quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

O acutilante nó da incerteza

 


Edvard Munch (1863-1944). Melankoli, 1892. Óleo s/tela 64 x 96 cm. National Gallery, Oslo, Noruega.

 

“Uma dor sem crise, vazia, obscura e desolada;

Um sofrimento afogado, sonolento, desapaixonado…”

Samuel Taylor Coleridge  [1]

 

 

Sou o incerto, o náufrago, um pária da natureza

Neste mesquinho mundo de conflito e incerteza

Cumprindo o curvo cajado de cobiça e de vileza

Sou o escondido desterrado na arte e na beleza

 

No passado por quelhos de caos em confusão,

não cuidei das passadas que dei despedaçado.

Cumprindo o curso esquivo do tempo d’ambição

por ásperos penedos de gélido pavor arrepiado.

 

Sem tino fiquei cru sem voz no degrau do tempo

tecendo obscuros retalhos d’um salteador incerto

nómada maldito do jamais chego ao que pretendo.

 

Mendigo perdido circulando neste apertado recinto

tão gordo e redondo como um ó ou como um zero

mistério a descobrir em tudo o que a frio ainda sinto.

 

[1] « A grief without a pang, void, dark, and drear, / A stifled, drowsy, unimpassioned grief »

Samuel Taylor Coleridge (1772-1834) Dejection: an ode.de Sibylline leaves. In The Poetical works of S. T. Coleridge. Vol. I. William Pickering London 1835 (pág. 236).

 



 

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