Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















terça-feira, 23 de agosto de 2016

Deambulações pelo Castelo da rua de Santa Catarina 2 parte

 

cap. 1 – A Torre de Belém como modelo do Castelo da rua de Santa Catarina

O modelo da torre é a Torre de Belém, nas suas variações românticas e neomanuelinas do século XIX e, em particular, no Palácio da Pena em Sintra.

bel3 fig.1 – O Castelo da rua de Santa Catarina e a Torre de Belém.

  A Torre de Belém

Vimos lhe fazer Belem
cõ ha gram torre no mar…
[1]

Não importa aqui fazer a história da Torre de São Vicente conhecida como Torre de Belém, aliás profusamente difundida.

O edifício desenvolve-se a partir de uma plataforma baixa, de planta poligonal, onde se ergue uma torre de planta quadrada.

Não iremos por agora desenvolver as origens e evolução desta morfologia da torre quadrada com os cantos arredondados (o que faremos noutro capítulo deste texto) e lembramos apenas que esta surge no século XIV com o aparecimento da artilharia e, com a evolução desta, difunde-se no século XV. No século XVI a forma ganha uma concepção geométrica e proporcionada de plantas quadradas de cantos arredondados.

Esta geometria do quadrado é uma figura que simbolicamente está associada à estabilidade e o número 4 está associado aos quatro elementos, às quatro estações, aos quatro ventos, aos quatro caminhos e pontos cardeais, etc.

bel4fig. 2 - Planta e perspectiva da Torre de Belém c. 1607, 1617 Torre do Tombo cota PTTT-CCDV-29_95-m0078; PT-TT-CCDV-29_96-m0079


[1] Garcia de Resende MISCELLANIA DE GARCIA DE RESENDE, e variedade de historias, costumes, casos, e cousas que em seu tempo acontecerão. In CHRONICA DOS VALEROSOS , E INSIGNES FEITOS DEL REY DOM IOAM II DE GLORIOSA MEMORIA, Em que se refere sua Vida , suas Virtudes , seu Magnanimo Esforço , Excellentes Costumes , o seu Christianissimo Zelo, PER GARCIA DE RESENDE, Com outras Obras que adiante se seguem , e vay acrescentada a sua Miscellania , A' FELIZ MEMORIA DO MESMO REY DOM IOAM SEGVNDO, Q.VE ESTA' EM GLORIA. COIMBRA: Na Real Officina da Universidade. Anno de MDCCLXXXXVIII. (pag.343)

A estrofe completa é:

Vimoslhe fazer Belem
co ha gram torre no mar ,
has casas do almazem
com armaria sem par;
fez soo el Rey que Deos tem;
vimos seu edificar,
no Reyno fazer alçar
paços, igrejas, mosteiros,
grandes povos, cavalleiros,
vi ho reyno renouar.

 

Cap. 2 – A imagem da Torre de Belém e a função militar [1]

Interessa-nos aqui a Torre de Belém e a sua imagem como elemento central da defesa da barra do Tejo.

Como se pode ler nos textos e imagens, até aos finais do século XVIII, a Torre foi considerada, sobretudo como um edifício militar sendo a sua identidade arquitectónica sempre ofuscada pela presença do prestigiado edifício religioso que é o Mosteiro dos Jerónimos.

Por isso e embora seja uma marca de entrada e saída de Lisboa, numa época em que as médias e grandes viagens se efectuavam por via marítima, foi a sua imagem funcional como fortaleza militar inserida na defesa da barra do Tejo, que persistiu entre a sua construção e o século XVIII.

A ideia da Torre, segundo Marco Oliveira Borges [2] e conforme o texto de Garcia de Resende, terá sido de D. João II ao idealizar um projecto para a defesa costeira e o acesso fluvial a Lisboa com a edificação de duas fortificações, uma na Caparica e outra em Belém e uma grande nau colocada a meio da barra do Tejo.

Lembremos pois o conhecido o texto de Garcia de Resende que aliás provocou a confusão sobre a autoria da Torre de Belém hoje definitivamente atribuída a Francisco de Arruda.

E assi mandou fazer entam a torre de Cascaes com sua cava, com tanta e tam grossa artelharia que defendia o porto; e assim outra torre e baluarte de Caparica, * defronte de Belem, em que estava muyta e grande artelharia, e tinha ordenado de fazer hua forte fortaleza, onde ora está a fermosa torre de Belem, que el Rey Dom Manoel, que santa gloria aja, mandou fazer, pera que a fortaleza de hua parte, e a torre da outra tolhessem a entrada do rio.

A qual fortaleza eu per seu mandado debuxey, e com elle ordeney a sua vontade, e elle tinha já dada a capitania della a Álvaro da Cunha, seu estribeiro mor e pessoa de que muyto confiava, e porque el Rey logo faleceo, não ouve tempo pera se fazer; e a sua nao grande que foy a mayor, mais forte, e mais armada que se nunca vio, mais a fez pera guarda do rio, que pera navegar. Que posta sobre ancora no meyo do rio, ella só o defendera, quanto mais a fortaleza e torre, porque era a mayor, e mais forte, e armada não que nunca vio. [3]

* Torre Velha da Caparica ou de Porto Brandão mandada construir por D. João II cerca de 1494.

Com a morte de D. João II coube a D. Manuel I a edificação da torre e fortaleza de São Vicente, entre 1514 e 1519.

A Torre aparece desenhada, julga-se que pela primeira vez, em 1530-34, na Tavoa Primeira dos Reys mandada desenhar por D. Fernando (1507-1534) filho de D. João III como esclarece Damião de Góis [4]: (…) & mandou a mî hum debuxo da arvore, & tronco de toda esta progenia, desno tempo de Noe, atte ho delrei dom Emanuel seu pai, pera lho mandar fazer de iluminura, pelo mor homem daquella arte que havia em toda Europa, per nome Simão, morador ê Bruges no condado de Flandres. (…) [5]

bel6fig. 1 - Simon Bening (1483 – 1561) e António de Holanda (1480-1557) A representação da Torre de Belém (São Vicente) mais antiga que se conhece. Folio 7r from the "Genealogy of the Portuguese Kings", MS. 12531, British Library: First Table of the Kings - Branch of Count Dom Anrique 1530-1534 British Library London

bel6bfig. 2 – Pormenor da figura anterior.

E o mesmo Damião de Góis (1502-1574) na Urbis Olisiponis Descriptio de 1554, dedicada ao infante Dom Henrique, descreve a Torre de Belém:

Na parte fronteira do templo [o mosteiro dos Jerónimos], levanta-se uma torre de quatro andares, feita de cantaria, que Dom Manuel mandou edificar sôbre rochas, lançadas no mar, de maneira que, cercada de água por todos os lados, ficasse mais segura contra qualquer violência e ataque súbito dos inimigos; nem os navios poderiam aproximar-se da capital se os que estavam de guarda na tôrre não consentissem. [6]

E de novo Damião de Góis em 1567 na Chronica do Felicissimo Rei Dom Emanvel escreve:

Fez de nouo ha Torre, & fortaleza de sam Vicente da par do Mosteiro de Bethleem todo de pedra canto , em que mandou poer muita artelharia, & gente de guarnição có que se ho portovegia,& guarda. [7]

Francisco d'Olanda (1517-1585), na sua obra Da fabrica que falece a cidade de Lisboa de 1571 insere um desenho em que aponta a importância da Torre na defesa da barra do Tejo. [8]

No desenho que incluiu as duas margens, surge apontada no Tejo uma fortificação de planta triangular alinhada com o forte de São Gião (S. Julião) que será o futuro forte de São Lourenço da Cabeça Seca (cuja conclusão data de 1593).

bel19afig. 3 - Pormenor da parte inferior da folha 12. (M.L. Zanatta de Souza 2011)

[Parte superior da folha 12 v. e folha 13 com o Desenho reproduzido na fig. 4]

bel19bfig. 4 – Parte inferior das folhas 12 v. e 13. (M.L. Zanatta de Souza 2011)

O texto na versão de Joaquim de Vasconcellos (1849-1936):

…assi mesmo deve de ser fortalecida, repairada e acabada a fortaleza de Belem e a de São Gião, pois que tem tanto custado sem estar bem acabada. E isto com alguns baluartes fortes que lhe respondam da outra banda da Trafaria e da area da Adiça, um defronte da Torre de Belem, onde está a torre velha, e o outro defronte de santa Caterina de Ribamar que é a mis segura fortaleza de Lisboa, ali onde acabam os montes d’Almada e começa a área da ponta da Trafaria ou cachopo [fol.12 v.] ou, se possível fôr, havendo pedra ou fundamento seguro podia-se fazer este baluarte no meo da cabeça onde arrebenta o mar dos cachopos que responde mais fronteiro a S. Gião, o qual, podendo ser, seria cousa fortíssima e que muito ajudaria a defender a barra de Lisboa de todo o perigo que por ella lhe póde fazer dano alguma hora. E estes taes baluartes haviam de ser rasos e baixos [fol.13] e fortíssimos e feitos não de pedra e cal mas de tijolo cozido mui delgado e forte que é muito mais seguro, digo do embasamento ou pé do baluarte para cima que deve ser de pedra lioz; os quaes baluartes ou bastiães podem ser conformes a este desegno. Inda que a forma seja piquena por não caber em livro maior. [9]

bel7afig. 5 - Francisco de Holanda Da fabrica que falece à cidade de Lisboa 1571 Desenho inserido nas folhas 12 v. e 13.in https://almada-virtual-museum.blogspot.pt/2015/05/o-bugio.html

Legenda do desenho por Joaquim de Vasconcellos – Fol. 12 v. e 13 – Desenho de lado a lado. Representa a entrada do Tejo: Castello d’Almada e dois bastiões na mesma margem (sem nome); o bastião “dos cachopos”. Do lado oposto: S. Julião (Giam), Santa Catherina, S. José, a “Torre” (de Belem) e Santa Maria de Belem (Jeronymos). [10]

E Francisco de Holanda apresenta ainda um desenho para o bastião nos cachopos, onde no primeiro plano se vê um conjunto alinhado de galeras.

bel18afig. 6 - Francisco de Holanda. Lembrãça do Bastiam nos cachopos. Folha 13 v. Da fabrica que falece à cidade de Lisboa. 1571. In https://almada-virtual-museum.blogspot.pt/2015/05/o-bugio.html

Em 1589 Filipe II contrata Giovanni Vincenzo Casali, ou Casale (1539-1593), para a construção do bastião de S. Lourenço, de que se ocupa até à sua morte. Assim em 1590 elabora um mapa Descripção da boqua do Tejo apontando as distâncias entre as diversas fortificações e em particular entre San Gian e o areal onde está principiado o forte de São. Lour.ço da Cabessa sequa.

bel8afig. 7 - Giovanni Vincenzo Casali, ou Casale (1539-1593) Descripção da boqua deste Rio 1590, in A Barra do Tejo O Eixo São Julião Torre do Bugio de Joaquim Boiça.

Na legenda a Torre de Belem aparece referenciada com a letra O.


[1] Ver Cristina Andreia Duarte de Coimbra Neves Próspero dos Santos Fortificações da foz do Tejo, Dissertação de Mestrado apresentada à Faculdade de Arquitectura e Artes da Universidade Lusíada de Lisboa. Lisboa 2014.)

[2] Cf. Marco Oliveira Borges - A torre defensiva que D. João II mandou construir em Cascais: novos elementos para o seu estudo. In História, Revista da FLUP. Porto, IV Serie, vol. 5 - 2015, (pág.93 a 117).

[3] Garcia de Resende (1470-1536) Chronica dos valerosos, e insignes feitos Del Rey Dom Joam II de Gloriosa Memória, Em que se refere sua Vida, suas Virtudes, seu Magnanimo Esforço, Excellentes Costumes, e seu Christianissimo Zelo. (1545) Per Garcia de Resende, Com outras Obras que adiante se seguem, e vay acrescentada a sua Miscellania, à Feliz Memória do Mesmo Rey Dom Joam Segvndo, que está em Gloria. Coimbra. Na Real Officina da Universidade. Anno de MDCCLXXXXVIII. (pág.256).

[4] Damião de Góis Chronica do Felicissimo Rei Dom Emanvel, composta per Damiam de Goes, dividida em Qvatro Partes, Em Lisboa em casa de Françsco correa, impressor do serenissimo Cardeal Infante, aos xvij dias do mês de Iulho de 1566. Segunda parte da Chronica. Capitu. XIX. Do nascimento do Infante dom Fernando & das qualidades de sua real pessoa. Fol.33 vs.

[5] O Simão morador em Bruges a que alude Damião de Góis é Simon Bening (1483 – 1561), de facto considerado o melhor iluminista da época. O manuscrito que Simon Bening executa em colaboração com António de Holanda, da Árvore com a genealogia dos Reis de Portugal, nunca foi acabado e muitas das armas e brasões não se encontram realizadas. Nas margens algumas cenas de batalhas, torneios, peregrinações e cidades associadas aos diversos reis e rainhas. Encontra-se na British Library, em Londres.

[6] Damião de Góis (1502-1574) Descrição da Cidade de Lisboa (Urbis Olisiponis Descriptio) 1554pelo Cavaleiro Português Damião de Góis, tradução do texto latino, introdução e notas de José Felicidade Alves, Casa Comum Fundação Mário Soares. (pág.39).

[7] Damião de Góis Chronica do Felicissimo Rei Dom Emanvel, composta per Damiam de Goes, dividida em Qvatro Partes, Em Lisboa em casa de Françsco correa, impressor do serenissimo Cardeal Infante, aos xvij dias do mês de Iulho de 1566. Qvarta e vltima parte 1567 Cap. LXXXV Das Egrejas, mosteiros, Hospitaes castelos, fortalezas, & outras obras que el Rei dom Emanuel fez de nouo, & mandou reparar, & dos lugares que ganhou ahos mouros em Africa, & em Asia. Fol.109 vs.

[8] Sobre Da fábrica que Falece à cidade de Lisboa ver Maria Luiza Zanatta de Souza Um novo olhar sobre Da Fábrica que Falece à Cidade de Lisboa, Francisco de Holanda 1571. Universidade de São Paulo Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, São Paulo 2011.

[9] Francisco de Holanda. Da Fortaleza de Belem e Sam Gião e baluartes in Da Fabrica que Fallece à Cidade de LisboaDa Sciencia do Desenho 1571 Capitolo IIII (fol. 12, fol. 12 v. e fol. 13) in Renascença Portugueza. Estudo sobre as relações artísticas e literárias de Portugal nos séculos XV e XVI. Edição Crítica (segundo autographo inédito de 1571 por Joaquim de Vasconcellos Porto Imprensa Portugueza. Porto MDCCCLXXIX. Archeologia Artística Volume II – Fascículo VI. Publicada por Joaquim de Vasconcellos Imprensa Portugueza Porto MDCCCLXXIX. (pág.8 e 9).

[10] Idem.

 

No século XVII

Já no século XVII Frei Nicolau de Oliveira (1566-1634), publica em 1620, o Livro das Grandezas de Lisboa, onde destaca o papel da Torre de Belém inserida no conjunto de fortificações: a Torre Velha na outra margem, o forte de São Julião iniciado em 1553 na foz do Tejo e o Bugio (Forte de São Lourenço da Cabeça Seca), que defendiam a entrada da barra do Tejo.

A primeira he a muy vistosa, & forte torre de Belem plantada no meo do Rio com muita, muy forte, & grossa artelharia , a qual com outra , que està defronte aparte do meodia , a que chamaõ a torre velha, situada em terra firme, guardaõ a entrada, & sahida da Cidade de modo que naõ entra, nem sae nao algüa sem licença & registro, como adiãte se dira, fazendo o mesmo a grande, & muy forte fortaleza, acõpanhada & cercada de fortissimos baluartes, com muy grossas peças de artelharia, chamada Saõ Juliaõ, situada em terra firme no fim do Tejo, onde perdendo elle o nome, começa o mar Occeano, tres legoas abaixo da cidade, ou da porta do mar, onde se embarcaõ. [1]

Este conjunto de fortificações de defesa da barra é ilustrado por um mapa de Filippo Terzi (1520-1597).

bel9fig. 8 - Felippe Tersio Descrição e plantas ad costa 1617 Torre do Tombo ANTT, Casa Cadaval, nº 29, fls. 78-79: «A seguinte traça hé a Descripção do Rio de Lisboa feitto por Felippe tersio em tempo dos sors Gouernadores»

Legenda:

A – Lisboa C - Mosteiro dos Jerónimos D – Torre de Belém E – São Julião I L – São Lourenço da Cabeça Seca e Bugio Q – Torre Velha

Manoel Severim de Faria (1584-1655) publica em 1624 Discurso Varios Politicos, onde defendendo as vantagens de Lisboa para se tornar a capital do reino ibérico, escreve:

“ Não he menor a fortaleza desta cidade, & a segurança com que nella pode estar dos assaltos dos inimigos, porq por mar ficã tres ou quatro legoas metida pelo rio dentro, o qual esta guardado com sete castellos fortíssimos (cousa q pode ser se não achará em outra cidade do müdo) que são o de Cascaes, S. Antonio Cabeça Seca, São Gião, Belem, a Torre velha, & o Castello da cidade postos todos em lugares tão oportunos, q impossível he per mar ser acometida, & muito menos entrada;… [2]

E do mesmo modo em 1626 o autor anónimo da Relaçam, em que se trata, e faz hüa breve descrição dos arredores mais chegados à Cidade de Lisboa[3] refere a Torre de Belém:

Não muito longe Belem, / onde hua torre soberba / com tiros, & baluartes, / faz mostra espãtosa, & horrëda.

Metida dentro no Mar / de quadrada bombardeiras / num fortíssimo cubello / com varias fortes de peças.

E descreve o conjunto das fortificações da defesa da barra como São Julião da Barra:

Na barra logo entrando,  / tem muy grande fortaleza, / de São Gião, cujo sitio / he sò bastante defensa.

De torres, & baluartes / muy forte sobre maneira / com bombardas, bazaliscos, / canhões, colocrinas, esferas…

E o Bugio:

Defronte dentro no mar / lhe fica cabeça seca / hum baluarte muy forte / sobre alicerces de arca,

Rodeado de estacada / vigas de grossa madeira, / por onde o mar se entulhou / de emmensidade de pedras.[4]

Finalmente em 1630 Tirso de Molina, pseudónimo de Frei Gabriel Téllez (1571?-1648) escreve a comédia El Burlador de Sevilla y Convidado de Piedra, uma peça conhecida sobretudo pela criação da personagem – que se torna famosa e universal – de D. Juan Tenorio. Nessa peça, na Cena XI, há um diálogo entre o Rei de Castela e um fidalgo Dom Gonzalo de Ulloa, em que este, a uma pergunta do soberano: - Es buena tierra Lisboa? O fidalgo faz uma descrição de Lisboa e tendo em conta a sua importância confirma que é La mayor ciudad de España e que Es Lisboa una octava maravilla.

Nessa decrição de Lisboa Dom Gonzalo de Ulloa salienta o sistema defensivo da barra do Tejo e refere em Belém o mosteiro dos Jerónimos, esquecendo a Torre de São Vicente.

A la parte del poniente,
guardan del puerto dos fuerzas,
de Cascaes y Sangián,
las más fuertes de la tierra.
Está de esta gran ciudad,
poco más de media legua,
Belén, convento del santo
conocido por la piedra
y por el león de guarda,
donde los reyes y reinas,
católicos y cristianos,
tienen sus casas perpetuas. [5]


[1] Frei Nicolau de Oliveira (1566-1634), Tratado Quarto do Sitio de Lisboa, pág.73 do Livro das Grandezas de Lisboa Composto pelo padre Frey Nicolao d’Oliveira Religioso da Ordë da Sãctissima Trindade & natural da mesma Cidade. Dirigido a D. Pedro d’Alcaçova Alcayde mor das tres Villas, Campo mayor, Ougella, & Idanha a nova, & Comendador das Idanhas. Com todas as Licenças necessarias. Impresso em Lisboa por Iorge Rodriguez. Anno 1620.

[2] Manoel Severim de Faria (1584-1655) Discurso primeiro da assistencia del Rey em Lisboa (pág.15v. e pág.16) in Discurso Varios Politicos Por Manoel Severim de Faria, Chantre, & Cónego na Sé de Évora. Com as licenças necessárias. Em Evora. Impressos por Manoel Carvalho Impressor de Universidade. Anno 1624.

[3] Relaçam em que se trata & faz hüa breve descriçaõ dos arredores mais chegados à Cidade de Lisboa, & seus arrabaldes, das partes notaveis, Igrejas, Hermidas, & Conventos que tem, começando logo da barra, vindo corredo por toda a praya até enxobregas, & dahi pella parte de cima até São Bento o novo Publicada nos Anais das Bibliotecas e Museus Municipais n.º11, Jan. a Mar. Lisboa 1934.

[4] Relaçam em que se trata & faz hüa breve descriçaõ dos arredores mais chegados à Cidade de Lisboa, & seus arrabaldes, Anais das Bibliotecas e Museus Municipais n.º11, Jan. a Mar. Lisboa 1934. (pág.20).

[5] Tirso de Molina El Burlador de Sevilla y Convidado de Piedra Luis Vázquez Edición crítica, introducción y notas Ed. Razon Social Estudios. Redccion y Adminstracion Belisana 2 Madrid 1958. (págs.150, 151 e 152).

 

No século XVIII

No início do século XVIII embora considerada no seu aspecto militar, a Torre começa timidamente a ser considerada de uma forma autónoma pela beleza da sua arquitectura. Nicolas de Fer desenha em 1703 uma gravura em que a imagem da Torre de Belém, acompanhada pela do Palácio Real, encimam uma planta esquemática das fortificações de Lisboa.

bel10fig. 9 - N icolas de Fer (1646-1720) e A. Coquart (1668-1707) Lisbonne; Palais Royal de Lisbonne; Le Chateau de Belem près de Lisbonne dans la riviere du Tage 1703 gravura em metal 24,8 x 33,8 cm. Biblioteca Nacional Digital.

bel10afig. 10 - Pormenor da figura anterior.

Nicolas de Fer em 1715 refaz a planta de 1703, desenhando a barra do Tejo, introduzindo na parte superior uma imagem do palácio Real e uma imagem da Torre de Belém Le Chateau de Belem Près de Lisbonne dans la rivière du Tage, reforçando a imagem da Torre como um monumento identificador da cidade de Lisboa.

bel10bfig. 11 - Nicholas De Fer (1646-1720) Geographe de sa Majesté Catholique. Embouchure de la Riviere Du Tage, 1715 Versão colorida da gravura em metal 7,4 x 40,7 cm. A Paris, Chez L'Auteur, dans l’Isle du Palais sur le Quay de l’Orloge a la Sphere Royale, 1715. in Mappas do Reino de Portugal e suas conquistas collegidos por Diogo Barbosa Machado Biblioteca Nacional Brasil.

Mas, numa publicação de 1746 com o título de A Vida do Apostolico padre Antonio Vieira Da Companhia de Jesus chamado por antonomásia O grande, um dos cabeçalhos de capítulo apresenta uma imagem da barra do Tejo inserida no sistema defensivo da barra: a Torre de Belém, o forte de S. Julião da Barra e o farol do Bugio. [1]

Na legenda Oportet me et romam videre Act.19.21. uma expressa referência bíblica ao Acto dos Apóstolos 19.21: Depois destes acontecimentos, Paulo resolveu ir a Jerusalém, passando pela Macedónia e Acaia. «Depois de eu lá ter estado - disse ele - tenho de ver Roma também.»

bel11fig. 12 - Oportet me et romam videre. Cabeçalho do Livro IV de A Vida do Apostolico padre Antonio Vieira Da Companhia de Jesus chamado por antonomásia O grande. 1746.

Ainda em 1746, no reinado de D. João V (1706-1750), William Burgis desenha um Mapa da Embocadura do famoso Rio Tejo ou o Porto da Cidade de Lisboa (A Map of the Mouth of the famouse River Tagus or the harbour of the City of Lisbon).

bel12fig. 13 - William Burgis (activo entre 1722 e 1736) A MAP Of the Mouth of the famous River TAGUS Or the Harbour of the City of LISBON 1746. Existe uma cópia no Palácio Nacional de Queluz.

A gravura compõe-se de duas partes. Na parte inferior um Mapa da foz do rio Tejo e do porto de Lisboa com a respectiva legenda.

bel12cfig. 14 – Pormenor da parte inferior da imagem anterior.

Numa cartela uma dedicatória To y Most Noble & Right Honourable James O Hara Baron of Tyrawley Envoy [2] To y Honourable Charles Compton Esq. Consul General [3]. And to y most Worthy y Brittish Merchants of the City of Lisbon. This Plate is inscrib’d by their most Obedient& humble Serv.t W. Burgis.

E enrolada num compasso uma fita com A Seale of Leagues.

Na parte superior uma vista da embocadura do Tejo com uma cartela onde se lê: A view of the Castle of Belem and the City of Lisbon as its appears from thence.

bel12afig. 15 - William Burgis (activo entre 1722 e 1736) A view of the Castle of Belem and the City of Lisbon as its appears from thence 1746. Pormenor da parte superior da fig.11.

Identificam-se para além da Torre de Belém, a Capela de S. Jerónimo (1514), o palácio de Belém (antigo palácio do Conde de Aveiras) e, ao fundo a cidade de Lisboa com o Torreão do Palácio Real e no alto da colina o Castelo de S. Jorge.

Nos primeiros planos uma fragata com pavilhão português disparando uma salva de artilharia e um navio mercante com pavilhão britânico, mostrando as boas relações comerciais entre Portugal e o Reino Unido desde o Tratado de Meetween. Junto aos navios duas fragatas do Tejo. No canto inferior direito surge uma muleta do Tejo. (Sobre esta embarcação ver mais adiante).

bel12dfig. 16 - A gravura de William Burgis numa versão colorida.

Depois do terremoto de 1755, é publicada em Londres uma gravura de J. Couse (?-?), cujo sucesso se deve a mostrar Lisboa antes do grande abalo sísmico. No lado esquerdo da gravura a Torre de Belém.

bel13bfig. 17 - J. Couse - The City of Lisbon as before the dreadful Earthquake of November 1. st 1755. La Ville de Lisbon dans son Etat avant le terrible Tremblement de Novembre 1 1755. água-forte, aguarelada ; 22,5x39,3 cm. printed for Robert Wilkinson n.º 58 in Cornhil, 25 Bowles & Carver, 69, S.t Pauls Church Yard London. Biblioteca Nacional.

bel13afig. 18 - Pormenor da gravura anterior com a Torre de Belém.

Em 1763 Bernardo de Caula (?antes de 1763-1793) [4] desenha uma Vista e perspectiva da Barra Costa e Cidade de Lisboa Capitale do Reino de Portugal, desde a Torre do Bogio (com o n.º 1) a ocidente, até ao Palacio do Patriacha (com o nº 102) do lado oriental.

bel15afig. 19 - Bernardo de Caula P.ro tenente dartilharia do algarve. - 1763. - 1 desenho : pena e aguadas de tinta sépia e cinza em duas f. coladas ; 22,5x140,5 cm. BND

bel15duplofig. 20 – Pormenor da Vista mostrando as duas cartelas laterais.

Na cartela esquerda sob o escudo Real:

Lisboa/Vista e perspectiva da Barra Costa e Cidade de Lisboa Capitale do Reino de Portugal, Situada na borda do Rio Tejo em 38 graos 42 minutos e 50 Segundos de latitude e em 8 graos 26 minutos e 15 Segundos de longitude. Ainda que por causa do memoravel terremoto do 1º Novembro 1755 esteja muito desfigurada…

Continuando na cartela direita:

…da nobreza que teve e acabada de reedificar não cederá à melhor da Europa.

Ainda na cartela da direita sob um Brasão:

offerecida ao meritissimo Sñr Dom Carlos, alberto, guilhermo de Colson, Conseilheiro da Corte de Sua Alteze Serenissima, o Sñr Conde Reynante de Schaumbourg Lippe * marechal general dos exercitos de Sua Majestade Fidelissima por seu m.to venerador Bernardo de Caula P.ro tenente dartilharia do algarve.

* Frederico Guilherme Ernesto de Schaumburg-Lippe (1724-1777) o Conde de Lippe, encarregado pelo Marquês de Pombal de reorganizar e comandar as tropas portuguesas.

bel15bfig. 21 - Pormenor da parte esquerda da Vista de Bernardo de Paula.

Legenda: 1. Torre do Bogio 2. Torre de sam Juliam da Barra 3 Carcavellos 4. Forte de D.to Amaro 5. Forte de S. João da Mayo 6. Villa e Condado de Oeyras 7. Paço d’Arcos 8. Forte de Caxias 9. Caxias e os Catuxos 10. N.ª S.ª de Boa Viagem 11. Ponte de S.ta Catharina 12. Convento de Sta Catharina 13. Forte arruinado de S. Jozé.

A Torre de Belém surge desenhada com proporções distorcidas.

bel15cfig. 22 - Pormenor da Vista de Bernardo de Paula com a Torre de Belém (25)

Legenda 25. Torre de Belem 26.ermida de S. Jeronimo 31. Convento de Belem 34. Paço real de N.ª S.ª da Ajuda.

De 1765 surge uma Planta do Porto de Lisboa de Diogo Correa da Motta tendo na parte inferior uma Breve descripção do porto de Lisboa. Oporto de Lx.ª é hum dos mayores e mais seguro de toda a Europa formado vnicam.te pella natureza em hua ansiada do Tejo, Rio notavel em cuja margem semptrional esta fundada esta cidade. [5]

bel17bfig. 23 - Diogo Correa da Motta Planta do porto de Lisboa / No mes de Fevr.º do anno de 1765. 52,2 × 73 cm. in In Carmen Manso Porto Cartografía Histórica Portugesa. Catálogo de manuscritos (siglos XVII-XVIII) Real Academia de la Historia Departamento de Cartografia y Bellas Artes Madrid 1999.

Na descrição da parte inferior lê-se que o g.de passo q. tem mais de meya legoa de largura entre a torre do bogio q. lhe fica a oriente fundada no fim do g.de cachopo e pella torre de S. Jullião, a ocidente.

E mais indica que Deste forte de S. Jullião até a torre de bellem há duas légoas (…) A torre q. deste lugar toma o nome, está situada no passo mais estreito do canal, e é guarnecida de m.tas peças de Artilharia e de hua bataria bayxa junto da qual passam os Naviosquase sempre encostados da parte de Bellem.

bel17dfig. 24 – Pormenor da carta de Diogo Correa da Motta.

Note-se o modo sintético como está desenhada a Torre de Belém.

Finalmente para assinalar, que nos finais do século XVIII, a importância que assume ainda a defesa da barra do Tejo, as obras da fortificação da Torre Velha na margem sul, pelo coronel Francisco de Alincourt.

bel14fig. 25 - Francisco de Alincourt (1733- 1816) Vista das obras novas da Torre Velha, para deffeza da entrada do rio / que por ordem doIll.mo e Ex.mo Sñr. duque de Lafoens, marechal general, junto à Real Pessoa, projeitto ò coronelFran.co d'Alincourt è foe aprezentado no Quartel General, com seu tenente general, inspector Sñr. Guilherme Luis Antonio de Vallere, para à enteira approbação. 1795. Aguarela 28,2 x 98 cm. Gabinete de Estudos Arqueológicos de Engenharia Militar Lisboa, Portugal.


[1] Padre André de Barros (1675-1754)Vida do Apostolico padre Antonio Vieira Da Companhia de Jesus chamado por antonomásia O grande. Acclamado no Mundo por Príncipe dos Oradores Evangélicos. Pregador Incomparável Dos Augustíssimos Reys de Portugal,Varão esclarecido em Virtudes , e Letras Divinas , e Humanas; Restaurador das Missoes do Maranhão , e Pará. Dedicada ao Sereníssimo Senhor Infante D. António. P. André de Barros da Companhia de Jesus. Na nova Officina Sylviana Lissboa MDCCXLVI.

[2] James O'Hara, 2º Barão Tyrawley e 1º Barão Kilmaine (1682-1774) oficial irlandês do exército britânico. Depois de servir na guerra da Sucessão em Espanha foi nomeado Embaixador britânico em Portugal tendo estabelecido fortes laços de amizade com D. João V. Foi ainda Embaixador em São Petersburgo e Governador de Gibraltar.Comandou por um curto período as tropas britânicas em Portugal na guerra dos 7 anos.

 

[3] Honourable Charles Compton (1692-1755) Cônsul em Lisboa de 1727 a 1742 e enviado extraordinário de 1742 a 1745. Membro do Parlamento.

O seu sobrinho James, Lord Compton, (1723-1739) escreve em 1737 para o tio cônsul em Lisboa os seguintes versos em latim:

Nonaq. Clausit humum boreali frigore bruma, / Quando dabas vela, et spumas salis aere ruebas, / Ut peteres longo Lisbonae littora cursu.

Traduzidos para inglês pelo Rev. Charles Sumner Harington:

 In icy bands, sithence thou didst thy sails / Unfurl, and plough with foaming keel the main, / For far-off Lisbon bound.

Lord Compton's verses to his Uncle, Consul at Lisbon (trad.Rev. Charles Sumner Harington, M.A.) in Jacobus Compton Viro Honoratissimo Carolo Compton patruo suo clarissimo. S.P.D. (Salutem plurimam (licit.) MISCELLANEA GENEALOGICA ET HERALDICA. Edited by W. Bruce Bannerman, F.S.A. Volume II Fourth Series Mitchell Hughes and Clarke, 140 Wardour Street, W. London 1908. ( pág.241)

[4] Bernardo de Caula, de origem francesa, ingressou no exército português, como primeiro-tenente da Companhia de Mineiros e Sapadores do Regimento de Artilharia de Lagos, em 7 de Novembro de 1763. Em 17 de Outubro de 1771, foi promovido a capitão e em 26 de Março 1789, passou à situação de reforma por motivo de doença (cf. Arq. Hist. Militar, Processo de Bernardo de Caula, Arq. Hist. Militar Cx. 363); foi pai do general Carlos Frederico Bernardo de Caula (1766-1835), proeminente cartógrafo. BNP.

[5] Frederico Gavazzo Perry Vidal (1889-1953) num artigo intitulado Vista panorâmica de Lisboa datada de 1763 referencia exaustivamente os edifícios representados numa que julgo ser uma versão diferente desta Vista, já que as legendas não são coincidentes. O artigo em três partes foi publicado nos números 2, 3 e 4 de Olisipo boletim trimestral Edição e propriedade do Grupo Amigos de Lisboa. Sede provisória: Largo do Chiado 12, 2º. Números: n.º 2 Abril, n.º 3 de Agosto e n.º 4 Outubro de 1938.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Uma pintura do Porto

 
Nota- No excelente e incontornável blogue Gandalf's Gallery foi publicada em 31 de Julho uma imagem do Porto, uma pintura de Gustave Bourgain com o título de Dourando a Figura de Proa.
bour1fig. 1 - Gustave Bourgain (1856-1921) – Dourando a Figura de Proa (Gilding the Figurehead), Porto 1886 óleo sobre tela 75 x 105 cm. colecção particular.
Gustave Bourgain (1856-1921) pintor e ilustrador francês ligado à revista L'Illustration, foi enviado a Alexandria no Egipto com a expedição inglesa. Expõe pela primeira vez no Salon de 1884 com uma cena da guerra anglo-egipcia.
Torna-se pintor oficial da Marinha. Dedicando-se à pintura histórica, pinta um conjunto de quadros sobre a campanha do Egipto por Napoleão entre os quais dois quadros de Bonaparte no Cairo. Participa na Exposição Universal de 1900 com uma celebrada aguarela leVengeur retratando o combate do navio francês com o navio inglês Brunswick em 1794.
O quadro divide-se em duas partes.
bour2fig. 2 – O quadro com a parte esquerda escurecida.
bour3fig. 3 – Pormenor mostrando o cais de Gaia. Do lado esquerdo Bourgain 86
O lado esquerdo numa zona mais sombria, mostra a proa de um navio atracado ao cais de Gaia, onde dois marinheiros se atarefam na manutenção e lavagem do navio.
bour4fig. 4 – Pormanor dos marinheiros na manutenção do navio.
No centro do quadro uma outra personagem, um artista, (repare-se na diferença do vestuário), paleta na mão, está dourando a figura de proa (a carranca), que explica o título da pintura. A carranca representa um guerreiro romano encavalitado no talhamar (a peça da frente da proa) sob o gurupés (o mastro horizontal da proa).
bour6fig. 5 – Marcação do centro do quadro.
bour5fig. 6 - Pormenor mostrando o artista dourando a carranca.
Na parte direita do quadro, mais luminosa, o Douro onde navegam diversos barcos salientando-se um escaler e um barco rabelo
bour7fig. 7 – Pormenor do escaler que se dirige para a Ribeira do Porto.
bour8fig. 8 – Pormenor do barco rabelo.
Dirigindo-se para jusante, um navio da rota das Índias (indiaman), sem pavilhão e por isso de nacionalidade desconhecida.
bour10fig. 9 – Pormenor do navio.
O navio é semelhante aos representados por Manoel Marques d’Aguilar na gravura da entrada da barra do Douro de 1790.
bour9fig. 10 - Perspectiva da entrada da Barra da Cidade do Porto e Fortaleza que a defende. Dedicada ao Ulmo. e Exmo. Senhor José de Seabra e Silva, Secretário d'Estado de Sua Magestade Fidelíssima da Repartição dos Negócios do Reyno. 1790, gravura a água-forte 44 x 28 cm.
bour9afig. 11 – Manoel Marques d’Aguilar (1767-1816) Pormenor da Perspectiva da Entrada da Barra da Cidade do Porto e Fortaleza que a defende 1790.
Ao fundo a cidade do Porto onde junto da muralha se encontram ancoradas diversas embarcações.
Como o quadro está datado de 1886, e Bourdain pinta sobretudo temas históricos, a cena situa-se nos finais do século XVIII e inícios do século XIX.
bour11fig. 12 – Pormenor da cidade do Porto do convento de S. Bento da Vitória até ao cubelo da muralha fernandina.
Por isso a cidade do Porto, com luz de poente e onde se distingue o morro da Vitória, o morro da Sé, a igreja dos Grilos, o Paço Episcopal, a muralha e o casario e o cais da Ribeira, é provavelmente inspirada na gravura de George Vivian do álbum Scenery of Portugal & Spain, publicado em Londres em 1839. Note-se o pormenor do Palácio Episcopal e dos barcos rabelos.
bour12fig. 13 – Pormenor da Sé e do Paço Episcopal.
bour13fig. 14 – George Vivian(1798-1873) Oporto from Villa nova litografia de Louis Haghe (1806-1885) in Scenery of Portugal & Spain, 14 Pall Mall, East P. and D. Colnaghi and Com. London 1839.
Bourgain aproveita alguns detalhes dos navios para esconder a Torre dos Clérigos e a Ponte das Barcas. (Na data da pintura já a ponte Luís I estava em conclusão e na data que o quadro pretende evocar existia a Ponte das Barcas).
bour14fig. 15 – Dois pormenores que “escondem” à esquerda a Torre dos Clérigos e à direita a Ponte das Barcas.


























segunda-feira, 11 de julho de 2016

Mais sobre os santos portadores e a representação da cidade

 
[Nota inicial – Enquanto recolhia mais dados e organizava o próximo texto sobre o Castelo da rua de Santa Catarina no Porto, encontrei um conjunto de referências a um outro santo portador, neste caso São Berardo na cidade italiana de Teramo, que aproveito para tentar conhecer um pouco melhor. Por isso faço aqui uma interrupção do texto que tinha em mãos para acrescentar esta referência às mensagens O Génio da Arquitectura descobre os Progressos da sua Arte 2 II Parte - O Génio Portador neste blogue.]

I Parte – Três quadros de S. Berardo e a representação de Teramo

ponto 1 –  O quadro de Pietro Gaia de 1661

Na igreja de São Benedito (Capuchinhos) na cidade de Teramo no norte dos Abruzos em Itália [1], na região sísmica e não longe de Ascoli Piceno, está exposta uma tela datada de 1661 de Pietro Gaia (?- ?) representando a Crucificação de Cristo acompanhado de São Francisco e de São Berardo [2] .

Este, bispo de Teramo como assinalam os atributos episcopais a seus pés, e patrono da cidade, transporta uma maquete da cidade que dedica ao Salvador pedindo a sua protecção para que a cidade viva em paz, sem as calamidades que frequentemente assolavam a cidade, entre as quais as epidemias, os frequentes terremotos e as guerras. 

t1fig. 1 - Pietro Gaia Crucificação com S. Berardo patrono de Teramo e S. Francisco 1661 óleo s/ tela igreja de San Benedetto, Teramo Italia.

A capa de uma publicação de 2001 intitulada Teramo. Imago Urbis iconografia storica della città [3] apresenta um detalhe desta pintura, precisamente San Berardo dedicando a cidade de Teramo a Cristo.

t2a cópiafig. 2 - Capa de Teramo. Imago Urbis – iconografia storica della città. Ricerche & Redazioni, Teramo 2011.

A cidade de Teramo, amuralhada, está representada do lado oriental vendo-se a Porta Carrese [1] o principal acesso para quem vinha de nascente. Com a abertura da Porta Reale (chamada pelos teramascos Porta Madonna) [4], a Porta Carrese foi demolida conservando-se a sua memória na toponímia (via di Porta Carrese).

No centro da representação da cidade emerge a torre (1453) símbolo de Teramo e a fachada encimada com ameias [2] da Catedral (1158-1176), À direita da maquete a igreja de Santo António [3].

Para uma melhor compreensão da representação da cidade e da própria cidade, numa planta que simula Teramo no século XVI, procurou-se assinalar a muralha e as suas portas, a localização dos edifícios religiosos (incluindo as portas e igrejas assinaladas na pintura) e civis, bem como os principais espaços públicos.

t10fig. 3 – Esboço de Teramo nos séculos XV e XVI.

0 – Porta Carrese  1 – Porta Melatina (porta de Santo António) 2 – Porta Vezzola (Porta Maggiore) 3 – Porta de S. Giorgio (porta Pretosa) 4 – Porta Romana 5 – Porta di Santo Spirito (Porta della Città detta della Quercia) 6 – Porta de S. Giovanni [7 – Porta Reale (Porta Madonna)] direcção santuário Madonna delle Grazzie

 

A – Duomo (Catedral)  B – convento de S. Agostino 1153   C – igreja de S. Matteo (São Mateusdemolida em 1940) D - convento dos Cappucinni (antigo San Benedetto 1362 onde se encontra a pintura) E – igreja e convento de S. Domenico (fundada em1327 primeira metade do século XIV) F – igreja do Santo Spirito (século XV)  G - igreja de S. Antonio di Padova  H – igreja da Annunziatta e Torre Bruciata I – Santo António Abade (Hospital psiquiátrico)   J - Loggia Comunale  antes de 1327 (Município) K – convento da Madonna delle Grazzie (fora da muralha)

I – primeira Cittadella (século XIV) II – segunda Cittadella (1410-1462)

a – Corso S. Giorgio  b – Corso Porta Reale (Corso Cerulli e Corso De Michellis) c- Via Vezzola  d – Via del Teatro Antico (via V. Irelli)  e – Via Porta Carrese  f – Corso Porta Romana g – Praça do Mercado (piazza Maggiore, piazza Victor Emanuele, piazza dei Martiri della Libertà)  h – (piazza Cavour, Piazza Orsini)  i – Piazza della Citadella  j - Piazza Melatina l – Largo Santo Agostino


[1] Para melhor compreensão abordaremos a história urbana de Teramo no ponto 4. Por curiosidade refira-se que Teramo é a cidade natal do político Marco Panella (1930-2016) fundador do Partido Radical, recentemente falecido.

[2] Berardo da Pagliara dito Berardo di Teramo (? – 1123) foi bispo de Teramo em 1115 pela morte do bispo Humberto.

[3] Teramo. Imago Urbis – iconografia storica della città. Com uma introdução de Fausto Eugeni. Ricerche & Redazioni, Teramo 2011.

[4] Construída em 1832 por ocasião da visita de Ferdinando II (Ferdinando Carlo Maria di Borbone 1810-1859) rei das Duas Sicílias entre 1830 e 1859. Reabilitada durante o fascismo sendo colocada a inscrição INTERAMNIA URBS.

 

ponto 2 – O políptico de Jacobello del Fiore de 1439

Na Catedral de Teramo, cuja construção se iniciou em 1158, existe a mais antiga representação da cidade num políptico de Jacobello del Fiore (c. 1370-1439) [1] dito o Polittico del Duomo de 1439. O quadro foi encomendado para a Igreja do mosteiro de Santo Agostinho, mas com o desaparecimento deste foi colocado na capela da Catedral dedicada a São Berardo, o patrono da cidade.

t3abfig. 4 –Jacobello del Fiore. Políptico da Catedral 1459. À direita o painel central.

Constituem o políptico 16 tábuas com fundo dourado, dispostas em duas filas, encimadas por pequenos frontões góticos em madeira dourada onde estão representados Evangelistas e Profetas.

Na parte superior da esquerda para a direita: Santa Reparata di Cesarea di Palestina, patrona de Atri; Evangelista e Apóstolo. Ao centro Cristo ladeado à esquerda pela Virgem e à direita por S. João Evangelista. Nos três painéis da direita: um Santo Mártir; um Santo com um livro e Santa Mónica.

Na parte inferior e da esquerda para a direita: Santo Arcebispo, S. Jerónimo e Santo Agostinho de Ippona. Ao centro a Coroação da Virgem. À direita S. Berardo Bispo e patrono de Teramo, S. Celestino V e São Nicolau Tolentino.

O painel central de maior dimensão (fig. 4 à direita) tem na parte superior a Coroação de Maria, com Cristo sentado no trono e na parte inferior uma representação da cidade de Teramo.

t4fig. 5 – Painel inferior do políptico da Catedral de Teramo.

Do lado esquerdo um grupo de fiéis com São Berardo e Santo Agostinho orando para que a cidade seja protegida e tenha a paz entre os seus habitantes. Na inscrição Ne moreris propter temetipsum Deus meus quare nomen tuum invocatum est super populum istum. Capitulo eodem.

É ainda possível identificar pela inscrição Magist´ Nicolaus o reponsável pela encomenda do políptico, bem como S. Nicolau de Tolentino, o arquidiácono Aprutinus e o próprio Jacobello del Fiore (Jacobell´ De Fiore pinxit.)

Ao centro a representação da cidade de Teramo entre os rios Vezzola e Trodino com a inscrição Teramum.

t5afig. 6 – A representação de Teramo no políptico da catedral.

A cidade muralhada é vista de nascente entre os dois rios o Tordino [1] e o Vezzola [2] que deram o nome à cidade de Interamnia de onde derivou o nome de Teramo.

Na bifurcação dos dois rios fora da muralha a igreja de N.ª Sr.ª da Graça [3]. Na muralha a Porta Carrese [4]. Ao centro a Catedral com a sua torre [5].

Ao fundo no interior da muralha a igreja de S. Agostinho [6].

Junto à Porta Carrese do lado interior da muralha a igreja de S. António [7].

Porta de S. Giorgio [8].

Num monte que se ergue a poente da cidade, uma capela [9] não identificada (S. Felice a Putignano ?).


[1] Jacobello del Fiore (c.1370-1439) filho de um pintor Francesco del Fiore. Foi o autor de uma vasta obra em Veneza e mais a sul do Polittico di Cellino no Museu Nacional d’Abruzzo e a Ancona di San Giacomo um políptico com S . Jerónimo e 18 episódios da sua vida, no Museu Capitolar de Atri. Carlo Crivelli foi seu discípulo.

 

Ponto 3 – O quadro de Giuseppe Bonolis de 1847

Na Sacristia da Catedral está exposto um outro quadro Il Miracolo di San Berardo [1], do pintor oitocentista Giuseppe Bonolis [2] em que está representada a cidade de Teramo.

A tela pretende evocar o dia 17 de Novembro de 1521, quando se verificou o Milagre de S. Berardo quando pela intervenção da Virgem se salvou a cidade do cerco das tropas do duque Andrea Matteo Acquaviva (1457-1529). Este aproveitando as dificuldades financeiras de Carlos V (1500-1558) obteve através do pagamento de 40 000 ducados, o condado de Teramo. Mas como a tal concessão se opuseram os habitantes de Teramo, o Duque através do seu filho Giovanfrancesco atacou a cidade sendo contudo obrigado a retirar-se e a desistir dessa pretensão.

Bonolis segue a descrição de Mutio de' Mutij [3] que refere:

E stando tutte le genti unite nel fiume di Vezzola a dritta del convento di Santa Maria delle Grazie, ed alquanto più su, videro sopra le mura della Città una donna risplendente vestita di bianco, ed un uomo a cavallo vestito di rosso, il quale parca, che scorresse in qua, od in là le muraglie. Questa visione diede tanto terrore all'esercito, che buttate le scale a terra si posero a fuggire;… [4]

Na parte superior do quadro a Virgem com o seu tradicional manto azul que contrasta com a veste amarelo ocre de S. Berardo.

Um anjo empunha uma espada de fogo e divide em duas partes o quadro. na parte inferior esquerda do quadro a fuga dos franceses , pela intervenção de Nossa Senhora da Graça respondendo ao apelo do protector da cidade S. Berardo.

t7fig. 7 - Giuseppe Bonolis (1800-1851) Il miracolo di San Berardo 1847 óleo s/ tela 300 x 210 cm. Sacristia da Catedral de Teramo.

Na parte inferior do quadro Bonolis segue a descrição do milagre por Mutio de' Mutij que refere:

E estando todos reunidos junto ao rio Vezzola à direita do convento de Santa Maria da Graça, quando de repente viram sobre a muralha da Cidade uma figura feminina resplandecente e vestida de branco, e um cavaleiro vestido de vermelho, o qual suplica que socorresse no exterior ou no interior das muralhas. Esta visão aterrorizou de tal forma o exército invasor que deitando ao chão as escadas, se puseram em fuga… [5]

t7afig. 8 – Pormenor do quadro com a cidade de Teramo.

Na parte inferior num halo dourado em torno da Virgem ilumina a cidade de Teramo.

Junto à figura de branco de N.ª Sr.ª da Graça, S. Berardo figurado como um cavaleiro vestido de vermelho, os dois patronos da cidade. Refira-se que o branco e o vermelho são as cores da cidade.

Sob a pálida luz da manhã de Inverno, a cidade de Teramo é representada vista do lado norte. As tropas estão reunidas junto ao rio Vezzola à direita do convento de Santa Maria da Graça o qual está parcialmente representado no lado esquerdo desta parte inferior da pintura. Na muralha de Teramo a Porta Melatina e a Porta Vezzola. Destaca-se à direita, no interior das muralhas, a torre da Catedral.

Ao fundo o Gran Sasso d’Italia, lembrando os versos de Fernando Pessoa:

Ao Longe os montes têm neve ao sol,
Mas é suave já o frio calmo
Que alisa e agudece
Os dardos do sol alto.
[6]


[1] O quadro também conhecido por S. Bernardo che salva Teramo dall'assedio del duca di Acquaviva relata este episódio da vida de S. Berardo, em que o Santo apela à Virgem para salvar a cidade do ataque das tropas do duque de Acquaviva. O apelo é ouvido e o cerco levantado.

[2] Giuseppe Bonolis (1800-1851) nascido em Teramo foi professor de Caligrafia no Regio Collegio daquela cidade. Em 1820 foi destituído do cargo por ter aderido à Carbonária e fixou-se em Nápoles, onde começou por dedicar-se à arquitectura e de seguida frequentou a Real Academia de Belas Artes.

[3] Mutio de’ Mutji (Muzio Mutii 1535-1602). Autor de Della storia di Teramo, escrita em 1596 em forma de diálogos entre Roberto Grandini e Giulio De Fabrici.

[4] Mutio de' Mutij Della storia di Teramo. Dialoghi sette con note ed aggiunte di G. Pannella, Tip. del Corriere Abruzzese Teramo 1893. (pág. 255 e 256).

[5] Tradução livre da citação de Mutio de' Mutij Della storia di Teramo. Dialoghi sette con note ed aggiunte di G. Pannella, Tip. del Corriere Abruzzese Teramo 1893. (pág. 255 e 256).

[6] Fernando Pessoa ficções do Interlúdio / Odes de Ricardo Reis poema de 16-6-1914 in Obra Poética Biblioteca luso-Brasileira Companhia Aguilar Editora Rio de Janeiro 1965 (pág.257)

 

II Parte – Um pouco mais para a compreensão do espaço urbano de Teramo.

1 – a situação geográfica de Teramo

t11afig. 1 – Enquadramento geográfico da cidade de Teramo

A cidade de Teramo situa-se entre a montanha e o mar, entre a ocidente o Gran Sasso d’Italia e a oriente o mar Adriatico de que dista cerca de 25 km.

Assim cabe-lhe por inteiro a citação da personagem Aligi da ópera La figlia di lorio de Gabriele D'Annunzio [1], com música de Alberto Franchetti (1860-1942) [2], quando no 2º Acto o tenor canta:

Pei monti coglierai le genzianelle
e per le spiagge le stelle marine
[3].

[ Pelos montes colherei as gencianas [4] / E nas praias as estrelas-do- mar. ]


[1] Gabriele D'Annunzio (1863-1938) nascido em Pescara nos Abruzos, num subtítulo situa esta sua obra Nella terra d’Abruzzi, or è molti anni.

[2] Estreada no Teatro alla Scala de Milão em 19 de Março de 1906.

[3]  Gabriele D'Annunzio La figlia di lorio Tragedia Pastorale in tre atti Atto. Musica di Alberto Franchetti. Edizioni G. Ricordi Milano 1906. (Secondo Atto pág.30). [4]

Gentiana planta perene com flores azuis (pneumonanthe) ou amarelas ( lutea) e com um pedúnculo curto. A gerenciana é citada na poesia de Rainer Maria Rilke (1875- 1926) nos belíssimos versos da nona  das Elegias de Duíno (1923):

…O viajante também não traz da ribanceira da montanha
para o vale uma mão cheia de terra, a todos indizível, mas sim
uma palavra adquirida , pura, a genciana azul e amarela.
Estamos aqui talvez para dizer: casa,
ponte, fonte, portão, bilha, árvore de fruta, janela, -
quando muito : coluna, torre… (
Rainer Maria Rilke  Elegias de Duíno. Sonetos a Orfeu, tradução de Vasco Graça Moura, Bertrand Editora 2007. pág. 67)

Também D. H. Lawrence (David Herbert Lawrence 1885-1930), no poema Bavarians Gentians refere a flor várias vezes. Escolhemos estes versos:

…Reach me a gentian, give me a torch!
let me guide myself with the blue, forked torch of this flower…

…Colhe-me uma genciana, dá-me uma tocha!
deixa que me guie com a forcada tocha azul desta flor… ( The Complete Poems of D. H. Lawrence
Wordsworth Poetry Library Wordsworth Editions Limited Hertfordshire 1994 pág.584).

 

continua2