Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Apontamentos sobre o Palácio da ilha da Cité em Paris

 
La Grande Croisée - O Eixo Sul-Norte, traçado por Haussmann, estende-se do Observatório até à ponte Saint-Michel, atravessa a ilha da Cité e pela ponte do Change continua, já na margem direita (Rive droite), pelo Boulevard de Sebastopol até  à Gare de l’Est.

O troço do Boulevard de Sébastopol, que na ilha da Cité se chamará de Boulevard du Palais (boulevard do Palácio) é no lado poente ocupado pelo antigo Palácio Real, depois Palácio da Justiça, tendo no seu interior a Sainte-Chapelle, construída entre 1241 e 1248. É um grande edifício, onde se acumulam intervenções de todas as épocas. Não interessa aqui fazer a história completa do Palácio, mas sabe-se que existia já no tempo dos romanos.

[Este texto, que se foi tornando cada vez mais extenso, está por isso dividido em três partes.
A I Parte, que trata do Palácio e a evolução da sua envolvente, tem um Capítulo 1 que trata do Palácio até ao século XVI; um Capítulo 2 que aborda o Palácio nas plantas perspéticas de Paris; um Capítulo 3, que trata do Palácio no século XVIII; e um Capítulo IV que trata do Palácio no século XIX, incluindo as intervenções do Segundo Império (1852-1870) e as reconstruções após a Comuna de Paris.
Na II Parte, procura-se enquadrar o Palácio na sua envolvente próxima, através da conformação e das construções, nas suas quatro frentes ou fachadas.
A III parte, aborda sumariamente as construções no interior do Palácio.]

I Parte - O Palácio da Ilha de la Cité

[Vraisemblable & Merveilleux] Il n'y a point de mode ancienne il n'y en a point de nouvelle, qui permette de les separer; & il est du grand Poème, comme d'vn Palais magnifique, où il faut des parties qui soutiennent & qui affermissent; & d’autres parties qui surprennent & étonnent.[1]


[Verdadeiro & Maravilhoso. Não há modo antigo ou modo moderno que os permita separar; & o mesmo se pode dizer do grande Poema, como de um magnífico Palácio, onde são necessárias partes que o sustenham e o consolidem; & outras partes que surpreendam & espantem.]



Capítulo 1 - O Palácio até ao século XVI


Dans une Isle branlante, & de sable mouvant,
Qui fuit le cours des flots & roule au gré du
vent;
Il se voit un Palais sans règle & sans mesure,
Mais d'une extravagante & bizarre structure;
Dont l'ouvrage subit sans le secours de l'Art,
S'éleva de morceaux assemblez au hazard.
On n'y consulta point le Niveau, ni l’Equerre,
Pour alligner le Plan, pour ajuiter la pierre:
Et les appartemens en tumulte dressez,
Sur les pieds du Compas n'y furent point tracez.
 [2]



Com os Carolíngios foi fortificado. Durante a Idade Média foi a residência real. Filipe Augusto (1165-1223), São Luís (1214- 1270) e sobretudo Filipe o Belo (1268-1314), fizeram do Palácio um conjunto residencial e administrativo com o seu apogeu no século XVI. As intervenções ordenadas por Filipe o Belo, entre 1297-1308 e realizadas pelo seu “braço direito” Enguerrand de Marigny (1260-c.1315) destinaram-se a instalar a família real, bem como o pessoal ligado à administração judiciária e financeira, e ainda o clero ligado à Sainte-Chapelle. Assim, para além da Santa Capela (Sainte-Chapelle), construiu-se  a Grand-Salle (hoje os Passos Perdidos do Palácio da Justiça) destruída por um incêndio em 1618, e os aposentos reais. [3]

A Conciergerie era a prisão do Parlamento. Por ela passaram na Revolução, entre outros, Maria Antonieta, Danton, e Robespierre.

Na parte administrativa a Chambre des Comptes et des Monaies (Tribunal de Contas e Casa da Moeda).

No século XIV ergueu-se a Torre do Relógio (Tour de l’Horloge), para o tesouro real, entre 1301 e 1317. No século XIV Carlos V de Valois, o Sábio (1338-1380) rei de França de 1364 a 1380, decide deixar o Palácio como residência real, mantendo contudo o Parlamento [4], o Tribunal de Contas e a Chancelaria. [5]

Do século XV temos uma vista da Cité na iluminura das Crónicas de Jean Froissart, ou Jehan Froissart (1337-c.1405) que mostra a chegada de Louis II (1377-1417), rei de Nápoles, conde da Provence e Duque d’Anjou, sendo recebido por Charles VI (1368-1422), le Bien-Aimé ou le Fol, que reinou a partir de 1380.

cite1afig. 1 - Maître d’Antoine de Bourgogne, Accueil par Charles VI de Louis II d’Anjou à Paris près de la Porte Saint-Michel, enluminure issue de ses Chroniques, XV°siècle, Bruges, c. 1475, Tome 3 : Parchemin, VIII (coté A-H) + 379 ff., 435 x 335 mm.,  Bibliothèque nationale de France.

No fundo ocupando toda a largura da imagem, a Cité, onde se distingue a Sainte-Chapelle, Notre-Dame e o Temple.


cite3fig. 2 - Pormenor da fig. 1.

Numa outra imagem, representando a entrada em Paris da mulher de Charles VI, Élisabeth de Wittelsbach-Ingolstadt, ou Isabelle de Bavière, ou ainda Isabeau de Bavière (1371-1435), vê-se ao fundo o Temple, Notre-Dame e a Sainte-Chapelle onde Isabelle foi coroada. De notar a Torre do Relógio.

cite4fig. 3 - Master of the Harley Froissart L'entrée de la reine Isabeau de Bavière à Paris le 22 août 1389, Illuminated miniature from Jean Froissart's Chroniques, circa 1470 and circa 1472 British Library.

cite5fig. 4 – Pormenor de Master of the Harley Froissart L'entrée de la reine Isabeau de Bavière à Paris le 22 août 1389, Illuminated miniature from Jean Froissart's Chroniques, circa 1470 and circa 1472 British Library.

Em 1431, Charles VII (1403-1461), le Victorieux, ou le Bien Servi, cujo reinado se estendeu desde 1422 a 1461, faz do Louvre a residência real, passando o palácio da Cité apenas a ser utilizado como sede do Parlamento.
Louis XI (1423-1483), cognominado le Prudent  e que reinou desde 1461 até à sua morte, inicia a construção dos edifícios da Chambre de Comptes e constrói, em 1447, numa das extremidades da Grande-Salle, uma capela em que duas colunas suportavam, uma estátua de Carlos Magno e outra de São Luís.


O rei Louis XI, em 1474, foi procurado pelo rei de Portugal D. Afonso V (1432-1481), no sentido de estabelecer uma aliança e o seu apoio nas guerras com Castela, para o que se desloca a França e visita Paris e o Palácio.


Na Crónica de D. Afonso V de Rui de Pina (1440-1522), pode ler-se, no Capítulo CXCVIII: ElRey de França mandou logo recado a ElRey Dom Affonso, pedindo-lhe com pallavras de grande esperança, que em tanto se fosse, como logo foy, aposentar-se em París, onde esteve atée o Mayo, que ElRey de França andou sempre em sua guerra, fazendo e acabando o que lhe compria.

E o Capítulo CC, intitulado: Da concrusam que ElRey Dom Afonso tomou com ElRey de França, quando com elle se vio a segunda vez, inicia-se com a frase: Com esta reposta se vieram os Embaaxadores, que acharam ElRey Dom Affonso já em París. [6]

D. Afonso V aparece representado no Diário de George von Ehingen (1428-1508) um cavaleiro que o acompanhou na tomada de Ceuta em 1458-59.

cite27bfig. 5 – D. Afonso V e Louis XI. À esquerda: Georg von Ehingen (1428-1508), D. Afonso V c. 1470 in Diário de Georg von Ehingen Württembergische Landesbibliothek .Stuttgart. À direita: Jean-Léonard Lugardon (1801-1884) Louis XI, roi de France (1423-1483) 1836.


Ainda do século XV, existe uma conhecida iluminura referente ao mês de Junho, do Livro Très Riches Heures du Duc de Berry, onde na zona ocidental amuralhada da ilha da Cité, se destaca o Palácio com a Sainte-Chapelle. 

Lança a tua foice e ceifa, porque chegou o tempo de ceifar.
Está madura a seara da terra. (
Ap. 14, 15).

cite6fig. 6 - Frères Limbourg, Paul, Herman en Johan, Gebroeders van Limburg, Le Mois de juin, “Très Riches Heures du Duc de Berry (1340-1416), Paris, 1414-1416, iluminura 22,5 x 13,6 cm. Chantilly,Musée Condé.


No primeiro plano e ocupadas nas actividades agrícolas correspondentes ao mês de Junho, duas camponesas com lenços na cabeça, uma apanhando o feno com um ancinho e a outra com uma forquilha vão amontoando-o. No segundo plano, três camponeses de chapéu, vão ceifando com os seus gadanhos.

©Photo. R.M.N. / R.-G. Ojéda fig. 7 – Pormenor da fig. 6.

No fundo o palácio real tendo à direita a Sainte-Chapelle, e destacando-se ainda a Grande-Salle e as torres Montgomery e do Horloge. Com a cobertura vermelha as torres d’Argent e César. Junto a estas a Maison sur l’Eau.
Estão representadas  personagens numa menor escala quer no interior do recinto do Palácio, quer as que esperam no cais para serem transportadas para a porta da muralha, num barco no Sena, onde o barqueiro vai pagaiando.


E numa outra iluminura das Très Riches Heures intitulada La Rencontre des Trois Rois Mages, uma bela composição em que cada um dos reis chega de uma direcção diferente, no canto superior esquerdo uma vista de Paris (como Jerusalém), onde se destacam a Sainte-Chapelle, o Palácio, Notre-Dame e ainda a colina de Montmartre. [7]


©Photo. R.M.N. / R.-G. Ojédafig. 8 - Frères Limbourg. La Rencontre des Trois Rois Mages, 1416, miniature enluminée, Très Riches Heures du Duc de Berry, folio 51v.Chantilly, Musée Condé.


©Photo. R.M.N. / R.-G. Ojédafig. 9 – Pormenor da fig. 8. Frères Limbourg. La Rencontre des Trois Rois Mages, 1416, miniature enluminée, Très Riches Heures du Duc de Berry, folio 51v.Chantilly, Musée Condé.



A reconstituição de Viollet-le-Duc

Mas para ter uma ideia do Palácio no século XV, veja-se a reconstituição feita, no espírito do romantismo neo-gótico, por Viollet-le-Duc (1814-1879), sobretudo a partir de Henri Sauval, ou Sauvalle (1623-1676), arqueólogo e autor da Histoire et recherches des antiquités de la ville de Paris, publicado em 1724. [8]
[Para uma melhor compreensão orientou-se a planta no sentido norte-sul e realçou-se a legenda original de Viollet-le-Duc.]

cite11legendafig. 10 - Violet-le-Duc (1814–1879), Planta do Palácio da Cité in Dictionnaire raisonné de l’architecture française du XIe au XVIe siècle, Édition Bance-Morel de 1854 à 1868.

Legenda: A – Sainte- Chapelle  B - Tour César e Tour d’Argent C – Tour de l’Horloge  D – Cuisines E – Enceinte F – Portes G – Tour Montgomery H- Galerie (des Merciers, Mercière ou Marchande) I – Grande-Salle  J – Galerie (Dauphine) K – Portiques (Tour Bombec, a norte) L – Logis  M – Chambre des Comptes N – Poterne O – Enceinte P – Saint-Michel R – Pont au Change S - Pont au Meuniers T – Jardin du Roy V – Trésor de Chartes X – Cour de Mai.


Viollet-le-Duc apresenta ainda uma vista do Palácio, que legendamos.

cite13 cópiafig. 11 - Viollet-le-Duc (1814–1879), Vista do Palácio da Justiça do lado poente no séc. XVI em Dictionnaire raisonné de l’architecture française du XIe au XVIe siècle, t. VII. Édition Bance-Morel de 1854 à 1868.


Legenda: 1 – Tour de l’Horloge 2 – Saint-Barthélémy 3 – Saint Pierre des Arcis 4 – Portes 5 – Saint-Michel 6 – Cour de Mai 7 – Trésor de Chartres 8 Sainte-Chapelle  9 – Grand –Salle 10 – Galerie Mercière 11 – Tours César et D’Argent 12 – Grand –Chambre 13 - Cour 14 – Tour Bombec 15 – Tour Montgomery 16 – Cour 17 – Logis 18 – Maison sur l’Eau 19 – Galerie  20 - Jardins du Roi.
Ainda do século XIX, temos uma outra reconstituição do Palácio, visto de poente para nascente, de Hubert Hoffbauer (1839-1922) e uma vista de uma maquette, do mesmo autor, vista de nascente.


cite15fig. 12 - Theodore Joseph Hubert  Hoffbauer (1839-1922) in Pascal Payen-Appenzeller (1944…),  Le Palais de la Cité au XIVe siècle, in Illustrations de Paris à travers les âges, 1978. Bibliothèque nationale de France.



cite12fig. 13 - Theodore Joseph Hubert  Hoffbauer (1839-1922) Maquette de l'île de la Cité vers 1527.


[1] Pierre Le Moyne (1602-1671). Dissertation in Les oeuvres poétiques du P. Le Moyne. Chez Louis Billaine, au second pilier de la Grand’ Salle du Palais, à la Palme & au grand Cesar. Paris M. DC. LXXI. 1671.(s/n).
[2] Pierre Le Moyne (1602-1671). Le Palais de la Fortune de Lettres morales et poétiques in Les oeuvres poétiques du P. Le Moyne. Chez Louis Billaine, au second pilier de la Grand’ Salle du Palais, à la Palme & au grand Cesar. Paris M. DC. LXXI. 1671. (pág. 267).
[3] Este incêndio foi atribuído, por alguns, aos cúmplices de François Ravaillac (c.1577-1610), o assassino de Henri IV, pretendendo fazer desaparecer as provas de uma eventual conspiração no regicídio. Dos trabalhos de reconstrução do Palácio encarregou-se Salomon Debosse (1571-1626).
[4] Não se tratava de um Parlamento no sentido actual. O Parlamento de Paris foi sucessivamente o tribunal do rei, dos príncipes e dos pares.
[5] Os diversos espaços e edifícios do Palácio, serão tratados mais adiante na III Parte deste texto.
[6] Chronica do Senhor Rey Dom Affonso V. Escrita por Ruy de Pina, Chronista Mór de Portugal, e Guarda Mór da Torre do Tombo. in Collecçaõ de Livros Ineditos da Historia Portugueza, dos Reinados de D.Joaõ I., D. Duarte, D. Affonso V., e D. Joaõ II. Publicados de ordem da Academia Real das Sciencias de Lisboa. Por José Crrea da Serra Secretario da mesma Academia, e Socio de varias outras.Tomo I Lisboa Na oficina da mesma Academia Anno M.DCC.XC.
[7] Sobre esta iluminura ver http://doportoenaoso.blogspot.pt/2015/01/dia-de-reis.html
[8] Viollet-le-Duc (1814-1879), Dictionnaire raisonné de l’architecture française du XIe au XVIe siècle, Édition Bance-Morel de 1854 à 1868.

Capítulo 2 - O Palácio da Cité até ao século XVIII nas plantas perspécticas de Paris


Século XVI



Planta da Tapeçaria

O nome desta planta evoca a sua origem. A planta foi executada numa tapeçaria representando Paris à volta de 1540, o que a tornaria a mais antiga representação planimétrica de Paris. Estava orientada no sentido nascente-poente.
A tapeçaria terá sido mandada executar, cerca de 1570, pelo cardeal Charles de Bourbon (1523-1590). Encontrava-se então no palácio do Duque de Guise.
Em 1737 terá sido vendida ao Município de Paris. Colocada todos os anos no exterior do Hôtel de Ville, a tapeçaria foi-se degradando. Chegou mesmo a ser utilizada como tapete em 1782 nas comemorações do nascimento do Dauphin Louis Joseph (filho de Luís XVI e Maria Antonieta).
Em 1788 a Tapeçaria (ou o que dela restava), foi exibida pela última vez no Hôtel de Ville.
A partir de então perdeu-se o rastro da tapeçaria. Entretanto existem duas cópias. Uma é a de François Roger de Gaignières (1642-1715), antiquário e colecionador, durante algum tempo ligado  à Casa de Guise, o que lhe permitiu ver e estudar a Tapeçaria. De Gaignières executou (ou fez executar) por volta de 1690 um desenho, reproduzindo a Tapeçaria, hoje na Biblioteca Nacional.


cite16fig. 14 - François Roger de Gaignières (1642-1715),"Plan de la tapisserie" c.1690, desenho pena, tinta da China e aguarela 48,6 x 61 cm. Bibliothèque nationale de France.

No texto da cartela da esquerda, sobre o Palácio pode ler-se: …LE PALAIS, QVI EST GRAND Z SVPTVEVSE CHOSE A VEOIR,…
Na cartela central os versos:
…CITÉ DE PAIX, VRAY REPOS DE JVSTICE,
ISLE AYANT PORT DE CONSOLATION,
SEJOVR ROYAL A TOVS HVMAINS PROPICE,
LIEV OV FAVEVR NA JVRIDICTION,…
E na cartela da direita:
LA LARGEVR DE CE QVI SAPPELLE CITÉ OV ISLE. EN LAQVELLE ISLE SOT MIS PLVSrs SVPTVEVX EDIFICES C'OME LA GRADE ESGLISE NRE DAME, LE PALAIS Z Stc CHAPPELLE, QVI EST TRES DIGNE CHOSE, LHOSTEL DIEV Z PLVSrs ESGLISES.

A outra cópia da Tapeçaria é um guache composto por nove peças, que foi retocado por diversas vezes e que ardeu nos tumultos da Comuna de Paris em 1871. Tinha entretanto sido fotografado e as fotografias foram salvas.

cite17fig. 15 - Plan de la tapisserie. Fotografia do Grande guache.


Na planta da Tapisserie estão assinaladas em cartelas: a rua da Barillerie como R. La Batiller e a igreja de Saint Barthélémi (como Briutholomi) com a sua torre desenhada de um modo exacto.
A nascente na rue de la Vieille Draperie está representada a igreja de S. Pierre des Arcis (des Assis) de 1424.
As pontes de Saint Michel e Au Change. Junto a esta, a ponte Au Meuniers (Muniers), construída em 1323, que apesar do seu nome não estão representados quaisquer moinhos.
Esta ponte colapsou em 1596 e foi reconstruída em 1609 por um Monsieur Marchand, passando a ser designada como Pont Marchand. Em 1621 ardeu e não mais foi reconstruída.

Está representada uma das portas do Palácio, flanqueada por dois torreões.
Estão representadas a Grande Salle, a Sainte Chapelle e a capela de Saint Michel. A Chambre des Comptes e os Jardins du Roy (Ierdains du Roy).

cite16afig. 16 – Pormenor da fig. 15. Plan de la tapisserie.



Na planta de Münster


A planta Lutetia Parisiorum urbs, toto orbe celeberrima notissimaqúe, caput  regni Franciae foi publicada em Basileia, em 1550, na Cosmographiae Universalis. Está orientada no sentido nascente-poente.

cite18afig. 17 - S ebastian Münster (1489-1552), Lutetia Parisiorum urbs, toto orbe celeberrima notissimaqúe, caput  regni Franciae in Cosmographiae Universalis 1550 Basileia.

Na planta de Paris de Sebastian Münster (1489 - 1552), datada de 1550, mas provavelmente realizada por volta dos anos 30 do século XVI, o Palácio está indicado pela letra [B] - Palatium régis.
O Parlamento a parece como Praetorium.
A norte do Palácio está cartografada a rua de la Barillerie [J], que liga as pontes au Change [O] e Saint-Michel [P].
No interior do recinto do Palácio destacam-se a Sainte-Chapelle [E] e a Grand Salle [C].
Na extremidade da ilha os Jardins do Rei [F].
As muralhas erguiam-se ainda junto ao Sena, não existindo os cais.

cite18fig. 18 – Pormenor da fig. 17. Lutetia Parisiorum urbs, toto orbe celeberrima notissimaqúe, caput  regni Franciae in Cosmographiae Universalis 1550 Basileia.




Na planta de Braun e Hogenberg


A planta com a inscrição Lutetia, vulgari nomine Paris, urbs Gallia maxima foi publicada em 1572 no Civitates Orbis Terrarum I. Está orientada no sentido nascente-poente.
cite19bfig. 19 - Georg Braun (1541-1622) Franz Hogenberg (1535-1590), Lutetia, vulgari nomine Paris, urbs Gallia maxima, água-forte s/cobre 48 x 34 cm. in Civitates Orbis Terrarum I, 1572.


Acompanhando a planta, o seguinte texto: La Cité est entre l’ Université et la Ville, à laquelle elle est jointe avecques troys ponts, et joint l’ Université par le moyen de deux. Ces ponts resemblent plustost belles rues que ponts, à cause des édifices qui sont bastiz des deux costés d'iceux.
En ceste partie de Paris est le palays Royal, iadis basti par Philippes le Bel, et en icelui la Saincte Chapelle, faicte par artifice admirable: pareillement, la grande Église nostre Dame, laquelle, à cause de sa belle et magnifique structure, grandeur et magnificence d’ornemens et images, est tenue pour un miracle de la France. En faisant les fondemens du Palays, on y trouva un crocodile vif, la dispouille duquel se voit encores aujourdhuy en la grande sale du Palays.


[A Cité está entre a Université e a Ville, à qual se liga com três pontes, e à Universidade por duas. Estas pontes mais se assemelham a belas ruas do que a pontes, por causa dos edifícios construídos nos seus dois lados. N’esta parte de Paris está o Palais Royal (Palácio Real), outrora construído por Filipe o Belo, e neste a Sainte-Chapelle (Santa Capela), uma obra admirável: paralelamente, à grande Igreja de Notre-Dame, a qual, por causa da sua bela e magnífica estrutura, grandiosidade e magnificência de ornamentos e imagens, é considerada um milagre da França. Quando se fizeram as fundações do Palácio, foi encontrado um crocodilo vivo, cujos restos se veem ainda hoje na grande sala do Palácio.]

Na planta de Georg Braun (1541-1622) e Franz Hogenberg (1535-1590), aparecem já desenhados com outra precisão, os mesmos elementos e ainda a Torre Montgomery [L] e a entrada do Palácio [N]. Na planta estão escritos o Palays du Roy, o Jardin du Roy, a S. Chappelle, e as pontes Petit pont, Pont au Change e Pont au Muniers.Ainda na margem esquerda o Quay des Augustins.

cite19cfig. 20 – Pormenor da fig. 19. Lutetia, vulgari nomine Paris, urbs Gallia maxima in Civitates Orbis Terrarum I, 1572.




Na Planta de Truchet 1553


A planta de Olivier Truschet et Germain Hoyau, representa Paris e as suas muralhas por volta de 1550. Está orientada no sentido nascente-poente.


cite20afig. 21 - Olivier Truschet et Germain Hoyau, Plan de Paris, dito Plano de Basileia c. 1550. Publicado em 1553. Versão colorida. Gravura / madeira 133 x 96 cm, em oito folhas. Bibliothèque de l’Université de Bâle.






cite20bfig. 22 – Pormenor da fig. 21. Plan de Paris, dito Plano de Basileia c. 1550 mas publicado em 1553. Versão colorida.

Na Planta de Olivier Truchet, de 1553 e que apresentamos na versão colorida, o Palácio (Le Palays) apresenta-se tal como existia no século XVI, estando indicados os seus diversos corpos.
Assim no recinto do palácio aparecem assinaladas para além da Sainte Chapelle, a Chambre des Comptes e a Conciergerie.
Na fachada nascente a Tour de l’Horloge (Lorloge) e a capela de Saint-Michel.
Não legendada a Entrada do Palácio.
No perímetro do Palácio, a nascente da rua que une a Pont au Change com a Pont Saint Michel as igrejas de Saint Pierre des Arcis (des Assis) e de Saint Barthélémi (Bertelemi). Perpendiculares à frente do Palácio as ruas de La Viei lle-Draperie e de La Calandre.
Na fachada sul note-se a porta lateral do Palácio.
Na fachada norte para além da, já referida Tour de l’Horloge, as torres César e d’Argent, e o Jardin du Roi.
Estão ainda cartografadas a Pont aux Meuniers (LePont au Muniers) e o Moulin  de la Monnaie (LeMoulandela Monnoie).


Na Planta de Belleforest 1575


Embora datada de 1575, a planta representa Paris por volta de 1550. Está orientada no sentido nascente-poente.

cite21afig. 23 - François de Belle-Forest (1530-1583), Plan de La Ville, Cité, Université & Fauxbourgs de Paris Plan de Paris vers 1550, publié en 1575, gravura s/cobre 55 x 41 cm.

Na planta de Belle-Forest (ou Belleforest) datada de 1575, podemos ver uma representação do Palácio.

cite21fig. 24 - Pormenor da fig. 23 Plan de La Ville, Cité, Université & Fauxbourgs de Paris Plan de Paris vers 1550, publié en 1575.


Aparecem indicados nas cartelas colocadas nos cantos da planta:
q. Pont au Change. r. Pont aux Musniers (Meuniers). u. Le Palais x. La S. Chapelle (Sainte-Chapelle). y. S. Barthelemy
1. Le Pont S. Michel. 34. Moulin de la Monoye. 61. Iardin du Roy
Ainda na margem direita 35. Escole S. Germain e na margem esquerda 36. Quay des Augustins



Na planta de S. Victor


Existe uma planta atribuída a Jacques Androuet du Cerceau (1510-1584), que terá pertencido à Abadia de Saint-Victor, mas tendo sido perdida foi redesenhada em 1756 por Guillaume Dheulland (1700-1770). Está orientada no sentido nascente- poente.
Esta planta ficou, por isso, conhecida como Plan de Saint-Victor.


cite22afig. 25 - Guillaume Dheulland, Reconstituição do Plan de Saint-Victor c.1550, Água-forte 65,5 x 93,0 cm. Paris 1756/1766.

Nesta planta aparece já legendada a rua de la Barillerie e a rua de St. Berthelemi (Barthélemy), a nascente. Os cais a norte e a sul ainda não estão abertos.
Estão ainda indicados na planta le Palais, l’Orloge, la Conciergerie, S.te Michel, la S.te Chappelle, le Jardin du Roy, le Pont Sainct Michel, le Pont au Change, Pont aux Meuniers, e no Sena le Moulin de la Monoye.


cite22fig. 26 – Pormenor da fig. 25. Reconstituição do Plan de Saint-Victor 65,5 x 93,0 cm. Paris 1756/1766.



Século XVII

No século XVII as diversas plantas perspéticas destinam-se, no lado ocidental da Cité, a valorizar a substituição dos jardins do Rei (Jardins du Roy) pela praça Dauphine e a construção da Ponte Nova (Pont Neuf). [1]


Na planta de Vassilieu dito Nicolay 1609

Segue-se a planta - pouco rigorosa e algo fantasiosa, provavelmente devido à introdução como na época se fazia, de edificações que apenas se encontravam em projecto ou em construção - de Vassalieu (Benedit de Vassalieu dit Nicolay, c.1554-depois de 1614) também publicada em 1609.


cite23afig. 27 - Benedit de Vassalieu dit Nicolay (c.1554-depois de 1614), Portrait de la ville cite et universite de Paris avec les faubours dicelle, dedie au roy / facit par Vassallieu dit Nicolay, topographe et ingenieur ordinaire de lartillerye de France 1609. Gravura 98,5 x 77,5 cm. em 4 folhas.

Repare-se na praça Dauphine em forma de ferradura ou na estátua de Henri IV, que  apenas foi colocada na Pont-Neuf em 1614. Sublinhando o carácter fantasioso da planta, estão representadas pequenas figuras que correm, trabalham, conduzem animais e mesmo viaturas (sobretudo na periferia da cidade e não na parte que reproduzimos).
Referenciadas na parte da planta que apresentamos: Le Pallais, a S.Chapelle, as ruas de La Vieille Draperie, e de la Calandre, as pontes S. Michel, au Change e aux Marchans. E ainda a Place Dauphine.

cite23fig. 28 – Pormenor da fig.27. Portrait de la ville cite et universite de Paris avec les faubours dicelle, dedie au roy / facit par Vassallieu dit Nicolay, topographe et ingenieur ordinaire de lartillerye de France 1609.


Na planta de Quesnel 1609


François Quesnel (ca.1543-1619), que foi o pintor dos reis Henri III, Henri IV e Louis XIII, desenha em 1609 uma planta Description Nouvelle de la Ville, Cité, Université et Fauxbourgs de Paris, cuja gravura é atribuída a Pierre Vallet (c.1575-c. 1657). A planta está orientada tendo na parte superior a direcção sudeste.

cite24afig. 29 - François Quesnel (ca.1543–1619), Carte ou Description Nouvelle de la Ville, Cité, Université et Fauxbourgs de Paris, 1609. Água-forte 504 x 384 cm. 12 folhas.

Na planta aparecem, agora realisticamente cartografadas, a Pont-Neuf, a praça Dauphine e a rua de Halay, que implicaram a construção de uma nova fachada poente do Palácio.
A nascente vai-se estruturando um largo em frente da porta do Palácio no encontro das ruas de la Barillerie e de la Vieille Draperie [A]. Nesta praceta esteve colocada entre 1597 e 1605, a Pirâmide de Chatel (ver a II parte).
Estão inscritas na parte que nos interessa da planta: as igrejas de S. Bartelemi e S. Eloy,o Palais com S. Michel e La S. Chapelle; a Placedofine (Dauphine) e as pontes: P. au Chenge (Change) e P. Marchent (ponte Marchand, terminada em 1609).
Está já desenhado a norte, o Cais des Morfondus (depois de l’Horloge) aberto entre 1580 e 1611 [B].
A sul, a rua de Saint Louis prolonga-se pelo Cais des Orfèvres [C], aberto entre 1580 e 1643. Distingue-se ainda, a sul, a entrada do Palácio pela rua de Nazaré (depois Jerusalém) [D]. Já consolidada a Rua de Harlay [E]. Pont Neuf [F] Desaparece o Moinho de la Monoye e aparece desenhada a Pompe de la Samaritaine,a primeira bomba elevatória de Paris.

cite24bfig. 30 – Pormenor da fig.29. Carte ou Description Nouvelle de la Ville, Cité, Université et Fauxbourgs de Paris, 1609.



Na Planta de Merian 1615


Mathieu Merian (1593-1650), gravador e editor suisso publica em 1615 em Paris uma planta em perspectiva.
Na parte superior uma cartela com "LE PLAN DE LA VILLE, CITE, VNIVERSITE ET FAVX-BOVRGS DE PARIS AVEC LA DESCRIPTION DE SON ANTIQVITE ET SINGVLIARITES" (Carta da Cidade, Universidade e Faiburgos, com a descrição de sua Antiguidade e Singularidades).
No canto superior esquerdo o Brasão Real e as Armas de Paris.
Numa cartela no canto inferior esquerdo:
Cette ville est un autre monde
Dedans, un monde florissant,
En peuples et en biens puissants
Qui de toutes choses abonde


[Esta cidade é um outro mundo
Dentro, um mundo florescente,
Em pessoas e bens poderosos
Que aqui de todas as coisas abundam.]


cite25afig. 31 - Matthäus Merian (1593-1650), Le Plan de la Ville, Cité, Vniversité, et Faux-Bovrgs de Paris avec la description de son antiqvité et singvlarités, 1615. Gravura 102 x 90 cm. em 6 partes. Versão colorida.


Estão, legendados e bem desenhadas: a Place Dauphine (1607/1620), a Pont-Neuf com La Pompe, o cais de l'Horloge, a rua de Harlay e o cais des Orfèvres.
Está desenhado, com bastante rigor e nomeado, o Palácio, onde se distinguem as portas para a rua de Barillerie, flanqueadas por torreões; Saint-Michel e a Sainte-Chapelle (assinalada como La Chapelle ainda com a primitiva flecha que será destruída em 1630).
Distingue-se ainda no interior do recinto do Palácio a Grande-Salle com as suas janelas ogivais. No lado norte a Torre do Relógio com um campanário;as Torres César, d’Argent e Bombec. Na envolvente do Palácio as pontes S. Michel, au Change e aux Meuniers; as igrejas de Saint Barthélémi e Saint Eloy; e nas margens, direita e esquerda, respectivamente, os cais, de l’Escolle e de Les Augustins.

cite25fig. 32 – Pormenor da fig.31. Le Plan de la Ville, Cité, Vniversité, et Faux-Bovrgs de Paris avec la description de son antiqvité et singvlarités, 1615.



Na planta de Tavernier


Segue-se, ainda no século XVIII a planta de Melchior Tavernier (1594-1665), que apenas confirma a imagem do extremo poente da ilha da Cité.

cite26afig. 33 - Melchior Tavernier (1594-1665), Le Plan de la Ville, Cite, Universite Fauxbourgs de Paris avec la Description de son Antiquite. Paris: Chez Melchior Tavernier, 1630.

No entanto já não existem nem a ponte Marchand (aux Meuniers), nem a pont au Change destruídas por um incêndio em Outubro de 1621, que se iniciou na ponte aux Meuniers e se propagou para a ponte vizinha. Dada a imperiosa necessidade de circulação nesse eixo norte-sul, ligando as três partes da cidade (Ville, Citè e Université), a ponte au Change foi substituída por um pontão em madeira (chamado pont de Bois) até à sua reconstrução entre 1639 e 1647, segundo o projecto de Jean Androuet du Cerceau (1585-1649).

cite26fig. 34 – Pormenor da fig.33. Le Plan de la Ville, Cite, Universite Fauxbourgs de Paris avec la Description de son Antiquite. Paris: Chez Melchior Tavernier, 1630.



Na planta de Boisseau 1648


Jean Boisseau (16??-1657), enlumineur du Roy pour les cartes géographiques, publica por volta de 1648 uma planta da cidade de Paris.

cite28fig. 35 - Jean Boisseau, Plan General de la Ville Cité Université Isles et Faubourgs de Paris. Dedié A Messieurs les Gouverneur Prevost des marchands et Eschevins de la dite Ville. Par leur Tres humble et tresaffectione serviteur Jean Boisseau Enlumineur du Roy pour les Cartes Geographiques.1648. Gravé par Jean Boisseau. 99 x 98 cm.



O Palácio aparece representado dando ênfase à Sainte Chapelle e à sua flecha, e sendo nomeadas as ruas e os cais adjacentes. Também é assinalada a praça Dauphine e a Pont Neuf.


cite28afig. 36 – Pormenor da fig. 35.Pormenor do Plan General de la Ville Cité Université Isles et Faubourgs de Paris.


Na planta de Gomboust 1647/52

A planta Lutetia de Jacques Gombouste (16??-1668) topógrafo-engenheiro do Rei (ingénieur pour l'élévation des plans de villes), foi elaborada a partir de 1647 e publicada em 1652, com a colaboração de Pierre Petit (1598-1677), engenheiro-militar e o responsável pelas fortificações de Paris (intendant des fortifications). [2]
A planta apresenta 4 cartelas onde estão representados: no canto superior esquerdo Paris vev de Montmartre; no canto superior direito Galerie dv Lovvre; e no cantos inferiores Maisons Royales et Remarqvables avx environs de Paris.

cite29fig. 37 - Jacques Gomboust, Lutecia. Paris. Assisté, pour le plan de Paris, de l’intendant des fortifications, Pierre Petit. Lutetia. c.1650. gravura 178 x 144.

A planta de Jacques Gomboust, mostra que está reconstruída a Pont au Change e mostra a nascente assinalado o largo em frente da porta do Palácio com a Fonte dita dos Barnabites (assinalada com Fontaine) e que substituiu a pirâmide de Chatêl. Mostra ainda a fachada sul com  as entradas pelas ruas de Jerusalém ou/e Nazaré (assinalada como Portene du Palais) e pela rua de Sant’Ana, assim chamada em honra de Ana de Áustria (1601-1666) a mulher de Luís XIII. A rua de Saint Louis aparece desenhada com as suas edificações.
A norte o Cais de l’Horloge aparece como Quay du Grand Cours d'Eau.

cite29afig. 38 – Pormenor da fig. 37 Lutetia.


Na planta de Bullet et Blondel 1670-1676


A planta elaborada por Jean-François Blondel (1618-1686), arquitecto e engenheiro, director da Real Academia de Arquitectura (não confundir com o sobrinho Jacques-François o conhecido autor do Cours d’Architecture) em colaboração com o seu aluno Pierre Bullet (1632-1716), Arquitecto dos Edifícios do Rei e Arquitecto da Cidade de Paris entre 1674 e 1675, e autor de diversos tratados de arquitectura, indica o estado presente da Cidade de Paris e as obras que foram começadas por ordem do rei e que podem ser continuadas para comodidade pública (l’Estat presente de le Ville de Paris et les Ouvrages qui ont etè commencez par les Ordres du Roy et qui peuvent étre continuez pour la commodite publique). 
A planta apresenta ainda no canto inferior esquerdo um esquemático Plano das Fontes e das Condutas e Comunicações das Águas Publicas da Cidade de Paris (Plan des Fontaines et des Conduites et Communications des Eaux Publiques de la Ville de Paris) e no canto inferior direito uma planta dos Arredores de Paris (Les Environs de Paris).


cite31fig. 39 – Plan de Paris. Levé par les Ordres du Roy. Et par les soins de Messieurs les Prevost des Marchands et Eschevrins en l’anné 1676. Par le S.R Builet Architecte du Roy et de la Ville sous la conduite de Monsieur Blondel Marechal de Camp aux Armées du Roy, Directeur de l’Académie Royale d’Architecture et Maitre de Mathematique de Monseigneur le Dauphin. Contenent l’Estat presente de le Ville de Paris et les Ouvrages qui ont etè commencez par les Ordres du Roy et qui peuvent étre continuez pour la commodite publique.Gravure à l’eau-forte par Gilles Jodelet de La Boissière, graveur d’architecture. 196 x 192 cm. 1676.

Aparece já cartografada a Cour Neusve du Palais.
Estão assinaladas a nascente do Palácio as igrejas de Saint Barthélemy, Saint Pierre de la Cité (des Arcis) e des Barnabites ou Saint Eloy.
O perímetro do Palácio está consolidado pelas ruas de la Barillerie, de Saint Louis (onde se assinala a Petite Porte du Palais, o Cais des Orphèvres, a rua Halay, e os Cais des Morfondus e de l’Horloge (Lorloge).
Aparece sinalizada a Font du Palais junto da rue de Saint Anne. Está já construído o corpo ocidental do Palácio em torno da Cour Neuve du Palais.

cite31bfig. 40 – Pormenor da fig. 39. Plan de Paris



Na planta de Jouvin 1672-74


Segue-se a planta de Albert Jouvin de Rochefort [3], a primeira planta de Paris a ser orientada no sentido norte-sul. A planta tem nos cantos superiores uma representação da igreja de Notre-Dame e do Hôtel de Ville, ambos isolados das suas envolventes. No canto inferior direito uma representação de Les Environs de Paris.


cite30afig. 41 - Albert Jouvin de Rochefort (c. 1640 -1710),detalhe de Paris et ses environs 1672. A Tres Haut et Tres Puissant Seigneur Messire Simon Arnauld Chevalier Seigneur de Pomponne Ministre et Secretaire d’Estat. Gravado por François de (Lepine) la Pointe (16.?-17.?) Paris 1672.



Estão assinaladas as novas edificações no lado ocidental do Palácio.
Nesta planta salienta-se que na parte que nos interessa apenas estão desenhados a três dimensões o conjunto do Palácio, a igreja de Saint Barthélémi e o convento de S. Esloy/Barnabites.
No Palácio aparecem agora, já consolidados, os novos corpos a poente, constituídos pela Cour e Rue de La Moignon, e pela Cour Neuve du Palais.


cite30bfig. 42 – Pormenor da fig.39.


O século XVIII

A planta de Jaillot 1717

Na Carta de 1710 elaborada por Alexis Hubert Jaillot (c. 1632- 1712), Géographe du Roy, e reelaborada por Bernard Jean Hyacinthe Jaillot (1673-1739), há um regresso à antiga orientação no sentido nascente-poente e a ilha da Cité aparece como Isle du Palais.

cite32fig. 43 - Alexis Hubert Jaillot (c. 1632- 1712), Plan De Paris, Leve Par Les Ordres Du Roy Et Par Les Soins De Messieurs Les Prevost Des Marchands Et Eschevins. 1710. Bernard Jean Hyacinthe Jaillot (1673-1739). Nouveau Plan de La Ville de Paris et Fauxbourgs de Paris, Comme il est a présent. Mis au jour par B. Jaillot Géographe. Très exactement levé et mesure sur les Lieux, augmenté de tous les Nouveaux bâtiments et nouvelles Rues qui y ont été faites jusqu'en 1717.

No que diz respeito Palácio a planta pouco ou nada adiante em relação à planta anterior.


cite32afig. 44 – Pormenor da fig. 43. Plan De Paris, Leve Par Les Ordres Du Roy Et Par Les Soins De Messieurs Les Prevost Des Marchands Et Eschevins. 1710.


Na planta de Louis Bretez (dito de Turgot) 1734/1739

Para promover a imagem de Paris como a cidade do século das Luzes, o provedor dos comerciantes de Paris, Michel-Étienne Turgot (1690-1751), no reinado (1715-1774) de Louis XV (1710-1774) Le Bien-Aimé, encomendou por volta de 1730, ao arquitecto Louis Bretez (c. 1675-1738), membro da Academia de Pintura e Escultura e professor de perspectiva, uma planta que se tornou conhecida como Planta Turgot, uma das mais belas representações da cidade de Paris no século XVIII.
A planta foi gravada em cobre por Claude Lucas em 20 folhas num total de 326 x 245 cm., e impressa por Pierre Thevenard.

cite33dfig. 45 - Michel-Étienne Turgot (1690–1751) e Louis Bretez (c. 16.. -1736), Plan de Paris quartier par quartier. Commence l'Annee 1734. Paris. Levé et Desiné par Louis Bretez. Gravé par Claude Lucas. Et Écrit par Aubin 1739. A vermelho a folha onde figura o Palácio da ilha da Cité.

A folha em que está desenhado o Palácio da Justiça.

cite33afig. 46 – Folha do Plano Turgot com parte da Ile de la Cité.

Em meados do século XVIII, o Palácio da Justiça, encontra-se consolidado.
Está já conformada a Cour de Mai bem como a Cour de la Saint-Chapelle, na planta designadas como Cour du Palais. Está também já desenhada a Cour Neuve du Palais. Repare-se que estão assinaladas a sul as ruas de Sant’Ana e da Nazaré.

cite33bfig. 47 – O Palácio da Justiça na Planta de Turgot.


Na Planta de Scotin

Por volta de 1742, aparece uma planta orientada no sentido norte-sul, referente apenas à ilha da Cité desenhada por Jean Baptiste Scotin, que apresenta os monumentos em perspectiva.

cite41fig. 48 - Jean-Baptiste Scotin (1678-17..), Plan et Description du Quartier de la Cité avec ses Rues et se Limites.  in Jean Aimar Piganiol de la Force (1673-1753), Description historique de la ville de Paris et de ses environs, 1742.

O Palácio visto do sul aparece agora consolidado e legendados os seus espaços, as ruas e cais envolventes e os edifícios principais.

cite41afig. 49 – Pormenor da fig. 48. Plan et Description du Quartier de la Cité 1742.

[1] Sobre a praça Dauphine e a ponte Nova (pont Neuf) ver Um Percurso por Paris do Segundo Império 3.2.A http://doportoenaoso.blogspot.pt/2014/01/um-percurso-por-paris-do-segundo.html
[2] Sobre a planta de Gomboust ver: Notice sur le Plan de Paris de Jacques Gomboust, publié pour la première foi sen 1652, Reproduit par la Société des Bibliophiles François en 1858. Chez Techener, rue de l’Arbre-Sec, 52. Potier quai Malaquais, 9. Aubry, rue Dauphine, 16. Paris M DCCC LVIII.
[3] Albert Jouvin de Rochefort  (c. 1640 -1710), foi tesoureiro de França de 1675 a 1702. Escreveu um monumental livro de viagens, Le voyageur d'Europe, où sont les voyages de France, d'Italie et de Malthe, d'Espagne et de Portugal, des Pays Bas, d'Allemagne et de Pologne, d'Angleterre, de Danemark et de Suède, Paris,1672-1676, 3 t., 7 vol. incluindo a sua visita a Portugal.


Cap. 3 - O Palácio da Justiça nas plantas planimétricas de Paris do século XVIII.

Ainda nos finais do século XVII surge uma primeira planta planimétrica, desenhada por Nicolas de Fer (1647-1720) que mostra, de uma forma mais rigorosa, o Palácio nos meados e nos finais do século.


A planta de Nicolas de Fer 1676

A planta de Nicolas de Fer é baseada na planta de Jouvin de Rocheford (fig. 43 e 44), e apresenta, no canto inferior esquerdo um mapa dos arredores de Paris e, no canto inferior direito, apresenta uma legenda com 67 topónimos.

cite30efig. 50 – Nicolas de Fer. Paris et ses environs / A tres haut et tres puissant seigneur mssire Simon Arnauld chevalier seigneur de pompone ministre et secretaire d´Estat, par son très humble tres obeissant et tres obligé serviteur Albert Jouvin de Rochefort tresorier de France avec privilege du Roy. A Paris Chez De Fer, Dans l’Isle du Palais sur le quay de l’Orloge a la Sphere. Avec Privileg. Du Roy pour 20 ans. 1676 .

cite30ffig. 51 – Detalhe da planta da fig. 50.


Existe uma versão desta planta na Biblioteca Nacional de Portugal.

cite30fig. 52 - Paris et ses environs / A tres haut et tres puissant seigneur mssire Simon Arnauld chevalier seigneur de pompone ministre et secretaire d´Estat, par son très humble tres obeissant et tres obligé serviteur Albert Jouvin de Rochefort tresorier de France avec privilege du Roy. A Paris Chez De Fer, Dans l’Isle du Palais sur le quay de l’Orloge a la Sphere. Avec Privileg. Du Roy pour 20 ans. 1676 . gravura, p&b ; matriz: 54,60x69,40 cm., em folha de 57,50x75,00 cm. Biblioteca Nacional Digital. http://purl.pt/3535

O século XVIII


A planta de Nicolas de Fer 1705

A partir desta planta Nicolas de Fer (1647-1720) desenha, em 1705, sur les Mémoires de M. Jouvin de Rochefort Trésorier de France, uma nova versão da planta planimétrica de Paris.
Rodeando esta planta estão desenhadas vistas dos jardins e palácios de Paris.

cite30cfig. 53 - Nicolas de Fer (1647-1720). Le Nouveau Plan de Paris Dressée sur les Mémoires de M. Jouvin de Rochefort Trésorier de France. 1705.

Nesta versão colorida, a implantação do Palácio é agora salientada a azul
.
cite30dfig. 54 – Pormenor da fig. 41.Le Nouveau Plan de Paris 1705.




A planta de Delagrive 1728


O abade Jean Delagrive elabora em 1728 uma planta de Paris, Nouveau Plan de Paris et de ses faubourgs, com um traçado a partir do Meridiano de Paris.
Rodeando a planta um conjunto de alçados de monumentos gravados por Blondel (Invalides, Tuileries, Colonnade de Perrault, portes, Institut, Observatoire, Val-de-Grâce, Sorbonne). Numa legenda são indicados os nomes das ruas, pontes e saídas da cidade.


cité34fig. 55 - Jean Delagrive (1689-1757). Nouveau Plan de Paris et de ses faubourgs, dressé sur la Méridienne de l’Observatoire et levé géométriquement,1728. Água-forte de Louis Borde 184 x 155,5 cm. em 6 folhas.

Delagrive desenha em 1754, uma planta detalhada da ilha da Cité.




cite34bfig. 56 - Abbé Jean Delagrive (1689-1757), Plan Détaillé de la Cité dédié à Messire Louis Basile de Bernage Conseiller d'État Prévôt des Marchands et à Messieurs les Échevins de la Ville de Paris, par M. l'abbé Delagrive Geographe ordinaire de la Ville, 1754.

cite34cfig. 57 - Abbé Jean Delagrive (1689-1757),Pormenor do Plan détaillé de la Cité dédié à Messire Louis Basile de Bernage Conseiller d'État Prévôt des Marchands et à Messieurs les Échevins de la Ville de Paris, par M. l'abbé Delagrive Geographe ordinaire de la Ville, 1754.

Para melhor se entender a planta do Palácio a mesma planta numa versão colorida.

cite34dfig. 58 - Abbé Jean Delagrive (1689-1757),Pormenor do Plan détaillé de la Cité dédié à Messire Louis Basile de Bernage Conseiller d'État Prévôt des Marchands et à Messieurs les Échevins de la Ville de Paris, par M. l'abbé Delagrive Geographe ordinaire de la Ville, 1754. Colorida.


Planta de Baillieu 1730


Gaspard de Baillieu publica em 1730 uma planta de Paris intitulada Nouveau plan de la ville et fauxbourgs de Paris, divisé en vingt quartiers. Rodeando a planta os monumentos, as praças e os jardins de Paris.

cite38fig. 59 - Gaspard de Baillieul (16.?-1744). Nouveau plan de la ville et fauxbourgs de Paris, divisé en vingt quartiers mis au jour par le Sr Gaspard de Baillieul Geographe. Dedié a Son Altesse Serenissime Monseigneur Louis Armand de Bourbon, Prince Conti, et D’Orange, Prince du Sang, Duc de Mercoeur, …Paris, 1730.

No canto superior esquerdo uma planta da ilha do Palácio ou da Cité (Plan Particulier de l’Isle du Palais ou de la Cité).
Estão assinaladas na envolvente do Palácio a nascente a ponte de S.t Michel, a rua de la Barillerie, a rua de S.t Eloy, a rua de S.t Bathelemie, e a ponte du Change. A norte o Cais de l’Orloge du Palais. A poente a rua de Harlay e a praça Dauphine. A sul o Cais dos Orfèvres e a rua de S.t Louis.

cite38afig. 60 – Pormenor da fig. 59. Nouveau plan de la ville et fauxbourgs de Paris 1730.


cite38bfig. 61 - Pormenor da fig. 59. Nouveau plan de la ville et fauxbourgs de Paris 1730. 



A Planta de Pierre Patte do concurso para a localização do monumento a Louis XV 1765

Num período dominado por uma visão racionalista e iluminista da cidade, onde o espaço público assume considerável importância, no que então se entende por Embelezamento do espaço urbano, é dada uma particular atenção à criação, à forma e ao desenho das praças e das fachadas dos edifícios que as conformam.

Um primeiro concurso para a localização da estátua de Louis XV, os concorrentes aproveitaram a liberdade de concepção permitida, para cada um projectar uma ou mais praças numa visão neoclássica da conformação do espaço urbano de Paris. Deste concurso resultou a escolha pelo Rei da localização definitiva [1], sujeita a novo concurso.

Em 1765 Pierre Patte (1723-1814) publica em Paris Monuments érigés en France à la gloire de Louis XV, précédés d’un tableau du progrès es arts et des sciences sous ce règne [2], onde numa primeira parte apresenta a solução escolhida pelo monarca e diversos monumentos em toda a França para a organização de praças Louis XV.
E na segunda parte desta publicação intitulada Des projets de Place qui on été proposés pour ériger la statue de Louis XV dans Paris, Patte descreve os projectos apresentados no primeiro concurso, de 1748, para o desenho da praça LouisXV apresentando uma planta com os diversos projectos (planche XXXIX).

Pierre Patte justifica esta planta porque convient, pour la gloire de nos Artiste, pour la satisfaction des amateurs, & pour le progrès des arts, que ces grandes igées ne soient pas ensévelies dans le secret, & perdues à jamais pour le public.

[porque convém para a glória dos nossos Artistas, para a satisfação dos amadores, e para o progresso das artes, que estas grandes ideias não sejam fechadas em segredo e perdidas para sempre para o público.]

Mas na verdade, esta planta em que estão cartografados diversos projectos do concurso, torna clara a concepção iluminista da organização do espaço urbano aplicada à cidade de Paris.
De notar ainda as formas rigorosamente geométricas com que se desenham as praças, quadradas ou rectangulares, circulares ou semi-circulares, limitadas por monumentais edifícios e sempre gerando grandes eixos, ruas ou avenidas, a partir desses espaços públicos.

cite35fig. 62 – Planche XXXIX. Partie du plan général de Paris, Où l’on a tracé les différents Emplacemens qui ont été choisis pour placer la Statue équestre du Roi. 1765. Gravura 92 x 32 cm.

Patte, na sua publicação descreve e ilustra diversos projectos para Paris apresentados no concurso, justificando a sua escolha por aqueles dont les plans & les élévations ont été détaillés plus particulièrement; lesquels sont termines par un précis des moyens qu’il seroit facile d’employer pour procurer à cette Capitale les embellissements dont elle est susceptible.


[aqueles cujas plantas e alçados estão mais pormenorizados; os quais estão documentados em meios mais precisos que tornariam fácil emprega-los para dar a esta Capital os embelezamentos de que ela é susceptivel.]

Para a ilha da Cité, que nos interessa, Patte seleciona os projectos de Soufflot, Pitrou e Boffrand e descreve ainda o projecto de Rousset para a praça da Grève na margem direita e de Hazon para a margem direita, que com a ilha se relacionam.

cite35efig. 63 – A ilha da Cité. Pormenor da fig. 62.

A- Projet de M. Soufflot de Place entre l’isle S. Louis & l’isle du Palais.
B- Projet de M. Pitrou de Place dans l’isle du Palais
C- Projet de M. Boffrand pour la Place Dauphine.
D- Projet de M. Rousset Place dans le quartier de la Grève
S – Projet de M. Hazon Place dans le Quartier de l’Université


O Projecto A de Jacques-Germain Soufflot (1713-1780)

O projecto de Soufflot, cujo desenho é apenas o que está na planta geral, consiste em unir a ilha da Cité com a ilha de Saint-Louis, criando uma praça quase quadrada, no centro da qual seria colocada a estátua de Louis XV. A praça seria aberta no sentido norte-sul e no outro sentido seria edificada sendo que um dos edifícios se destinaria ao Arcebispado.

cite35dfig. 64 – Pormenor da fig. 62. Projecto de Soufflot.


Projecto B de Robert Pitrou, (1684-1750)

[para melhor compreensão orientou-se a planta no sentido norte-sul.]

cite36d - Cópiafig. 65 - Planche XL. Planta do projecto de Pitrou.

O projecto [3] consistia na criação de uma grande praça circular com setenta toises (cerca de 540 metros) de diâmetro, aberta no centro da ilha da Cité.
O centro desta praça seria determinado pela intercepção do eixo poente-nascente, que partia da entrada da praça Dauphine com o eixo norte-sul, formado pela ponte de Notre-Dame e a rua Saint-Jacques.
A nascente limitando a praça um edifício destinado ao Hôtel-de-ville (paços do concelho) de planta rectangular, com dois pátios interiores, sendo que o pátio poente abria para a praça, e prolongava-se por uma passagem através do Palácio da Justiça, de forma a criar uma perspectiva a partir da Pont Neuf sobre a estátua enquadrada pelo Hôtel-de-ville, associando, através das respectivas estátuas, os reis Henri IV e Louis XV.
Escreve Patte: a colocação da estátua de Louis XV no centro da praça, mais encore dans l’endroit où se trouveroit réunie la cathédrale, le palais de justice & l’hôtel-de-ville, est extrémement avantageuse; & l’union de ces trois objets, pour acompagner ce monumento, est digne d’attention. [4]
[…e sobretudo no local onde se reúnem a catedral, o palácio da justiça e os paços do concelho tem enormes vantagens: e a união destes três objectos para enquadrar este monumento é digna de atenção.]
O corpo central que da praça dá entrada para a Cour d’Honneur, seria de dois pisos com colunas jónicas, sobre um embasamento e rematado por uma balaustrada.

cite36e - Cópiafig. 66 – Planche XLI. Élévation de la Place.

A estátua de Louis XV, que o arquitecto queria que tivesse uma relação com a sua implantação, mostraria o Rei de pé, sobre um pedestal, com uma coroa de louros e tendo na mão um ramo de oliveira, o braço estendido na direcção do Palácio da Justiça dans l’action de rendre justice à son peuple au retour de la guerre, après avoir, dans la cathedrale, rémercié Dieu du succès de ses armes. [5]


[…procurando fazer justiça ao seu povo no regresso da guerra, depois de ter, na catedral, agradecido a Deus pelo sucesso dos seus exércitos]


Projecto C de Germain Boffrand (1667-1754)


Na descrição de Patte, il était formé de deux portions circulaires qui aboutissaient, d’une part, à deux gros pavillons, formant la tête des quais des Orfèvres & de l’Horloge; & de l’autre, à un grand arc-de-triomphe adossé à la rue du Harlai, qui servoit d’entrée au Palais, & occupoit le fond de la Place. [6]

[era formado por dois quartos de círculo que rematavam, numa das extremidades, os dois grandes pavilhões, formando a ponta dos cais dos Ourives e do Relógio; e na outra extremidade rematavam num grande arco-de-triunfo adossado à rua de Harlai, que servia de entrada para o Palácio [da Justiça], e ocupava o fundo da Praça.]

cite36c - Cópiafig. 67 – Planche XLII, orientada no sentido norte-sul, com o projecto de Boffrand.

O edifício de remate da praça, seria de dois pisos, utilizando a Ordem Coríntia, apoiado numa base com arcadas, servindo como entradas para as lojas dos comerciantes. Ao centro o arco do triunfo.

cite36 - Cópiafig. 68 – Planche XLIIII, Élevation d’une Place pour le Roi. Projecto Boffrand.

Centralizando a Praça o monumento a Louis XV, onde a sua estátua em bronze, remataria na Coluna Ludovice, numa clara referência à Coluna de Trajano e à Coluna Antonina em Roma, uma enorme coluna de mármore branco, para ser vista de qualquer parte da cidade de Paris.

colunafig. 69 – Planche XLIII. Coluna Ludovice.


Projecto D de Pierre-Noël Rousset (c.1715-1795)

cite35ffig. 70 – Pormenor da fig. 62. O projecto D de Pierre-Noël Rousset.

A praça semi-circular era conformada por um edifício para o Hôtel-de-ville. A partir da praça seriam abertas duas novas ruas, uma na direcção da Colunata do Louvre e outra na direcção do portal de Saint-Gervais.
A estátua do Rei seria colocada numa saliência do cais, de forma a ser vista de Notre-Dame e ao longo dos cais da margem direita.


O Projecto S de Michel-Barthélemy Hazon (1722-1822)



cite35gfig. 71 – Pormenor da fig.62. Projecto de Michel Hazon.


A praça teria por eixo o prolongamento e a regularização da rua de Saint-Jacques, desde a igreja de Sainte-Geneviève (Panteão) até à Petit-Pont. Para isso seria demolido o Petit Chatelet, para aí erguer um Arco de Triunfo servindo de entrada na praça. Dois grandes obeliscos encimados por Famas (Rénomées), acentuavam o eixo da composição.
No centro desta o monumento a Louis XV, formado por um rochedo sobre o qual uma quadriga que, conduzida pela Vitória, transportava o Rei que regressando da guerra, passava sob o arco triunfal, e se dirigia ao Templo da Glória, erguido num terraço na parte sul da Praça. No terraço seriam construídas fontes, cuja água escorreria em valas, com algumas quedas-de-água até ao Sena.


A proposta de Pierre Patte para a ilha da Cité

No canto superior direito da planta, com o título de Projet d’Emblissemens pour le Quartier de la Cité et de ses Environs, Pierre Patte apresenta o seu radical projecto de remodelação da ilha da Cité e a sua ligação à ilha de Saint Louis. O projecto é justificado numa parte do texto da referida publicação, ao longo das páginas 226, 227 e 228.
La Cité surtout n’a presque point changé depuis trois siècles ; elle est restée dans l’état de confusion où l’ignorance de nos pères l’a laissée. Depuis environ cinquante ans, près de la moitié de Paris a été rebâtie, sans qu’il soit venu dans la pensée de l’assujettir à aucun plan général, et sans avoir encore cherché à changer les mauvaises distributions de ses rues. Lorsqu’il s’est trouvé des maisons à y reconstruire, on a cru avoir beaucoup fait en élargissant la voie publique de quelques pieds: on a laissé échapper les occasions favorables de faire différentes percées avantageuses qu’il eût été facile de pratiquer, pour former soit des débouchés, soit des communications utiles.


cite35hfig. 72 - Projet d’Emblissemens pour le Quartier de la Cité et de ses Environs. Pormenor da fig. 62.

Resumindo esta longa exposição de Patte, o seu projecto consistia em juntar as duas ilhas, da Cité e de Saint Louis, através de uma praça quadrada (como no projecto de Soufflot), onde teria lugar o Mercado.
As edificações nas duas ilhas seriam demolidas na sua quase totalidade.
Patte propõe uma nova Catedral, substituindo Notre-Dame, junto da praça Dauphine no local do Palácio da Justiça (que seria transferido para novas instalações na margem esquerda).
Para poente, em frente a esta nova catedral, peça fundamental do seu plano, seria colocada a estátua de Louis XV e na Pont-Neuf seriam colocadas estátuas das figuras ilustres da Pátria.

cite35bfig. 73 – Pormenor da fig. 72. A Nova Catedral.

Para nascente, a nova Catedral definira um eixo central que atravessarias as duas ilhas e terminaria numa praça circular para onde seria transferida a estátua de Henrique IV, que lhe daria o nome.

cite35cfig. 74 – Pormenor da fig. 72. A Praça na extremidade da ilha de Saint-Louis.


Planta de Desnos 1768

Louis-Charles Desnos desenha, nos anos 60 do século XVIII, o Nouveau Plan de Paris. Nesta versão da planta de Paris, rodeada por vistas de Versailles e de outros palácios reais, as zonas arborizadas e ajardinadas estão realçadas a verde.

cite37bfig. 75 - Louis-Charles Desnos (1725-1805) Nouveau plan de Paris divisé en ses vingt quartiers, Fauxbourgs et environs, orné des vues de Versailles et autres Maison Royales avec la description particulière de chacune de ces Maisons 1768 , plano gravado a buril e água-forte, coloridas a verde as zonas de jardim e do rio, Chez Desnos Ingenieur Géographe pour les Globes et Spheres Paris 1768. 2 folhas. Exemplar da Biblioteca Nacional de España.


Compare-se o edificado na planta da ilha da Cité (embora esquemática) com as propostas avançadas por Pierre Patte, nas imagens anteriores.

cite37cfig. 76 – Pormenor da fig. 75. Nouveau Plan de Paris…


A planta de Jaillot 1775


Jean-Baptiste-Michel Renou de Chauvigné dit Jaillot (c.1710-1780).

cite39bfig. 77 - Jean-Baptiste-Michel Jaillot (c.1710-1780). Plan de Paris et de ses Faubourgs de Paris Divisé en Six Départements de trois Quartiers chacun, Présenté à Monsieur Lefèvre de Caumartin Prevot des Marchands par les Receveurs desmImpositions de la ville de Paris. 253 x 215 cm. 1775.

Existe uma publicação desta planta na Biblioteca Digital Hispânica com um exemplar desta planta dividida em 30 folhas. [7]

Dela apresentamos a Folha XVIII.

cite43fig. 78 –  Jean-Baptiste-Michel Jaillot (c.1710-1780). Folha XVIII do Nouveau Plan de la Ville et Faubourgs de Paris par le S.r Jailiot Geographe Ordinaire du Roi de l’Académie Royale des Sciences et Belles Lettres d’Angers, A Paris Chés l’Auteur Quai et a Côté des Grands Augustins Avec le Privilége du Roi   M.DCC.LXX.V Biblioteca Digital Hispânica.


cite39cfig. 79 – Pormenor da fig.78. Folha XVIII do Nouveau Plan de la Ville et Faubourgs.

Estão legendados a Grande Chambre, a Grande Salle, a Conciergerie, a Cour de Lamoingnon,a Cour Neuve, o Hôtel du Président, a Ch. des Comptes e a Chapelle Saint Michel. A sul as ruas da Nazaré e de Jerusalém.
 

 
 
 

[1] Foi escolhido o projecto para uma praça entre as Tulherias e os Campos Elísios, a futura praça da Concórdia. Ver http://doportoenaoso.blogspot.pt/2016/03/o-genio-da-arquitectura-descobre-os.html
[2] Pierre Patte, Monumens érigés en France à la gloire de Louis XV, précédés d’un tableau du progrès des Arts & Sciences sous ce règne, ainsi que d’une description des Honneurs & des Monumens de gloire accordés aux grands Hommes, tant chez les Anciens que chez les Modernes ; et suivis d’un choix des principaux projets qui ont été proposés, pour placer la statue du Roi dans les différens quartiers de Paris, Chez l’Auteur, rue des Noyers, la sixième porte cochère, à droite, en entrant para la rue Saint Jacques. Chez Desaint et Saillant, Libraires, rue Saint-Jean de Beauvais. Paris, 1765.
[3] Para melhor conhecimento do projecto o próprio Pierre Patte remete para a publicação Recueil de différents projets d’Architecture de Charpente et autres Concernnt la Construction des Ponts par Feu M. Pitrou, Inspecteur Général des Ponts et Chaussées de France.Rédigés et mis en ordre par le S.r Tardif Ingénieur des Ponts et Chaussées et Gendre de lÁuteur. Ouvrage dédiée et presenté. Chez la Veuve de l’Auteur Rue des Noyers vis-à-vis la Rue de S.t Jean de Beauvais, Paris 1756.
[4] Pierre Patte, Monumens érigés en France à la gloire de Louis XV, précédés d’un tableau du progrès des Arts & Sciences sous ce règne, ainsi que d’une description des Honneurs & des Monumens de gloire accordés aux grands Hommes, tant chez les Anciens que chez les Modernes ; et suivis d’un choix des principaux projets qui ont été proposés, pour placer la statue du Roi dans les différens quartiers de Paris, Chez l’Auteur, rue des Noyers, la sixième porte cochère, à droite, en entrant para la rue Saint Jacques. Chez Desaint et Saillant, Libraires, rue Saint-Jean de Beauvais. Paris, 1765. (pág. 190).
[5] Idem pág. 191.
[6] Ibidem.
[7] Nouveau Plan de la Ville et Faux-Bourgs de Paris, relativement aux recherches critiques, historiques et topographiques sur cette ville. Publiées par le Si Jaillot, Géographe Ordinaire du Roi, de l’Académie des Sciences & Belles Lettres d’Angers. Chez l’Auteur, Quai & à coté des Grands Augustins. Paris M. DCC. LXXVIII. Biblioteca Digital Hispânica.
 
O incêndio de 1776

Em 1776 um grande incêndio destrói uma parte do Palácio.
De imediato é encarregado Joseph Abel Couture (antes 1732-1799) para projectar a reconstrução do Palácio e desse projecto, que não será realizado, resulta um projecto para a Ilha da Cité em colaboração com o seu irmão Guillaume-Martin.

cite42fig. 80 - Joseph Abel Couture (antes 1732-1799) e Guillaume-Martin Couture, (1732-1799), architecte contrôleur des bâtiments des domaines de la ville et généralité de Paris, Paris Cité, 11 avril 1776, 60 x 32 cm. Bibliothèque nationale de France.

Do lado norte propõe a demolição das torres medievais substituindo-as por uma nova fachada.
Ao longo da rua de La Barillerie, Couture desenha uma nova entrada dando uma monumentalidade através de uma arcada, e aponta a regularização da rua de la Barillerie formando um praça em frente da entrada nobre do Palácio.

cite42afig. 81- Pormenor da fig. 80. Implantação do projecto para o Palácio da Justiça.

Couture será contudo afastado e será o arquitecto Pierre Desmaisons (1711-1795) que irá , entre1777 e 1780, ocupar-se da recuperação da Galeria da Cour de Mai, como veremos na II Parte.



A Revolução

A Convenção cria o Tribunal Revolucionário, o qual se apropria dos mais prestigiados locais do Palácio, rebaptizando-os.
Assim a Grande-Chambre torna-se a Chambre de Liberté  e a sala Saint-Louis a Chambre de l’Egalité.

A planta de Verniquet 1791

Edme Verniquet (1727-1804) publica em 1791 uma planta de Paris, o primeiro levantamento rigoroso da cidade, elaborado por uma grande equipa de engenheiros e desenhadores, que nele trabalharam durante cerca de dez anos. Na parte inferior apresenta um Plan d’ Opérations Trigonométriques de La Ville de Paris, (Plano das Operações Trigonométricas da Cidade de Paris).
É a primeira planta em que aparecem os símbolos da República.


cite40fig. 82 - Edme Verniquet (1727-1804), Plans de la ville de Paris avec sa nouvelle enceinte Levé Géométriquement sur la Méridienne de l'Observatoire Par le C[itoy]en Verniquet; parachevé en 1791. Dessiné et gravé par les C[itoy]ens P. T. Bartholomé, et A. J. Mathieu. Ecrit par Bellanger. Plan, 72 planches (8 par rang, 9 par colonnes), de 44 x 66 cm.l'une (sauf les pl. de la première colonne, 44 x 44 cm).


cite40afig. 83 - Pormenor da fig. 82. Plans de la ville de Paris avec sa nouvelle enceinte Levé Géométriquement sur la Méridienne de l'Observatoire Par le C.en Verniquet; parachevé en 1791.

Aparece já a praça semicircular em frente à entrada principal do Palácio (place du Palais) de onde partia para nascente uma rua de 42 pés de largura (a futura rua de Constantine), para substituir a rua da Vieille-Draperie. Esta praça irá existir até 1861.
A criação desta praça e a sua arquitectura resultam por determinação do Conselho Real em 1784.

cite40cfig. 84 – Pormenor da fig. 82.



Na rua da Barillerie, a igreja de Saint- Barthélémy, na época da Revolução foi nacionalizada e demolida em 1791.

cite50fig. 85 - L’Église Saint-Barthélemy et la Petite Place en face du Palais de Justice in Georges Cain (1856-1919),Conservateur du Musée Carnavalet et des Collections historiques de la Ville de Paris, Coins de Paris préface de Victorien Sardou, Avec 105 illustrations documentaires, Nouvelle édition 1ª edição 1905), Ernest Flammarion, éditeur, rue Racine, 16 Paris 1910.


cite48fig. 86 – A.-P. Martial,  Adolphe Théodore Jules Martial (1827-1883). Place du Palais de Justice: Couvent des Barnabites, 1861, eau-forte ; 13,9 x 18,7 cm. Bibliothèque nationale de France.


cite47fig. 87 - Pierre-Antoine Demachy (1723–1807) Démolition de l'église Saint-Barthélemy de la Cité à Paris, 1791, Musée Carnavalet.
 
cite69fig. 88 - Démolition de l'Eglise Saint-Barthélémy, 18 ?? Dessin à la plume, encre brune et aquarelle sur papier bleuté; 10,7 x 17,5 cm. Bibliothèque nationale de France.


Em 1793, torna-s e o  Théâtre Cité-Variétés. Em 1802 chamar-se-á Teatro Mozart até 1806, dando lugar ao Bal du Prado. No Segundo Império aí será construído o Tribunal do Comércio.

cite52fig. 89 – Fedor (Theodor Josef Hubert) Hoffbauer (1839-1922), Le Bal du Prado 1855. Wilkipedia.


cite49fig. 90 - Charles Marville (1813-1879), Tribunal de Commerce, c.1865. albumina 36,4 x 25,5 cm. State Library of Victoria.


cite59fig. 91 - Pierre Courvoisier (1756-1804) Le Palais de Justice et l'ancienne Place du Palais de Justice, 1815. Desenho 26,4 x 41,2 cm. Musée Carnavalet.


Capítulo 4 - O século XIX

Em 1804 Napoleão Bonaparte, restabelece o nome de Cour, e os tribunais d’Appel e de Cassation retomam o nome de Cour. Em 1810 restabelece-se a Ordem dos Advogados.
Mas as plantas do início do século, que se apresentam, do tempo de Napoleão Bonaparte (1769-1821) (imperador de 1804 a 1814 e ainda por alguns meses em 1815), são plantas que visam, nomeadamente por razões militares, a implantação de Paris no seu território. Daí a sua simplificação não descendo ao desenho de detalhes.
Concretamente em Paris há uma preocupação de criar uma Paris monumental, de alargar os seus limites a norte e a poente, de ampliar os cais, de ligar a zona oeste à zona leste da cidade com a abertura a partir de 1802 da rua de Rivoli.
Mas na ilha da Cité, que Napoleão dizia não ser mais do que une vaste ruine, tout au plus bonne à loger les rats de l’ancienne Lutèce, apenas prosseguem as obras de recuperação do Palácio e nas suas imediações a criação da praça no local da prisão do Chatelet. Por outro lado são alterados os nomes de diversas ruas da capital, com novos nomes ou retomando os nomes anteriores à Revolução.


A planta de Stockdale 1800


cite53fig. 92- John Stockdale (1750-1814) A Plan of the City of Paris, London 1800.

O Palácio e a sua envolvente aparecem desenhados de uma forma simplificada e apenas são legendadas as pontes e os espaços públicos.

cite53afig. 93 - Pormenor da planta de Stockdale.


Em 1808 é publicada por Nicolas M. Maire (17.?-18.?) La Topographie de Paris, où Plan Détaillé de la Ville de Paris et ses Faubourgs, Maire. incluindo uma Planta de Paris em 20 folhas, uma planta de conjunto e um índice alfabético.
A planta é desenhada sobre a planta de Delagrive.

cite44fig. 94 - Nicolas M. Maire (17 ?-18 ?) Plan de la Ville de Paris Dressé géométriquement d’après les meilleurs Matérieux, avec les Augmentations et les Projets d’embéllissements arretes par le Gouvernement, par Maire, Ingé.r Géog.e 1808.


cite44afig. 95 – Planche 12e. do Plan de la Ville de Paris Dressé géométriquement…


Na planta na rua da Barillerie está já desenhado o Theatre Mozart.

cite44bfig. 96 – Pormenor da fig. 95.

É criado, em 1809, o Mercado das Flores, entre o cais Desaix (Cais de la Corse) e a rua da Pelleterie, junto ao Bal du Prado (o antigo Teatro da Cité). O mercado foi renovado em 1830, e em 1865, com a edificação do Tribunal do Comércio (ver fig. 89) do arquitecto Antoine-Nicolas Bailly (1810-1892), é de novo reformulado.

cite58fig. 97 - Frederick Nash (1782–1856)  Marché aux fleurs 1829.


cite46fig. 98 - Giuseppe Canella (1788-1847) le marche aux fleurs, la tour de l’Horloge, le pont au Change et le pont Neuf 1832, óleo s/ tela 50 x 66 cm. Musée du Carnavalet. Paris.


A Restauração

Com a queda de Napoleão e restaurada a Monarquia, sobe ao trono, em 1815, Louis XVIII (1755-1824) e com a morte deste sucede-lhe Charles X (1757-1836) que reinou entre 1824 e 1830.
Com as sucessiva alterações do exercício do poder judicial torna-se necessário adaptar e ampliar o Palácio da Justiça a essas novas exigências-
Para isso é encarregado o arquitecto Antoine-Marie Peyre (1770-1843) que, entre 1824 e 1827, projecta a renovação do interior do Palácio, da Conciergerie e da parte norte do edifício.
Peyre publicará em 1836 uma espécie de memória descritiva intitulada Projet général de restauration, d'agrandissement et d'isolement du Palais de justice. [1]


cite54fig. 99 - Achin (17..-18..) Plan de Paris en 1825 avec le tracé des anciennes enceintes de cette ville / Dressé par Achin d'après le Plan de Verniquet, augmenté de tous les changemens survenus jusqu'à la présente époque. Gravé par Berthe, ... Ecrit par Hacq... 1 flle avec tracés en coul. ; 640 x 475 cm. Bibliothèque nationale de France.


No período agitado do reinado de Louis-Philippe (1773- 1850), entre 1830 e 1848, a cidade de Paris então em acelerado crescimento fruto da Revolução Industrial, é em 1832 atingida por uma epidemia de cólera atinge Paris, dizimando dezenas de milhares de parisienses, não poupando sequer o ministro Casimir-Pierre Perier (1777-1832).
É um primeiro aviso (nova epidemia eclode em 1849) das deficientes condições sanitárias da cidade, num rápido aumento de população, que provocará as preocupações higienistas que se desenvolverão ao longo do século com incidência na intervenção urbana.

Perante estas condições de uma cidade muito pouco saudável, o Perfeito de Paris, Claude-Philibert Barthelot, comte de Rambuteau, (1781-1869), elabora uma estratégia de intervenção em Paris (antecedendo e que terá continuidade com o seu sucessor Haussmann) seguindo o seu lema Água, Ar e Sombra. [2]

Assim realizará um conjunto de obras de abastecimento de água, criando um conjunto de fontes públicas que de cerca de uma centena em 1830 passam a 2 000 em 1848. E cria novos esgotos que permitam escoar os lixos de Paris.
Por outro lado projecta ou realiza um conjunto de intervenções na rede viária, quer pelo aumento da circulação quer pelo aparecimento das Gares do caminho-de-ferro.
E Rambuteau, pensando na qualidade do ar, manda plantar árvores ao longo das principais vias e praças, numa política que será seguida por Georges-Eugène Haussmann (1809-1891), e pelo seu colaborador Jean-Charles-Adolphe Alphand (1817-1891).


Rambuteau e o Palácio da Justiça


Rambuteau projecta abrir uma nova rua no eixo do Palácio da Justiça, para substituir a rua da Vieille-Draperie.
A rua terminada em 1843 tomará o nome de rua de Constantine, evocando a tomada em 1837 daquela povoação argelina.
Na planta de 1862 a rue de Constantine já está cartografada, bem como o conjunto do sistema urbano planeado por Haussmann para a ilha da Cité, (Rue de la Cité e Rue d’Arcole).


cite55fig. 100 - Ferdinand Heuzey (?-1886), Plan de l'île de la Cité en 1862, in Curiosités de la Cité de Paris, E. Dentu, Éditeur, Libraire de la Société des Gens de Lettres, Palais-Royal 17 et 19 Galerie d’Orleans Paris. 1864.


cite55afig. 101 – Pormenor da planta anterior com a Rua de Constantine sublinhada a vermelho.



cite56fig. 102 - Léon Leymonnerye (1803-1879) Rue Constantine 1864 desenho 7,5 x 9,7 cm. Musée Carnavalet.


cite57fig. 103 - Charles Marville (1813-1879) Rue de Constantine, de la rue d’Arcole, île de la Cité. Paris IVe. 1865. tirage sur papier albuminé, 36.8 x 27.3 cm. Metropolitan Museum of Art, NY.


cite60fig. 104 - Thomas Talbot Bury, (1811-1877) Palais de Justice, vers la rue de la Barillerie 1829, gravura 14,4 x 20,5 cm., : "T.T. Bury delt.", "A. Pugin dirext.", "B. Winkles sc." and publication line: "London, Robert Jennings, Cheapside, December 15, 1829", British Museum.


Entre 1837 e 1840, ainda no reinado de Louis-Philippe (de 1830 a 1848), Rambuteau encarrega o arquitecto Jean-Nicolas Huyot (1780-1840) da elaboração de um projecto para a ampliação do Palácio da Justiça de Paris.
C'est peut-être au Palais de Justice que les travaux d'agrandissement et de réfection étaient le plus urgents. Après avoir réuni une commission des différents corps judiciaires pour m'éclairer sur leurs besoins et la meilleure distribution, je confiai à M. Huyot le soin de rassembler tous les services dans un vaste devis évalué à vingt-deux millions, tout en respectant pieusement l'oeuvre du passé et huit siècles d'artistiques souvenirs. [3]

[Foi talvez no Palácio da Justiça que as obras de ampliação e renovação foram mais urgentes. Depois de ter reunido uma comissão formada pelos diferentes corpos judiciais para me esclarecer sobre as suas necessidades e a melhor distribuição, confiei ao Sr. Huyot a tarefa de juntar todos os serviços num amplo conjunto avaliado em vinte e dois milhões, respeitando rigorosamente a obra do passado e oito séculos de artísticas recordações.]

Mas apesar do projecto ter sido aprovado não se concretiza devido ao falecimento do seu autor.
Assim sucede-lhe o arquitecto Joseph-Louis Duc (1802-1879) [4] que com o arquitecto Etienne-Théodore Dommey (1801-1872), elaboram, em 1844, o projecto dos edifícios do lado oriental.
Na planta de 1843 de Xavier Girard, ainda não aparece cartografada a rue de Constantine, mas aparece já a implantação do “novo” Palácio da Justiça. (ver a III Parte). E aparece já indicado o Mercado das Flores no cais de l’Horloge. Aparece cartografada a Prefeitura da Polícia, no lado sul do Palácio, criada em 1800 e ocupando as antigas instalações do Presidente do Parlamento.


cite61fig. 105 - Xavier Girard, Plan de la Ville de Paris divisé en 12 Arrondissements et 48 Quartiers, Indiquant tous les Changements faits & Projetés Dressé par X. Girard, Géographe des Postes, Paris Chez J.Goujon et J. Andriveau, éditeur rue du Bac n.º17 près du Pont Royal 1843.


cite61afig. 106 – Pormenor da fig.105.

O projecto de Joseph-Louis Duc, para o Palácio da Justiça, foi contudo fortemente criticado por Felix Duban (1798-1870), de seguida substituido por Jean-Baptiste-Antoine Lassus (1807-1857), os arquitectos que se ocupavam da reabilitação da Sainte-Chapelle, desencadeando uma Guerra entre a Sainte-Chapelle e o Palais de Justice, como foi apelidada na época pela Revue de l'Architecture et des Travaux publics.

Escreve a conceituada revista:


Guerre entre la Sainte-Chapelle et le Palais de Justice, à Paris.
Tandis que l'État restaurait à grands frais la Sainte-Chapelle de saint Louis, l'architecte du Palais de Justice prenait toutes ses dispositions pour l'enfermer le plus étroitement possible dans une enceinte de murs faisant partie des dépendances de ce palais.
Ainsi, d'une main, l'État payait pour que la Sainte-Chapelle devînt très-belle à voir, et de l'autre il payait pour que cette vue devînt impossible.
A la vérité, si l'État ne se doutait aucunement de ce double travail, l'architecte du Palais de Justice ne se considérant pas, il paraît, comme tenu de respecter autre chose que le monument confie à ses soins. Artiste, l'intérêt de l'art cependant aurait dû l'émouvoir; citoyen, l'intérèt public ne devait-il pas le préoccuper? Heureusement, une commission, nommée par suite des réclamations de l'architecte de la Sainte-Chapelle, a jugé qu'une partie du public pouvait avoir encore plus de plaisir à voir la vieille oeuvre gothique de Montereau que même les constructions nouvelles projetées par l'architecte du Palais de Justice. (…) On annonce qu'un projet d'isolement de ce monument vient d'être arrêté d'un commun accord entre les architectes du Palais de Justice et de la Sainte-Chapelle, et qu'il va être soumis au conseil municipal, convoqué extraordinairement pour en faire l'examen. [5]

[Guerra entre a Sainte-Chapelle e o Palácio da Justiça em Paris.
Enquanto o Estado restaurava com grande dispêndio a Sainte-Chapelle de São Luís, o arquitecto do Palácio da Justiça dispunha-se a encerra-la, o mais estreitamente possível, num recinto murado fazendo parte das dependências deste palácio.
Assim, com uma mão o Estado pagava para a Sainte-Chapelle se tornasse visível na sua beleza, e com a outra pagava para que isso se tornasse impossível.
Na verdade, se o Estado não se apercebia deste duplo trabalho, o arquitecto do Palácio da Justiça não se considera, como parece, obrigado a respeitar s enão o monumento confiado aos seus cuidados. Artista, o interesse da arte deveria contudo comovê-lo; cidadão, o interesse público não deveria preocupá-lo? Felizmente uma comissão, nomeada no seguimento das reclamações do arquitecto da Sainte-Chapelle, pensou que um parte do público poderia ter mais prazer a admirar a velha obra gótica de Montereau, do que as novas construções projectadas pelo arquitecto do Palácio da Justiça. (…) Anuncia-se que um projecto de protecção deste monumento acaba de ser considerado de comum acordo entre os arquitectos do Palácio da Justiça e da Sainte-Chapelle, e que irá ser submetido ao conselho municipal, convocado extraordinariamente para apreciação.]


cite63fig. 107 - Plan de la Délimitation de Sainte Chapelle 1844, Ministère de la Culture (France) - Médiathèque de l'architecture et du patrimoine.

Com as novas modificações o projecto é aprovado nos meados do século, mas irá ter sucessivas ampliações, aprovações e construcções e apenas estará concluído por volta de 1869, sendo ironicamente e de imediato, alvo de destruições na Comuna de Paris (1871).



O Palácio no Segundo Império

Nos meados do século XIX, a degradação da ilha da Cité torna-se insustentável.
Para além das obras de Victor Hugo, em particular Notre-Dame de Paris, refira-se que Joseph Marie Eugène Sue (1804-1857), no seu Les Mystères de Paris, um livro de grande sucesso, publicado em folhetins em 1842 no Le Journal des débats, descreve esta situação degradada em que se encontrava a envolvente do Palácio da Justiça.

O romance inicia-se por:

Vers la fin du mois d’octobre 1838, par une soirée pluvieuse et froid, un homme d’une taille athlétique, coiffé dún vieux chapeau de paille à larges bords, et vêtu d’un mauvais bourgeron de toile bleue flottant sur un pantalon de pareille étoffe, traversa le Pont-au-Change et s’enfonça dans la Cité, dédale de rues obscures, étroites et tortueuses, qui s’étend depuis le Palais-de-Justice jusqu’à Notre-Dame.

[Perto do final do mês de Outubro de 1838, numa chuvosa e fria noite, um homem de porte atlético, com um velho chapéu de palha com abas largas, e vestido com uma esfarrapada camisa azulde linho, flutuando sobre as calças do mesmo tecido, atravessou a Pont au Change e mergulhou na Cité, um labirinto de ruas escuras, estreitas e sinuosas, que se estende desde o Palais de Justice até à Notre Dame.]


E Sue descreve o aspecto e o ambiente dessas ruas onde les maisons couleur de boue, percées de quelques rares fenêtres aux châssis vermoulus, se touchaiente presque par le faîte, tant les rues étaient étroites.

[as casas cor de lama, perfuradas com algumas raras janelas de podres molduras, se tocavam pelo facto de as ruas serem demasiado estreitas.]
E onde
Quoique très-circonscrit et três-surveillé, ce quartier sert pourtant d’asile ou de rendez-vous à un grand nombre de malfaiteurs de Paris, qui se rassemblent dans les tapis-francs.

[Apesar de circonscrito e muito vigiado este bairro serve de refúgio e de encontros a um grande número de malfeitores de Paris, que se juntam nos tapis-francs.]

cite71fig. 108 - Estampa 4 de Les Mystères de Paris. Nouvelle édition, revue par l’auteur, et illustrée de 3 à 400 dessins… 1843.


O “tapis franc” era o nome dado aos piores cabarets de Paris, sendo mais conhecido o Lapin-Blanc, situado na  rua aux Fèves, uma paralela à rua da Citè.


E o II capítulo L’Ogresse começa: “Le cabaret du Lapin-Blanc est situé vers le milieu de la rue aux Fèves. Cette taverne occupe le rez-de-chaussée d'une haute maison dont la façade se compose de deux fenêtres dites à guillotine.” [6]


[O cabaret do Lapin-Blanc, está situado mais ou menos a meio da rua das Fèves. Esta taberna ocupa o rés-do-chão duma alta casa cuja fachada se compõe de duas janelas ditas de guilhotina.]



Estas descrições e denúncias vão servir de justificação a profundas intervenções na Cité, no sentido da sua higienização e salubridade e, sobretudo segurança.
Deve-se a Haussmann, as mais radicais e mais polémicas transformações da Cité.
A criação do eixo norte-sul (boulevard de Sébastopol) com a substituição da rua da Barillerie pelo boulevard du Palais, e as profundas intervenções na Cité, implicaram a destruição de grande parte do tecido medieval e a demolição quase total dos edifícios de habitação.
Num período em que o “medievalismo”, fruto do romantismo, domina a cultura nas suas diversas expressões, as intervenções “progressistas” de Haussmann, baseadas em razões de higiene, de segurança e de circulação, causaram natural contestação.
Na planta Plan d’Ensemble de la Cité et de ses Abords avec ses Embelissements et Amélorations Projetés, dos meados do século XIX, estão projectados para além do Palácio com as suas transformações e ampliações, o novo Hôtel-Dieu (Hospital) agora no lado norte da ilha.

cite45fig. 109 - Plan d’Ensemble de la Cité et de ses Abords avec ses Embelissements et Amélorations Projetés  Avril frères éditeur, 18.., carte 72 x 60 cm. Bibliothèque nationale de France.


Na envolvente do Palácio, a rua da Barillerie é agora substituída por um boulevard, que se chamará du Palais. A poente junto à nova fachada do Palácio a rua de Harlay seria alargada para criar um novo espaço de chegada ao Palácio.

cite45afig. 110 – Pormenor da fig. 109.


Assim o afirma, elogiosamente, Jean Gazan no seu Le Paris de Napoléon III:

“Le quartier de la Cité était peuplé de maisons sombres et repoussantes, asiles des vagabonds et des mendiants; il se composait de ruelles fangeuses, où l'on respirait pendant toute l'année des vapeurs humides et empoisonnées. Aujourd'hui la Cité est assainie, elle a reçu d'importantes améliorations, a de somptueux monuments, de magnifiques jardins. Le boulevard du Palais, la rue d'Arcole et la rue de la Cité, considérablement élargies, sont les artères maîtresses de ce quartier régénéré.” [7]


[O quarteirão da Cité era constituído por casas escuras e repulsivas, asilos de vadios e mendigos; consistia em vielas enlameadas, onde se respirava, durante todo o ano, vapores húmidos e venenosos. Hoje a Cité está limpa, recebeu importantes melhorias, tem sumptuosos monumentos e magníficos jardins. O boulevard du Palais, a rua d’Arcole e a rua de la Cité, consideravelmente alargadas, são as artérias principais desta área regenerada.]

Entre 1853 e 1857, remodela-se o Cais de l’Horloge construindo-se novos edifícios e em 1859, são recuperadas as Torres existentes.


cite75fig. 111 – Alexandre Vuillemin (1812-1880), Nouveau Plan de Paris, Librairie Hachette Cie, 79 Boulevard de Saint Germain, Paris 1870.

No Segundo Império é remodelado o Palácio da Justiça, é construído o Quartel da Cité (depois Prefeitura da Polícia), o Tribunal do Comércio (ver fig. 88), o novo Mercado das Flores, o novo Hôtel-Dieu (hospital) e no lado nascente da ilha são ainda, remodelados os acessos e o adro (Parvis, hoje praça de João Paulo II) da igreja de Notre-Dame.

cite75afig. 112 – Pormenor da fig.111.

A Caserna Municipal tendo ao fundo o Palácio da Justiça.

cite64fig. 113 – Façade Nord de la Caserne municipale de la Cité. Paris Nouveau Illustré, 1864-1872, n.012. Journal périodique publié par MM. Aug. Marc et Ce. éditeurs de l'Illustration rue Richelieu, 60, Paris. (pág.192).

Na planta de 1860 todo o eixo sul-norte ainda se chama Boulevard de Sebastopol.
Haussmann escreve nas suas Memórias:
“…je crois bon de dire que, si la conception du Boulevard du Centre [8] ne reçut pas, dès le principe, l'accueil favorable qu'elle méritait du Public Parisien ; si d'ardentes critiques ont été dirigées contre elle et pendant bien des années, toute justice lui fut rendue et de très haut, mais longtemps après l'ouverture de cette grande voie, à la fin de mon administration, comme maintenant, arrivé au terme de mon existence, pour l'ensemble de la Grande OEuvre de la Transformation de Paris.” [9]


[…devo dizer que, se o projeto do Boulevard do Centro não recebeu, desde o início, o acolhimento favorável que merecia do Público Parisiense; e se críticas tão inflamadas foram contra ele dirigidos durante muitos anos, justiça foi feita para esta obra, embora muito tempo depois da abertura desta grande artéria, e só no final da minha administração, como agora, ao chegar ao fim da minha existência, para o conjunto da Grande Obra da Transformação de Paris.]


cite74fig. 114 - Architecte A. Portret  (18..-18..) Pormenor do Plan de la Cité  1862, plan 27 x 69 cm. Bibliothèque nationale de France.

Também no Segundo Império, os arquitectos Étienne-Théodore Dommey e Joseph-Louis Duc apresentam em 1852 um projecto para permitir o acesso à Cour d’Assises.

Sobre Joseph-Louis Duc, Haussmann escreve nas suas Mémoires:
Cet habile Architecte avait élevé, sous le Gouvernement de 1830 et de concert avec M. Alavoine, la Colonne de Juillet, et restauré, plus récemment, avec le concours de M. Dommey, la Tour de l'Horloge du Palais de Justice, à l'angle de la rue de la Barillerie et du quai du Châtelet. Je le trouvai chargé de l'agrandissement et de l'isolement de ce Palais.[10]


[Este hábil arquitecto tinha construído, sob o Governo de 1830 e em colaboração com o Sr. Alavoine *, a Coluna de Julho, e restaurado, mais recentemente, com a ajuda de Mr. Dommey **, a Torre do Relógio do Palácio de Justiça, na esquina da rua da Barillerie com o cais do Châtelet. Era o responsável pela expansão e isolamento do Palácio.]

* Jean- Antoine Alaivoine (1778-1834).
** Etienne-Théodore Dommey (1801-1872).

E em parceria com o arquitecto Pierre Jérôme Honoré Dommey (1826-1911), Duc elabora, em 1867, o projecto para a fachada ocidental do Palácio, abrindo para a praça Dauphine.

Contudo, em Maio de 1871, durante a Comuna de Paris, o Palácio de Justiça é incendiado, tendo sido destruídos muitos dos edifício então construídos ou reabilitados.
Só em 1875 são retomados os trabalhos de reconstrução do Palácio concluindo-se a escadaria a poente dando para a praça Dauphine.

cite62fig. 115 - Félix Narjoux, architecte de la Ville de Paris, Paris Monuments Élevés par la Ville 1850-1880, Deuxième Volume, V** A. Morel et C.ª, Libraires-Éditeurs, 13 rue Bonaparte Paris 1883.


Em 1874, na III República, foi demolido o lado poente da rua de Harlay, para pôr em evidência a fachada do Palácio da Justiça construída em 1854.

cite65fig. 116 – Nouvelle Façade Occidentale du Palais de Justice. Paris Nouveau Illustré, 1864-1872, n.0 11. Journa périodique publié parMM. Aug. Marc et Ce, éditeurs de l'Illustration rue Richelieu, 60, Paris. (pág.169).

No plano de Alexandre Vuillemin, publicado pela livraria Hachette na ocasião da Exposição Universal de 1889 e, por isso com a Torre Eiffel, figuram já as realizações de Haussmann, nomeadamente a Grande-Croisée com os eixos norte-sul e este-oeste, e o sistema de circulação dos grandes Boulevards.

cite70fig. 117 - Alexandre Vuillemin (1812-1880),Nouveau Plan de Paris, Librairie Hachette Cie, 79 Boulevard de Saint Germain, Paris 1892.

Na planta de 1889, estão já realizadas as transformações da ilha da Cité.
Nesta planta o Boulevard de Sebastopol dá já origem aos nomes de Saint-Michel, na margem esquerda, e de boulevard do Palais na ilha.  A rua de Constantine e as ruas adjacentes desaparecem, e são abertas a rua de Lutèce e a rua da Cité.
De notar a introdução do americano, o transporte público sobre carris de tracção animal.


cite70afig. 118 - Pormenor da fig. 117. Nouveau Plan de Paris 1892.


E o Palácio da Justiça, que abordaremos mais detalhadamente nas partes II e III, cerca do final do século é descrito por Charles-Lucien Huard, na sua publicação Paris et ses Merveilles da seguinte forma:
Dans son état actuel, le Palais de Justice se présente sous la forme d'un quadrilatère, irrégulier sur l'une de ses faces. C'est-à-dire que les façades de la rue de Harlay (place Dauphine), du quai de l'Horloge et du boulevard du Palais sont à peu près à angle droit, tandis que la quatrième façade, quai des Orfèvres, est beaucoup plus capricieusement dessinée, car non seulement elle a dû s'infléchir selon la courbe du quai, mais encore le coin opposé à celui de la place Dauphine est échancré par une rue coudée, la rue de la Sainte-Chapelle. Cette irrégularité, à laquelle on essaye de remédier par les constructions nouvelles, provient de la diversité des plans suivis dans les dernières années. En effet, tous les bâtiments qui démarquent les grandes lignes du Palais de Justice datent de ce siècle, sauf la Conciergerie et la partie qui entoure la cour du Mai. Dans ce vaste quadrilatère se croisent un peu arbitrairement nombre de corps de bâtiments anciens ou nouveaux, enserrant de leur masse la Sainte-Chapelle, que, depuis longtemps, il est question de dégager pour lui donner l'horizon dont elle est digne. [11]


[No seu estado actual, o Palácio da Justiça apresenta-se na forma de um quadrilátero, irregular num dos seus lados. Isto é, enquanto as fachadas da rua de Harlay (praça Dauphine), do cais de l’Horloge e do boulevard du Palais, são mais ou menos com ângulos rectos, a quarta fachada, do cais des Orfèvres, é mais caprichosamente desenhada, porque, não só inflecte seguindo a curva do cais, mas, ainda, a esquina oposta à da praça Dauphine é recortada por uma rua inclinada, a rua da Sainte Chapelle. Esta irregularidade, que se tenta remediar através das novas construções, resulta da diversidade de projectos seguidos nos últimos anos. Na verdade, todos os edifícios que destacam o contorno do Palácio da Justiça datam deste século, a menos da Conciergerie e a parte que circunda a cour de Mai. Neste vasto quadrilátero cruzam-se, algo arbitrariamente, numerosos corpos de edifícios antigos e novos, encerrando a Sainte-Chapelle, que desde há muito se tem procurado limpar a envolvente, para lhe dar o horizonte de que é digna.]


fig. 119 – Rez-do-chão do Palácio da Justiça em 1879.
 

[1] Antoine-Marie Peyre (1770-1843), Projet général de restauration, d'agrandissement et d'isolement du Palais de justice. Veuve Agasse, Paris 1836.
[2] “De l'eau, de l'air, de l'ombre, avais-je dit au Roi, voilà ce que je dois d'abord aux Parisiens”, j'aurais pu dire « à tous mes administrés», in Mémoires du comte de Rambuteau publiés par son petit-fils, avec une introduction et des notes par M. Georges Lequin, Calmann-Lévy, Éditeurs, 3, rue Auber, Paris 1905. (pág. 368).
[3] Mémoires du comte de Rambuteau publiés par son petit-fils, avec une introduction et des notes par M. Georges Lequin, Calmann-Lévy, Éditeurs, 3, rue Auber, Paris 1905. (pág.390).
[4] Sobre o arquitecto Joseph-Louis Duc, o barão Haussmann escreve nas suas Memórias: En 1853, M. Duc, Grand-Prix de Rome, n'était pas encore Membre de l'Institut; mais, il le devint bientôt après. Cet habile Architecte avait élevé, sous le Gouvernement de 1830 et de concert avec M. Alavoine, la Colonne de Juillet, et restauré, plus récemment, avec le concours de M. Dommey, la Tour de l'Horloge du Palais de Justice, à l'angle de la rue de la Barillerie et du quai du Châtelet. Je le trouvai chargé de l'agrandissement et de l'isolement de ce Palais. Mémoires du Baron Haussmann, Grands travaux de Paris/Le Plan de Paris / Les services d’ ingénieurs / Voie publique / Promenades et plantations /Service des eaux/ Architecture et Beaux Arts III, Victor-Havard, éditeur Boulevard Saint-Gemain 168, Paris 1893.(pág. 523).
[5] Revue de l'Architecture et des Travaux publics, VIII, 1849. (pág.277).
[6] Eugène Sue (1804-1857), Les Mystères de Paris. Nouvelle édition, revue par l’auteur, et illustrée de 3 à 400 dessins, Vues, Scènes, Types, etc., par les meilleurs Artistes. Gravures sur acier et sur bois, sous la direction de M. Lavoignat.I e II capítulos Le Tapis-Franc e L’Ogresse, Charles Gossein, Éditeur, 30, Rue Jacob, Paris 1843. (pág.1, 2 e 7).
[7] Jean Théodore Napoleon Gazan, vicomte Gazan de la Peyrière (1811-1881), Le Paris de Napoléon III, E. Dentu, Éditeur, Libraire de la Société des Gens de Lettres et de la Société desAuteurs Dramatiques, Galerie d’ Orleans, 17 &19, Palais-Royal, Paris 1870.
[8] Nome também atribuído por Haussmann ao eixo sul-norte.
[9] Mémoires du Baron Haussmann, Grands travaux de Paris/Le Plan de Paris / Les services d’ ingénieurs / Voie publique / Promenades et plantations /Service des eaux/ Architecture et Beaux Arts III, Victor-Havard, éditeur Boulevard Saint-Gemain 168, Paris 1893. (pág. 63).
[10] Haussmann. Mémoires du Baron Haussmann, Grands travaux de Paris/Le Plan de Paris / Les services d’ ingénieurs / Voie publique / Promenades et plantations /Service des eaux/ Architecture et Beaux Arts III, Victor-Havard, éditeur Boulevard Saint-Gemain 168, Paris 1893. .(pág. 523).
[11] Charles-Lucien Huard, (1839-1900?). Paris et ses merveilles, L. Boulanger, éditeur, 83 rue de Rennes, Paris 1890. (pág. 119).


Continua na II Parte - As Frentes do Palácio na III Parte - O Interior do Recinto do Palácio.

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