Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Deambulações pelo Castelo da rua de Santa Catarina 6 parte

 
3 - A muleta [1]
[nota –muita da iconografia e da bibliografia deve-se ao excelente blogue Almada Virtual Museum https://almada-virtual-museum.blogspot.pt/, de onde com a devida vénia, extraí preciosas indicações para a elaboração deste texto.)

1 - No século XVII, o termo muleta (ou moleta) referia-se a todas as pequenas embarcações do Tejo. Assim o afirma Frei Nicolau de Oliveira em 1620: muitos barcos pequenos a que chamamos moletas, que de contino pescaõ no Rio. [2]

Nessa designação incluía-se os Barcos de Riba Tejo (tratados no ponto 2) a que acrescentamos duas aguarelas de John Cleveley que mostram este tipo de embarcação.
Numa primeira aguarela, citando Camões:

Vejo o puro, suave e brando Tejo,
com as côncovas barcas, que, nadando,
vão pondo em doce efeito seu desejo.
as co brando vento navegando,
outras cos leves remos, brandamente
as cristalinas águas apartando.
[3]

Assim dois barcos de Riba Tejo navegam junto de uma embarcação mercante britânica. Vê-se a forma do casco com a proa e a popa arredondados, e num dos barcos um dos homens está encavalitado na verga.

mu27fig. 1 - John Cleveley the Younger (1747–1786) Men o'war, one flying a red ensign, off a coastline. Desenho à pena e aguarela 14.5 x 19 cm. Colecção particular.

Na outra aguarela, junto à Torre de Belém que se consolida, no período romântico, como imagem identificadora de Lisboa, navegam quatro barcos do Riba Tejo e dois navios da Marinha britânica. A embarcação em primeiro plano tem a latina grande recolhida.

mu26fig. 2 - John Cleveley the Younger  (1747–1786) Captain Cook's ships "Adventure" and "Resolution" on the Tagus off Belem Castle, Portugal aguarela 13,8 x 18,4 cm. Colecção particular.

Os navios britânicos são o HMS Resolution [4] e o HMS Adventure [5]. São os navios que sob o comando do capitão James Cook (1728-1779) realizaram a sua segunda viagem de exploração no Pacífico Sul entre 1772 a 1775, sendo atribuída a Cook a descoberta da Terra Australia Incognita. Nessa viagem o Resolution era comandado por James Cook e o Adventure comandado por Tobias Furneaux (1735-1781). James Cook realizou ainda uma terceira viagem entre 1776 e 1779, com o HMS Resolution agora acompanhado pelo HMS Discovery e na qual perdeu a vida no Arquipélago do Havai.

[1] Sobre a Muleta é indispensável ver Fernando Gomes Pedrosa, A Muleta e a Tartaranha (séculos XV-XX), Comunicação apresentada na Academia da Marinha em 5 de Abril de 2016. [2] Frei Nicolau de Oliveira, Livro das Grandezas de Lisboa, Composto pelo Padre Frey Nicolao d’Oliveira Religioso da Ordë da Sãctissima Trindade & natural da mesma Cidade. Impresso em Lisboa por Jorge Rodriguez Anno 1620 (Tratado Qvarto, Capitvlo VII Do provimento desta Cidade.( pág. 91).
[3] Luís de Camões, Elegia III in Obras de Luís de Camões, Edição completa com as mais notáveis variantes. Lello & Irmão – Editores, 144, Rua das Carmelitas Porto 1970. (pág. 406).
[4] HMS Resolution navio inicialmente denominado Marquis of Gandby e reconvertido na classe collier de 461 toneladas, com uma tripulação de 112 homens e 24 canhões, por Thomas Fishburn (1718-1805) nos estaleiros de Whitby na Inglaterra em 1769.
[5] HMS Adventure navio da classe collier de 336 toneladas, tripulação de 81 homens também construído nos estaleiros de Whitby em 1771.


2 - A Muleta passa a identificar, partir do século XVIII, uma embarcação que difere do Barco de Riba Tejo por apresentar à proa e à ré uns elementos horizontais botalós (ou batelós) * que serviam para amurar e caçar outras velas, dando outra velocidade e sobretudo outra potência quando se impunha o arrasto das redes. Aí podiam armar um maior número de velas de diferentes formatos e dimensões.
* Do francês boutes-hors.

A Muleta passa, assim, a designar um barco de características específicas, pertencendo à família dos Barcos de Riba Tejo como escreve Octávio Lixa Filgueiras na Introdução ao Caderno de Todos os Barcos do Tejo tanto de Carga e Transporte como d’Pesca de João de Souza:

…praticando a navegação de longo curso, os barcos de Riba Tejo, em conjunto com as muletas, pertencem a uma família [cuja] estrutura de base é formada pelo conjunto quilha + ossada. É claro que para aproveitarem reduzidos tirantes de água, o fundo inflectia para dentro, na parte central, afim de a quilha ficar tangente à rasante das curvas de concordância do fundo com os costados.Daí a necessidade de disporem de pás das bordas (para estabilizarem durante a marcha a vela. Quanta à feição aparente desses cascos - proa arrufada com agressivo pregueado metálico de cabeças salientes, bico muito levantado, formas bojudas sujeitas ao forte contraste entre a configuração da boca e a finura dos delgados de proa e de popa; a proa avantajando-se sobremaneira a popa guarnecida com o leme… [1]


mu1fig. 3 - João de Souza, Moleta Batiment qui pêche dans le Tage et en dehors. in Caderno de todos os Barcos do Tejo tanto de Carga e Transporte como d’ Pesca. Estampa 6.

E Fernando Gomes Pedrosa descreve a Moleta representada no Caderno de todos os barcos do Tejo (…) de 1785, da seguinte forma: o mastro curto e muito inclinado para vante, a verga com vela latina, e a vela triangular à proa; os dois botalós, à proa e à popa; a proa arqueada para ré, com a banda metálica e os picos de ferro, (…) a popa é agora recuada, (…) as duas tábuas de bolina, uma a cada bordo, rectangulares…[2]

A muleta pequena era tripulada por 5 ou 6 homens e armava normalmente uma pequena latina (polaca) no botaló de proa. É esta imagem que aparece em muitas das representações do século XIX.
Surge ainda uma muleta grande chamada do Barreiro e do Seixal, uma embarcação com outras dimensões e com uma maior tripulação (à volta de 12 homens) cujas imagens mostraremos na parte final do texto.

[1] Octávio Lixa Filgueiras, Introdução ao “Caderno de Todos os Barcos do Tejo tanto de Carga e Transporte como d’Pesca, por João de Souza, Lente d’Arquitectura Naval e da Companhia de Guardas Marinhas”, Academia da Marinha Lisboa 1985. (ponto 7 pág.20). [2] Fernando Gomes Pedrosa, A Muleta e a Tartaranha (séculos XV-XX) Comunicação apresentada à Academia da Marinha em 5 de Abril de 2016.


3 - A muleta pequena

Fernando Gomes Pedrosa [1] assinala que a mais antiga ilustração da muleta, que ainda não foi mencionada por qualquer autor português, está no álbum Recueil de veues de tous les differens bastimens de la Mer Mediterranée et de l’Ocean avec leurs noms et usages par J. P. Gueroult du Pas publicado em Paris, 1710. [2]

mu2fig. 4 - Pierre-Jacob Gueroult du Pas, (1654-17..), Bateau pêcheur Portugais nommé mulet. Estampa n.º4 (pág.321 numeração manuscrita) no rodapé Gueroult fec. in Recueil de veues de tous les differens bastimens de la Mer Mediterranée et de l’Ocean avec leurs noms et usages par J. P. Gueroult du Pas (…), publicado em Paris, 1710.

Na figura a muleta com apenas quatro tripulantes, apenas apresenta o botaló da proa onde está armada uma vela quadrangular chamada cevadeira.

Duhamel Du Monceau [3] no seu Traité Général des Pesches de 1772 apresenta uma figura de uma mulette portugaise segundo um desenho de Catherine Haussard (17..-17..).

mu3fig. 5 - Catherine Haussard (17..-17..) Mulette Portugaise, planche XXI, Fig. 4, ass. C.the Haussard, sculp. In M. Duhamel Du Monceau Traité Général des Pesches. 1772


A imagem é acompanhada do seguinte comentário de Duhamel Du Monceau:
Les bateaux principalemente destinés pour prendre les Sardines sont montés par cinq ou six hommes, Pl. XXI, fig.4; (… ) ces bateaux sont gondoles; ils relevent beaucoup de l’avant & de l’ àrrière, de sorte qu’il faut que les Rameurs soient au milieu, où ils ont um mât fort incline vers l’avant, & qui porte une grande vergue ou antenne, sur laquelle est encapelée une grande voile latine; il part à l’avant & à l’arriere deux boutes-hors, à l’extremité dequels on amarre les manoeuvres qui servente à trainer le filet (… ) ordinairement on borde un focq sur le boute-hors de l’avant. [4]


[Os barcos principalmente destinados à pesca da Sardinha são mareados por cinco ou seis homens Pl. XXI, fig.4; (… ) estes barcos são gondolas; são muito altos à frente e atrás, de modo que os Remadores tem de se colocar ao meio, onde os barcos têm um mastro muito inclinado para a frente e que sustenta uma grande verga ou antena, sobre a qual se ergue uma grande vela latina; à frente e atrás partem dois botelós (boute-hors) na extremidade dos quais se amarra os cabos que servem para arrastar a rede (…)normalmente iça sobre o botaló da proa uma polaca (focq).]

Esta representação de uma muleta mareada por 5 homens, em que um deles “cavalga” a verga segundo Fernando Gomes Pedrosa:

É muito semelhante à muleta do álbum Recueil de veues (…), de 1710 (fig.2), e muito diferente das tartanas francesas. Vai a navegar e não apresenta o velame para a pesca de arrasto. Tem um mastro, a meio, muito inclinado para vante, com verga e vela latina, e à proa outra vela triangular.
Nos dois botalós, à vante e à ré, amarram os alares da rede (vê-se a rede). O fundo é arqueado, com a proa e popa erguidas, em arco saliente, curvando para dentro. O leme à popa é enorme, agora manobrado por talhas, e em vez de cana do leme, um forte charolo** transversal. Apresenta nos dois bordos uma tábua de bolina rectangular e muito grande. Vê-se um homem agarrado à tábua de bolina e outro sentado a meio da verga. A proa está armada com uma crista de pontas de ferro, tal como se verá nas muletas posteriores. [5]

** Normalmente a grafia é xarolo

No capítulo 2 deste longo texto do blogue apresentamos esta imagem de 1746 para ilustrar o sistema defensivo da barra do Tejo. Numa nau portuguesa parte o padre António Vieira talvez lembrando a canção de Fausto:

Vou no espantoso trono das águas
Vou no tremendo assopro dos ventos
Vou por cima dos meus pensamentos…
[6]

No canto inferior esquerdo aparece representada uma muleta, ainda com a popa arredondada e tendo bem visível a tábua de bolina de bombordo, e os botalós sendo que o da proa enverga uma polaca.


mu39fig. 6 - Oportet me et romam videre. Cabeçalho do Livro IV de A Vida do Apostolico padre Antonio Vieira Da Companhia de Jesus chamado por antonomásia O grande. 1746.

De notar a diferença da popa nestes desenhos, que é encurvada, para o desenho de João de Souza.
O capitão da Marinha Mercante Luís Ascêncio Tomasini, que após abandonar a vida marítima se dedicou à pintura, retratou com rigor a muleta. [7]

mu35fig. 7 - Luís Ascêncio Tomasini (1823-1902) Muleta com a bandeira real, 1887, óleo sobre tela 64 x 81 cm. Palácio do Correio Velho, Lisboa.

mu33fig. 8 - Luis Ascêncio Tomasini (1823 - 1902). Barcos no Tejo entre o Bugio e o Forte de São Julião da Barra óleo sobre madeira redonda diam. 62cm.Cabral Moncada Leilões

A muleta utilizada como embarcação de transporte.

mu30fig. 9 - Autor desconhecido (A.P.D.G.) Sketches of Portuguese Life, Manners, Costume and Caracter. Illustrated by twenty coloured plates. By A. P. D. G. Printed for Geo. B. Whittaker, Ave-Maria Lane London 1826. Desenho entre as páginas 36 e 37 com a legenda Straw Boat unloading . Black women emptyng, threir pots.

E John Cleveley the Younger representa muletas nas suas aguarelas do álbum Views round the Coast and on the River Tagus de 1775.
Numa aguarela intitulada The Praça do Comércio Lisbon (Terreiro do Paço) uma muleta com a popa arredondada e com seis tripulantes está ancorada junto a esta praça, que ainda em construção (repare-se no projecto para o arco da rua Augusta!), também se vai afirmando como uma outra imagem identificadora da cidade de Lisboa.


mu6fig. 10 - John Cleveley the younger The Praҫa do Comércio Lisbon, commonly known as Black Horse Square, and named thus by nineteenth century English visitors to the Portuguese capital signed 'Jno Clevely Junr' (lower left), pen, ink, grey wash and watercolour 28 x 47cm. in Views round the Coast and on the River Tagus de 1775.

Dois marinheiros sobem pela verga para recolher a vela. Esta subida pela verga impunha-se quando a embarcação velejava com ventos mais fortes e era necessário ferrar (recolher) parcial ou totalmente a latina. Era uma actividade perigosa e que requeria muita destreza. Lembremos o quadro de John Thomas Serres de 1823.

mu11fig. 11 - Pormenor do quadro de John Thomas Serres de 1823.

Já na aguarela The river Tagus at Trafaria de John Cleveley, vemos, em primeiro plano, uma muleta mareada apenas por três tripulantes, e rebocando um pequeno escaler. Navega com a latina a todo o pano e com uma polaca. A popa, neste caso, já é rebaixada correspondendo ao desenho de João de Souza (fig.1).

mu4fig. 12 - John Cleveley the younger The river Tagus at Trafaria, in Views round the Coast and on the River Tagus 1775. Views round the Coast and on the River Tagus.

Alexandre Jean Noel desenha uma outra imagem, onde junto ao Terreiro do Paço, (agora com o lado nascente já concluído), onde coloca junto ao cais uma muleta com a latina recolhida que parece corresponder, por inteiro, ao desenho de João de Souza.
Na imagem vê-se ainda uma fragata portuguesa e diversas pequenas embarcações (um escaler, um bergantim, um barco de vela latina e ao fundo diversas embarcações ancoradas no cais.
Por detrás do corpo oriental da praça, surgem as torres da Sé e o Castelo de S. Jorge, outros edifícios que constituem a imagem de Lisboa.

mu7fig. 13 - Alexandre Jean Noel, (1752-1834 ) gravada por John Wells (fl. ca 1790-1809), A view of the Praça do Commercio at Lisbon, taken from the Tagus [drawn by Noel ; engraved by Wells. - Londres : s.n., 1793?], gravura : água-tinta, aguarelada ; 41,8 x 60,5 cm . Biblioteca Nacional Digital.

mu7afig. 14 - Pormenor da imagem anterior.

Nicholas Pocock desenha em 1799 uma vinheta para o Naval Chronicle (publicado entre 1799 e 1818), com uma vista da entrada da Barra do Tejo, onde figura a Torre de Belém e uma muleta com a latina recolhida.


mu40fig. 15 - Nicholas Pockock (1740-1821) Lisbon Harbour [with the Tower of Belem] Vignette Plate XVII From the 'Naval Chronicle'1 Sep 1799, água-tinta 13,4 x 23 cm. National Maritime Museum, Greenwich, London.

A acompanhar o desenho um extenso comentário sobre o Tejo, a Torre de Belém, Lisboa e Portugal, mas onde se destaca um parágrafo sobre a muleta:
The view is taken by Mr. Pocock, as looking to the eastward, or up the Tagus. In front is one of the wessels called Bean Cods; no less remarkable for swift sailing, than for their singular construction. [8]

E já no início do século XIX Robert Batty [9] desenha uma vista do mosteiro dos Jerónimos, em frente do qual se realiza um mercado e entre os barcos ancorados em primeiro plano está uma muleta ainda com a polaca desfraldada.

mu13fig. 16 - Robert Batty (1789-1848)  S.t Geronymo, Belem / painted by Lieut. Coll. Batty ; engraved by H. le Keux. - London : by Moon Boys & Graves, 1830. - gravura : água-forte, BND Portugal.

Também John Christian Schetky [10] ao realizar, provavelmente em 1815 os estudos para o quadro datado de 1831, onde um conjunto de navios tendo no centro a fragata HMS Columbine [11] realiza um exercício na barra de Lisboa (no período que sucede às Guerras Napoleónicas e que antecede a revolução Liberal e as lutas pela coroa portuguesa), coloca em primeiro plano uma muleta (bean cod) navegando entre as agitadas águas do Tejo. [12]

mu9fig. 17 - John Christian Schetky (1778-1874) HMS Columbine and Other Vessels off Lisbon,1831 Óleo sobre tela 63,5 x 106,7 cm. National Maritime Museum, Greenwich, London.

A muleta (bean cod) é desenhada com todas as características que a definem, como a grande vela latina numa comprida verga, o mastro inclinado para a proa curva e denteada, os botalós e o leme de xaroco. O número (sete) e os trajes das personagens a bordo da muleta revelam que esta funciona aqui como barco de pilotagem dos navios que realizam os exercícios no rio Tejo. Ou lembrando Almeida Garrett:

A voz do pescador brama como ellas.
“Piloto!” gritão; e a um signal de bordo
Do alteroso galeão, d'um salto pulla,
- Qual delphim namorado nas campinas
Do azul-escuro mar — o palinuro
Nos segredos do Tejo iniciado.
Rege a manobra fallador apito:
“Ala!—amaina !” Eis passada a estreita boca.
Por onde seus tributos d'agua, et d'ouro
Leva ao Oceano o rio d'Ulyssea.
[13]

mu9afig. 18 – Pormenor da figura anterior.

Um outro pintor Joseph Schranz (1803-1853) [14] realiza duas pinturas com uma fragata inglesa (a H.M.S. Columbine ?) navegando entre diversas pequenas embarcações de pesca.
Na primeira dessas pinturas a fragata está apontada à margem sul do Tejo e uma muleta navega na direcção da proa do navio.

mu8bfig. 19 - Joseph, ou Giuseppe, Schranz 40.7 x 76.3 cm. Christies.

Na outra pintura onde a mesma fragata está fundeada (está sendo arreado um escaler), na direcção da Torre de Belém, quase sempre presente no período romântico como símbolo de Lisboa e do Tejo. À proa da fragata veleja uma muleta com uma vela (varredoura) no botaló da popa. Ao longe, à esquerda, o imponente Palácio da Ajuda, então em construção.

mu8cfig. 20 - Joseph, ou Giuseppe, Schranz, depois de 1834 Christies

George Vivian (1798-1873), no frontispício do álbum Scenery of Portugal & Spain, como imagem identificadora do País e da sua capital, escolhe, enquadrada por uma janela manuelina, a Torre de Belém e o Tejo onde duas muletas navegam rio acima. Na do primeiro plano, de que apenas se vê a proa, está içada uma cozinheira no botaló da proa.

mu12fig. 21 -George Vivian(1798-1873) in Scenery of Portugal & Spain, 14 Pa ll Mall, East P. and D. Colnaghi and Com. London 1839.

Numa aguarela de Charles Gore , junto à Torre de Belém, por entre um conjunto de pequenas embarcações, entre as quais se destacam duas muletas, dois navios mercantes lembrando os versos de Shakespeare no Mercador de Veneza:

Salarino -
Your mind is tossing on the ocean;
There, where your argosies with portly sail,
Like signiors and rich burghers on the flood,
Or, as it were, the pageants of the sea,
Do overpeer the petty traffickers,
That curtsy to them, do them reverence,
As they fly by them with their woven wings...
[15]

mu41fig. 22 - Charles Gore (1729-1807) pena, tinta negra e aguarela 15,7 x 31,7 cm. National Maritime Museum, Greenwich, London.

De J. Catãno (?) uma outra pintura com uma muleta navegando junto à Torre de Belém.

mu42fig. 23 - J. Catãno, The Tower of Belem (cenário fantasista),  entre 1875 e 1900. guache 23,7 x 25 cm. Biblioteca Nacional Digital.

[1] Fernando Gomes Pedrosa, A Muleta e a Tartaranha (séculos XV-XX) Comunicação apresentada à Academia da Marinha em 5 de Abril de 2016.
[2] Pierre-Jacob Gueroult du Pas, (1654-17..), Recueil de veues de tous les differens bastimens de la Mer Mediterranée et de l’Ocean avec leurs noms et usages par J. P. Gueroult du Pas Inspecteur des Ponts et Chaussées, Chez Pierre Giffart, Libraire & Graveur ordinaire du Roy, rue Saint Jacques, à l’Image sainte Therese. Paris M D C C X Avec privilegie du Roy.
[3] Henri Louis Duhamel du Monceau (1700-1782 ), membro da Real Academia das Ciências desde 1738, de que aliás foi presidente, escreveu sobre diversos assuntos desde barcos e pescas, até à botânica ( foi colaborador e rival de Buffon o autor da Histoire Naturelle) e a gestão das florestas.
[4] Henri Louis Duhamel du Monceau (1700-1782 ) Traité Général des Pesches. Seconde Partie. Et Histoire des PoissonsQuellees fournissent, tant pour la subsistance des hommes, que pour plusieurs autres usages qui ont rapport aux Arts et au Commerce. Par M. Duhamel Du Monceau, de l’Académie Royale des Sciences; de la Société Royale de Londres, des Académies de Pétersbourg, de Palerme, & de l’Institut de Bologne; Honoraire de la Société d’Edimbourg, & de l’Académie de Marine; Associé à plusieurs Sociétés d’ Agriculture; Inspecteur général de la Marine. Paris, Chez Saillant & Nyon, Libraires, rue S. Jean-de-Beauvais et Chez Veuve Desaint, Libraire, rue du Foin S. Jacques. M. DCC. LXXII.(Section III De l’Alose, & des Poissons qui y ont rapport. Art.III Pêche des Sardines en Portugal, pág.444)
[5] Fernando Gomes Pedrosa, A Muleta e a Tartaranha (séculos XV-XX) Comunicação apresentada à Academia da Marinha em 5 de Abril de 2016.
[6] Fausto Bordalo Dias Por este rio acima, 1982.
[7] Muitos dos pintores de marinhas eram oficiais ou marinheiros no activo nas respectivas Armadas. As Academias Navais ministravam conhecimentos de desenho e de pintura. Note-se que no século XVIII é criada por D. Maria I a Academia Real da Marinha (1779), que incluía a Aula de Debuxo Naval. No Porto é criada a Academia Real da Marinha e Comércio em 1803, mas que anexou as já existentes Aula de Náutica (criada em 1762) e a Aula de Debuxo e Desenho (criada em 1779).
[8] The Naval Chronicle Volume II from July to December MDCCXCIX Published by Bunney & Gold, Shoe Lane London. (pág.209)
A vista é tomada por Mr. Pocock, olhando para nascente ou seja para montante do Tejo. No primeiro plano está um dos barcos chamados Bean Cods; não só notável pelo seu rápido velejar, como pela sua singular construção.
[9] O tenente-coronel Robert BATTY (1789 - 1848) foi um ilustrador e topógrafo. Filho de um cirurgião e também pintor de paisagens. Em 1813, Batty pertenceu ao regimento Grenadier Guards que combateu na Guerra Peninsular.Ao longo da vida, e publicou diversos livros ilustrados das suas viagens: Um esboço da Campanha No final da Holanda, 1815; Um esboço histórico da campanha de 1815; Campanha da ala esquerda do exército aliado,1823; Cenário Galês, 1823; Cenário alemão, 1823; Cenário do Reno, da Bélgica e Holanda, 1826; Cenário Hanoverian e Saxónio, 1829; Seis Vistas de Bruxelas, 1830; Um passeio de família através de Zuid-Holland, 1831; Vistas das principais cidades da Europa, 1832 e O motim e a Apreensão da H.M.S. Bounty, 1876.
[10] John Christian Schetky (1778-1874) pintor escocês foi professor de desenho na Royal Naval Academy de Portsmouth de 1811 a 1836, ano em que foi encerrada. Tornou-se então professor na East India College em Addiscombe, onde permaneceu até 1855. Em 1820 recebeu de Georges IV o título de Marine Painter in Ordinary, confirmado em 1844 pela rainha Vitória.
[11] HMS Columbine Fragata de 18 canhões, foi construída em 1806. Esteve em Portugal entre 1812 e 1813. Serviu na costa norte-americana e no Mediterrâneo. Naufragou na Grécia em 1824.
[12] Para quem aprecia existe um Jigsaw puzzle com este quadro de John Christian Schetky.
[13] Almeida Garrett, Camões Na Livraria Nacional e Estrangeira, Rue mignon, n.º2, faub. St. Germain Paris 1825. (Canto I, pág.9).
[14] Joseph, ou Giuseppe, Schranz (1803-1853) nasceu em Porto Mahón, Minorca, e foi um dos três filhos artistas do pintor Anton Schranz (1769-1839).
[15] William Shakespeare The Merchant of Venice, act I, scene I: a steet of Venice.
Salarino -
Vosso espírito voga em pleno oceano,
Ali, onde vossos galeões de altivas velas –
como senhores e ricos burgueses das ondas,
ou, por assim dizer, na aparatosa vista sobre o mar –
olham de cima a multidão de humildes mercadores
que os saúdam, inclinando-se numa reverência
quando por eles passam com tecidas asas.






































































































quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Deambulações pelo Castelo da rua de Santa Catarina 5 parte

 
2 – O Barco de Riba Tejo

rt16_thumb2fig. 5 - John Thomas Serres (1759-1825) Torre de Belém 1811 óleo sobre tela 139,5 x 169,5 cm. Museu da Cidade de Lisboa.
rt6_thumb2fig. 6 - John Thomas Serres (1759-1825) An English frigate in choppy waters in the Tagus passing the Belem Tower 1823 óleo s/ tela 35,6 x 44,4 cm. Wikimedia Commons

Embora, como vimos, muitos autores designem por muletas [1] a generalidade das pequenas embarcações de pesca, de transporte e mesmo de pilotagem, operando no Tejo, como refere João Pedro d’Amorim no seu Diccionario de Marinha [2] nos quadros de John Thomas Serres as embarcações podem ser designadas por Barcos de Riba Tejo, como descrevia João de Souza. [3] (fig.7).
De facto se só no primeiro quadro é visível a proa arredondada e denteada, em ambas as pinturas vê-se a grande vela latina armada numa comprida verga articulada com o mastro, de que apenas se vê a ponta, muito inclinado para a proa.
Têm um leme com xarolo manobrado por uns cabos chamados gualdropes, bem visível no quadro de 1823, com a vela enfunada a bombordo.
Nos quadros, não são visíveis as espadelas laterais, também chamadas de pás das bordas, encobertas pelas ondas. [4]
São manobrados por seis marinheiros, sendo que no segundo quadro dois deles estão encavalitados na verga diminuindo o pano da vela. Eram barcos de pesca mas eram ainda utilizados para o transporte de mercadorias ou de passageiros e, eventualmente, como pilotos da barra.

rt8_thumb2fig. 7 - João de Souza, Barcos de Riba Tejo - Barques du haut Tage, eles portent des provisions a la Ville in Caderno de todos os Barcos do Tejo tanto de Carga e Transporte como d’ Pesca. Estampa 6.
Os elementos essenciais que caracterizam a embarcação são apontados na figura seguinte:

rt9_thumb2fig. 8 - Adaptação de um desenho de Aldo Cherini e Corrado Cherini, Barco de Riba Tejo in Barche e navicelle d'Europa - un ricchissimo e significativo patrimonio etnografico quasi completamente scomparso 1978. (pag.9).
Legenda:
1 – Proa
2 – Vela latina
3 – Verga
4 – Mastro
5 – Leme com xarolo
6 – Espadela ou pá-de-bordo (de bombordo)
Na figura seguinte vê-se o sistema de amarração da verga ao mastro de um barinho (varino) semelhante ao barco de Riba Tejo.

rt14_thumb2fig. 9 - Installazione della driza nel barinho. Adriças de amarração da verga e do mastro.Desenho de Aldo Cherini e Corrado Cherini, Barche e navicelle d'Europa - un ricchissimo e significativo patrimonio etnografico quasi completamente scomparso 1978.
Os Barcos de Riba Tejo bem como os designados por Muleta (que referiremos de seguida), com este sistema de vela latina não podem virar de bordo ou como indica João Pedro d’Amorim dar por d’avante, já que para trazerem as vellas doutra maneira dão por d’avante cõ a vella sobre o masto e se perdem. [5]
E João Pedro d’Amorim define:
Dár por d’avante, mudar de amura, passando com a proa pela linha do vento.[6]
E ainda Virar por d'avante, mudar de uma para outra amura na linha de bolina; passando com a proa do navio pela linha do vento, ou rumo d'onde elle sopra. [7]
Para passar a vela de uma amura para a outra era-se obrigado segundo define João Pedro d’Amorim, a Virar em roda, pelo lado opposto ao vento, ou seja passar com a popa pela linha do vento.
Repare-se que nos quadros de John Thomas Serres as embarcações navegam com diferentes amuras ou seja com a vela ora a estibordo ora a bombordo. Na embarcação da esquerda a vela latina está enfunada a estibordo, ou seja com o vento a bombordo, enquanto a embarcação à direita navega numa bolina seguindo outro bordo.

rt12_thumb2fig. 10 – As embarcações dos quadros de John Thomas Serre mostrando as duas diferentes posições da vela navegando à bolina.
Breve referência à génese do barco de Riba Tejo

Velejar tem uma poesia tão antiga quanto o mundo.  Antoine de Saint-Exupéry

Não vamos procurar a génese destas embarcações, com um mastro e vela latina e o casco em forma de meia-lua ou de feijão, (bean-cod como os ingleses as designavam desde o século XVIII [8]), já que remonta a épocas remotas.
 

De facto o poeta escocês William Falconer, no seu Dicionário da Marinha de 1780, define assim o bean-cod: a small fishing-vessel, or pilotboat,common on the sea-coasts and in the rivers of Portugal. It is extremely sharp forward, having it’s stem bent inward above into a great curve: the stem is also plated on the fore-side with iron, into which a number of bolts are driven, to fortify it, and resist the stroke of another vessel, which may fall athwart-hawse. It is commonly navigated with a large lateen sale, which extends over the whole length of the deck, and is accordingly well fitted to ply to windwards [1]

E o almirante William Henry Smyth no seu The Sailor’s Word-Book * define também o bean-cod, como A small fishing-vessel, or pilot-boat, common on the sea-coasts and in the rivers of Spain and Portugal; extremely sharp forward, having its stem bent inward above in a considerable curve; it is commonly navigated with a large lateen sail, which extends the whole length of the deck, and sometimes of an outrigger over the stern, and is accordingly well fitted to ply to windward. [2]

* Um livro revisto pelo Almirante Sir Edward Belcher (1799-1877), que esteve no Porto de que desenhou uma planta e uma vista da entrada da barra do Douro. Ver neste blogue os transportes marítimos e fluviais 7 http://doportoenaoso.blogspot.pt/2010/04/os-transportes-maritimos-e-fluviais-7.html

Segundo O. L. Filgueiras …a mais arcaica estirpe de barcos de entre as que por cá subsistem - aliás, Portugal, e o Iraque, detêm ainda o mais importante acervo de espécimes desta família - a sua principal zona de fixação, talvez desde a deslocação de populações resultante da destruição de Tartessos (500 a.C.), e a faixa litoral do centro, com predominância para o polo Ovar-Aveiro-Ílhavo, antiga região habitada pelos Turduli veteri para onde teriam afluído parte dos fugitivos, com os seus barcos.

E refere Ramalho Ortigão que coloca a origem do saveiro e da muleta do Seixal …como se demonstra na forma dos saveiros, que trouxemos do Bósforo, e na da muleta do Seixal, que é o navio grego do tempo de Heródoto. [3]

Sem fazer a génese e a história da embarcação na verdade ela figura em imagens desde o século XVI.

Do pintor anónimo que se convencionou chamar de Mestre da Lourinhã, o quadro São João Evangelista em Patmos da segunda década do século XVI estão representadas junto da figuração de Patmos, 5 embarcações. Mais à direita uma nau e um pequeno escaler. À esquerda da imagem navega uma embarcação de vela latina mas que não apresenta leme, sendo mareada através de um remo. No cais figura o martírio a que S. João Evangelista foi submetido: ser mergulhado num caldeirão de azeite mas de onde saiu não queimado mas rejuvenescido. No cais e apenas separada por uma embarcação manobrada por um homem de pé, uma embarcação de mastro inclinado, com a vela arreada que, numa interpretação algo forçada, podia ser uma embarcação do tipo ou semelhante à que nos ocupa.

rt17ab_thumb2fig. 11 - Mestre da Lourinhã (denominação convencional) S. João Evangelista em Patmos c.1510-1520. Santa Casa da Misericórdia da Lourinhã.

rt17b_thumb2fig. 12 – Pormenor da imagem anterior.

rt17f_thumb2fig. 13 – Pormenor da fig. 10 com as embarcações junto ao cais.

A representação do Barco de Riba Tejo

Já do século XVII, e sem dúvidas, é a embarcação que figura no primeiro plano da gravura de Dirk Stoop.

 

rt3_thumb2fig. 14 - Dirk Stoop (1610-c.1686) Vista do Convento de Madre de Deus 1662 gravura 18,3 x 25,4 cm British museum.Autor desconhecido.

Também este tipo de embarcação se encontra representada, embora de forma simplificada, num azulejo da primeira metade do século XVIII.

rt7_thumb2fig. 15 - Azulejo monocromático azul sobre branco com um barco à vela com marinheiros. No céu um bando de gaivotas. Aos cantos encontram-se quartos de flores de pétalas redondas, que servem de elementos de ligação.Primeira metade do século XVIII. Faiança 14,4 x 14,4 x 1,3 cm. Museu Nacional do Azulejo.

Mas é sobretudo no período romântico, na transição do século XVIII para o século XIX, com a proliferação da pintura com temas marítimos (marinhas) que aparecem representados no Tejo e na sua foz, barcos de pescadores e navios civis e de guerra.

Na aguarela de John Cleveley Jnr. [4], datada de 1775, os dois barcos do lado esquerdo são barcos de Riba Tejo sendo que um deles tem a vela arreada e no outro pode ver-se os pescadores recolhendo a rede.

O barco no centro da imagem com a proa em bico é um Batel de Rio Acima, que trataremos mais adiante.

rt13_thumb2fig. 16 - John Cleveley Jnr. (1747-1786), Fishermen at work off the mouth of the Tagus, 1775 25.4 x 35.6 cm.

Um outro pintor britânico Thomas Buttersworth [5] pintou no período romântico um conjunto de vistas do Tejo onde surgem estes e outros barcos de pescadores.

Neste primeiro quadro ao fundo,

Sobre as águas se recorta a branca escultura
Quasi oriental quasi marinha
Da torre aérea e branca
E a manhã toda aberta
Se torna irisada e divina…
 [6]

a Torre de Belém junto à qual, no Tejo, navegam diversas embarcações, entre as quais, no primeiro plano, um barco de Riba Tejo ancorado e com a vela descida, e onde 5 pescadores recolhem a rede de pesca.

rt1_thumb2fig. 17 - Thomas Buttersworth (1768-1842) An English frigate and an armed naval cutter becalmed in the Tagus off the Belem Tower 35.6 x 43.2 cm. Colecção particular.

Numa outra pintura enquanto

Bate na foz do Tejo, arfando, a vaga;
Resoa a viração no templo vasto,
Como harmonia mysteriosa e vaga…
 [7]

Sob forte vento, um semelhante barco de pesca com seis tripulantes, navega entre navios, nas águas agitadas da embocadura do Tejo entre o Bugio e S. Julião da Barra.

rt10_thumb2fig. 18 - Thomas Buttersworth (1768-1842) An armed cutter emerging from the mouth of the Tagus, past the Bugio lighthouse 41.3 x 64.8 cm. Colecção particular.

E finalmente um terceiro quadro apresenta à esquerda um Barco de Riba Tejo navegando entre outras embarcações junto ao Bugio, quando

L'horizon tout entier s'enveloppe dans l'ombre,
Et le soleil mourant, sur un ciel riche et sombre,

Ferme les branches d'or de son rouge éventail. [8]

rt15_thumb2fig. 19 - An English frigate off the Belem Tower in the Tagus, Lisbon, clawing her way to windward in the prevailing winds óleo sobre tela 35,6 x 45,7 cm. Christies

No pormenor da imagem da embarcação distingue-se o leme com o xaroco, o mastro inclinado para a proa e a tripulação de seis homens, que pela indumentária indica que a embarcação operará como piloto ou como transporte de oficiais para o navio de guerra que se vê no centro da imagem.

rt15a_thumb2fig. 20 – Pormenor da pintura anterior.

Finalmente, já do final do século XIX, uma pintura de Alfredo Keil onde uma embarcação dorme na praia de Cascais, e a curva do seu bico / Rói a solidão.[9]

Uma figura descarrega carqueja (?) por uma prancha, mostrando a utilização do barco como transporte de mercadorias. Ao fundo um navio a vapor [10] e a Torre do Bugio.

rt11_thumb2fig. 21 – Alfredo Keil (1850-1907) Barcos junto à Torre do Bugio, óleo sobre madeira 13,5 x 9 cm. Colecção particular.


[1] William Falconer (1732-1769) A n Universal Dictionary of the Marine : or, A copious explanation of the technical terms and phrases employed in the construction, equipment, furniture, machinery, movements, and military operations of a ship. 1780. Edição de 1830 com o título de A new and universal dictionary of the marinePrinted for T. Cadell London 1830.

[2] William Henry Smyth (1788-1865), The Sailor’s Word-Book. An alphabetical digest of nautical terms including some more especially militar and scientific, but useful to seamen as well as archaisms of early voyagers, etc. by the late Admiral W. H. Smyth, revised for the press by Vice-Admiral Sir E. Belcher, Blackie and Son, London Paternoster Row and Glasgow and Edinburgh . 1867. ( pág. 89).

[3] Ramalho Ortigão O Culto da Arte em Portugal, António Maria Pereira, Livreiro-Editor 50-Rua Augusta-52, Lisboa 1896. (pág. 100, 101).

[4] John Cleveley Jnr. ou the Younger era filho do carpinteiro naval e pintor de Deptford John Cleveley (c. 1712 - 1777) e irmão gémeo do aguarelista Robert Cleveley (1747 - 1809). Expôs pela primeira vez Free Society em 1767 e depois na Royal Academy em 1770. Em 1772 foi o desenhador da expedição de Sir Joseph Banks's às ilhas Hébridas, Orkneys e Islândia e, em 1773, acompanhou a expedição de Phipps na procura da rota norte para a India, que pouco mais avançou que a de Spitzbergen. A sua visita a Portugal parece datar-se entre Agosto de 1775 e Janeiro de 1776 e um volume de trinta e sete desenhos intitulado Views round the Coast and on the River Tagus (Sotheby's 17 Nov 1983, lot 51) apresenta essas datas.

[5] Thomas Buttersworth (1768-1842) alistou-se na Marinha Britânica em 1795 e tornou-se pintor de marinhas. O seu filho James Edward Buttersworth (1817-1894) seguindo as pisadas do pai também foi um reconhecido pintor de marinhas.

[6] Sophia de Mello Breyner Andresen O Búzio de Cós e outros poemas, Caminho, Lisboa, 2004. (pág.20).

[7] Raimundo António de Bulhão Pato (1828-1912), Livro do Monte, Georgicas-Lyricas. Typographia da Academia

1896. (pág. 234).

[8] José Maria de Herédia(1842-1905) Soleil Couchant de La Nature et le Rêve in Les Trophées, Chez Alphonse Lemerre Paris 1893 (pág.140)

[9] Sophia de Mello Breyner Andresen, poema Barcos in Coral, 1.ª ed., Porto, Livraria Simões Lopes  Lisboa, 1950.

[10] Ver neste blogue: os transportes marítimos e fluviais 8 em http://doportoenaoso.blogspot.pt/2010/04/os-transportes-maritimos-e-fluviais-8.html

 
 












































































 

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Deambulações pelo Castelo da rua de Santa Catarina 4 parte

Deus ao mar o perigo e o abysmo deu,
Mas nelle é que espelhou o céu.
 
[1]

mul1fig. 1 - À esquerda a embarcação de pesca no quadro de John Thomas Serres (1759-1825) Torre de Belém óleo sobre tela 139,5 x 169,5 cm. Museu da Cidade de Lisboa . À direita a embarcação no quadro de John Thomas Serres (1759-1825) An English frigate in choppy waters in the Tagus passing the Belem Tower 1823 óleo s/ tela 35,6 x 44,4 cm. Wikimedia Commons.

1 – Em muitas das imagens do texto anterior eram inúmeros os barcos que circulavam no Tejo até ao início do século XX. Como na imagem de Bernardo de Caula de 1763.

mul2fig. 2 - Bernardo de Caula (?antes de 1763-1793) P.ro tenente dartilharia do algarve. desenha uma Vista e perspectiva da Barra Costa e Cidade de Lisboa Capitale do Reino de Portugal, desde a Torre do Bogio (com o n.º 1) a ocidente, até ao Palacio do Patriacha (com o nº 102) do lado oriental.- 1763. - 1 desenho : pena e aguadas de tinta sépia e cinza em duas f. coladas ; 22,5x140,5 cm. BND

Essa quantidade e diversidade, surge em textos do século XVII até aos inícios do século XX.

Assim em 1620 refere Frei Nicolau de Oliveira (1566-1634), no seu Livro das Grandezas de Lisboa:

Ha mais neste porto, mais de mil & quinhentos barcos de ganhar, & pescar, entre grandes, & pequenos; & disto he cauza o grande trato, & pescaría deste rio, de que adiante se dira; nao fallando em grande numero de barcos d'Alfama, que váo pescar ao alto, & de Cascaes, Cezimbra, Setuual, & Peniche, que quasi todos os dias entraõ neste porto, com toda a sorte de pescaria do alto. [2]

E em 1626 o autor anónimo da Relaçam, em que se trata, e faz hüa breve descrição dos arredores mais chegados à Cidade de Lisboanum apontamento:

São varias embarcações
De alto bordo, & das rasteiras
Urcas, naos, galès, pataxos,
Setias, & caravellas.
Aqui se lanção a monte,
& de ordinario daõ crena,
Fazem de novo, & desfazem
As embarcações já velhas
. [3]

E já dos finais do século XIX é, o muitas vezes citado, Brito Aranha na entrada Varino do indice alphabetico e descriptivo de A Gravura de Madeira em Portugal. Estudos em todas as especialidades e diversos estylos, de J. Pedrozo, publicado em 1872, que refere a enorme quantidade e nomeia a diversidade das embarcações que navegam no Tejo.

Varino - É numerosa e variada a navegação do Tejo. Na phrase elegante de um dos nossos mais primorosos escriptores, este rio tem a sua marinha especial, tão espantosa quantidade de barcos o sulcam e cruzam, tão diversa e a armação, a forma e a lotação d'elles, e tão extensa par isso a sua nomenclatura. Entre as embarcações pois, que pertencem ao Tejo, contam-se os moinhos, as rascas,as faluas, as moletas, os aveiros, as fragatas, os hiates, os varinos, as guigas, os vapores, os botes, os catraios, os escaleres, as canoas, etc. Muitos d'estes barcos, todavia, não se limitam à navegação fluvial e aventuram-se, barra em fora, como a rasca que vae carregar de figo nos portos do Algarve, e a moleta, que empregando-se na pescaria, tambem arma em hiate para desempenhar alguma comissão do commercio. Outros destinam-se tão somente à navegação fluvial, que se chama do Riba Tejo. A maior parte das embarcações indicadas procede dos estaleiros do Barreiro e Seixal, cujos moradores tambem formam, commummente, as suas companhas, como os habitantes da Trafaria dão o máximo contingente para os serviços da pesca. Os barcos de mais elevada lotação e mais numerosos tripulantes vem, comtudo, dos estaleiros de Espozende, da Figueira, do Porto e de outras terras da beira mar do norte do reino. A armação em geral, quer seja de dois mastros, quer seja dum, como a do varino [fig.3] da gravura é com velas latinas.[4]

mul4fig. 3 - J. Pedrozo VarinoBarco do Tejo Estampa 18 de Gravura de madeira em Portugal 1872.

E para que não percamos de vista o principal objectivo do texto, João Pedrozo insere no álbum uma vista da Torre de Belém.

mul14fig. 4 – J. Pedrozo Torre de Belém Estampa 7 de Gravura de madeira em Portugal 1872.

E podemos evocar ainda Ramalho Ortigão que em O Culto da Arte em Portugal de 1896 escreve:

6.º As embarcações – galeões, naus, caravellas, bergantins, fustas, toda essa portentosa collecção dos nossos barcos de guerra e dos tão variados typos empregados na cabotagem e na pesca, testemunhos sobreviventes ainda hoje do nosso genio marítimo e das sugestões do mais remoto trato do ocean… como se demonstra na forma dos saveiros, que trouxemos do Bosforo, e na da muleta do Seixal, que é o navio grego do tempo de Herodoto.

E mais adiante:

Em toda a nossa costa, desde o Minho ao Guadiana, a enorme variedade de formas nas embarcações da pesca marítima, da pesca fluvial e da pedra lacustre, basta para evidenciar a persistência da tradição no grande génio marítimo de tão pequeno povo. [5]

Por isso, se torna difícil a correcta identificação de muitas dessas embarcações à vela até porque há, ao longo do tempo em muitas delas uma evolução e porque os nomes variam muitas vezes conforme os lugares onde actuavam ou onde eram construídas.

Já o afirmava o Padre Fernando de Oliveira no Livro da Fabrica das Naus no Capitolo quinto, de quantos géneros & maneyras de navios há na arte da navegação:& dos nomes deles. [6]

... Os nomes das esppecies, ou maneyras dos navios, & barcos, assy dhum genero, como do outro, são quasi incompreensíveys: assy por serem muntos, como pola munta mudãça que fazem de tempo em tempo, & de terra em terra. Hüa mesma especia de navios ou barcos, tem hum nome na Espanha, outro em França, & outro na Itália. [7]

E Júlio de Castilho (1840-1919) na sua Lisboa Antiga em 13 volumes iniciada em 1879 e A Ribeira de Lisboa de 1893:

Entre esses operários da terra, e por meio das montuosas médas de pinho, e por entre as cordilheiras do mercado do tojo, ali erguidas de quando, em quando, zagarelhavam os operários do mar, os barqueiros com as suas vozes roucas, os fragateiros da Moita ou de agua-acima; e as fragatilhas, os saveiros, as muletas, aproavam, em renques ao longo da praia, lembrando a um estudantinho de humanidades (como eu era) a esquadra grega dos cercadores de Troia, prófugos longos annos de roda dos mares,.... maria omnia circum. [8]

e mais adiante:

Na orla, á beira-Tejo, agazalhavam-se e compunham-se as barcas pescadoras, as muletas da sardinha, as faluas cacilheiras, os saveiros de agua-arriba, e até, observa Frei Nicolau de Oliveira, «navios de alto bordo, com que se navega para as conquistas; e são muitos» acrescenta elle. [9]

Assim, a partir das embarcações de pescadores que figuram nos quadros, neste texto apenas nos debruçaremos sobre um tipo de embarcação, o que apresenta uma grande vela latina e um pequeno mastro inclinado para a frente, ou seja o Barco de Riba Tejo e a Muleta.

Referiremos um outro tipo de embarcações de vela latina e mastro inclinado para a frente, a partir de outras imagens, o Batel do Tejo e o Bote d’água acima.

Iremos socorrer-nos de muita da bibliografia existente sobre o tema, que iremos apontando ao longo do texto.


[1] Fernando Pessoa, X. Mar Portuguez, in Mensagem II parte, Fernando Pessoa - Obra Poética Companhia Aguilar Editora Rio de Janeiro 1965. (pág. 82).

[2] Frei Nicolau de Oliveira (1566-1634), Tratado Quarto do Sitio de Lisboa, pág.73 do Livro das Grandezas de Lisboa Composto pelo padre Frey Nicolao d’Oliveira Religioso da Ordë da Sãctissima Trindade & natural da mesma Cidade. Dirigido a D. Pedro d’Alcaçova Alcayde mor das tres Villas, Campo mayor, Ougella, & Idanha a nova, & Comendador das Idanhas. Com todas as Licenças necessarias. Impresso em Lisboa por Iorge Rodriguez. Anno 1620. (pág.5).

[3] Relaçam em que se trata & faz hüa breve descriçaõ dos arredores mais chegados à Cidade de Lisboa, & seus arrabaldes, das partes notaveis, Igrejas, Hermidas, & Conventos que tem, começando logo da barra, vindo corredo por toda a praya até enxobregas, & dahi pella parte de cima até São Bento o novo Publicada nos Anais das Bibliotecas e Museus Municipais n.º11, Jan. a Mar. Lisboa 1934. (pág 23)

[4] João Pedrozo Gomes da Silva (1825-1890) gravuras e Pedro Wenceslau de Brito Aranha (1833-1914) texto do indice alphabetico e descriptivo, in A Gravura de Madeira em Portugal - Estudos em todas as especialidades ediversos estylos, por J. Pedrozo, Lisboa, Empreza Horas Romanticas editou, 1872. (p. 8).

[5] Ramalho Ortigão O Culto da Arte em Portugal, António Maria Pereira, Livreiro-Editor 50-Rua Augusta-52, Lisboa 1896. (pág. 100, 101 e 127).

[6] Padre Fernando Oliveira (c.1507- 1585?), Liuro da fabrica das naos / composto de novo pllo. Licenciado Fernando Oliveira. - [ca 1580]. - [3] f., [164] p., enc. : il. ; 31 cm  BND http://purl.pt/6744 (pág. 43)

[7] Idem (pág. 46)

[8] Tradução: todos os mares in Júlio de Castilho (1840-1919) A Ribeira de Lisboa Descripção Histórica da Margem do Tejo desde a Madre-De-Deus até Santos-O-Velho, Imprensa Nacional Lisboa MDCCCXCIII Livro I Capitulo XIII (pág. 81)

[9] Júlio de Castilho (1840-1919) A Ribeira de Lisboa Descripção Histórica da Margem do Tejo desde a Madre-De-Deus até Santos-O-Velho, Imprensa Nacional Lisboa MDCCCXCIII. Livro II Capitulo VI (pag.137).

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Deambulações pelo Castelo da rua de Santa Catarina 3 parte

 

Cap. 3 - A Torre de Belém e o espírito romântico.

A Torre de Belém, alterada ou mesmo perdida a sua função militar, foi-se degradando ao ponto de Almeida Garrett escrever no seu Camões:

Juncto da torre antiga, e veneranda,
- Hoje mal conservado monumento
Das glórias de Manoel, ánchora desce…
[1]

E será precisamente o Romantismo, na transição do século XVIII para o XIX, que reabilitará a sua imagem.

E se a Torre de Belém não muda, com o Romantismo, muda a maneira como é vista.

O espírito romântico

O romantismo tem origem no movimento alemão dos finais do século XVIII, significativamente intitulado Sturm und Drang (Tempestade e Ímpeto).

Simplificando, o Romantismo procura o “sublime” que vê na Natureza como um ambiente duro e hostil que nos provoca a angústia da nossa pequenez face ao infinito e onde descobrimos o sentido trágico da existência e do nosso inexorável destino. Por isso acentua o movimento, o dramático e o trágico.

O artista romântico procura exprimir esse sublime, por uma arte dramática, onde, numa visão violenta, selvagem e grandiosa da realidade, o homem se confronta com o seu destino.

Assim um temporal, um mar em tempestade, a força dos ventos, um naufrágio, tornam-se temas que através da visão do artista se podem elevar à categoria de sublime.

O Naufrágio de um Cargueiro de W. M. Turner

Para ilustrar o tema do naufrágio nesta procura de imagens do sublime, com tempestades, mares revoltos, marinheiros e pescadores lutando contra a Natureza, destaca-se o jovem William Turner (1775-1851), de quem, entre diversas pinturas, escolhemos o quadro O Naufrágio do Cargueiro de 1801, já que o podemos admirar na Fundação Calouste Gulbenkian em Lisboa, a que pertence.

rom1fig. 1 - Joseph Mallord William Turner (1775–1851), Naufrágio de um Cargueiro (The Wreck of a Transport Ship)  c.1810. Óleo sobre tela 173 x 245 cm. Museu Calouste Gulbenkian, Lisboa.

O quadro representa o naufrágio de um navio, que com os mastros partidos se adorna à esquerda da composição, enquanto os náufragos parecem perdidos na violência do naufrágio agarrando-se às frágeis embarcações que os tentam socorrer no meio das violentas vagas, com:…o desamor à vida quando o vento grita temporais / e a morte vem abraçar os homens na espuma das vagas; [2]

O naufrágio e a fúria das águas e dos ventos provocam-nos um sentimento de solidariedade com os náufragos e os que os tentam salvar, e comove-nos a indefinição e o temor que nos provoca a inútil luta do homem contra o seu fado ou destino.

Assim este quadro faz-nos sentir como José Régio, no poema Portugal de todo o Mundo do livro precisamente intitulado Fado:

Em mim se rasgam velas
Se abatem mastros fendidos,
E das águas amarelas
Se esforcem para as estrelas
Mãos de braços submergidos…
 [3]

A composição do quadro

O espaço da composição, aparentemente caótico, constrói-se e desenvolve-se a partir de diagonais formadas por mastros e remos quebrados, a que se justapõem as curvas de redemoinhos das águas em turbilhão.

rom2fig. 2 – As diagonais que estruturam o quadro.

Essas diagonais remetem o olhar do espectador para uma mancha clara como um incêndio, que no centro da composição contrasta com o casco adornado e negro do navio.

E essas diagonais que estruturam a composição estão já apontadas no esboço do artista para a preparação do quadro.

D05398fig. 3 - Joseph Mallord William Turner (1775–1851) Study for ‘The Wreck of a Transport Ship’ From Shipwreck Sketchbook Turner Bequest LXXXVII c.1805–10, 118 x 185 mm Tate Gallery, Londres.

D05398fig. 4 – As diagonais estruturantes no esboço preparatório do quadro.


[1] Almeida Garrett Camões Canto I Na Livraria Nacional e Estrangeira Rue Mignon, n.º2, faub.St.-Germain, Paris 1825 (pág. 9)

[2] Manuel da Fonseca Canção de Hans o marinheiro, Publicado no Diabo n.º222 de 24 de Dezembro de 1938 e dedicado a Jorge Amado in Obra poética Editorial Caminho, 1984 (pág.62).

[3] José Régio (José Maria dos Reis Pereira 1901-1969) e Júlio (Júlio Maria dos Reis Pereira, ou Júlio ou Saúl Dias 1902 — 1983) Portugal de Todo o Mundo in Fado, versos de José Régio e desenhos de Júlio, Arménio Amado, Editor – Coimbra 1941.(pág.17).

Os quadros de John Thomas Serres

Sem a expressividade nem o dramatismo do Naufrágio de Turner, o inglês John Thomas Serres [1] (1759-1825) pintou no início do século XIX dois quadros que exemplificam um Romantismo mais tranquilo do início do século XIX (uma das pinturas está datada de 1811 e a outra de 1826) e onde

A paisagem é o mar, o rio, a torre,
Postos nos lugares certos por acaso.
[2]

Um dos quadros encontra-se no Museu da Cidade de Lisboa e o outro está reproduzido na Wikimedia Commons. Algo semelhantes os quadros apenas diferem nos pormenores do barco de pescadores no primeiro plano e na embarcação de três mastros, que no primeiro quadro está saindo da barra e no outro está chegando ao Tejo.

O quadro do Museu da Cidade de Lisboa.

rom4fig. 5 - John Thomas Serres (1759-1825) Torre de Belém 1811 óleo sobre tela 139,5 x 169,5 cm. Museu da Cidade de Lisboa .

E o quadro, de colecção particular, reproduzido na Wilkimedia Commons.

rom5fig. 6 - John Thomas Serres (1759-1825) An English frigate in choppy waters in the Tagus passing the Belem Tower 1823 óleo s/ tela 35,6 x 44,4 cm. Wikimedia Commons.

Nestes quadros, com um céu de cores e sons de tempestade, a tarde declina com uma luz ténue que se situa na soleira do crepúsculo, num Tejo agitado de ondas cor de azeitona surgem três elementos de tons amarelos pela luz poente, que ocupam o centro da composição: a Torre de Belém, uma fragata britânica e uma pequena embarcação de pesca.

Ao fundo citando Sophia:

Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata
Lisboa oscilando como uma grande barca.
 [3]

E podíamos ainda dizer como Pascoais, Lisboa, branca ao pé do Tejo e na outra margem em mancha azul, a Arrábida saudosa. [4] 

[1] John Thomas Serres filho de um pintor, especializou-se na pintura naval e está representado em diversos museus como a Tate Gallery e a Royal Collection em Londres, no National Maritime Museum de Greenwich e ainda noutros museus internacionais como a National Gallery of Art de Washington. Foi Mestre de Desenho do Royal Naval College e foi nomeado, pela morte do pai em 1793 Pintor de Marinhas do Rei Georges III.

[2] Egito Gonçalves Maquinismo in Cadernos das Nove Musas – com um desenho de Fernando Lanhas 1ª edição Maranus Porto, 1952 e in O Pendulo Afectivo Antologia Poética 1950-1990 Edições Afrontamento 1991.

[3] Sophia de Mello Breiner Andersen Lisboa 1977 in Navegações 1ª edição INCM 1983. Assírio & Alvim Lisboa 2015 (pág.31)

Porque digo / Lisboa com seu nome de ser e de não-ser / Com seus meandros de espanto insónia e lata / E seu secreto rebrilhar de coisa de teatro / Seu conivente sorrir de intriga e máscara / Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata / Lisboa oscilando como uma grande barca / Lisboa cruelmente construída ao longo da sua própria ausência / Digo o nome da cidade / – Digo para ver

[4] Teixeira de Pascoais (Joaquim Pereira Teixeira de Vasconcelos 1877- 1952) Painel. Com Desenhos de Almada Negreiros. Ed. Oficina Gráfica, Limitada. 1935.

John Thomas Serres e a visão romântica da Torre como um navio

A Torre de Belém de pedra e renda [1] surge navegando, soberba, como uma enorme embarcação, protectora e vigilante entre revoltas e apressadas ondas, com o sopro do vento, a levantar a cara
e a escutar a voz do rio.
[2]

Ali onde o Tejo furioso em ondas e negaças de mar a valer [3], perde o sabor das águas com que nasceu.

rom6fig. 7 – A Torre de Belém destacada no quadro de 1811.

rom7fig. 8 – A Torre de Belém destacada no quadro de 1823.

rom8fig. 9 – Comparação entre a Torre de Belém no quadro do Museu de Lisboa e no quadro da Wilkimedia Commons.

No primeiro quadro de 1811 a Torre colocada mais ao centro da composição, tem hasteada a bandeira nacional utilizada entre 1707 e 1816, e nenhuma personagem está representada.

Já na segunda pintura datada de 1823, após a Revolução Liberal o mastro não apresenta nenhuma bandeira e na Torre que surge mais à esquerda e isolada na composição, parecem figurar algumas personagens.


[1] Maria Teresa Horta Olhar in Poemas para Leonor, Ed. D. Quixote Lisboa 2012.

As águas recamadas
De saudade e
a Torre
De Belém de pedra e renda.

[2] Cesare Pavese Paesaggio VIII 1940 in Poesie, con introduzione di Massimo Mila, Nuova Universale Einaudi, Torino 1961 . (pag.179)

I ricordi cominciano nella sera
sotto il fiato del vento a levare il volto
e ascoltare la voce del fiume.
L'acqua
è la stessa, nel buio, degli anni morti…

[3] Luís Chaves Dos Barcos Miúdos de Lisboa. Botes, Canoas, Chatas etc. (Nota Etnográfica Olisiponense) in Revista Municipal n.º 62 1954 (pág. 21 a 32).

A fragata britânica

Junto à Torre de Belém como um navio e com ela dando sentido aos versos de Sophia: a porta da cidade é feita de dois barcos [1], uma fragata britânica de três mastros ao serviço de Sua Majestade [2] mostrando as brancas velas e redondas [3].

Significativa e serenamente num dos quadros parte e no outro chega, dessa viagem para mundos vislumbrados e prometidos a que o destino, com doce certeza, os chamou.

Pelas datas percebemos que, no quadro de 1811, o navio veio cumprir a aliança com Portugal no conflito conhecido como Guerra Peninsular.

No outro, de 1823, com a Revolução Liberal e o regresso do Brasil, os britânicos regressam a Portugal.

rom9fig. 10 – A fragata partindo de Lisboa no quadro de 1811.

rom10fig. 11 – A fragata entrando na barra do Tejo no quadro de 1823.

rom11fig. 12 – Comparação entre a fragata britânica no quadro do museu da cidade de Lisboa e no quadro da Wilkimedia.

De notar o pavilhão conhecido como Red Ensign ou Red Duster que a partir do século XVIII passou a identificar os navios britânicos.

Trata-se de uma fragata da classe Leda que foram construídas no início do século XIX e que lutaram nas Guerras Napoleónicas, de que é exemplo entre outras a Pomone de que apresentamos uma litografia.

rom12fig. 13 - T. G. Dutton (1819-1891) Fragata Pomone Litografia colorida a partir de uma pintura de G.F. St. John wilkimédia.

E das diversas pinturas da época escolhemos a de Thomas Luny, A Frigate of the Royal Navy leaving Cork Harbour.

rom17fig. 14 - Thomas Luny (1759–1837) A Frigate of the Royal Navy leaving Cork Harbour 1830. Óleo sobre tela 38,5 × 51,5 cm. colecção particular.

rom13fig. 15 – Desenho de uma fragata Leda. In blogue Alternavios http://alernavios.blogspot.pt/2015_03_01_archive.html


[1] Sophia de Mello Breiner Andersen Mar Novo (1ª edição 1958 Guimarães Editores). Lisboa, Editorial Caminho, 2003.

Na cidade da realidade encontrada e amada
O sol dá lentamente a volta às praças e aos quartos
Para varrer o chão e preparar a noite
Que é redonda azul e atenta
E a porta da cidade é feita de dois barcos
Oh quem dirá o verde o azul e o fresco
O hálito da água e o perfume do vento
Vê-se a manhã criar uma por uma cada coisa
Vê-se quebrar a onda da noite transparente.

[2] No primeiro quadro embora o rei fosse Georges III (George William Frederick, 1738-1820) que reinou entre 1801 e 1820, foi precisamente no ano de 1811 em que o quadro está datado que o filho Georges August Frederick , Príncipe de Gales (1762-1830), o futuro Georges IV assumiu a Regência do Reino, tendo sido coroado em 1820. O segundo quadro datado de 1823 corresponde ao reinado de Georges IV. A época caracteriza-se por uma forte relação e interferência do Reino Unido e Portugal. Lembre-se as consequências da independência dos Estados Unidos (1776), as Guerras Napoleónicas e as Invasões Francesas (1808 a 1810), a Revolução Liberal (1820) e a independência do Brasil (1822).

[3] Luís de Camões Lusíadas canto IX Estrofe XLIX.

 

O barco de pesca

No primeiro plano enfrentando uma larga, crua e inquieta onda cor de azeitona, uma embarcação típica do Tejo, com mastro inclinado para a proa, nas águas revoltas do Tejo, é manobrada por uma infatigável equipagem de pescadores salgados de espuma arremessada pelos ventos [1].

E como canta Hans o marinheiro:

…o desamor à vida quando o vento grita temporais
e a morte vem abraçar os homens na espuma das vagas;
 [2]

Esta embarcação de pescadores colocada no centro dos quadros simboliza a permanente luta do Homem contra o naufrágio da existência no seu permanente confronto com a Natureza,

com que o Céu (seja força, acaso, ou sorte)
Em tão pesada perdição nos lança.
[3]

rom6fig. 16 – O barco de pesca no quadro de 1811.

rom10fig. 17 – O barco de pesca no quadro de 1826.

rom16fig. 18 - A embarcação de pesca no quadro do Museu da cidade de Lisboa eno quadro da Wikilmédia.

A partir do(s) barco(s) representado(s) no primeiro plano dos quadros de John Thomas Serres, que não são semelhantes e porque sobre os barcos do Tejo existe muita matéria, abrir-se-á um novo

capítulo 4 - Os barcos do Tejo a publicar num próximo post.


[1] Fernando Pessoa / Álvaro de Campos. Ode marítima 1915 in Ficções do Interlúdio in Fernando Pessoa Obra Poética Biblioteca Luso-Brasileira Companhia Aguilar Editora Rio de Janeiro 1965. (pág.322).

[2] Manuel da Fonseca Canção de Hans, o marinheiro

[3] John Milton (1608-1674) Paradise Lost Book I (pág.6 v.128 a 137) 1667 in Paradise Lost a Poem in Twelve Books, Published by Timothy Bedlington Boston 1820.

O Prince, O Chief of many Throned Powers,
That led th’ imbattelld Seraphim to Warr
Under thy conduct, and in dreadful deeds 130
Fearless, endanger’d Heav’ns perpetual King;
And put to proof his high Supremacy,
Whether upheld by strength, or Chance, or Fate,
Too well I see and rue the dire event,
That with sad overthrow and foul defeat 135
Hath lost us Heav’n, and all this mighty Host
In horrible destruction laid thus low…

Tradução de António José de Lima Leitão (1787-1856):

Príncipe, chefe dos imensos tronos
Que às batalhas trouxeste em teu comando,
Tu que, por feitos da mais nobre audácia,
Querendo conhecer a quanto avonda
Do Rei dos Céus a grã supremacia,
Em p’rigo lhe puseste o império e a glória,
Vejo, e punge-me assaz, o atroz sucesso

Com que o Céu (seja força, acaso, ou sorte)
Em tão pesada perdição nos lança
Com tamanha vergonha e tanto estrago;
Vejo, e punge-me assaz, que a tal baixeza
Chegasse nosso exército tão forte,
A ponto de sofrer quanto é possível
Que substâncias do Céu e Deuses sofram.