme minarete.

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João Teixeira Albernaz I Plantas das Cidades e fortalezas da conquista da India oriental Portugal 1648

Também Albernaz representa com maior rigor e pormenor a ilha, a fortaleza e o minarete Alcouram dominando a cidade, que se abre em leque, com arruamentos radiais, e onde estão localizadas a igreja de S. João e Santo Agostinho.

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Estão representadas a entrada e a ribeira das naus.

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Em frente à Ribeira das naus, a Estrebaria dos cavallos. 

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No outro lado da ilha a Caza del Rey.

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À direita da imagem as igrejas de S. Lucia e de Nossa Senhora da Esperança.

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No monte N.S. da Pena.

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À esquerda na imagem a Ilha de Quixime onde se faz aguada l22c

Na terra firme , costa da Pérsia, a fortaleza de Comoram (Comorão).

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A imagem de Manuel Godinho Erédia apresenta a fortaleza com as alterações introduzidas ao longo do século XVI, com os baluartes em triângulo, o fosso e uma muralha separando da cidade. Nesta estão indicadas a Mesquita e o Minarete e a Alfândega.

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Manuel Godinho de Erédia, 1563-1623. Plantas de praças das conquistas de Portugal : feytas por ordem de Ruy Lourenço de Tavora Vizo rey da India / por Manoel Godinho de Eredia Cosmographo. - 1610.

Em 1521 o soberano de Ormuz rebelou-se contra o domínio português, mas foi derrotado e destronado, um novo governante aliado tendo ocupado o seu lugar. Gaspar Correia

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Em 1528 Cristóvão de Mendonça era Capitão-mor da Fortaleza de Ormuz.

Em 1542-1543  a totalidade das receitas aduaneiras de Ormuz foi destinada ao rei de Portugal.

O período entre 1550 e 1560 foi de guerra contínua com os Turcos pela supremacia no Golfo Pérsico.

Em 1550-1551, os Portugueses conquistaram aos Turcos o Forte de El Katiff (Al Qatif) na Arábia. Em 1551-1552, os Turcos atacaram e saquearam Mascate. Com a sua retomada pelos portugueses e para complemento da defesa de Ormuz, foi iniciada a Fortaleza de Mascate.

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Batalha naval 1555 entre portugueses comandados por Fernando de Meneses e galés turcas de Cide Elal Cabo de Moncadão estreito de Ormuz Livro de Luisarte de Abreu The Pierpont Morgan Library

Em 1559, os Turcos sitiaram os Portugueses no Forte de Bahrein, mas, após vários meses de cerco, foram forçados à retirada.

Data deste período, o final da década de 1550 a intervenção do arquitecto Inofre de Carvalho na fortificação de Ormuz.

A Dinastia Filipina

No contexto da Dinastia Filipina, as possessões portuguesas em todo o mundo tornaram-se alvo de ataques dos inimigos de Espanha, e no golfo Pérsico, particularmente dos Ingleses.

Neste período conturbado, os eventos sucederam-se rápidamente, até à perda das praças portuguesas e do controle da região.

Em 1581, Mascate foi uma vez mais arrasada pelos Turcos. No ano seguinte (1582), o soberano de Lara (a ilha de Larack, vizinha a Ormuz), que se revoltara, impôs cerco à Fortaleza de Ormuz. Os Portugueses, entretanto, conseguiram rechaçar os invasores e, a seu turno, impuseram cerco ao Forte de Xamel, em Lara, que conquistaram.

Finalmente, em 1588, a Fortaleza de Mascate estava reconstruída e a cidade fortificada, assim como havia sido erguida uma fortificação próximo a Matara (Matrah) – o Forte de Matara.

Por volta de 1591, com planos de Giovanni Battista Cairati, as defesas da fortaleza de Ormuz foram reforçadas.

O abastecimento de água potável de Ormuz era feito a partir dos poços em Comorão, na costa persa. Aqui os Portugueses mantiveram um forte (Forte de Comorão), que capitulou ante os persas em 22 de Setembro de 1614.

Em 1616, Soar, que havia se revoltado uma vez mais, foi capturada por uma frota Portuguesa e o seu soberano, executado.

Em 1619, a fortaleza de Ormuz contava com um efetivo estimado entre quinhentos a setecentos soldados.

Em Janeiro de 1619, Rui Freire de Andrade, "General do Mar de Ormuz e costa da Pérsia e Arábia", partiu de Lisboa para a região, com instruções para dispersar os Ingleses, que haviam fundado uma feitoria em Jâsk desde 1616. A armada fundeou em Ormuz a 20 de Junho de 1620.

Em 1620 forças portuguesas sob o comando de Gaspar Pereira Leite erguem o Forte de Corfacão (atual Khor Fakkan).

Em 8 de Maio de 1621, forças portuguesas sob o comando de Rui Freire de Andrada iniciam a construção do Forte de Queixome (Qeshm), para assegurar o suprimento de água potável para Ormuz. Este acto foi considerado como um sinal de hostilidade declarada pelo Xá da Pérsia, que, em 1622, com o apoio de forças árabes, consegue capturar Julfar aos Portugueses.

Na sequência da queda do Forte de Queixome (11 de Fevereiro de 1622), uma flotilha do Xá Abaz I da Pérsia, com mais de 3.000 homens e o apoio de seis embarcações Inglesas,  cercaram o Forte de Ormuz (20 de Fevereiro). A 3 de Maio Ormuz rende-se aos Persas e aos seus aliados Ingleses. A guarnição e a população portuguesa na ilha, cerca de 2.000 pessoas, foram enviadas para Mascate. (Wilkipédia)

Ormus é mencionado por John Milton (1608-1674) no Paradise Lost de 1667 (Book II, lines 1-5):

“ High on a throne of royal state, which far
outshone the wealth of Ormus and of Ind,
Or where the gorgeous East with richest hand
Show'rs on her kings barbaric pearl and gold,
Satan exalted sat, ”

Compare-se a imagem de Albernaz com uma executada quase cem anos depois do mesmo ponto de vista.

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Johann Caspar Arkstee and Henricus Merkus, Das Eyland Ormus
oder Jerun
ca. 1747 Leipzig in Allgemeine Historie der Reisen zu Wasser und Lande; oder Sammlung aller Reisebeschreibungen, no.10, The Hebrew University of Jerusalem.

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A fortaleza e o minarete  dominando a cidade, que se abre em leque, com arruamentos radiais, e onde estão localizadas a igreja de S. João e Santo Agostinho.

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Em frente ao porto, as estrebarias.

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No outro lado da ilha o Koenigs Palast (a Caza del Rey). l23e

À direita da imagem as igrejas de S. Lucia e de Nossa Senhora da Esperança.

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No monte N.S. da Pena.

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À esquerda na imagem a Ilha de Kishom ou Quixome  (Quixime), com o poço.

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Na terra firme , costa da Pérsia, a fortaleza de Komrun (Comorão).

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(CONTINUA)

domingo, 24 de julho de 2011

Apontamentos sobre terras, fortalezas e cidades em Os Lusíadas de Luís de Camões (2)

Sofala, Quíloa e Mombaça

Ainda no Canto I, Camões refere, na viagem de Vasco da Gama, as cidades, todas em pequenas ilhas, de Quíloa, Mombaça e Sofala na costa oriental de África. Os portugueses deveriam ter algumas informações, mais ou menos fidedignas sobre estas cidades, através de viagens por terra. No entanto o Gama não irá a estas cidades. Camões refere nas “profecias” dos cantos posteriores, a conquista destas cidades, nos inícios do século XVI, consolidando a ideia de uma estratégia portuguesa para tornar o Índico um “mare nostrum” pelo controle de todas as rotas marítimas.

Retomemos a estrofe LIV

Esta Ilha pequena, que habitamos,
É em toda esta terra certa escala
De todos os que as ondas navegamos,
De
Quíloa, de Mombaça e de Sofala;
E, por ser necessária, procuramos,
Como próprios da terra, de habitá-la;
E por que tudo enfim vos notifique,
Chama-se a pequena Ilha – Moçambique.

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Braun and Hogenberg Aden, Mombaça, Quíloa e Sofala, in Civitates Orbis Terrarum I, 1572 ed. Latim The Hebrew University of Jerusalem

8. Sofala (Moçambique)

De todos os que as ondas navegamos,/De Quíloa, de Mombaça e de Sofala;

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Guillaume de Lisle, (1675-17?) Carte du Congo et du Pays des Cafres, 1708 Atlas du monde A Paris, chez l'Auteur sur le Quai de l'Horloge, avec Privilege, Janvier 1708. Rumsey Collection

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Vasco da Gama não se detém em Sofala, como refere João de Barros, nas   Décadas da Ásia Livro I.IV.III.

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SentindoVasco da Gamma que as aguas o apanhavam pera dentro, temeo ser alguma enseada penetrante donde não pudesse sahir. O qual temor lhe fez dar tanto resguardo por fugir a terra, que passou sem haver vista da povoação de Çofala, tão celebrada naquellas partes por causa do muito ouro que os Mouros alli hão dos Negros da terra per via do commercio, segundo elle adiante soube;…

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Abraham Ortelius "Africae tabula nova", detalhe, 1570, Antwerpen

Sofala, situada numa pequena ilha, centralizava o comércio do ouro na costa oriental africana. As minas de ouro da região irão ser, em 1885 ainda inspiradoras do romance As Minas de Salomão, de Henry Rider Haggard (1856-1925), que Eça de Queiroz traduziu e reformulou num romance do mesmo nome. A cerca de 300 quilómetros de Sofala, existem vestígios de uma cidade, que se acredita ter sido a misteriosa Ofir, de onde se extraía o ouro e os diamantes para o rei Salomão.

Em 1505 Pero da Nhaia, de origem castelhana, conseguiu do xeque o início de uma fortificação em Sofala, o forte de S. Caetano.

No Livro X das Décadas da Ásia refere nos títulos dos capítulos I, II e III, as minas de ouro e a construção da fortaleza por Pero da Nhaya

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CAP. I. Em que se descreve a região do Reyno de Çofala, e das minas de ouro, e cousas que nella ha: e assi os costumes da gente, e do seu Principe Bonomotápa.     Pag 372.

CAP. II. Como os Mouros de Quiloa foram povoar Çofala: e Pero da Nhaya passou no fazer da fortaleza té espedir os Capitães, que haviam de passar à Índia: e do que aconteceo a elles, e a seu filho Francisco da Nhaya. 

Também Fernão Lopes de Castanheda no Livro I, refere

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(…) & que de caminho deixasse em çofala hü fidalgo chamado Pero danhaya (que avia dis coele) pa fazer hi hüa fortaleza, & que fizesse outra ë Quiloa pêra moorsegurança do trato de çofala. & invernarem ali as suas nãos se não podessem passar aa India: & que (…)

Camões irá referir de novo Sofala no Canto V, estrofe LXXIII

«Deixando o porto, enfim, do doce rio
E tornando a cortar a água salgada,
Fizemos desta costa algum desvio,
Deitando pera o pego toda a armada;
Porque, ventando Noto, manso e frio,
Não nos apanhasse a água da enseada
Que a costa faz ali, daquela banda
Donde
a rica Sofala o ouro manda.

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Braun and Hogenberg Civitates Orbis Terrarum I, 1572 first Latin edition The Hebrew University of Jerusalem

Na imagem distingue-se o Forte de São Caetano de Sofala com a sua planta quadrada, (com lados de aproximadamente 22 metros) e baluartes redondos nos vértices. No interior da fortaleza,  erguia-se uma torre. No vão dessa torre havia uma cisterna de grandes dimensões.

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Na ilha uma povoação em torno de uma igreja e ao fundo uma outra.As casas destas povoações são de planta rectangular e as coberturas de telha.

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Na ilha e nas terras em redor pequenos aldeamentos, com casas de planta redonda com coberturas em palha. Na ilha dois guerreiros com escudo e lança e no primeiro plano, em terra, um outro  indígena com escudo e uma lança em tridente.l56e

Existe uma imagem posterior de Alain Mallet, algo semelhante, mas acrescentando as montanhas no fundo, e os campos cultivados.

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Allain Manesson Mallet, (1630–1706), Sofala na Description de L'Univers (1683) em 5 volumes.

António Mariz Carneiro faz uma imagem, em que a ilha de Sofala é representada num contexto mais amplo.

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António Mariz Carneiro Descrição da Fortaleza de Sofala e das mais da Índia (1639) Descrição da Fortaleza de Sofala e das Mais da Índia / Nota introd. de Pedro Dias; transcrição de Fernando Filipe Portugal; fot. José Fabião. - Fundação Oriente, 1990. - 116 p. - ISBN 972-9440-00-X. - (Reprodução facsimilada do Códice nº 149 da Biblioteca Nacional de Lisboa)

António de Mariz Carneiro, aparece nos documentos seguido da designação de fidalgo da casa de sua Magestade.  Em 1631 foi nomeado por alvará de Filipe III como Cosmógrafo-Mor de Portugal, sucedendo a Pedro Nunes e a João Baptista Lavanha, cargo confirmado em 1641 por D. João IV. Em 1635 foi indigitado ainda para o cargo de Desembargador da Relação e Casa do Porto e, em 1641 foi nomeado para o cargo de Ouvidor da Gente de Guerra em Lisboa. É o autor de Descrição da Fortaleza de Sofala e das mais da Índia (1639), Regimento de pilotos, e roteiro das navegaçoens da India Oriental : agora novamente emendado & acresentado co[m] o Roteiro da costa de Sofala, ate Mo[m]baça : & com os portos, & barras do Cabo de Finis taerra ate o Estreito de Gibaltar, com suas derrotas, sondas, & demonstraçoens (1642), Regimento de pilotos e roteiro da navegaçam, e conquistas do Brasil, Angola, S. Thome, Cabo Verde, Maranhão, Ilhas, & Indias Occidentais (5a. ed., 1655) e Roteiro da India Oriental : com as emmendas que novamente se fizeraõ a elle : e acresentado com o Roteiro da costa de Sofala, atè Mombaça, & com os portos, & barras do Cabo de Finis terrae atè o Estreito de Gibaltar, com suas derrotas, & demonstraçoens (1666).

Manuel Faria de Sousa (1590-1649), apresenta esse contexto amplo e representa dois navios fundeados no porto.

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Manuel de Faria e Sousa (1590-1649), Sofala in Ásia Portuguesa , volume 1, 1666

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Mas é sobretudo no Livro das Plantas de todas as Fortalezas, Cidades e Povoações do Estado da Índia Oriental, de António Bocarro, onde é apresentada uma planta de Pedro Resende, e uma longa descrição de Sofala.

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A primeira fortaleza que tem Sua Magestade neste Estado da índia Oriental, começando do Cabo da Boa Esperança pera ella, he a fortaleza de Sofala, cita em altura de vinte e hum grãos escassos da banda do sul por hum rio dentro de aguoa salgada distancia de meia legoa pequena pello rio dentro, pera a qual se entra por sima do parcel tão nomeado de Sofala, que lança vinte legoas ao mar de largura e de comprimento se estende ao longo da costa cem legoas, porque toma desd'as Ilhas de Angoxa ate a ponta do Cabo da Bima. Porem, junto a este rio de Sofala fas dous canais, na forma que se pode ver da planta e com as braças de fundo que nella estão apontadas, que assy também continua pello rio dentro de duas braças sem nenhuns baixos despois de entrar a barra (posto que sempre os pilotos portuguezes quando la vão levão malemos que são os pilotos da terra) e assy não podem entrar neste rio naos grandes que demandem mais fundo do que esta apontado.

A costa desta fortaleza de Sofala, das Ilhas de Angoxa the a do Fogo, corre a lues-sudueste e toma algüa couza pera a quarta de loeste. Os ventos que curção nesta costa são, de Abril por diante até Ouptubro, suis e suestes e, de Ouptubro ate Abril, levantes que são nordestes. E entre estes ha outros, particularmente por entre monção e monção, que he no fim de Março e de Ouptubro, porem não são ventos certos nem gerais.

As correntes das aguoas nesta costa são a mayor parte do anno pera o sul, grandicimas, e as vezes também correm pera o norte, com a mesma força, principal­mente com os levantes; e assy de ordinário vão contra o vento, que he muito pera notar.

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A fortaleza de Sofala em ssy he couza pequena, feita em quadro, como se vê da planta, com quatro baluartes nos quantos. Toda he de pedra e cal. Cada lanço de muro terá des braças de comprimento e de altura três e de largura sinco palmos. Não tem parapeito porque lhe servião delle as cazas dos soldados que estavão pella banda de dentro pegadas ao muro, que de prezente não ha, como também não ha soldados nem prezidio algum mais que o capitão em hüas cazas de sobrado pequenas junto ao muro, em cujas logias se podem agazalhar munições e mantimentos, que destes não ha nenhuns e munições muy poucas.

Porque a artilharia não he mais que oito falcões entre grandes e pequenos e hum camelete de metal, que estão repartidos pellos baluartes. Os cazados brancos que vivem numa povoação ao longo da fortaleza são doze e des mais pretos, que ao todo fazem vinte e dous, os quaes tem ao redor de dous mil cafres cativos, gente d'armas que poderão em algüa occazião meter-ce na fortaleza, a qual com a dita povoação fica, como se vê da planta, em hua ilheta de obra de quatrocentas braças em roda, que com maré chea a serca hum braço de rio mas sempre fica com muy pouca aguoa e fundo, e de vazia em seco só com hua lamaceira de aguoa.

Christandade nenhüa temos nas terras de Sofala, ou ao menos de pouca conside­ração, porque os mais dos cafres são gente barbara naturalmente cruel e pouco dados ao cculto divino. Só os que são nossos captivos se fazem christãos por esse respeito e lhes dura a Christandade emquanto lhes dura o captiveiro, sendo que nem repugnão muito a nossa Sancta Fee nem o rey da terra tolhe o bautizar-ce quem quizer. E assy, avendo cultivadores desintereçados desta vinha, não deixara de hir mais cres­cendo pella constância que também guardão os cafres no que hua ves começarão. Os frades de Sam Domingos são os que asistem por esta costa e hum he vigairo da Igreja que esta dentro da fortaleza (a quem lhe pagão corenta mil rés de ordinária da fazenda de Sua Magestade o feitor de Moçambique), o qual não deixa de procurar a converção dos naturais, conseguindo a de alguns que sempre são exceição da regra apontada. Mas pera tão largas terras justo fora que ouvera muitos pregadores do Evangelho, pois ha tanto lugar e caminho pera se poder pregar.

O trato da terra he secenta legoas desta fortaleza de Sofala pello certão. As fazendas que ha nella não são outras mais que marfim, que ordinariamente se gasta por panos pretos e brancos canequins e teadas como se faz por toda esta costa dos cafres, e por panos se compra tudo como também o mantimento que em tempo de paz não deixa de aver em muita abundância e barato como arros, milho e carnes de toda a sorte.

O rey do Concão de Sofala se chama o Queteve, cafre que nem he mouro nem Christão e pera o nomear gentio não se pode dizer que lei professe. Foi sozeito ao Emperador de Manamotapa, mas como esteve a nossa sombra lhe veyo quazy a negar a obediência, e oje he sobre ssy amigo dos portuguezes. E quando não anda a terra dezemquieta com algüas guerras, andamos pellas suas com toda a segurança porque comnosco raramente tem nem quer ter guerra. O poder que tem será de des ate doze mil cafres, que não são tão nomeados por valentes como alguns outros daquelas par­tes. As armas de que uzão são arcos e frechas e azagayas. Tem notável medo a espingarda.

Não tem este Rey Queteve comonicação com outra nação mais que com os por­tuguezes que seja estrangeira, nem ate'gora se sabe que algüa de Europa tomasse fala em suas terras.

Por toda esta costa ha muito ambre, que nella da e se resgata da mão dos cafres por muy baixo preço, mas não em parajem certa.

O fim e intento com que se fés e sustenta esta fortaleza de Sofala he pera sustentar o comercio de toda esta costa e rios de Cuama, que como seja de ouro, marfim, e ambre e esperanças de minas de prata. Pede a importância destas couzas e das largas terras de que os portuguezes por esta costa senhoreão o trato, que he ate o Cabo da Boa Esperança, que se procure por todos os modos evitar não entrem nações estrangeiras também nelle, tendo-ce provida esta fortaleza de Sofala como convém, porque as terras della pera o dito Cabo são tão estendidas e ricas de ouro e marfim que a todos os portuguezes da índia e do Reino e outras nações derão comercio com grandes ganhos. Porem, como o Capitão de Moçambique tem estanque este trato pella penção que paga a Sua Magestade, o fas elle somente.

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E ainda no Canto X, Camões volta a referir Sofala e a sua importância militar:

«Olha as casas dos negros, como estão
Sem portas, confiados, em seus ninhos,
Na justiça real e defensão
E na fidelidade dos vizinhos;
Olha deles a bruta multidão,
Qual bando espesso e negro de estorninhos
Combaterá em
Sofala a fortaleza,
Que defenderá Nhaia com destreza.

João de Barros assinala que só aqueles a quem o rei dava essa honra é que tinham portas nos portais das suas casas; “Por que toda a outra gente não tem portas ...”

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André Thevet, (1516-1590). Cefala 1580-1589, mapa 15 x 19 cm Bibliothèque nationale de France

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François Lafitau, (1681-1746). Gravura 18,8 x 32,5 cm In Histoire des découvertes et conquestes des Portugais dans le Nouveau Monde1733 Saugrain Père et J.B.Coignard (Paris) Bibliothèque nationale de France

Johannes Vingboons (1616/17-1670),um cartógrafo holandês contratado pela Companhia das índias Ocidentais, e que trabalhou durante o século XVII, elaborou vários atlas, incorporando e sistematizando informações recolhidas pelos navegadores, em 1665 também desenha Sofala (Cefala).

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Johannes Vingboons (1616/17-1670). Cefala 1665 Arquivo Nacional Holanda

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Em muitas destas imagens holandesas os seus autores colocam características das construções do seu país, nomeadamente os telhados, na representação dos edifícios.

Sofala foi elevada à categoria de Vila em 1763.

9. Quíloa (Kilwa) Tanzânia

Em Os Lusíadas a armada enganada pelo Mouro, avança agora para uma outra ilha, Quíloa, onde se dizia haver cristãos, mas onde não chega a entrar.

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Guillaume de Lisle, (1675-17?) Carte du Congo et du Pays des Cafres, 1708 Atlas du monde A Paris, chez l'Auteur sur le Quai de l'Horloge, avec Privilege, Janvier 1708. Rumsey Collection

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Detalhe com Quíloa, Mombaza e Melinde.

No Canto I – estrofe XCIX, Camões vai ainda referir na viagem de Vasco da Gama a ilha de Quíloa:

O mesmo o falso Mouro determina
Que o seguro Cristão lhe manda e pede;
Que a Ilha é possuída da malina
Gente que segue o torpe Mahamede.
Aqui o engano e morte lhe imagina,
Porque em poder e forças muito excede
À Moçambique esta Ilha, que se chama
Quíloa, mui conhecida pola fama.

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Braun and Hogenberg Quiloa in Civitates Orbis TerrarumI, 1572 ed. Latim The Hebrew University of Jerusalem

A imagem de Braun, mostra uma ilha, tendo em primeiro plano uma praia servindo de porto, com dois escaleres e uma barca de um só mastro fundeada.

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No fundo onde no horizonte se avista uma outra ilha, duas naus.

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A cidade

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Reconhece-se ainda traços da fortaleza, no conjunta da cidade.

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Em 1500 Pedro Álvares Cabral, rumando para a Índia chegou a Quíloa  e referiu-se às belas casas de coral e seus terraços, pertencentes a "mouros negros", o que atraiu a atenção dos portugueses.

Em 1502, Vasco da Gama, na sua segunda viagem à Índia, sujeitou o rei de Quíloa à obediência do rei de Portugal.

Como o sultão cessasse de pagar tributo, em 1505, D. Francisco de Almeida, primeiro Vice-rei da Índia conquista Quíloa e inicia a construção da fortaleza.

O Forte tinha como função principal proporcionar abrigo às naus que se dirigiam ou regressavam da Índia e para defesa de eventuais ataques. A fortaleza foi posteriormente utlizada como prisão com o nome de "Gereza". Foi abandonado e arrasado em 1512, como Camões refere no Canto V:

Canto V – estrofe XLV

E do primeiro ilustre, que a ventura
Com fama alta fizer tocar os céus,
Serei eterna e nova sepultura,
Por juízos incógnitos de Deus.
Aqui porá da Turca armada dura
Os soberbos e prósperos troféus;
Comigo de seus danos o ameaça
A destruída
Quíloa com Mombaça.

O  primeiro Ilustre, é D. Francisco de Almeida, 1.º vizo-rei da Índia, morto num combate contra os Cafres ao norte do cabo da Boa Esperança, no dia 1 de Março de 1510.

E Camões volta a referir a conquista de Quíloa no Canto X:

Canto X – estrofe XXVI

- «Mas eis outro – cantava - intitulado
Vem com nome Real e traz consigo
O filho, que no mar será ilustrado
Tanto como qualquer Romano antigo.
Ambos darão com braço forte, armado,
A
Quíloa fértil, áspero castigo,
Fazendo nela Rei leal e humano,
Deitado fora o pérfido Tirano.

Para Camões o  outro que vem com nome real é ainda D. Francisco de Almeida.  O filho é D. Lourenço de Almeida. Como o rei de Quíloa não queria pagar os tributos a que se tinha obrigado a cidade foi conquistada.

João de Barros  nas Décadas da Ásia Livro I,v.II cap. V e VI

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CAP. V. Como D. Francisco de Almeida sahio em terra, e tomou a Cidade de Quiloa, fugindo ElRey para terra firme. 216.

CAP. VI. Como a Cidade de Quiloa se fundou; e os Reys que teve té ser tomada per nós: e como D. Francisco de Almeida novamente fez Rey della a Mahamede Anconij. 222.

Luís Albuquerque, em Grandes Viagens Marítimas (ed. Alfa 1989) apresenta e comenta um texto da autoria de Hans Mayr, que acompanhou D. Francisco de Almeida em 1505, na sua viagem para a Índia. Este texto descreve Quíloa com diversos pormenores sobre a cidade e a vida dos seus habitantes:

Da viagem de D. Fernando de Almeida, primeiro viso-rei da Índia, e este caderno foi tresladado da nau São Rafael, em que Hans Mayr, por escrivão da feitoria e capitão Fernão Soares.

Em vinte e dois dias de Julho, terça-feira, ao meio-dia, entraram no porto de Quíloa, e não eram mais que oito velas; e logo o capi­tão-mor mandou chamar el-rei por Bona Ajuta, veneziano, o qual se escusou de vir, porém mandou em presente ao capitão-mor cinco cabras, uma vaquinha, muitos cocos e fruta.

Outro dia mandou o capitão aparelhar as naus de artilharia e todos os capitães juntos, qual deles melhor vestido e armado, foram todos, cada [um] no seu batel, volteando na vista da cidade, espe­rando se el-rei quisesse vir; e [ele] lhes mandou dizer que não podia vir, que tinha hóspedes e que, se [o capitão] quisesse, lhe mandaria as páreas que devia a el-rei de Portugal; e esta embaixada trouxe cinco mouros, que logo foram presos.

Quinta-feira do dito mês, véspera de Santiago apóstolo, pela manhã, saindo o sol, saíram todos com seus batéis das naus, e o primeiro que saiu em terra foi o capitão-mor, e depois os outros; e foram logo para a casa de el-rei, e neste caminho a mouros que se não defendiam lhes foi dada vida; na qual casa, na janela, estava um mouro com uma bandeira de Portugal, bradando «Portugal, Portu­gal» (esta bandeira lhe deixou o almirante quando ficou com mil e quinhentas dobras de páreas cada ano); disseram-lhe que abrisse as portas, o que não quis; começaram a quebrar com machados e logo desapareceu o mouro; entraram e não acharam ninguém, senão lógeas fechadas.

Em Quíloa há mui fortes casas de pedra e cal sobradadas e cober­tas de argamassa com mil pinturas. Em tomando assim a cidade sem contrariedade alguma, veio-os receber o vigário com certos frades de São Francisco com duas cruzes alevantadas; e, tanto que as adora­ram, começaram a cantar Te Deum Laudamus  e assim foram até uma casa onde puseram a cruz, e aí se recolheu o capitão-mor; e toda a gente se meteu a roubar a cidade de muita mercadoria e mantimentos.

Esta cidade de Quíloa jaz em uma ilha, e em torno podem andar navios de quinhentos tonéis; há nesta cidade e ilha quatro mil almas; é muito frutífera; tem muito milho como de Guiné, manteiga, mel e cera. As colmeias nas árvores, a saber, em uma jarra de três almudes tapam a boca com um pano de palma, fazendo-lhe seus buracos por onde as abelhas entram e saem.

Árvores [há] muitas, e as mais palmeiras, e as outras são diferen­ciadas das de Portugal, e assim na terra firme. E daqui a terra firme [há] a lugares duas léguas, [e] a lugares uma.

Aqui há muitas laranjas doces, limões, rábanos e cebolinhas pequenas, manjarona e manjaricão, que regam dos poços.

Aqui criam tambor, que tem a folha como a era, e criam-se como ervilhas, todas têm paus ao pé; comem esta folha os mouros honra­dos com uma cal confeccionada que parece unguento, e assim a estemem da dita folha, que como se a houvessem de pôr em cima de alguma ferida; estas folhas assim fazem a boca e dentes muito verme­lhos; dizem que refresca muito.

Nesta terra há mais escravos negros que há mouros alvos por estas hortas fazendo lavoura do milho, etc.

Aqui há grande multidão de ervilhas, as quais se dão em umas ervas tão altas como mostardeiras grandes; apanham-nas maduras e fazem delas celeiros. Todas as hortas estão cercadas com estacadas de paus e canas de milho, que são como canaviais. O feno [é] tão alto como um homem. A terra é vermelha à primeira face, e à vista sem­pre tem coisas verdes. Têm gordas carnes — bois, vacas, carneiros, ovelhas, cabras — [e] muitos pescados; [as] baleias andam derredor das naus. [Não vi] nenhuma água doce que corresse. A redor desta ilha há muitas ilhas pequenas todas povoadas.

Aqui há zambucos muitos, tão grandes como uma caravela de cin­quenta tonéis, e outros menores; os grandes estão sempre varados em terra e, quando hão-de ir fora, os lançam ao mar. Não têm prega-dura; a tabuado ajuntam com ataduras de palmas e com elas fecham o governalho; são bicados com incenso branco e almácega.

Navegam daqui para Sofala, donde trazem ouro, e são daqui duzentas cinquenta e cinco léguas, e para outros lugares.

As palmeiras daqui não dão tâmaras; há aí umas que dão vinho, de que também fazem vinagre, e estas não dão cocos, que é o fruto das outras. Estes cocos são tamanhos como bons melões; têm a casca grossa, da qual fazem todas as cordas, e dentro têm um fruto como grande pinho; terá meio quartilho de água, a qual é gostosa de beber; depois de esta água ser fora quebram-no e comem-no; de dentro tem gosto de nozes, que não são de todo maduros; e destes cocos secam e tiram deles azeite com grande abundância.

Dormem todos alevantados do chão em umas redes de palma em que cabe uma pessoa.

Aqui acharam muita água estilada e redomas de muito bom cheiro, que levam para fora.

Vidro muito e de todas as feições; panos de algodão muitos e muitas sortes; incenso e almácega grandes costais; ouro e prata e aljôfar grande quantidade.

Todo o roubo [do saque] mandou o capitão-mor levar a uma casa, cada um com seu juramento.

Fortaleza de Quíloa fizeram-na da melhor casa que aí havia, e derrubaram todas [as] outras derredor dela; fizeram-lhe logo baluar­tes e bombardas, e tudo que para ela pertencia; e ficou nela por capitão Pêro Ferreira, com o qual ficam oitenta homens.

A terra não é muito quente.

Armas têm frechas com farpões; escudos bem fortes de palma teci­dos de algodão; azagaias como da Guiné, e melhores; espadas pou­cas; viram quatro bombardas, não sabem bem da pólvora.

Na fortaleza bate o mar com preia-mar; está na entrada por onde entram navios.

El-rei fugido de Quíloa, o capitão-mor fez um outro rei, um mouro da terra e benquisto de todos; e o levaram em cavalo pela cidade.

Aqui fazem cal desta maneira: empilham em redondo muita lenha gorda, e sobre ela põem a pedra; e a lenha queimada faz-se a pedra tal como quando desfornam em Portugal.

Algodão há muito e mui bom, que nesta ilha nasce e o semeiam.

Carneiros e ovelhas não têm lã senão como cabras.

Os escravos trazem um pano da cinta até aos joelhos, e todo o mais nu. Os mouros e senhores destes escravos andam cobertos de dois panos de algodão, a saber, um atado pela cinta, que chega aos pés, e outro que desce pelos ombros, solto, e cobre a atadura do outro. E [estes homens] são de bom corpo e grandes barbas, teme­rosos de vista.

Moeda de cobre, como ceitis, [dão] quatro por um real, e assim correm lá as [moedas] de Portugal. Ouro não têm amoedado, senão a peso de mitical, que vale em Portugal quatrocentos e sessenta reis.

Inverno é em Quíloa Abril, Maio, Junho, Julho, Agosto [e] Setembro; porém não faz frio; por isso trazem pouco vestido.

A maior parte desta ilha correu o capitão-mor por duas vezes, e viu por uma vez vinte e cinco veados de pouco [...], são lançados aqui. Antas há aqui, e muitas no sertão.

Têm aqui muitas mesquitas abobadadas, e uma que é como a de Córdova. Todos [os homens] honrados trazem contas de rezar.

10. Mombaça (Quénia)

Vasco da Gama não entra em Quíloa (Não entra pela barra e surge fora) e ruma para a ilha e cidade de Mombaça.

Canto I – estrofe CIII

Estava a Ilha à terra tão chegada
Que um estreito pequeno a dividia;
Ũa cidade nela situada,
Que na fronte do mar aparecia,
De nobres edifícios fabricada,
Como por fora, ao longe, descobria,
Regida por um Rei de antiga idade:
Mombaça é o nome da Ilha e da cidade.

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Álvaro Velho no “Roteiro da viagem que em descobrimento da India pelo Cabo da Boa Esperança fez Dom Vasco da Gama em 1497”, descreve assim Mombaça:

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Esta cidade é grande e esta assentada em um alto onde bate o mar e é porto onde entram muitos navios cada dia e tem à entrada um padrão. E tem vila junto com o mar uma fortaleza baixa. E os que foram em …

E João de Barros (1496-1570) escreve, sobre Mombaça:

Livro I, IV parte Capítulo V

Tornando Vasco da Gama a sua viagem, aos sete dias de Abril, béspora do Domingo de Ramos, chegaram ao porto de hüa cidade chamada Mombaça, em a qual o mouro disse que havia cristãos abexis e da Índia, por causa de ser mui abastada de todas as mercadorias. A situação da qual cidade estava metida per um esteiro que torneava a terra, fazendo duas bocas, com que ficava em modo de ilha, tão encoberta aos nossos que não houveram vista dela senão quando ampararam com a garganta do porto.

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Descoberta a cidade, como os seus edifícios eram de pedra e cal, com janelas e eirados à maneira de Espanha, e ela ficava em hüa chapa que dava vista ao mar, estava tão fermosa que houveram os nossos que entravam em algum porto deste reino. E, posto que a vista dela namorasse a todos, não consentiu Vasco da Gama ao piloto que metesse os navios dentro, como ele quisera, por vir já suspeitando contra ele; e surgiu de fora.

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Os da cidade, tanto que houveram vista dos navios, mandaram logo a eles em um barco quatro homens, que pareciam dos principais, segundo vinham bem tratados. Chegando a bordo, perguntaram que gente era e o que buscavam. Ao que Vasco da Gama mandou responder dizendo quem eram e o caminho que faziam e a necessidade que tinham de alguns mantimentos.

Os mouros, depois que mostraram em palavras o prazer que tinham e teria el-rei de Mombaça de sua chegada, e fazerem ofertas de todo o necessário pera sua viagem, espediram-se deles; os quais não tardaram muito com a resposta, dizendo que eles foram notificar a el-rei quem era, de que recebeu muito prazer com sua vinda; e que, quanto às cousas que haviam mister, de boa vontade lhas mandaria dar, e assi carga de especiaria, pola muita que tinha. Porém convinha, pera estas cousas lhe serem dadas, entrarem dentro no porto, como era costume das naus que ali chegavam, por ordenança da cidade, quando algüa cousa queriam dela; e que os que o não faziam eram havidos por gente suspeitosa e de mau trato, como alguns que havia per aquela costa, aos quais muitas vezes os seus com mão armada vinham lançar dali, o que podiam também fazer a eles, não entrando pera dentro; que lhe mandava este aviso como a gente estrangeira, e que escolhessem: ou entrar no porto, pera lhe ser dado o que pediam, ou passarem avante.

Vasco da Gama, por segurar a suspeita que se dele podia ter, aceitou a entrada pera dentro ao seguinte dia; e pediu àqueles que traziam este recado que, quando fosse tempo, lhe mandassem algum piloto pera o meter dentro.

A armada de Vasco da Gama não chega contudo a entrar em Mombaça, onde se preparava uma emboscada aos portugueses. Camões descreve nas primeiras estrofes do Canto II, quer a prudência de Vasco da Gama a enviar dois condenados a terra, quer a tempestade que não permite a entrada das naus portuguesas no porto de Mombaça, e que o poeta atribui à intervenção de Ericina (Vénus ou Afrodite), para Camões a protectora dos portugueses.

Canto II estrofe XVIII

As âncoras tenaces vão levando,
Com a náutica grita costumada;
Da proa as velas sós ao vento dando,
Inclinam pera a barra abalizada.
Mas a linda Ericina, que guardando
Andava sempre a gente assinalada,
Vendo a cilada grande e tão secreta,
Voa do Céu ao mar como ũa seta.

Canto II - estrofe LVI

Como isto disse, manda o consagrado
Filho de Maia à Terra, por que tenha
Um pacífico porto e sossegado,
Pera onde sem receio a frota venha;
E, pera que em
Mombaça, aventurado,
O forte Capitão se não detenha,
Lhe manda mais que em sonhos lhe mostrasse
A terra onde quieto repousasse.

E Camões descreve a continuação da viagem rumo a Mombaça:

Canto II - estrofe LIX

Dali pera Mombaça logo parte,
Aonde as naus estavam temerosas,
Pera que à gente mande que se aparte
Da barra imiga e terras suspeitosas,
Porque mui pouco vale esforço e arte
Contra infernais vontades enganosas;
Pouco val’ coração, astúcia e siso,
Se lá dos Céus não vem celeste aviso.

Mombaça também hostilizou a presença da frota de Vasco da Gama, que nesta sua primeira viagem seguirá para Melinde.

Mombaça virá a ser atacada em 1505, em represália, por D. Francisco de Almeida.

Almeida envia um ultimato para Mombaça, oferecendo a paz em troca de vassalagem e homenagem a Portugal. Este é rejeitada respondendo os da terra que os "guerreiros de Mombassa não são as galinhas de Kilwa".

Nos anos seguintes, por diversas ocasiões foi alvo de ataques portugueses, o último dos quais conduzido por D. Nuno da Cunha em 1528. Este, a caminho de Goa onde viria a tomar posse como Governador-geral do Oriente, decidiu-se pela destruição da cidade, arrasada na ocasião.

Canto X – estrofe XXVII

Também farão Mombaça, que se arreia
De casas sumptuosas e edifícios,
Co ferro e fogo seu queimada e feia,
Em pago dos passados malefícios.
Despois, na costa da Índia, andando cheia
De lenhos inimigos e artificios
Contra os Lusos, com velas e com remos
O mancebo Lourenço fará extremos.

Nos anos seguintes, por diversas ocasiões foi alvo de ataques portugueses, o último dos quais conduzido por D. Nuno da Cunha em 1528. Este, a caminho de Goa onde viria a tomar posse como Governador-geral do Oriente, decidiu-se pela destruição da cidade, arrasada na ocasião.

Canto X – estrofe XXVII

Também farão Mombaça, que se arreia
De casas sumptuosas e edifícios
,
Co ferro e fogo seu queimada e feia,
Em pago dos passados malefícios.
Despois, na costa da Índia, andando cheia
De lenhos inimigos e artificios
Contra os Lusos, com velas e com remos
O mancebo Lourenço fará extremos.

O mancebo Lourenço, é o filho de D. Lourenço de Almeida, que em Coulão queimou vinte e sete naus de Calecute.

Sobre o incêndio de Mombaça, Castanheda, no Livro II.Cap.V, refere

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“De como ho governador mandou por fogo a cidade de Mombaça, & de como foy queimada grande parte dela”

O forte quinhentista

No contexto da Dinastia Filipina diante de alterações nas condições que mantinham a principal base de operações portuguesa na feitoria de Melinde, foi decidida a transferência das suas operações para Mombaça, com a ocupação definitiva desta cidade em 1585. E perante os ataques dos turcos otomanos em 1585 e em 1588, para guarnecer este porto estratégico, foi projetada pelo milanês Giovanni Battista Cairati (15?? - 1596)arquiteto-mor de Portugal no Oriente sob o reinado de Filipe I de Portugal (1580-1598), uma fortificação compacta e poderosa, a Fortaleza de Jesus de Mombaça. As obras foram iniciadas pelo seu primeiro capitão, Mateus Mendes de Vasconcelos a partir de 1593 e estavam concluídas em 1596.

A Fortaleza de Jesus de Mombaça, desde 2011,classificada como Património da Humanidade, tem uma planta de quatro lados com quatro bastiões: S. Felipe, Santo Alberto, S. Matias e S. Mateus.

A porta principal junto do bastião de S. Matias é encimada por uma lápide com a seguinte inscrição:

"Reinando em Portugal Phellipe de Austria o primeiro (…) por seu mandado (…) fortaleza de nome Jesus de Mombaca aomze dabril de 1593 (…) Visso Rei da India Mathias Dalboquerque (…) Matheus Mendes de Vasconcellos que pasou com armada e este porto (…) arquitecto mor da India Joao Bautista Cairato servindo de mestre das obras Gaspar Rodrigues."

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António de Mariz Carneiro (15?? - 1642) MOMBAÇA [1639] Manuscrito pintado a aguarela; 69x46cm in Descripção da Fortaleza de Sofala, e das mais India com Huma Rellaçam das Religiões Todas q Há no Mesmo Estado, 1639, António de Mariz Carneiro. B.N.

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Na ilha de Mombaça existiram ainda outras pequenas fortificações como o Forte de São José, o Fortim da Ponta Restinga, o Forte do Sorgidouro, e os Fortes da Macupa.

António Bocarro, no seu livro apresenta uma planta e uma descrição de Mombaça.

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António Bocarro Livro das plantas de todas as fortalezas, cidades e povoaçoens do Estado da Índia Oriental 1635

António Bocarro faz uma

Descripção da Fortaleza de Mombaça

A fortaleza de Mombaça está na costa oriental de África, na Cafraria, em hüa ilha na região dos cafres chamados Muzungulos, em altura de quatro grãos da banda do sul. Foi fundada pello Vizo-Rey Mathias d'Albuquerque no anno de mil quinhentos e noventa. Está situada em sima de hüa rocha, pera o que foi cortada e em sima da que se cortou pera a fortaleza se fes hum pano de muro, de obra de hüa braça de altura, entulhado pella banda de dentro, e, por sima deste muro entulhado, se fes hum parapeito de pedra e cal, como o mesmo muro, de altura de hum homem, com que ficão emcubertos os que brigão de dentro (o qual parapeito terá de groçura três pal­mos em partes e em partes quatro).

A forma da fortaleza he em hum coadro mais comprido que largo, com quatro baluartes nos quatro cantos, chamados com os nomes que se vê escritos nelles, onde também se pode ver a figura dos baluartes: os dous da banda da terra triangulares, em forma de espigão, e os dous pera a banda do rio en triângulo obtuzo.

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Tem mais esta fortaleza, como da planta se vê, hüa couraça que dece ao rio e o fica defendendo (a que se saye da fortaleza por hüa porta falça que vem sair no meyo da couraça) a qual será de quinze paços geometrios de largura, que he a que corre ao longo do muro da fortaleza, e de comprimento terá vinte dos mesmos passos, que he com que corre ate o rio, e tem nos dous cantos da couraça pegados ao rio dous baluartes pequenos como goaritas com suas seteiras.

Tem esta fortaleza hüa cava pella banda da terra, que he a do poente, cortada em largura de três braças na boca e acabada quazy na mesma largura, posto que algum pouco menos, e fundiada em altura de duas ate três braças, cortada na mesma rocha. E, adonde os dous baluartes lanção o espigão, fica algum tanto a cava mais estreita porque não vay perfeitamente ao mesmo nível, mas comtudo faz seus cantos com os mesmos baluartes. E assy, com a altura desta cava e do dito muro e parapeitos, fica a dita fortaleza em hüa conveniente e bastante pêra os negros da terra, que não custu-mão escalar nem subir muros.

Os coatro baluartes que tem a fortaleza são entulhados, altura de hum homem, sobre o mais muro. Os dous da banda do rio, que são mayores, terão quinze paços andantes de praça dos parapeitos pera dentro e os da banda da terra doze, afora o espigão. Todos são descubertos, e os parapeitos darão em sima pellos peitos (cuja groçura será de três palmos), feitos com suas seteiras.

O lanço de muro que fica do baluarte São Felipe ate o de Sam Mathias, que he o mais comprido, terá de comprimento doze braças craveiras, e o outro lanço, mais curto, será de comprimento de dês braças, e isto afora os baluartes, que são da gran­deza referida.

As cazas do capitão ficão no lanço do muro que esta sobre a couraça, peguadas  com elle da banda de dentro, com que também estão sobre o rio. São térreas, bastantes pera agazalhar hum cazado com sua familia.

Dentro na fortaleza ha muitas cazas térreas, postas em carreira, cubertas de telha, pera se agazalharem os soldados. E sobre a porta da fortaleza, que esta no lanço do muro que corre do baluarte (como vê da planta), esta hüa caza quadrada de terrado, que tem dous godões, em que se agazalha pólvora. Esta mais dos muros adentro hum almazem feito na mesma rocha, onde se guardão mantimentos e muni­ções, lugar muy umido a respeito de estar muito debaixo do chão, e assy raramente se guarda nelle nada do sobredito. Fez-ce também na mesma rocha, dentro na forta­leza, hüa sistema pera aguoa, mas não esta concertada, nem nunca o esteve, posto que agora se tem mandado concertar, sendo que não ha aguoa dentro na fortaleza, senão fora delia, distancia de quatro braças, em hum posso, a qual, posto que salobra, em tempo de necessidade se bebe e serve della, cujo caminho se pode fortalecer, como já fes o rey de Mombaça traidor Dom Jeronimo.

A artelharia que ha por toda esta fortaleza são dezaceis peças, sinco de ferro de seis ate des libras de colibre e as mais de bronze, de ate doze, entre a qual esta hum canhão de vinte libras que o Conde de Linhares Vizo-Rey mandou tirar de Angazija, da nao de Dom Manoel de Menezes que aly se perdeo. E todas estas peças estão em seus repairos, repartidas pellos baluartes e couraças. Tem a dita fortaleza, alem do referido, trinta e dous mosquetes, cento e treze arcabuzes, e de munições pera as ditas armas corenta caixões pequenos de pilouros de chumbo com doze quintais pêra a espingarderia, e mil pilouros (setecentos e treze de ferro, e os mais de pedra pera artelharia), duzentos trinta e oito baris de pólvora de dous almudes cada hum, qui­nhentas setenta e oito panelas de pólvora e cento trinta e oito granadas, trinta e seis lanças de fogo, setecentos trinta murrões de algodão, nove piques, e mantimentos: cento secenta e seis candis de arros (que cada candil tem vinte alqueires de Portugal), duzentos corenta macandas de milho por secenta candis e meyo.

O prezidio que asiste nesta fortaleza he de cem soldados, dos quaes setenta e sinco estão dentro na fortaleza e em dous navios que andão de armada no verão pella costa e 25 em os três fortes da Macupa, de que logo se fará menção. Tem estes setenta e sinco soldados da fortaleza hum capitão a quem obedeção, alem do mesmo da forta­leza, que he capitão-mor de todos. Paga-ce-lhe a cada hum de mantimento, cada mês, dez larins e, cada três mezes, nove xerafins de quartel por sinco cruzados da moeda da dita fortaleza.

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Os três fortes da Macupa são três cazas, que estão feitas em quadro, ao longo do rio, na ilha de Mombaça, pera a banda da terra firme, em hum paço seco (como se vê da planta), os quaes se fizerão pera tolher a passajem aos Muzungulos da terra firme pera a ilha. O do meyo he mayor, e não tem mais que hüa caza de sobrado com hüa logea em baixo, a que se entra e sobe pella mesma logea (que terá sinco braças de vão tanto de largo como de comprido) cuberta por sima de terrado, onde asistem quinze soldados e hum bombardeiro português. Aos soldados se paga dezacete larins cada mês de mantimentos e ao capitão cento e sincoenta xerafins de ordinária cada anno, o qual capitão o he também dos outros dois fortes que lhe fica cada hum de sua ilharga, distancia de hum tiro de espingarda pera cada parte, os quaes também são cada hum hüa caza de sobrado cuberta de terrado, mais pequena que a do meyo, que terão três braças do vão. E asistem sinco soldados em cada hüa, que pelejão com seus mosquetes por seteiras que estão feitas a rroda.

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No forte do meyo estão dous sagres de metal com hum bombardeiro portu­guês. Mas, sem embargo destes fortes, não deixão de paçar da terra firme pera a ilha de Mombaça os ditos cafres Muzungulos por este paço seco, de noite, em algüa occazião de escuro ou tromenta, paçando por entre os mesmos fortes, bem pegados com qualquer delles, mas não em copia que possão fazer dano de concideração porque fica detras dos ditos fortes, correndo pela ilha, hum muro que os naturais antigamente fizerão pera o mesmo effeito de evitarem a passajem aos Muzungulos que, posto que baixo e de adobes, comtudo com o mato que por aly he muy expeço fica sendo bastante defenção, avendo nos ditos fortes a gente e vigia necessária.

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Todo o mais rio ou braço de mar que serca esta ilha em roda he do fundo que esta apontado na planta com o numero das braças, onde também se deixa ver a que parte e rumo demorem os canais e baixos que tem, conforme as medidas que tomou o cosmógrafo deste Estado.

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O rio que fas esta ilha de Mombaça pella parte da barra de Tuaca, que he a outra barra alem da da fortaleza, he de hum quinto de legoa de largura na boca da barra e, entrando, vay alargando mais (como se vê da planta) ate voltar a outra banda, aonde fica sendo mais estreito porque, pella parte da fortaleza a que chamão a barra de Sancto António, he de largura de hum tiro de peça na boca da barra e vay estreitando pera dentro, como se vê da planta. (António Bocarro. Livro das Plantas de Todas as Fortalezas, 1635)

A Fortaleza de Jesus em Mombaça será cartografada por Manuel Godinho Erédia.

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Manuel Godinho de Erédia (1563-1623) forte de Jesus em Mombaça in Plantas de praças das conquistas de Portugal : feytas por ordem de Ruy Lourenço de Tavora Vizo rey da India / 1610, Biblioteca Nacional (Brasil).

E por João Teixeira Albernaz.

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Albernaz, João Teixeira Forte de Jesus em Mombaça 1593 Plantas das Cidades e fortalezas da conquista da India oriental Portugal 1648

Luís Albuquerque, em Grandes Viagens Marítimas (ed. Alfa 1989) apresenta e comenta um texto da autoria de Hans Mayr, que acompanhou D. Francisco de Almeida em 1505, na sua viagem para a Índia, também descreve Mombaça:

Da viagem de D. Fernando de Almeida, primeiro viso-rei da Índia, e este caderno foi tresladado da nau São Rafael, em que Hans Mayr, por escrivão da feitoria e capitão Fernão Soares.

Aos nove dias de Agosto partiram de Quíloa caminho de Mombaça, que são sessenta léguas. E [a nau] São Rafael [chegou a] catorze dias do dito mês, e o capitão-mor chegara com dez navios um dia antes.

Tinham os mouros em Mombaça feito um baluarte na entrada da barra, que é muito estreita, com muitas bombardas; e, entrando o primeiro navio, no qual foi Gonçalo de Paiva, que ia adiante son­dando, tiraram-lhe artilharia e passaram-lhe o navio com uma [bom­barda] de banda a banda, pelo qual deram a artilharia e deram tanto no baluarte dela que saltou o fogo na pólvora e queimou-o, e os mouros fugiram; assim entrou a frota toda, e [os navios] ancoraram diante da cidade.

Aquele dia, que era véspera de Nossa Senhora, tiraram à cidade com toda [a] artilharia de todas as naus, e assim tiraram da cidade com a sua. E quando o capitão entrou cativou um mouro, que acer­tou ser da casa de el-rei, do qual houveram grande aviso.

A primeira noite que a armada chegou, veio à praia um cristão castelhano, que lá ficara [do tempo] de António do Campo, e era bombardeiro e tornado mouro; o qual disse aos cristãos que se fos­sem, que Mombaça não era como Quíloa, nem cuidassem de comer galinhas como em Quíloa, e que, se quisessem vir e sair em terra, a ceia estava prestes; e o capitão-mor lhe dava seguro e lhe perdoava, e ele não quis.

Esta cidade é muito grande e está em uma ilha que será pouco mais de uma légua e meia e até duas em redondo. Esta cidade está no mais alto da ilha, e é toda fundada sobre pedra; não é cercada da parte do mar por ser dali muito alto; e da parte da ilha tem um muro que será de altura de barbacã. Tem as casas de maneira das de Quí­loa, e as mais são de três sobrados, todas coteadas de argamassa. Tem as ruas mui estreitas, não podem ir mais de dois homens a par; e todas têm poiais, que as fazem ainda mais estreitas.

Acordou o capitão com os outros capitães aquela tarde de porem fogo à cidade, e pela manhã entrar; e quando foram a pôr fogo vie­ram os mouros a os receber com frechas, que parecia que chovia, e com muitas pedras.

Esta cidade tem mais de seiscentas casas de madeira, cobertas de palma; esta palma é colheita em ramos verdes; e, assim, entre as casas de pedra e cal, estão destas, assim como alpendres e assim as estrebarias e casas de ter suas criações de gado; e poucas casas se acharam que não fossem acompanhadas destas de palma. E, tanto que o fogo foi posto, ardeu tanto que toda a cidade pareceu um fogo e acerca toda a noite; e deste fogo caíram muitas casas e se queimou grande riqueza, porque daqui tratavam para Sofala e para Cambaia por mar.

Neste porto estavam três naus de Cambaia, já vazias e postas em seco; saíram os cristãos para as queimar, [o] que os mouros lhes bem defenderam, até ferirem alguns cristãos. Ficaram por queimar.

O século XVII

Após a partida de Mendes de Vasconcelos, as relações entre os Portugueses e o sultão de Mombaça começaram a deteriorar-se. Foi nesse contexto que, em 1626, Muhammad Yusif, educado em Goa onde recebera o baptismo cristão e o nome de D. Jerónimo Chingulia, foi feito sultão. Em 1631, as suas forças penetraram de surpresa na fortaleza, matando o seu capitão, Pedro Leitão de Gamboa, e massacrando toda a população portuguesa de Mombaça.

Tão logo a notícia chegou à Índia, uma expedição portuguesa foi organizada em Goa e enviada para a retomada de Mombaça. Entretanto, após um cerco que se estendeu por dois meses, de 10 de Janeiro de 1632 a 19 de Março de 1632, a empreitada foi abandonada. Contudo, depois do sultão abandonar Mombaça ainda em 1632 uma força portuguesa sob o comando do capitão Pedro Rodrigues Botelho, reocupou a fortaleza.

Na manhã de 13 de Dezembro de 1698, após dois anos e nove meses de assédio, as forças de Omã fizeram um ataque decisivo, logrando finalmente tomar o Forte Jesus.

De 1856 a 1895 Mombaça é ocupada por Zanzibar e de 1895 a 1963 torna-se colónia britânica, sendo que hoje se situa no Quénia, país independente desde 1963.

(CONTINUA)