Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















sábado, 22 de setembro de 2018

variações sobre o tema janela 4


Vida no verso, vida na pintura. [1]

O tema da figura feminina atravessa toda a história da pintura e são numerosíssimos os quadros e desenhos que o tratam.

Assim e porque o nosso objectivo é a janela iremos apenas tratar alguns sub-temas que liguem a janela com a mulher, com algumas e raras excepções.

São inúmeras as telas em que a mulher está ocupada na leitura, o que implicou uma escolha de alguns exemplos que considerei mais significativos.


17. Mulher à janela lendo uma carta.


A Letter is a joy of Earth –
It is denied the Gods –
[2]

[Uma carta é uma alegria da Terra
– Denegada aos Deuses -.] [3]



A carta e o pombo correio foram durante séculos o único meio de comunicação à distância entre o interior doméstico e o exterior.

Por isso o tema da mulher que lê uma carta quando a figura feminina está junto de uma janela é tratado desde sempre na pintura.

No século XVII o tema aparece em pinturas de Dirck Hals, Vermeer e em Hooch.

Dirck Halls neste quadro também conhecido por Esperando o Amor, representa ao centro da composição uma mulher sentada o pé direito apoia do num pequeno tamborete, segurando na mão esquerda uma carta que terá acabado de ler.

A janela baça apenas deixa entrar a luz que ilumina a cena e é o quadro na parede do fundo que mostra, qual janela uma paisagem marítima.



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fig. 1 - Dirck Hals (1591-1656 ), Mulher sentada com uma carta (Seated Woman with a Letter), também conhecido como esperando o Amor (Hoping for Love) 1633, óleo s/painel 34 x 29 cm. Philadelphia Museum of Art. Philadelphia.



Em outro quadro Dirck Hals representa um interior semelhante onde uma mulher à esquerda da composição, junto a uma janela cuja luz incide sobre a sua figura, rasga a carta que acabou de receber e cujo envelope está no chão a seus pés. Do mesmo modo é o quadro que substitui a janela mostrando uma paisagem marítima.



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fig. 2 - Dirck Hals (1591-1656), Woman Tearing a Letter 1631, óleo s/madeira 45 x 55 cm. Landesmuseum Mainz.



No conhecido quadro de Vermeer Jovem lendo uma carta, a janela embora aberta, apenas deixa entrar a luz já que em Vermeer as janelas apenas permitem imaginar a poesia silenciosa do mundo exterior.

A jovem de pé distanciada do mundo externo, está compenetrada na leitura de uma carta, possivelmente de amor, que segura com as duas mãos.

Uma pesada cortina que pende do lado direito enquadra a cena que parece corrida propositadamente para mostrar a cena íntima da leitura da carta.

Funcionalmente servia, quando corrida, para isolar o espaço. Na pintura servia para dar um efeito teatral à cena representada.

No primeiro plano uma taça entornada espalha os frutos sobre uma rica coberta de lã.




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fig. 3 - Johannes Vermeer (1632-1675), Jeune femme lisant une lettre à la lumière d’une fenêtre, 1657/59, óleo s/ 83 x 64,5 cm. Gemäldegalerie Dresden.



A janela tem aqui como única função iluminar o compartimento de uma burguesa casa da Holanda do século XVII e o rosto de uma mulher que se reflecte na portada direita como se fosse une glace, soudain, où notre figure se mire /mêlée à ce qu’on voit à travers… [4]

[Um espelho repentino, onde nossa imagem se mira mesclada ao que se vê através dela...]



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fig. 4 – Pormenor da figura anterior.



Pieter Hooch seu contemporâneo e compatriota, também pinta o tema da mulher lendo uma carta, mas de uma forma diferente.

Em Hooch a mulher está sentada, iluminada pela forte luz do meio-dia que entra pela janela mas que aqui se abre para uma luminosa paisagem citadina.


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fig. 5 - Pieter Hooch (1629-1684?), lendo uma carta 1664, óleo s/tela 55 x55 cm. Szépmûvészeti Múzeum, Budapest.




Nos séculos XVII e nos países do sul por influência da Contra-Reforma, o tema da mulher lendo uma carta torna-se mais raro e sobretudo mais intimista e recatado, como a persevar a privacidade do interior doméstico.

A janela quase ou mesmo desaparece da tela ou tem os cortinados corridos e a luz que ilumina as cenas vem de local desconhecidot convertendo-se numa linguagem vinda da alma e que à alma se dirige [5].

O quadro de Jean Raoux mostra uma jovem concentrada na leitura de uma carta, inclinada procurando a luz que vem de uma janela de que apenas se vê a pesada cortina.



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fig. 6 - Jean Raoux (1677-1734) La Liseuse 1662, oleo s/ tela 90 x 80 cm.Musée du Louvre.




Na segunda metade do século XVIII a janela volta a abrir-se em particular na pintura aristocrática e cortesã.

Paul Sandby desenha uma mulher bella, frágil, assustada, sentada junto a uma janela aberta, onde apoia o braço esquerdo, compenetrada a ler uma carta.



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fig. 7 - Paul Sandby (1731-1809), A Lady Reading at a Window c.1754/57, aguarela, lápis , pena e tinta 20,2 x 13,2 cm. Royal Collection Trust. Windsor Castle.




Jean Honoré Fragonard trata o tema pintando uma jovem iluminada por uma janela redonda. Redonda porque…

Pela redonda entra o sonho,
que as vigias são redondas,
e o sonho afaga e embala
à semelhança das ondas.
[6]




49.7.49

fig. 8 - Jean Honoré Fragonard (1732-1806), A Carta de amor, c.1770, óleo s/tela 83,2 x 67 cm. The Metropolitan Museum of Art.


A jovem que fita o observador com uma expressão sorridente e maliciosa no seu rosto, tem na mão um ramo de flores acompanhado por um pequeno bilhete. Este adivinha-se ser de um amoroso ou de um amante com uma frase em que pergunta Ó! bela Ninfa porque não respondes?



49.7.49

fig. 9 - Pormenor da figura anterior.


No livro significativamente intitulado Fêtes galantes Paul Verlaine com subtil ironia mostra o exagero hipócrita dos amores palacianos. Assim inicia o poema Lettre, por Longe de vossos olhos, Senhora, por afazeres / Imperativos (tenho todos os deuses por testemunho) / Eu definho e morro, como de costume…


Éloigné de vos yeux, Madame, par des soins
Impérieux (j’en prends tous les dieux à témoins),
Je languis et je meurs, comme c’est ma coutume…


E termina o poema pelos (muito citados versos) o tempo que se perde a escrever uma carta, não vale nunca a dificuldade de escrever.

Et le temps que l’on perd à lire une missive
N’aura jamais valu la peine qu’on l’écrive.
[7]




Nos romances do século XIX, a carta desempenha um papel importante nos amores e nas intrigas, como nos já citados Madame Bovary e O Primo Bazilio.

O escritor brasileiro Machado de Assis compara o amor com a carta:

O amor é uma carta, mais ou menos longa, escrita em papel velino, corte dourado, muito cheiroso e catita; carta de parabéns quando se lê, carta de pêsames quando se acabou de ler. Tu que chegaste ao fim põe a epístola no fundo da gaveta, e não te lembres de ir ver se ela tem um post-scriptum... [8]


O pintor italiano Domenico Induno parece ilustrar este sentimento quando pinta um quadro intitulado A Carta, em que retrata, junto de uma janela cuja pálida luz ilumina uma mulher, a cabeça ligeiramente inclinada e o olhar caído, pensativa e desconsolada, reflectindo a amargura depois de ler a carta de ruptura de algum amado ou amante.


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fig. 10 - Domenico Induno (1815-1878), A Carta 1871, óleo s/tela 50,8 x 40.7 cm. Col. particular.


E a poeta Elizabeth Barrett Browning num dos Sonnets from the Portuguese (uma referência aos sonetos de Camões, às cartas de Soror Mariana e a outros poetas portugueses), escreve desiludida dos amores:

MY letters! all dead paper, — mute and white!
And yet they seem alive and quivering
Against my tremulous hands which loose the string
And let them drop down on my knee to-night.


This said, he wished to have me in his sight
Once, as a friend; this fixed a day in spring
To come and touch my hand—a simple thing.
Yet I wept for it! — this — the paper’s light-


Said, Dear, I love thee; and I sank and quailed
As if God's future thundered on my past.
This said, I am thine — and so its ink has paled


With lying at my heart that beat too fast;
And this — O Love, thy words have ill availed,
If what this said I dared repeat at last!  
[9]

[Minhas cartas! Tudo papel morto, mudo e baço!
E ainda assim elas parecem vivas e palpitam
nas minhas mãos trêmulas que a fita desatam
E as deixa cair esta noite no meu regaço.

Esta dizia, ele desejava ter-me a seu lado eternamente
Uma vez, como amigo; e esta fixou na primavera um dia
Para tocar de leve a minha mão, - simplesmente.

O que eu chorei por isso! – esta – o papel dizia -

Querida, eu te amo; e eu afundei e algo estremece
Como se Deus trovejasse nofuturo do que passei.

Esta, eu sou teu - e aqui a tinta quase desaparece

Com a mentira que no meu peito eu ia sentir;
E esta - Oh Amor, estas tuas palavras eu avaliei,
Se era o que diziam, ousaria finalmente repetir!]



A mesma expressão desconsolada mostra a jovem junto de uma janela que a pintora francesa Eva Gonzalès retrata.

Mas neste quadro o pequeno bilhete que tem na sua mão esquerda foi transportado por um pombo que segura e afaga no colo com a mão direita.



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fig. 11 - Eva Gonzales (1849-1883), A Lady 1865/70, óleo s/tela 40,3 x 28 cm. Col. particular.


Vinícius de Morais descreve no Soneto de separação o fim de uma relação.


De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.


De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.


De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.


Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.
[10]




Camille Corot conhecido sobretudo pelas suas paisagens que abriram o caminho ao impressionismo, também pintou retratos mais intimistas como esta La Lettre.

Num ambiente sombrio uma triste e melancólica mulher, em cujo rosto se advinham os segredos da alma, olha pensativa para a carta que acabou de ler e que desiludida deixa escorregar para os joelhos.

A luz que ilumina a composição vem do lado esquerdo por trás do espectador realçando a figura feminina em contraste com o fundo escuro onde mal se percebe uma janela.



29.160.33

fig. 12 – Jean-Baptiste Camille Corot (1796-1875), A Carta c.1865, óleo s/maeira 54,6 x 36,2 cm. The Metropolitan Museum of Arts N.Y.



Marceline Desbordes-Valmore escreveu um longo poema intitulado Os Separados onde alguém pede ao amado para não lhe escrever porque isso, na sua ausência, apenas lhe vem avivar as memórias dos momentos felizes da sua presença.

N’écris pas. Je suis triste, et je voudrais m’éteindre.
Les beaux étés sans toi, c’est la nuit sans flambeau.
J’ai refermé mes bras qui ne peuvent t’atteindre,
Et frapper à mon cœur, c’est frapper au tombeau.
N’écris pas!

N’écris pas. N’apprenons qu’à mourir à nous-mêmes
Ne demande qu’à Dieu… qu’à toi, si je t’aimais!
Au fond de ton absence écouter que tu m’aimes,
C’est entendre le ciel sans y monter jamais.
N’écris pas!

N’écris pas. Je te crains; j’ai peur de ma mémoire;
Elle a gardé ta voix qui m’appelle souvent.
Ne montre pas l’eau vive à qui ne peut la boire.
Une chère écriture est un portrait vivant.
N’écris pas!

N’écris pas ces doux mots que je n’ose plus lire:
Il semble que ta voix les répand sur mon cœur;
Que je les vois brûler à travers ton sourire;
Il semble qu’un baiser les empreint sur mon cœur
N’écris pas!
[11]

[Não escrevas. Estou triste e gostaria de me apagar.
Os belos verões sem ti são como a noite sem chama.
Fechei os meus braços já que não te podem alcançar
E atacar o meu coração é como atacar um túmulo.
Não escrevas!
Não escrevas. Apenas aprendemos a morrer a nós mesmos
Pergunta apenas a Deus…o que a ti, se eu te amei!
No profundo da tua ausência, escutar que tu me amas,
É ouvir o céu sem nunca o alcançar.
Não escrevas!
Não escrevas. Receio-te e temo a minha memória;
Ela reteve a tua voz que muitas vezes me chama.
Não mostres a água ardente para quem não a pode beber.
Uma escrita amorosa é um retrato vivo.
Não escrevas!
Não escrevas estas doces palavras que não mais ouso ler:
Pois parece que a tua voz as espalha no meu coração;
Vejo-as ardendo através do teu sorriso;
Parece que um beijo as imprime no meu coração
Não escrevas!]



Nos finais do século XIX e inícios do século XX apesar da ruptura das novas concepções da pintura o tema da figura feminina lendo à janela é ainda tratado de uma forma realista e académica.

Carlton Alfred Smith executou em 1888 uma conhecida aguarela que foi usada para uma edição (da Random House Mondadori) do romance Jane Eyre (1847) de Charlotte Brontë (1816-1855), romance onde as cartas assumem um papel fundamental no enredo da narrativa.



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fig. 13 - Carlton Alfred Smith (1853-1946) Recalling the Past 1888, aguarela s/papel s/dimensões. Col. particular.

Carlos Drummond de Andrade escreveu um longo poema intitulado Carta.

Neste caso é o amante que está desiludido e a carta (de que mostramos alguns excertos) assim o mostra.

Bem quisera escrevê-la
com palavras sabidas,
as mesmas, triviais,
embora estremecessem
a um toque de paixão.
[12]

…………………………………………………

Rápido é o sono, apenas,
que se vai, de mandar
notícias amorosas
quando não há amor
a dar ou receber;

quando só há lembrança,
ainda menos, pó,
menos ainda, nada,
nada de nada em tudo,
em mim mais do que em tudo,
e não vale acordar
quem acaso repousa

na colina sem árvores.
Contudo, esta é uma carta.
[13]



O pintor brasileiro José Ferraz de Almeida precocemente falecido, pinta um quadro denominado Saudade mostrando um pobre interior que com as paredes de tijolo cujo reboco vai desaparecendo, um esfarrapado chapéu pendurado, uma janela apenas constituída por tábuas de madeira, criam um ambiente de tons de castanho que apenas contrasta com o céu de um cinzento-azulado que se entrevê pela janela.

Uma mulher modestamente vestida com uma saia e um xaile negros, uma blusa de um tom idêntico a todo o interior, lê atentamente tapando a boca com a mantilha uma carta.


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fig. 14 - José Ferraz de Almeida (1850-1899), Saudade 1899, óleo s/tela 197 x 101 cm. Pinacoteca de S. Paulo.


Agostinho da Silva previne para apenas escrever:

Uma palavra só em que te avise
De que em sossego fiques e não ames
Senão o que de amor nenhum precise.
[14]



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fig. 15 - Edmund Blair Leighton (1852-1922), Seclusion 1900, s/dimensões.Col. particular.



Em tempos de guerra William Kay Blacklock pinta um interior mais modesto onde uma figura feminina lê uma carta provavelmente de um noivo ou esposo que pela data, se encontra na mobilizado. De notar o espelho que reflecte outra janela e ainda o gato adormecida na cadeira.



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fig. 16 - William Kay Blacklock (1872-1922) The letter 1917, óleo s/tela 50,2 x 37,5 cm. Col. particular.


Embora escrito durante a Guerra Civil espanhola o poema de Miguel Hernandez descreve a importância das cartas na separação provocada pelas guerras.

El palomar de las cartas
abre su imposible vuelo
desde las trémulas mesas
donde se apoya el recuerdo,
la gravedad de la ausencia,
el corazón, el silencio.
Oigo un latido de cartas
navegando hacia su centro.
Donde voy, con las mujeres
y con los hombres me encuentro,
malheridos por la ausencia
desgastados por el tiempo.
Cartas, relaciones, cartas:
tarjetas postales, sueños,
fragmentos de la ternura,
proyectados en el cielo,
lanzados de sangre a sangre
y de deseo a deseo.
Aunque bajo la tierra
mi amante cuerpo esté,
escríbeme a la tierra,
que yo te escribiré.
En un rincón enmudecen
cartas viejas, sobres viejos,
con el color de la edad
sobre la escritura puesto.
Allí perecen las cartas
llenas de estremecimientos.
Allí agoniza la tinta
y desfallecen los pliegos,
y el papel se agujerea
como un breve cementerio
de las pasiones de antes,
de los amores de luego.
Aunque bajo la tierra
mi amante cuerpo esté,
escríbeme a la tierra,
que yo te escribiré.
Cuando te voy a escribir
se emocionan los tinteros:
los negros tinteros fríos
se ponen rojos y trémulos,
y un claro calor humano
sube desde el fondo negro.
Cuando te voy a escribir,
te van a escribir mis huesos:
te escribo con la imborrable
tinta de mi sentimiento.
Allá va mi carta cálida,
paloma forjada al fuego,
con las dos alas plegadas
y la dirección en medio.
Ave que sólo persigue,
para nido y aire y cielo,
carne, manos, ojos tuyos,
y el espacio de tu aliento.
Y te quedarás desnuda
dentro de tus sentimientos,
sin ropa, para sentirla
del todo contra tu pecho.
Aunque bajo la tierra
mi amante cuerpo esté,
escríbeme a la tierra,
que yo te escribiré.
Ayer se quedó una carta
abandonada y sin dueño,
volando sobre los ojos
de alguien que perdió su cuerpo.
Cartas que se quedan vivas
hablando para los muertos:
papel anhelante, humano,
sin ojos que puedan serlo.
Mientras los colmillos crecen,
cada vez más cerca siento
la leve voz de tu carta
igual que un clamor inmenso.
La recibiré dormido,
si no es posible despierto.
Y mis heridas serán
los derramados tinteros,
las bocas estremecidas
de rememorar tus besos,
y con su inaudita voz
han de repetir: te quiero.
[15]



Thomas Benjamin Kennington pinta um quadro intitulado The Letter onde num ambiente de tons dourados uma sorridente figura feminina lê uma carta e onde o cabelo, a folhagem e a estola de penas a transformam em pájaro, paraíso, fasto de plumas no tocadas. [16]



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fig. 17 - Thomas Benjamin Kennington (1856 - 1916) The letter 1906, óleos/tela 63,5 x 76,5 cm. Col.particular.


E o quadro lembra esse amor feliz do poema de Verhaeren.


L'un devant l'autre, eh sanglotant d'amour
Et doucement et tour à tour
Sur nos lèvres qui les disaient d'une voix haute
Nos deux bouches, à chaque aveu, baisaient nos fautes
Ainsi,
Très simplement, sans tacheté ni sans blasphème,
Nous nous sommes sauvés du monde et de nous-mêmes,
Nous épargnant les deuils et les rongeants soucis,
Et regardant notre âme renaître,
Comme renaît après la pluie,
Quand le soleil la chauffe et doucement l'essuie,
La pureté de verre et d'or d'une fenêtre.
[17]

[Um na frente do outro, soluçando de amor
E devagar e à vez
Nos nossos lábios que o diziam em voz alta
As nossas bocas, em cada confissão, beijavam os nossos erros
Assim,
Muito simplesmente, sem mancha e sem blasfémia,
Nós salvamo-nos do mundo e de nós mesmos,
Poupando os lutos e as desgatantes preocupações,
E contemplando as nossas almas renascendo,
Como renasce depois da chuva,
Quando o sol a aquece e limpa suavemente,
A pureza de vidro e de ouro de uma janela.]



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fig. 18 - Nina Hardy ( active 1890 – 1929), The Love Letter, 1909, óleo s/tela 55,9 x 66 cm. Bourne Gallery, Reigate, Surrey, Great Britain.


E Mário Quintana descreve esse Amoroso Esquecimento provocado por uma separação.

Eu agora, – que desfecho!
Já nem penso mais em ti…
Mas será que nunca deixo
De lembrar que te esqueci?
[18]



Mas os pintores do movimento Nabis, mesmo tratando o tema da mulher lendo à janela procuram fugir às convenções da pintura romântica e realista.

Edouard Vuillard, cuja pintura foi chamada de intimista por pintar sobretudo cenas da vida doméstica e familiar, trata o tema de uma forma moderna pela simplicidade das formas e das cores dando às suas composições uma nova plasticidade.


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fig. 19 - Edouard Vuillard (1868-1940). Femme Lisant (La Lettre) c. 1893, óleo s/painel 21,2 x 24,5 cm. Col. particular.




Vuillard pinta um outro quadro em que uma figura feminina (a mãe do artista) está sentada junto a uma janela de costas para o espectador mas cuja imagem é reflectida na portada direita. Olha melancólica para a paisagem e parece ter no regaço uma carta. Esta cena compõe-se simultaneamente da figura, do seu reflexo e da janela aberta sobre a rua.



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fig. 20 - Edouard Vuillard (1868-1940). Au coin de la fenêtre 1915 pastel s/papel, huile sur toile, 70 x 54 cm. MuMa, musée d'Art moderne André Malraux. Le Havre.




E outro dos pintores do movimento Nabis, Pierre Bonnard também trata o tema da mulher lendo uma carta junto a uma janela.

Neste quadro onde abundam os tons azuis, a janela está francamente aberta inundando a cena de uma luminosidade que sublinha o ar feliz da personagem feminina.


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fig. 21 - Pierre Bonnard (1867-1947), Femme blonde lisant 1905, óleo s/painel 36,5 x 46 cm. Col. particular.

Talvez a jovem esteja lendo a canção The Message do poeta do século XVII John Donne.

Send home my long stray'd eyes to me,
Which, O! too long have dwelt on thee;
Yet since there they have learn'd such ill,
Such forced fashions,
And false passions,
That they be
Made by thee
Fit for no good sight, keep them still.
Send home my harmless heart again,
Which no unworthy thought could stain;
Which if it be taught by thine
To make jestings
Of protestings,
And break both
Word and oath,
Keep it, for then 'tis none of mine.
Yet send me back my heart and eyes,
That I may know, and see thy lies,
And may laugh and joy, when thou
Art in anguish
And dost languish
For some one
That will none,
Or prove as false as thou art now.
[19]

[Devolve os pobres olhos que eu perdi
E que te habitam desde que te vi
Mas se eles já sofreram tal castigo
E tantos danos tantos enganos tal rigor

Que a dor os fez inúteis guarda-os contigo

Devolve o coração que te foi dado
Sem jamais cometer qualquer pecado
Porem, se ele contigo já aprendeu
Como se mata e se maltrata e se tortura
Uma alma pura guarda também esse ex-pedaço meu

Melhor, devolve olhos e coração
Para que eu possa ver tua traição
E possa rir quando chegar a hora
De te ver padecer por alguém que tem
Um coração como o que tens agora]. [20]



Outros pintores ao longo do século XX seguindo a lição dos impressionistas trataram o tema da mulher lendo pacificamente uma carta à janela.



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fig. 22 - Eugen (Jacob Israel) Spiro (1874-1972), Laudaufenthalt 1906, óleo s/cartão 52 x 58,3 cm. Col. particular.


Camões escreve em castelhano um soneto em que refere esta Janela venturosa.

Ventana venturosa do amañece
Qual resplandor d′Apolo el de mi dama,
Abrasarte veja yo con una llama
De las con que mi alma resplandece.

 
Porque se ves el mal que se padece
Y sientes el dolor que il pecho inflama
No dexas a mis ojos ver la rama
Que dientro en mi con lagrimas florece.

 
Si no te mueve ya la pena mia,
Muevate ver lo poco que se gana
De no dexar al alma su alegria.


Y pues lo sabes ya, cruda ventana,
Antes que mi dolor descubra el dia,
Dexame ver mi ninfa soberana.
[21]



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fig. 23 - Karl Buehr (1866-1954), Reading a letter 1912 óleo s/tela 100,33 x 82,55 cm. Col. particular.



[1] António Ferreira, Poemas Lusitanos Do Doutor António Ferreira. Dedicados por seu filho Miguel Leite Ferreira, ao Príncipe D. Philippe nosso senhor. Em Lisboa. Impresso com licença, por Pedro Crasbeeck. M.D.XCIII. (Livro II dos Sonetos, XXX, pág. 23).

[2] Emily Dickinson (1830-1886), The lines are incorporated in a letter written to Mr. and Mrs. Eben J. Loomis on 2 January 1885. In The Complet Poems of Emily Dickson Edited by Thomas H. Johnson, Little, Brown and Company Boston Toronto 1955. (pág. 672).

[3] Tradução de Jorge de Sena (1919-1978), 80 poemas de Emily Dickson (1979), Guimarães Editores Bertrand 2010.

[4] Rainer Maria Rilke (1875-1926), La Fenêtre, de Vergers, in Œuvres poétiques et theatrales, Colection de la Pléiade Gallimard, Paris 1987. (pág.1104).

[5] René Huyghe (1906-1997), Dialogue avec le Visible, Flammarion 1955. Versão portuguesa: Diálogo com o Visível, tradução de Jacinto Baptista, Bertrand. (pág.159).

[6] António Gedeão (1906-1997), Aurora Boreal do livro Teatro do Mundo (1958) in M. Alberta Menéres e E. M. de Melo e Castro Antologia da poesia Portuguesa 1940-1977, 1º volume, Moraes Editores Lisboa 1979. (pág.461).

[7] Paul Verlaine, Lettre poema XVI de Fêtes galantes, Alphonse Lemerre, Editeur Passage Choiseul 47, Paris M D CCC LXIX.

[8] Machado de Assis (1839-1908), A Mão e a Luva 1874. Publicado originalmente em folhetins, a partir de 26/09/1874, no jornal O Globo. In Obra Completa, Editora Nova Aguilar, Rio de Janeiro 1994.

[9] Elizabeth Barrett Browning (1806-1861), Soneto XXVIII. My letters! all dead paper,… mute and white! (1844) in Sonnets from the Portuguese, edition with ornamental designs by Bertram Grosvenor Goodhue, University Press in Cambridge, Editors Small, Maynard and Company, Boston M DCCCC II, (pág.34).

[10] Vinícius de Morais, Soneto da separação, Oceano Atlântico, a bordo do Highland Patriot, a caminho da Inglaterra, 09.1938 in Antologia Poética 2ª ed. aumentada Editora do Autor, Rio de Janeiro 1960. (pág.104).

[11] Marceline Desbordes-Valmore (1786-1859), Les séparés, Poésies posthumes, 1860. Poema musicado por Maurice Plagne (?-?), Compositeur. Les Séparés. Poésie de Marceline Desbordes-Valmore. Chant et piano. Foetisch Frères (S.A.), Éditeurs, Lausanne. Même Maison à Paris, 60, Passage Choiseul. 1922.

[12] Carlos Drummond de Andrade, Carta de A Família que me dei in Antologia Poetica 2ª edição, Editôra do Autor, Rua Araújo Porto Alegre 70. Rio de Janeiro 1963. (pág. 72).

[13] Carlos Drummond de Andrade, Carta de A Família que me dei in Antologia Poética 2ª edição, Editora do Autor, Rua Araújo Porto Alegre 70. Rio de Janeiro 1963. (pág. 72).

[14] Agostinho da Silva (1906-1994), in Uns poemas de Agostinho, Editorial Ulmeiro, R. Galileu Saúde Correia 21-B, Almada 1995. (pág. 136)

[15] Miguel Hernandez (1910-1942), Carta de de El rayo que no cesa (1936), In Cancionero y romancero de ausências. El hombre acecha. Últimos poemas. 4ª edicion. Biblioteca clasica y contemporânea, Editorial Losada S. A. Buenos Aires 1963. (pag.26).

[16] Vicente Aleixandre (1898-1984), La Selva y el Mar de La Destruccion o el Amor 1935. Editorial Losada S. A. Buenos Aires 1954.

[17] Emile Verhaeren Les Heures du Soir, précédées de Les Heures claires, Les Heures d'après-midi. 12.e Édition. Mercvre de France, XXVI, Rue Condé Paris MCMXXII. (Pag.120).

[18] Mário Quintana, Do Amoroso Esquecimento de Espelho Mágico. 2a. Edição. São Paulo: Globo, 2005. (pág.49)

[19] John Donne (1572-1631),The Message, de Songs and Sonnets in Poems of John Donne. Vol I. Edited by E. K. Chambers, A. H. Bullen, 18 Cecil Court, London 1901. (pág.43 e 44).

[20] O Poema de John Donne livremente traduzido para uma canção por Tête Espínola.

[21] Luís de Camões, Soneto CCCXVIII in Obras de Luís de Camões, Lello & Irmão Editores, 144, Rua das Carmelitas, Porto 1970. (pág.165).


18. Mulher à janela escrevendo uma carta.

A figura feminina à janela escrevendo uma carta é também uma variante do tema da janela e da mulher.

A um artista desconhecido que sabemos activo na primeira metade do século XVI, foi dado o nome de Mestre das meias figuras pelos numerosos retratos de bustos que lhe são atribuídos.

Destas pinturas destaca-se uma série de Santa Madalena.

Num desses quadros está representada a figura de Madalena, ricamente vestida, sentada e escrevendo uma carta. A seu lado um vaso dourado com o unguento que identifica a santa. [1]


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fig. 24 - Mestre das meias figuras (c.1490-c.1540), Santa Madalena escrevendo uma carta, óleo s/painel 38,5 x 25,1 cm. Col. particular.

Repare-se no pormenor da janela, do lambril e de todos os instrumentos e objectos que usa para escrever Madalena ella, que em vida solta, alegre e descuidosa, / passara os seus dias, triste mulher formosa!  [2]



O Guercino (Giovanni Francesco Barbieri) pinta uma mulher, a Sibila Persa, escrevendo. Como se referiu na pintura barroca desparece a janela e a figura feminina trajando tons de vermelho, azul e branco é ressaltada sobre o neutro fundo negro.


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fig. 25 - Guercino (1591-1666), Sibilla Persica 1647/48, óleo s/tela 117 x 96 cm. Pinacoteca Capitolina.



Sobre este retrato da Sibila escrevendo como não lembrar Agustina essa outra escritora cuja primeiro romance se intitula precisamente A Sibila cuja personagem:

Mercê dum sentido finíssimo para se embrenhar nos fenómenos da natureza humana ou simplesmente do meio vital, com os seus elementos, suas causas e efeitos, depressa adquiriu uma sabedoria profunda acerca de todos os ritmos da consciência, do instinto, das forças telúricas que se conjugam no fatalismo da continuidade. Conhecia os homens sem o aprender jamais. Sabia, uma por uma, qual a reacção que correspondia a determinado tipo, perante determinado facto. [3]



E não se pode evocar a escrita epistolar amorosa sem lembrar as Lettres Portugaises (Cartas de Soror Mariana Alcoforado). [4]

Não existem muitas imagens de Mariana Alcoforado a autora das Cartas.

Existe um gravura de Charles-Dominique-Joseph Eisen (1720-1778) * representando Mariana (Mendes da Costa) Alcoforado (1640-1723), a infeliz freira em traje de dama e em ambiente do século XVIII, inserida na edição das Cartas de 1770.

* Autor do frontispício do Essai sur l'architecture 1753 de Marc Antoine Lauigier (1713-1769).


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fig. 26 - Charles-Dominique-Joseph Eisen Dessin au crayon relié dans Lettres portugaises, 1770 Nouvelle édition, avec les imitations en vers par Dorat, Paris, 1806Musée Condé Chantilly.


Soror Mariana literalmente enclausurada lembra o doce bem passado e mal presente. De costas para a janela em que pela primeira vez viu Noël Bouton de Chamilly (1636-1715), o militar que lutou em Portugal na Guerra da Restauração e cujo retrato segura na mão direita está escrevendo uma das suas inflamadas cartas.

(…) un Amant que tu ne verras jamais; qui a passé les Mers pour te fuïr, qui est en France au milieu des plaisirs, qui ne pense pas un seul moment à tes douleurs, & qui te dispense de tous ces transports, desquels il ne te sçait aucun gré? [5]

[(…) um amante que jamais voltarás a ver, que atravessou os Mares para te fugir, que está em França rodeado de prazeres, que não pensa um só instante nas tuas mágoas e que dispensa todo estes arroubos dos quais nem se preocupa?]


O pintor Henri Matisse (1869-1954), em 1945 propôs uma edição das Cartas para a qual realizou vinte e quatro litografias e ainda 15 retratos imaginários de Soror Mariana. [6]

Uma página da publicação com os desenhos de Matisse onde a referida citação está sublinhada.


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fig. 27 - Henri Matisse, página 18 de La réligieuse portugaise 1945.



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fig. 28 - Henri Matisse, La réligieuse portugaise 1945, lápis s/papel 52,8 x 40,5 cm.


E o pintor e ceramista Jorge Colaço desenhou um estudo para azulejos representando Soror Mariana, lendo uma carta de frente para uma janela do convento.


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fig. 29 - Jorge Colaço (1868-1942), projeto para azulejos1901/1942, Aguarela e grafite s/papel 32,4 x 24,8 cm. Museu Nacional do Azulejo.



Sthendal no seu De L’Amour coloca em paralelo, como amor-paixão, os amores de Mariana Alcoforado pelo marquês de Chamilly  e a paixão de Heloísa e Abelardo.

1° L'amour-passion, celui de la Religieuse portugaise, celui d'Héloise pour Abélard, [7]

Assim cabe aqui referir o quadro que nos finais do século XVIII, Bernard d’Agesci pintou, sem nenhuma janela, que mostra uma jovem sonhando romanticamente com a leitura das célebres Cartas de Heloísa e Abelardo.


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fig. 30 - Bernard d’Agesci (1757-1829), Mulher lendo as Cartas de Heloísa e Abelardo, c.1780, óleo s/tela 81 x 65 cm. Art Institute of Chicago.

A jovem sonha com pedir a alguém que lhe escreva como Heloísa:

Mais si mon fol amour exige trop de vous,
Du moins, cher Abeilard, du moins, écrivez-nous,
[8]




O tema da mulher à janela escrevendo uma carta é tratado no século XIX por vários pintores como Haynes King.


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fig. 31 - Haynes King (1831-1904) The Letter 1872. Óleo s/tela 51 x 41 cm. Col. particular.


Florbela Espanca escreve um soneto que podia ilustrar esta pintura.

Vejo-me triste, abandonada e só
Bem como um cão sem dono e que o procura
Mais pobre e desprezada do que Job
A caminhar na via da amargura!


Judeu Errante que a ninguém faz dó!
Minh'alma triste, dolorida, escura,
Minh'alma sem amor é cinza, é pó,
Vaga roubada ao Mar da Desventura!


Que tragédia tão funda no meu peito!...
Quanta ilusão morrendo que esvoaça!
Quanto sonho a nascer e já desfeito!


Deus! Como é triste a hora quando morre...
O instante que foge, voa, e passa...
Fiozinho d'água triste... A vida corre...
[9]



Num registro de outros amores Columbano pinta, no seu Chalet em Sintra, a Condessa d’Edla, Elise Friedericke Hensler (1836-1929), a cantora por quem se apaixonou e com quem casou D. Fernando II.


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fig. 32 - Columbano Bordalo Pinheiro (1857-1929), Condessa d'Edla sentada a escrever 1875, óleo s/tela 33 x 30 cm. Palácio Nacional da Pena.


A condessa d'Edla envergando um traje cinzento azulado que contrasta com o vermelho do cadeirão em que está sentada a escrever. O fundo da pintura em tons de verde e castanho mostra o que parece ser uma janela que se abre para a paisagem de Sintra.



O quadro de Gustave Léonard de Jonghe, do final do século XIX, apresenta um ambiente burguês decorado com um rico mobiliário onde uma mulher sentada numa cadeira se inclina para a janela, apoiada no braço direito e tendo na mão uma pena.

Tem pousada na mesa um tinteiro e uma folha de papel e medita na resposta ao bilhete que acompanha o ramo de rosas pousado sobre o veludo bordeaux do tamborete. Sobre a cómoda do lado direito uma pequena estatueta em porcelana significativamente representando um Cupido.

A posição da figura feminina cria uma diagonal na direcção da janela imprimindo uma dinâmica a toda a composição.


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fig. 33 - Gustave Léonard de Jonghe (1829-1893), Pensando à janela e a carta 1893, óleo s/tela 40,5 x 59,5 cm. Col. particular.



Todo o quadro lembra o poema de Marcelina Desbordes-Valmore

Reprends de ce bouquet les trompeuses couleurs,
Ces lettres qui font mon supplice,
Ce portrait qui fut ton complice;
Il te ressemble, il rit, tout baigné de mes pleurs.
Je te rends ce trésor funeste,
Ce froid témoin de mon affreux ennui.


Ton souvenir brûlant, que je déteste,
Sera bientôt froid comme lui.
Oh! Reprends tout. Si ma main tremble encore,
C'est que j'ai cru te voir sous ces traits que j'abhorre.
Oui, j'ai cru rencontrer le regard d'un trompeur;
Ce fantôme a troublé mon courage timide.

Ciel! On peut donc mourir à l'aspect d'un perfide,
Si son ombre fait tant de peur!
Comme ces feux errants dont le reflet égare,
La flamme de ses yeux a passé devant moi;
Je rougis d'oublier qu'enfin tout nous sépare;
Mais je n'en rougis que pour toi.

Que mes froids sentiments s'expriment avec peine!
Amour... que je te hais de m'apprendre la haine!
Eloigne-toi, reprends ces trompeuses couleurs,
Ces lettres, qui font mon supplice,
Ce portrait, qui fut ton complice ;
Il te ressemble, il rit, tout baigné de mes pleurs!

Cache au moins ma colère au cruel qui t'envoie,
Dis que j'ai tout brisé, sans larmes, sans efforts;
En lui peignant mes douloureux transports,
Tu lui donnerais trop de joie.
Reprends aussi, reprends les écrits dangereux,
Où, cachant sous des fleurs son premier artifice,
Il voulut essayer sa cruauté novice
Sur un coeur simple et malheureux.

Quand tu voudras encore égarer l'innocence,
Quand tu voudras voir brûler et languir,
Quand tu voudras faire aimer et mourir,
N'emprunte pas d'autre éloquence.
L'art de séduire est là, comme il est dans son coeur!
Va! Tu n'as plus besoin d'étude.
Sois léger par penchant, ingrat par habitude,
Donne la fièvre, amour, et garde ta froideur.

Ne change rien aux aveux pleins de charmes
Dont la magie entraîne au désespoir:
Tu peux de chaque mot calculer le pouvoir,
Et choisir ceux encore imprégnés de mes larmes...
Il n'ose me répondre, il s'envole... il est loin.
Puisse-t-il d'un ingrat éterniser l'absence!
Il faudrait par fierté sourire en sa présence:
J'aime mieux souffrir sans témoin.

Il ne reviendra plus, il sait que je l'abhorre;
Je l'ai dit à l'amour, qui déjà s'est enfui.
S'il osait revenir, je le dirais encore:
Mais on approche, on parle... hélas! Ce n'est pas lui!
[10]

[Devolvo-te este bouquet de enganadoras cores
Estas cartas que são o meu suplício,
Este retrato que foi o teu cumplice;
Ele és tu, ele ri, molhado pelas minhas dores.
Devolvo-te este tesouro funesto
Este frio testemunho do meu terrível tédio.
A tua quente recordação, que eu detesto,
e que em breve estará como ele assim gélido.
Oh! Leva tudo. Se a minha mão está ainda tremente,
É porque julguei ter-te visto com esse teu ar repelente.
Sim, pensei ter visto o olhar de um enganador;
Esse fantasma incomodou a minha coragem tímida.
Céus! Podemos assim morrer com essa visão pérfida,
Se a sua sombra criar assim tanto terror!
Como aquelas luzes perdidas cujo reflexo é enganoso
A chama dos seus olhos passou diante de mim;
Eu coro ao esquecer que enfim tudo nos separa;
Mas é por ti que a minha face fica rubra assim.
Que meus frios sentimentos se exprimem com dificuldade!
Amor...Como te odeio porme ensinar o ódio e a maldade!
Vai para longe, retoma essas enganosas cores,

Essas cartas, que são a minha tortura,
Este retrato, que cúmplice te deu cobertura;
Contigo ele se parece, ele ri, todo banhado nas minhas dores!

Esconde pelo menos a minha raiva cruel ao que te envia
Diz-lhe que sem lágrimas, sem esforço tudo parti;
Pintando-lhe os dolorosos arroubos que eu senti,
Dar-lhe-ias uma imensa alegria.
Leva de volta também, leva as suas cartas perigosas,
Onde, escondendo sob as flores o seu primeiro ardil,
Ele quis ensaiar a sua nova crueldade viril.

Em um coração simples com traições amorosas.
Quando tu ainda quiseres perder a inocência,
Quando tu quiseres ver queimar e definhar,
Quando tu quiseres ainda morrer de amar
Não peças por empréstimo outra eloquência.
A arte da sedução está aí, como está no teu peito!
Vai! tu nada mais estudar se presume.
Sê gentil com o vício, ingrato por costume,
Dá febre, amor, e guarda o teu frio jeito.
Não mudes as confissões cheias de encantos
Cuja magia leva sempre ao desesperado sofrer:
Tu podes de cada palavra calcular o poder,
E escolher aquelas ainda cheias dos meus prantos…
Ele não ousa me responder, ele voa...ele está longe.
Possa ele de um ingrato estar eternamente ausente!
É preciso por orgulho sorrir quando ele estiver presente:
Eu prefiro sem testemunhas sofrer.
Não voltará, sabe que o como o odiei;
Eu disse isso ao amor, que já fugiu dele.
Se ele ousar voltar, eu de novo direi:
Mas aproximamos-nos, falamos ...hélas! Não é ele!]



Fixa-se então um padrão da mulher tocando nos lábios com a ponta da pena e reflectindo ou pesando as palavras que irá escrever e com que irá demonstrar os seus sentimentos.


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fig. 34 - Klavdi Petrovich Stepanov, (1854-1910), a Letter 1893, óleo s/tela 22,5 x 26 cm. State Art Museum, Nizhny Novgorod, Russia.



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fig. 35 - Samuel Luke Fildes (1843-1927), The Love Letter s/d. Col. particular.



E o gesto mantém-se apesar da evolução do instrumento da escrita.

Edmund Blair Leighton pinta uma mulher sentada de frente para uma janela onde parece procurar a inspiração para a carta que pretende escrever. O pintor assina com as suas iniciais e data a pintura na parte lateral da mesa.


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fig. 36 - Edmund Blair Leighton (1853-1922), Straying Thoughts 1913, óleo s/painel 25,5 x 33,5 cm. Col. particular.



Com outro tratamento mais plástico Pierre Bonard pinta uma figura feminina escrevendo uma carta, vista de cima como se o pintor se encontrasse de pé. A janela é apenas uma mancha de enquadramento da figura.

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fig. 37 - Pierre Bonard (1867-1947) 1906, óleo s/ tela 55×47 cm. National Gallery of Art Washington.


[1] Ver neste blogue http://doportoenaoso.blogspot.com/2018/01/aproximacao-ao-retabulo-de-issenheim-de.html

[2] Gonçalves Crespo (1846 - 1883) Transfiguração (1870) in Obras Completas. Tavares Cardoso & Irmão Editores, 5, Largo de Camões, 6. Lisboa 1897. (pág.154).

[3] Agustina Bessa Luís, A Sibila (1954), 4.ª Edição, Guimarães Editores, Lisboa 1970. (pág.59).

[4] Lettres Portugaises. Avec les réponses traduites en françois, Chez Thomas Amaulry, Rue Merciere, a la Victoire Lyon M DC LXXX.

[5] Mariana Alcoforado (1640-1723), Première lettre in Lettres portugaises avec les réponses, traduites en françois. Chez Thomas Amaulry, rue Merciere, à la Victoire. Lyon MDCLXXX. (pág. 3).

[6] Henri Matisse, Mariana Alcoforado, Lettres Portugaises. Lithographies originales de Henri Matisse. In-4 (275 x 210 mm), en feuilles, chemise, étui. 102 lithographies originales d'Henri Matisse, dont 15 à pleine page. Tirage à 270 exemplaires sur vélin d'Arches, tous signés par l'artiste, n° 198. Éditions Tériade, Paris 1946.

[7] Sthendal (1783-1842), De L’Amour par de Sthendal. Édition revue et corrigée et precedée d’une étude sur les Oeuvres de Sthendal par Sainte-Beuve. Garnier Frères, Libraires-Éditeurs 6, Rue des Saints Pères Paris 1906. (pág.1).

[8] Lettres d’Héloïse et d’Abeilard, mise en vers par M. De Beauchamps, d’après l’excellente traduction des lettres d' Héloïse & Abeilard de M. le comte de Bussi Rabutin. In Lettres et Épitres Amoureuses d’Héloïse et d’Abeilard. Nouvelle édition. Tome premier. A Londres 1790. (pág.100).

[9] Florbela Espanca (1894-1930), Hora que Passa de Livro de Sóror Saudade in Sonetos Completos. Livraria Gonçalves, Rua de Sá de Miranda 60, Coimbra MCM XXXIV. (pág.77).

[10] Marceline Desbordes-Valmore (1786-1859), A L’Amour de Elégies in Poésies de Madame Desbordes-Valmore. Quatrième édition. P.-M. de Vroom, Imprimeur Libraire, Rue de Louvain, Bruxelles 1825. (pág.67).




19. Cansada da leitura

Flaubert no já aqui citado romance Madame Bovary descreve o vazio, o énnui, que se apossa de Emma e que a torna cansada da leitura, da música e do desenho, as actividades que para além da costura e da educação dos filhos eram socialmente permitidas às mulheres.

… Elle abandonna la musique, pourquoi jouer? Qui l’entendrait? (…) Elle laissa dans l’armoire ses cartons à dessin et la tapisserie. À quoi bon? La couture l’irritait. – J’ai tout lu, se disait-elle. Et elle restait à faire rougir les pincettes, ou regardait la pluie tomber. [1]

[Ela abandonou a música, de que serve tocar? Quem me ouviria? (...) Ela deixou no armário as suas pranchetas de desenho e a tapeçaria. Para quê? A costura irritava-a. – Já li tudo, dizia para si mesma. Restava-lhe avermelhar os ferros do fogão de sala ou assistir à chuva a cair.]

Comecemos por esse cansaço da leitura reflectido em pinturas onde apenas resta à mulher olhar o mundo através da janela.

James Ranalph Jackson pinta um sóbrio quadro onde uma jovem olha para uma larga janela aberta para um lago onde veleja um barco.


Quando no mundo exterior como que se abre uma porta
E sem nada que se altere,
Tudo se revela diverso.
   [2]


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fig. 37 - James Ranalph Jackson (1882-1975), Dawn 1924, óleo s/tela 98,5 x 72,5 cm. Art Gallery of New South Wales.


O cansaço da leitura é indiciado pelo livro aberto e negligentemente pousado no parapeiro e pela pose da figura feminina a quem

Ninguém responde: o mar de longe bate;
Move-se brandamente o arvoredo;
Leva-lhe o vento a voz, que ao vento deita.
   [3]




Pierre Charles Comte, (curiosamente também autor de uma tela intitulada A Coroação de Inês de Castro de 1849), pinta uma mulher num interior gótico, com um livro na mão cuja leitura suspende para olhar pela janela à procura do devaneio ou do sonho que a transportem para outros lugares.



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fig. 38 - Pierre Charles Comte (1823-1895), Femme lisant dans un intérieur gothique s/d, óleo s/madeira 54 x 43 cm. Col. particular.



E o polaco Wladyslaw Bakalowicz pinta uma mulher cansada da leitura, com

Um encolhido olhar: üa brandura
Um medo sem ter culpa, um ar sereno;
Um longo e obediente sofrimento.
[4]

E parece procurar na janela outros sonhos e devaneios.

O ambiente procura reproduzir a pintura holandesa do século XVII.


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fig. 39 - Wladyslaw Bakalowicz (1833-1904), waiting for the return, óleo s/painel 21,3 x 16,2 cm. Col. particular.



Silvestro Lega um pintor que pertenceu ao grupo dos Macchiaioli, com uma visão serena do mundo e uma grande atenção psicológica no tratamento das figuras, numa das suas últimas pinturas trata o tema da mulher que descansa da leitura e olha através da janela.

Tratada de uma forma mais plástica a pintura com o sugestivo título In Attesa (À Espera), mostra uma figura feminina sentada, o livro pousado na vertical sobre os joelhos, olhan para o exterior através de uma janela que surge reflectida num espelho.


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fig. 40 - Silvestro Lega (1826-1895). In attesa 1894, óleo s/tela s/dimensões .Col. particular.



Hans Olaf Heyerdahl pinta uma jovem vestida de azul escuro que suspende a leitura para com a cabeça apoiada na mão direita olhar sonhadora para os tons luminosos do panorama de Paris, Fourmillante cité, cité pleine de rêves. [5]



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fig. 41 - Hans Olaf Heyerdahl At the Window 1881, óleo s/painel 46 x 38 cm Nasjonalgalleriet, Oslo.

A janela aberta sobre

Paris: derradeiro escudo,
Silêncio dos meus enganos.
  [6]

E a grade de ferro fundido em que se apoia dividem o dedans e o dehors, mas é o que, simbolicamente, separa o desejo e da realidade.



O pintor húngaro István Csók numa tela intitulada Frustração coloca à janela uma figura feminina, cuja blusa branca com o lenço vermelho atraem de imediato o olhar do observador para o seu semblante fechado.

Ela olha para a paisagem através de uma janela aberta e florida, como que a procurar ultrapassar a frustração da sua vida ou da sua leitura.



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fig. 42 - István Csók (1865-1961), Frustration 1895, óleo s/tela s/dimensões. Col. particular.



E ainda no sóbrio quadro de William Orpen uma figura feminina sentada no parapeito de uma janela, suspende a leitura do livro que tem pousado nos joelhos e com um olhar distante observa a paisagem ou medita sobre a sua própria condição.

Tínhamo-nos esquecido do tempo, e o espaço imenso empequenara-se-nos na atenção. Fora daquelas árvores próximas, daquelas latadas afastadas, daqueles montes últimos no horizonte haveria alguma coisa de real, de merecedor do olhar aberto que se dá às coisas que existem? [7]



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fig. 43 - William Orpen (1878-1931), The Window Seat 1901, óleo s/tela 76 x 56 cm. Col. particular.



Delphin Enjolras enquadra o tema da mulher sentada descansando da leitura a janela bem aberta para a noite.

Sob essa luz crepuscular em que os tons de azul contrastam com o dourado do candeeiro que ilumina a cena a mulher respira pela janela-porta um sopro de ar carregado dos perfumes do jardim e ouve as calmas águas de um rio.



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fig. 44 - Delphin Enjolras (c.1857-1945). La lecture, óleo s/tela 73 x 54 cm. Col. particular.

Excertos do poema de Charle Guérin:

Ma fenêtre était large ouverte sur la nuit.
La maison reposant autour de moi sans bruit,
………
Un souffle d'air chargé des parfums du jardin
Me ravit en entrant la lumière soudain,
Et je me trouvai seul dans l'ombre avec mon rêve.
…..
Les ténèbres nous font l'oreille plus subtile,
L'âme s'enivre mieux, parmi l'obscurité,
Du suave secret des belles nuits d'été.
Je respirais l'odeur de l'herbe et de la terre.
Après de longs instants de calme solitaire
Où les vents familiers eux-mêmes semblaient morts,
Je sentais frissonner le silence au-dehors;

……

Aujourd'hui je reviens sur ces heures passées
A caresser ainsi dans l'ombre mes pensées,
Et, peut-être anxieux de mon propre destin,
Je me laisse conduire à voir dans votre fin,
Ô flambeaux dont le vent du soir cueillait la flamme,
Une image du corps abandonné par l'âme.
[8]

[A minha janela bem aberta para a noite
A minha volta a casa repousando sem ruído,

……….

Um sopro de ar carregado com os aromas do jardim
Me deliciava entrando a luz de repente,
Eu me encontrei sozinha na sombra com o meu sonho.
…..

A escuridão torna mais subtil o que o ouvido encerra
A alma embriaga-se melhor no meio da escuridão
Desse suave segredo das belas noites de verão.
Eu respirei assim o cheiro da erva e da terra.

Depois de longos momentos de calma solitária
Quando os ventos familiares pareciam morrer
Senti lá fora o silêncio estremecer;
……

Hoje volto para esses passados momentos
Acariciando no escuro os meus pensamentos,
E, talvez ansioso sobre o meu próprio destino,
Eu me deixo levar a ver no seu fim
O fulgor que a chama o vento colhia na noite calma,
Uma imagem do corpo abandonado pela alma.]


[1] Gustave Flaubert (1821-1880), Madame Bovary Moeurs de province, Librairie de France, Paris,1929. (pág. 131).

[2] Álvaro de Campos (Fernando Pessoa) Ode Marítima in Obra Poética, Companhia Aguilar Editora, Rio de Janeiro 1965. (pag.316).

[3] Luís de Camões, Soneto CXV, in Obras de Luís de Camões, Lello & Irmão Editores, 144, Rua das Carmelitas, Porto 1970. (pág. 61).

[4] Soneto XXX, in Obras de Luís de Camões, Lello & Irmão Editores, 144, Rua das Carmelitas, Porto 1970. (pág.18).

[5] Charles Baudelaire (1821-1867), “Les sept vieillards”, de Tableaux Parisiens in Les Fleurs du mal. Calmann-Levy Rue Auber 3, Paris 1908. (pág. 261).

[6] Mário de Sá-Carneiro (1890-1916), Abrigo de Indícios de Ouro in in Maria Estela Guedes Obra Poética de Mário de Sá-Carneiro, Editorial Presença Lisboa 1985. (pág. 107).

[7] Fernando Pessoa, Na Floresta do Alheamento in Obra Poética, Companhia Aguilar Editora, Rio de Janeiro 1965. (pag.436).

[8] Charles Guérin (1873-1907), Ma fenêtre était large ouverte sur la nuit de L’ homme intérieur (1901-1905), Société dv Mercvre de France, XXVI, Rve de Condé, Paris MCMV. (pág.17).



CONTINUA

continua4

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

variações sobre o tema janela 3


13. À janela espero e temo, quero e aborreço…

Julien Green no seu romance Adrienne Mesurat, cuja protagonista se assemelha um pouco à Bovary de Flaubert (e à Luísa de Eça de Queiroz), mas mais melancólica e deprimida, escreve que ela para vencer o tédio da sua existência e na esperança que algo acontecesse, sentava-se em um cadeirão da sala, a cabeça voltada para a janela, as mãos cruzadas sobre os joelhos, e assim permanecia uma hora absorvida por algo que observava no céu.

[…s’asseyait dans un grand fauteuil, au salon, et la tête tournée vers la fenêtre, les mains croisées sur ses genoux, elle restait ainsi une heure et comme absorbée par quelque chose qu’elle voyait dans le ciel.[1]]



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fig. 1 - Salvador Dali (1904-1989), Girl from the back (Anna Maria Dalí) 1925,óleo s/tela 104 x 74 cm. Museo Nacional Reina Sofia, Madrid.



O pintor dinamarquês Carl Vilhelm Holsøe parece ilustrar esse estado de espírito da personagem de Green. Por isso escolhemos dois quadros.

A pintura de Holsøe caracteriza-se por retratar interiores, geralmente com quartos pouco mobiliados onde a matéria simple busca a forma, usando cores harmoniosas, uma certa inclinação de uma luz suave e uma justaposição cuidadosa de objetos criando uma atmosfera simultaneamente tranquila e enigmática.

Nos seus quadros Holsøe inclui uma única figura feminina que, nunca mostrando o rosto, provoca uma sensação de atraente mistério.



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fig. 2 - Carl Vilhelm Holsøe (1863-1935), A woman at a sunny window s/d, dimensões desconhecidas. Col. particular.



E Carl Holsøe, em outra tela, algo semelhante, mas com tons mais claros e luminosos, parece sublinhar a esperança com que a jovem sentada parece fixar o reflexo da janela talvez duvidando se vale a pena estar esperando à janela.



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fig. 3 - Carl Holsøe (1863–1935), Kvinde ved vindue, (Esperando à janela) s/d, óleo s/tela 73,7 x 68,5 cm. Col. particular.


Este tédio que se advinha nas personagens femininas, que aborrecidas olham pela janela, é também retratado nos versos de um soneto de Jules Laforgue.


Tout m'ennuie aujourd'hui. J'écarte mon rideau,
En haut ciel gris rayé d'une éternelle pluie,
En bas la rue où dans une brume de suie
Des ombres vont, glissant parmi les flaques d'eau.


Je regarde sans voir fouillant mon vieux cerveau,
Et machinalement sur la vitre ternie
Je fais du bout du doigt de la calligraphie.
Bah! Sortons, je verrai peut-être du nouveau.


Pas de livres parus. Passants bêtes. Personne.
Des fiacres, de la boue, et l'averse toujours...
Puis le soir et le gaz et je rentre à pas lourds...


Je mange, et baille, et lis, rien ne me passionne...
Bah! Couchons-nous. - Minuit. Une heure. Ah! Chacun dort!
Seul, je ne puis dormir et je m'ennuie encore.
  [2]

[Tudo hoje me aborrece. Corro a minha cortina,
No alto o céu cinzento raiado de uma chuva eterna,
Em baixo a rua onde em uma névoa de fuligem
sombras entre as poças de água vão na neblina.

Escavando o meu velho cérebro eu olho sem ver,
E mecanicamente no vidro manchado
faço com a ponta do dedo uma caligrafia,
Bah! Saiamos, talvez algo de novo possa haver.

Nenhum livro surgiu. Ninguém passa só animais,
Fiacres, muita lama e aquela chuva de sempre ...
E a noite e o gás, e eu regresso com os pés pesados demais...

Eu como e bocejo, e leio, nada me enaltece ...
Bah! Vou-me deitar. - Meia noite. Uma hora. Ah! Todos dormem!
Só, eu não consigo dormir e cada vez mais tudo me aborreçe.]



E Henri de Braekeleer pinta uma jovem que um interesse enganoso, amor fingido,/ Fizeram desditosa a fermosura. [3]

Está na mesma pose e com o mesmo olhar que se advinha triste observando um recanto de Antuérpia de uma Janela antiga sobre a rua plana... [4]



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fig. 4 - Henri de Braekeleer (1840-1888), The Teniersplaats Antwerp 1878, óleo s/tela 82 x 65 x 2 cm. Koninklijk Museum voor Schone Kunsten Antwerpen.



Em outra tela o pintor austríaco Carl Probst pinta uma figura feminina sentada com a cabeça apoiada no braço direito. Está junto a uma janela que apenas deixa entrar a luz que ilumina a mulher e o compartimento. Este está carregado de objectos simbólicos.



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fig. 5 - Carl Probst (1854-1924). Anfangs wollt ich fast verzagen,/ Und ich glaubt’ ich trüg’ es nie… 1885, óleo s/madeira 61 x 33 cm. Col. particular.



O pintor intitulou o quadro com versos do poeta romântico Heinrich Heine do seu livro Buch der Lieder de 1827, provavelmente o livro que ela tem pousado sobre os joelhos e que a faz recordar o abandono de alguém amado.



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fig. 6 – Pormenor de Anfangs wollt ich fast verzagen…


O poema de Heine que dá o título ao quadro diz:

Anfangs wollt ich fast verzagen,
Und ich glaubt’ ich trüg’ es nie,
Und ich hab’ es doch getragen, –
Aber fragt mich nur nicht, wie?

Como não domino o alemão procurei e traduzi a versão inglesa.

I despaired at first, declaring/It could not be borne; and now/Now I bear it, still despairing./Only never ask me how! [5]

[Eu me desesperei no começo, declarando
Que não poderia suportar; e agora
Agora suporto, ainda desesperando.
Só nunca me pergunte como!]



Esta desesperada resignação da mulher é ainda indiciada pela caixa de cartas e pelo retrato colocados sobre a mesa.



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fig. 7 - Pormenor de Anfangs wollt ich fast verzagen…



E ainda pela arca  pousada no chão com objectos de recordações junto a um pequeno ramo de flores que vão murchando.


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fig. 8 - Pormenor de Anfangs wollt ich fast verzagen




Já no século XX, o dinamarquês Lauritz Andersen Ring, pinta uma jovem mulher junto a uma pequena janela de umas águas-furtadas que olha melancólica os telhados dos edifícios de uma cidade.



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fig. 9 - Lauritz Andersen (1854-1933), Jovem olhando pela janela 1985, óleo s/cartão 33 x 29 cm. Designmuseum Copenhagen.


Frederico Garcia Lorca descreve essa mulher casa olhando triste através da pequena janela, com

…La tristeza inmensa que flota en tus ojos
nos dice tu vida rota y fracasada,
la monotonía de tu ambiente pobre
viendo pasar gente desde tu ventana,
oyendo la lluvia sobre la amargura
que tiene la vieja calle provinciana,
mientras que a lo lejos suenan los clamores
turbios y confusos de unas campanadas…
[6]


[1] Julien Green, Adrienne Mesurat (1927) pág. 283 a 519 de OEuvres complètes I, Bibliothèque de la Pléiade Gallimard, Paris 1972. (pág. 306).

[2] Jules Laforgue, Spleen 7 novembre 1880 in Les Complaintes et les premiers poèmes, Gallimard, Paris,1979. (pág.248).

[3] Luís de Camões, Soneto XL, in Obras de Luís de Camões, Lello & Irmão Editores, 144, Rua das Carmelitas, Porto 1970. (pág.23).

[4] Florbela Espanca (1894-1930), À Janela de Garcia de Resende de Reliquiae versos póstumos publicados com Charneca em Flor in Sonetos Completos, Livraria Gonçalves, Rua Sá de Miranda, 60, Coimbra MCMXXXIV. (pág.146).

[5] Heinrich Heine (1797 - 1856), Anfangs wollt ich fast verzagen de Book of Songs in Poems of Heinrich Heine, Three Hundered and Twenty-Five Poems, Selected and translated by Louis Untermeyer. Henry Holt and Company, New-York 1917. (pág.25)

[6] Frederico Garcia Lorca (1898-1936), Elegia Diciembre de 1918 (Granada) in Obras Completas, Aguilar S.A. Ediciones, Juan Bravo 38, Madrid 1969. (pág.203).



14. Esperando à janela onde as  lembranças matam a larga ausência…


O poeta e dramaturgo francês François Copée no soneto intitulado L’Attente (A Espera) descreve a angústia, misturada de esperança, com que uma mulher espera à janela o regresso do amado.

Rien qu'elle ait la pàleur des éternels veuvages,
Sa robe est claire; et bien que les soucis pesants
Aient sur ses traits flétris exercé leurs ravages,
Ses vêtements sont ceux des filles de seize ans.

Car depuis bien des jours, patiente vigie.
Dès l'instant où la mer bleuit dans le matin
Jusqu'à ce qu'elle soit par le couchant rougie.
Elle est assise là, regardant au lointain.

Chaque aurore elle voit une tardive étoile
S'éteindre, et chaque soir le soleil s'enfoncer
A cette place où doit reparaître la voile
Qu'elle vit là, jadis, pâlir et s'effacer.

Son coeur de fiancée, immuable et fidèle,
Attend toujours, certain de l'espoir partagé.
Loyal; et rien en elle, aussi bien qu'autour d'elle,
Depuis dix ans qu'il est parti, rien n'a changé.
[1]

[Na ponta do velho canal cheio de mastros, face
Ao Oceano e mesmo na última casa defronte,
Sentada à janela, qualquer que seja o tempo que faça,
Ela aí permanece, os olhos fixos no horizonte.

Nada nela mostra a palidez da eterna viuvez,
Seu vestido é claro; e embora os temores pesados
Tenham em seus traços murchos exercido seus estragos,
Suas roupas são as de meninas de dezesseis anos.

Desde há muitos dias, vigia pacientemente.
Desde o instante em que pela manhã azul fica o mar
Até se tornar avermelhado pelo pôr do sol poente.
Ela ali está sentada, para longe sempre a olhar.

Em cada aurora ela vê uma estrela tardia
Apagar-se e em cada tarde o sol se afundar,
Naquele lugar onde a vela deve reaparecer
Que ela viu, outrora, esmorecer e desaparecer.

Seu coração de noiva, imutável e fiel,
Espera ainda, certo daquela esperança que ficou,
Leal; e nada nela, bem como em seu redor
Desde há dez anos que ele partiu, nada mudou.]



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fig. 10 - Henri Lebasque (1865-1937), Jeune femme devant la fenêtre ouverte à l’île de Yeu 1920, óleo s/tela 54,6 x 46,5 cm. Col. particular.



A artista polaca Maria-Mela Muter pinta em tons claros uma mulher de costas para a janela, que se abre para uma cidade com um porto, numa atitude de abandono e um olhar de tristeza, sobre o doce bem passado e mal presente, que as flores no vaso, murchando significativamente recordam.



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fig. 11 - Maria-Mela Muter (Maria Melania Mutermilch 1876–1967), Woman and flowers in the window 1909, óleo s/cartão 75 x 104,4 cm. Col. particular.



Talvez a poeta Olga Orozco descreva esta mulher sentada à janela como se alguma vez uma fronteira, um muro, um silêncio, un adeus, / tivessem sido o verdadeiro limite, / o abismo final entre una mulher e um homem.


Ella está sumergida en su ventana
contemplando las brasas del anochecer, posible todavía.
Todo fue consumado en su destino, definitivamente inalterable
desde ahora
como el mar en un cuadro,

Y sin embargo el cielo continúa pasando con sus angelicales
procesiones.
Ningún pato salvaje interrumpió su vuelo hacia el oeste;
allá lejos seguirán floreciendo los ciruelos, blancos, como si
nada,

Y alguien en cualquier parte levantará su casa
sobre el polvo y el humo de otra casa.
Inhóspito este mundo.
Áspero este lugar de nunca más.

Por una fisura del corazón sale un pájaro negro y es la noche
-¿o acaso será un dios que cae agonizando sobre el mundo?-,
pero nadie lo ha visto, nadie sabe,
ni el que se va creyendo que de los lazos rotos nacen preciosas
alas,
los instantáneos nudos del azar, la inmortal aventura,
aunque cada pisada clausure con un sello todos los paraísos prometidos.

Ella oyó en cada paso la condena.
Y ahora ya no es más que una remota, inmóvil mujer en su
ventana,
la simple arquitectura de la sombra asilada en su piel,
como si alguna vez una frontera, un muro, un silencio, un adiós,
hubieran sido el verdadero límite,
el abismo final entre una mujer y un hombre.
[2]



Também Umvertos Argyros pinta uma mulher sentada olhando pela janela entreaberta segurando sobre os joelhos o véu do vestido de noiva que está pousado num cesto a seus pés, olhando pela janela entreaberta e como canta Camões:

…Pelas águas do eterno esquecimento
Segura passará minha lembrança.

Antes sem vós meus olhos se entristeçam,
Que com cousa outra alguma se contentem;
Antes os esqueçais, que vos esqueçam…
[3]




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fig. 12 - Umvertos Argyros (1884-1963) , Near the Window, 1926, óleo s/tela, 100 x 85 cm. The National Gallery, Athens.



Fleury François Richard, tratando o tema da mulher que espera junto da janela, retrata de uma forma romântica um episódio da história de França.

Para isso recria um ambiente do século XV onde a desolada figura feminina de Valentina Visconti (1371-1408) olha através da janela a ausência do esposo Louis d’Orléans que foi assassinado.



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fig. 13 - Fleury François Richard (1777-1852), Valentine de Milan pleurant la mort de son époux Louis d’Orléans, assassiné en 1407, par Jean, duc de Bourgogne 1802, óleo s/tela 55 x 43 cm. Museu Hermitage, St. Petersburg.



O poeta Eustache Deschamps (1346 — 1406/7) contemporâneo de Valentina refere-a numa das suas baladas.

A bon droit doit de tous estre louée
Celle qui tant a des biens de nature,
De sens, d'onnour, de bonne renommée.
De doulx maintien, l'exemple et la figure
D'umilité, celle qui met sa cure
A honorer un chascun en droit li.
Qui gent corps a, juene, fresche, joly.
De hault atour, de lignie royal.
Celle n'a pas à manière failly:
A bon droit n'est d'elle un cuer plus loyal
…[4]

[Em bom dever de todos deve ser louvada
Aquela que tantos bens tem da natureza,
De senso, de honra, de fama imaculada.
De doce porte, o exemplo e a figura
De humildade, aquela que cura
De honrar cada um em linha direita
Que gentil corpo tem, é jovem, fresca, bem feita.
De grande altivez, de linha real.
Esta não tem modo de falhar o seu destino:
Com efeito não há ninguém com um coração mais leal]



E em outro quadro histórico e romântico, algo enigmático, executado depois da Revolução Francesa, Henri Nicolas van Gorp, pinta uma jovem vestida segundo a moda da Convenção (1792-1795).



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fig. 14 - Henri Nicolas van Gorp (1756-1819), Femme à la lorgnette c.1819, óleo s/ tela 40,5 x 32,5 cm. Museu de Rouen.


Usa uma luneta - para sem ser vista (?) - apreciar à distância o teatro do mundo (a revolução? algum amante?), parecendo esperar que alguém apareça.

Todo o mobiliário e a janela alta pretendem recriar o ambiente de um hôtel (palacete) neoclássico dos finais do século XVIII.



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fig. 15 – Pormenor de Femme à la lorgnette.




Já os pintores do movimento Pré-Rafaelita ou com ele associado evocam românticas cenas da história medieval ou figuras literárias, para pintar telas em que a mulher surge à janela ansiosa e expectante.

Waterhouse recria um ambiente medieval onde junto a uma janela gótica e sem caixilho, Rosamund Clifford (antes de 1150-c. 1176) espera o seu amante Henrique II de Inglaterra (1133-1189).



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fig. 16 - John William Waterhouse (1849-1917), Fair Rosamund 1905, óleo s/tela 62,9 x 49,5 cm..National Museum of Wales.



Não falta na pintura o pavimento em mosaicos, o bastidor, a roca, um banco e uma mesa medievais.

Espreitando por uma pesada cortina a aia. E no exterior uma ponte gótica de arcos ogivais e um castelo.

O poeta francês Guillaume Apollinaire dedicou a Rosamund (em francês Rosemonde) a Rosa do Mundo de um poema.

…Je la surnommai Rosemonde
Voulant pouvoir me rappeler
Sa bouche fleurie en Hollande
Puis lentement je m’allai
Pour quêter la Rose du Monde.
[5]


[…Eu a chamei de Rosamundo/ Querendo tentar me lembrar/ Da su boca florida na Holanda/ Depois lentamente eu parti/ Para procurar a Rosa do Mundo.]


Na pintura da segunda metade do século XIX , um quadro da pintora Madeleine Jeanne Lemaire, que também se dedicou à pintura de flores o que levou a que o poeta Robert Montesqiou a tenha apelidado de l’Impératrice des roses e Alexandre Dumas (filho) disse dela que C’est elle qui a créé le plus de roses après Dieu.

A pintora teve um Salon frequentado por muitos artistas, escritores e personalidades da época, entre os quais Marcel Proust. Este refere-se ao Salon numa das suas crónicas La Cour aux lilas et l’atelier des roses publicadas no Figaro de 11de Maio de 1903.

No quadro intitulado L’Attente uma jovem com um vestido cor-de-rosa, espreita por uma janela esperando que alguém apareça ou alguma coisa aconteça.



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fig. 17 - Madeleine Jeanne Lemaire (1845-1928), L’Attente c.1890 s/dimensões. Col. Particular.



E Friedrich Georg Papperitz pinta uma tela intitulada Esperando à janela, em que a jovem, segurando a cortina com a mão esquerda e debruçando-se para a janela, está numa pose de quem de facto espera alguém com um amor tão fino e tão delgado que o sorriso nos lábios e os olhos semicerrados sublinham.



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fig. 18 – Friedrich Georg Papperitz (1846-1918), Waiting by the window s/d, óleo s/tela 53,3 x 44 cm. Col.particular.




Numa pintura mais realista da segunda metade do século XIX o pintor alemão Carl Röhling, pinta uma jovem olhando para uma janela de ângulo onde se vê um recanto de uma povoação. Repare-se na evolução da decoração do interior e na minúcia com que são tratados todos os objectos e os vasos de flores.



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fig. 19 - Carl Röhling (1849-1922), Dame am Fenster c. 1880–1899, óleo s/tela 50.5 x 40.5 cm. Col. particular.


A jovem vestida de branco parece esperar alguém como no poema de Paul Éluard,

Le front aux vitres comme font les veilleurs de chagrin
Je te cherche par-delà l'attente
Par-delà moi-même
Et je ne sais plus tant je t'aime
Lequel de nous deux est absent.
[6]

[A face nos vidros como os vigilantes da tristeza/ Eu procuro-te para além da espera/ Para além de mim mesmo/ E não sei, tanto te amo / Qual dos dois está ausente.]


________________

[1] François Coppée (1842-1908), L'Attente de Poèmes modernes 1867-1869 in Oeuvres Complètes. Poésie, Tome I, L. Hébert, Libraire 7, Rue Perronet Paris 1885. (pág.185).

[2] Olga Orozco (1920-1999) Mujer en su ventana in Poesía completa, 1ª. Edicion, Cuidado de la edición y cronologia de Ana Becciú. Prólogo de Tamara Kamenszain. Adriana Hidalgo editora S.A.,Córdoba 836, Buenos Aires 2012. (pág. 398).

[3] Luís de Camões, Soneto XVI in Obras de Luís de Camões, Lello & Irmão Editores, 144, Rua das Carmelitas, Porto 1970. (pág.11).

[4] Émile Colas, Valentine de Milan Duchesse d’Orléans, 2ª édition, Librairie Plon. Plon-Nourrit et C.ie Imprimeurs-Éditeurs, 8 rue Garancièr, Paris 1911. (pág.232).

[5] Guillaume Apollinaire (1880-1918), Alcools (1898 - 1912). N.R.F., Éditions de la Nouvelle Revue Française 35 et 37, Rue Madame Paris 1920. (pág. 104).

[6] Paul Éluard (1895-1952), Le front aux vitres 1929 de L’Amour la poésie in Capitale de la douleur, suivi de L'amour, la poésie, N.R.F. 1966.



15. O tema no século XX


Nas primeiras décadas do século XX o tema é agora tratado de uma forma que se pretende em ruptura com a pintura académica e realista e com as suas convenções.

O pintor expressionista Ernst Ludwig Kirchner rompe essas convenções pintando uma mulher despida esperando à janela, usando cores violentas e um desenho agressivo com distorções da perspectiva, pretendendo dar mais expressão à sua pintura do que reproduzir a realidade.



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Fig.20 - Ernst Ludwig Kirchner (1880-1938), Brauner Akt am Fenster (mulher morena e nua à janela) 1912, óleo s/tela 125 x 90 cm. Col. particular.



E consciente que Noi siamo sul promontorio estremo dei secoli!…, (Estamos no promontório dos séculos…) o futurista Gino Severini pinta um quadro Mulher à janela.



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fig. 21 - Gino Severini (1883-966), Mulher à janela 1914 Pastel s/papel 64,5 x 50,5 cm. Museo Nacional Thyssen-Bornemisza, Madrid.


Pela composição que joga com planos de cores frias em tons diferentes, lembra o poema de Apollinaire intitulado precisamente Les Fenêtres, e que se inicia com:

Du rouge au vert tout le jaune se meurt
Quand chantent les aras dans les forêts natales
[7]


[Do vermelho ao verde todo o amarelo vai morrendo/ Quando cantam as araras nas florestas onde nascem…]

E termina evocando a janela que se abre como uma laranja numa abertura como este belo fruto à luz do sol.


…La fenêtre s’ouvre comme une orange
Le beau fruit de la lumière.

[ A janela abre-se como uma laranja / O belo fruto da luz.]



O tema da mulher à janela é contudo tratado no período entre as duas guerras com um regresso à pintura figurativa e surge em diversos autores quer na Europa quer nos Estados Unidos.

Na Itália de Mussolini de 1922 a 1945, forma-se o movimento Novecento Italiano na procura de um regresso à ordem (rappel à l’orde) na pintura, movimento guiado por Margherita Sarfatti, pressupostamente amante do ditador, e no qual participou esporadicamente Felice Casorati.



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fig. 23 - Felice Casorati, La donna e l'armatura 1921, tempera su tela 144 x 148,5 cm. Galleria Civica d’Arte Moderna e Contemporanea, Torino.



A pintura de Casorati sublinha o contraste entre a luminosidade da janela enquadrada por duas pesadas cortinas e a penumbra do interior onde sobressai a frieza viril e metálica da armadura contra quem força humana não resiste, e a nudez indefesa da figura feminina que se converteu no gosto de ser triste. [8]

A mulher com os braços cruzados sobre o peito como num arrepio, tem um olhar fixo parecendo reflectir na sua condição de mulher.



Já Mario Sironi pinta uma mulher a Solitudine (Solidão) num ambiente arquitectónico sóbrio e antigo.

Está sentada, coberta com um lençol que deixa ver um seio, o corpo apoiado no braço e na mão esquerda. A sua atitude é rígida com um olhar distante num rosto frio.

A pintura de Sironi lembra a sua embora esporádica participação no movimento da pintura Metafísica.



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fig. 24 - Mario Sironi (1885-1961), Solitudine, 1925/26, óleo s/tela, 98 x 82 cm. Galleria Nazionale d’Arte Moderna Roma.


A Solidão é evocada pelo poeta da primeira metade do século XVIII James Thomson, que louva e celebra as suas qualidades e a maneira como promove o mistério, a introspecção e a especulação espiritual. Apesar de longo reproduzimos todo o poema.


HAIL, ever-pleasing Solitude!
Companion of the wise and good!
But, from whose holy, piercing eye,
The herd of fools, and villains fly.
Oh! how I love with thee to walk!
And listen to thy whisper'd talk;
Which innocence, and truth imparts,
And melts the most obdurate hearts.
A thousand shapes you wear with ease,
And still in every shape you please;
Now rapt in some mysterious dream,
A lone philosopher you seem;
And pining hang the pensive head.
A shepherd next you haunt the plain,
And warble forth your oaten strain.
A lover now with all the grace
Of that sweet passion in your face!
Then, soft-divided, you assume
The gentle-looking Hertford's a bloom,
As, with her Philomela, me,
(Her Philomela fond of thee)
Amid the long withdrawing vale,
Awakes the rival'd nightingale.
A thousand shapes you wear with ease,
And still in every shape you please.
Thine is th' unbounded breath of morn.
Just as the dew- bent rose is born;
And while meridian servors beat
Thine is the woodland's dumb retreat;
But chief, when evening scenes decay,
And the faint landscape swims away,
Thine is the doubtful dear decline,
And that best hour of musing thine.
Descending angels bless thy train,
The virtues of the sage, and swain;
Plain Innocence in white array'd;
And Contemplation rears the head:
Religion with her aweful brow,
And rapt Urania waits on you.
Oh, let me pierce thy secret cell!
And in thy deep recesses dwell:
For ever with thy raptures sir'd,
For ever from the world retir'd;
Nor by a mortal seen, save he
A Lycidas, or Lycon be
[9]


[Avé, doce e suave Solidão! / Companheira dos sábios e dos piedosos; / De cujo sagrado e penetrante olhar / Os bandos de tontos, e velhacos fogem. / Ah! como a teu lado adoro caminhar! / E ouvir o teu sussurado falar; / Clamando verdade e inocência / Em todos os corações obstinados / Mil formas podes adoptar com facilidade / E em cada forma outorgar a bondade; / Agora envolta num qualquer sonho misterioso, / Pareces de um filósofo solitário e rigoroso; / Ansiando pendurar a cabeça de pensador. / Depois na planície assombras um pastor, / Murmurando adiante da intensa corrente; / Agora em um amante, com toda a graça / Dessa doce paixão na tua face!
Então, em calma amizade, tu assumes  / O gentil olhar da flor de Hertford, Como, Philomela, e eu / (a sua Philomela que te ama) * / Em meio ao longo e retirado vale, / despertando o beligerante rouxinol. / Mil formas que usas com facilidade / E ainda em todas as formas à vontade. / Teu é o alento balsâmico da manhã, tal como se inclina a rosa do orvalho; / As virtudes do prudente e do sábio; / A inocência simples veste de branco, / Antes que ergas a tua cabeça intrépida: os raios da fé brilham à tua volta. / E acalmam a tua sombra com luz divina: / Sobre ti ligeira flutua a liberdade, / E a absorta Urania canta para ti. **
Oh! Deixa que que penetre na tua secreta cela!
Deixa que habite na tua morada profunda!
Para sempre com teus arrebatamentos, senhor / Para sempre do mundo retirado; / Nem por um mortal visto, salvo / Um Lycidas ou Lycon que seja. ***]


[notas: *Philomela era uma deusa grega símbolo da poesia da arte e da música tendo-se transformado em rouxinol com quem é identificada. Noutra versão do poema James Thompson usa o nome de Musidora, que em grego significa dádiva das musas e é o nome de uma personagem feminina no poema Summer de Thomson. Neste poema, Musidora é vista por Damon o seu eventual amante banhando-se nua e ele fica dividido entre a luxúria e a moralidade. As linhas seguintes, Em meio ao longo e retirado vale,/ despertando o beligerante rouxinol descrevem como a personagem canta enquanto se banha, enquanto se supunha só, e o seu canto é tão belo que desafia o rouxinol.

**Urania, a musa de Milton na abertura do Paradise Lost Book VII (Paraíso Perdido Livro VII).

***Lycidas personagem de John Milton (1608-1674) e Lycon personagem de Edmond Smith (1672-1710).]




Nos Estados Unidos neste período entre as duas guerras, salientam-se os dois amigos Guy Pène du Bois e o mais conhecido Edward Hopper.

De Pène du Bois, pintor americano mas de origem francesa, pinta uma mulher, que embora ricamente vestida,parece triste, abandonada e só.


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fig. 25 - Guy Pène du Bois (1884-1958), Studio Window 1928, óleo s/tela 93,98 x 73,66 cm, Westmoreland Museum of American Art.



Ela olha apreensiva a paisagem através de uma grande janela de um atelier, tendo ao fundo uma povoação toda branca, e onde se misturam as nuvens e as montanhas.


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fig. 26 - Pormenor da figura anterior.


Florbela Espanca descreve esse sentimento no soneto Hora que Passa:

Vejo-me triste, abandonada e só
Bem como um cão sem dono e que o procura,
Mais pobre e desprezada do que Job
A caminhar na via da amargura!


Judeu Errante que a ninguém faz dó!
Minh'alma triste, dolorida, escura,
Minh'alma sem amor é cinza, é pó,
Vaga roubada ao Mar da Desventura!


Que tragédia tão funda no meu peito!...
Quanta ilusão morrendo que esvoaça!
Quanto sonho a nascer e já desfeito!


Deus! Como é triste a hora quando morre...
O instante que foge, voa, e passa...
Fiozinho d'água triste... a vida corre...
[10]



Mais intrigante é o quadro de Edward Hopper em que uma mulher, já noutros tempos e com outros costumes, está sentada na cama, num quarto despido de ornamentação, face a uma janela por onde entra um luminoso sol da manhã e onde apenas se entrevê um edifício de tijolo.

Ela parece meditar no regresso de uma qualquer ausência ou abandono.



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fig. 27 - Edward Hopper, Morning Sun 1952, óleo s/tela 71,5 x 101,9 cm. Columbus Museum of Art.


O quadro de Hopper é uma outra procura de pintar silenciosamente essas fascinantes inquietações, que uma janela provoca.

Um poema do poeta argentino Joaquín Orlando Giannuzzi (1924-2004) parece descrever estes quadros de Pene du Bois e de Hopper e esse desejo ou essa memória que o olhar através da janela provoca.

Detrás de los cristales desplaza una certeza solar
y sabe que no morirá. Hembra joven
en un cuarto dorado desvestida.
Las manos ondulaban hacia el pelo
Y bajan por el pecho hasta palpar el vientre
Donde la luz curvada gana espacio…
[11]



Ainda nos finais do século passado Fernando Brotero pinta uma das suas redondas figuras, uma mulher despida, diante de uma janela cuja portada segura com a mão esquerda, e que fita algo surpresa o observador.

O interior, tem as paredes de uma cor verde dando-lhe um certo ar de pensão modesta, sublinhado pela lâmpada sem abat-jour que suspende do tecto e pela cama de ferro de que apenas se vê um canto.



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fig. 28 - Fernando Botero Woman in front of a window (1932). Mulher diante de uma Janela 1990 óleo s/tela Botero Museum, Bogota, Colombia.


Como escreve Beatriz Novaro no seu poema Mujer gorda en la ventana,

No hay prisa en sus ojos,
sólo costumbre de estar sola.
Su mirada fija en las pausas que dejan los coches,
atenta a los huecos,
a lo que falta.
Apoya su cara en el vidrio frío
y se acompaña.
Mira sus manos redondas y pequeñas,
palpa sus senos grandes y calientes,
piensa en sus pies y sonríe maternal.
Espesa y dulce como una buena sopa,
murmura,
y sin embargo tan sola.
Se sabe afuera pero no sabe de qué.
Nadie nota su pasión
pesada y gorda en la ventana
.
[12]


[7] Guillaume Apollinaire (1880-1918), Les Fenêtres de Calligrammes. Poèmes de la Paix et de la Guerre (1913-1916). Mercure de France, XXVI, Rue Le Condé, Paris MCM XVIII. (pág.17 e 18).

[8] Luís de Camões, Canção X, in Obras de Luís de Camões, Lello & Irmão Editores, 144, Rua das Carmelitas, Porto 1970. (pág.256).

[9] James Thomson (1700-1748), Hymn on Solitude in A Collection of Poems in Six Volumes. By Several Hands. Vol. III, printed by J. Dodsley, in Pall-Mall London M DCC LXXX II. 1782 [1ª ed. 1758], (pág. 2 a 4).

[10] Florbela Espanca (1894-1930), Hora que passa do Livro de Sóror Saudade (1923), in Sonetos Completos Livraria Gonçalves, Rua Sá de Miranda 60, Coimbra MCM XXX IV (pág.77).

[11] Joaquín Orlando Giannuzzi (1924-2004), Poesía completa, edición y prólogo de Jorge Fondebrider,Sevilla : Sibilina ; Fundación BBVA, Madrid 2009.

[12] Beatriz Novaro (Beatriz Novaro Peñaloza), Mujer gorda en la ventana in Desde una banca del parque, Consejo Nacional para la Cultura y las Artes, México 1998. (pág.9).



16. A janela onde não se pode olhar



O pintor e ilustrador William Maw Egley pinta um quadro, onde surge uma janela e um espelho, baseado no poema de Tennyson Lady Shalott. [1]



The Lady of Shalott

fig. 29 - William Maw Egley (1826-1916), The Lady of Shalott 1858, óleo s/tela 88 x 100,7 cm. Museums Sheffield.UK.


No quadro estão Lady Shalott e o tear onde passava os dias, o espelho em que surge Lancelot, e a janela proibida tendo ao fundo Camelot e o rio que lhe dava acesso.

A história fala de uma mulher amaldiçoada e proibida de olhar a janela de uma torre perto de Camelot, onde foi encarcerada e onde passa os dias tecendo.

Excertos do poema:


There she weaves by night and day
A magic web with colours gay.
She has heard a whisper say,
A curse is on her if she stay
To look down to Camelot.
She knows not what the curse may be,
And so she weaveth steadily,
And little other care hath she,
The Lady of Shalott.


[Lá ela tece de noite e dia / Uma teia mágica com cores alegres. / Ela ouviu um sussurro dizer: / Uma maldição sobre ela cairá / Se olhar para Camelot. / Ela não sabe o que será a maldição, / E assim ela a tecer continua firmemente, / Sem mostrar grande preocupação / A Senhora de Shalott.]


À Lady Shalott só era permitido ver o mundo através de um espelho.


And moving thro’ a mirror clear
That hangs before her all the year,
Shadows of the world appear.
There she sees the highway near
Winding down to Camelot:


[E movendo-se através do espelho claro / Que paira diante dela o ano todo / Sombras do mundo aparecem. / Nele ela vê a estrada que vai /Serpenteando para Camelot:…]


Então o cavaleiro Lancelot aparece.

A bow-shot from her bower-eaves,
He rode between the barley-sheaves,
The sun came dazzling thro’ the leaves,
And flamed upon the brazen greaves
Of bold Sir Lancelot.


[Pelo arco dos beirais de um caramanchão. / Ele cavalgava por entre os campos de cevada, / O sol chegou deslumbrante pelas folhas, / E flamejou sobre a armadura de bronze / Fazendo brilhar Sir Lancelot.]


Lady Shalott olha pela janela o espelho quebra-se e Lady Shalott e é então condenada a morrer.


She made three paces thro’ the room,
She saw the water-lily bloom,
She saw the helmet and the plume,
She look’d down to Camelot.
Out flew the web and floated wide;
The mirror crack’d from side to side;
“The curse is come upon me,” cried
The Lady of Shalott.


[Ela deu três passos pelo quarto / Ela viu do nenúfar a flor, / Ela viu o elmo e a plumagem / Ela volta o olhar para Camelot. / Para fora voou o tear e longamente flutuou; / O espelho de um lado ao outro se quebrou; / "A maldição veio sobre mim", exclamou / A Senhora de Shalott.]


Ela deixa a torre, encontra um barco no qual escreve o seu nome, e desce o rio em direcção a Camelot. Ela morre antes de chegar ao palácio, e entre os cavaleiros e as damas que a vêem está Lancelot.


For ere she reach’d upon the tide
The first house by the water-side,
Singing in her song she died,
The Lady of Shalott.


[Antes que ela alcançasse com a maré / A primeira casa à beira d’água, /Cantando a sua música ela morreu, / A Senhora de Shalott.]

O poema e o quadro, baseados na lenda do Rei Artur, são uma reflexão que na época vitoriana a moral impunha sobre a mulher. O espelho e a janela são os perigos para as mulheres que neles pusessem o seu olhar.



[1] Alfred Tennyson (1809-1892), The Lady of Shalott in The Poetical Works of Alfred Lord Tennyson. Illustrated. National Library Association, Chicago 1891. (pág.83 a 90).



CONTINUA

continua3

Edward Hopper, Room in Brooklyn, 1932. Museum of Fine Arts Boston.