Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















quarta-feira, 12 de abril de 2017

O rio e o mar na foz do Douro 5

 
II Parte - Deriva pela Foz do lado do rio (continuação)
 
Da Cantareira à Senhora da Luz 2
 
Apontamentos sobre a acção de Dom Miguel da Silva na Foz do Douro [1]
 
Não é possível, nem justo, abordar a Barra do Douro e a Cantareira sem evocar a vontade de um só homem, uma das mais extraordinárias figuras do nosso Renascimento, [2] Dom Miguel da Silva (1480-1556).
Da vida e obra de Dom Miguel da Silva remetemos para esse excelente texto de Mário Barroca As Fortificações do Litoral Portuense, e para outros autores que abordaram a vida e a acção de D. Miguel da Silva. [3]
Aqui interessa-nos referir, sucintamente, a acção de Dom Miguel, quando regressado de Roma em 1525, se ocupa da Barra do Douro. Com a sua formação clássica, pretendeu o prelado construir um atrium, uma organizada entrada na barra do Douro, com algumas semelhanças com aquela que os romanos haviam edificado na foz do Tibre (Tevere) na antiga Ostia.

Para esta intervenção na foz do Douro encarregou Francesco di Cremona [4] da elaboraração de um plano para a foz do Douro que consistia essencialmente em três frentes: a sinalização dos vários rochedos que dificultavam a navegação na foz do Douro, onde se salienta a construção de um pequeno templo; a edificação do Farol de S. Miguel-o-Anjo, e a reforma da igreja paroquial da Foz.


D. Miguel e Francesco di Cremona conheciam certamente os portos, fluvial e marítimo, de Roma.
Este que se situava junto à foz do Tibre, e que tinha sido mandado construir pelo imperador Claudio no ano de 42 d.C. e acabado no tempo de Nero em 64 d.C., tendo tomado o nome de Porto di Claudio. Em 103 d.C. o imperador Trajano, para o ampliar e oferecer maior segurança às embarcações, manda construir o porto hexagonal (Portus Traiani).

Terá sido este porto romano, adaptado necessariamente à foz do Douro e à sua configuração e escala, que serviu de modelo para a intervenção promovida por D. Miguel da Silva.
O porto de Ostia é referido e descrito por vários autores romanos, entre os quais Suetónio (Gaius Suetonius Tranquillus 69 d.C.-c.141d.C.): Portum Ostiae exstruxit circumducto dextra sinistraque brachio et ad introitum profundo iam solo mole obiecta; quam quo stabilius fundaret, navem ante demersit, qua magnus obeliscus ex Aegypto fuerat advectus, congestisque pilis superposuit altissimam turrem in exemplum Alexandrini Phari, ut ad nocturnos ignes cursum navigia dirigerent. [5]
 
Não dominando o Latim sigo um tradução para italiano do século XVIII:
Quanto, al porto d'Ostia tirò un' ala di muro dalla destra, e uno dalla sinistra; ed allo entrare, dove il mare era ancor profondo, tirò un Molo attraverso. E per gittarci fondamenti piti gagliardi e stabili, affondò nel detto luogo la nave, che aveva portato l'Aguglia grande d'Egitto, ed accozzati infieme molti pilastri, vi edificò lopra una torre altissìma, come quella del Faro Alessandrino, per tenervi il lume acceso la notte, acciochè i naviganti conosesseno il cammino. [6]
 
[Quanto ao porto de Ostia [Claudio] construiu um paredão à direita, e outro à esquerda; e ao entrar, onde o mar era ainda mais profundo, construiu um cais. E para tornar as fundações sólidas e estáveis, afundou no referido lugar o navio, que tinha trazido o grande obelisco do Egito, sobre o qual, apoiada em muitos pilares, edificou uma torre muito alta, como a do Farol de Alexandria, para manter uma luz acesa de forma que os marinheiros soubessem o percurso durante a noite.]

[1] Ver Mário Barroca, A Foz de D. Miguel da Silva in As Fortificações do Litoral Portuense, Edições Inapa S. A. Campo de Santa Clara Lisboa 2001. (pág. 17 e seguintes).
[2] Mário Barroca, A Foz de D. Miguel da Silva in As Fortificações do Litoral Portuense, Edições Inapa S. A. Campo de Santa Clara Lisboa 2001. (pág. 17).
[3] Para além das obras de Mário Barroca, e Marta Arriscado de Oliveira, já aqui citados, também, entre outros, S. de Oliveira Maia, Rafael Moreira, Isabel Queirós, António Manuel S. P. Silva, Susana Matos Abreu
[4] Ver Susana Matos Abreu, A obra do arquitecto italiano Francesco da Cremona (c.1480-c.1550) em Portugal: novas pistas de investigação.in A Encomenda, o Artista, a Obra, coord. Natália Marinho Ferreira Alves, CEPESE – Centro de Estudos da População, Economia e Sociedade, Rua do Campo Alegre 1055, Porto 2010. (pág. 557 e seguintes).
[5] G. Suetonii Tranquilli, De Vita XII Caesarum, (20.3).
[6] Gaio Suetonio Tranquillo Le Vite De’Dodici Cesari di Gayo Suetonio Tranquillo Tradotta in volgar Fiorentino da F. Paolo del Rosso, Cavalier Gerosolimitano, Nuova Edizione com le vere effigie de’ Cesari, ed altri illustrazioni dichiarate nella Lettera dell’Editore a’ Lettori. In Venezia Apresso Francesco Piacentini. M DCC XXXVIII. (pág.222).
 
O Templo de Portunus e o Farol no porto romano de Ostia
 
Para além de Suetónio Dom Miguel conhecia certamente o trabalho de Andrea Fulvio (c.1470-1527), publicado com o título de L’Antichita di Roma e onde este autor descreve o porto romano de Ostia, referindo o templo de Portuno e o Farol (Tempio di Portunno. Torre del faro à Ostia fatta da Claudio). [1]
 
Escreve Andrea Fulvio:
Nel detto porto fu el Tempio dello Dio Portunno, il quale era chiamato cosi per esser sopra il porti, onde si celebravano le feste di quello chiamate da Portunnali. Edificò ancora el detto Principe dentro al mare una torre di marmo a similitudine del faro di Alessandria ove la notte si tiene acceso il lume, per mostrare la via a marinari che volessino entrare in porto: laqual torre insieme col porto dall'onde, è stata guasta & portata via. [2]
 
[Nesse porto estava o Templo do Deus Portuno, que era chamado por ser o protector dos portos, de quem se celebravam as festas chamadas de Portunali. O dito Príncipe edificou também no meio do mar uma torre de mármore semelhante ao Farol de Alexandria, onde à noite estava aceso um fogo, para mostrar o percurso a seguir pelos marinheiros que queriam entrar no porto: a qual torre, juntamente com o porto, as ondas deterioraram e destruíram.]

Existe uma reconstituição do antigo porto Claudio (Romanvs Portvs A Clvdio Imp. Constrvctvs), na Galeria dos Mapas Geográficos do Palácio Belvedere [3] realizada a partir de um desenho de Pirro Ligorio. [4]

 fig. 13 - (A partir de um desenho de 1554 de Pirro Ligorio) Romanvs Portvs A Clvdio Imp. Constrvctvs (Reconstituição do antigo porto Claudio). Galeria dos Mapas Geográficos no Palácio Belvedere, Roma.

 
Neste fresco estão representados os cais semicirculares do Porto Claudio, na entrada do qual está uma estátua de Neptuno e junto a ela a torre do Farol. No lado esquerdo o Porto de Tibério com a sua forma hexagonal. Junto à entrada do recinto no lado esquerdo o Templo de Portuno o deus das portas e dos portos. (ver fig.23).
A partir deste desenho foram realizadas durante o século XVI várias cópias, das quais apresentamos a de Braun e Hogenberg de 1617.



fig. 14 - Braun e Hogenberg, Ostia gravura 29,5 x 49,5 cm. no Liber Quartus Urbium Praecipuarum Totius Mundi. Cologne, Petrus von Brachel, 1617. A 1ª edição do Civitates Orbis Terrarum IV é de 1588.

 
fig. 15 – Destaque da entrada do porto de Ostia com o templo de Portunus. Braun e Hogenberg, Ostia gravura 29,5 x 49,5 cm. no Liber Quartus Urbium Praecipuarum Totius Mundi. Cologne, Petrus von Brachel, 1617.


  fig. 16 – Pormenor de Braun e Hogenberg, Ostia gravura 29,5 x 49,5 cm. no Liber Quartus Urbium Praecipuarum Totius Mundi. Cologne, Petrus von Brachel, 1617.
 
Legenda:
1 – Via a portu Romani 2 – Porta precípua Romana 3 – Templum 4 – Aqueductus 5 – Porta Secunda … 10 – Muri totum part, ambitus.
 

[1] Claudio é Tiberius Claudius Caesar Augustus Germanicus (10 a.C.-54 d.C.), imperador romano.
[2] Andrea Fulvio (c.1470-1527), L’Antichita di Roma di Andrea Fulvio, Antiquario romano. Di nuovo con ogni diligenza corretta & ampliata, con gli adornamenti di disegni degli edifici Antichi & Moderni. In Venetia, Per Girolamo Francini Libraro in Roma all'insegna del Fonte. M D LXXX VIII. (Cap. XXIII Della porta & della via Portuense, pág. 20 e 21).
[3] O Palácio del Belvedere em Roma foi edificado para o papaJúlio II (Giuliano della Rovere 1443-1513) por Bramante (Donato "Donnino" di Angelo di Pascuccio dito il Bramante 1444-1514), sofrendo reconstruções ainda no século XVI por Baldassarre Tommaso Peruzzi (1481-1536) e em 1541, por Antonio da Sangallo, o jovem (Antonio Cordini 1483-1546) e Pirro Ligorio (1513-1583). Hoje está aí instalado o Museu do Vaticano.
[4] Pirro Ligorio (c. 1510-1583) foi o autor, entre outras obras, da Villa d’Este (1563-1573) conhecida pelos seus magníficos jardins, e durante o papado de Paulo IV (1555-59) inicia o Casino, que era ao mesmo tempo Academia e Museu. Entre 1560 e 1565 intervém no Belvedere no Vaticano realizando no seu pátio um anfiteatro.
 
As intervenções de D. Miguel Silva na barra do Douro
 
A sinalização dos rochedos, a torrinha redonda, e o Togado.
 
Manuel Pimentel, descrevendo a barra do Douro, refere a Cruz ou pilar, que he huma rocha onde há huma torrinha redonda com a Ermida de S.Miguel, que está na borda da agua na ponta das pedras de São João da Foz, e assim se governa até estar perto da Cruz, ou pilar, que he huma rocha, onde ha huma torrinha redonda, costeando-a o mais de perto que puder ser, deixando-a a bombordo; e outra pedra, que está em meio canal, ficará a estibordo através do navio; e passada ella, se vai por meio canal até a Cidade, e se amarra ao cais, ou no meio do rio. [1]
Essa torrinha redonda terá sido mandada construir, em 1536, por D. Miguel da Silva. Tratava-se de um pequeno templo, um tempietto de planta circular, que assinalava um dos rochedos da barra depois conhecido como Cruz de Ferro.
Nesse pequeno templo terá sido colocada uma estátua, que quando foi retirada do Douro em 1867 no âmbito dos trabalhos conduzidos pelo engenheiro Manuel Afonso Espergueira (1835-1917), ficou conhecida pelo nome de O Togado.
O facto foi noticiado em O Comércio do Porto na edição do dia 13 de Junho de 1868, que referia o achado de umaestátua de pedra de granito, que mede 1m,30 de altura, (…) bem esculpida e representava um homem vestido à romana. E considerava que é de crer que esta Estátua fosse colocada na primeira Cruz de Ferro que existiu na Barra. [2]
Foi recolhida pelo arquitecto e arqueólogo Joaquim Possidónio da Silva (1806-1896), 1º director da Real Associação dos Arquitectos Civis e Arqueólogos Portugueses (fundada em 1863), que a adquiriu para o Museu do Carmo em 1886.
O Catálogo do Museu da referida Associação de 1892 refere essa estátua:
N.º 3872 —Estatua de granito que servia no seculo XVI para indicar a entrada dos navios no rio Douro,- que o bispo D. Miguel mandára alli collocar a fim de evitar naufrágios. Esta estatua havia caído no fundo do rio, porém foi achada ha muitos annos na ocasião de se concertar o caes, tendo ficado também por muito tempo exposta na praia. O sr. Possidonio da Silva conseguiu adquiri-la em 1886 para se conservar a memória do humanitário prelado que tomou tão util providencia. [3]

Na mesma ocasião também foi descoberta uma lápide e foram recolhidos diversos fragmentos de colunas. As colunas seriam marcas que assinalavam os rochedos por entre os quais se navegava e uma lápide de granito, com uma inscrição, também guardada no Museu e referida no citado catálogo, com o n.º 3872 bisInscripção em pedra de granito pertencente á estatua a que se refere o numero anterior.
MICHAELSILVIV / EPISCOP. VISENS. / NAVIGANTIVM SALVTISCAVSA / TVRRISIIFECIT / ETIIIICOLVMNAS / POSVIT / ANN. M. D.XXXV. [4]
[Miguel Silva Bispo vendo a necessidade de salvar navegantes fez duas torres e colocou 4 colunas no ano de 1535.]

O Togado
 
O Togado é uma estátua em granito, que representa uma figura masculina trajando uma túnica curta, coberta por uma toga. O braço direito repousa na dobra da toga e o braço esquerdo segura um objecto indeterminado.


 fig. 17 – Em cima O Togado in Portus Revista de Arqueologia Portuense n.º10, Junho de 2006.granito 123 x 41 x 50 cm. Museu Nacional de Arqueologia. Em baixo O Togado por Gouveia Portuense.



 
O Togado como Portumnus
 
Para além de uma polémica sobre a datação da estátua, a consideração da cultura clássica de Dom Miguel da Silva e da sua estadia em Roma, somada com a interpretação do objecto que está na mão esquerda como uma chave, levou Rafael Moreira a avançar que o Togado seria uma representação de Portunus (Portumnus) o deus romanos das Portas e dos Portos. Esta ideia da protecção dos portos é referida por Virgílio na Eneida et pater ipse manu magna Portunus euntem impulit (o próprio pai Portunus com grande mão dirigiu o navio). [5]

Apesar da palavra portus se aplicar a um porto de mar, e o porto fluvial se chamar emporium, Portunus protegia quer o porto de Ostia na foz do Tibre, quer o porto Tiberino, um porto fluvial dentro de Roma localizado perto do Forum Boarium. Aí existia um templo, que se conserva ainda hoje, consagrado a Portunus. As festas dedicadas ao deus, as Portunálias, realizavam-se a 17 de Agosto.


fig. 18 - Philippe Galle (1537-1612),Portunus estampa 6 in Semideorum marinorum amnicorumque sigillariae imagines perelegantes in picturae statuariaeque artis tyronum usum / à Philippo Gallaeo delineatae, sculptae et aeditae, Antverpiae Ambivaritor, 1586. Bibliothèque nationale de France.

 Mas Portunus aparece na sua iconografia com uma representação relacionada com o deus Janus, com o qual partilha o símbolo da chave. Quer em moedas quer como figura de proa de navios era muitas vezes representado como um ser bicéfalo ou bifronte (com duas cabeças ou com duas caras), em que cada uma está voltada para direções opostas.
O relacionamento entre os dois deuses é sublinhado pelo facto de que a data escolhida para a dedicação do templo reconstruído de Janus no Fórum Holitorium (o mercado dos vegetais) pelo imperador Tiberius é o dia das Portunalias, 17 de Agosto.
Portunus, como protector dos portos seria, por isso, como Janus, protector do comércio e da navegação.


fig. 19 - Il dio Portunus nelle vesti di Janus.

Segundo Ovídio Portunus (para os gregos Palemone) seria filho de Mater Matuta (para os gregos Lucoteia):
Leucothea Grais, Matuta vocabere nostris; in portus nato ius erit omne tuo, quem nos Portunum, sua lingua Palaemona dicet. [6]
 
[Leucotea serás chamada pelos Gregos, e por nós de Matuta; e o poder sobre todos os portos será inteiramente do teu filho, que diremos Portunus, e Palemone na sua língua de origem.]

A representação de Janus e de Portunus com duas faces está associada à Prudência, ou seja ver sempre os dois lados de um problema e olhar para o passado e para o futuro antes de uma decisão; e à Concórdia, ou seja a tolerância para duas diferentes opiniões,

Guillaume de la Perriere Toussaint no seu livro de emblemas Le Theatre des Bons Engins, publicado no século XVI, associa o deus Janus, representado com uma chave na mão, a estas virtudes que davam a paz e a tranquilidade.

fig. 20 - Guillaume de la Perriere Toussaint (c.1500-1565), Emblema I, Pour viure en paix & tranquilité in Le Theatre des Bons Engins.1545.
 
Le Dieu Ianus jadis à deux uisaiges,
Noz anciens ont pourtraict & trassé;
Pour demonstrer que l’aduis des gens saiges,
Vise au futur, aussi bien qu’au passé.
Tout temps doibt estre (en effect) compassé,
Et du passé auoir la souuenance:
Pour au futur preueoir en prouidence,
Suyuant Vertu en toute qualité.
Qui le fera uerra par euidence,
Qu’il pourra viure en grand tranquilité.
[7]

[O Deus Janus outrora com duas caras,
Os nossos ancestrais o seu retrato traçaram;
Para demonstrar que a conselho das gentes sábias,
Olha o futuro mas também o passado.
Todo o tempo deve ser (com efeito) compassado,
E do passado deve ter a lembrança;
Para o futuro prever em providência,
Seguindo Virtude em toda a qualidade.
O que o fará ver por evidência,
Que poderá viver em grande tranquilidade.]
 

[1] Manoel de Pimentel (1650-1719), A Arte de Navegar em que se ensinão as regras praticas, e os modos de cartear, e de graduar a Balestilha por via de numeros e muitos problemas uteis á navegação, e Roteiro das Viagens e Costas Marítimas de Guiné, Angola, Brazil, Indias, e Ilhas Occidentais, e Orientaes, Novamente emendado, e accrescentadas muitas derrotas. Dedicada a ElRei D. João o V Por Manoel Pimentel Fidalgo da Casa de S. Magestade, e Cosmografo Mor do Reino. Lisboa, Na Officina de Miguel Manescal da Costa. Anno M. DCC.LXII. (pág. 524).
[2] Ver Mário Barroca, A Foz de D. Miguel da Silva in As Fortificações do Litoral Portuense, Edições Inapa S. A. Campo de Santa Clara Lisboa 2001. E Isabel Queirós, A reabilitação da barra do Douro no século XVI: um desafio urbanístico à talassocracia atlântica, https://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:CXslaWoVFdIJ:https://www.citcem.org/encontro/pdf/new_03/TEXTO%25202%2520
[3] Catálogo do Museu de Archeologia da Real Associação dos Architectos Civis e Archeologos Portuguezes, Largo do Carmo, Typographia Universal (Imprensa da Casa Real) 110, Rua do Diario de Notícias, 116, Lisboa 1892.
[4] Catálogo do Museu de Archeologia da Real Associação dos Architectos Civis e Archeologos Portuguezes, Largo do Carmo, Typographia Universal (Imprensa da Casa Real) 110, Rua do Diario de Notícias, 116, Lisboa 1892.
[5] Publio Virgilio Marone Aeneidos, in Opera Omnia Vol. Secundum, Lib. V, v. 241, Curante et Imprimente A. J. Valpv, A. M. Londini 1819. (pág. 741).
[6] Ovídio, (Publio Ovidii Nasonis, Publio Ovidio Naso, 43 a.C – 17ou18 d.C.) Fastorum Liber VI, v. 545-547, Edited with notes by A. Sidgwick, Cambridge The University Press. London Cambridge Warehouse, 17, Paternoster Row. London 1878. (pág.37).
[7] Guillaume de la Perriere Toussaint (c.1500-1565) Le Theatre des Bons Engins. Auquel sont contenuz cent Emblemes moraulx. Composé par Guillaume de la Perriere Tholosaint. 1ª edição Paris 1539. A Lyon Par Jean de Tournes, 1545.

 
O templo do Togado e o templo de Portunus
 
Segundo Mário Barroca o pequeno templo circular que abrigava a estátua do Togado seria, tal como em Roma, dedicado a Portunus.
Mário Barroca explica a diferença entre o templo romano, que em Roma ainda existe, e que tem uma planta rectangular, e o pequeno templo da Foz do Douro que tinha uma planta circular.
Com efeito, em Roma, o templo de Portunus - um dos que sobreviveu até hoje em melhor estado de conservação e que, por isso, foi elevado a modelo arquitectónico por Palladio e Sangallo - é um templo rectangular, pseudo periptrotetrástilo, com uma organização muito diferente da que D. Miguel da Silva escolheu para o templete da Foz.
No entanto, há motivos que ajudam a compreender a sua opção. No Forum Boarium, em Roma, ao lado do templo de Portumnus existe um outro templo, dedicado a Hércules, que possui planta circular e colunata.
Ora, no tempo de D. Miguel da Silva acreditava-se que o templo circular era o de Portumnus e que o rectangular correspondia à Basílica de Lucius e Caius. [1]
 
Marcus Terentius Varro (116-27 a.C.) refere que o templo de Portunus foi erguido in portu Tiberino. [2]

E Mário Barroca refere Pirro Ligorio, o autor de Delle Antichitá in Roma.

Pirro Ligorio escreve sobre o título de Tempio di Portuno, baseado no uso romano das ordens arquitectónicas, em que o Dórico era associado à força e virilidade e o Jónico e o Coríntio eram conotados com o feminino e a delicadeza.
Ma che grossezza è stata la loro á dire, che quel Tempio circolare, che e su la riva del Teuere vicino al ponte di Santa Maria dedicate à San Stefano, fosse già il Templo d'Hercole? Come se ad Hercole si facessero i Tempij d'ordine Corinthio, come si soglion fare alle Dee, & à gli Dij mollí & effeminati. Vitruvio mоstra pure che ad Hercole si facevano d’ordine Dórico et non Corinthio: senza che, come puo esser d'Hercole, se gi'a è di Portumno? Secõdo scrive Publio Vittore, il quale lo pone a piè del ponte Sublicio ò vogliamo dir d'Horatio che quivi era: & á tale Dio convien molto bene il Tempio circolare & Corinthio come é questo. [3]
 
[Mas que grossa asneira foi dizer que este Templo circular, que está na margem do Tibre perto da ponte de Santa Maria dedicada a Santo Estevão, fosse o Templo de Hércules? Como se a Hercules se fizessem templos de Ordem Coríntia, como era costume fazer aos Deuses, mas aos moles e efeminados. Vitruvio mоstra bem que os templos dedicados a Hércules eram feitos de Dórico e não Coríntio; por isso não pode ser de Hércules, mas de Portumno? Segundo escreve Publio Vittore, que o coloca na parte inferior da ponte Sublicio ou Horácio que aqui o colocava: e a tal Deus [Poturno] convém muito melhor o Templo circular e Coríntio como é este.]

O templo da Fortuna virile foi cantado por Ovídio, conotado com Portunus por Palladio e convertido na igreja de Santa Maria Egípcia, como se vê numa estampa de Piranesi.

Em Ovídio:
… discite nunc, quare Fortunae tura Virili
detis eo, calida qui locus umet aqua,
accipit ille locus posito velamine cunctas
et vitium nudi corporis omne videt;
ut tegat hoc celetque viros, Fortuna Virilis
praestat et hoc parvo ture rogata facit.
nee pigeat tritum niveo cum lacte papaver
sumere et expressis mella liquata favis;
cum primum cupido Venus est deducta marito,

hoc bibit; ex illo tempore nupta fuit.  [4]

Tradução em francês:
Sachez encore pourquoi dans ces jours du printemps
La Fortune virile accepte votre encens.
Au fond d'un temple humide, où fume une onde tiède,
La femme qui du bain implore le remède
Quitte ses vêtemens dans ce mystique enclos;
Et là sa nudité décèle ses défauts.
La fortune virile en efface la tache,
Et pour un peu d'encens les dérobe et les cache.
Buvez encore un lait mélangé de pavots
Et d'un miel exprimé de ses rayons nouveaux.
Vénus à son éppux venait d'être amenée;…
 [5]

Tradução para português:
Aprendei agora
Porque nestes dias de primavera
A Fortuna viril aceita o vosso incenso.
No interior de um húmido templo, onde paira um morno vapor,
A mulher que do banho implora o remédio
Despe as suas vestes neste mítico lugar;
E a sua nudez mostras os seus defeitos.
E a Fortuna viril apaga as manchas
E por um pouco de incenso esconde-as e lava-as.
Bebei também um leite com papoulas 

E a expressão do mel com seus novos raios. 
Como Vénus ao seu esposo se apresentou;…


fig. 21 - Andrea Palladio (1508-1580), Del Tempio Della Fortvna Virile (tempio di Portunus) in I quattro libri dell’architettura. Libro IV Cap. XIII pág. 48, 49 e 50.
 



fig. 22 - Giovanni Battista Piranesi (1720-1778), Veduta del Tempio della Fortuna virile (Portuno) oggi Santa Maria Egiziaca degli Armeni in Opere di Giovanni Battista Piranesi, Francesco Piranesi e d'altri. Firmin Didot Freres Paris 1839.

 
Mas o templo que seria dedicado a Portunus erguido por Giuliano da Sangallo (1445 ou 1452-1516) no porto junto à cidade de Ostia, era um templo circular, como se vê no desenho de Pirro Ligorio (fig.13). Aqui um desenho desse templo atribuído a Giovanni Battista Montano (c.1534-1621).


fig. 23 - Giovanni Battista Montano, (c.1534-1621) e outros, Pianta, sezione prospettica con veduta prospettica parziali del tempio di Portumno a Porto, depois de 1582 e antes de 1621, grafite, pena, aguada e aguarela sobre papel, 17,3 x 25,7 cm. In Indice de due Tomi d'Intagli Tempietti ed altro, T. V e VI, Tempietti, 144 rotondo con portico circolare.

 
Andrea Fulvio (c.1470-1527) em L’Antichita di Roma descreve o porto romano de Ostia, referindo o templo de Portuno e o Farol.

Na margem do texto, sublinhando o parágrafo está escrito:Tempio di Portunno. Torre del faro à Ostia fatta da Claudio. [6]

E no texto:
Nel detto porto fu el Tempio dello Dio Portunno, il quale era chiamato cosi per esser sopra il porti, onde si celebravano le feste di quello chiamate da Portunnali. Edificò ancora el detto Principe dentro al mare una torre di marmo a similitudine del faro di Alessandria ove la notte si tiene acceso il lume, per mostrare la via a marinari che volessino entrare in porto: laqual torre insieme col porto dall'onde, è stata guasta & portata via. [7]
 
[Nesse porto estava o Templo do Deus Portunno, que era chamado por ser o protector dos portos, de quem se celebravam as festas chamadas de Portunnali. O dito Príncipe edificou também no meio do mar uma torre de mármore semelhante ao Farol de Alexandria, onde à noite estava aceso um fogo, para mostrar o percurso a seguir pelos marinheiros que queriam entrar no porto: a qual torre, juntamente com o porto, as ondas deterioraram e destruíram.]

 fig. 24 - Ostia Antica, Foro delle Corporazioni con pavimento a mosaico, navi e faro.
 

[1] Mário Barroca, A Foz de D. Miguel da Silva in As Fortificações do Litoral Portuense, Edições Inapa S. A. Campo de Santa Clara Lisboa 2001.
[2] Marcus Terentius Varro (116-27 a.C.) Antiquitatum rerum humanarum et divinarum libri XLI (ou encore Antiquitates rerum humanarum et divinarum, (Das coisas antigas humanas e divinas, em 41 livros).
[3] Pirro Ligorio (c. 1510-1583) Libro di M. Pyrrho Ligori Napolitano, Delle Antichità Di Roma, Nel quale si trata dei Circi, Theatri & Anfitheatri.Con le Paradosse del Medesimo auttore, quai consutano la commune opinione sopra varii luoghi della città di Roma. 1553. (pág. 40).
[4] Publiu Ovidius Naso (43 a.C.-18 d.C) Fasti Liber IV v.145-154.
[5] Les Fastes d’ Ovide. Traduction en vers par F. de Saintange, Chez Gabriel Dufour et Compagnie, libraires, successeurs de Tourneisen fils.Paris 1809. (pág.124).
[6] Tiberius Claudius Caesar Augustus Germanicus (10 a.C.-54 d.C.).
[7] Andrea Fulvio (c.1470-1527), L’Antichita di Roma di Andrea Fulvio, Antiquario romano. Di nuovo con ogni diligenza corretta & ampliata, con gli adornamenti di disegni degli edifici Antichi & Moderni. In Venetia, Per Girolamo Francini Libraro in Roma all'insegna del Fonte. M D LXXX VIII. (Cap. XXIII Della porta & della via Portuense, pág. 20 e 21).
 
O fim do templo de Portunus na Foz do Douro
 
No século XVIII, desaparecem as referências a este pequeno templo, possivelmente destruído pelas águas agitadas da foz, e pelas frequentes cheias do Douro. Permanece contudo a referência nas Memórias Paroquiais de 1758 a “hum pillar de pedra lavrado a que chamaõ Cruz”, o antecessor da Cruz de Ferro erguida por José de Sousa em Outubro de 1788. [1]
 
No Mapa de José Gomes da Cruz de 1775 está assinalado como “Ferro” um rochedo encimado por uma cruz.
 fig. 25 - Jozé Gomes da Cruz, Piloto das Naus de Guerra. Este Mapa he ademonstração da Costa do Mar desde a Villa de Matozinhos, athe a Barra da Cidade do Porto (…).1775.

  fig. 26 – Pormenor do Mapa de 1775.
 

Na gravura de Manoel Marques de Aguilar de 1790.

fig. 27 - Manoel Marques de Aguilar (1767-1816), Perspectiva da entrada da Barra da Cidade do Porto e Fortaleza que a defende. Dedicada ao Ulmo. e Exmo. Senhor José de Seabra e Silva, Secretário d'Estado de Sua Magestade Fidelíssima da Repartição dos Negócios do Reyno. 1790, gravura a água-forte 0,44x0,28 AHMP.

  fig. 28 - A Cruz de Ferro. Pormenor de Manoel Marques de Aguilar (1767-1816), Perspectiva da entrada da Barra da Cidade do Porto e Fortaleza que a defende. Dedicada ao Ulmo. e Exmo. Senhor José de Seabra e Silva, Secretário d'Estado de Sua Magestade Fidelíssima da Repartição dos Negócios do Reyno. 1790, gravura a água-forte 0,44x0,28 AHMP.
 

[1] Mário Barroca, A Foz de D. Miguel da Silva in As Fortificações do Litoral Portuense, Edições Inapa S. A. Campo de Santa Clara Lisboa 2001.
 

O Farol de S. Miguel-o-Anjo [1]
 
Não me aterrou, que do almejado pôrto
Me allumiava o farol de amigo lume.
Farol consolador, fanal d’esprança,
Quando na praia já, sem luz me deixas!
 [2]

 fig. 29 - Gouveia Portuense (Manuel de Gouveia Coutinho de Tvar e Melo 1907-1976), Capela-farol de S. Miguel-o-Anjo vista de terra. Desenho e reconstituição.


Desse plano de D. Miguel Silva e Francesco di Cremona, e baseado no porto romano, a destaca-se a construção de um farol, o Farol de S. Miguel-o-Anjo, obra iniciada em 1527 que chegou até aos nossos dias é, que após anos de abandono se anuncia a sua reabilitação.

Seria pretensioso da minha parte (re) escrever a história do Farol do Anjo, que «serve de balliza aos navios, que entraõ, e sahem pella barra, pera se desviarem das pedras, que estaõ debayxo d’agoa» [3]
Por isso remeto para o excelente e rigoroso trabalho de Marta Peters Arriscado de Oliveira, já aqui citado, limitando-me a algumas imagens e
apontamentos relacionados com o Farol e Capela de S. Miguel o Anjo.

fig. 30 - T. S. Maldonado, Planta Geográfica da Barra da Ci.de do Porto. T. S. Maldonado delin. Porto. Godinho sculp. Officina de António Alvares Ribeiro, 1789 água-forte 26,5x38,2 cm para ilustrar a edição da Descripção Topográfica e Histórica da Cidade do Porto, do Pe. Agostinho Rebelo da Costa, Porto, 1789. (pág. 188).



  fig. 31 - Pormenor da gravura de Manoel Marques de Aguilar (1767-1816), Perspectiva da entrada da Barra da Cidade do Porto e Fortaleza que a defende. Dedicada ao Ulmo. e Exmo. Senhor José de Seabra e Silva, Secretário d'Estado de Sua Magestade Fidelíssima da Repartição dos Negócios do Reyno. 1790, gravura a água-forte 0,44x0,28 AHMP.


fig. 32 – Pormenor de Cesário Augusto Pinto. Cantareira in As margens do Douro, collecção de doze vistas Litografia 16 x 25 cm. lith de J. C. V. V.a Nova. Rua do Campo Pequeno, Porto, 1849.


Junto ao Farol é construído por volta de 1841 o edifício dos Pilotos da Barra do Douro. E onze anos depois a Associação Comercial do Porto promove a construção da Torre do Semáforo.

fig. 33 - Posto Fiscal da Cantareira, Telegrafo e capela do Anjo. Alçado Lado Oeste. Luz de enfiamento da Marca Nova.




fig. 34 – Postal Porto-Foz do Douro-Cantareira.

O banco no farol do Anjo
 
Helder Pacheco numa homenagem a Miguel Veiga (1936-2016) lembra o banco de pedra, gasto dos séculos, encostado à Capela (ou, melhor, farol) de S. Miguel-o-Anjo, onde Eugénio se sentava olhando a estrada de Sobreiras e a «outra banda verde», sentindo o cheiro a algas do Cais dos Pilotos, na maré vaza.[4]










fig. 35 – 1 - Alçado nascente da Capela-Farol. 2 e 3 - Fotos do lado nascente vendo-se os bancos de pedra.
 
A estrada de sobreiras vista do banco junto ao farol e a «outra banda verde», sentindo o cheiro a algas do Cais dos Pilotos, na maré vaza, vista do mesmo banco.


fig. 36 – O que se vê sentado em um dos bancos.


As três árvores da Cantareira segundo António Rebordão Navarro
 
As árvores crescem sós. E a sós florescem.
Começam por ser nada. Pouco a pouco
se levantam do chão, se alteiam palmo a palmo.
Crescendo deitam ramos, e os ramos outros ramos,
e deles nascem folhas, e as folhas multiplicam-se.
Depois, por entre as folhas, vão-se esboçando as flores,
e então crescem as flores, e as flores produzem frutos,
e os frutos dão sementes,
e as sementes preparam novas árvores.
E tudo sempre a sós, a sós consigo mesmas.
Sem verem, sem ouvirem, sem falarem.
Sós.
De dia e de noite.
Sempre sós.
Os animais são outra coisa.
Contactam-se, penetram-se, trespassam-se,
fazem amor e ódio, e vão à vida
como se nada fosse.
As árvores, não.
Solitárias, as árvores,
exauram terra e sol silenciosamente.
Não pensam, não suspiram, não se queixam.
Estendem os braços como se implorassem;
com o vento soltam ais como se suspirassem;
e gemem, mas a queixa não é sua.
Sós, sempre sós.
Nas planícies, nos montes, nas florestas,
A crescer e a florir sem consciência.
Virtude vegetal viver a sós
E entretanto dar flores.
[5]


  fig. 37 - Elizabeth Reid, The Harbour Master’s House at Foz, aguarela 60 x 90 cm. Exposição Os Ingleses e o Porto, organizada pela Câmara Municipal do Porto, na ocasião da visita de S.M. Britânica a Rainha Isabel II e S.A.R. o Duque de Edimburgo. Palácio da Bolsa, 29 de Março de 1985. AHMP.

O escritor António Rebordão Navarro, (de que voltaremos a falar quando abrdarmos o Jardim do Passeio Alegre, onde habitava) com o seu atento conhecimento da Cantareira acompanha a evolução de três (quatro se considerarmos uma que existia já fora do recinto do Farol) árvores que existem entre a capela da Lapa e o conjunto do Farol de S. Miguel-o-Anjo.


 fig. 37a – Destaque das três árvores in Elizabeth Reid, The Harbour Master’s House at Foz, aguarela 60 x 90 cm. Exposição Os Ingleses e o Porto, organizada pela Câmara Municipal do Porto, na ocasião da visita de S.M. Britânica a Rainha Isabel II e S.A.R. o Duque de Edimburgo. Palácio da Bolsa, 29 de Março de 1985. AHMP.

 
Eram três delgadas figurinhas postas na paisagem, no largo onde se ergueu a Capela de S. Miguel o Anjo, onde ainda uma cúpula dá indícios dela, perto da alegoria em que S. João (da Foz do Douro, como não podia deixar de ser) baptiza Jesus Cristo.
Eram três hastes delicadas de arrepiados ramos por cabelos.
Eram, de débeis troncos, três arvorezinhas desguarnecidas, cravadas num solo pouco rico, ameaçadas pelos ventos, o sal, a rataria, os gases soltos dos escapes, a indiferença das pessoas passando ou não podendo usá-las para nelas prender cordas de roupa.
Eram três meninas impúberes no terreiro, sem céu nenhum, quase sem sombra. Desprotegidas, nuas. [6]



fig. 38 – As três árvores numa fotografia do início do século XX.

 
Mas resistiram, cresceram, têm já folhas, porventura pássaros, talvez ainda sem residências fixas nas suas copas, mas ali parando entre dois voos. [6]

 fig. 39 – As três árvores num postal do início do século XX.

Lembremos o poema de Yeats pedindo às Vozes para permanecer.

The everlastings Voices
O sweet everlasting Voices be still;
Go to the guards of the heavenly fold
And bid them wander obeying your will
Flame under flame, till Time be no more;
Have you not heard that our hearts are old,
That you call in birds, in wind on the hill.
In shaken boughs, in tide on the shore?
O sweet everlasting Voices be still. 
[7]

[As Vozes Eternas
Oh, doces e eternas Vozes permaneçam;
Vão até aos guardiões das hostes celestiais
E ordene-lhes que vagueiem obedecendo à tua vontade,
Chama sob chama, até que o Tempo não seja mais;
Não ouviram que os nossos corações estão cansados,
E que tu chamaste os pássaros, no vento sobre as colinas,
Em ramos que se agitam, nas marés pela beira-mar?

Oh, doces e perenes Vozes permaneçam.
]
 
Entretanto foram plantadas junto do Farol do Anjo duas palmeiras.

Restam duas das árvores de António Rebordão Navarro e foi replantada a terceira.


fig. 40 – As árvores em Março de 2017.
 
CONTINUA




 

[1] Ver: Marta Maria Peters Arriscado de Oliveira. Porto, São Miguel o Anjo: uma torre, farol e capela. Memória para uma intervenção na obra. Trabalho realizado no âmbito do Processo IPPAR n.º123/P/05 Capela ou Farol de S. Miguel-o-Anjo, Porto Estudo histórico e formal. Porto Novembro de 2005.
[2] Almeida Garrett, Camões Poema, Canto V. Na livraria Nacional e Estrangeira, Rue Mignon, n.º 2, faub. St.-Germain. Paris 1825. (pág.95).
[3] Padre Prior Francisco de Jesus Maria, Memórias Paroquiais da Divisão Administrativa do Porto, 1758, in S. Oliveira Maia Onde o Rio Acaba e a Foz do Douro Começa edições O Progresso da Foz 1988. (pág.41).
[4] Helder Pacheco Ditirambo Portuense em Honra de Miguel Veiga blogue Largo dos Correios Portalegre. https://largodoscorreios.wordpress.com/author/largodoscorreios/page/147/
[5]  António Gedeão, Obra Poética, Lisboa, edições JSC, 2001
[6] António Rebordão Navarro (1933-2015), Notícias de Árvores 26 de Maio de 1989 in Foz do Douro a letra e o lugar, O Progresso da Foz 1993. (pág. 77).
[7] William Butler Yeats (1835-1939) "The Wind Among the Reeds", London Elkin Mathews, Vigo street.W. M DCCCC III (pág. 3).
 
 

segunda-feira, 10 de abril de 2017

O rio e o mar na foz do Douro 4

 
…En su Foz Oporto sueña
con el Urbión altanero;
Soria en su sobremeseta
con la mar toda sendero.

Árbol de fuertes raíces
aferrado al patrio suelo,
beben tus hojas las aguas,
la eternidad del ensueño.
[1]
 
II Parte - Deriva pela Foz do lado do rio (continuação)
 
fig. 1 - Fernando Lanhas (1923-2012), Menina e barco, 1943. Óleo sobre tela. 47,5 x 47,5 cm. Colecção particular.
 
No barco sem ninguém, anónimo e vazio,
ficámos nós os dois, parados, de mão dada…
Como podemos só dois governar um navio?
Melhor é desistir e não fazermos nada!

 
Sem um gesto sequer, de súbito esculpidos,
tornamo-nos reais, e de madeira, à proa…
Que figura de lenda! Olhos vagos, perdidos…
Por entre as nossas mãos, o verde mar se escoa…

 
Aparentes senhores de um barco abandonado,
nós  olhamos, sem ver, a longínqua miragem…
Aonde iremos ter? – Com frutos e pecado,
se justifica, enflora, a secreta viagem!

 
Agora sei que és tu quem me fora indicada.
O resto passa, passa… alheio aos meus sentidos.
– Desfeitos num rochedo ou salvos na enseada,
a eternidade é nossa, em madeira esculpidos.
[2]

 
Da Cantareira à Senhora da Luz 1
  
fig. 2 – A Foz do Douro.

A Cantareira. Aguarela de Elizabeth Reid.

fig. 3 - Elizabeth Reid (?-?), The Harbour Master’s House at Foz, aguarela 60 x 90 cm. Exposição Os Ingleses e o Porto, organizada pela Câmara Municipal do Porto, na ocasião da visita de S.M. Britânica a Rainha Isabel II e S.A.R. o Duque de Edimburgo. Palácio da Bolsa, 29 de Março de 1985. AHMP.

 
A Fonte da Cantareira
Caminha sílaba a sílaba
como a fonte
que só pára à boca do cântaro.

Aí consente partilhar a água.
À audácia dos jovens, à timidez
dos que já o não são, mata a sede.
Aos que tropeçam na falta
de amor, aos que mordem as lágrimas
em segredo, dá a beber.

Leva aos lábios febris
a frescura da pedra. Não deixes
o medo multiplicar as garras.
Sílaba a sílaba
caminha até ao cântaro
vazio. – Tão cheio agora!
[3]

fig. 4 – A Fonte da Cantareira.
 
Quem do Porto vai para a Foz, depois de passar o Anjo ao chegar à Cantareira, dos Cântaros, e dos Cantares, encontra uma espaçosa fonte, toda em pedra, de grande trabalho e custo, tendo uma bica e tanque centraes recolhidos dentro de uma espécie de nicho e uma outra bica de cada lado com o seu respectivo tanque. [4]
 
Era nesta fonte que as burricadas do século XIX, se apeavam para uma pausa antes de seguir para as praias da Foz.

A Capela de Nossa Senhora da Lapa
Barro pintado, apenas.
-Duas, três mãos de barro,
amassado e moldado
por duas mãos serenas.
……………………………
O que pedi? Por quem?
Que vai acontecer
que eu possa perceber
que é de Ela que vem?
Mas não,Virgem, não quero
um sinal que mo explique.
-Em Tuas mãos me entrego
como se ao Mar me desse.
[5]

Terá neste local existido um hospício na Idade Média. Anexo teria uma capela que depois se tornou a capela de Nossa Senhora da Lapa cuja fundação, a crer na inscrição da fachada reconstruída será de 1391.
Sebastião Oliveira Maia cita as Memórias Paroquiais da Divisão Administrativa do Porto de 1758, onde a Capela é referida.
…A quarta de Nossa Senhora da Lapa com hum só altar, em que está a Senhora; he cituada unida âs Cazas de Francisco da Silva Potella fabriqueyro da mesma Capela. [6]

A Capela numa gravura do século XVIII.

fig. 5 - Manoel Marques de Aguilar (1767-1816), Perspectiva da entrada da Barra da Cidade do Porto e Fortaleza que a defende. Dedicada ao Ulmo. e Exmo. Senhor José de Seabra e Silva, Secretário d'Estado de Sua Magestade Fidelíssima da Repartição dos Negócios do Reyno. 1790, gravura a água-forte 0,44x0,28 AHMP.


fig. 6 – Pormenor da gravura de Manoel Marques de Aguilar (1767-1816), Perspectiva da entrada da Barra da Cidade do Porto e Fortaleza que a defende. Dedicada ao Ulmo. e Exmo. Senhor José de Seabra e Silva, Secretário d'Estado de Sua Magestade Fidelíssima da Repartição dos Negócios do Reyno. 1790, gravura a água-forte 0,44x0,28 AHMP.

A Capela de um só altar com uma imagem de Nossa Senhora da Lapa dos Mareantes.

 















fig. 7 – A imagem de Nossa Senhora da Lapa Padroeira dos Mareantes. Venerada na Capelinha da Cantareira na Foz do Douro. AHMP.















Embora se refira a outra igreja Alberto Pimentel associa Nossa Senhora da Lapa ao mar e aos pescadores.
A egreja da Lapa fica ao sul da villa, á beira do mar, para o qual olha um nicho onde está encerrada a imagem da padroeira.
Os pescadores têm uma profunda devoção com Nossa Senhora da Lapa, que ali está abençoando o oceano, o vigiando pela sorte da pobre e boa gente marítima.
A pequena distância do templo fica o pharol grande, de luz branca: mas a imagem de Nossa Senhora da Lapa é, para os homens do mar, um pharol não menos luminoso e valedor. [7]
Na parte lateral da capela uma outra inscrição a capela terá sido reedificada em 1819. [8]

A Capela numa gravura do século XIX.

fig. 8 - Cesário Augusto Pinto. «As margens do Douro, collecção de doze vistas». Litografia 16 x 25 cm. lith de J. C. V. V.a Nova —Rua do Campo Pequeno, Porto, 1849.

fig. 9 – Pormenor da gravura de Cesário Augusto Pinto. «As margens do Douro, collecção de doze vistas». Litografia 16 x 25 cm. lith de J. C. V. V.a Nova —Rua do Campo Pequeno, Porto, 1849.
 
A Cantareira e a Capela de N. Sr.ª da Lapa na planta de Telles Ferreira de 1892.


fig. 10 – Pormenor da planta de 1892, à escala 1:5 000.
 
fig. 11 - A capela de Nossa Senhora da Lapa (a negro) na planta de 1892 levantamento colorido à escala 1:500. Quadrícula 67.

 
A Capela nos nossos dias. (Março de 2017).

fig. 12 – A Capela de Nossa Senhora da Lapa na Foz do Douro.

[1] Miguel de Unamuno Dorium-Duero-Douro de Cancionero 1953 in González Gutiérrez, Manuel Suárez González, Antología poética del paisaje de España, ilustraciones de Cristina Figueroa Ediciones de la Torre, Madrid 2001. (pág. 215).
[2] David Mourão-Ferreira (1927-1996), Obra Completa. Lisboa, Presença, 2006. (pág. 44).
[3] Eugénio de Andrade à boca do cântaro in Os sulcos da Sede 2001.
[4] J. Bahia Júnior, Contribuição para a Hygiene do Porto. Analyse Sanitaria do seu Abastecimento em Água Potável. Porto, Fevereiro de 1909. (pág. 96 e 97).
[5] Sebastião da Gama (1924-1952). Senhora da Lapa.
[6] Sebastião Oliveira Maia, Onde o Rio Acaba e a Foz do Douro Começa edições O Progresso da Foz, Porto 1988. (pág. 40).
[7] Alberto Pimentel (1849-1925), Historia do Culto de Nossa Senhora em Portugal. Livraria Editora Guimarães, Libanio & C., 108, Rua de S. Roque, 110, Lisboa 1889. (pág.117 e 118).
[8] Ver Sebastião Oliveira Maia, Onde o Rio Acaba e a Foz do Douro Começa, edições O Progresso da Foz, Porto 1988. (pág. 93).


CONTINUA
 

quarta-feira, 22 de março de 2017

O rio e o mar na foz do Douro 3

 

[Nota – Lembramos que neste (s) texto (s) não se pretende fazer a história da Foz do Douro. São apenas Visões Urbanas, em que apenas se pretende considerar alguns elementos urbanos (edifícios, espaços públicos, pessoas ou locais), como são (ou eram) vistos pelos seus contemporâneos e como sobre eles se exprimiam, seja pela escrita ou pela poesia, seja pelo desenho, pela pintura, fotografia ou escultura. Por defeito utilizaremos algumas imagens que embora não se refiram à Foz do Douro, com ela tem evidentes afinidades.]
 

II Parte - Deriva pela Foz do lado do rio 2

fig. 1 – A Barra do Douro antes da edificação dos novos paredões. http://www.theperfecttourist.com/oporto/?p=16




fig. 2 – A Barra do Douro após a edificação dos novos paredões. http://www.archdaily.com.br/br/01-75903/molhes-do-douro-carlos-prata-arquitecto/75903_75922

A Cantareira dos Pescadores (conclusão)
 
Georges! Anda ver o meu paiz de marinheiros,
O meu paiz das Naus, de esquadras e de frotas! (*)
Oh as lanchas dos poveiros
A saírem a barra, entre ondas e gaivotas!
Que extranho é!
Fincam o remo na agoa, até que o remo torça,
À espera da maré,
Que não tarda ahi, avista-se lá fora!
E quando a onda vem, fincando-o a toda a força,
Clamam todos à uma “ Agôra! agôra! agôra!”
E, a pouco e pouco, as lanchas vão saindo
(Às vezes, sabe Deus, para não mais entrar…)
[1]

(*) Na edição de Paris de 1892 o segundo verso é Traze o teu livro, toma as tuas notas:

fig. 3 - Bonifácio Lázaro Lozano (1906 1999), Galerna 1990, óleo s/tela, 54 x 81cm. Inter-Atrium Galeria.
 

[1] António Nobre, Só, 4.ª Edição Tipografia de A Tribuna, 108, Rua Duque de Loulé, 124, Porto 1921. (pág. 27).
 
Naufrágios e salva-vidas


fig. 4 – Jean Pillement (1728-1808), Bateau sur une mer agitée pastel 45 x 65 cm. Chateau-Musée de Dieppe.

 
Na Gazeta de Lisboa de 20 de Julho de 1829 é publicado um Edital com data de 10 de Julho e referenciado ao Porto.[1]
O Provedor e Deputados da Illustríssima Junta da Administração da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro:
Fazemos saber: Que, tendo esta Illustríssima Junta levado ao Soberano Conhecimento d’ElRei Nosso Senhor, em consulta de 7 de Janeiro de 1828, a necessidade de huma providencia para salvar as vidas dos míseros naufragantes que, à mingua dos necessários socorros, perecem nos frequentes naufrágios acontecidos aos navios mercantes, lanchas de pescadores, e outras embarcações que entrão e sahem pela barra desta cidade. O Mesmo Augusto Senhor, por hum acto de summa Justiça, e próprio de Sua reconhecida Humanidade e Religião, Houve por bem, por sua Resolução de 21 de Abril do ditto anno, crear hum Estabelecimento para salvar a vida dos naufragados, sancionando o Plano do theor seguinte:
Artigo 1.º Haverá huma embarcação – Salva-Vidas – fornecida de todos os aparelhos e utensílios próprios para acudir prontamente a qualquer navio ou barco a tomar as pessoas em perigo, ou colher do mar as que houverem naufragado.
Artigo 2.º Haverá huma casa para – Asylo dos naufragados – a fim de se lhe ministrarem os convenientes socorros. Esta casa deverá ser estabelecida sobre a praia do rio Douro, na maior proximidade possível da barra…
Segue-se um conjunto de artigos que estabelecem as responsabilidades e a quem compete o conteúdo do Asylo e a utilização do Salva-vidas, até ao 9.º que define: As despesas deste Estabelecimento serão todas pagas pelo Cofre das obras da barra do Porto, à excepção das que se fizerem com a construção e mais pertences do Salva-Vidas, o qual esta Illustríssima Junta oferece por parte da Companhia.
Em 1832 José Avelino de Castro, matemático e professor da Academia Real da Marinha e Comércio da Cidade do Porto, publicou uma Exposiçaõ do estado actual da Real Casa d'Asylo dos Naufragados, dirigida a D. Miguel, onde sublinha esta decisão do monarca.
Nessa Exposição considerava que a cidade do Porto, taõ importante por sua posiçaõ geografica ao Commercio deste Reino, tem desgraçadamente testemunhado muitos casos de naufragio, devidos naõ só á estreiteza e pouca profundidade da sua Barra na embocadura do Douro, se naõ tambem á existencia do grande Banco d'arêa, e numerosos rochedos que no mesmo lugar difficultaõ em summo gráo a entrada e sahida das embarcações. (…) Saõ pois nella frequentes os naufragios; e em taes circunstancias, naõ só os interesses da Navegaçaõ, mas, muito mais ainda,os deveres da humanidade, reclamaõ altamente o emprego de todo o genero de soccorros para salvar as victimas daquelles desgraçados acontecimentos.
E continua referindo o requerimento que a Junta da Companhia Geral do Alto Douro, com tanta gloria sua, como proveito e utilidade para todo o Reino, merece o mais distincto lugar a Consulta que no anno de 1828 fez subir á Real Presença de Sua Magestade, propondo a creaçaõ d'hum similhante Estabelecimento para salvar a vida aos naufragados na Barra do Porto, cujas obras estaõ commettidas á sua Inspecçaõ. [2]
D. Miguel como vimos por uma Resolução de 21 de Abril de 1828, e como resposta a esta solicitação da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, manda edificar a Real Casa d’Asylo dos Naufragados na Foz do Douro.


fig. 5 - José Avelino de Castro (1791-1854) Desenho de Exposiçaõ do estado actual da Real Casa d'Asylo dos Naufragados.

 
O Inventário do Arquivo da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro confirma que Esta casa/asilo localizada em S. João da Foz, foi criada por resolução régia de 21 de Abril de
1828, na sequência da consulta efectuada pela Companhia nesse sentido, propondo tal estabelecimento para salvar a vida aos naufragados na barra do Porto, cujas obras estavam cometidas à Junta da Companhia. A construção foi da responsabilidade da Junta, que pagou a mesma, assim como o salva-vidas, passando as despesas do estabelecimento a serem pagas pelo cofre das obras da barra do Douro.
A Junta da Companhia foi encarregada, em 1807, de construir um barco salva-vidas, utilizando como modelo outros da mesma natureza que o cônsul inglês Guilherme Warre havia mandado vir de Inglaterra. Em 1828, foi novamente incumbida a Junta de construir outro barco semelhante ao primeiro, que tinha ido para Lisboa, o qual foi executado por Manuel Gomes da Silva, mestre da Ribeira do Douro, na cidade do Porto. [3]


 
fig. 6 - Asylo dos Naufragados.

[1] Edital, Porto. 10 de Julho da Junta da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro. Na Gazeta de Lisboa de 20 de Julho do Anno 1829. (pág. 698).

[2]José Avelino de Castro (1791-1854), Exposiçaõ do estado actual da Real Casa d'Asylo dos Naufragados: que sua magestade fidelissima, o senhor D. Miguel Primeiro, mandou erigir em S. Joaõ da Foz do Douro, á entrada da barra da cidade do Porto, debaixo da inspecção da illustrissima Junta da Administração da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto-Douro. Porto: Viuva Alvares Ribeiro & Filho, 1832. (pág. 4 e 5).

[3] Inventário do Arquivo da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, ponto 9.4 – Asilo dos Naufragados de S. João da Foz do Douro e Salva Vidas (Sub- secção). (pág. 281).


As consequências do naufrágio do vapor Porto
  
Em 28 de Março de 1852, o vapor “Porto” naufraga na barra do Douro e morrem 29 tripulantes e 37 passageiros do navio, entre os quais personalidades conhecidas da cidade.


fig. 7 – O naufrágio do vapor Porto.Desenho da época.

 
Com a emoção que a tragédia provocou, alguns meses depois é publicado um decreto do Ministério das Obras Publicas, Commercio e Industria,considerando que sendo mui frequentes na barra do Douro os naufrágios e perdas de vidas; e cumprindo providenciar para que em casos taes sejam prestados todos os possíveis auxílios e soccorros; Considerando que para este fim se conseguir é necessario dar ao estabelecimento denominado= Salva- vidas= uma administração estavel e regular é criada uma comissão 'Artigo 1." A inspecção e fiscalisação do estabelecimento Salva-vidas, fundado na cidade do Porto, é encarregada a uma commissão permanente, composta do Governador Civil, presidente; do Intendente da Marinha, vice-presidente; de dois vogaes, nomeados pela Sociedade Real Humanitaria; e de dois outros vogaes nomeados pela Associação Commercial d'entre os seus sócios. Art. 2. Na casa de asylo para naufragados, sita no Passeio Alegre de S. Jo da Foz do Douro [1]
 
E o reconhecido engenheiro José Vitorino Damâsio (1806-1875), professor da Academia Politécnica do Porto, fundador da Fundição do Bolhão e da Associação Industrial Portuense, vivamente impressionado pelo naufragio do vapor Porto succedido na barra do Douro em 29 de março d'aquelle anno, fez (…) pelo mesmo tempo na Foz varias experiencias, com o fim de descobrir o meio de lançar de terra um cabo de salvação para um navio em perigo. O resultado d'essas experiencias, se não foi inteiramente satisfactorio para o fim a que se propunham, deu origem a uma interessantissima descoberta, que, mal de nós, a sua modestia occultou por alguns annos, vindo depois a apparecer publicada em jornaes estrangeiros, sem que nós possamos reivindicar a gloria da prioridade, que nos pertencia. [2]

[1] Ministério das Obras Publicas, Commercio e Industria, Preambulo e Artigo 1º e 2º do Decreto de 22 de Dezembro de 1852.
[2] Annuario da Academia Polytechnica do Porto. Anno lectivo de 1889-1890, Typographia Occidental, 66, Rua da Fabria, 66, Porto 1890. (pág. 101).
 
O naufrágio do brigue Diana em 1864
 
Apesar destas medidas os naufrágios, com perdas de vidas, continuavam a ser frequentes.
Como exemplo o naufrágio de um brigue relatado no Annuario do Archivo Pittoresco de Dezembro de 1864,em que apenas se salvaram três tripulantes recolhidos na casa do salva-vidas.
“No dia 26 do mez ultimo naufragou no Porto o brigue sueco Diana. Da participação do intendente da marinha extrahimos a seguinte curiosa noticia: “ No dia 26 appareceu ao SO. Da barra, sendo o vento N; às 4 horas e meia da tarde deitou em cheio para terra, vindo com todo o panno largo, e com a bandeira a pedir socorro: a distancia a transpor ate ao logar onde encalhou seria de 7 a 8 kilometros. Entre o acto do navio deitar para a terra e desfazer-se nas pedras, decorreram poucos momentos; entretanto logo acudiram ao Cabedello parte da corporação dos pilotos e remeiros das catraias, e alguns que se poderiam adiantar salvaram o capitão do brigue, o carpinteiro, e um moço, que a nado tinham vindo para cima das pedras. Estes náufragos seguiram logo para o Cabedello, não havendo tempo para chegar ao logar do naufrágio o tenente Crespo e mais pessoas que iam acudir, porque às 6 horas estava tudo concluído.
A lancha que o brigue trazia a reboque, virou-se com a arrebentação do mar submergindo um homem que vinha dentro.
Dos outros três náufragos que faleceram, ainda foi visto um que nadava, e para o salvar deitou-se ao mar o vareiro Manuel Branco, atado a um cabo que outro segurava em terra; porem n’esta ocasião, trazendo o mar sobre elle grande parte dos destroços do navio, mergulhou, e quando voltou à superfície, já não viu o naufrago, que provavelmente foi morto pelos mesmos destroços.
Os três náufragos salvos, foram recolhidos na casa do salva-vidas, prestando-se-lhes todos os socorros, actos a que tem sempre comparecido o benemérito cidadão Eduardo Mozer, como membro que é da comissão do salva vidas.” [1]



fig. 8 - Ivan Konstantinovitsch Aivasovski (1817-1900) naufrágio do Arco-iris1873. Óleo s/tela. Galeria Tretiakov Moscovo.

[1] Annuario do Archivo Pittoresco, publicação mensal, n.º12, Dezembro de 1864. (pág. 95).
 
O naufrágio de 1872
  
Assim os meios de socorro aos frequentes naufrágios continuavam a ter pouca eficácia.
Por isso, 8 anos depois, em 1872, Eça de Queiroz, em As Farpas escreve um irónico e, por isso, violento texto em que critica a incapacidade do salva-vidas e da comissão que o dirige.
Escreve Eça de Queiroz: na Foz, há pouco, voltou-se uma lancha. Morreram 14 homens.
Os socorros foram dados por uma lancha de pilotos, que se apressou corajosamente, e por outro barco, que veio, num risco agudo, da praia do Cabedelo. Conseguiram salvar 10 homens: 14 morreram. A 10 passos do mar, repousava placidamente o salva-vidas. O salva-vidas não desceu ao mar.
E Eça depois de ferozmente criticar o inactivo salva-vidas que podia descer, molhar-se, navegar um instante: não; conserva-se agasalhado na sua habitação onde, dizem rumores gloriosos, ele está embrulhado em algodão, num cofre.
Termina descrevendo uma bela e romântica Foz, que contrasta com as perdas de vidas causadas pelos frequentes naufrágios.
A areia do Cabedelo reluz ao sol, as senhoras passeiam na Cantareira, as gaivotas voam, e os que naufragam morrem. [1]
 
Um quadro de Eugène Boudin pode ilustrar este ambiente das praias do século XIX.

fig. 9 - Eugène Boudin (1824-1898) Élegantes sur la plage. Colecção particular.
 
Também Júlio César Machado, de uma forma talvez mais subtil, critica a incapacidade desse salva-vidas, motivo da curiosidade dos que iam à Foz.
Tudo quanto havia rico e elegante no Porto reunia-se na Foz. A curiosidade, n’aquelle tempo, era o salva-vidas, uma casita com um pequeno jardim de entrada, situada de modo que ouvia de um lado as queixas do rio, e do outro as iras do Oceano; não tinha sahida para o mar: havia apenas uma portazinha, e, quando o barco devesse ser empregado no serviço dos náufragos, chamava-se povo, e era arrastado pela areia até à beira-mar; essa operação levava uma hora, hora e meia: o suficiente a um salva-vidas para poder salvar os mortos. [2]

fig. 10 - Lázaro Lozano (1906 1999), Três mulheres e o Mar s/d Óleo s/ tela 62 x 51 cm Museu Dr. Joaquim Manso.

 
Dez anos passados, Oliveira Martins, em requerimento (que nunca teve resposta) dirigido ao Rei D. Luís e significativamente datado de 22 de Agosto de 1882, antevéspera do dia de São Bartolomeu, exprime a sua preocupação pela comunidade piscatória da Foz do Douro, descrevendo (mais) um naufrágio.
Ao tempo em que no Porto corria um delírio de embriaguez enthusiastica, ao que os jornaes dizem, lá para além, a seis léguas da cidade triumphante, havia um grupo de mulheres soluçando, e um bando de crianças espantadas, com os olhos mudos que as crianças tem diante das grandes afflicções. Eram viúvas e órfãos na praia dura e negra.



fig. 11 - B. Lázaro Lozano(1906 1999),, Viúvas na praia, 1946, óleo s/ platex, 75 x 63 cm. Museu Dr. Joaquim Manso.

 
(…) Foi uma lancha que se virou. Era de noite. O mar banzeiro espreguiçava-se em ondas maciças. Uma d’essas ondas, tomando de lado um barco, invade-o, quebra-se, e devora-o.
Foi o que succedeu. Uma lancha sobre o mar é como um desafio a um monstro. O bruto estende a garra, e por desenfado esmaga e engole…Era de noite. Soprava apenas um vento pesado e quente. Sob um ceu negro, o mar como breu tinha malhas lívidas quando na encosta de uma onda vinha outra desmanchar-se. Dir-se-hiam alvas mortuárias sobrepostas na abobada de um carneiro sepulchral – liquido, falso, oscilante, onde a lancha vasou a gente que a gente que a tripulava.


 




























fig. 12 – Lancha Poveira.


A praia é só: a villa fica distante. Estavam na praia as mulheres da companha esperando o barco, para o ver sossobrar… Então o silencio despedaçou-se em gritos lancinantes, como o ranger de velas quando no meio dos temporais o vento furioso as despedaça em fitas.Era um rasgar de almas afflictas, soando em ais selvagens, que o mar livido, impassível, não escutava.
(…) Que laços os ligam à comunidade nacional? Que lhes dá o estado? Nenhuns. Nada. Authoridades conhecem apenas duas: a Senhora da Lapa que os socorre nos temporaes, e a Sant’Anna, ou outra vareira, que lhes compra o peixe e lhes dá dinheiro sobre as redes, de inverno, nos dias de fome. [3]

 
E se nos anos 80 do século XIX, também num catálogo enviado à Exposição Industrial Portuguesa de 1888, José Cândido Correa afirma que Com effeito, em toda a costa do continente do reino, unicamente no districto do Porto (na foz do Douro), se encontra uma estação de soccorros a naufragos regularmente organizada.
Com referencia a este districto maritimo (Porto), diz o chefe do departamento maritimo do norte 4, ha na foz do Douro os precisos meios de soccorro para naufragos, e constam elles de: hospital
com tres enfermarias devidamente montadas, guarda-roupa com vestidos de agasalho, barretes, calçado proprio, etc., casa de banhos quentes, botica com os medicamentos mais necessários aos naufragos, escovas e outros utensílios para fricções, machinas electrica, pneumática, e objectos de cirurgia.
Fóra do armazém estão dois barcos salva-vidas e um saveiro também salva-vidas, competentemente resguardados. Os tripulantes para estas embarcações engajam-se na ocasião em que são precisos, pagando-se-lhes depois com generosidade os seus serviços. [4]
 

[1] Eça de Queiroz, Uma Campanha Alegre de As Farpas 1872, Volume II, XXIX Julho 1872. Lello & Irmão, Editores, Porto 1979. (pág.169).
[2] Júlio Cesar Machado (1835-1890), A Vida Alegre. (Apontamentos de um folhetinista). Livraria Editora de Mattos Moreira & C.ª, 67, Praça de D.Pedro,67, Lisboa 1880. (pág. 29).
[3] [Joaquim Pedro de ] Oliveira Martins (1845-1894), Politica e Economia Nacional, Magalhães & Moniz Editores, 12, dos Loyos, 12, Porto 1885. (pág. 192, 193 e 194).
[4] José Cândido Corrêa, Catalogo Official dos Objectos enviados à Exposição Industrial Portugueza em 1888, precedido de uma memória acerca das construcções e armamentos navaes e dos Estabelecimentos de Ensino que lhes dizem respeito. Elaborada por José Cândido Corrêa, primeiro tenente da armada, secretario da escola naval, lente interino da mesma escola e professor do instituto industrial e commercial de Lisboa. Ministério dos Negocios da Marinha e do Ultramar, Imprensa Nacional, Lisboa 1888. (pág. 314).
 
A tragédia de 27 de Fevereiro de 1892



fig. 13 - A. Silva, Na Póvoa do Varzim – O dia 27 de Fevereiro. In O Occidente de 11 de Março de 1892.

 
No Sábado de Carnaval de 1892, dia 27 de Fevereiro, o mar fora da barra do Porto tomou um aspecto medonho, terrível, e ameaçando de morte horrorosa os mil e tantos pescadores da Povoa de Varzim, da Affurada, de Mathosinhos, de Buarcos que nas suas companhas andavam arrancando ao mar traiçoeiro o pão de cada dia para si e para os seus. (…) À hora em que escrevemos faltam-nos ainda notícias minuciosas da colossal catastrophe que veiu encher de lucto, de lagrimas e de miséria as povoações mais sympathicas, mais trabalhadoras, mais heroicas de Portugal, mas o que se sabe já pelos últimos telegramas é que o numero de mortos ascende já a 108 e que parece que não ficará por ali. [1]
 
E a notícia de O Occidente assinada por Gervasio Lobato (1850-1895) refere ainda que S. M. El-Rei e Sua M. a Rainha a Sr.ª D. Amélia apenas souberam da terrivel desgraça que cahiu sobre as povoações marítimas do norte mandaram chamar o sr. Presidente do Conselho de Ministros para que lhes desse notícias minuciosas da catástrofe declarando suas Magestades a S. Ex.ª que queriam contribuir, quanto lhes fosse possível para minorar a desgraça das famílias dos infelizes pescadores. [2]
 
O Occidente dedica ainda todo o número seguinte de 11 de Março de 1892 à tragédia dos pescadores, em que colaboram entre outros, os conhecidos escritores e poetas, Ramalho Ortigão com o artigo O Poveiro retirado de As Praias de Portugal, e Henrique Lopes de Mendonça (1856-1931), o autor da letra do Hino Nacional, com o poema Os Afogados escrito sobre o acontecimento.

Os Afogados
Sonhei que um baixel negro me levava
Pelo mar, pelo mar, verde campina;
Vibrava a lua da luzente aljava
Flechas de ouro na vaga esmeraldina.
De repente surgiu no Oceano imenso,
Como sinistro vómito do abysmo,
Um tropel de fantasmas, denso, denso,
Dansando em contorsões de galvanismo.
Então sob o medonho torvelinho,
O mar largo, sem fim, desaparece;
A custo abre o baixel o seu caminho
Pelos meandros d’essa extranha messe.
E um lamentoso côro se levanta,
Quebrado, soluçante, gemebundo,
Como se lhes entrassem na garganta,
Ás golfadas, as aguas do profundo.
E esse côro fantástico dizia:
“Ah! malditas as furias da tormenta!
“Naufragos somos! nossa campa é fria!
“Ah” bemdito o luar que nos aquenta!”
E emquanto o meu baixel ia seguindo,
Regelavam-se os raios do luar;
E reboava o clamor no espaço infindo:
“Maldito seja o mar, o mar, o mar!”


O mesmo número de O Occidente é ilustrado por gravuras uma das quais reproduz um quadro de Silva Porto (1850-1893) e uma outra uma fotografia de Emílio Biel (1838-1915).

A Póvoa do Varzim

fig. 14 – [António Carvalho da Silva Porto, (1850-1893)], Silva Porto Bairro de Pescadores na Povoa de Varzim (Quadro de Silva Porto). In O Occidente de 11 de Março de 1892.

 
Existe um quadro bastante semelhante de Marques de Oliveira.

fig. 15 - João Marques de Oliveira (1853-1927) Recanto de aldeia, Póvoa de Varzim 1882/90. Óleo s/ madeira 23 x 37 cm. Museu Nacional de Arte Contemporânea, Museu do Chiado.

 
Existe, tratando o mesmo tema, um outro quadro de Silva Porto intitulado Praia da Póvoa de Varzim.

fig. 16 - António Carvalho da Silva Porto, (1850-1893), Praia da Póvoa do Varzim 1884. Óleo sobre madeira 20,9 x L. 31,5 cm Museu Nacional de Soares dos Reis.

Em todos estes quadros as estruturas de madeira para pendurar as redes, conferem à composição uma horizontalidade, acentuada pela linha do horizonte.

A Afurada

Quanto à gravura de Domingos Cazellas (1855-?) reproduzindo uma fotografia de Emílio Biel, conhece-se a fotografia original.

fig. 17 – [Domingos] Cazellas, A Afurada (Segundo photographia de E. Biel) In O Occidente de 11 de Março de 1892.


fig. 18 - Emílio Biel (1838-1915), A Afurada 1885, no blogue Porto, De Agostinho Rebelo da Costa aos nossos dias.

 
Ramalho Ortigão descreve estes barcos do Douro de proa comprida e alta, própria para atracar a margens escarpadas ou para varar com facilidade na praia, o typo mais análogo ao das embarcações portuguezas de há trezentos ou quatrocentos anos. [3]
 

[1] Gervásio Lobato in O Occidente n.º 475 de 1 de Março de 1892.
[2] Idem.
[3] Ramalho Ortigão, O Culto da Arte em Portugal, Antonio Maria Pereira, Livreiro-Editor, 50, Rua Augusta,52, Lisboa 1896. (pág. 129).

O Real Instituto de Socorros a Náufragos
 
Essa catástrofe em que perderam a vida 105 pescadores da Póvoa de Varzim e da Afurada, pela enorme vaga de solidariedade que se constituiu na sociedade portuguesa, contribuiu para a criação do Real Instituto de Socorros a Náufragos por Carta de Lei de 21 de Abril de 1892 de D. Carlos e pelo Decreto-Lei de 9 de Junho de 1892, publicados nos Diários de Governo nº 131 e 132, de 1892. A Presidência deste novo Instituto foi atribuída à Rainha D. Amélia que se empenhou no desenvolvimento deste organismo até à proclamação da República.
No Passeio Alegre na Foz do Douro é então criado um estabelecimento salva-vidas, no local do Asylo dos naufragados.

fig. 19 - Planta de Telles Ferreira 1892.Pormenores da folha escala 1:5 000, com a localização do Salvavidas.

fig. 20 - Planta de Telles Ferreira 1892. Quadrícula 52 do levantamento colorido, escala 1:500, e pormenor da localização do Salvavidas.



fig. 21 – A Estação de Socorros a Náufragos.



fig. 22 – A Estação de Socorros a Náufragos antes da remodelação. 2011. Foto Seref Halicioglu in Panoramio.

fig. 23 – A Estação de Socorros a Náufragos na actualidade. Imagem do Google Earth.


 fig. 23a - A Estação em 2017.

 
A Estação de Socorros a Náufragos vista de nascente. À direita num postal do início do século XX. [1]
 
fig. 24 – Postal. Porto – Foz do Douro – Passeio Alegre (antigo).

[1] Os postais Estrela Vermelha começam a ser editados em 1905.
 
O naufrágio de 1947
 
Já no século XX são muitos, demasiados, os naufrágios na barra do Douro. [1]
Não podíamos deixar de assinalar aqui o naufrágio de 1947 que foi o mais trágico, pelo número de vidas que se perderam em diversos portos da costa portuguesa. Quatro traineiras naufragaram e morreram 152 pescadores.

fig. 25 – Uma traineira.



fig. 26 - Augusto Gomes (1910-1976), Tragédia do Mar, óleo s/ tela, 124 X 164 cm. ??

 
Num fundo ondulado de nuvens de tempestade e mar agitado, cinco figuras femininas, quatro das quais trajando de negro e uma quinta com uma saia purpura, caminham para a praia gritando e chorando a sua aflição perante a tragédia. As três figuras centrais erguem os braços enquanto nas pontas uma leva a mão ao peito e com a outra segura uma criança, e na outra extremidade uma ajoelha tapando o rosto com as mãos.
No tratamento dos braços robustos e musculados e das mãos e dos pés grandes e calosos, significando a dura vida das mulheres dos pescadores, nota-se a influência da Guernica de Picasso.

fig. 27 - Pablo Picasso (1881-1973) Guernica 1937, óleo sobre tela, 349,3 x 776,6cm. Museu Reina Sofia Madrid.

 
Essa influência é do mesmo modo visível no Enterro na rede de Candido Portinari, um quadro de 1944 e que faz parte de uma série de pinturas intitulada Retirantes. Não tendo como tema uma cena de pescadores exprime contudo a dor e o desespero dos que se vêm impotentes perante a sua condição de miséria. Como afirmou Jorge Amado sobre Portinari de suas mãos nasceram a cor e a poesia, o drama e a esperança de nossa gente. Com seus pinceis, ele tocou fundo em nossa realidade...



fig. 28 - Cândido (Torquato) Portinari (1903-1962) Enterro na rede, 1944 óleo sobre tela 180 x 220 cm. Museu de Arte de São Paulo MASP.

 
Baseado naquela pintura de Augusto Gomes, o escultor João José Brito realizou uma escultura em bronze intitulada “Tragédia no Mar” numa homenagem ao naufrágio de 1947, inaugurada em 2005.


fig. 29 – João José Brito (1941), Tragédia no Mar ing. 2005, bronze, Praia junto à Av. General Norton de Matos, Matosinhos.
 

[1] Ver Rui Picarote Amaro (1937-2014), A Barra da Morte – A Foz do Rio Douro, O Progresso da Foz 2007 e o blogue Navios e Navegadores http://naviosenavegadores.blogspot.pt/
 
A lancha salva-vidas
 
Deve-se a Henry Greathead (1757-1816) o primeiro barco construído para nos mares agitados de South Shields nesse dia desolador - 30 de janeiro de 1790. Baptizado de o "Original", era o primeiro barco salva-vidas.

fig. 30 – Joyce Wells Mr Henry Greathead's Life Boat going out to assist a Ship in distress, água tinta 13,6 x 18,7 cm. National Maritime Museum, Greenwich, Londres.


fig. 31 – Lancha salva-vidas Visconde de Lançada na Cantareira.
 
O Salva-vidas Visconde de Lançada [1] foi construído em Inglaterra em 1908 e estava estacionado no cais do Marégrafo. Era mareado por 10 remadores comandados por um arrais.
Serviu até aos anos setenta do século XX e foi então colocada junto à Estação de Socorros a Náufragos.

fig. 32 - Rui Amaro O salva-vidas Visconde da Lançada junto da Estação de Socorros a Náufragos da Foz do Douro, 02/1981.http://opilotopraticododouroeleixoes.blogspot.pt/2011_12_25_archive.htm

fig. 33 - Uma das lanchas dos pilotos, a P5.
 
Rui Picarote Amaro recorda este salva-vidas e as lanchas dos pilotos.

Neste mesmo local, assisti a naufrágios de pequenas embarcações de pesca em que os seus desventurados camaradas perecerem engolfados por montanhas de ondas traiçoeiras e muitos outros foram resgatados pelo salva-vidas Gonçalo Dias da Afurada e pelo Visconde de Lançada, da Cantareira, este timonado pelo seu patrão, o carismático Zé Bilé e pelo seu sota Rodrigo, e nomeadamente pelas lanchas de pilotar P4, P5 e P9, conduzidas pelos cabos-piloto Manuel de Oliveira Alegre (Marage), Aires Pereira Franco e pelo seu mestre Eusébio Fernandes Amaro (Colega), coadjuvados pelo seus motoristas e camaradas, que eram alternativa àqueles dois salva-vidas do Instituto de Socorros a Náufragos. Gente marinheira de têmpera, que enfrentava o perigo em favor do próximo! [2]

Para homenagear esta “Gente marinheira de têmpera, que enfrentava o perigo em favor do próximo”, em finais de 1936 o Comércio do Porto noticiava a decisão da Câmara Municipal de colocar a escultura “O Lobo-do-Mar” ou o “Salva-Vidas”, nome porque ficou conhecida, da autoria de Henrique Moreira no Jardim da Avenida Brasil, para com a estátua do Homem do Leme completar o conjunto artístico. A escultura foi inaugurada em 1937. [3]


fig. 34 - Henrique Moreira (1890 - 1979), O Lobo do Mar O Salva-Vidas 1937, Avenida do Brasil, Nevolgilde Porto.
 

[1] Visconde de Lançada foi um título criado por D. Maria II em 1849 para Manuel Inácio de Sampaio e Pina Freire (1778-1856). Suponho que o nome da lancha se refere ao 3.º Visconde de Lançada, D. Domingos de Sousa e Holstein Beck (1897-1969) 5º duque de Palmela e 4.º Conde de Calhariz, 3.º Conde da Póvoa, ou a um seu parente.
[2] Rui Picarote Fernandes Amaro, Discurso de apresentação do livro A Barra da Morte – A Foz do Rio Douro em 14.04.2007 no blogue Navios à Vista 2008. http://naviosavista.blogspot.pt/2008_02_24_archive.html
[3] Cf. José Guilherme Pinto de Abreu, A Escultura no Espaço Público do Porto no Século XX, Dissertação de Mestrado em História de Arte em Portugal, apresentada na Faculdade de Letras da Universidade do Porto 1996/98.Porto 1999.
 
CONTINUA em
Da Cantareira à Senhora da Luz